ArticlePDF Available

Abstract and Figures

Outstanding challenges in Journalism are centred on business models; changing audience’s practices; declining audiences of print sales and the access to media by its homepage; mobile first acclaimed strategies; the ever-changing algorithm parameters of Social Media that directly affect the access and distribution of media content; the increase relevance of personalization in content and channel distribution (mobile applications, podcasts, messages, newsletters, etc.); the inherent and outstanding differences between media ecologies, ambient and technological environments; the need to recover core values of journalism like ethics, quality, credibility and transparency, in relation to start-ups, crowdsourcing and entrepreneurial successful initiatives; the notion of ‘news as a product’; and the balance between ad-blocking, native and sponsored advertising and content. Thus, essential individual traits, skills and mind-set, the future of journalism is foreseen in the form of professionals who (alone or in collaboration) are able to monetise content in innovative ways, connect to its publics in interactive new formats, grasps opportunities and respond to (and shape), its environment. Then, the abilities needed are: Produce on multiple platforms, understand the economics, build your brand, master match (filter, organize), clean and copy (curate), learn basic coding, know your audience and engage on social media. In this sense, transmedia narratives for journalism is an emerging field work in progress with enormous potential ahead. By adapting the Design Thinking approach to the journalism field; this essay aims to introduce a new way of examining journalism that allow to capture the affective, paradoxical and spontaneous features of the emerging initiatives and the digital, mobile and online ecosystems as well as capturing the holistic experience of the user experience because it employs the principles of design both to the physical process as well as to the way of thinking to solve extraordinarily and persisting difficult challenges in a system of organizations. Keywords: Design Thinking, Journalism, Mobile Journalism, Online Journalism, Transmedia Journalism http://www.revistaej.sopcom.pt/edicao/139
Content may be subject to copyright.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 1
ENSINO, PRÁTICAS E EXPERIÊNCIAS
NO JORNALISMO v.2
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 2
// FICHA TÉCNICA //
Revista Estudos de Jornalismo
Número 6, volume 2 (abr. 2017)
ISSN: 2182-7044
Site: www.revistaej.sopcom.pt
Contacto: revistaestudosjornalismo@gmail.com
// EDITOR //
Pedro Jerónimo
// SUB-EDITORA //
Nair Silva
// ORGANIZAÇÃO //
GT Jornalismo e Sociedade da SOPCOM
// NOTA EDITORIAL // Textos, imagens e referências
são da responsabilidade dos autores.
Foto de capa: Filipa Aguiar
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 3
Índice
Introdução
Helena Lima
4
O ensino do jornalismo e a Amazônia: problemas e desafios da
interdisciplinaridade
Maria Schirley Luft
7
Práticas laboratoriais no ensino do jornalismo: o caso do Urbi@Orbi e os
desafios da convergência mediática
Anabela Gradim e Ricardo Morais
21
Processos da ciência no jornalismo científico: Uma abordagem da narrativa
jornalística junto a estudantes de jornalismo
Ricardo Henrique Almeida Dias
38
A prática immunitas do jornalismo brasileiro nos 20 anos da Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa
José Cristian Góes
52
Journalism, Transmedia and Design Thinking
Ana Serrano Tellería
68
Distribuição e circulação de conteúdos jornalísticos em mídias sociais
contemporâneas: o Instant Articles do Facebook e o Accelerated Mobile Pages
do Google
Mariana Guedes Conde e Thiago Pereira Falcão
88
Estudio sobre la infografía en el ciberperiodismo portugués
Júlio Costa Pinto
99
Interatividade em websites de jornais online no Brasil
Marlise Brenol, Patrícia Specht e Beatriz Dornelles
120
Revista Já: uma experiência coletiva para pensar um conteúdo interativo
Elva Gladis, Gabriela Damaceno, Janine Silva, Luiz Fernando de Oliveira, Natália Duane
de Souza, Priscila Oliveira dos Anjos e Rita de Cássia Romeiro Paulino
138
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 4
Helena Lima
Coordenadora do GT Jornalismo e Sociedade
da SOPCOM
A temática da presente edição da revista Estudos de Jornalismo n.º 6, volume 2
continua a ter como base o 3.º Encontro do GT Jornalismo e Sociedade da SOPCOM (25 de
novembro de 2016, Faculdade de Letras da Universidade do Porto). Assim, os textos aqui
incluídos versam não só sobre as comunicações aí apresentadas, como também sobre os
trabalhos propostos a esta edição da revista. Em comum, o “Ensino, práticas e experiências no
jornalismo”.
Correspondendo à temática lançada, as comunicações aqui publicadas abordam os
desafios que se apresentam ao Jornalismo e que foram emergindo nas últimas décadas,
nomeadamente desde o aparecimento da Internet, a Web 2.0 e as ferramentas da
interatividade, cujas potencialidades foram amplificadas pela omnipresença das redes sociais.
Por outro lado, a ubiquidade permitida pelos dispositivos móveis, suscitou novas
abordagens em termos de partilha de conteúdos e modelos de convergência dos media, no
campo dos negócios, mas também nos formatos discursivos. Mais recentemente, quer a Web
3.0, quer as potencialidades da realidade virtual e aumentada, abrem um admirável mundo
novo, em que os jornalistas são chamados a responder a novos desafios.
Os avanços das novas tecnologias implicam uma readaptação dos profissionais e das
empresas de media, de maneira a poder corresponder às expetativas de públicos mais
exigentes, mas também porque as novas narrativas de base tecnológica podem ser uma forma
de superação da crise vivida no mercado dos médias noticiosos. As universidades podem ter
aqui um papel essencial na formação de novas gerações com know-how no campo da
permanente inovação das tecnologias. O meio académico pode ser, pela sua ação de inovação,
uma forma de garantir às redações uma formação mais especializada nestes produtos mais
experimentais através dos novos licenciados, da mesma maneira que estes têm sabido
corresponder à necessidade de produzir conteúdos noticiosos na linguagem multimédia. São
estes os desafios que se colocam e são sobre alguns destes aspetos que os textos aqui
apresentados procuram refletir. As comunicações apresentadas neste mero da revista dão-
nos uma visão multifacetada de experiências no campo do ensino e do jornalismo digital.
O primeiro conjunto de textos foca-se sobre as práticas do ensino do jornalismo, onde
se podem verificar diferentes abordagens e modelos com intenções muito direcionadas. O
artigo de Maria Schirley Luft, “O ensino do Jornalismo e a Amazônia: problemas e desafios da
interdisciplinaridade”, foca a interdisciplinaridade entre jornalismo e meio ambiente, dentro do
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 5
contexto amazónico. As novas diretrizes curriculares brasileiras para os cursos de jornalismo,
propõem a introdução de novos conteúdos, como meio ambiente, sustentabilidade e outras
problemáticas. A autora reflete sobre as possíveis repercussões da integração de novos
saberes no campo jornalístico explorando, a sua funcionalidade no plano curricular do Curso de
Jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR), implantada em 2015.
O segundo artigo, de autoria de Anabela Gradim e Ricardo Morais, intitula-se “Práticas
laboratoriais no ensino do jornalismo: o caso do Urbi@Orbi e os desafios da convergências
mediática”. Os autores propõem pensar o ensino do jornalismo enquadrando-o nas mudanças
do campo jornalístico, nomeadamente pelo impacto das alterações económicas e políticas,
inovações tecnológicas, de mercado, e das condições de produção. A metodologia passa por
um inquérito feito á comunidade alunos de Ciências da Comunicação da Universidade da Beira
Interior (já licenciados e a frequentar) e puderam concluir que o futuro do jornalismo passa
pela reafirmação do campo, pela profissionalização dos seus agentes, pelo domínio das novas
ferramentas tecnológicas, pela experimentação, tanto quanto possível, dos contratos tácitos
que regem a profissão e pela preservação da especificidade dos valores do jornalismo
enquanto “disciplina de verificação”.
No artigo seguinte, “Processos da ciência no jornalismo científico: Uma abordagem da
narrativa jornalística junto a estudantes de jornalismo”, o autor Ricardo Henrique Almeida Dias
apresenta uma experiência com estudantes de jornalismo no campo do jornalismo científico.
Partindo da noção de narrativa jornalística procurou-se que os estudantes percebessem os
processos da ciência, ou seja, que eles notassem que o jornalismo enquanto narrativa propicia
condições para que a produção científica seja vista além dos resultados. O autor concluiu que o
estudo da narrativa no jornalismo demonstrou ser eficaz para a abordagem dos processos da
ciência no jornalismo.
Neste segundo grupo de artigos as temáticas versam os temas do jornalismo e as suas
diferentes temáticas e práticas. Assim, o quarto texto intitulado “A prática immunitas do
jornalismo brasileiro nos 20 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, de autoria
de José Cristian Góes, foca-se na cobertura da temática sobre a Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa (CPLP) e de que forma ela está presente na imprensa brasileira,
nomeadamente nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo ao longo dos 20 anos. Sendo o Brasil
membro destacado da CPLP, a hipótese colocada seria de cobertura destacada nesses jornais,
mas os dados obtidos não confirmaram essa expectativa. Partindo da enunciação de conceitos
como e communitas e immunitas, o autor concluiu que os jornais brasileiros optaram pelo
segundo, revelando a dispensa de compromisso com a comunidade.
O quinto artigo, “Journalism, Transmedia and Design Thinking, de Ana Serrano Tellería,
debruça-se sobre os desafios do jornalismo numa perspetiva de modelos de negócios. A autora
defende um conjunto de alterações em termos de produção e consumo, decorrentes do
ambiente tecnológico. A solução passará pelas narrativas transmedia, que defende terem
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 6
enorme potencial. Propõe ainda a abordagem do Design Thinking adaptada ao campo do
jornalismo, como uma proposta de modelo de pensamento e utilização.
O sexto artigo, “Distribuição e circulação de conteúdo jornalístico em mídias sociais
contemporâneas: o Instant Articles do Facebook e o Accelerated Mobile Pages do Google”, de
Mariana Guedes Conde, incide sobre transformações nos processos de distribuição e circulação
de conteúdos jornalísticos em sites de mídias sociais. A análise trata discussões relativas à
seleção de notícias, personalização, uso de algoritmos e submissão a termos de usos das
diferentes plataformas. A amostra é recolhida através do Instant Articles do Facebook e o
Accelerated Mobile Pages do Google. A hipótese colocada é que o desenvolvimento das
chamadas mídias digitais e interativas ocasiona uma fragmentação da oferta de informação e
consequentemente reconfigura processo s de produção, circulação e consumo de conteúdo. A
metodologia passa por um enquadramento teórico sobre como os sistemas de circulação e
distribuição de conteúdo jornalístico têm sido reconfigurados com o advento das mídias sociais
e como os tipos de gestão dos meios, a tecnologia e a relação entre usuários e jornalistas
impactam estas estruturas.
Júlio Costa Pinto é o autor do artigo seguinte, “Estudio sobre la infografía en el
ciberperiodismo português”, onde se aborda as imagens gráficas no jornalismo digital, dada a
importância do domínio visual. Este estudo de caso incide sobre uma amostra dos diários
portugueses generalistas na sua versão online, mas que têm também o formato papel. Assim,
a amostra reflete os estudo da infografia nas edições digitais e procura determinar se ou
não uma tendência em relação ao uso frequente deste formato, tendo como base os
elementos infográficos más utilizados e a adaptação ao desenho adaptável.
A “Interatividade em websites de jornais no Brasil”, de Beatriz Dornelles, Marlise Brenol
e Patricia Specht o sétimo artigo e debruça-se sobre outra das temáticas pertinentes do
jornalismo digital, a s formas de interatividade. O estudo aborda a utilização destas
ferramentas nos três jornais com o maior número de assinantes digitais. A amostra
corresponde a uma semana, em dias alternados, a partir de homepages web, em uma
navegação orientada. As autoras concluíram que o processo de interatividade seletiva foi mais
bem desenvolvido nos sites, enquanto que as interações comunicativas revelam resultados
menos significativos.
O oitavo e último artigo, “Revista Já: uma experiência coletiva: para pensar um
conteúdo interativo” é um estudo coletivo de Elva Gladis, Gabriela Damaceno, Janine Silva,
Luiz Fernando de Oliveira, Natália Duane de Souza, Priscila Oliveira dos Anjos e Rita Paulino. O
projeto destes autores reflete sobre as potencialidades da interativiade na Revista na sua
aplicação para tablet, colocando o foco do estudo na potencialidade da atratividade a partir
dos elementos gráficos.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 7
Maria Schirley Luft
Universidade Federal de Roraima
schirley.luft@ufrr.br
Resumo
Este artigo explora a interdisciplinaridade entre jornalismo e meio ambiente, os problemas e
desafios dessa relação, quando aplicados ao contexto amazônico. A análise tem por base as
novas diretrizes curriculares nacionais para os cursos de jornalismo, aprovadas em 2013,
que sugerem a introdução de novos conteúdos e temas aos currículos como: meio ambiente,
sustentabilidade, fronteiras, etc. Com o agravamento da crise ambiental mundial, decorrente
da histórica separação entre homem e natureza, novos conhecimentos e saberes devem ser
incorporados a todas as áreas do conhecimento. Para debater a interdisciplinaridade no
campo jornalístico recorreu-se ao pensamento sistêmico (leia-se Ecologia), e à teoria da
complexidade, criada nos anos 80/90, para acomodar problemas da era globalizada, e que
sinaliza para a fertilidade das narrativas jornalísticas como objeto de estudo da “sociologia
ensaística”. Busca-se identificar as possíveis repercussões da integralização de novos saberes
ao campo jornalístico explorando a sua funcionalidade na grade curricular, do Curso de
Jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR), implantada em 2015. Em síntese, o
objetivo é buscar respostas para as perguntas: Qual a função da interdisciplinaridade no
campo jornalístico? Como a interdisciplinaridade pode operar nas relações entre jornalismo e
meio ambiente, quando aplicada ao contexto amazônico?
Palavras-chave: Interdisciplinaridade. Jornalismo. Meio Ambiente. Amazônia.
Abstract
This article explores the interdisciplinary in journalism and environment, problems and
challenges of this relation, when applied to the Amazonian context. The analysis is based on
new national curriculum guidelines for journalism courses, adopted in 2013, which suggest the
introduction of new content and topics to the curriculum as: environment, sustainability,
borders, etc. With the worsening of the global environmental crisis, due to the historical
separation between man and nature, new knowledge must be incorporated into all areas. To
discuss the interdisciplinary in the journalistic field we used to systems thinking (Ecology), and
the theory of complexity created by Edgar Morin, in the years 80/90 to accommodate
contemporary problems, and pointing to the fertility of journalistic narratives as an object of
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 8
study of "essayistic sociology." The aim is to identify the possible impact of introduction new
knowledge to the journalistic field exploring its functionality in the curriculum, in the
Journalism Course of Federal University of Roraima (UFRR), set in 2015. In resume, the goal is
seek to answers to questions: What interdisciplinary function in the journalistic field? How
interdisciplinary can operate in the relation between journalism and the environment when
applied to the Amazonian context?
