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Transmedia Journalism within Mobile Devices

Abstract

Introduction Similarly to the Matrix comparison, Mark Deuze (2012) mentioned The Truman Show when explaining how we are increasingly living ‘in’ the media, like a fish in water, rather than ‘with’ the media, as we did before. We consider that similarity is a suitable parameter to describe the process of technological appropriation that McLuhan labels as ‘ecological’. In this respect, we refer to Vilém Flusser’s Homo Ludens and his thoughts on how “for the first time, technologies are simulating the nervous system” (1988). Bauman’s liquidity (2005) flows into technology as well, which is specifically studied in connection with mobile devices and media (Aguado, Feijóo & Martínez, 2013; Serrano Tellería, 2015a, 2015b). Thus, a challenging ecosystem surrounds users, who already exhibit some alerting behaviors like the ‘fear of missing out’ (Turkle, 2011; Rosen, 2013), continuous partial attention (Stone, 2002-2014), lack of rationality in some attitudes and performances, limitations in the extension between knowledge and action, and strong circumstantial pattern behavior (Serrano Tellería, 2015a, 2015b). The ambiguity and volatility of most ‘terms and conditions’ of apps, developers, platforms and software environments should be further considered (Serrano Tellería & Oliveira, 2015). http://www.labcom-ifp.ubi.pt/livro/289
JORNALISMO
MÓVEL
LINGUAGEM, GÉNEROS E MODELOS DE NEGÓCIO
JOÃO CANAVILHAS
CATARINA RODRIGUES
(ORG.)
LABCOM.IFP
Comunicação, Filosofia e Humanidades
Unidade de Investigação
Universidade da Beira Interior
JORNALISMO
MÓVEL
JOÃO CANAVILHAS
CATARINA RODRIGUES
(ORG.)
LINGUAGEM, GÉNEROS E MODELOS DE NEGÓCIO
LABCOM.IFP
Comunicação, Filosofia e Humanidades
Unidade de Investigação
Universidade da Beira Interior
Título
Jornalismo Móvel:
Linguagem, géneros e modelos de negócio
Organização
João Canavilhas e Catarina Rodrigues
Editora LabCom.IFP
www.labcom-ifp.ubi.pt
Colecção
LabCom
Série
Jornalismo
Direcção
José Ricardo Carvalheiro
Design Gráco
Cristina Lopes
Danilo Silva (capa)
ISBN
978-989-654-367-9 (papel)
978-989-654-369-3 (pdf)
978-989-654-368-6 (epub)
Depósito Legal
422459/17/17
Tiragem
Print-on-demand
Universidade da Beira Interior
Rua Marquês D’Ávila e Bolama.
6201-001 Covilhã. Portugal
www.ubi.pt
Covilhã, 2017
© 2017, João Canavilhas e Catarina Rodrigues.
© 2017, Universidade da Beira Interior.
O conteúdo desta obra está protegido por Lei. Qualquer forma de
reprodução, distribuição, comunicação pública ou transformação da
totalidade ou de parte desta obra carece de expressa autorização do
editor e dos seus autores. Os ar tigos, bem como a autorização de
publicação das imagens, são da exclusiva responsabilidade dos autores.
Ficha Técnica
Índice
Introdução 11
PARTE I - DISPOSITIVOS MÓVEIS, MODELOS DE NEGÓCIO
E JORNALISMO DE PROXIMIDADE 17
Aplicativos autóctones em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotinas produtivas na convergência com meios digitais 19
Vivian Belochio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios em jornalismo:
O caso do NYTimes 41
Isadora Ortiz de Camargo
Dispositivos móveis na construção da notícia: a experiência do portal
regional NE10 61
Ivo Henrique Dantas e Heitor Costa Lima da Rocha
Jornalistas da imprensa regional em transição para o mobile 83
Pedro Jerónimo
Los cibermedios hiperlocales en el móvil. Análisis comparativo de seis
APPs españolas: grandes redes de medios frente a espacios de
comunicación ciudadana 107
María Cruz Negreira Rey y Xosé López García
PARTE II - DISPOSITIVOS MÓVEIS E APPS 133
Jornalismo no feed de notícias: a relação entre jornalismo e redes sociais
através do Instant Articles do Facebook 135
Mariana Guedes Conde
Medialabs Españoles. Un análisis de sus formatos narrativos 153
Elpidio del Campo Cañizares y Teresa Zaragoza Fuster
O fato jornalístico narrado por meio de noticações: um olhar sobre
a aplicação dos critérios de noticiabilidade na produção das pushed news 175
Diógenes D’Arce Cardoso de Luna e Alexandra Fante
Mobilidade e jornalismo digital contemporâneo: Fases do jornalismo móvel
ubíquo e suas características 197
Eduardo Campos Pellanda, André Fagundes Pase, Ana Cecília Bisso Nunes,
Melissa Streck, Marcelo Crispim Fontoura, Daniele Ramos de Souza,
Isabella Ferreira e Mércio Pereira
O WhatsApp aliado da notícia: a interatividade no jornal brasileiro Extra 219
Patrícia Pivoto Specht
WhatsApp e a publicização de notícias na sociedade midiatizada 243
Carlos A. Zanotti e Cyntia Andretta
PARTE III - NOVAS LINGUAGENS E NOVOS FORMATOS JORNALÍSTICOS 263
A realidade virtual como recurso imersivo no jornalismo digital móvel 265
Alciane Baccin, Maíra Evangelista de Sousa e Marlise Brenol
Sucesso novo em formato “antigo”: periódicos matutinos para tablet
e o caso do La Presse+ 289
Marina Lisboa Empinotti e Rita de Cássia Romeiro Paulino
Análise às apps do jornal Público: a construção narrativa dos seus conteúdos 319
Nuno Ricardo Fernandes
Periodismo inmersivo en dispositivos móviles: primer acercamiento a los
proyectos Fukushima, vidas contaminadas (El País) y The Displaced
(The New York Times) desde la perspectiva de la usabilidad 345
Lucía Jiménez Iglesias, Adriana Paíno Ambrosio,
Mª Isabel Rodríguez Fidalgo e Inês de Oliveira Castilho e Albuquerque Amaral
Entre títulos e algoritmos: novas práticas editoriais de notícias móveis
em jornais brasileiros 369
Telma Sueli Pinto Johnson
Na palma da mão: reexões sobre os newsgames em plataformas móveis
com base na reportagem multimídia Di Soli a Soli 389
Carlos Marciano, Kérley Winques, Mauren Del Claro Rigo
e Rita de Cássia Romeiro Paulino
Jornalismo ubíquo e dispositivos móveis: uma análise do produto
do jornal The Guardian 411
Stefanie Carlan da Silveira
PARTE IV - O AUDIOVISUAL NOS DISPOSITIVOS MÓVEIS 435
Websérie documental: o (web) jornalismo e as ferramentas digitais na
construção da narrativa audiovisual interativa na internet 437
José Jullian Gomes de Souza e Paulo Eduardo Silva Lins Cajazeira
A receção de conteúdos informativos televisivos através de dispositivos
móveis: as apps da RTP, SIC e TVI 459
Carlos Canelas
Os dispositivos móveis no jornalismo audiovisual: uma análise da apropriação
dos smartphones pelas emissoras de televisão do Piauí (Brasil) 481
Jacqueline Lima Dourado e Juliana Fernandes Teixeira
La infografía periodística en la cuarta pantalla: Análisis de contenido
y diseño de la información 499
Begoña Ivars Nicolás e Montserrat Jurado Martín
Proposta de Inventário das Máquinas de Visibilidade: As modicações
do telejornalismo pelo uso das câmeras ubíquas 511
Maura Oliveira Martins
Narrativa radiofónica y dispositivos móviles. ¿Reutilización o creación
de nuevos contenidos? El caso de Podium Podcast 527
Miriam Rodríguez-Pallares
Transmedia Journalism within Mobile Devices 547
Ana Serrano Tellería
Jornalismo das Coisas (JoT): Oportunidades e ameaças à informação
noticiosa móvel na cidade digital 583
Marcelo Barcelos
As vendas de dispositivos móveis continuam a crescer
em todo o mundo. Uma das consequências deste aumen-
to é o incremento exponencial no volume de acessos a
conteúdos online, seja via app ou browser.
Naturalmente, a este aumento de vendas deveria
corresponder uma subida das receitas nos meios de co-
municação social, porém isso não acontece em nenhuma
das fontes tradicionais: vendas e publicidade. Esta situa-
ção tem vindo a provocar uma enorme instabilidade no
ecossistema mediático, com impactos importantes no
processo de evolução do jornalismo para novas plata-
formas. Em lugar do aparecimento de novos formatos e
linguagens adaptadas a uma receção tecnologicamente
avançada, nas últimas duas décadas temos assistido a
um fenómeno de transposição e replicação de conteúdos
tradicionais, havendo hoje um fosso cada vez maior en-
tre o potencial dos dispositivos de receção, os conteúdos
produzidos pelos meios de comunicação e as expectati-
vas dos consumidores.
O mais intrigante em todo este processo é que a parte tec-
nológica (fabricantes de dispositivos, desenvolvedores
de sistemas e fornecedores de serviços de telecomuni-
cações) regista um crescimento notável na faturação,
enquanto alguns dos produtores de conteúdos, sobretu-
do os jornais, continuam a lutar pela sobrevivência uma
vez que as receitas tradicionais caíram a pique.
Embora surjam algumas experiências de sucesso, que
pela sua originalidade foram objeto de estudo neste li-
vro, poucos são os casos em que é possível generalizar
Introdução
Introdução12
a sua aplicação. Em parte, porque se tratam de publicações com carac-
terísticas únicas e não replicáveis na esmagadora maioria dos meios de
comunicação existentes.
Perante esta realidade, multiplicam-se os fóruns de discussão em torno dos
modelos de negócio aplicáveis ao jornalismo para dispositivos móveis, mas
continua por identicar, se é que algum dia o será, um conjunto de ferra-
mentas que permitam solucionar a atual falta de recursos nanceiros no
setor.
Embora o modelo inicial de acesso gratuito ainda seja o mais habitual, mo-
delos mistos ( freemium; venda de apps) e de pagamento (paywall) estão em
crescimento e têm sido testados com algum sucesso em meios com caracte-
rísticas muito especícas. Por serem publicações de nicho com grande valor
acrescentado para os consumidores (princípio da escassez de informação)
ou por terem audiências de dimensão global (economias de escala), estas
publicações otimizaram um modelo económico satisfatório, mas estes casos
não podem ser generalizados e, por isso, não respondem à pergunta funda-
mental: quem paga o jornalismo nos novos meios?
Uma das possibilidades é repensar a publicidade na era digital. Os dados
mostram que esta fonte de receitas não desapareceu, porém os abundan-
tes recursos nanceiros em circulação no ecossistema estão a ser captados
maioritariamente pelas multinacionais tecnológicas, como a Google e o
Facebook. Ou seja, a fonte que historicamente alimentou a comunicação
social (as vendas/assinaturas sempre tiveram um peso marginal no total
de receitas) continua a jorrar, mas quem aproveita esses recursos são as
tecnológicas e não os media.
João Canavilhas e Catarina Rodrigues 13
O relatório Private Sector Media and Digital News (Cornia, Sehl &Nielsen,
2016)1 identica esta realidade como um dos três grandes problemas da
publicidade digital, juntando-lhe mais dois: a baixa média de receitas por
utilizador (sobretudo nos dispositivos móveis) e a vulgarização do recurso
aos bloqueadores de publicidade nos browsers.
No que concerne ao relacionamento com as empresas tecnológicas, os me-
dia têm pressionado no sentido de conseguirem parte das receitas online
uma vez que são proprietários dos direitos de autor das suas publicações.
No caso especíco da Google, as soluções variaram entre os media que op-
taram por sair do News (Espanha) e os que receberam o apoio da empresa
para projetos inovadores e formação na área do negócio digital (Bélgica,
França, etc.). Este tipo de apoios foi reforçado, em Outubro de 2015, com o
Digital News Initiative Innovation Fund, um projeto da Google que durante
três anos apoia a inovação no campo das notícias online.
As baixas receitas por utilizador são uma consequência do crescimen-
to dos acessos via dispositivos móveis. muitos jornais de referência a
registarem crescimentos anuais superiores a 50%, mas as receitas não
acompanham este crescimento porque os modelos de publicidade digital
para estes dispositivos estão ainda menos desenvolvidos do que os existen-
tes para os computadores pessoais (Cornia, Sehl & Nielsen, 2016). Para além
desta situação, é notório que existe uma fraca cooperação entre as opera-
doras móveis e os fabricantes de dispositivos no apoio aos media online.
Atualmente, a mais-valia dos smartphones está nos dados, permitindo o uso
da sua função comunicação (voz e sms) mas, sobretudo, das funções entre-
tenimento (jogos, música, turismo, etc.) e informação (Internet) (Canavilhas,
2009)2. E é justamente neste último caso que os media devem estabelecer
pontes com as operadoras e com os fabricantes dos dispositivos móveis,
procurando identicar sistemas que possam reverter parte dos beneícios
destes atores em favor de quem produz os conteúdos. Em contrapartida,
1. Cornia, A.; Sehl, A . & Nielsen, R.K. (2016). Private Sector Media and Digital News. Reuters Institute
for the Study of Journalism
2. Canavilhas, J. (2009). Contenidos informativos para móviles: estúdio de aplicaciones para iPhone.
Revista Textual & Visual Media, 2, p.61-80.
Introdução14
as empresas de media devem comprometer-se a inovar no campo das lin-
guagens e conteúdos, explorando as potencialidades tecnológicas e sociais
destes dispositivos.
O terceiro e último problema referido pelos autores do estudo são bloquea-
dores de publicidade, aplicações cada vez mais presentes nos browsers. Em
março de 2016, o New York Times lembrava os leitores que “As melhores
coisas da vida não são grátis e que o bloqueador impedia a visualização de
publicidade, uma das formas de nanciamento”. Atualmente, jornais de
todo o mundo fazem o mesmo aviso numa primeira visita aos seus sites,
sendo possível criar exceções e desativar o bloqueador. Os próprios bloquea-
dores mudaram a sua política: deixaram de fazer um bloqueamento total
e limitam apenas as publicidades mais intrusivas ou longas, deixando ao
utilizador a possibilidade de escolherem os sites em que a publicidade pode
ser exibida.
Por tudo isto, o nanciamento do jornalismo que se faz nas mais recentes
plataformas de receção está no centro do debate e são muitos os contributos
para a resolução do problema. O próprio Digital News Initiative Innovation
Fund, que vai já na sua terceira fase, desta vez está centrado nos modelos
económicos e nas novas formas de consumo de notícias.
A investigação cientíca deve acompanhar estas preocupações do mercado
e por isso o primeiro grupo de textos deste livro aborda a questão dos mo-
delos de negócio, juntando-lhe uma das possibilidades mais promissoras no
campo da monetização, o jornalismo de proximidade. Com base em estudos
de caso, as propostas estudam a inuência que o jornalismo móvel pode ter
na captação de receitas, mas também nas rotinas prossionais e na cons-
trução das notícias.
O segundo grupo de textos centra-se fundamentalmente na relação entre
redes sociais e jornalismo, apresentando estudos de caso que envolvem sis-
temas de distribuição de notícias e relatos de experiências desenvolvidas em
laboratórios. Desta vez o foco esta nas formas de consumo de notícias, outra
área em discussão nas empresas.