Keywords: Interdisciplinarity. Journalism. Environment. Amazonia.
Introdução
A interdisciplinaridade ainda é uma atividade recente
1
no Brasil, embora sua
importância e capacidade para combater o reducionismo científico, começou a ser debatida
mundialmente a partir dos anos 60/70, quando teve impulso o processo de globalização
tecnológica (na economia, na política, na sociedade, etc.). Num contexto mais amplo, a
interdisciplinaridade vem sendo empregada para resolver problemas contemporâneos que não
se enquadram aos atuais modelos teóricos e metodológicos, do ensino e da pesquisa científica.
As ciências sociais modernas se tornaram incapazes para absorver problemas emergentes
como: o meio ambiente, a migração, a fome, os conflitos religiosos, etc.
A globalização dos acontecimentos, os movimentos sociais em rede, a emergência de
uma nova sociedade, cada vez mais interconectada, e interdependente mundialmente,
contribuíram para aprofundar os debates sobre as limitações das ciências, frente aos modelos
de desenvolvimento e de progresso, que se orientam a partir da histórica separação entre
homem e natureza.
mais de três décadas, Capra (1982) chamava a atenção para o agravamento da
crise ambiental mundial
2
.
Um estado de crise complexa e multidimensional envolvendo múltiplos aspectos, como
a saúde e o modo de vida, com a qualidade do meio ambiente e das relações sociais,
com a economia, a tecnologia e a política. A abrangência dessa crise requer
obrigatoriamente uma abordagem inter e multidisciplinar no que se refere às teorias
de desenvolvimento (apud SOUZA, 2002, p. 28).
O aquecimento global foi um dos problemas que irromperam com a globalização tecnológica.
As mudanças climáticas
3
atentaram pela primeira vez para a interdependência e a
1
Nas eras clássica e medieval, embora existisse uma especialização em torno de cada objeto, as premissas básicas do
conhecimento eram comuns; os estudiosos de áreas diversas conversavam e compartilhavam conhecimentos de forma
produtiva, sobre objetos diferentes (LEIS, 2005).
2
A crise ambiental mundial vai além dos atuais pressupostos teóricos e metodológicos disponíveis nas ciências. É uma
crise de dimensões filosóficas: “intelectuais”, “morais” e “espirituais”, que pressupõe uma profunda revisão das teorias
de desenvolvimento e progresso, fundamentadas na histórica divisão entre homem e natureza, na ideia de que o
homem domina a natureza (Capra, 1982, citado em SOUZA, 2002).
3
Mais informações sobre mudanças climáticas em Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Disponível em: http://www.ipcc.ch/organization/organization.shtml
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 9
intercausalidade desse tema com as queimadas e os desmatamentos na Amazônia, a queima
de combustíveis fósseis, a emissão de CO2 na atmosfera. Os impactos do efeito estufa sobre a
qualidade do ar, o descongelamento de geleiras, o aumento da temperatura da terra
chamaram a atenção da opinião pública mundial para a gravidade da crise e suas
consequências à saúde humana e do planeta. Nas últimas décadas, o meio ambiente passou a
integrar a agenda do noticiário internacional, e as agendas de grandes eventos mundiais.
Bachelard (1971) foi o pioneiro a se debruçar sobre as limitações das ciências sociais
modernas frente aos problemas da era globalizada. Para ele, a construção do conhecimento
deveria partir do cruzamento de três matrizes epistemológicas: as ciências cognitivo-
cibernéticas, e as ciências humanas e sociais, com foco nas teorias da informação. O objetivo
era preencher as lacunas teórico-metodológicas, contribuir na busca de explicações para os
fenômenos, minimizar o “distanciamento entre o campo teórico e o campo experimental”.
Para esse autor, os avanços das ciências modernas no sentido de absorver a
complexidade dos problemas universais estão condicionados à revisão do conceito de
“fronteira”. Explica: a “fronteira científica” não pode mais ser vista como um lugar “neutro,
abandonado, indiferente”, mas sim, como uma “zona de pensamentos particularmente ativos”,
um espaço para os tensionamentos, as transgressões, os cruzamentos. “É na fronteira entre
campos de legitimação que a tensão se gera e se manifesta [...]” (1971, p. 18). É na fronteira
que se concretiza de fato a interdisciplinaridade.
Duas décadas após os estudos preliminares de Gastón Bachelard, outro filósofo francês,
Edgar Morin, se dedica a explorar as limitações das ciências sociais frente aos modelos de
desenvolvimento, que se construíram a partir da visão antropocêntrica de que o homem
domina a natureza. Foi com o espírito voltado para combater as chamadas “cegueiras do
conhecimento”, que o filósofo início a uma longa caminhada, na direção de um projeto
global denominado, mais recentemente, de “Educação do futuro”. O propósito é promover uma
reforma universal do conhecimento, fundamentada no pensamento sistêmico, em todos os
níveis do ensino.
Para Edgar Morin (1993) o isolamento científico está presente em todas as áreas do
conhecimento.
Quanto mais especializada a ciência, mais incapaz de apreender as múltiplas
dimensões da realidade, de compreender o global e discernir problemas fundamentais.
Se por um lado a realidade global se apresenta com problemas e questões ambientais
de natureza diversa, por outro, esses problemas com os quais nos defrontamos, são
cada vez mais complexos e interdependentes (in BRANDENBURG, 1996, p. 59).
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 10
Pensamento complexo
O pensamento complexo
4
surge para corrigir distorções e limitações das ciências
sociais, mais precisamente, no sentido de buscar respostas a problemas universais como: meio
ambiente, migração, desenvolvimento sustentável, guerras étnicas, entre outros, e que não se
enquadram aos atuais pressupostos teóricos e metodológicos disponíveis. Numa perspectiva
mais ampla, a teoria da complexidade nasce com o propósito de promover uma “reforma
paradigmática” na educação, combater os impactos causados pela “inadequação cada vez mais
ampla, profunda e grave entre, de um lado, os saberes desunidos, divididos,
compartimentados e, de outro, as realidades ou problemas cada vez mais multidisciplinares,
transversais, multidimensionais, transnacionais, globais e planetários”
5
.
Na perspectiva complexa, a “organização do conhecimento” deve abranger as múltiplas
dimensões dos objetos: 1) O contexto (o conhecimento a partir de dados isolados é
insuficiente); 2) O global: conjunto das diversas partes; é o todo organizador de que fazemos
parte (modo inter-retroativo); 3) O multidimensional: as unidades são complexas; o ser
humano ou a sociedade são multidimensionais. 4) O complexo: complexus significa o que foi
tecido junto
6
. As sociedades são resultado de construções históricas, econômicas, sociológicas,
etc.
no início deste século, a teoria da complexidade se tornaria o fio condutor para os
avanços da interdisciplinaridade; e Edgar Morin, o seu criador, um dos mais maiores
pensadores de todos os tempos. Atualmente, com 95 anos, o filósofo se dedica a buscar
respostas para um “problema universal” do novo milênio. “Como ter acesso às informações
sobre o mundo e como ter a possibilidade de articulá-las e organizá-las?” O meio ambiente é
um desses temas que integram a agenda global contemporânea
7
.
Mais recentemente, Fritjof Capra
8
(2008, p. 21) reconhece a importância da teoria da
complexidade para a difusão do pensamento sistêmico.
O pensamento sistêmico foi elevado a um novo patamar nos últimos vinte anos com a
criação da complexidade, uma nova linguagem matemática e um novo conjunto de
conceitos para descrever a complexidade dos sistemas vivos
9
.
O pensamento complexo contribuiria para aprofundar as relações entre o jornalismo e
as ciências sociais. Com a globalização dos acontecimentos e os novos processos de
4
O pensamento complexo é um método estimulado pela crise do determinismo, do reducionismo, do materialismo, da
causalidade linear nas ciências que ajuda a evitar as cegueiras, as concepções unilaterais, dogmáticas (Edgar MORIN,
em entrevista ao JORNAL DO BRASIL, 05/09/1998).
5
Idem, 2004, p. 36.
6
Ibidem, p. 36-38.
7
Ibidem, p. 35.
8
O físico, de origem austríaca, é fundador e diretor do Centro para Alfabetização Ecológica em Berkeley, Califórnia,
USA. É doutor em Física pela Universidade de Viena, e autor dos livros: Tao da Física, O ponto de Mutação, A teia da
vida, entre outros. Disponível em: www.fritjofcapra.net
9
In: TRIGUEIRO, André. Meio Ambiente no século 21. 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de
conhecimento. Campinas, SP: Armazén do Ipê (Autores Associados), 2008, p. 19-33.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 11
sociabilidade, o noticiário produzido e transmitido diariamente nos meios de comunicação se
transforma no principal objeto de pesquisa da “sociologia ensaística”. Esta é considerada uma
linha de pensamento que busca compreender os fenômenos da globalização de acordo com as
tendências em vigor.
O acontecimento do ponto de vista sociológico é tudo o que o se inscreve nas
regularidades estatísticas [...] porque ele é o novo, isto é, a informação, no sentido
em que a informação é o elemento novo de uma mensagem. O acontecimento-
informação é, em princípio, desestruturante (e a grande imprensa mostra todos os
dias um mundo desestruturado e entregue ao som e à fúria), e a este título, a
informação, é o que perturba os sistemas racionalizadores que se esforçam por
manter uma inteligibilidade entre o espírito do receptor e o mundo. O caráter
questionador do acontecimento põe em movimento o ceticismo crítico (MORIN, 1990,
p. 62).
No início deste século, Chaparro (2001) se reporta à teoria da complexidade para
definir o jornalismo como “linguagem dos conflitos”, uma área que se constrói a partir da
interdisciplinaridade, mais precisamente, das relações com as fontes de informação. Para este
autor, o jornalismo opera a partir do diálogo de duas frentes. 1) É uma linguagem e “um
ambiente que a sociedade organizada utiliza para expressar e ajustar discursos conflitantes do
tempo presente”; 2) É um processo de alta complexidade, carregado de contradições e
complicações, ões e interações; no qual as fontes de informação são “sujeitos discursivos,
que agem de forma estratégica, por meio de acontecimentos, atos, falas, e/ou silêncios [...]
produzem colisões transformadoras (sociais, culturais, políticas, econômicas, religiosas [...]”
(p. 38-39). Grifo nosso.
Jornalismo e interdisciplinaridade
O Jornalismo é um campo essencialmente interdisciplinar, que se originou da
convergência de conhecimentos e saberes (teóricos, metodológicos e técnicos), oriundos, de
duas matrizes epistemológicas: das Ciências Humanas (Linguagem, Psicologia Social, etc.) e
principalmente, das Ciências Sociais (Sociologia, Ciência Política, Antropologia, História, etc.).
No Ministério da Educação e Cultura do Brasil (MEC), a Comunicação Social e, por extensão, o
Jornalismo, integram a grande área das Ciências Sociais Aplicadas, juntamente com os cursos
de Economia, Direito, Administração, etc..
A interdisciplinaridade
10
objetiva promover o diálogo entre as áreas diversas do
conhecimento, e pode ser definida como:
Um ponto de cruzamento entre atividades (disciplinares e interdisciplinares) com
lógicas diferentes. Ela tem a ver com a procura de um equilibro entre a análise
10
A interdisciplinaridade assim como a transdisciplinaridade deve ser entendida como um espaço estratégico aberto e
sujeito a múltiplas variações, dependendo do objeto estudado. Em linhas gerais, sua função é combater o
determinismo científico, promover a aproximação entre o campo teórico e o campo experimental (LEIS, 2005, p. 3-6),
problema apontado por Gastón Bachelard (1970) e Edgar Morin (1990).
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 12
fragmentada e a síntese simplificadora (Jantsch & Bianchetti, 2002). Ela tem a ver
com a procura de um equilibrio entre as visões marcadas pela lógica racional,
instrumental e subjetiva” (Lenoir & Hasni, 2004). [...] ela tem a ver não apenas com
um trabalho de equipe, mas também individual (Klein, 1990). (LEIS, 2005, p. 9).
Grifo nosso.
Nos últimos anos, ela vem sendo acionada para investigar problemas que se situam à
margem dos atuais modelos teóricos e metodológicos do ensino e da pesquisa cientifica. Por se
tratar de um ambiente propenso para o conflito de ideias, a prática interdisciplinar requer
múltiplas habilidades do pesquisador, como: saber lidar com conhecimentos e saberes de
outros campos, com interesses contraditórios, buscar convergências, integrar conteúdos,
cruzar e agregar teorias, métodos e técnicas, identificar os limites da negociação, se despir de
preconceitos, não se distanciar demasiadamente do objeto original de pesquisa.
No Brasil, a interdisciplinaridade entre jornalismo e meio ambiente, ainda é tratada
com certo distanciamento. Faltam pesquisadores habilitados na área, e os cursos de pós-
graduação (em nível de mestrado e doutorado), ainda são incipientes, e recentes. Em 2008,
mais de 70% das universidades brasileiras não haviam incluído disciplinas voltadas para o
meio ambiente, ou conteúdos correlatos nos cursos de Comunicação (Brittes, 2008)
11
. A
primeira disciplina de Jornalismo Ambiental foi implantada no Curso de Jornalismo da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2003, pela profa. Ilza Tourinho
Girardi.
As novas Diretrizes Nacionais dos Cursos de Jornalismo
12
, aprovadas em 2013, pelo
Ministério da Educação do Brasil (MEC), recomendam que os currículos devam absorver
problemas universais como: desenvolvimento sustentável, multiculturalismo, fronteiras, etc..
Para atender a essas demandas, o profissional de jornalismo deve estar habilitado para
“dialogar” com “temas universais e transdisciplinares ou transversais no campo da
Comunicação”. Deve ter o conhecimento necessário para “responder, por um lado, à
complexidade e ao pluralismo, característicos da sociedade e da cultura contemporâneas e, por
outro, possuir os fundamentos teóricos e técnicos especializados”, sem se descuidar dos
processos de “globalização, regionalização e das singularidades locais” (p. 2 e 5).