João Canavilhas e Catarina Rodrigues 15
O terceiro grupo centra-se nas linguagens e nos formatos jornalísticos, um
dos campos onde se joga a autonomia do jornalismo móvel. Tal como foi
referido anteriormente, o pagamento do acesso a conteúdos depende em
grande medida da capacidade dos meios oferecerem formatos e linguagens
diferenciados, nomeadamente conteúdos imersivos que exijam mais par-
ticipação dos utilizadores e os envolvam no processo noticioso. Mais uma
vez são apresentados vários estudos de caso em jornais de Portugal, Brasil,
Canadá, Espanha, Estados Unidos da América e Inglaterra.
Por m, o último capítulo centra-se na relação entre os dispositivos móveis
e os conteúdos audiovisuais. Da imagem em movimento ao som, passando
pela infograa e pelas narrativas transmedia, os autores apresentam um
variado conjunto de propostas e estudos de caso onde se destaca o impor-
tante papel deste tipo de conteúdos no campo do jornalismo móvel. O vídeo
é, aliás, o conteúdo que tem vindo a registar maior aumento na oferta e
na procura, pelo que merece uma atenção especial, estudando-se a relação
entre o meio mais poderoso junto dos utilizadores (TV) e a maior fonte de
informação (Internet).
Depois dos livros “Notícias e Mobilidade: o jornalismo na era dos disposi-
tivos móveis”, de 2013, e “Jornalismo para Dispositivos Móveis: Produção,
Distribuição e Consumo”, de 2015, este Jornalismo móvel: linguagem, gé-
neros e modelos de negócio” é mais um contributo do LABCOM.IFP para
a discussão do papel dos dispositivos móveis no jornalismo do século XXI.
Agradecemos a todos os autores o contributo para esta trilogia e convida-
mos os leitores a procurarem as restantes duas obras na editora Livros
Labcom (http://www.livroslabcom.ubi.pt/sub/coleccoes.php)
João Canavilhas e Catarina Rodrigues
Parte I Dispositivos móveis,
modelos de negócio
e jornalismo de proximidade
APLICATIVOS AUTÓCTONES EM FRANQUIAS
JORNALÍSTICAS: A POSSÍVEL TRANSFORMAÇÃO
DE ROTINAS PRODUTIVAS NA CONVERGÊNCIA
COM MEIOS DIGITAIS
Vivian Belochio1
Eugenia Barichello2
Tanise Arruda3
1. Introdução
Este trabalho expõe resultados de investigação sobre
as características das estratégias em mídias móveis
de franquias jornalísticas vinculadas a jornais de re-
ferência brasileiros. O surgimento de publicações que
levam a mesma marca de veículos noticiosos tradicio-
nalmente reconhecidos por sua atuação em apenas um
suporte é a característica central da formação dessas
franquias (DIAS SOUZA; MIELNICZUK, 2009; ZAGO;
BELOCHIO, 2014). Experiência relevante nesse senti-
do é a criação de webjornais com a mesma identidade
editorial de determinados meios. Recentemente, apara-
tos móveis como smartphones e tablets foram incluídos
nessas movimentações. Surgiram aplicativos que fun-
cionam como publicações noticiosas nos referidos
suportes.
1. Pós-Doutora em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria.
Professora adjunta de Jornalismo da Unipampa. Doutora em Comunicação
e Informação (UFRGS).
2. Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
Universidade Federal de Santa Maria. Pós-Doutora pela University College
of London (UK). Bolsista em Produtividade em Pesquisa do Conselho
Nacional de Pesquisa (CNPq). Doutora em Comunicação pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
3. Graduanda de Jornalismo da Unipampa.
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
20
Acredita-se que tal ação gera demandas distintas e pode implicar em altera-
ções signicativas na forma de pensar o fazer jornalístico em redações que
aderem a esse tipo de produção. Isso porque os aplicativos jornalísticos se-
guem lógicas peculiares, têm estrutura visual especíca e design jornalístico
próprio. Visam à produção direcionada às características e necessidades do
suporte, das tecnologias e das interfaces utilizadas. Não comportam, por-
tanto, apenas a replicação de dados dos suportes mais antigos, ou tímidas
adaptações. Exigem atenção particular às suas singularidades. Esse tipo de
app é denido por Barbosa (2013) como autóctone, criado exclusivamente
para a disponibilização de notícias em tablets. Marca o desenvolvimento da
quinta geração4 do jornalismo em redes digitais.
Entende-se que as adaptações das franquias jornalísticas às demandas da
produção para aplicativos autóctones podem afetar desde a estruturação
dos produtos mantidos pelas organizações até os seus sistemas de apura-
ção, composição e circulação das notícias, entre outros. Isso tendo em vista
a ideia de que, nas redações jornalísticas multiplataforma, “já não se tem
uma oposição entre meios antigos/tradicionais e os new media” (BARBOSA,
2013, p.34). Tal aspecto marca a complexicação das rotinas produtivas e
dos produtos jornalísticos, bem como a possibilidade de modicação dos
mesmos. Visto isso, é relevante a observação do fenômeno, com a nalidade
de identicar e compreender os seus elementos e as suas implicações no
jornalismo contemporâneo. A intenção, aqui, é vericar aspectos das ações
desenvolvidas em mídias móveis pelas franquias jornalísticas, bem como
características dos sistemas de produção daquelas que possuem apps autóc-
tones. Com isso, pretende-se perceber transformações possíveis nas suas
rotinas produtivas e nas suas estratégias em redes digitais.
Para reetir sobre as questões expostas, este artigo discute, inicialmente, as
estratégias de distribuição multiplataforma em contextos de convergência
jornalística. Relaciona tais ações com a convergência com meios digitais e a
4. Aprimeira geração é marcada pela transposição; a segunda geração já demonstra algumas adaptações
à Web; a terceira geração tem como marca o início da produção mais focada nas particularidades da
Web (MIELNICZUK, 2003). A quarta geração é a fase de adoção do jornalismo digital em base de dados
como paradigma (BA RBOSA, 2007).
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 21
utilização de mídias móveis em tais processos. Na sequência, destaca aspec-
tos relacionados à formação de franquias jornalísticas no cenário da cultura
da convergência. Analisa as mudanças possíveis no jornalismo a partir da
inclusão de aplicativos autóctones nas suas estratégias. Na parte nal, são
descritos os resultados da observação das movimentações de 25 franquias
jornalísticas brasileiras de meios impressos que distribuem conteúdos na
Web e em aplicativos móveis. Além disso, reete-se sobre o conteúdo de
entrevistas semiestruturadas com os membros das redações das quatro
franquias que possuem aplicativos autóctones, mencionadas anteriormente.
2. Estratégias multiplataforma na convergência com meios digitais
O investimento em estratégias multiplataforma no jornalismo não é prática
nova. Acontece desde que as organizações noticiosas começaram a traba-
lhar com mais de uma mídia em suas produções. Isso vem resultando na
necessidade de adaptação dos jornalistas e dos produtos jornalísticos dis-
ponibilizados aos públicos. Salaverría e Negredo (2008) chamam a atenção
para o fato de que a acumulação de tarefas nas redações, ou a polivalência
dos prossionais, não é recente. Eles lembram que ela sucede há pelo menos
meio século, período no qual os repórteres se transformaram em redatores.
Empresas que trabalham com impresso e rádio são exemplos, já que organi-
zações com esse perl vêm investindo há décadas em sistemas de produção
das notícias para distintos suportes.
O que se percebe atualmente é a potencialização desse tipo de ação, que
ocorre a partir das possibilidades das tecnologias digitais (DOMINGO et
al., 2007; SALAVERRÍA; NEGREDO, 2008). Os aparatos úteis à produção
e à distribuição de conteúdos são cada vez mais miniaturizados e acessí-
veis. Transformaram-se em computadores coletivos móveis, como observa
Lemos (2004). As facilidades da Web 2.0 também contribuem nesse proces-
so (O’REYLLI, 2005).
Esses e outros elementos modicam as expectativas e preferências dos pú-
blicos que buscam informações, interferindo nas estratégias das empresas
jornalísticas, entre outras. Como armam Salaverría e Negredo (2008), a
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
22
pouco tempo atrás, a imprensa, o rádio e a televisão tinham papéis bem
denidos no mercado da informação. Ao primeiro correspondia a interpre-
tação, ao segundo a imediaticidade e ao terceiro o entretenimento. Para os
autores, no atual ecossistema midiático, com a Internet sendo apropriada
para a oferta e o consumo dos três elementos mencionados, entre outros,
essa divisão já não é tão evidente. Mistura-se o convencional com novos ele-
mentos, o que complexica a produção e a distribuição de notícias.
Se a Internet provocou tamanha transformação, o surgimento dos aparatos
móveis intensicou ainda mais esse processo. Após a adaptação das empre-
sas às especicidades do webjornalismo (PALACIOS, 2002; MIELNICZUK,
20 03), os jor n a listas precisam lidar mais uma vez com demandas de adequa -
ção (BARBOSA, 2012; PALACIOS, 2012; BARBOSA et al., 2013; PALACIOS
et al., 2014). Elas surgem com o investimento em publicações para suportes
móveis.
Para Silva (2013), a apropriação das mídias móveis no jornalismo resulta na
reconguração de dinâmicas de produção, de distribuição e de acesso às
notícias. Novas práticas podem surgir nas estratégias que se concretizam
através desses aparatos. Segundo Belochio (2012), a produção multiplatafor-
ma que inclui as mídias móveis parte da convergência com meios digitais.
Trata-se de uma das transformações visualizadas a partir da intensicação
dos processos de convergência jornalística. Estes envolvem a implantação
de diferentes sistemas de produção e de distribuição das informações em
redações unicadas. As referidas mudanças são características desse tipo
de convergência e se tornaram mais frequentes a partir da apropriação das
tecnologias digitais (SALAVERRÍA; NEGREDO, 2008).
Na realidade descrita até aqui, são ampliadas as demandas pela produção
de pautas integradas nas redações (SALAVERRÍA; NEGREDO, 2008). Elas
implicam em pensar a cobertura e a constituição das matérias para mais
de um suporte, como impresso, TV e Web. Tal processo vem sendo trans-
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 23
formado na convergência com meios digitais, como arma Belochio (2012),
processo entendido como um dos movimentos possíveis em contextos de
convergência jornalística.
Em pesquisa anterior, percebeu-se que as mídias móveis não são considera-
das como elementos da chamada escala midiática, proposta por Salaverría e
Negredo (2008). Esta prevê possibilidades de produção integrada em meios
jornalísticos que trabalham com várias mídias. Salaverría e Negredo (2008)
elaboraram tal escala denindo modelos de convergência a dois, a três e a
quatro, sempre relacionando suas possibilidades à combinação da produção
para a Web com mídias tradicionais, como o impresso, a TV e o rádio. No
primeiro nível, ocorre a produção integrada para impresso e Web. No segun-
do nível, são utilizados impresso, TV e Web. No último nível, as estratégias
multiplataforma envolvem impresso, TV, rádio e Web.
A convergência com meios digitais vai além da referida escala. Modica e
amplia as movimentações citadas. Isso à medida que envolve a criação de
representações dos veículos jornalísticos exclusivamente em redes digitais,
incluindo as mídias móveis nas suas estratégias (BELOCHIO, 2012). São
exemplos webjornais e aplicativos autóctones (BARBOSA, 2013), denidos
anteriormente. Interessam, neste trabalho, as franquias jornalísticas que
realizam essa última estratégia.
3. Cultura da convergência e franquias jornalísticas
Os fatores expostos podem ser associados à realidade da cultura da conver-
gência, descrita por Jenkins (2008, p. 27) como um fenômeno marcado pela
interação entre “novas e antigas mídias (...) de formas cada vez mais com-
plexas”. Neste modelo acontecem o “uxo de conteúdos através de múltiplos
suportes midiáticos”, a “cooperação entre múltiplos mercados midiáticos”
e o “comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação”.
Estes públicos vão buscar as experiências de entretenimento que desejam
em qualquer lugar.
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
24
Trata-se de uma conjuntura marcada pela transformação do ecossistema
midiático (BARICHELLO et al., 2013). No referido cenário, os meios de co-
municação hibridizam-se e desenvolvem-se coexistindo em redes digitais,
de forma distinta dos processos da comunicação de massa. “A lógica de cir-
culação de informações se transforma, deixando de ser centralizada nas
tradicionais instituições de mediação(CARVALHO; BARICHELLO, 2013,
p.68). Em outras palavras, não são apenas os conglomerados midiáticos que
têm o privilégio de produzir, publicar e distribuir conteúdos em nível glo-
bal. Qualquer cidadão ou organização pode realizar tais ações, muitas vezes
competindo pela escolha dos públicos. Logo, os processos de midiatização
(FAUSTO NETO, 2007) são potencializados no atual ecossistema midiático.
Portanto, nesse ecossistema midiático, as preferências dos consumidores se
mostram alteradas com relação a épocas anteriores. Modica-se o relacio-
namento estabelecido pelo público com as mídias tradicionais, tais como os
veículos noticiosos. Uma vez que este possui mais opções para conseguir as
informações que deseja, ou mesmo para obter o entretenimento que procu-
ra, acaba se tornando mais exigente. Transformam-se as suas expectativas
com relação ao perl dos produtos disponibilizados pelas organizações de
comunicação midiática. Tal alteração demonstra a tendência de que as tro-
cas planejadas e realizadas nesse cenário sejam diferentes.
Assim, surgem congurações como as franquias nos veículos noticiosos que
pretendem se adequar às demandas da cultura da convergência. O termo
franquias é utilizado por Jenkins (2008) para descrever estratégias de de-
terminadas marcas que podem resultar na narrativa transmidiática. Esta
é marcada pela disponibilização de histórias que podem ser contadas por
meio de distintos suportes midiáticos. Isso ocorre de maneira adicional ou
complementar, sem replicações e sobreposições (JENKINS, 2008).
As representações pertencentes às franquias jornalísticas integram a cadeia
de distribuição multiplataforma de veículos noticiosos no cenário da cultura
da convergência. Podem possibilitar o que Dias Souza (2011, p.61) entende
como lógica transmídia. Ela ocorre quando os meios procuram atender de-
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 25
mandas dos públicos em distintas plataformas, contando suas histórias de
forma diferenciada e adaptada em cada espaço. É associada “à fragmenta-
ção, à dispersão e à expansão” de conteúdos em diferentes mídias.
Na convergência com meios digitais, as franquias jornalísticas têm apre-
sentado esse tipo de estratégia. Produzem conteúdos diferentes, propondo
narrativas que se complementam, apoiando-se em seus produtos na Web e,
em alguns casos, em mídias móveis. Como o foco deste trabalho é essa úl-
tima situação, os aplicativos jornalísticos para mídias móveis serão melhor
denidos na sequência.
3.1 Aplicativos autóctones de franquias jornalísticas: novas demandas de
produção
Segundo Barbosa (2013, p.43), os aplicativos autóctones são “originalmente
desenhados, criados, editados por equipes especícas, segundo afordances,
isto é, propriedades, a exemplo da tactilidade (...), atributos do design para
tablets (...), e com o emprego de recursos diferenciais para a composição de
conteúdos”. Entende-se que eles assumem o papel de publicações noticiosas
projetadas e construídas com base nas peculiaridades dos suportes móveis.
Como mídias distintas das mais antigas, os aplicativos exigem estratégias
exclusivas. À medida que apresentam diferentes demandas às equipes edi-
toriais, podem modicar as maneiras como são produzidas e apresentadas
as notícias.
Esse tipo de publicação é classicado como produto da quinta geração do
jornalismo em redes digitais, que é caracterizada, conforme Barbosa (2013,
p.46), pela formação de um “continuum multimídia de cariz dinâmico”.
Neste contexto, a produção e a distribuição de notícias seguem lógicas da
convergência jornalística, sendo multiplataforma. Como destaca Barbosa
(2013), nesta fase, o paradigma do Jornalismo em Base de Dados é determi-
nante. A horizontalidade e a medialidade (GRUSIN, 2010) marcam os uxos
de conteúdos entre distintas plataformas.
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
26
A autora observa que a medialidade marca a produção de diferentes forma-
tos para o jornalismo, como texto, áudio, audiovisual, fotos e infográcos,
com o uso das tecnologias digitais e em rede. Ou seja, não há mais produção
sem a utilização das mesmas, independente da mídia. Cada fase de consti-
tuição das notícias é caracterizada por esses processos, que atualizam os
tradicionais. Assim, nas redações multiplataforma em contextos de conver-
gência jornalística, intensica-se a horizontalidade na produção, edição e
distribuição das notícias. Em outras palavras, torna-se equilibrada e padrão
a “atuação conjunta, integrada, entre os meios, conformando processos e
produtos” (BARBOSA, 2013, p.33). A produção para os aplicativos segue
essas lógicas.
Em alguns casos, as publicações móveis mantidas pelas organizações
jornalísticas multiplataforma são preenchidas com a transposição de infor-
mações dos seus meios mais antigos (BARBOSA et al., 2013). É o que ocorria
na primeira geração do webjornalismo (MIELNICZUK, 2003). Contudo, ele-
mentos especícos das plataformas móveis vêm sendo utilizados de forma
crescente. Para Barbosa (2013, p.43), isso mostra que a “gramática própria,
práticas de produção, dinâmicas de consumo e modelos de negócio especí-
cos” das mídias móveis inuenciam a produção para os aplicativos. Nesse
sentido, eles são “paradigmáticos”. Os aplicativos estão adquirindo persona-
lidade própria nessa conjuntura.
Tendo em vista as potencialidades e desaos listados, o trabalho com os
aplicativos autóctones em franquias jornalísticas pode envolver uma série
de adequações. Ao mesmo tempo em que os jornalistas atuam em contextos
em que não mais delimitações diretas sobre a produção para distintas
mídias, como visto a partir de Barbosa (2013), precisam desenvolver o pen-
samento estratégico a respeito dos conteúdos mais adequados para cada
plataforma.
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 27
4. Estratégias de franquias jornalísticas brasileiras em apps
Com o objetivo de vericar as franquias formadas a partir da convergência
com meios digitais e de reetir sobre os processos de produção de con-
teúdos para os aplicativos autóctones, este artigo direciona a observação
empírica aos veículos impressos que realizam esse movimento. Em outras
palavras, foram investigados os jornais que conquistaram credibilidade e
reconhecimento ao longo do tempo e que passaram a investir na Web e em
mídias móveis.
A pesquisa foi realizada de agosto de 2015 até setembro de 2016, em quatro
etapas. São elas a) a identicação das publicações dos principais veículos
jornalísticos brasileiros de referência que atuam como franquias; b) a veri-
cação de quais franquias trabalham com publicações na Web e em apl ic ativos
móveis através da convergência com meios digitais; c) averiguação de quais
possuem aplicativos autóctones e de peculiaridades das suas interfaces e
conteúdos; d) realização de entrevistas semiestruturadas com prossionais
dos meios que trabalham com apps autóctones.
A etapa da identicação das publicações em redes digitais pertencentes
a franquias jornalísticas brasileiras é exploratória. Visa à observação dos
veículos jornalísticos impressos de referência no Brasil que possuem re-
presentações nas plataformas da Web e de aplicativos de tablets. Os jornais
que realizam essa estratégia passaram por observação qualitativa indireta
(DELGADO; GUTIERREZ, 1995). Por meio dessa técnica, foram identica-
dos os meios que trabalham com aplicativos autóctones, considerando-se
aspectos como a oferta de conteúdos exclusivos, de interfaces peculiares e
de variações das opções de tipos de publicação.
A entrevista semiestruturada (ROSA; ARNOLDI, 2006) serviu à coleta de
depoimentos dos jornalistas envolvidos com esse tipo de produção sobre as
interferências do processo nos seus sistemas produtivos. Foi possível, a par-
tir dessa técnica, comparar as declarações dos prossionais entrevistados
com as tendências vericadas nas suas publicações.
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
28
A pesquisa dos principais jornais brasileiros foi realizada através do site
Guia de Mídia5. Este dispõe de uma lista de jornais, além da cidade, do
Estado em que são distribuídos e dos seus respectivos endereços na Web.
Com base em tal lista, optou-se por coletar os nomes dos principais jornais
das capitais brasileiras, com foco naqueles que possuem versões impressas.
Foram encontrados 101 jornais impressos com tais características.
Após essa primeira etapa, foram vericados os tipos de convergência jor-
nalística que esses meios realizam. Para isso, usou-se a classicação de
Salaverría e Negredo (2008) da escala midiática, descrita anteriormente.
Com relação à convergência a dois (C2), encontrou-se 100 veículos jornalís-
ticos impressos que possuem webjornais6. Realizam a convergência a três
(C3), isto é, a união de impresso, com TV e com a Web, quatro veículos jorna-
lísticos aqui observados7. Além desses, foram encontrados 16 jornais8 com
versão impressa, na Web e com WebTVs. Foram identicados seis casos9 de
convergência a quatro (C4), ou seja, veículos que possuem representações
em meios impressos, radiofônicos, televisivos e na Web.
No que se refere à convergência com meios digitais, isto é, a união do im-
presso com a Web e com dispositivos móveis, encontrou-se 25 casos10. Eles
são referentes à utilização de webjornais e de aplicativos de tablets, que são
o foco deste trabalho. Todos foram encontrados na App Store, da Apple, após
busca no iPad.
5. www.guiademidia.com.br.
6. Não foram encontrados webjornais que representam meios impressos de Boa Vista/Roraima.
7. Maceió-A lagoas, sendo que a TV é liada da Rede Globo – Gazeta de Alagoas; Salvador- Bahia,
Tribuna da Bahia; João Pessoa- Paraíba, Jornal da Paraíba, sendo a T V pertencente à Rede Paraíba de
Comunicação, liada da Rede Globo; Rio de Janeiro- Rio de Janeiro – Jornal O Globo.
8. Diário do Amapá (AP); Diário do Nordeste, Jornal O Povo, Jornal O Estado, Jornal A Notícia do
Ceará (CE); Jornal O Hoje (GO); Jornal O Imparcial (MA); Jornal O Tempo; Jornal Capital de Minas
(MG); O Liberal (PA); Jornal Impacto Paraná (PR); Jornal do Comércio, Folha de Pernambuco (PE);
Jornal da Cidade (PI); Tribuna do Norte (RN); Folha de São Paulo, Estado de São Paulo (SP).
9. Gazeta de Alagoas (A L); Diário do Amapá (A P); O Liberal (PA); Folha de Pernambuco (PE); Jornal O
Globo (RJ); O Estado de São Paulo (SP).
10. Os 25 casos foram encontrados nas franquias jornalísticas dos seguintes jornais: Gazeta de
Alagoas; Jornal do Dia; Jornal do Commercio (Manaus/Amazonas); Correio da Bahia; Jornal A Tarde;
Correio Braziliense; Jornal de Brasília; A Tribu na; Diário do Norte; O Estado do Maranhão “http://
imirante.com/oestadoma/”Maranhão; Correio do Estado; O Tempo ; O Liberal; Jornal da Paraíba;
Diário de Pernambuco; Jornal do Commercio (Recife/Pernambuco); Jornal O Globo; Jornal Extra;
Tribuna do Norte; Novo Jornal; Zero Hora (RS); Diário da Amazônia; Diário Catarinense; O Estado de
São Paulo; O Estado de São Paulo.
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 29
Percebeu-se três tipos de iniciativas predominantes nos aplicativos ob-
servados. São elas: a) a oferta da edição lip dos veículos jornalísticos; b) a
disponibilização de conteúdos dos webjornais das franquias nos apps; c) a
apresentação de conteúdos exclusivos, característica de aplicativos autóc-
tones. Em determinados casos, apenas um tipo de elemento foi encontrado
nas 25 franquias observadas. Noutros, a mistura dos mesmos foi noticada.
Os resultados serão descritos na sequência.
Todas as 25 franquias jornalísticas analisadas nesta etapa disponibilizam,
em seus aplicativos, a versão lip dos seus jornais diários. Trata-se da edição
impressa digitalizada. Isso demonstra que as suas estratégias em tablets po-
dem estar apoiadas nesse tipo de iniciativa, considerada conservadora. Ao
todo, 20 veículos do conjunto observado utilizam o PDF simples nessas edi-
ções, privando-se de explorar características mais especícas dos tablets.
Ao todo, 12 franquias foram classicadas na categoria ‘Elementos do we-
bjornal no App’. Elas oferecem a versão  lip juntamente com recursos da
rede, não limitando seus conteúdos ao que é oferecido na Web. Nos casos
em que existe a opção de acessar as informações disponíveis nos webjor-
nais das franquias, são acrescentados, nas interfaces, botões como “últimas
notícias”. Na maioria dos 12 casos identicados, os navegadores são dire-
cionados às páginas dos jornais na rede, sem que ocorra a seleção prévia
dos materiais que poderiam ser mais interessantes aos apps. Em outras pa-
lavras, não se trata da cópia de conteúdos de um espaço para o outro. As
plataformas móveis e da Web são ligadas através de caminhos hipertextuais.
São exceções o jornal gaúcho ZH, A Tribuna do Norte, de Natal/RN, e o
Diário Catarinense. As franquias pertencentes aos veículos citados expõem,
nos seus apps, com destaque, apenas alguns conteúdos dos seus webjor-
nais. As informações são distribuídas entre manchetes e chamadas. Estas
são exibidas com mais ou menos destaque na capa dos aplicativos. Isso a
partir de elementos como o tamanho da fonte, o negrito e a exposição de
fotograas. Quando acessadas, as notícias não são exibidas nas páginas dos
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
30
veículos noticiosos. Elas aparecem nas interfaces dos apps. Apenas alguns
elementos, como infográcos e vídeos, levam os navegadores aos sites dos
jornais, a partir de hiperlinks colocados nas matérias.
4.1 Aplicativos autóctones
As quatro franquias jornalísticas classicadas na categoria ‘Aplicativos
autóctonessão vinculadas aos jornais O Globo, ZH, Diário Catarinense e
Estado de São Paulo. Todas possuem edições com conteúdos exclusivos e
também oferecem as opções mais convencionais, como a edição lip, acesso
aos webjornais a partir de hiperlinks e notícias selecionadas das suas pági-
nas. Contudo, além dessas opções, as franquias investem na constituição de
publicações com conteúdos direcionados à plataforma móvel, distintos das
suas demais representações. Sendo assim, simultaneamente, observa-se o
conservadorismo e a inovação nesses casos, o que demonstra que ainda se
está buscando um modelo mais adequado para a exploração da plataforma.
O Jornal O Globo é um dos veículos que realiza iniciativas em seu app as-
sociadas à proposta de publicações autóctones, com base nas denições de
Barbosa (2013). No seu aplicativo, o veículo permite o acesso à edição lip do
impresso. A publicação não é estática, como a maioria das  lip observadas
neste trabalho. Ela conta com recursos que permitem a navegação entre as
representações da franquia, tais como hiperlinks e remissões para o site de
O Globo. Os anúncios são animados e multimídia. Os leitores têm acesso
aos cadernos do impresso.
Além disso, o app oferece e-book com “matérias de acervo e conteúdo ex-
clusivo”, com download gratuito aos assinantes. Não assinantes podem
comprá-los nas lojas virtuais Amazon, Google Play e iBook Store11”. Percebe-
-se que os e-books não são exclusivamente disponibilizados por intermédio
do app. Entretanto, trata-se de publicações com conteúdos diferenciados
que podem ser acessadas no espaço. Logo, são opções distintas dos demais
produtos da franquia, que podem ser acessadas através do seu aplicativo.
11. In: http://oglobo.globo.com/edicoes-digitais/, acesso em 20/05/2016.
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 31
As remissões e os hiperlinks encontrados na versão lip de O Globo parecem
buscar a exploração de elementos mais especícos da interface de mídias
móveis, a partir da navegação táctil. Desse modo, pode-se compreender que
existe um misto de recursos técnicos mais peculiares da ferramenta com
conteúdos exclusivos e informações veiculadas nas demais representa-
ções da franquia. Ou seja, o app é um híbrido. Possivelmente, O Globo está
fazendo testes no seu app, visto que iniciativas anteriores, como a publicação
O Globo a +, traziam conteúdos exclusivos. Contudo, tal produção foi extinta
em 2015, dando lugar à proposta de apresentação dos mesmos conteúdos do
jornal impresso e do webjornal no aplicativo, juntamente com os e-books.
O aplicativo do jornal gaúcho Zero Hora conta com destaques do webjornal
ZH, previsão do tempo e atualização contínua de notícias. As manchetes pu-
blicadas no app vêm do site de ZH, como conferido em 31/03/2016. A opção
da edição impressa leva para o aplicativo ZH Jornal Digital, que apresenta
a versão lip interativa da edição impressa do dia; ZH Noite; ZH Domingo
Digital e cadernos especiais. Assim como O Globo, todas são híbridas.
Possuem ícones com remissões e links para outros conteúdos, a maioria
de ZH.com. Áudios e vídeos são destacados, além de galerias de fotos e
infográcos. ZH Noite tem características de publicação autóctone, já que
apresenta conteúdos de opinião não divulgados nas outras versões do jor-
nal, com base nos fatos do dia. ZH Domingo Digital também possui alguns
conteúdos exclusivos, sobre os fatos de domingo.
A situação do Diário Catarinense vericada durante esta pesquisa é seme-
lhante à de ZH, talvez devido ao fato de ter feito parte do Grupo RBS12 até
março de 2016. Cabe lembrar que Zero Hora integra o mesmo grupo. Seu
app traz os destaques do webjornal DC e expõe, na capa, temperatura do
dia em local que pode ser selecionado pelo leitor, atualizando-se automatica-
mente. As matérias em destaque na capa vêm do site do DC, como conferido
12. Segundo a coordenadora de mídias sociais e produto digital do DC, Ingrid Cristina dos Santos, o
DC recentemente passou a integrar o Grupo NC, que comprou os veículos do Grupo RBS em Santa
Catarina. No dia 26/09/2016, a redação do Diário Catarinense foi transferida para o mesmo prédio
em que trabalham as redações de TV e rádios do Grupo. Como isso ocorreu após a realização das
entrevistas e das observações que compõem esta pesquisa, as mudanças que partem da referida
alteração não foram relatadas neste trabalho.
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
32
em 18/05/2016. No entanto, os destaques do app são diferentes dos do site. A
opção da edição impressa leva para outro aplicativo do veículo, o DC Jornal
Digital, que apresenta a versão lip não estática da edição impressa do dia;
edição especial de m de semana; DC Domingo Digital e cadernos especiais.
O DC Domingo Digital, suspenso recentemente, trazia conteúdos exclusivos
e outros do webjornal. Sendo assim, tinha partes autóctones.
Já o aplicativo do jornal Estado de São Paulo permite o download do Estadão
Premium e do Estao Noite. O Estao Premium é a edão lip do impresso
do dia. É disponibilizado às 5h aos assinantes. Conta com galerias de fotos,
vídeos e outras notícias do site do Estadão. Estas podem ser acessadas por
intermédio de links disponíveis nos selos “Na Web”. Foi considerado básico,
sem características de autóctone.
O Estadão Noite é gratuito. Traz várias colunas exclusivas de opinião. Possui
poucos elementos hipertextuais e multimídia. Tem características de autóc-
tone por ser voltado exclusivamente à plataforma, com conteúdos projetados
para isso. Anuncia as notícias do dia seguinte do Estado de S. Paulo, o que
tem de destaque na TV Estadão, na Rádio Estadão e no webjornal Estadão.