Projeto Pedagógico
O novo Projeto Pedagógico do Curso de Jornalismo
13
da Universidade Federal de
Roraima (UFRR), aprovado em 2014, foi construído a partir de três referências: 1) As
Diretrizes Curriculares Nacionais, do Ministério da Educação do Brasil, publicadas em
1º/10/13; 2) O modelo curricular para os cursos de Jornalismo da UNESCO (2007)
14
; 3) Os
11
In: MARQUES DE MELO, José (Org.). Mídia, Ecologia e Sociedade. São Paulo: INTERCOM, 2008, p. 309-336.
12
Disponível em:http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=14242-rces001-
13&category_slug=setembro-2013-pdf&Itemid=30192. Acessado em 13/03/2016.
13
Disponível em: https://ufrr.br/comunicacao/index.php/projeto-pedagogico
14
O Modelo Curricular da UNESCO para o ensino do jornalismo foi elaborado com a participação de 20 professores de
jornalismo de países em desenvolvimento e/ou democracias emergentes, com o objetivo de mapear eixos comuns à
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 13
regimentos internos da Universidade Federal de Roraima.
As Diretrizes Curriculares recomendam que o ensino do jornalismo deva aprimorar a
prática interdisciplinar visto que se trata de uma atividade de “interesse público”; e estar em
“consonância com as novas demandas sociais, tecnológicas e de mercado”; sem se distanciar
do contexto ao qual se insere a instituição. Neste caso, vale lembrar que a UFRR está situada
na Amazônia: “um espaço onde acontecimentos, temáticas e problemáticas de interesse
público em grande parte são globalmente discutidos” (Projeto Pedagógico, 2014, p. 9).
A evolução dos meios de comunicação, [...] a criação e manutenção de laços
interdisciplinares em nossa política de formação para com as ciências humanas,
sociais e socialmente aplicadas, além da permanente atualização tecnológica para a
produção em suportes impressos, de áudio, audiovisual e/ou nos diversos formatos
online” (Projeto Pedagógico, 2014, p. 6). Grifo nosso.
Em linhas gerais, o novo Projeto Pedagógico buscou atender as recomendações das
diretrizes curriculares adaptando o currículo às atuais tendências universais para a educação.
Capra (2008) defende que o pensamento sistêmico deva trespassar todas as áreas do
conhecimento e todos os níveis da educação. A introdução de princípios oriundos da teoria dos
sistema vivos (Ecologia profunda) no ensino/aprendizagem - também chamado de “saber
ecológico” é o maior desafio da educação para o Século 21. A sobrevivência humana
dependerá de “nossa capacidade de compreender os princípios básicos da ecologia e viver de
acordo com eles”
15
.
O maior avanço do novo Projeto Pedagógico do Curso de Jornalismo da UFRR foi a
introdução da disciplina “Jornalismo e sustentabilidade” (JOR-43) como obrigatória, à matriz
curricular. Em tese, a medida representa uma tentativa efetiva de inserir uma visão
sistêmica/complexa ao currículo. A ementa foi construída a partir de três eixos: a) Aspectos
gerais, incluindo conceitos de meio ambiente, sustentabilidade, desenvolvimento sustentável
16
,
etc.; b) “Processos jornalísticos: o papel da imprensa no desenvolvimento (in)sustentável”; e
c) “Imprensa e desenvolvimento sustentável na Amazônia”. O objetivo é estimular os debates
sobre a crise ambiental mundial, suas causas e consequências, os limites mercadológicos que
circundam as relações entre imprensa e os temas ambientais, no âmbito local e global. A
disciplina possibilita ao aluno “embasamento teórico-metodológico no campo da comunicação
social (jornalismo), frente aos novos paradigmas de desenvolvimento e consumo, tendo como
parâmetro os conceitos de sustentabilidade”
17
.
atividade na sociedade contemporânea. O jornalismo tem como meta primordial “servir à sociedade, informando ao
público, fiscalizando o exercício do poder, estimulando o debate democrático e, dessa forma, contribuindo para o
desenvolvimento político, social, cultural e econômico” de cada país (2007, p. 7).
Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001512/151209POR.pdf Acessado em: 25/09/2016.
15
Ibidem, p. 33.
16
Manuel DUTRA, no livro “A natureza da TV: [...] floresta”. Belém: Núcleo de Altos Estudos Amazônicos
(NAEA/UFPA), 2005, cita o pesquisador inglês, Michael R. Redclift (1987). Ele mapeou mais de cem versões para o
termo sustentabilidade, no livro “Sustainable development, exploring the contradictions”.
17
Plano de Ensino da disciplina Jornalismo e Sustentabilidade, anexo ao Projeto Pedagógico. Disponível em:
https://ufrr.br/comunicacao/index.php/projeto-pedagogico
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 14
Para Bueno (2005) o principal obstáculo à prática interdisciplinar entre jornalismo e
meio ambiente provém do choque de temporalidades entre o “saber ambiental”
18
que
compreende a totalidade do saber, e o “saber jornalístico” que se constrói a partir de um
sistema fragmentado e superficial de produção e difusão das notícias.
Estudo pioneiro realizado no Brasil, por Oliveira (2005), confirma que o tempo e o
espaço de produção, entre ciência e jornalismo, são incompatíveis, e que, esse fato, dificulta a
realização de pesquisas envolvendo a interdependência entre ambas as áreas
A produção de um trabalho científico é resultado não raro de anos de investigação, e
que normalmente encontra amplos espaços para publicação nas revistas
especializadas, a produção jornalística é rápida e efêmera, e esbarra em espaços cada
vez mais restritos, e, portanto, deve ser enxuta, sintética (p. 46).
Entende-se que o novo Projeto Pedagógico constituiu-se num instrumento inovador e
ao mesmo tempo desafiante visto que a necessidade de transitar entre velhos e novos
modelos de ensino/aprendizagem, ocorre justo no momento em que o jornalismo enfrenta
uma de suas maiores crises. Os efeitos espaço-temporais da globalização revolucionaram as
práticas jornalísticas, para o bem e para o mal. As tecnologias digitais produziram efeitos
devastadores nos campos teórico, metodológico e técnico, alteraram a cultura jornalística;
colocaram em confronto dois sistemas de produção e difusão da informação: por um lado, o
modelo linear/analógico utilizado até recentemente, pelos jornais; e por outro, o modelo não-
linear digital, da era globalizada, caracterizado pela alta velocidade, capacidade de
armazenamento e interatividade. Em linhas gerais, as tecnologias digitais alteraram os modos
de ver, de compreender, de narrar e de difundir os acontecimentos, independentes de sua
localização.
De acordo com Chaparro (2001) a globalização dos processos políticos, econômicos e
sociais provocou o desaparecimento dos intervalos de tempo e distância, na difusão das
notícias, subvertendo os conceitos de atualidade, proximidade, universalidade e periodicidade -
características, básicas e constantes do jornalismo. As mudanças ocorridas o resultado da
fusão entre democracia, mercado e tecnologia, fenômeno que se aprofundou a partir da
década de 70, marcada pela lógica competitiva sustentada pela informação. A “notícia tornou-
se o produto mais abundante da realidade global” (p. 44).
“Saber ambiental”
A introdução do pensamento sistêmico ou da teoria dos sistemas vivos (Capra, 2008)
19
no ensino/aprendizagem em todos os níveis é o maior desafio da educação para o Século 21.
18
Ver mais sobre “saber ambiental” no jornalismo, em Luft (2015, Cap. 3).
19
A teoria dos seres vivos propõe uma nova maneira de ver e de agir no mundo, pensar em termos de relações,
padrões e contexto, conhecida como “pensamento sistêmico”. Se desenvolveu na primeira metade do século 20, e tem
sua origem ligada à biologia organicista; psicologia da gestalt; teoria geral dos sistemas e cibernética (Ibidem, p. 20-
21).
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 15
O objetivo da interdisciplinaridade é transcender os atuais modelos teóricos e metodológicos
das ciências que se orientam a partir da histórica separação entre homem e natureza, ampliar
o debate sobre a interdependência dos objetos. Para o teólogo brasileiro Leonardo Boff (2012),
um dos autores da Carta da Terra
20
, preservar o meio ambiente, colocando em prática
princípios sustentáveis, é uma “questão de vida ou morte” (p. 13).
Capra (2008) chama de “alfabetização ecológica” ou “saber ecológico” o conhecimento
fundado na teoria dos sistemas vivos. O pensamento sistêmico deve trespassar todas as áreas
do conhecimento, todos os níveis de educação, do ensino básico e fundamental, às
universidades, nos níveis acadêmico e profissional.
A alfabetização ecológica deve se tornar um requisito essencial para políticos,
empresários e profissionais de todos os ramos, e deveria ser uma preocupação central
da educação em todos os níveis do ensino fundamental e médio até as universidades
e os cursos de educação continuada e treinamento de profissionais
21
.
A adoção de modelos de desenvolvimento sustentáveis, mais comprometidos com o
uso racional dos recursos naturais, e menos consumista, em todas as áreas de conhecimento,
compreende desafios epistemológicos e práticos. O principal desafio do conhecimento
sistêmico é encontrar uma “definição operacional de sustentabilidade”, embora, algumas
questões, já estejam postas, em termos práticos. A alfabetização ecológica é um processo que
não precisa partir do zero
22
. Ela pode e deve partir de conceitos e princípios existentes no
campo das Ciências Biológicas, mais precisamente na Ecologia profunda
23
. “A Ecologia
profunda não separa o homem do ambiente: na verdade, não separa nada do ambiente. Não
o mundo como uma coleção de objetos isolados e sim como uma rede de fenômenos
indissoluvelmente interligados e interdependentes”
24
.
mais de três décadas, Capra (1982, p. 400) recomendava aos jornalistas, a
adoção de uma consciência ecológica, na cobertura dos temas ambientais.
Os jornalistas deverão mudar; e seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se
holístico, desenvolvendo uma nova ética profissional com base na consciência social e
ecológica. [...] Repórteres e editores terão que analisar os padrões sociais e culturais
complexos que formam o contexto dos acontecimentos, assim como noticiar
atividades pacificas, construtivas e integrativas que ocorrem na nossa cultura (apud
GIRARDI; SCHWAB, 2008, p. 193-194).
20
A Carta da Terra foi aprovada no dia 4/03/2000, na UNESCO em Paris, após 8 anos de discussões, reunindo 46
países e mais de cem mil pessoas, de todos os continentes. Participaram da elaboração final do documento: o teólogo
brasileiro, Leonardo Boff: o ex-presidente russo, Mikhail Gorbachev, o ex-secretário da ONU sobre meio ambiente,
Maurice Strong, o pesquisador norte-americano, Steven Rockfeller, a cantora argentina Mercedes Sosa, entre outros.
Disponível em: http://www.leonardoboff.com/site/proj/carta-terra.html . Acessado em: 05/09/2016.
21
Ibidem, p. 25
22
A horta escolar reúne os elementos necessários para a instrumentalização do pensamento sistêmico. Ensina sobre
os ciclos alimentares, integra os ciclos naturais dos alimentos aos ciclos de plantio, cultivo, colheita, compostagem e
reciclagem (ibidem, p. 27).
23
A Ecologia profunda é uma escola de pensamento fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess, na década de 70. Ele
estabeleceu distinções entre a “ecologia profunda” e “ecologia rasa”. A Ecologia rasa é antropocêntrica, se baseia na
histórica divisão entre o homem e natureza, desconsidera a esgotabilidade dos recursos naturais (ibidem, p. 20).
24
Ibidem, p. 20-21.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 16
Na Amazônia
A Amazônia ainda é o maior exemplo, de como as disparidades entre o campo teórico
e o universo das práticas, funcionam, quando está em jogo, a sustentabilidade. Estudos
realizados, há mais de duas décadas, apontam a falta de planejamento das políticas públicas -
aliada à aplicabilidade dos recursos financeiros e tecnológicos, como o principal
impedimento para a consolidação de modelos que integrem, ao mesmo tempo,
desenvolvimento e preservação ambiental. Salvo algumas exceções, o desenvolvimento
sustentável ainda é um mito na Amazônia.
Autores se reportam aos “programas de integração” das décadas de 60/70, para
explicar os problemas ambientais atuais que atingem a região. 1) A Política dos Grandes
Projetos, nos setores “agropecuário” e de “mineração”
25
, e de infraestrutura, é uma das
principais causas da degradação ambiental apontada nos estudos; 2) Os Projetos de ocupação
agrária: a falta de planejamento, na implantação dos assentamentos rurais, às margens da
transamazônica, provocaram impactos irreversíveis ao meio ambiente, como a derrubada de
milhões de hectares de floresta.
O prof. da Universidade de São Paulo (USP), Aziz Ab'Saber (2002) alerta para um
problema-chave que circunda o desenvolvimento sustentável na Amazônia: “Não é possível
planejar a Amazônia tomando como referência as demais regiões brasileiras. [...] a região
necessita de políticas públicas diferenciadas (nas áreas de saúde, educação, transportes,
etc.,)”, e que é preciso conciliar bem a consciência técnico-científica e as legitimas aspirações
das comunidades locais (apud ALMEIDA, 2008, p. 262).
Coelho (2000) associa a construção do conhecimento sobre desenvolvimento sustentável na
Amazônia, ao paradigma sistêmico:
As políticas públicas e ambientais para a Amazônia requerem forçosamente um
tratamento de caráter inter e multidisciplinar que considere os processos ecológicos,
sócio-espaciais, socioculturais, políticos e econômicos, na condução do
desenvolvimento econômico (apud LUFT, 2015, p. 125).
Passadas mais de cinco décadas, e os impactos ambientais dos programas de
integração para a Amazônia, das décadas de 60/70 continuam repercutindo. Pesquisadores
sustentam que é impossível pensar a Amazônia sem considerar o contexto sócio histórico,
assim como, é impossível cobrir a Amazônia sem considerar o contexto sócio histórico e seus
impactos ao ambiente.
Estudo realizado por Almeida (2008, p. 272) na Rede Amazônica de Televisão, afiliada
25
O Programa Grande Carajás (PGC) compreendia a construção de cinco empresas voltadas para a exportação de
minérios de ferro, alumínio, etc.: duas mineradoras; a hidrelétrica de Tucuruí, a ferrovia Carajás São Luiz e o Porto
de Vila Gomes, numa área que chega a 900 mil quilômetros quadrados, o que representa 10,6% da extensão
territorial brasileira. Conforme Ricardo Arnt (1992) o PGC “subsidiou ativamente a exploração de vastas áreas
florestais em um estado de fronteira, onde as agências encarregadas do cumprimento da legislação ambiental primam
pela carência de recursos e despreparo técnico” (apud LUFT, 2005, p. 74-75).