Apenas conteúdos estáticos aparecem nesta parte, sem hiperlinks: somente
chamadas e linhas de apoio. Logo, o app do Estadão também pode ser con-
siderado híbrido.
4.2 Processos produtivos
Este tópico expõe declarões13 sobre as rotinas produtivas dos prossionais
das franquias de Zero Hora, Diário Catarinense e Estadão na elaboração
de conteúdos para seus apps. Os depoimentos foram coletados através de
entrevistas semiestruturadas14. Os respondentes são a coordenadora de
projetos de Zero Hora, Sabrina Passos, a coordenadora de mídias sociais e
produto digital do Diário Catarinense, Ingrid Cristina dos Santos, e o diretor
13. A equipe responsável pela produção de conteúdos para tablets de O Globo foi procurada para a
realização de entrevista semiestruturada. Contudo, não respondeu aos contatos realizados. Por essa
razão, não são expostas declarações sobre os seus processos produtivos neste artigo.
14. Foram realizados contatos por e-mail, entre agosto e setembro de 2016, com os jornalistas
encarregados da organização dos referidos sistemas.
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 33
de arte do Grupo Estado (Estadão), Fabio Sales. Para começar a descrição
dos dados coletados, serão destacados os pontos revelados pela represen-
tante do jornal Zero Hora.
A coordenadora de projetos de ZH, Sabrina Passos, revela que, atualmente,
a redação de Zero Hora é totalmente integrada. As matérias normalmente
são pensadas para várias plataformas, dependendo do conteúdo apurado.
As editorias também fazem reuniões de pauta mais especicas, segundo
a jornalista. Dependendo do projeto, as denições são feitas por equipes
multidisciplinares. Dessa forma, é possível “desenhar a melhor produção
e encaminhamento para cada plataforma” (PASSOS, 2016). A produção ho-
rizontal, descrita neste trabalho a partir de Barbosa (2013), parece estar
sendo buscada mediante o desenvolvimento de uxos de trabalho organiza-
dos com essa nalidade.
A jornalista observa que ZH Noite15 “foi lançada com o objetivo de ser uma
porta de entrada para o produto digital mais estruturado”. Curadoria, re-
sumo e atualização é o propósito da publicação, a partir da constatação de
que os leitores de ZH estão interessados em conteúdos em tablets com es-
sas características. As equipes responsáveis por cada editoria selecionam
os acontecimentos mais importantes do dia e recomendam que os mesmos
sejam destacados nas edições de ZH Noite. A imagem mais impactante e o
assunto mais importante são destaques da capa, conforme Passos (2016). A
ideia é “atualizar o leitor sobre os acontecimentos do dia e também prepará-
-lo para o dia seguinte” (PASSOS, 2016).
Já ZH Domingo Digital tem como objetivo fechar a semana dos assinantes.
Passos (2016) destaca que a publicação segue a mesma lógica de ZH Noite.
As matérias mais relevantes que circularam entre sexta-feira e domingo são
“editadas para um formato mais estruturado” pelos editores. Depois dis-
so, são disponibilizadas no produto móvel com características de resumo e
atualização.
15. A produção para ZH Noite conta com a dedicação de dois editores (PASSOS, 2016).
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
34
Para Passos (2016), o modelo seguido hoje por ZH “envolve o tablet como
suporte de leitura”. Ou seja, os aplicativos não são considerados publica-
ções exclusivas e não contam com equipes dedicadas apenas para isso.
Eles são utilizados para ampliar distribuição dos conteúdos da franquia e
as possibilidades e experiências de leitura dos seus públicos. Entretanto,
compreende-se que a atualização das notícias priorizadas em ZH Noite e
em ZH Domingo Digital resulta em conteúdos autóctones. Isso porque tal
produção implica na apresentação de novidades sobre os fatos noticiados
pelas publicações anteriores de Zero Hora. Trata-se, então, de uma expe-
riência em desenvolvimento, marcada pela procura de sistemas e conteúdos
peculiares dos apps.
A coordenadora de mídias sociais e produto digital do Diário Catarinense,
Ingrid Cristina dos Santos, revela que a franquia não está investindo atual-
mente em publicações com conteúdos exclusivos. O DC Domingo Digital,
associado aqui às características dos aplicativos autóctones, foi suspenso,
devido ao retorno da audiência abaixo do esperado.
A jornalista destaca que a redação é 100% integrada. A franquia também
segue a lógica da produção horizontal, pois “o trabalho é pensado de forma
conjunta para todas as plataformas” (SANTOS, 2016). Santos (2016) observa
que existe a preocupação em direcionar as coberturas realizadas pelo DC à
produção de materiais que atendem as demandas dos públicos do impres-
so e do digital. Ou seja, as pautas são pensadas com esse objetivo, visando
melhorar as experiências dos leitores nas diferentes plataformas utilizadas.
O diretor de arte do Estadão, Fabio Sales, revela que as pautas do Estadão
Noite integram os conteúdos do jornal do dia seguinte e também resumem
as notícias publicadas ao longo do dia nas edições da franquia. Tais assuntos
são aprofundados no jornal do dia seguinte. O jornalista não considera que
se trata de conteúdos exclusivos, mas de um panorama das informações d-
rias direcionado aos leitores que não conseguem conferir notícias durante o
dia. Uma prossional, que também trabalha na homepage da franquia, ca
encarregada selecionar as pautas que serão expostas na publicação. “Ela
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 35
escolhe os temas que serão destacados e escreve um texto que costura os
principais fatos do dia. Dene qual galeria de imagens será chamada, se
haverá vídeo e quais cadernos do jornal do dia seguinte serão destacados”
(SALES, 2016). Um designer estrutura a edição e faz o seu enriquecimento
com recursos multimídia. O sistema de produção parece buscar a dife-
renciação da publicação, seguindo esquema semelhante ao de Zero Hora:
resumo e atualização. Sendo assim, possui elementos de autóctone.
Sales (2016) revela que chegaram a ser realizadas estratégias baseadas ex-
clusivamente nas características tecnológicas que podem ser exploradas em
produtos para tablets, como interface háptica e portabilidade. Contudo, “a
energia envolvida no desenvolvimento destas estratégias não resultou em
maior venda de edições” (SALES, 2016). Por isso, tais ações foram suspen-
sas. Novamente, ca clara a interferência das metas nanceiras na denição
dos investimentos realizados nos produtos do app.
Cabem a um grupo de lideranças do jornal a distribuição e o acompanha-
mento da produção das pautas para as distintas plataformas utilizadas pelo
Estadão. Isso acontece, diariamente, a partir de um mesão, onde trabalham
esses prossionais. São editores que “fazem reuniões e acompanhamentos
permanentes ao longo do dia”, denindo a produção para os meios “tradi-
cionais (impresso) ou novas mídias (digitais)” (SALES, 2016). A escolha dos
recursos multimídia utilizados nas plataformas digitais das matérias é de-
nida durante as reuniões de pauta. Tal fato aponta mais uma vez para a
tendência da produção horizontal.
5. Considerações pontuais
A análise dos dados permite concluir que as movimentações das franquias
observadas neste trabalho em seus aplicativos de tablets são conserva-
doras. A ampla utilização da versão  lip dos jornais, que traz os mesmos
conteúdos já apresentados no suporte impresso, permite tal entendimento.
Aparentemente, trata-se de uma opção mais barata e acessível às orga-
nizações noticiosas, que não têm a intenção de investir na construção de
conteúdos adequados ao suporte e suas potencialidades. Não foram obser va-
Aplicativos autócton es em franquias jornalísticas: a possível transformação
de rotin as produtiva s na convergên cia com meios d igitais
36
das ações voltadas exclusivamente para a plataforma móvel. O que ocorre é
a tentativa de obter lucro através dos apps, visto que assinantes têm acesso
livre às publicações e os demais precisam comprá-las.
A apresentação do PDF da edição impressa pode estar sendo considerada
um elo de identicação das franquias com os públicos, visto que sua matriz
midiática é o jornal impresso. Outrossim, aponta para a possibilidade de que
as redações compreendem que os seus leitores esperam receber a versão
lip nos aplicativos de tablets. Ou seja, é possível que esteja sendo conside-
rada a ideia de que tais aparatos possam, no futuro, substituir o suporte
impresso para a circulação de jornais. Sendo assim, salienta-se que os movi-
mentos atuais da convergência com meios digitais nas franquias analisadas
podem indicar uma fase de testes e adaptações, para posteriores ajustes e
investimentos.
Chama atenção o fato de que apenas quatro franquias, entre as 25 averigua-
das nesta pesquisa, realizam iniciativas para tentar diferenciar a plataforma
móvel das demais utilizadas nas suas estratégias de distribuição multipla-
taforma. Diante disso, compreende-se que a disposição para a realização
de ações nesse sentido, entendidas como mais ousadas, aparentemente
ainda não é tendência entre os jornais de referência brasileiros. Os aplicati-
vos autóctones não parecem ser a opção adotada atualmente pelos veículos
jornalísticos aqui pesquisados. O que se percebe é o investimento tímido e
inicial em iniciativas híbridas, que misturam modelos clássicos com novas
propostas editoriais.
Parece incipiente o incentivo para que as redações dos veículos jornalísticos
investigados realizem a produção exclusiva de conteúdos aos aplicativos de
suas franquias. As entrevistas semiestruturadas conrmam essa constata-
ção. As declarações dos prossionais que colaboraram com esta pesquisa
indicam que ocorre a busca pela produção diferenciada de informações para
as suas publicações em apps. Além disso, também existe o interesse na via-
bilização de experiências de acesso peculiares aos públicos. Entretanto, o
que não dá retorno nanceiro não tem continuidade. Exemplo é a suspensão
Vivian Beloc hio, Eugenia Barichello e Tanise Arruda 37
da edição do DC Domingo Digital. A informação de que o jornal não tem o
interesse de oferecer conteúdo premium para poucos assinantes (SANTOS,
2016) permite o entendimento de que diculdades nanceiras levaram à
suspensão do projeto.
Outro aspecto observado é o fato de que os veículos que trabalham com apps
autóctones descrevem os sistemas de produção das suas redações como to-
talmente integrados. A tendência da estratégia de produção horizontal se
destaca nas falas dos entrevistados. Entretanto, suas descrições revelam
que equipes pequenas trabalham na construção das edições dos aplicativos,
resumindo os conteúdos já trabalhados pelas demais equipes das franquias
ao longo do dia e atualizando os mesmos. Isso cou claro a partir das decla-
rações dos jornalistas de Zero Hora e do Estadão. Mesmo havendo diálogo
e trocas naqueles veículos, bem como o trabalho no mesmo espaço ísico, a
função de adaptação dos conteúdos à plataforma móvel é atribuída a deter-
minados prossionais. Em suma, ocorre uma colaboração entre membros
de equipes diferentes e não a produção totalmente integrada.
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MOBILIDADE COMO FATOR DIFERENCIAL
DOS MODELOS DE NEGÓCIOS EM JORNALISMO:
O CASO DO NYTIMES
Isadora Ortiz de Camargo1
I. Introdução: Como entender e perceber um jornalis-
mo em mobilidade de qualidade?
As empresas jornalísticas que atuam no contexto dos
produtos móveis apontam dois caminhos de produção
noticiosa - ou por meiode conteúdo nativo, isto é, aquele
que é pensado e produzido especialmente para os dis-
positivos móveis, ou a produção desites móveis que de
adequam a telas diferentes por meio de um processo
de otimizaçãode conteúdo. Esta otimização também
pode ser realizada sem site móvel, mas com acriação de
produtos móveis que utilizam as notícias do site ou da
versão impressa daempresa, se caso ela for um jornal
tradicional.
Outra maneira de trabalhar com jornalismo em mobili-
dade é por meio da convergência noticiosa em diferentes
plataformas favorecendo as características especícas
de cada uma comopotenciais diferenciais das versões
em celular, tablet ou site, por exemplo. Dentro desta
perspectiva, o jornalismo em mobilidade caminha para
um futuro em que os dispositivos móveis serão pensados
em primeiro lugar pela empresa midiática, favorecendo
a estratégia mobile rst, própria da experiência móvel
1. Isadora Ortiz de Camargo é doutoranda no Programa de Pós Graduação
em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP/Brasil).
É pesquisadora do Grupo de Comunicação Digital da USP, COM+, onde
desenvolve estudos sobre mobilidade digital, jornalismo em mobilidade,
empresas jornalísticas, criação de valor e engajamento. E-mail:
isadoraortizdecamargo@gmail.com
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios
em jornalismo: O caso do NY Times
42
da atualidade. Como jornalismo em mobilidade entende-se o status do jor-
nalismo digital contemporâneo pensado no contexto da mobilidade, pode
ser trabalhado convergentemente, mas tem suas especicidades ligadas às
características técnicas dos dispositivos como tamanho da tela, capacida-
de de armazenamento, memória de processamento, geolocalização, touch
screen, entre outras.
Atualmente, pode-se dizer que uma parte do negócio digital das empresas
jornalísticas está focada na produção voltada para a condição de mobilida-
de, o que implica na comercialização desse segmento, o que confere mais
força a classicá-lo como tal, quase que um subgênero do jornalismo, se
pensarmos o jornalismo digital(ciberjornalismo) como gênero do campo. A
experiência móvel e de leitura móvel exigirá liberação das amarras e das
certezas das empresasjornalísticas de que o leitor, por exemplo, vai ler uma
matéria longa no seu móvel.
Mais do que conteúdo multidia, interação e usabilidade, o jornalismo que
deverá ser produzido para esses dispositivos continuará concorrendo com
redes sociais, aplicativosde serviços e agregadores. Não dá para prever se
vai ser rentável ter o próprio app – que confere mais rapidez do que acessar
sites móveis pelo browser - e talvez seja mais vantajoso manter lugar cativo
em canais de distribuição como o Facebook ou ainda manter novidades que
atraiam esta audiência (CAMARGO, 2015). Estas referências de denição
aplicadas às redações jornalísticas ajudam a entender como as empresas de
mídia enxergam e assimilam a mobilidade como diferencial de seus mode-
los editoriais e comerciais.
O NYTimes, um dos precursores midiáticos dessa área, desde 2010, quando
lançou o primeiro produto móvel e começou ainvestir na ideia de integração
da redação por estar em um ecossistema digital, passa aperceber mudan-
ças e previu tendências de mercado e consumo de notícias online, alémda
possibilidade de criação de formatos diferenciados pelo potencial da rede;ex-
periências móveis e inovação do jornalismo. Neste cenário do NYTimes que
Isadora Ortiz de Camargo 43
foi se remodelando entre 2010 e 2015, montou-se um mapa estratégico
(Figura 1) que serve para planicar a tríade de elementos cruciais para o
jornalismo em mobilidade damarca.
O mapa foi montado a partir de referências/dados da pesquisa de campo
e darevisão bibliográca teórica, a m de resumir a interpretação do po-
sicionamentoestratégico atual que vem sendo incorporado pelo NYTimes,
onde métrica,customização e curadoria são protagonistas das ações táticas.
1. Métrica como centro do movimento de integração digital da redação do
NYTimes; 2. Customização de conteúdo - como as equipes começaram a se
dividir dentro daredação, como surgiram novos departamentos envolvidos
com cultura digital e como osnovos produtos ou os tradicionais foram repa-
ginados, 3. Curadoria de informação - a aposta de inovação do jornal e de
relacionamentoindireto com a concorrência.