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 17
da Rede Globo, em Manaus-AM, constatou que interesses econômicos se sobrepõem no
noticiário quando o assunto é a sustentabilidade.
[...] a promoção do conceito de desenvolvimento sustentável aparece na imprensa
apenas de forma fragmentada e isolada revelando uma total falta de compromisso
desses veículos na cobrança de um modelo de desenvolvimento adequado a Amazônia
brasileira
26
.
Há uma cobrança sistemática, por parte de instituições de pesquisa, de que a
imprensa regional deva exercer um papel mais proativo na preservação da Amazônia,
principalmente, nos temas ambientais que demandam um alto grau de complexidade: o
desenvolvimento sustentável (Almeida, 2008); os desmatamentos (Luft, 2005 e 2015; Dutra,
2005); as queimadas (Costa, 2006; Moraes, 2006); os problemas fundiários (Joaquim, 2003;
Luft, 2005a), etc.
A falta de regularização fundiária é um dos temas recorrentes e com alto poder de
visibilidade na imprensa regional, e que mais despertam o interesse público, juntamente com
os desmatamentos, as queimadas, a degradação dos rios pela extração de minérios, entre
outros. Levantamento quantitativo sobre a cobertura da demarcação da Reserva Raposa Serra
do Sol
27
, em Roraima
28
, na Folha de Boa Vista
29
, revelou a importância desse tema no contexto
regional, dada a quantidade de matérias produzidas:
Se tomarmos a Folha de Boa Vista, de Roraima, como parâmetro, a constatação
extrapola todas as expectativas, isto é: de 15 de abril, data da assinatura do decreto,
até hoje, 10 de maio de 2005, foram publicadas mais de 140 matérias, entre
reportagens e artigos, envolvendo grupos a favor e/ou contrários à demarcação da
forma como foi feita (LUFT, 2005)
30
Esse resultado é significativo, à medida que confirma a diversidade de agentes
envolvidos com a demarcação de terras indígenas na Amazônia. O material analisado denota a
complexidade dos acontecimentos em função dos múltiplos interesses expostos na cobertura:
1) Interesses socioambientais (reconhecimento dos direitos indígenas à terra e/ou política de
criação de parques nacionais); 2) Interesses geopolíticos: área se situa na fronteira com a
26
In: GIRARDI, I. M. T; SCHWAAB, R. T. (Orgs.). Jornalismo ambiental: desafios e reflexões. Porto Alegre: Dom
Quixote, 2008, p. 258-274.
27
A Reserva Raposa Serra do Sol foi demarcada no dia 15 /04/2005, depois de anos de disputas e conflitos, que se
iniciaram nos anos 70. São 1,7 milhão de hectares em área contínua, onde vivem pelo menos quatro etnias indígenas:
wapixana, ingaricó, macuxi e taurepang; e não índios: fazendeiros, pequenos agricultores, ribeirinhos, extrativistas,
organizações não-governamentais, entidades religiosas. Com a demarcação da reserva, em 2005, pecuaristas e
arrozeiros foram retirados da área.
28
O Estado de Roraima tem uma área de 224.303,187 km2; está situado no extremo norte do Brasil, se limita: ao
norte com a Venezuela, ao leste com a Guiana, ao sudeste com o estado do Pará-PA, e ao sul e oeste com o estado do
Amazonas-AM. É o estado como a menor população do país: 505 665 habitantes, segundo estimativas do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2015.
Disponível em: http://www.ibge.gov.br/estadosat/perfil.php?lang=&sigla=rr
29
A Folha de Boa Vista foi fundada no dia 21 de outubro de 1983, por quatro jornalistas, e adquirida em 1998, pelo
ex-governador e empresário Getúlio Cruz. É o jornal mais antigo em circulação no Estado de Roraima. Integra o Grupo
Folha, que inclui ainda a FolhaWeb, a Rádio Folha e a Editora Boa Vista. Disponível em: http://www.folhabv.com.br/
30
Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/os_desafios_da_imprensa
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 18
Venezuela e Guiana; 3) Interesses econômicos: a área é rica em minérios.
Diálogos possíveis
O estudo revelou que ainda é prematuro para descrever com profundidade e precisão
como funciona de fato a interdisciplinaridade entre jornalismo e meio ambiente, os problemas
e desafios dessa relação, quando aplicados ao contexto amazônico. A interdisciplinaridade no
jornalismo avançou, na última década, no Brasil, porém, não o suficiente para traçarmos um
panorama, visto que se trata de um processo lento e com efeitos e resultados em longo prazo.
No entanto, algumas constatações emergiram dessa investigação. Em linhas gerais, a pesquisa
traz esclarecimentos sobre a importância da adoção do pensamento sistêmico no ensino do
jornalismo. Constatou-se que a busca pelo diálogo interdisciplinar é um processo irreversível,
visto que os atuais modelos teóricos e metodológicos disponíveis não conseguem atender as
atuais demandas (políticas, econômicas e sociais, etc.), e principalmente ambientais, dada a
complexidade e abrangência da crise.
A pesquisa se refere ao choque de temporalidades entre o “saber jornalístico” e o
“saber ambiental”, como o principal obstáculo nas relações entre jornalismo e ciência.
Enquanto o primeiro opera a partir de um sistema de produção e difusão segmentado, não-
linear (digital), caracterizado pela alta velocidade, a produção da ciência é resultado de anos
de investigação, e com respostas obtidas em longo prazo. A pesquisa também aponta algumas
tendências significativas. A introdução do pensamento sistêmico ao currículo pode ampliar a
capacidade de diálogo entre disciplinas do próprio curso, e também com outras áreas do
conhecimento, embasar o cruzamento de teorias, métodos e técnicas. É o que se tem
observado com a introdução da disciplina Jornalismo e Sustentabilidade (JOR43) ao currículo,
do Curso de Jornalismo da UFRR.
Do mesmo modo, entende-se que o pensamento complexo é um norte para o ensino do
Jornalismo, nos próximos anos, porque propõe um método capaz de abranger a complexidade
dos problemas da era globalizada, de forma mais profunda e abrangente (o contexto, o
multimensional, o global e o complexo). Ambas as linhas de pensamento, sistêmico e/ou
complexo propõem reintegrar o homem ao ambiente, um discurso que vem ganhando força no
início deste século. O objetivo maior é colocar em questão a visão antropocêntrica, de que o
homem domina a natureza.
Bueno (2007) recomenda a adoção de uma visão sistêmica às práticas jornalísticas,
mais de uma década, visando reparar erros e distorções na cobertura do meio ambiente. O
maior desafio para os jornalistas consiste em: 1) Combater a visão de que os recursos naturais
são inesgotáveis; 2) Identificar as causas e consequências dos modos de produção e de
consumo predatórios; e 3) Alertar a população sobre os danos ao meio ambiente.
E por fim, entende-se que a pesquisa apontou aspectos importantes e imprescindíveis
para a reforma do ensino no campo do jornalismo. A introdução de novos saberes e
conhecimentos, mais precisamente, do “saber ambiental” ao currículo, torna-se uma
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 19
obrigatoriedade à medida que se aprofunda a crise ambiental mundial e os problemas
relacionados à Amazônia. Na região está situada a maior floresta tropical do mundo, com uma
área de 5.500 km2, distribuídos em 9 países. Destes, 60% se localizam no Brasil, e os
restantes são divididos entre o Peru, com 13%, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia,
Guiana, Suriname e França (Guiana Francesa).
Referências
ALMEIDA, Edileuson. Imagens da selva: telejornalismo, desenvolvimento sustentável e
Amazônia brasileira. In: GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB, Regis Toni (Org.)
Jornalismo ambiental: desafios e reflexões. Porto Alegre: Dom Quixote, 2008, p. 258-273.
BACHELARD, Gastón. A epistemologia. Lisboa: Edições 70, 1971.
BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é: o que não é. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
BRANDENBURG, Alfio. Modernidade, meio ambiente e interdisciplinaridade”. In: Cadernos de
desenvolvimento e meio ambiente, Editora/UFPR, Curitiba, no 3, 1996, p. 49-59.
BRITTES, Juçara Gorsky. Política nacional de educação ambiental e ensino de Comunicação
Social: uma agenda a ser construída. In: MARQUES DE MELO, José (Org.). Mídia, ecologia e
sociedade. São Paulo: INTERCOM, 2008, p. 309-336.
BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, jornalismo e meio ambiente: teoria e pesquisa. São
Paulo, Marajoara Editorial, 2007.
CAPRA, Fritjof. “Alfabetização ecológica: o desafio para a educação do século 21”. In:
TRIGUEIRO, André. Meio Ambiente no século 21. 21 especialistas falam da questão ambiental
nas suas áreas de conhecimento. Campinas, SP: Armazén do Ipê (Autores Associados), 2008.
CHAPARRO, Manuel Carlos. Linguagem dos conflitos. Coimbra: Minerva, 2001.
COELHO, Maria Célia et al. Estado e políticas públicas na Amazônia: gestão de recursos
naturais. Belém: Edições Cejup, 2000.
DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA O CURSO DE GRADUAÇÃO EM
JORNALISMO. Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação-MEC, Brasília-DF, 2013.
LEIS, Héctor Ricardo. Sobre o conceito de interdisciplinaridade. In: Cadernos de pesquisa
interdisciplinar em Ciências Humanas. Nº 73, FPOLIS, SC, Agosto de 2005.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 20
LUFT, Maria Schirley. Jornalismo, meio ambiente e Amazônia: os desmatamentos nos jornais O
Liberal do Pará e A Crítica do Amazonas. São Paulo: Annablume, 2005.
LUFT, Maria Schirley. Raposa Serra do Sol: os desafios da imprensa. Observatório da imprensa
(17/05/2005a, ed. 329). Disponível em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/os_desafios_da_imprensa
LUFT, Maria Schirley. Jornalismo ambiental na Amazônia: as fontes de informação na
cobertura dos desmatamentos no Jornal O Liberal do Pará. 1ª Ed. Curitiba, PR: CRV, 2015.
MARQUES DE MELO, José (Org.). Mídia, Ecologia e Sociedade. São Paulo: INTERCOM, 2008.
MODELO CURRICULAR DA UNESCO PARA O ENSINO DO JORNALISMO. Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura, Brasília, 2010.
Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001512/151209por.pdf
MORIN, Edgar. A sociologia do microssocial ao macroplanetário. Portugal: Universitária, 1990.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo, UNESCO, Cortez,
Brasília, DF: UNESCO, 2004.
OLIVEIRA, Fabíola de. Jornalismo científico. São Paulo: Contexto, 2005.
Projeto Pedagógico do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR),2014.
Disponível em: http://ufrr.br/comunicacao/index.php/projeto-pedagogico
SOUZA, André Luiz Lopes de. Desenvolvimento sustentável, manejo florestal e o uso dos
recursos madeireiros na Amazônia brasileira: desafios, possibilidades e limites. Belém:
UFPA/NAEA, 2000.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 21
Anabela Gradim
Universidade da Beira Interior/LabCom.IFP
anabela.gradim@labcom.ubi.pt
Ricardo Morais
Universidade da Beira Interior/LabCom.IFP
ricardo.morais@labcom.ubi.pt
“We are indeed in a new communication realm, and ultimately in a new
medium, whose backbone is made of computer networks, whose
language is digital, and whose senders are globally distributed and
globally interactive” Manuel Castells
Resumo
Reflectir sobre o ensino do jornalismo no contexto actual de profunda mudança do campo
jornalístico, afectado por alterações económicas e políticas, alterações tecnológicas, de
mercado, e das condições de produção, é o propósito deste trabalho. Faze-mo-lo a partir de
um inquérito lançado junto de actuais e antigos alunos de Ciências da Comunicação da
Universidade da Beira Interior, onde a prática do jornalismo a partir do seu laboratório de
inovação de conteúdos online se vem desenvolvendo há mais de 16 anos. Deste estudo
exploratório concluímos que o futuro do jornalismo passa pela reafirmação do campo
(Bourdieu); pela profissionalização dos seus agentes (Schudson); pelo domínio das novas
ferramentas tecnológicas; pela experimentação, tanto quanto possível, dos contratos tácitos
que regem a profissão (Polanyi); e pela preservação da especificidade dos valores do
jornalismo enquanto “disciplina de veridicção” (Kovach & Rosenstiel).
Palavras-chave: Ensino do jornalismo; campo jornalístico; profissionalização dos jornalistas;
convergência mediática; valores do jornalismo.
Abstract
Reflecting on the teaching of journalism in the current context of profound change in the
journalistic field, affected by economic and political changes, technological changes, market
changes, and new production processes, is the purpose of this work. Our departing point is a
survey launched with current and former students of Communication Sciences at University of
Beira Interior, where the practice of journalism in its online content innovation laboratory has
been developing for more than 16 years. From this exploratory study we conclude that if
journalism is to have a future, it will have to claim the reaffirmation of the field (Bourdieu); the
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 22
professionalization of its agents (Schudson); the mastery of new technological tools;
experimenting, as far as possible, with the tacit contracts governing the profession (Polanyi);
and, mostly, it will have to preserve the specificity of journalism's values as a "discipline of
veridiction" (Kovach & Rosenstiel).
Keywords: Journalism teaching; journalistic field,; professionalization; media convergence;
journalistic values.
Introdução
O jornalismo, que permaneceu conceptualmente estável por mais de um século
(McQuail, 2002) foi uma das profissões mais afectadas pela revolução tecnológica das últimas
duas décadas. Alterações económicas e políticas, alterações tecnológicas, de mercado, e das
condições de produção determinaram novos e ainda incertos modelos de negócio, a
reconfiguração das audiências, novas plataformas e linguagens, num ecossistema de perfil
muito volátil e gerador de grande ansiedade em toda a cadeia de produção e distribuição. Na
confluência destes fenómenos, de que é produto, mas também espelho e conceito, o
jornalismo continua em busca de um lugar que abarque a diversidade destes desafios e
pacifique as suas práticas.
Prever como será o futuro da profissão deixou de ser tarefa exequível no novo
ecossistema mediático, mas cabe à Academia, se o jornalismo for tomado a sério (Zelizer,
2004), pensar estas mudanças e o impacto que deverão ter no currículo e ensino do
jornalismo.
Para a Academia, que deverá pensar a evolução do campo não apenas no seu aspecto
conjuntural, este quadro de instabilidade e crise pode ser perspectivado simultaneamente
como um tempo de desafios e de oportunidades para uma reflexão sobre os caminhos na
formação de jornalistas, de que o primeiro será a afirmação epistemológica do campo (Pierre
Bourdieu, 1985, 1996) e da profissionalização dos seus agentes (Schudson, 1995, 2003;
Tuchman, 1972, 1980), demarcando as suas especificidades de essential food supply of our
democracy (Jones, 2009). O desafio seguinte será abraçar a convergência dos meios e a
consequente reconfiguração das redações, traduzindo-o num ensino do jornalismo que deverá
fazer com que os estudantes possam experimentar algumas destas mudanças em ambiente
académico.
A UBI destaca-se nesta circunstância a partir do papel pioneiro do seu laboratório de
inovação em jornalismo online, permitindo aos seus alunos não só uma simulação da realidade
jornalística, mas igualmente a possibilidade de conhecer o terreno mutável onde decorre a sua
prática, o conhecimento tácito de que fala Michael Polanyi (1966), ou o currículo oculto de
Santomé (1995), e que desde o início identificamos como uma vantagem competitiva na sua
formação.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 23
É dentro deste contexto que o presente trabalho toma por objeto o Urbi@Orbi
(www.urbi.ubi.pt), projeto de ciberjornalismo académico com 16 anos, criado no âmbito do
Curso de Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior, e a partir de um
inquérito lançado junto de atuais e antigos estudantes de Comunicação da Universidade da
Beira Interior, procura apurar a percepção destes sobre o perfil de um currículo para o ensino
do jornalismo centrado na convergência de meios e nos dispositivos móveis.
A juventude de um campo em crise
O jornalismo constitui um campo relativamente recente, muito jovem ainda,
31
e já em
grave crise, a última e mais espetacular conduzida pela disrupção tecnológica induzida pelas
tecnologias digitais de comunicação e informação que em meados dos anos 90 começaram a
chegar às redações dos jornais, provocando mutações sociais e produtivas cujo impacto
poucos teriam então antecipado.
Denis McQuail (2009) atribui cinco características aos meios de comunicação de
massas clássicos: produção centralizada de conteúdo com disseminação unidirecional;
organização segundo uma lógica de mercado; conteúdos padronizados sujeitos a controle
político e normativo; audiências massificadas e anónimas; ethos de credibilidade com origem
no prestígio das fontes, monopólio de canais, instantaneidade da receção e profissionalismo da
organização.
Muitos destes aspectos do universo clássico dos mass media estão em processo de
violenta reconfiguração por via do aparecimento das redes e dos meios digitais, gerando o que
Castells apelidou de auto-comunicação de massas (mass self communication):
A difusão da Internet, das comunicações móveis, dos meios digitais e de uma
variedade de ferramentas de software social tem impulsionado o desenvolvimento de
redes horizontais de comunicação interativa que conectam o local e global no tempo
escolhido. O sistema de comunicação da sociedade industrial centrava-se nos meios
de comunicação de massa, caracterizados pela distribuição em massa de uma
mensagem unidireccional de um para muitos. A base da comunicação da sociedade
em rede é a teia global de redes de comunicação horizontais que incluem a troca
multimodal de mensagens interativas de muitos para muitos, tanto síncronas como
assíncronas (Castells, 2007: 246).
Não se pode falar do fim da comunicação de massas, que contemplaria a implosão do
velho paradigma, mas não há como negar que os old media repensam a sua abordagem junto
das audiências, incorporam elementos de interatividade e personalização, ao mesmo tempo
que são forçados a reconfigurar a sua relação com o mercado e os tradicionais modelos de
negócio. E no entanto, o processo de reconfiguração em curso, de que emerge o novo
ecossistema mediático, não alterou ainda substancialmente nenhum dos pressupostos do papel
dos media nas sociedades ocidentais, nomeadamente o seu papel na formação da opinião
31
McQuail (2002), que seguimos, atribui-lhe pouco mais de um século, fazendo-o coincidir com a emergência da
imprensa moderna e dos media de massas.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 24
pública, e o seu peso no fortalecimento da cidadania e dos processos de deliberação
democrática (Correia, 2006; Correia, 2011; Schudson, 2010; Serra, 2007).
Mas é o jornalismo um campo em crise? Bourdieu (1985; 2002) caracteriza um campo
social como um espaço interacional multi-dimensional, simbólico, homogéneo, e autónomo.
Para esta “topologia social” a sociedade é representada como um espaço de múltiplas
dimensões, onde os agentes se definem pelas suas posições relativas nesse espaço, e pelas
relações de poder que estabelecem entre si. Pode então ser descrito como “um campo de
forças, ie, um conjunto de relações de poder objectivas que se impõem a todos os que entram
no campo e são irredutíveis às intenções do indivíduo” (Pierre Bourdieu, 1985: 724). Os
campos emergem por um processo de diferenciação, cultivando a sua autonomia em relação
aos outros campos através da luta e de trocas simbólicas, e regendo-se por regras tácitas que
contribuem para a sua coesão e reconhecimento. Os princípios de construção do campo são os
diferentes tipos de poder ou capital que este mobiliza, essencialmente capital económico,
capital social, capital cultural e capital simbólico” – ethos, em sentido aristotélico (idem, 724).
Entre as suas propriedades contam-se “serem espaços de posições estruturados” obedecendo
a “leis gerais de funcionamento”, “interesses específicos” e com “sujeitos com conhecimento
das leis imanentes do jogo”, “técnicas, referências e crenças” que produzem e são produzidas
pelo campo (Bourdieu, 2002: 119).
Em Sobre a Televisão” Bourdieu dedica um capítulo ao campo jornalístico, sob a
perspectiva da influência que os seus mecanismos peculiares de autonomia exercem sobre os
outros campos: cultural, artístico, literário, científico, etc. Nessa obra Bourdieu atribui-lhe as
seguintes qualidades: transporta, desde o século XIX, uma lógica interna de oposição entre
publicação sensacionalista” e “de referência”; é extraordinariamente sensível aos veredictos
do mercado (audiência), cuja importância aumenta à medida que se sobe na hierarquia das
empresas; a disputa por audiências toma a forma de uma concorrência pela prioridade (cacha)
tendendo a “colocar toda a prática jornalística sob o signo da velocidade (ou da precipitação) e
da renovação permanente. Disposições incessantemente reforçadas pela própria temporalidade
da prática jornalística que (...) favorece uma espécie de amnésia permanente” (Pierre
Bourdieu, 1996: 107); a concorrência exerce-se sob o signo da vigilância/imitação favorecendo
a uniformidade da oferta (idem) e estas características acabam impactando todos os outros
campos, com tanta mais força quanto estes estiverem igualmente próximos ou dependentes
de lógicas de mercado.
A conceptualização do campo jornalístico como uma realidade moldada por relações
simbólicas e de poder internas e externas, como propõe Bourdieu, ajuda a perceber a
importância da profissionalização da classe e os combates por legitimação que se jogam no
seio desta, pela delimitação e reconhecimento interno e externo do campo.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 25
A profissionalização do jornalismo
Schudson trabalhou a relação entre a profissionalização dos jornalistas e a emergência
do campo, defendendo que esta é essencialmente suportada pela “ideologia profissional” da
objectividade e da capacidade de investigar e reportar os factos, que emergiu lentamente a
partir da criação da imprensa de massas nos Estados Unidos (Schudson, 2003, 2009). Embora
com outro enfoque, na mesma esteira podem ser lidos os trabalhos de Gaye Tuchman (1972,
1980) e Tod Gitlin (1980): a profissionalização dos jornalistas, construída sobre um conjunto
de saberes que estes dominam é um dos principais elementos de delimitação do campo e das
suas práticas. Tradicionalmente, o jornalismo define-se por contraste com outros discursos
quer a partir dos valores que proclama, quer pela forma imediatamente reconhecível dos seus
produtos.
A Academia na definição do campo
Os estudos em comunicação estão desde a origem ligados ao treino profissional dos
jornalistas.
“De facto, foram estes a porta de entrada para o ensino da comunicação na
universidade, sendo que as demais áreas tradicionalmente associadas às Ciências da
Comunicação, como a Publicidade e as Relações Públicas, só posteriormente e por
arrasto seriam integradas na academia, robustecendo a área” (Gradim, 2014).
O seu ensino em escolas data de finais do século XIX, mas a primeira escola da área
verdadeiramente relevante, a Columbia Graduate School of Journalism abre em 1912,
permanecendo em atividade até hoje, e constituindo a única escola de jornalismo da Ivy
League americana”. Já em Portugal os estudos superiores de Comunicação e Jornalismo
chegaram tardiamente à Academia, pois Salazar sempre terá visto com desconfiança as
tentativas de valorizar e dignificar academicamente uma profissão que temia depois não poder
controlar (Gradim, 2014).
Assim, só em 1979 surge a primeira Licenciatura em Comunicação Social num
estabelecimento de ensino público, a Universidade Nova de Lisboa. Fundado por Adriano
Duarte Rodrigues, o curso valorizava as componentes histórico-filosóficas, linguística,
sociológica e tecnológica, com um tronco comum e opções nas áreas de jornalismo, relações
públicas e audiovisual nos últimos anos (Teixeira, 2012). Em 1989, na Universidade da Beira
Interior é criada a licenciatura em Comunicação Social, que posteriormente adopta a
designação de Ciências da Comunicação, dando origem a um mestrado com o mesmo nome
em 1995.
O conhecimento tácito nas redações
É neste quadro que perspectivamos o papel do ensino do jornalismo: englobando a
transmissão dos conhecimentos teóricos e das competências práticas implicadas na modelação
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 26
do campo, como meio para a sua reprodução e legitimação. Essas competências são formais,
mas também em grande medida informais, compreendendo parte daquilo que Bourdieu definiu
como habitus.
32
Também a integração do sujeito num campo não opera por um contrato
explícito, mas pelo reconhecimento implícito ou tácito das vantagens dessa pertença, que o
farão aceitar e dominar a utilização das regras que o definem (illusio), e que são condição de
possibilidade do seu funcionamento (Aa.Vv, 1999; Grenfell, 2008).
Michael Polanyi, em Personal Knowledge (1962), mas sobretudo The Tacit Dimension
(1966) lança os fundamentos teóricos para aquilo que apelida de “conhecimento tácito”, e que
opõe ao conhecimento explícito, caracterizando-o a partir do seguinte aforismo: we can know
more than we can tell”, sendo que “a maioria deste conhecimento não pode ser verbalizado”
(Polanyi, 1966: 4).
33
Um dos muitos exemplos que dá é a capacidade de reconhecermos a face
de alguém, ou as emoções nela expressas: fazemo-lo, mas não conseguimos verbalizar o
processo.
34
A estrutura fenomenal do conhecimento tácito envolve pelo menos dois termos,
aquilo que é experienciado fisicamente e pode ser reconhecido apenas a nível subliminar
(proximal), e as associações e conhecimento formado a partir da atenção ao primeiro termo
(distal). “É do primeiro termo que temos um conhecimento que poderemos não conseguir
verbalizar” (idem: 10). Polanyi acaba por sugerir, a fortiori, que todo o conhecimento radica
no conhecimento tácito. Isto inclui ofícios, competências, modos de executar acções, mas
também o conhecimento científico.
35
Tacit knowledge então é algo que é conhecido e transferido de modo não verbal no
interior de uma comunidade de práticas, partindo primeiro de uma percepção encarnada
(embodied) do que é conhecido, e depois da construção e arranjo desse conhecimento em
conhecimento tácito que pode ser expresso em ações e competências (Zmyslony, 2010). O
conhecimento tácito parte do primeiro termo para o segundo “atingindo uma integração dos
particulares numa entidade coerente que é aquilo a que prestamos atenção. Como não
atendemos aos particulares em si, não conseguimos identificá-los” (Polanyi, 1966: 18), e
consequentemente, nem verbalizá-los nem comunicá-los explicitamente. Essa transmissão dá-
se como que por “osmose”, e a partir do contacto e da interação regulares dentro da
comunidade.
36
No campo das Ciências da Educação Sacristán Lucas (1987) e Torres Santomé (1995)
retomam o conceito de hidden curriculum, termo cunhado pela primeira vez por Philip Jackson,
32
“... sistema de disposiciones adquiridas por medio del aprendizaje implícito o explícito que (...) genera estrategias
que pueden estar objetivamente conformes con los intereses objetivos de sus autores sin haber sido concebidas
expresamente con este fin” (Pierre Bourdieu, 2002: 125).
33
Coloco de lado a discussão sobre os aspectos de teoria da ciência, teoria do conhecimento e ontologia que o
conhecimento tácito na obra de Polanyi pode englobar, como de resto anuncia ser sua intenção. logo no início da obra:
My search has led me to a novel idea of human knowledge from which a harmonious view of thought and existence,
rooted in the universe, seems to emerge (Polanyi, 1966).
34
We recognize the moods of the human face, without being able to tell, except quite vaguely, by what signs we
know it” (idem).
35
Our body is the ultimate instrument of all our external knowledge, whether intellectual or practical” (idem, p. 15).
36
o será por coincidência que a metáfora preferida por jornalistas para falar da misteriosa transmissão dos
inefávels “valores-notícia” é precisamente a osmose.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 27
na sua obra Life in Classrooms em 1968. Este Currículo Oculto designa os conhecimentos,
lições, valores e perspectivas que, inadvertidamente, os estudantes apreendem na sua
experiência escolar, mesmo que deles não tenham consciência explícita. Esta aprendizagem
implícita de mensagens, práticas sociais e culturais, e ideologias latentes contrapõe-se ao
Currículo Explícito que é ensinado em sala de aula, e pode não ser menos importante do que
este na influência que tem sobre os sujeitos, encontrando-se intimamente relacionado às
funções de coesão e reprodução social.
A criação do Urbi@Orbi 16 anos atrás tinha por objectivo tanto proporcionar um
espaço/laboratório de aprendizagem das competências técnicas específicas da profissão
(pesquisa, recolha e tratamento da informação segundo padrões jornalísticos), como fornecer
um primeiro contacto com os contratos implícitos da profissão jornalística, especialmente, por
serem os mais facilmente replicáveis, os que se prendem com o relacionamento com as fontes.
Assim, já em 2000 se escrevia na introdução ao livro de estilo do jornal:
“São suficientes nos jornais as folhas ou livros de estilo porque os jovens estagiários
que os integram são imediatamente socializados, por jornalistas experientes, nas
práticas comuns à profissão e na cultura da empresa (...) [um ] cimento ideológico
(...), um cabedal de experiência acumulado, uma cultura própria que possa ser
distribuída equitativamente pelos recém-chegados” (Gradim, 2000).