Figura 1 - Mapa Estratégico Básico das ações do NYTimes (2010-2015)
*Fonte: Autora, 2015
Nesses três pontos da pirâmide estratégica - que se forma junto com as
questões de posicionamento e ações táticas do periódico -, a certeza do
conhecimento da audiência, das especicidades e necessidades de seus pú-
blicos age como paradigma ou pano de fundo do pensamento de mercado e
do papel social da marca jornalística. Esta,então, se consolida e se ressigni-
ca entre seus leitores, justamente por transparecercuidado na produção de
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios
em jornalismo: O caso do NY Times
44
conteúdo, onde investimentos em tecnologias, ferramentas,equipe treinada,
tendências contemporâneas são somados aos tradicionais aportes de umjor-
nalismo de qualidade ideal, como apuração e profundidade.
Assim, é possível dizer que dentro da empresa midiática NYTimes, oposicio-
namento estratégico da empresa no ano de 2014 foi pautado, especialmente,
narelão blico-marca, o que desencadeou os três pilares que formam
um cenárioprático e real do jornal. Por conseqüência, as ações táticas deri-
vadas deste cenáriorepresentado pela pirâmide ilustrativa (ver Figura 7) são
focadas no desenvolvimento desistemas operacionais próprios, arquitetura
e design, narrativas diferenciadas parageração de conteúdo de qualidade
compartilhado, além da prospecção feita em relação à concorrência, isto
é, selecionar informações de outros grupos de comunicação, empacotar e
oferecer para o leitor é um jeito de garantir o poder e status da marca em-
seu local de abrangência, segundo a própria equipe do jornal. Também é
possível destacar a importância de relacionar gestão estratégica emodelo de
negócios com a perspectiva de rotina produtiva das mídias móveis.
II. Modelos de negócios e preceitos para análise do NYTimes
Antes de dedicar os aportes teóricos à gestão dos produtos móveis jornalís-
ticos dentro das empresas na era digital, é preciso ressaltar que os modelos
de negócios também estão sendo reformulados nas empresas visto a neces-
sidade de criar novos produtos digitais móveis e de entendê-los como parte
fundamental do jornalismo contemporâneo.
Neste artigo, entende-se o modelo de negócio e a concepção econômica do
ecossistema que é uma empresa jornalística serve como pano de fundo para
analisar casos pontuais vivenciados nas realidades norte americana e bra-
sileira, salvo o cenário sociocultural de cada país. Explora-se também o
modelo de estruturação da empresa jornalística (em termos de conteúdo,
negócio, distribuição, publicação e tecnologia) e das estratégias de mercado
como agentes de transformação da realidade midiática diante da crise eco-
nômica do jornalismo impresso e a possibilidade de emergência do digital
como mantenedor do veículo de comunicação.
Isadora Ortiz de Camargo 45
Da perspectiva de mercado, o valor econômico dos produtos midiáticos
depende do nível de satisfação de necessidades relacionadas ao mesmo. A
informação, então, passa a ter duas conotações reforçadas: 1) a informação
é um recurso econômico inserida na lógica de oferta e procura como qual-
quer produto; 2) a informação deixa de ser um bem público apenas, mas
um serviço que pode ser segmentado de acordo com o público que a acessa
(PICARD, 2013).
O papel do jornalista, a natureza e o formato dos conteúdos são fatores que
também precisam ser considerados no momento de análise.
Os tablets e smartphones, então, se estabelecem como mídias da contempo-
raneidade que exigem um olhar mais atendo dos gestores, já que transforma
a audiência, a interação e o consumo do conteúdo noticioso via dispositivos
móveis que pode contribuir com a sustentabilidade das empresas jornalísti-
cas, sendo balanceada com a queda da publicidade.
Neste sentido, a m de identicar um modelo de negócios próprio do caso
paradigmático que possa contribuir com a realidade de outros jornais im-
pressos do mundo que passam pela transição do impresso para o digital,
do ponto de vista econômico e conteudístico, tem-se em vista: o tamanho
das organizações, fontes de nanciamento, inovação vs tradição, criação de
valor em produtos (valor agregado e commoditie), formas de produção, pu-
blicação e distribuição, integração com redes sociais, análise de métricas,
convergência, tendências e, principalmente, a concepção do produto tablet e
do smartphone enquanto mídia.
Pode-se dizer que a análise se forma através de três questões decisivas para
reforçar a necessidade de estudo na área de estratégias para os produtos
móveis nos clássicos jornais impressos, que vivem um tempo de recongu-
ração do posicionamento empresarial diante da integração à tecnologia nas
redações; vivem também um cenário de incertezas em relação a esses pro-
dutos e à produção incessante de notícias para diversas plataformas, além
de como será cobrado o acesso. São elas:
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios
em jornalismo: O caso do NY Times
46
· Como aliar tradicional e inovação na produção de conteúdo convergente
para plataformas móveis?
· Como gestar estrutural e nanceiramente a redação digital dentro deste
latente segmento de jornalismo em mobilidade?
· Se existe denidos, quais os impacto da estratégia e o modelo de negócio
do caso paradigmático do NYTimes nas versões móveis?
Neste sentido de análise, baseada nos estudos de Picard (2013) e Canavilhas
(2013), a identicação de geração de valor pode ajudar na constituição da
estratégia de negócio de uma mídia e, especialmente, no estudo de caso en-
tender que a credibilidade ainda continua sendo o principal do jornalismo e
que, atualmente, os leitores/usuários estão dispostos a pagar por entreteni-
mento e não por notícia, sendo inuenciadores da construção dos produtos
noticiosos em móveis como possíveis exemplos de rendimento de jornais,
por exemplo.
Assim, o NYT (por ser o único jornal do mundo que se prepara para manter-
-se da receita digital), pode ser um caso paradigmático e exemplicador de
uma nova realidade do jornalismo em mobilidade.Vale destacar que será
necessário analisar os produtos móveis juntos com a homepage do site da
marca, pois são três plataformas midiáticas da ambiência digital e, por isso,
são pensadas juntas com o objetivo de disponibilizar o mesmo conteúdo de
qualidade, mas adaptado para cada uma delas.
III. Jornalismo em Mobilidade no NYTimes
Como já explorado anteriormente, a mobilidade passa a ser o grande foco
do mercado da comunicação, pervasivo, ubíquo e complexo, o que modica
as relações de negócios e impulsiona dinamicidade ao campo, tendência da
atualidade digital (SAAD, 2013).
Produzir para o ambiente móvel, ser móvel ou ter conteúdo nativo são de-
saos para entrar neste espectro de consumo dos últimos cinco anos. Por
isso, inferimos que seria adequado pensar em três C’s para denir mobi-
lidade na era digital das empresas jornalísticas: 1) Consumerização; 2)
Isadora Ortiz de Camargo 47
Complexidade; 3) Consolidação das ações. Os três itens têm por nalidade
ajudar a construir um pensamento de produção de jornalismo de qualidade
e, entendemos, que é válido pontuá-los como interpretações provenientes da
experiência dos usuários diante da condição de mobilidade.
Com o NYTimes não podia ser diferente. Algumas decisões recentes da
diretoria da empresa comprovam que o jornalismo produzido para ou nos
dispositivos móveis é a experiência que a equipe quer mais desenvolver.
Exemplo disso foram as iniciativas de parceria com o Facebook em maio de
2015 para publicar conteúdos noticiosos diretamente e diferenciadamente
em uma página dirigida da rede social chamada Instant Article.
No mês de junho de 2015, a marca também divulgou outra ação com foco
em mobilidade - um experimento com funcionários, os quais, durante uma
semana, teriam acessos à homepage via desktop bloqueados na sede do
Times. A ideia foi promover o acesso através do tablet e do celular. Ambas
ações foram táticas para enfatizar a importância da experiência móvel, que
abarcaria mais da metade do tráfego de audiência da empresa, segundo o
memorando divulgado pela diretoria do jornal na ocasião do experimento2.
Vale relembrar que alguns indicadores podem justicar previamente o ce-
nário promissor do NYTimes na ambiência móvel. Nos Estados Unidos, país
onde o jornal impresso circula e a marca é tradicionalmente associada a
ações estartégicas tecnológicas, 1 em cada 15 americanos usam apenas o
smartphone como fonte de informação, o que representa 20% da população
acessando conteúdos informativos somente pelo celular. A cada cinco inter-
nautas estadounidentes, quatro têm smartphones, segundo a Global Web
Index de 2014. Dados como estes também foram apresentados no capítulo
introdutório desta dissertação.
2. O memorando foi divulgado no dia 12 de junho de 2015 e circulou internamente para engajar os
funcionários do NYTimes a acessarem as notícias via dispositivos móveis. Este documento também foi
divulgado por sites especializados norte-americanos, como o Poynter e pode ser acessado através do
link: http://www.poynter.org/news/mediawire/350867/nyt-will-block-employee-access-to-desktop-ho
mpage-for-a-week/. Acesso em 15/06/2015.
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios
em jornalismo: O caso do NY Times
48
Outra maneira de explorar as afordances dos produtos móveis e a dinâ-
mica desse mercado é o uso das análises de medição de audiência online,
as métricas que vêm sendo utilizadas pela marca como uma forma de re-
conhecimento do acesso dos espaços de informação disponibilizados pelo
Times. O investimento em métricas, que será detalhado a seguir, reforça a
dinâmica da estratégia digital do empresa e acompanha o crescimento da
área (espécie de editoria) móvel.
Em visita ao jornal em 2014, percebeu-se que o NYTimes investe na es-
tratégia de Digital First, caminhando cada vez mais para aumentar os
investimentos no móvel a m de nos próximos anos se constituir Mobile
First. Para isso, alguns dos assuntos tratados nos próximos capítulos como
investimentos, dinâmica de trabalho, métricas e otimização são chaves para
construir um mapa ou diagnóstico desta que é uma das empresas de mídia
mais tradicionais do mundo, e que, ao mesmo tempo, mantém atualização
de seus produtos em consonância com a tecnologia disponível no mercado.
Consideramos este comportamento como uma iniciativa de reinvenção e/
ou adaptação da empresa ao contexto pós-moderno, já caracterizado nos
capítulos iniciais, o que pode ser uma forma de enquadrar um processo de
inovação.
Exemplo do que classicamos como processo de inovação também foi dado
pelo Times quando, no início de 2014, a diretoria da marca publicou um
relatório de inovação, onde apontou pontos positivos e negativos da rotina
do jornal impresso e digital, além de analisar a concorrência e vislumbrar
metas para serem alcançadas em um futuro próximo. Esta visão de auto-
-crítica ou avaliação da empresa nos faz considerar o papel de reinvenção
que vem acontecendo dentro do NYTimes nesta última década (2010 a
2015), o que será detalhado mais profundamente nos próximos tópicos.
Mas antes, vamos explicar como a pesquisa foi pensada e desenvolvida
metodologicamente.
Isadora Ortiz de Camargo 49
Em maio de 2014, o NYTimes divulgou um balanço dos avanços, diculda-
des e propostas de inovação para o futuro do jornal com quatro sugestões
centrais: 1) criar uma equipe de analistas da redação para avaliar tendências,
matérias mais lidas etc; 2) criar uma equipe de estrategistas para analisar
o desempenho do jornal impresso e digital 3) colaborar com o desempenho
comercial e editorial; 4) priorizar o investimento na equipe do jornalismo
digital.
Em julho de 2013, Arthur Gregg Sulzberger, lho do presidente Arthur
Sulzberger Jr, deixou a editoria de Cidades e embarcou no desao proposto
pela editora executiva Jill Abramson para coordenar uma força-tarefa de
analisar e pensar novas estratégias para o jornal. O grupo comandado pelo
repórter chamado de “Time de Inovação da Redação” (Newsroom Innovation
Team) tinha o objetivo de propor novas formas de expandir as produções no
meio digital. Por dez meses, a equipe entrevistou cerca de 300 funcionários
da redação, analisou o mundo virtual da empresa, investigou documentos,
analisou situações e estratégias da redação, o que compôs o documento
conhecido como Relatório de Inovação do NYTimes. Uma semana após a
divulgação do mesmo, o presidente da empresa demitiu Abramson gerando
muita polêmica ao caso.
O documento destaca a qualidade editorial e a tradição do jornal, mas aponta
para desaos de adaptação necessária diante das tendências da ambiência
digital. Esta necessidade vai de encontro a um ambiente saturado e das dife-
rentes fontes de notícias em diversas plataformas digitais, um ecossistema
classicado como pulverizado e que pode ser avaliado como pós-industrial,
ainda que seja desaante para os jornalistas lidar com esta realidade de
assumir a notícia e seus desdobramentos quase que inesgotáveis com a
emergência das mídias sociais.
O relatório marca uma ão interessante em uma empresa jornalística: a
auto-avaliação e compreensão do status de produção e gestão que se encon-
tra. Neste sentido, entender o conceito de inovação é oportuno para entender
a importância do jornal para a indústria jornalística, partindo de um pres-
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios
em jornalismo: O caso do NY Times
50
suposto de que o jornal promove um circuito de inovações dinâmico em
seu ecossistema, como zemos no capítulo 2. Vale dizer que o relatório de
inovação estava sendo nalizado quando a pesquisa de campo foi realizada,
e, por isso, em alguns momentos serão citadas questões desaantes pelos
entrevistados, as mesmas ou em sintonia com as apontadas no relatório.
Para esclarecer o que seria um ciclo de inovação e estratégias, nos apoiamos
em Christensen (2012), que aponta o mesmo como um processo gerador de
disrupções, e que pressupõe dinamicidade. Mas para o autor não vale dizer
que inovação é disrupção o rupturas, e sim ao contrário.
Novamente, reforça-se que são muitas as denições de inovação, mas ela
pode ser entendida como a capacidade de uma empresa gestar atividades,
mudanças, habilidades do público por meio de ideias e insights que geram
processos, produtos e resultados, por isso inovação é um conceito de-
pendente de criatividade e mudança, conceitos que são “mantras” para a
indústria midiática (SAAD, 2014), que estão vivendo um dilema da inovação
(CHRISTENSEN, 2012).
No jornalismo, o uso da tecnologia como um agente gerador de rupturas
para o estabelecimento de estratégias digitais podem permitir reinventar
soluções criativas que agreguem novos desaos, valores, parcerias e so-
luções para as gestões das empresas jornalísticas, otimização para seus
conteúdos, por exemplo.
Conceitos relacionados à inovação e estratégias de negócios no campo
do jornalismo (CHRISTENSEN e SKOK, 2012; SAAD, 2013; BUSTOS e
URANGA, 2011;) são preponderantes na avaliação dos modelos de negócio
social (MILLER, 2013), que pode ser explicado através dos produtos criados
pelas empresas jornalísticas, no caso NYTimes, para serem mais ecientes
à audiência, e até rentáveis.
Isadora Ortiz de Camargo 51
Este cenário, ainda, é moldado com o impacto das novas tecnologias e da
demanda das mídias sociais como entes reformuladores das rotinas de pro-
dução jornalística. Jornalistas não apenas reportam, mas devem ter olhar
voltado para sua audiência, gerando valores ao conteúdo apurado e divulga-
do (PICARD, 2013).
De olho nesta abordagem teórica e na produção do NYTimes, classicamos
a marca como referência mundial por causa de seu ciclo de inovação, que se
pauta pela ousadia e pretensão da empresa em otimizar plataformas, con-
tinuar acreditando no jornalismo de profundidade e em investimentos de
risco - contratação na área digital -, além de conceber a leitura e o comporta-
mento do leitor com fator central para o desenvolvimento de estratégias de
gestão da área ‘móvel’.
Pode-se dizer que NYTimes é inovador a partir de seu capital simbólico - sua
marca entre seus concorrentes -, que muda de acordo com a estratégia e
posicionamento do grupo e, consequentemente, impacta no mercado e na
audiência.
O ciclo de inovação tecnológico do NYTimes se molda pelas ações contínuas
do grupo, que com seu posicionamento estratégico é pioneiro na indústria da
informação no mundo e se coloca como um “puxador” ou “impulsionador”
de outras empresas, que o levam como exemplo e o usam como referên-
cia na criação de seus produtos. Organizações brasileiras, como Folha de
S. Paulo (SP) e Gazeta do Povo (PR) já divulgaram inspirar algumas de suas
ações nas desenvolvidas pelo Times, por exemplo.
Por esses motivos citados, entendemos o relatório de inovação como um
documento que, de certa forma, destaca esse processo de reinvenção cons-
tante na empresa e o sucesso que vêm sendo alcançado pela marca diante
de desaos da atualidade impostos através dos avanços tecnológicos. O dos-
siê diz, por exemplo:
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios
em jornalismo: O caso do NY Times
52
apenas sete anos, os jornalistas do impresso e do digital trabalha-
vam em prédios separados. Desde então, muitos progressos. A cada ano,
operações tradicionais e digitais se tornaram mais integradas. A cada
ano, nosso alcance se expande em novas plataformas. A cada ano te-
mos produzido um jornalismo digital mais inovador. Este processo não
tem sido fácil. A imprensa e o digital são diferentes de modos incontá-
veis, estabelecendo exigências divergentes. Às vezes, valorizamos mais
a deliberação do que a velocidade; mais a tradição do que a mudança.
Mesmo assim, e não se trata de animar a torcida: nenhuma empresa do
ramo tem obtido mais sucesso nessa transição para o digital que o The
New York Times (SULZBERGER, 2014, p.45).
Em 2012, por exemplo, o NYTimes alcançou um marco histórico quando
sua receita proveniente de assinaturas superou pela primeira vez a receita
de anúncios. O paradigma da sobrevivência do jornal impresso graças à pu-
blicidade também foi esfacelado diante dos dados de crescimento da receita
de assinaturas digitais, que subiu 10,4% na época, segundo o documento.
Tais indicadores ajudam a reforçar a posição dianteira no jornalismo digital
atual se comparado a seus pares.
Baseado nas explicações contidas no relatório e nas últimas ações do Times,
apresentaremos nos próximos tópicos alguns temas importantes para o
desenvolvimento da área digital da marca, os quais o detalhamento foi
possível através das entrevistas dirigidas realizadas com gestores da área
em abril de 2014 como desenvolvimento da metodologia desta pesquisa. Os
apontamentos são base dos dados coletados, da observação não-participante
e da revisão bibliográca feita até o primeiro semestre de 2015, pouco antes
da entrega deste trabalho.
Isadora Ortiz de Camargo 53
Audiência dos produtos NYTimes
30 M
Leitores da web nos
EUA por mês
20 M
Leitores móveis nos
EUA por mês
13,5 M
Público dos alertas de
notícias
11,3 M
Seguidores no Twitter
6,5 M
Assinantes da
newsletter
5,7 M
Seguidores no
Facebook
1,25 M
Assinantes do
impresso
760 K
Assinantes digitais
*Fonte: “The Times Reaches a vast print and Digital Audience”, Relatório de Inovação do
New York Times, 2014, Sumário Executivo, p. 4
Estes indicadores ajudam a monetizar o valor da marca, que agrega prestígio
a cada ação divulgada por representar um legado de empresa com tradição
familiar e cultura de redação centenária, mas que desenvolve ações digitais
acompanhando sua época e a mudança de comportamento de seus leitores,
sendo caracterizado por pesquisadores como um caso “único e atípico”, de
forte senso de prossionalismo no jornalismo acompanhado de desaos -
nanceiros (PETRE, 2015).
Na ambiência móvel, o jornal norte-americano começou o ano de 2014 com
um novo produto à época, o aplicativo para celulares NYT Now (extinto pelo
jornal desde agosto de 2016). Como uma grande expectativa de curiosos do
campo e pesquisadores, a marca se colocaria novamente a frente de seus
concorrentes no ‘empacotamento’ e distribuição de conteúdo - desta vez,
inovando em um aspecto especial, a curadoria de notícias. E esse é um dos
exemplos recentes dos produtos digitais do jornal, pensados essencialmen-
te para o mercado do consumo de informações em ferramentas móveis de
interação, que, no entanto, foi extinto para manutenção apenas de um único
aplicativo de notícias.
Ainda assim, antes de considerar o aplicativo como um dos mais arroja-
dos do gênero e do momento móvel do jornal, é preciso entender como foi
conduzida a estratégia digital do NYTimes nos últimos quatro anos para
o momento móvel - desde 2010 com o lançamento da versão do jornal em
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios
em jornalismo: O caso do NY Times
54
dispositivos móveis. E, neste contexto de pesquisa, será que a equipe real-
mente integrou a redação impressa à digital com produção jornalística
pautada através de suas mídias, especialmente as móveis?
Para começar, temos que caracterizar o investimento no cenário do jor-
nalismo produzido em dispositivos móveis no NYTimes, que é baseado
anualmente nos rendimentos da empresa no setor, chegando em 2014 a 10%
(levando em conta que os números brutos não foram revelados durante a
entrevista) dirigidos aos produtos móveis, algo considerado pequeno pelos
próprios dirigentes da equipe de digital, visto a enorme necessidade da área
investir em infraestrutura e logística (em mobilidade).
Para o NY Times, mobilidade é um plano desenvolvido na redão com estra-
tégias focadas, primeiramente, na questão de “espaço”, isto é, a situação de
“estar móvel” permite circular por vários espaços e com a dinâmica deste
precedente comportamental é possível testar muitos projetos neste âmbito.
Uma primeira prerrogativa sobre “mobal” (como os editores gostam de
se referenciar) foi dada pela diretora executiva de produtos móveis Alex
Hardiman é como desenvolver esse tipo de experiência de notícias em um
celular ou em um tablet, o que gera desaos para manter um maior tempo
de permanência do usuário dentro do produto, que parte do pressuposto de
estar em todo lugar e ser possível de acessar a qualquer momento. Assim,
começaram-se os testes em sistemas iOS e Android, onde design e certica-
ção do comportamento da audiência foram os primeiros passos da denição
de posicionamento tático da área móvel do Times.
A empresa passa a imagem de um ‘jornal’/marca inovador e a frente de seu
tempo no quesito digital. Outras situações impactantes para uma melhor de-
nição de estratégias, ações táticas e comportamentos editoriais da marca
foi o seu relatório de inovação, citado anteriormente, onde potencialidades e
demandas da redação foram explicitadas ao público como desaos a serem
cumpridos em um futuro próximo. Além do relatório, o Times anunciou em
fevereiro de 2015 que as reuniões de pauta seriam conduzidas baseadas na
versão digital, isto é, a tradicional reunião chamada de “Page One meeting
Isadora Ortiz de Camargo 55
(reunião de primeira página da versão impressa) irá se adequar aos novos
tempos para melhor desenvolver produtos digitais (NABUCO e NUNES,
2015). As reuniões diárias vão priorizar a escolha das matérias que deverão
ter maior destaque no site do NYTimes e a tarde, outra decidirá as notícias
da capa do impresso.
O Times é um dos jornais que mais investem no processo de transição
do impresso para o digital, pensando em novos produtos e realizando
análises críticas de como esse processo é conduzido. Ainda assim, o
diário resistia a reconhecer a importância de um planejamento voltado
primordialmente para sua versão digital, como alguns grandes jornais,
como o britânico The Guardian, vêm fazendo há alguns anos. Segundo o
editor-executivo do Times, Dean Baquet, a mudança “é um pequeno mas
signicativo passo na transformação digital do jornal e uma tentativa de
elevar a primazia das plataformas digitais na rotina diária da redação”.
(NABUCO e NUNES, 2015, online)3
Com a mudança, a estratégia proeminente do jornal foi garantir uma inde-
pendência das plataformas digitais em relação a versão impressa para que
cada vez menos não estejam atreladas e possam ser produtos diferentes, já
que atualmente as assinaturas digitais atingem o número de 800 mil no país
americano.
E essa é uma das estratégias mais recentes, que está associada ao que se
classicará nesta pesquisa como ‘posicionamento dirigido por horários e
plataformas’, pois o jornal entende que o seu público el entra em contato
com seus produtos diversos em diferentes períodos do dia. Em geral, de
acordo com os editores entrevistados para esta pesquisa, o período da ma-
nhã é dividido entre a leitura da versão impressa no café da manhã, entre
7h e 9h, e o acesso a versão móvel no smartphone antes de chegar no tra-
balho, em uma espécie de checagem no trânsito, por exemplo, entre às 10h
3. ‘NYT’ muda foco de reunião para priorizar plataformas digitais, texto divulgado no Observatório da
Imprensa. Tradução: Pedro Nabuco, edição de Leticia Nunes. Informações de Mathew Ingram [“At long
last, theNew York Times is thinking about digital rst”, GigaOm, 19/2/15] e Benjamin Mullin [“Dean
Baquet:NY Twill retire system of pitching stories for the print Page 1”, Poynter, 19/2/15]
Mobilidade como fator diferencial dos modelos de negócios
em jornalismo: O caso do NY Times
56
e 11h. Nos horários que seguem, incluindo o período da tarde, o leitor do
NYTimes deve acessar a home do site, onde ele segue acompanhando as
notícias do dia do computador do trabalho, segundo as estimativas dos ges-
tores entrevistados (os nomes serão detalhados nos próximos tópicos). No
nal da tarde, o leitor deve voltar acessar o smartphone no caminho de volta
à casa e, por m, durante a noite, faz uma última checagem de notícias pela
versão tablet, em um ambiente despojado, mais confortável, o que seria um
momento pré-descanso. Dessa maneira, o “combo” do Times estaria incor-
porado todos os momentos do dia na vida de seu assinante ideal.
Não é o objetivo deste relato indicar se essa é a melhor forma de entender
a mobilidade como estratégia diferencial, mas é uma maneira que associa
uma experiência centenária da organização que tenta utilizar tecnologia
com produções padronizadas e focadas no estilo mais longo, aprofundado e
multimídia do NYTimes.
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DISPOSITIVOS MÓVEIS NA CONSTRUÇÃO
DA NOTÍCIA: A EXPERIÊNCIA DO PORTAL
REGIONAL NE10
Ivo Henrique Dantas1
Heitor Costa Lima da Rocha2
A internet encontra-se em um estado de beta perpé-
tuo, reinventando-se a cada momento, disponibilizando
novas ferramentas e modicando as formas com que
nos relacionamos e publicamos conteúdos na rede.
Atualmente, existem 168 milhões de smartphones em
uso no Brasil, segundo dados da Fundação Getúlio
Vargas (FGV)3. De acordo com o mesmo estudo, até
2018, a tendência é que esse número chegue a mais de
230 milhões de celulares conectados à internet.
Tais dados demostram a alta penetração dos aparelhos
móveis no território nacional. Um cenário que, inevita-
velmente, traz mudanças importantes nas formas de
consumo de notícias, bem como na produção desses
conteúdos nas redações dos portais.
A partir do acesso através de dispositivos móveis, a
navegação na rede passa a ser possível a partir de pra-
ticamente de qualquer lugar. Tablets e smartphones
possibilitam um desprendimento cada vez maior dos
limites impostos por tecnologias centradas em grandes
equipamentos e cabos de telefonia, como era comum ao
1. Ivo Henrique Dantas é doutorando do Programa de Pós- Graduação em
Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGCOM|UFPE),
mestre pela mesma instituição, jornalista formado pela Universidade
Católica de Pernambuco, email: ivohenrique.dantas@gmail.com
2. Heitor Costa Lima da Rocha é doutor e professor no PPGCOM-UFPE,
email: hclrocha@gmail.com
3. http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/04/1761310-numero-de-
smartphones-em-uso-no-brasil-chega-a-168-milhoes-diz-estudo.shtml
Disposi tivos móveis na constr ução da notícia: a exper iência do portal
regional NE10
62
longo da Web 1.0 e início da Web 2.0. “Era uma internet com os obstáculos
das conexões. São os celulares que verdadeiramente trazem a liberdade de
movimentos no acesso à internet” (Canavilhas & Fidalgo, 2009, p.103).
Para efeitos do presente estudo, partimos do conceito de jornalismo móvel
desenvolvido por Silva (2015), que dene como:
a utilização de tecnologias móveis digitais e de conexões de redes sem
o pelo repórter na prática jornalística contemporânea visando ao de-
senvolvimento das etapas de apuração, produção e distribuição de
conteúdos do campo ou de transmissão ao vivo. (p.90)
Com os dispositivos móveis, as rotinas de produção de notícias passam
por uma das maiores mudanças da história do jornalismo. Antes, mesmo
com a existência da atualização contínua no webjornalismo, a publicação
dos materiais apurados fora da redação precisava passar por um complexo
processo logístico. Nos casos onde a urgência da notícia era basilar, os jor-
nalistas chegavam a narrar o texto para que editores dispostos em frente a
computadores pudessem publicar o material. Fotograas e vídeos somente
eram produzidos por prossionais especializados e demandavam tempo de
edição para, somente então, realizar o upload do arquivo na rede.
Através dos dispositivos móveis, os jornalistas passam a ter a possibilidade
de atualizar o portal com informações colhidas no lugar em que o aconteci-
mento é observado. Mais do que isso, os acontecimentos passam a poder ser
registrados também pelos usuários, enriquecendo a narrativa, ampliando o
alcance da redação e aproximando a notícia da noção de ubiquidade4.
Entendemos que o webjornalismo possui características que diferenciam o
seu fazer do jornalismo praticado em outros meios (Palacios, 2003). A co-
meçar pela nova dinâmica do tempo, esse tipo de jornalismo quebra com as
rotinas industriais estabelecidas no passado. Com a possibilidade de atuali-
4. Ubiquidade signica ser encontrado em todos os lugares, de forma simultânea.
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 63
zação contínua e sob a pressão do fetiche da velocidade (Moretzsohn, 2002),
o jornalista se vê diante da necessidade de adotar novas práticas de apura-
ção e produção da notícia.
Já no lado do usuário, Moura e Carneiro (2015), ao analisarem as mudan-
ças ocorridas no jornalismo neste novo ambiente de convergência (Jenkins,
2009), destacam entre os aspectos a serem estudados a dimensão de au-
diência ativa, voltada para o estudo das formas de participação do usuário
na construção da notícia.
Através das novas tecnologias, a interatividade com o conteúdo noticioso
pode ir além da resposta ao produto publicado pelos prossionais. Os in-
ternautas podem participar ativamente da produção dos conteúdos, seja
publicando através de blogues e suas contas em redes sociais, seja através
do envio de material para as redações dos portais.
Diante deste cenário, entendemos que as redes de internet móvel redenem
os processos de produção e recepção da webnotícia, devido a suas caracte-
rísticas intrínsecas, como a multimidialidade, interatividade e a atualização
contínua. Assim, nos cabe analisar as mudanças ocorridas com a expansão
do uso de smartphones e tablets por jornalistas e usuários.
A Pesquisa
O presente estudo se propõe a avaliar a utilização destas tecnologias na pro-
dução noticiosa do maior portal de notícias do Nordeste do Brasil, o NE10.
Criado em 1996, com 60% do conteúdo da versão impressa, o JC Online é
considerado uma das primeiras experiências dos jornais brasileiros na
World Wide Web. O portal faz parte do Sistema Jornal do Commercio de
Comunicação (SJCC), que também engloba o Jornal do Commercio, TV Jornal
e Rádio Jornal.