Naturalmente, cada redação terá a sua diferente pragmática, muito específica, e até
excessiva, num ambiente que pode ser de alta pressão mas a experiência deste trabalho
desenvolvido com os alunos, que também se aplica às fontes, é uma primeira aproximação a
esse mundo que reputamos de valiosa, e o feed-back dos estudantes a esse respeito não
menos importante.
O ensino do jornalismo segundo os estudantes
Refletir seriamente sobre o futuro do ensino do jornalismo implica escutar todos os
atores envolvidos, não em termos de número, mas do papel que cada um assume no sistema
de ensino-aprendizagem. Foi nesse sentido que para este trabalho decidimos questionar atuais
e antigos alunos da Licenciatura em Ciências da Comunicação, e do Mestrado em Jornalismo
na Universidade da Beira Interior.
Para o efeito criou-se um questionário, que procurava, seguindo a linha adotada por
alguns estudos internacionais como o trabalho de Howard I Finberg e Lauren Klinger para o
The Poynter Institute for Media Studies, sobre as “Core Skills for the Future of Journalism”
(Finberg & Klinger, 2014), recolher dados sobre as competências e conhecimentos que os
estudantes consideram determinantes para o exercício profissional do jornalismo no futuro.
Aproveitámos a oportunidade para os questionar também sobre o ensino que tiveram, sobre o
que gostavam que mudasse e como encaram as transformações que afetaram e continuam a
afetar o jornalismo.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 28
Obtivemos um conjunto de respostas muito interessante para uma reflexão sobre o
ensino do jornalismo neste início de século, obrigação que é tanto da academia quanto dos
antigos alunos, atuais profissionais, e futuros jornalistas.
Esta dimensão que privilegiámos no questionário, com a inquirição quer de antigos,
quer de atuais alunos é extremamente relevante pois permite tirar ilações sobre a evolução do
ensino do jornalismo na instituição, nomeadamente através daquelas que têm sido as práticas
laboratoriais adotadas há vários anos. É igualmente interessante na medida em que para uns a
opinião resulta apenas da sua experiência académica, enquanto que para outros é já o
resultado de uma prática mais ou menos profissional, tenha esta sido obtida num estágio ou já
no decurso do trabalho num órgão de comunicação propriamente dito.
Não abordaremos, no contexto deste trabalho, todos os dados recolhidos, mas vamos
considerar apenas as questões em que a opinião manifestada tem diretamente a ver com o
ensino do jornalismo, ou, por outro lado, com a influência das novas tecnologias no fazer
jornalístico. As respostas que apresentamos devem ser entendidas como uma base de
trabalho, à qual devemos juntar outros dados, nomeadamente opiniões de profissionais e
docentes da área, mas sem a qual não podemos efetivamente pensar o futuro da profissão.
Com um número de respostas reduzido, os resultados não podem ser extrapolados
para outras experiências académicas, até porque dizem apenas respeito a uma amostra de
estudantes de jornalismo da Universidade da Beira Interior. Mas este é um primeiro estudo
exploratório de um trabalho ao qual pretendemos dar seguimento com a recolha de dados
junto de estudantes de outras universidades.
Caracterização da amostra
Em termos de caracterização da amostra, o elemento comum entre todos os inquiridos
é o facto de frequentarem ou terem frequentado a Licenciatura em Ciências da Comunicação
na Universidade da Beira Interior. O caminho que seguiram após completarem o primeiro ciclo
de estudos não é comum a todos, até porque apenas 69% dos inquiridos decidiu seguir para
mestrado (52% desses avançou para um segundo ciclo de estudos na UBI).
37
Apesar das opções tomadas, conseguimos distinguir de forma clara em relação a que
ciclo de estudos se referem as respostas. Introduzimos uma questão que permite
precisamente conhecer o caminho seguido ao nível do mestrado e dessa forma perceber sobre
que experiência académica recai a opinião dos estudantes.
No total, obtivemos 102 respostas de alunos validadas. Desta centena de alunos
tivemos respostas por 73,5% de elementos do sexo feminino e 26,5% do sexo masculino, uma
divisão que segue a tendência quanto ao número de colocados nos cursos de comunicação e
jornalismo, na sua maioria mulheres.
37
A percentagem de alunos que decidiu continuar para um ciclo de estudos fora da UBI, fê-lo nas seguintes
instituições de ensino superior: Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), Faculdade de Letras da Universidade
do Porto (FLUP), Universidade Nova de Lisboa (UNL), Universidade do Minho, Universidade de Trás-os-Montes e Alto
Douro (UTAD) e Universidade do Algarve.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 29
No que diz respeito à idade dos estudantes que responderam ao questionário, esta
varia entre os 19 e os 36 anos, o que permite desde logo perceber que obtivemos respostas de
jovens estudantes, ainda a frequentar o primeiro ciclo de estudos, mas também de antigos
alunos, alguns dos quais terminaram a sua licenciatura em 2006
38
. A média de idades dos
inquiridos situa-se, no entanto, nos 24 anos.
Entre os inquiridos destacam-se três grupos: o mais numeroso é o dos que tem uma
licenciatura (33%), seguido do grupo dos estudantes que possuem um mestrado na área
(26%)
39
. O terceiro grupo que agrega maior número de respostas é o dos estudantes que
estão neste momento a concluir o mestrado (23%).
Uma das dimensões mais importantes nesta caracterização da amostra tem a ver com
a indicação por parte dos inquiridos acerca de potenciais experiências profissionais na área.
Apesar de já termos percebido que a maioria dos inquiridos concluiu os seus estudos, esse
facto não é garantia de que tenham tido contacto direto com o meio profissional.
As respostas dos inquiridos indicam que 62% teve uma experiência profissional na
área desde que terminou a formação, considerada aqui de forma genérica, ou seja, licenciatura
ou mestrado. Importa, no entanto, perceber qual a formação dos estudantes que já teve esta
experiência e sobretudo de que natureza foi essa experiência. Os estudantes com mestrado
são os que em maior número tiveram uma experiência profissional (de um total de 26%, 24%
já teve uma experiência na área). Seguem-se os alunos que estão no último ano de mestrado,
como aqueles que já tiveram uma experiência profissional na área (de um total de 23%, 16%
já teve uma experiência na área). Por fim surgem os que têm uma licenciatura (de um total de
33%, 17% já teve uma experiência).
Em termos de natureza da experiência, os estágios surgem como a experiência que o
maior número de inquiridos indica (56%), seguido das respostas que apontam no sentido de
indivíduos que já trabalharam a full-time na área (25%). Neste sentido é interessante verificar
que sendo os estágios hoje parte integrante da formação dos alunos, é sobretudo entre os
estudantes que estão a terminar o mestrado que encontramos o maior número de respostas a
indicar que a experiência foi precisamente enquanto estagiário. Por sua vez são os estudantes
que concluíram o mestrado aqueles que mais tiveram experiências de trabalho a full-time,
reforçando a importância que os segundos ciclos de estudo adquiriram, sobretudo com a
implementação do processo de Bolonha.
38
Entre os inquiridos a maior percentagem é a dos que terminaram licenciatura em 2016 (19,6%), seguindo-se os
que terminaram em 2015 (17,6%) e em 2014 (17,6%). O terceiro maior grupo de estudantes que respondeu ao
questionário terminou em 2007 (10,8%).
39
Entre os que detêm um mestrado na área destaque para três anos que apresentam percentagem iguais (4,9%) em
termos de número de alunos que concluíram o segundo ciclo de estudos, 2010, 2012 e 2015.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 30
Jornalismo(s) no novo ecossistema mediático
Terminada esta breve caracterização da amostra inquirida, avançamos para as
respostas dadas a um conjunto de perguntas que consideramos centrais no contexto deste
trabalho.
Figura 1: Principais desafios que o jornalismo e os seus profissionais enfrentam
Começamos por uma questão mais geral, mas que nos fornece indicações
relativamente às perceções dos inquiridos relativamente aos principais desafios que o
jornalismo e os seus profissionais enfrentam hoje em dia. O desafio indicado pelos inquiridos
como sendo o maior e, por conseguinte, o mais importante com que o jornalismo e jornalistas
têm de conviver é a circulação de informações falsas na Internet (resposta dada por 42% dos
inquiridos), seguido de perto pela ideia de que os donos dos meios de comunicação estão
demasiados preocupados com os lucros (41%) e a necessidade dos meios de comunicação
tradicionais se adaptarem mais rapidamente à tecnologia (39%).
Realçamos desde logo a preocupação dos inquiridos com a questão das fontes na era
digital, mas focamos o que no âmbito deste trabalho nos parece mais significativo, a questão
da adaptação dos meios de comunicação às tecnologias (indicada sobretudo por inquiridos com
mestrado (15%) e licenciatura (15%); no caso dos primeiros, resultado em grande parte da
experiência profissional na área). Este aspeto é particularmente interessante quando resulta
da perceção de futuros profissionais da área e parece-nos que enfatiza a importância de um
ensino voltado cada vez mais para competências na área do digital, sem, no entanto, ignorar
os princípios básicos da verificação de informação que aliás ficam bem patentes no principal
desafio indicado pelos inquiridos (desafio que aliás resulta de uma tendência de respostas
homogénea entre os diferentes grupos de inquiridos).
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 31
Na sequência das respostas a esta pergunta, consideramos de seguida as opiniões
relativamente aos benefícios que a tecnologia trouxe para o jornalismo. Verificamos então que
a mobilidade, o facto de as pessoas poderem aceder às notícias a partir de qualquer lugar é
indicado pela maioria dos inquiridos (73%) como a principal mais valia introduzida pela
tecnologia. Segue-se o facto da distribuição ser mais fácil e rápida (resposta indicada em
primeiro lugar por 48% dos inquiridos). Já o terceiro aspeto mais indicado é o facto da
tecnologia permitir contar histórias de novas formas (40% de respostas) seguido de perto pela
ideia das pessoas poderem encontrar mais facilmente as notícias (indicado por 38% dos
inquiridos como primeiro benefício introduzido pela tecnologia).
Figura 2: Maiores benefícios que a tecnologia trouxe para o jornalismo
Parece-nos que estes resultados não deixam dúvidas e apontam precisamente na
direção que pretendemos realçar neste artigo, ou seja, a de que o acesso à informação se
transformou por completo em virtude do consumo ser hoje feito em múltiplos dispositivos,
numa lógica de mobilidade e conectividade permanente; mas também que a forma como se
transmite a informação mudou radicalmente com as novas tecnologias e é por isso necessário
saber relatar os factos dessa maneira, nomeadamente com recurso à convergência mediática
que destacamos neste trabalho. O acesso mais fácil às noticias tem a ver também com estas
novas formas de produção e circulação e fecha de certa forma uma série de aspetos centrais
para o futuro do ensino do jornalismo.
Para percebermos efetivamente a opinião dos inquiridos sobre o ensino do jornalismo,
colocámos também no inquérito duas questões muito concretas. Pretendíamos saber, junto de
atuais e antigos alunos, se consideram que o ensino do jornalismo tem acompanhado as
mudanças que se têm registado no ecossistema dos meios de comunicação, e também se, por
outro lado, tem acompanhado as mudanças que se fazem sentir no meio profissional. Apesar
de semelhantes as perguntas diferenciam-se na última parte, porque o meio profissional não
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 32
incorporou ainda algumas das transformações mais profundas que têm afetado o ecossistema
mediático.
No que diz respeito ao acompanhamento das mudanças que se têm registado no
ecossistema dos meios de comunicação, os inquiridos dividem-se na maioria entre as duas
primeiras categorias de resposta, ou seja, concordam por completo que existe um
acompanhamento das tendências (11%) ou concordam simplesmente (45%). Destacamos, no
entanto, que 35% das respostas surgem na hipótese intermédia da escala (Não concordo/Nem
discordo), o que no fundo não revela mais do que dúvidas sobre a efetividade desse
acompanhamento por parte do ensino.
Já na questão seguinte, que realça o contexto mais particular do ensino do jornalismo
acompanhar as mudanças sentidas no meio profissional, aumentam as dúvidas e diminui a
concordância com a ideia. Para 42% dos inquiridos não é evidente essa aproximação e por isso
as respostas ficam na categoria central da escala (Não concordo/Nem discordo). Há no entanto
6% de inquiridos que não têm qualquer dúvida quanto ao acompanhamento feito por parte do
ensino, ideia que 41% também apoia. Neste caso é interessante verificar que são os inquiridos
que tiveram experiências profissionais e em particular os que trabalharam ou trabalham
em full-time, que menos assumem uma posição de concordância ou discordância.
A questão do ensino é central neste trabalho e colocámos por isso mais uma questão
que foca esta dimensão tão importante para um jornalista. Conscientes de que existem de
facto diferenças entre a realidade da formação académica e do mercado de trabalho,
questionámos os atuais e antigos alunos sobre se deviam ser adotados novos modelos e
formas de ensinar o jornalismo que preparassem melhor os alunos para o mercado de
trabalho.
A maioria das respostas (79%) aponta no sentido de ser necessária uma mudança ao
nível do ensino, como forma de garantir que os alunos saem melhor preparados para o
mercado de trabalho (54% concorda totalmente com a necessidade de uma reformulação,
25% manifesta apenas concordância). Apesar de sabermos de antemão que a formação
académica apenas pode simular parte dos contextos que os estudantes vão encontrar no
mundo do trabalho, a verdade é que as respostas dos inquiridos indicam de forma clara a
necessidade de se repensar o ensino do jornalismo à luz do novo ecossistema mediático.
Práticas laboratoriais e novas tecnologias
Estes dados suportam assim a ideia que defendemos neste trabalho, ou seja, que as
práticas laboratoriais são fundamentais para o ensino do jornalismo e que é necessário
continuar a repensar os seus modelos, tendo em conta as mudanças que afetaram o
jornalismo. Apenas dessa forma será possível que os estudantes continuem, no ambiente
académico, a experimentar uma realidade simulada, mas aproximada do que encontrarão mais
tarde em contexto laboral. É também neste sentido que vão as respostas dos inquiridos que de
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 33
forma livre, em questões de resposta aberta, manifestaram a sua opinião no final do inquérito
aplicado. opiniões muito distintas, a começar por críticas fortes sobre o trabalho que tem
sido feito ao nível do ensino.
“Tendo em conta toda a formação académica que recebi acho que os cursos de
jornalismo estão mais do que desatualizados! É necessária uma reformulação urgente
para se adaptarem às novas necessidades dos meios de comunicação. Num mundo
centrado nas novas tecnologias é lamentável que os cursos de Jornalismo e Ciências
da Comunicação não preparem os seus alunos nessas áreas”.