Em 2002, passou a ser considerado um portal, e não mais apenas o site do
Jornal do Commercio. Desde essa época, porém, havia um debate interno so-
bre a necessidade de criar um portal que se desvinculasse do próprio nome
Disposi tivos móveis na constr ução da notícia: a exper iência do portal
regional NE10
64
do jornal. Assim, no dia 19 de março de 2011, o Sistema Jornal do Commercio
de Comunicação lançou o novo portal do grupo de mídia, o NE10. O novo
endereço surgiu com a promessa de reetir os novos tempos da internet.
A audiência do portal divulgada pelo departamento de marketing atinge pi-
cos de 51 milhões de pageviews mensais acessados através de computadores
e 10 milhões de acessos via equipamentos móveis, o que já respondem por
1/5 dos números gerais. A característica regional do NE10 ca evidente no
dado de que 70% dos usuários vêm do Nordeste brasileiro.
O SJCC conta com sites para cada um dos veículos de comunicação que
fazem parte do grupo, mas os principais conteúdos ganham destaque na
homepage do NE10, que atua como porta de entrada para o sistema e guarda-
-chuva para todos os projetos desenvolvidos para o meio digital.
A análise parte das notícias chamadas na homepage do portal NE10 publica-
das entre 27 de agosto a 27 de setembro de 2016. Também foram analisadas
as notícias disponibilizadas através da fanpage do NE10 no Facebook e nos
aplicativos ComuniQ e Por Aqui, ambos de propriedade do SJCC.
O estudo utilizou-se de uma análise qualitativa dos conteúdos supracitados,
bem como de entrevistas semiestruturadas com editores e repórteres, de
forma a identicar os impactos ocasionados pela utilização de dispositivos
móveis tanto na rotinas de produção, quanto no conteúdo das notícias.
Rotinas Móveis e Convergência
Historicamente, um dos maiores desaos do jornalista sempre foi lidar
com os limites espaciais e a pressão do tempo. Traquina (1999) observa que,
face à imprevisibilidade, as rotinas produtivas têm em sua fundamentação
o objetivo de dominar o tempo e o espaço. Desse modo, diante das poten-
cialidades viabilizadas pelas novas tecnologias, as mesmas tiveram que ser
revisadas, haja vista a readequação ao novo contexto em que estão inseri-
das. “As atuais rotinas de produção pressupõem o emprego de softwares,
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 65
de bases de dados, algoritmos, linguagens de programação e de publicação,
sistema de gerenciamento de informações..., entre outros. “ (Barbosa et al.,
2013, p. 11).
Com o avanço dos equipamentos de tecnologia móvel, o processo de pro-
dução da notícia assumiu um novo dinamismo, se desprendendo cada vez
mais das rotinas industriais, típicas do jornalismo impresso, que domina-
ram durante décadas as redações mundo afora.
Todavia, tais mudanças não têm sua origem em um período recente. Apesar
de acelerado pelos dispositivos móveis, o processo de modernização da
imprensa vem de muito antes, mais especicamente, dos anos 1980, que
contaram com um forte movimento de redução das redações dos jornais
brasileiros. Até a década de 70, era comum que os veículos contassem com
a mão-de-obra de centenas de jornalistas. (Kischinhesky, 2009).
no contexto do webjornalismo, o otimismo exagerado do mercado du-
rante os primeiros anos da internet comercial durante a Web 1.0 trouxe um
movimento sem precedentes de valorização dos prossionais. Com empre-
sas investindo na web sem nenhum tipo de planejamento ou estudo sobre as
potencialidades econômicas reais do novo meio, as redações dos primeiros
sites noticiosos contavam com jornalistas renomados no comando de gran-
des redações.
Mas o otimismo não durou muito. No início dos anos 2000, o estouro da
bolha pontocom, com a quebra de diversas empresas que haviam entrado
na bolsa de valores apostando alto no potencial da internet, se reetiu em
um enxugamento maciço das redações dos portais em todo o mundo. Não
bastasse isso, a Web 2.0, como cou conhecida a nova fase, modicou total-
mente as bases sobre as quais o jornalismo havia sido construído durante
o século XX.
Hoje, passado o otimismo do início da internet comercial e superado o es-
touro da bolha, o webjornalismo se posiciona em um novo momento, com
redações próprias, porém ainda enxutas.
Disposi tivos móveis na constr ução da notícia: a exper iência do portal
regional NE10
66
Com o novo cenário da Web 2.0 e a crescente penetração de dispositivos mó-
veis, as rotinas das empresas jornalísticas foram reestruturadas com base
nas promessas geradas pela convergência.
Nesse sentido, Salaverría (2003) estabelece quatro dimensões para anali-
sarmos como ocorre esse processo de convergência no campo jornalístico:
tecnológica, empresarial, prossional e comunicativa.
A dimensão tecnológica diz respeito à inuência que os equipamentos pos-
suem diante da reconguração de rotinas e técnicas na produção da notícia,
permitindo profundas alterações no fazer jornalístico.
No caso do objeto de estudo do presente artigo, o NE10, a utilização de dis-
positivos móveis na redação do portal começou ainda em 2007, inspirado na
experiência da agência de notícias Reuters. O projeto foi o primeiro do Brasil
a utilizar tecnologia de terceira geração. “Dezesseis prossionais utilizaram
smartphones para registrar situações do dia a dia do Recife baseadas em
conteúdo de caráter jornalístico”(Silva, 2015, p. 30).
Hoje, conforme relata um dos editores do portal, Gustavo Belarmino, que
esteve presente durante todo o processo de evolução da presença digital do
SJCC, as tecnologias dominam as rotinas da redação. Reuniões de pauta
utilizam ferramentas e sistemas de gestão em que os repórteres podem
acompanhar e modicar o planejamento. Às segundas-feiras, a redação rea-
liza uma reunião presencial, que ca registrada através do aplicativo Google
Drive. Diariamente, os repórteres e editores atualizam o processo, anotan-
do, a partir dos dispositivos móveis, as pautas que foram realizadas, as que
caíram e aquelas que estão planejadas.
É uma pauta viva. Eu levo essa para a reunião que temos diariamente
com todos os veículos do sistema. Eu sei o que todas as equipes estão
produzindo, inclusive nosso correspondente no interior. Durante a reu-
nião dos editores, consigo ver quem está conectado na pauta. Já falo
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 67
com eles pelo WhatsApp. Hoje, é fundamental o uso dessas ferramentas
como balizadores da nossa rotina. (Belarmino, comunicação pessoal, 1
de setembro de 2016)
A segunda dimensão apontada é a empresarial, que diz respeito à inclusão
da internet dentro dos processos de diversicação midiática no negócio jor-
nalístico. Essa dimensão abarca a dinâmica econômica e organizacional das
empresas de mídia. Como apontado anteriormente, o SJCC começou a utili-
zar a internet como plataforma de produção e difusão de notícias ainda em
1996. De pra cá, o sistema passou por diversas mudanças, que culmina-
ram na estrutura atual, com rádio, TV, jornal impresso e internet.
Para Salaverría (2003), um dos principais desaos que se colocam para as
empresas jornalísticas nessa dimensão é superar a simples integração ge-
rencial para uma integração editorial entre os diversos meios que compõem
o sistema.
Apesar de não existir ainda uma integração plena entre todos os veículos do
SJCC, ca evidente o estágio avançado deste processo. Podemos observar a
distribuição das redações ocupando praticamente o mesmo espaço dentro
de um mesmo prédio. Destacamos a integração entre o jornal impresso e o
NE10 que chegam a compartilhar o mesmo andar, com as estações de traba-
lho dispostas com simples divisórias entre elas.
Essa convergência entre veículos e departamentos passará, em breve, por
mais uma mudança. Durante nosso período de entrevistas, presenciamos o
momento em que a direção do SJCC informou aos jornalistas que a equipe
de tecnologia da informação passaria a dividir o mesmo espaço que eles, na
expectativa de uma maior integração entre a redação e o setor de tecnologia.
Ao mesmo tempo, as reuniões de pautas em que participam os editores de
todos os veículos, bem como a existência de grupos de WhatsApp para a
coordenação de coberturas, deixam evidente uma integração avançada no
que concerne às estratégias informativas.
Disposi tivos móveis na constr ução da notícia: a exper iência do portal
regional NE10
68
a dimensão comunicativa diz respeito aos potenciais abertos para lin-
guagens especícas do ambiente digital. “Até a chegada da internet, não
existia nenhuma plataforma que permitia difundir mensagens informativas
que combinassem códigos textuais e audiovisuais, e com os quais o usuário
pode interagir” (Salaverría, 2003, p. 3).
Nesse sentido, a alta penetração dos dispositivos móveis na redação do NE10
acabou por possibilitar novos formatos para a webnotícia. Ainda em 2007,
os repórteres do portal realizavam transmissões ao vivo através de aplica-
tivos utilizando celulares Nokia N95. Hoje, as transmissões são realizadas
recorrentemente. Dois formatos caram evidentes durante a análise.
O primeiro diz respeito a cobertura do acontecimento em tempo real. O jor-
nalista entra ao vivo, direto da rua, através do canal do NE10 no Facebook.
Temos nesses casos uma tentativa clara de aproximação do potencial da ubi-
quidade, bem como a utilização da imagem como ferramenta para conferir
credibilidade à notícia.
O segundo formato se dá com o uso de equipamentos mais sosticados.
No meio do espaço em que se encontram instaladas as redações do portal
e do Jornal do Commercio foi idealizado um centro de geração de conteúdo
digital. Com o auxílio de um editor de vídeos e equipamentos como câmera
360 graus, tablets e notebooks, são colocados no ar diariamente programas
direto da redação. O formato possibilita a interação em tempo real com os
usuários através do Facebook.
Outro impacto vericado foi a utilização materiais multimídia captados
através de smartphones, com intuito de enriquecer a reportagem. No dia 27
de setembro, por exemplo, uma reportagem sobre um novo ponto turístico
criado pela Prefeitura do Recife foi veiculada no portal. Na notícia, pôde-se
vericar a presença do texto explicando o acontecimento, ladeado de uma
imagem do monumento, que foi capturada pelo repórter. Logo abaixo, um
vídeo, com uma entrevista com o secretário de turismo também foi produ-
zido pelo jornalista através de um smartphone.
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 69
Todavia, ao mesmo tempo em que avanços são percebidos na utilização
desses materiais, ainda vericamos a predominância do texto nas notícias
analisadas, demostrando que, mesmo nos dias de hoje, existem desaos a
serem superados no uso dos potenciais trazidos pela convergência e dispo-
sitivos móveis.
Por razões técnicas... o texto segue sendo, todavia, no ano de 2002, o
elemento protagonista nos meios digitais, mesmo que cada vez mais se
tenha um maior emprego de imagens estáticas e, em menor medida,
também de vídeos e gravações sonoras. A linguagem jornalística em-
pregada hoje na internet é, por esta razão, herdeira direta dos gêneros e
formatos que se vem utilizando há décadas no suporte impresso. (Sala-
verría, 2003, p. 3)
A última dimensão abarca os impactos diretos no trabalho dos jornalistas,
com a exigência de novos conhecimentos e o desempenho de várias funções.
No que concerne à noção de jornalista multitarefa, a adoção dos dispositi-
vos móveis reforça esse conceito (Kischinhevsky, 2009), com prossionais
voltados para a execução de mais de uma função dentro do processo de pro-
dução da notícia.
Ao se referir à multimidialidade, Salaverría (2014) defende que uma das
vertentes possíveis desse conceito se baseia na polivalência exercida pelos
jornalistas no novo ambiente de convergência das tecnologias digitais e re-
conguração da organização e práticas das empresas de mídia.
Para o autor, a gura do jornalista multimídia decorre de uma estratégia
para “poupar custos mediante a implementação de um perl de pros-
sionais capazes de desempenhar tarefas que outrora eram realizadas por
várias pessoas” (Salaverría, 2014, p.28).Assim, podemos observar três tipos
de polivalência presentes nas redações.
A polivalência mediática refere-se a um contexto em que o jornalista tra-
balha simultaneamente para diversos suportes. No caso do NE10, pôde-se
observar essa realidade disseminada pelas redações de todos os veículos
Disposi tivos móveis na constr ução da notícia: a exper iência do portal
regional NE10
70
atrelados ao sistema. O lema “Digital First” é fortemente difundido entre
os jornalistas, que recebem orientações para produzir conteúdos também
para a rede.
Tal polivalência foi vericada durante as entrevistas. Um exemplo é a repór-
ter Roberta Soares, que trabalha há praticamente duas décadas no Jornal do
Commercio. No organograma do SJCC, a jornalista encontra-se vinculada
ao caderno de Cidades do jornal impresso, responsável pela cobertura das
notícias locais. Na prática, os conteúdos são produzidos para mais de um
meio, mesmo que exista um foco principal no conteúdo para o veículo em
que o prossional trabalha. Prova disso está no blogue De Olho no Trânsito,
produzido pela repórter e publicado no portal do NE10 e no site do JC Online,
com notícias compartilhadas pela fanpage do portal no Facebook. Tal proces-
so foi vericado ainda através da editoria de veículos do jornal impresso,
com transmissões ao vivo e vídeos veiculados semanalmente pelo portal.
O segundo tipo é a polivalência funcional, que se relaciona de forma direta
com o conceito de jornalista multitarefa. Nesses casos, se assume mais de
uma função dentro do processo de produção da notícia. “Este é o tipo de
perl mais comum, quer entre os jornalistas que trabalham fora das reda-
ções, quer entre os jornalistas que realizam tarefas de edição” (Salaverría,
2014, p. 28).
Durante as entrevistas, comprovamos a hipótese de que esta polivalência
está presente na redação do NE10. A equipe recebe treinamento para atua-
lizar a homepage, caso necessário. Do mesmo modo, os editores participam
diretamente da produção de matérias. A editora Inês Calado participa de
transmissões ao vivo através do Facebook, como no Resenha Política, progra-
ma de debate realizado via streaming pela fanpage do portal.
Dependendo da urgência, eu mesmo edito no notebook e posto o quan-
to antes. Quando temos mais tempo, o JC tem uma equipe de editores
de vídeo, que fazem um ótimo trabalho não só na edição em si mas na
construção de uma identidade visual para o material do sistema. (Mota,
comunicação pessoal, 17 de setembro de 2016)
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 71
Seguindo a classicação, o terceiro tipo é denominado de polivalência temá-
tica. “Acontece quando um jornalista trabalha sem nenhuma especialização
informativa” (Salaverría, 2014, p.28).
No NE10, a estruturação da redação também deixa evidente esse tipo de
polivalência. Diante da necessidade de lidar com todos os potenciais do web-
jornalismo, a reduzida redação do portal acaba tendo que cobrir as diversas
áreas. O portal conta com oito jornalistas divididos entre editores e repórte-
res, quatro estagiários, dois designers e uma pessoa responsável pela gestão
de vídeos. Além disso, existe um correspondente na cidade de Caruaru, a
segunda maior do estado de Pernambuco.
Como visto anteriormente, tal equipe recebe contribuições de jornalistas
de outros veículos do SJCC. Ao mesmo tempo, apesar dessa polivalência
temática estar presente no núcleo do portal, os blogues possuem equipes
próprias dedicadas a áreas especícas de coberturas. Blog de Jamildo
(política e economia), Social 1 (coluna social) e Blog do Torcedor (esportes)
possuem temáticas bem denidas. “Todo mundo cobre tudo, mas os repór-
teres cam mais livres de últimas para investir nas produzidas. Por isso,
costumamos dividir por anidades pessoais. Fora isso, os blogues são seto-
rizados e tomam conta de suas áreas” (Belarmino, comunicação pessoal, 2
de setembro de 2016).
O Lugar do Público
A evolução da Web 2.0 trouxe consigo uma maior participação do público. À
medida em que as ferramentas de difusão de informações no ambiente on-
line passam a ser democratizadas, “o conteúdo gerado por cidadãos em um
mundo globalmente conectado pode ter um papel central para complemen-
tar o conteúdo jornalístico e midiático produzido prossionalmente” (Pavlik,
2014, p. 159).
Diante da grande difusão de dispositivos móveis, os portais passaram a in-
cluir em suas rotinas de produção projetos de jornalismo colaborativo, que
estimulem a participação do público.
Disposi tivos móveis na constr ução da notícia: a exper iência do portal
regional NE10
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Nesse sentido, a inserção do usuário no processo noticioso passa por dois
aspectos. Diante da necessidade de criar rotinas para dominar o tempo e o
espaço, como visto anteriormente, o jornalismo acaba por encontrar formas
alternativas de ampliar o alcance da redação. Foi com esse intuito que surgi-
ram as agências de notícias. Na tentativa de criar uma rede de informações
que não implicasse no aumento dos custos da empresa jornalística, mas que
garantisse uma maior capilaridade da redação sobre os acontecimentos em
lugares distantes.
Tida como uma das sete características denidoras do webjornalismo
(Pavlik, 2014), a ubiquidade apresenta-se como um fator de incessante bus-
ca pelas empresas de comunicação. O desejo de estar presente no local e na
hora do acontecimento sempre desempenhou um papel fundamental nas
estratégias da mídia.
Nos tempos atuais, existe uma nova reconguração no acesso aos meios,
com os custos do lado da produção respondendo por grande parte do negó-
cio jornalístico (Serra, 2003). Desse modo, a participação do público passa a
ser vista como forma de ampliação do alcance das redações, sem signicar
necessariamente um aumento nos custos, contribuindo ainda com uma bus-
ca pela ubiquidade.
Todavia, não podemos deixar de lado o fato de que, ao mesmo tempo em que
a participação ativa do usuário no processo produtivo faz jus às necessida-
des da empresa jornalística, ela também responde por um fenômeno que
vem ocorrendo no ambiente digital.
Li e Bernof (2008) aponta uma mudança que afeta diversas áreas prossio-
nais, antes vistas como únicas formas de atingir certos objetivos. As autoras
denominam tal fenômeno como Groundswell, algo como um forte movimen-
to de abalo sísmico, que pode ser denido como “uma tendência social na
qual as pessoas passam a utilizar as tecnologias para conseguir as coisas
que elas precisam, geralmente, entre elas ao invés de utilizar as instituições
tradicionais, como as corporações” (Li & Bernof, 2008, p. 9).
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 73
Particularmente no caso do jornalismo, tal efeito acaba exercendo impacto
marcante na forma de legitimação da atividade, já que, através do fácil aces-
so a meios de publicação pela internet, pessoas - que antes não possuíam
condições de tornar públicos certos acontecimentos e opiniões -, passaram
a trocar informações e criar consciência crítica sem a intermediação dos
veículos de imprensa e, consequentemente, dos jornalistas prossionais.
Assim, o jornalismo acaba por identicar a necessidade de reencontrar
formas de legitimação do seu lugar como intermediador de informações,
processo este que passa inevitavelmente por uma maior participação do
usuário.
Processo este possibilitado pelas novas tecnologias, através das quais, a in-
teratividade com o conteúdo noticioso pode ir além da resposta ao produto
publicado pelos prossionais. Os internautas podem desempenhar um papel
ativo na produção dos conteúdos, seja publicando através de blogues e suas
contas em redes sociais, seja através do envio de material para as redações
dos portais. “O celular permite não só uma maior informação do indivíduo,
mas também o capacita mais e melhor para um papel ativo no processo no-
ticioso dentro da sociedade” (Canavilhas & Fidalgo, 2009, p. 117).
O público tido, muitas vezes, pelos jornalistas como uma massa passiva dá
lugar a uma audiência participativa. Muito além da interação reativa des-
crita por Primo (1998), a expansão do acesso às ferramentas de publicação,
principalmente com o barateamento dos dispositivos móveis, forçam as
empresas jornalísticas a participarem de um novo jogo de forças em que a
audiência tem mais do que o simples poder do controle remoto ou da assina-
tura. Tem o poder da palavra e a possibilidade de ganhar visibilidade.
Analisemos como ocorre a colaboração do público no portal NE10. em
2013, foi desenvolvido o aplicativo ComuniQ para sistemas operacionais
Android e iOS. O App é voltado para a participação dos usuários na cons-
trução da notícia, através de dispositivos móveis, “e, a partir do material, os
jornalistas poderem ampliar seu raio de atuação tendo essas fontes como
referência” (Silva, 2013, p. 31). O aplicativo possibilita o envio de textos, fo-
Disposi tivos móveis na constr ução da notícia: a exper iência do portal
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tos e vídeos, que podem ser utilizados pelos jornalistas na construção de
notícias para o portal. Mesmo se a informação não for selecionada pelos
prossionais do NE10, os dados cam disponíveis para leitura e comentários
de outros usuários no próprio aplicativo.
Outro aplicativo do SJCC que coloca importante foco tanto na participação
dos leitores quanto nos dispositivos móveis é o Por Aqui. O App tem como
proposta ser um canal para produção colaborativa de notícias para bairros
especícos da cidade e tem suas notícias de destaque chamadas na home-
page do portal. No período da análise, apenas um bairro estava ativo no
sistema, Setúbal, localizado na Zona Sul do Recife. De acordo com o planeja-
mento apresentado, outros bairros deverão ser acrescentados ao longo dos
próximos meses.
Cabe, neste ponto, uma reexão acerca dos portais locais. Esses sites têm o
intuito de ser a porta de entrada para o universo da web. A grande diferença
destes portais está no foco. Neles, apesar de existirem notícias do mundo,
o conteúdo é voltado para um segmento localizado espacialmente. É nesse
contexto que se inserem todos os produtos desenvolvidos pelo NE10 para a
rede.
Ao estudarmos as denições estabelecidas por Castells (2011) do que ele
chama de Espaço de Lugares e Espaço de Fluxos, podemos realizar uma
aproximação entre os dois conceitos e a mobilidade característica desse ce-
nário atual.
O primeiro tipo de espaço seria a noção de local como território ísico, de-
nido, que conhecemos. Esses espaços são marcados por uma continuidade
ísica. Já o Espaço de Fluxos é consequência do desenvolvimento da comu-
nicação digital, capaz de colocar em contato atores de diferentes quadros
temporais e localizações. Seria, dessa forma, tudo o que envolve, atualmen-
te, a transmissão, produção e processamento dos uxos informacionais.
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 75
Ora, através da mobilidade os Espaços de Lugares passam a ter uma pos-
sibilidade cada vez mais instantânea de interação nos Espaços de Fluxos.
Nesse sentido, o jornalismo em seu papel de intermediador nas socieda-
des contemporâneas, acaba por incorporar cada vez mais esse processo de
transformações na produção da notícia.
Ao analisar a produção noticiosa em alguns veículos brasileiros, Silva (2009)
observa uma interação intrínseca entre o espaço urbano e o espaço digital
da internet. Percepção esta que corrobora com a aproximação percebida
pelo presente estudo entre os conceitos de espaços trabalhados por Castells
(2011).
Podemos dizer, utilizando os termos supracitados, que os portais locais
tentam situar os Espaços de Fluxos em um determinado Espaço de Lugar.
Explica-se: ao ter como principal característica o foco em um determinado
público situado espacialmente em um local denido, os portais locais aca-
bam por ‘localizar’ o acesso às informações.
No que tange ao jornalismo online, o modelo de portais locais parece
estar cumprindo a função de usar a informação segundo os critérios e
características próprias ao ambiente eletrônico – como a interatividade,
hipertextualidade, multimidialidade, customização de conteúdo – para
atrair os usuários de determinadas localidades para a rede, facilitando o
acesso a serviços, programação cultural, notícias, turismo, lazer, entre
outros assuntos pertinentes à cidade em que moram e sem pagar nada
por isso. (Barbosa, 2001, p. 10)
O foco na localização das notícias ca evidente ao constatarmos como se
a participação do leitor através dos aplicativos disponibilizados pelo SJCC.
No ComuniQ, as imagens enviadas possuíam um perl de reclamação de
serviços públicos, como saneamento, coleta de lixo, segurança e buracos
nas vias, bem como testemunha ocular de acontecimentos pela cidade.
Todas as imagens analisadas registravam o local em que a foto havia sido
tirada. Participação exemplicada na matéria “Torcedor do Santa Cruz é
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espancado”, publicada em 11 de setembro de 2016, que continha as cenas da
violência captadas por um usuário através do smartphone e enviadas através
do aplicativo.
Outro ponto que merece destaque é a existência de missões denidas pelos
gestores do serviço. Os leitores são instruídos a ativarem noticações para
quando as missões forem ativadas, pedindo a colaboração dos mesmos,
através do envio de arquivos de mídia pelos smartphones.
No caso do Por Aqui, o foco na proximidade entre os usuários e a notícia é
ainda maior, reforçando a aproximação apontada anteriormente entre os
Espaços de Lugares e Espaços de Fluxos. Por se tratar de um aplicativo de
jornalismo hiperlocal, que abarca acontecimentos em apenas um bairro da
cidade, o fator da geolocalização ca ainda mais forte, a ponto dos leitores
poderem ser noticados por meio da identicação de onde se encontram.
Além de sugerir pautas, os moradores do bairro podem colaborar publican-
do diretamente na plataforma, como em uma rede social. Cada usuário tem
login e foto. Usuários selecionados, ou que se ofereçam, podem ter seus lo-
gins facilmente modicados para “colaboradores”. Nesses casos, passa a ser
possível postar texto, foto, vídeo, áudio, arquivo em PDF. “O aplicativo per-
mite a publicação através do próprio smartphone, de forma intuitiva. A ideia
é se desvincular da produção jornalística tradicional, em que precisamos de
fotógrafo e editor de vídeo, por exemplo” (Ebrahim, comunicação pessoal, 6
de setembro de 2016).
O processo de colaboração existente através das ferramentas menciona-
das deixa evidente a diferenciação realizada pelos veículos de mídia quanto
ao papel do usuário na construção da notícia. Em todos os momentos, os
usuários são vistos como fontes de informações ou arquivos de mídia. O
processo de redação e publicação da notícia continua a cargo de jornalistas
prossionais. Evidência que comprova observação realizada por Rost (2014).
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 77
A cultura de participação está longe de implicar uma horizontalidade
total, pelo menos no jornalismo, e colide com as rotinas e os interesses
que governam nas redações. Que os utilizadores tenham maior poder
do que antes na construção da atualidade não quer dizer que, como mui-
tas vezes se arma, tenham alcançado o mesmo poder que os meios
de comunicação ou os seus jornalistas... 0s media mantêm o controlo
dessa participação e reservam para si o papel de gatekeeping em distin-
tas etapas do processo de elaboração da notícia. Desta forma, moderam
comentários, controlam o que se publica nas suas páginas no Facebook,
condicionam com as perguntas e opções de resposta nas pesquisas,
abrem a participação a determinados conteúdos e não a outros, selecio-
nam as fotograas e vídeos que os utilizadores enviam. (p. 55-56)
Potencial em Prática: do acontecimento à notícia
Ao longo do período em que realizamos as entrevistas e a análise de con-
teúdo, um caso se destacou por exemplicar grande parte dos elementos
discutidos anteriormente.
Na terça-feira, 30 de agosto de 2016, um clarão no céu da Região Metropolitana
do Recife - onde ca a sede do portal NE10 - chamou a atenção da população
local. Em poucos minutos, as redes sociais estavam preenchidas por relatos
e vídeos do acontecimento.
Eu estava na redação naquele momento. Por volta das 22:05 eu estava
conectada nas redes sociais e recebi o primeiro vídeo enviado por um
internauta através do Facebook. No mesmo momento, comecei a receber
mensagens do grupo do WhatsApp interno da redação. Praticamente
todos tinham visto o clarão no céu da cidade. (Padilha, comunicação
pessoal, 2 de setembro de 2016)
Podemos perceber os primeiros impactos dos dispositivos móveis sobre as
rotinas do fazer jornalístico. Ao identicarmos a utilização das redes so-
ciais como meio de alertar o portal sobre o clarão e enviar vídeos do fato,
observa-se a participação ativa dos usuários no processo de identicação do
Disposi tivos móveis na constr ução da notícia: a exper iência do portal
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acontecimento que merece virar notícia, bem como a extensão do alcance
da redação através de ferramentas de jornalismo colaborativo. Ao mesmo
tempo, reforça-se o papel da jornalista em selecionar e construir a narrativa
da notícia.
Do mesmo modo, a comunicação por meio do aplicativo de mensagens
WhatsApp entre os repórteres e editores - em um período em que não esta-
vam trabalhando - deu início a um processo de apuração do acontecimento e
organização das estratégias para cobertura. Através das conversas, um dos
repórteres armou que a origem do clarão teria sido próximo a sua residên-
cia e que iria checar o local.
Simultaneamente, a plantonista iniciou o processo de apuração. Logo, des-
cobriu que se tratava de uma explosão em uma subestação da Companhia
Energética de Pernambuco (Celpe). Mesmo nesta etapa de apuração, os dis-
positivos móveis se mostraram presentes, pois o contato com o assessor de
imprensa se deu através do celular, que, pelo horário, o mesmo não se
encontrava mais no escritório.
A convergência entre as redações dos diversos meios do SJCC foi verica-
da pois, após essa apuração inicial, a cobertura passou a ser coordenada
em conjunto com a equipe do Jornal do Commercio. Assim, as informações
passaram a ser partilhadas entre os veículos de forma a facilitar o processo
de apuração, mesmo que cada um dos meios produzissem materiais com
características próprias.
Enquanto a equipe do jornal se deslocava para a subestação, o jornalista do
portal já entrava ao vivo através do Facebook, diretamente do local. Ou seja,
através do smartphone, a notícia estava sendo colocada no ar poucos minu-
tos após iniciada a apuração. Tudo ocorreu em menos de dez minutos. Nesse
tempo, já existiam informações sucientes para colocar uma matéria no ar.
Durante os próximos 20 minutos, foram adicionadas imagens e vídeos.
Ivo Henr ique Dantas e Hei tor Costa Lima da Rocha 79
Através da observação deste caso, podemos identicar grande parte do
potencial que o uso de tecnologias móveis traz para o exercício do webjorna-
lismo. Desde a apuração da notícia, com a participação dos usuários, a troca
de informações entre os jornalistas e a conrmação do acontecimento, até
a distribuição do material através da entrada ao vivo do repórter, direto do
local do acontecimento. Destaca-se ainda que a transmissão se deu através
do Facebook, ao invés do endereço eletrônico do portal, demostrando a im-
portância das redes sociais na difusão da notícia.
Diante de todo o material analisado, compartilhamos do raciocínio estabe-
lecido por Barbosa (2009) sobre a necessidade do desenvolvimento de mais
pesquisas que estudem casos espalhados pelas diversas regiões do Brasil
- bem como por vários países -, de forma a identicar os modelos adotados
e os impactos que as tecnologias móveis e o cenário de convergência têm
sobre o fazer jornalístico.
O presente estudo se congura justamente imbuído desta proposta. Ao lon-
go das entrevistas, observações e análise de conteúdo, cou evidente que as
rotinas do portal NE10 encontram-se permeadas pelos dispositivos móveis,
alterando o processo de produção da notícia, a forma de apresentar tal con-
teúdo, bem como a relação do usuário com a informação. Ao mesmo tempo,
ainda há muito potencial para ser desenvolvido, de modo a aproveitar tudo o
que o cenário de convergência e os dispositivos móveis têm a oferecer.
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