Para alguns inquiridos há de facto necessidade de mudanças no ensino porque o
processo jornalístico, nomeadamente a produção, edição, circulação e consumo, também se
alteraram por completo.
“O Jornalismo está mudado não podemos negar isso. E o ensino académico penso que
tem estado a acompanhar essa mudança, se não estiver está a formar pessoas que
não atingirão objetivos quando saírem para o mercado de trabalho. E está a cometer
um grave erro. Pelo menos na Faculdade que frequentei verifiquei esse
acompanhamento, penso que esteve adequado às mudanças e aos desafios que a
informação hoje exige. Para além dos conhecimentos teóricos os alunos devem ser
alertados para o lado mais laboral, em todos os meios: imprensa, rádio, televisão e
online. As competências dos profissionais passam por uma convergência e isso
também é necessário perceber. As redes sociais são também uma forma de entender
e aceitar que o jornalismo hoje circula de forma fugaz e o papel da verificação terá
que ser assegurado. Este parece-me um dos maiores desafios. Depois a nível
académico devem-se criar programas de ensino adequados a essas mudanças. Desse
modo penso que os alunos sairão mais beneficiados”.
Adequar os programas de ensino é um dos aspetos mais referidos pelos inquiridos,
que destacam nalguns casos a necessidade de uma simulação mais aproximada da realidade.
“São necessárias mais unidades curriculares que coloquem os alunos em situações de
simulação quase fiel da atividade de jornalista. Tem sido feito um esforço pelas
universidades em tornar o ensino mais prático, mas os resultados ainda o
residuais”.
A parte mais prática reclamada pelos estudantes é recorrente, mas parece-nos que
adquire na atualidade um carácter distinto, mais focado em novas competências que podem
ser determinantes para o futuro destes profissionais.
“Atualmente, o exercício do jornalismo exige uma maior variedade de competências,
não basta saber selecionar e escrever é necessário dominar a comunicação e os seus
múltiplos canais. O ensino do jornalismo, por mais que promova o domínio de outras
ferramentas, ainda não as como essenciais. O design, por exemplo, é
extremamente valorizado no jornalismo multiplataforma por fazer a mesma função do
lead no jornalismo impresso: ele chama a atenção e atrai o público. Mesmo assim, é
pouco explorado. Não sou a favor de unidades curriculares que se dediquem apenas a
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 34
uma ferramenta, o mais certo seria a introdução dessas competências em diversas
unidades para se complementarem”.
Reflexões finais
Estas o apenas algumas das opiniões manifestadas pelos inquiridos e que surgem
no seguimento do que defendemos anteriormente: necessidade de demarcação do campo,
profissionalização dos seus agentes, e domínio dos conceitos e ferramentas do novo
ecossistema mediático como via para a profissionalização do jornalista. Nítido nestas respostas
é que também reforçam a ideia de que as práticas laboratoriais são determinantes para a
prática profissional. E esse tem sido desde mais de uma década o caminho seguido no
curso de comunicação da Universidade da Beira Interior, e é por isso que o Urbi@Orbi
(www.urbi.ubi.pt) continua a ser um meio muito importante na preparação dos alunos sendo
fundamental, periodicamente, refletir sobre a sua evolução e a forma como vem
acompanhando o campo, quer a nível conceptual, quer em termos de inovação tecnológica.
Ambos os domínios fervilham de novidades, muitas das quais perecerão não resistindo
à prova do mercado; outras tantas permanecerão, e algumas mudarão radicalmente a face do
jornalismo. É essa a razão por que perseguindo a academia a inovação, não é desejável seguir
e adoptar toda e cada uma das novidades, mas procurar ter uma visão estratégica do
conjunto. E isso significa em primeiro lugar separar a conceptualização do jornalismo das
ferramentas e meios por que circula neste início de milénio.
Podemos reconduzir as críticas mais sonoras dos estudantes a este segundo aspecto
(treino de ferramentas), quando é precisamente em relação ao primeiro que se colocam os
maiores desafios: aceleração, colonização do jornalismo por outros meios (redes sociais à
cabeça), dissolução do campo, emergência de meios para-jornalísticos predatórios, inversão do
agenda-setting, dificuldades no fact-checking e veridicção, perda do ethos jornalístico,
iliteracia mediática dos públicos, entre muitos, muitos outros ou seja, aqueles para os quais
nem académicos, nem empresários, nem jornalistas, nem estudantes têm resposta. Esses são
os verdadeiros desafios da convergência não tecnológicos, não de operatividade dos meios
mas de manutenção dos “elementos do jornalismo” no verdadeiro borrão,
40
massa informe e
indistinta em que a comunicação mediatizada contemporânea transformou a imensidade de
informação circulante, jornalismo incluído. Ora um bom ensino tem de saber criar awareness
nesta dimensão, que é decisiva se o jornalismo quer ter futuro.
Referências bibliográficas
Aa.Vv. (1999) Bourdieu, a Critical Reader (R. Shusterman Ed.). Oxford, UK, Blackwell
Publishers.
BOURDIEU, Pierre (1985) The Social Space and the Genesis of Groups. Theory and Society,
40
Blur - How to Know What's True in the Age of Information Overload é precisamente o titulo da última obra de Bill
Kovach e Tom Rosenstiel, referindo-se a esta realidade (Kovach & Rosenstiel, 2011).
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 35
14(6), 723-744.
BOURDIEU, Pierre (1996) Sobre a televisão, seguido de A Influência do Jornalismo e Os Jogos
Olímpicos (M. L. Machado, Trans.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
BOURDIEU, Pierre (2002) Campo de Poder, Campo Intelectual. Itinerario de un Concepto.
Tucumán (Argentina), Editorial Montressor.
CASTELLS, M. (2007) Communication, power and counter-power in the network
society. International Journal of Communication, 1(1), 29.
CORREIA, Fernando (2006) Jornalismo, Grupos Económicos e Democracia. Lisboa, Editorial
Caminho.
CORREIA, João Carlos (2011) O Admirável Mundo das Notícias Teorias e Métodos. Covilhã,
Labcom Books.
FINBERG, Howard I. & KLINGER, Lauren (2014) Core skills for the future of journalism, The
Poynter Institute for Media Studies. Disponível em: https://www.surveymonkey.com/s/PoynterCoreSkills.
Consultado em: 25 Junho de 2016.
GITLIN, Todd (1980) The whole world is watching: Mass media in the making & unmaking of
the new left, Univ of California Press.
GRADIM, Anabela (2000) Manual de jornalismo, Covilhã, Universidade da Beira Interior/Livros
Labcom.
GRADIM, Anabela (2014) Géneros Jornalísticos: Programa, Conteúdo e Métodos. Relatório de
Agregação. [Relatório sobre uma unidade curricular apresentado na Universidade da Beira
Interior, em cumprimento do disposto na alínea b) do artigo 5o do Decreto-Lei no 239/2007 de
19 de Junho]. Covilhã.
GRENFELL, Michael (2008) Pierre Bourdieu: Key Concepts, Durham, Acumen.
JONES, Alex (2009) Losing the news - The future of the news that feeds democracy, New York,
Oxford University Press.
KOVACH, Bill & ROSENSTIEL, Tom (2011) Blur: How to know what's true in the age of
information overload, Bloomsbury Publishing USA.
LUCAS, Ana Sacristán (1987) Currículum oculto y discurso ideológico, Madrid, Organización de
Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 36
MCQUAIL, Denis (2002) The future of communication theory, In J. B. d. Miranda & J. F. d.
Silveira (Eds.), As Ciências da Comunicação na Viragem do Século, Lisboa, Editorial Vega.
MCQUAIL, Denis (2009) McQuail's reader in mass communication theory, Sage.
MORAIS, Ricardo & Sousa, João Carlos (2012) Jornalismo regional e redes sociais: entre as
novas oportunidades de participação e a apatia participativa, Cuadernos de Información (30),
21-30.
POLANYI, Michael (1962) Personal Knowledge, London, Routledge & Kegan Paul.
POLANYI, Michael (1966) The tacit dimension, Chicago and London, The University of Chicago
Press.
SANTOMÉ, Jurjo Torres (1995), O curriculum oculto. Porto, Porto Editora.
SCHUDSON, Michael (1995) The power of news, Cambridge, Harvard University Press.
SCHUDSON, Michael (2003) The Sociology of News, New York, Norton & Company.
SCHUDSON, Michael (2009) Objectivity, Professionalism and Truth Seeking in Journalism. In K.
Wahl-Joergensen, & Hanitzsch, Thomas (Ed.), The Handbook of Journalism Studies. New York:
Taylor & Francis, Routledge
SCHUDSON, Michael (2010) Cidadania e jornalismo, Lisboa, FLAD - Fundação Luso-Americana
para o Desenvolvimento.
SERRA, Joaquim Paulo (2007) Manual da Teoria da Comunicação, Covilhã, Labcom -
Universidade da Beira Interior.
TEIXEIRA, Patricia Oliveira (2012) O ensino do jornalismo em Portugal: breve história e
panorama curricular, ao virar da primeira década do século XXI, Estudos em Jornalismo e
Mídia, 9(2).
TUCHMAN, Gaye (1972) Objectivity as strategic ritual: An examination of newsmen's notions
of objectivity, American journal of sociology, 77(4), 660-679.
TUCHMAN, Gaye (1980) Making news: A study in the construction of reality, New York, Free
Press - Simon & Schuster.
ZELIZER, Barbie (2004) Taking journalism seriously: News and the academy, Sage
Publications.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 37
ZMYSLONY, Iwo (2010) Various ideas of tacit knowledge - Is there a basic one? In T. Margitai
(Ed.), Knowing and being: perspectives on the philosophy of Michael Polanyi (pp. 30-50),
Newcastle, Cambridge Scholars.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 38
Ricardo Henrique Almeida Dias
Centro Universitário Unifacvest
ricardohadias@gmail.com
Resumo
Neste artigo apresentamos uma experiência com estudantes de jornalismo que procurou
abordar os processos da ciência no jornalismo científico, buscando uma alternativa à
divulgação dos resultados produzidos pela ciência, o que normalmente podemos notar nos
meios de comunicação. Com esta finalidade, usamos a noção de narrativa jornalística para que
os estudantes percebessem os processos da ciência, ou seja, que eles notassem que o
jornalismo enquanto narrativa nos propicia condições para que a produção científica seja vista
além dos resultados. Na discussão dos textos sobre as interações entre jornalismo, narrativa e
ciência, os alunos foram capazes de reconhecer a relevância da abordagem dos processos da
ciência, ao pontuarem diversas possibilidades nesse âmbito. Os alunos também consideraram
a relevância do jornalismo enquanto expressão narrativa, sendo que os processos da ciência
podem ser abordados a partir da noção de narrativa jornalística. Podemos concluir que o
estudo da narrativa no jornalismo demonstrou ser eficaz para a abordagem dos processos da
ciência no jornalismo.
Palavras-chave: ensino de jornalismo, jornalismo científico, narrativa jornalística
Abstract
The purpose of this research is to identify how processes of science can be approach among
journalism students through the narrative journalism notion. Narrative journalism could be
useful for students to realize the processes of science, i.e. it can provide conditions in a way
that science could be seen beyond the results and direct applications by the students. In the
discussion of the texts about the interactions between journalism, narrative, and science
journalism, students were able to recognize how processes of science matter. Narrative
journalism has been proven effective for the purpose of teaching the relevance of the approach
of the processes of science in the journalism sphere.
Keywords: journalism teaching, science journalism, narrative journalism.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 39
Introdução
Diversos estudos têm se ocupado da circulação da produção científica para além do
campo original na qual ela circula, a academia. Esse processo de circulação não se daria sem
conflitos, tais como qual linguagem utilizar, se mantém ou não os jargões técnicos, se
simplifica a ciência demasiadamente, conflitos entre cientistas e comunicadores, entre outros.
Esses problemas geraram inúmeras pesquisas para resolvê-los, seja do ponto de vista da
linguagem, da comunicação ou da educação. Dentro da área de pesquisa em jornalismo,
muitos trabalhos sobre jornalismo científico, mas poucos de como ensinar jornalismo científico
e a compreensão de situações efetivas de ensino nas quais os problemas levantados pelas
pesquisas podem ser trabalhados junto a estudantes de jornalismo.
O ensino de jornalismo tem sido revisto com muita frequência desde o advento das
novas tecnologias de informação e comunicação, o que alterou profundamente a maneira como
são produzidas e consumidas notícias, causando reflexos de como ensinar jornalismo. Uma das
tendências está no ensino de técnicas que permitam aos estudantes irem além da simples
produção da notícia baseada no lide e na pirâmide invertida, já que os consumidores de
notícias buscam compreender o contexto no qual tal notícia está inserida. Eles procuram ir
além de simplesmente estarem informados, mas estarem bem informados. Textos jornalísticos
que podem se constituir em uma narrativa, ou seja, uma história mais ampla que traga
compreensão, são encontrados em grandes portais de notícias do mundo inteiro. Uma das
pesquisas da área, Berning (2011), demonstrou como tópicos narrativos e literários estão
presentes no jornalismo e como as estratégias linguísticas usadas pelo movimento New
Journalism tomaram novas direções com o advento da Internet e suas características
eletrônicas únicas.
A reconceituação do jornalismo na era da informação incorpora o “Novo Novo
Jornalismo” como um dos seus momentos. Portanto, é absolutamente necessário que
as pessoas desenvolvam habilidades de alfabetização digital e aprendam a avaliar e
refletir criticamente na inundação de imagens, sons e textos na sociedade da
informação de hoje (p. 13).
No jornalismo científico podemos encontrar manifestações narrativas e literárias,
como nos relatos de Carvalho et al. (2008) e Passos (2010). Sobre o jornalismo científico em
si podemos defini-lo como uma das editorias do jornalismo que aborda o universo da pesquisa
científica. A relação com a pesquisa pode ser de forma direta, quando da divulgação dos
processos e resultados da pesquisa, ou de forma indireta, quando o jornalista tem por objetivo
noticiar aspectos políticos, econômicos e sociais relativos à pesquisa. O principal objetivo do
jornalismo científico é tornar possível o diálogo entre as universidades e institutos de pesquisa
com a sociedade e vice-versa, fazer com que as posições da sociedade sejam expressadas no
universo acadêmico. Entretanto, esse diálogo não se sem conflitos, sendo que um dos
maiores problemas do jornalismo científico, documentado em diversas pesquisas (MARQUES
DE MELO, 1982; THIOLLENT, 1983; PECHULA, 2007; CASCAIS, 2003 e STOCKING, 2005) está
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 40
na abordagem quase exclusiva dos resultados da prática científica, na qual todo o histórico,
relações com a sociedade, questões éticas, metodologias empregadas, erros durante o
processo que foram relevantes para o resultado e até situações cotidianas que foram cruciais
para o atingimento do resultado são esquecidas pela mídia. O público que tem contato com a
ciência através da mídia conseguiria visualizar apenas a ponta do iceberg da atividade
científica. Apesar de ser uma situação presente no jornalismo científico, essa abordagem rasa
também acontece em outras editorias do jornalismo como a economia, a política e a editoria
de cultura, que se baseia mais na agenda dos artistas do que em suas produções artísticas.
Por acreditarmos que o trabalho com a concepção narrativa para o jornalismo poderia
criar condições para a abordagem dos processos da ciência, temos por objetivo neste artigo
expor uma situação real de ensino na qual trabalhamos com a abordagem do jornalismo que o
concebe como uma das narrativas da contemporaneidade, tendo por objetivo proporcionar aos
estudantes de jornalismo o tratamento dos processos da ciência nos enunciados jornalísticos.
Assim, buscamos demonstrar aos estudantes a importância do reconhecimento de um
processo narrativo na produção de enunciados jornalísticos relativos à ciência.
Para o cumprimento desse objetivo, elaboramos uma unidade de ensino para ser
aplicada em 20 horas e a aplicamos como parte da disciplina Jornalismo Científico em uma das
universidades federais brasileiras localizada na região centro-oeste. Essa instituição foi
escolhida pelo fato da disciplina ser oferecida regularmente e constar no currículo do curso de
jornalismo como disciplina obrigatória. Neste artigo, expomos um dos eixos da unidade que
versou sobre a narrativa jornalística, na qual os alunos deveriam ter lido anteriormente dois
textos: o capítulo Relatar o acontecimento da obra O discurso das mídias de Patrick
Charaudeau (2010) e o artigo O real e o poético na narrativa jornalística de Jorge Kanehide
Ijuim (2010). O objetivo da proposição dessas leituras foi proporcionar condições para que os
alunos notassem os processos da ciência através da perspectiva narrativa para o jornalismo.
Esta pesquisa é caracterizada pela pesquisa-ação (TRIPP, 2005), na qual selecionamos
um grupo específico de estudantes e os acompanhamos ao longo de um semestre. O curso foi
dividido em cinco eixos: aspectos introdutórios do jornalismo e do jornalismo científico;
filosofia e epistemologia da ciência e suas relações com o jornalismo científico; pesquisas
sobre jornalismo científico; narrativa jornalística e jornalismo científico e produção em
jornalismo científico. Neste artigo nos detemos no penúltimo eixo, que este trabalho tem
por objetivo discutir a importância da narrativa na produção de enunciados jornalísticos
relativos à ciência.
A unidade de ensino teve a presença de 25 alunos que cursavam o penúltimo
semestre do curso de jornalismo. A coleta de dados ocorreu a partir de gravações das aulas
em áudio e deo. As gravações tiveram por objetivo registrar as discussões entre o
professor/pesquisador, que guiou os diálogos, e os estudantes. Uma avaliação escrita, que
ocorreu ao final do curso, também foi usada para o levantamento dos dados da pesquisa.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 41
Jornalismo, narrativa e ciência
O jornalismo tem sido pesquisado à luz de estudos que o consideram como uma
narrativa. Tais estudos partiram do problema provocado pela ideologia dominante dos meios
de comunicação que busca adotar o jornalismo no estilo hard news, com suposto foco baseado
no acontecimento em si, sem relação com o contexto e as condições em que o fato ocorreu.
Assim, muitos estudiosos têm se debruçado em caracterizar o jornalismo enquanto narrativa
histórica da contemporaneidade, a fim de escapar do suposto jornalismo factual que
predomina nos meios de comunicação.
Ijuim (2010) tem procurado resolver esse problema através da concepção do
jornalismo enquanto forma de narrativa contemporânea. Esse autor buscou investigar a
possibilidade do jornalista conseguir suplantar o efêmero e o circunstancial, atingindo o
essencial humano. O jornalismo pode, sim, se ocupar de aspectos que muitos classificariam
como literatura e não jornalismo, que esses dois campos só foram separados pela
perspectiva positivista que o jornalismo se baseou ao longo do século XX. Para o autor, a
tarefa do jornalista é a de compreender as ações humanas para poder narrá-las. O fazer
jornalístico não se restringe a noticiar, mas supõe o relato das ações humanas, considerando
mais que fatos, mas fenômenos sociais.
O relato das ações humanas advém dos esforços do jornalista em observar e refletir
sobre os fenômenos para, percebendo-os, poder expressá-los. Se é assim, narrar é
construir uma realidade pela atribuição de significados, de sentidos socialmente
compartilhados , que possam colaborar não para que a audiência tenha
informação, mas proporcionar situações para que essa audiência possa ser afetada,
provocada (p. 120).
Com base nessas noções das relações entre jornalismo e narrativa o autor exemplifica
a partir de trechos de enunciados jornalísticos veiculados em meios de comunicação. O
primeiro exemplo é de uma das colunistas do jornal O Estado de S. Paulo. Detendo-se em
expressões utilizadas pela colunista tais como “pôr a mão no fogo; bote salva-vidas; lançar o
homem ao mar; no cravo e na ferradura; assistir de camarote; saia justa e corda bamba”,
Ijuim faz a ressalva que o virtual coloquialismo não é simples opção estilística.
Termos que poderiam permear uma conversa de bar aqui são mais que capricho ou
ilustração (…). A crítica da colunista ganha mais que brilho e atratividade. Ao recorrer
às figuras retóricas, sua narrativa torna-se mais fluida, eleva-se em compreensão,
ajuda a expandir o debate público a um público ainda maior (p. 121).
Isso foi bastante ressaltado durante a aula. Ao utilizar-se de expressões coloquiais e
figuras de linguagem, o jornalista científico não o faria somente para dar um “toque literário”
às matérias científicas, mas o faria, principalmente, para elevar a compreensão dos conceitos
científicos e tornar a leitura mais agradável.
No exemplo retirado do caderno Aliás do Estadão, Ijuim cita alguns trechos nos quais
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 42
são utilizadas hipérboles, comparações e metáforas. Como no trecho: “Os órgãos do animal
incluem bobinas de cabo, de mangueira, transformadores, geradores, compressores e esteiras,
muitas esteiras. Elas são como um sistema digestivo, um intestino (…)” (p. 122). O autor nota
que a repórter não quis “abusar da magia das palavras” no uso desses recursos de linguagens,
mas ela utilizou como uma opção para decifrar o indecifrável idioma de técnicos e engenheiros,
o que talvez fosse incompreensível ao leitor médio se a matéria fosse produzida nos moldes
tradicionais. Por outro lado, “tornou o texto muito mais descontraído e, por isso mesmo, ficou
mais atrativo um assunto científico-tecnológico que, apesar de curioso, é bastante árido”
(p. 122). Dos exemplos trazidos por Ijuim, esse é o que mais se aproxima dos propósitos de
uma disciplina de jornalismo científico, já que o jornalista que se debruça pelos assuntos
científicos corriqueiramente lida com assuntos a priori incompreensíveis para um leitor que não
compartilha da linguagem que circula somente entre pessoas treinadas em determinada
ciência. Assim, uma abordagem jornalística tradicional poderia produzir um texto também
voltado para um público restrito composto pelos que dominam a linguagem científica.
Apesar da utilização de elementos literários nos textos de jornalismo, foi ressaltado
com os alunos a consideração do autor que a apropriação dos recursos da poética não
configuraria na intenção dos repórteres em criar textos brilhantes e cheios de adornos inócuos.
“As proposições desses escritores-jornalistas visam a oferecer narrativas ricas em elucidação,
esclarecimento, emoção, provocação. Em muitos casos, é a maneira de tornar compreensíveis
os indecifráveis idiomas dos especialistas” (p. 125).
Indo na linha proposta por Jorge Ijuim, também julguei a pertinência da abordagem
narrativa proposta por Patrick Charaudeau, que, para esse autor, o modo narrativo serve
para descrever as ações humanas, ou tida como tais, que se originam em um projeto de
busca. Para o autor, descrever um fato depende, por um lado, de seu potencial de ser narrado,
por outro, da encenação discursiva operada pelo sujeito que relata o acontecimento e, ao
mesmo tempo, constrói uma narrativa. A narrativa, em várias circunstâncias, constrói
totalmente o acontecimento, o inscrevendo num antes e num depois que não aparecem em
seu desenrolar (2010: 153).
O papel da diegese narrativa é então o de construir uma história segundo um
esquema narrativo intencional, no qual se poderá identificar os projetos de busca dos
atores e as consequências de suas ações. Em resumo, trata-se de construir uma
narrativa, um narrador (a diegese evenemencial existe sem narrador, mas não a
diegese narrativa) e um ponto de vista (não narrativa sem ponto de vista). É por
isso que a narrativização dos fatos implica a descrição do processo da ação (“o quê?”),
dos atores implicados (“quem?”), do contexto espaço-temporal no qual a ação se
desenrola ou se desenrolou (“onde?” e “quando?”).
Já explicar um fato é tentar dizer o que o motivou, quais foram as intenções de seus
atores, as circunstâncias que o tornaram possível, segundo qual lógica de encadeamento,
enfim, quais consequências podem ocorrer. Isso porque toda narrativa se fundamenta o na
simples lógica dos fatos, mas na conceitualização intencional construída em torno de diferentes
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 43
questões: a da origem (“por que as coisas são assim?”), a da finalidade (“para onde vão as
coisas?”) e a do lugar do homem no universo (“por que eu sou assim no meio dessas
coisas?”). São as respostas, ou tentativas de respostas, a essas questões que tornam o mundo
inteligível e que dão sentido aos destinos humanos.
Após a discussão dos dois textos, assistimos um vídeo de autoria de Marcos Pivetta e
colaboradores (2012) da revista Pesquisa Fapesp intitulado Eta Carinae: além do eclipse. O
vídeo foi escolhido por conter elementos narrativos tais como mudança de cenário, relatos
históricos, cientista como personagem, entre outras características narrativas. Baseada em
uma entrevista com o astrofísico Augusto Damineli, ele começa a narrar como essa estrela
começou a ser estudada e ser notada em 1827. Após explicar como a estrela foi evoluindo,
através de dados históricos e conceituais, ele mostra como começou o envolvimento com o
objeto celeste. Aspectos narrativos como fatos inesperados que mudaram as expectativas
sobre o objeto de estudo, figuras de linguagens (uso de metáforas como “periodicidade de
relógio” e “colocar a corda no pescoço”), humor (“astrônomo vive bastante”) e marcação
temporal, podem ser notados no trecho da narrativa do astrofísico:
Meu envolvimento com essa figura celeste começou muito tempo atrás, era bem
mais jovem que hoje, mais de 20 anos. É uma estrela brilhante, nosso telescópio era
pequeno, então era uma coisa boa para fazer, porque era um alvo que o nosso
telescópio podia observar. Falei: olha tenho um telescópio aqui que tenho bastante
tempo de acesso e tenho uma carreira longa pela frente, astrônomo vive bastante,
peguei um sinal que era indireto do ultravioleta, e me preparei para ficar 20, 30 anos,
mas em pouco mais de dois anos (breve pausa) ela apagou, ela apagou 60 sóis em
uma noite. Fui na literatura, naqueles porões de observatórios e coletei todas as
observações anteriores, e vi que isso acontecia a cada cinco anos e meio e as pessoas
não tinham se dado conta e que era uma coisa periódica, cinco anos e meio, isso tinha
acontecido desde 1945 desde a segunda guerra mundial, estava os dados, e que
era uma coisa periódica. Ser periódica, não tem jeito, tem que ter duas estrelas, não
existe outra forma de explicar um fenômeno assim com essa periodicidade de relógio.
Quando eu falei que Eta Carinae era uma estrela dupla o referee do artigo não queria
deixar publicar. o editor falou que é uma coisa muito interessante e ele está pondo
a corda no pescoço e falou que 10 de dezembro de 1997 vai acontecer novamente e...
isso é ciência! Uma coisa testável! O cara põe a corda no pescoço e a gente tem que
publicar. Aí em 10 de dezembro, estava nos EUA, mas obtive uma observação aqui no
sul de Minas e tinha apagado.
No desenrolar da narrativa, Augusto Damineli demonstra que, apesar do modelo de
sistema binário ter se confirmado, o eclipse demorou muito, o que levantou mais problemas
para o entendimento dos fenômenos que ocorrem em Eta Carinae. Ele conta como teve que
inserir um outro fenômeno ao eclipse, já que durante o mesmo ocorre uma colisão de ventos
de partículas. Assim, Damineli explica como acontece essa interação de ventos entre as
partículas que faz com que a luminosidade da estrela demore a se restabelecer após o eclipse.
O vídeo sobre a estrela nos mostra que quando o jornalismo conta com aspectos
narrativos os processos da ciência podem ser abordados pelas reportagens em jornalismo
científico. Ao narrar, o jornalista que se depara com temas científicos encontra na ciência um
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 44
acontecimento que se desenvolveu em um tempo extremamente dilatado se comparado com a
dimensão temporal na qual constrói seus textos. Em resumo, como exposto na aula, uma
pesquisa de 10 ou 20 anos precisa ser contada em dois minutos do espaço da televisão, se se
tratar de uma notícia de ciência em um telejornal diário. Nessa relação temporal é que o
jornalista normalmente se preocupa com os resultados da ciência. Assim, quando
Charaudeau nos diz que o papel da narrativa é o de construir uma história segundo um
esquema narrativo intencional, no qual se poderá identificar os projetos de busca dos atores e
as consequências de suas ações, pretendíamos proporcionar aos estudantes a relevância
também de se abordar essas questões para trazer aspectos dos processos de constituição da
ciência.
Apesar dos resultados da ciência serem os geradores da notícia, que é a etapa da
ciência em que entram alguns critérios de noticiabilidade, tais como novidade, relevância,
impacto, entre outros, ao tomarmos por base a explicação de um fato buscamos também
tentar dizer o que o motivou, quais foram as intenções de seus atores, as circunstâncias que o
tornaram possível, segundo qual lógica de encadeamento, quais consequências podem ocorrer.
Dentro da explicação do fato, podemos incluir diversos aspectos dos processos da ciência
naquele resultado que está sendo divulgado. Tornar o mundo e a ciência inteligíveis a partir da
conceitualização de questões como: a da origem (“por que as coisas são assim?”), a da
finalidade (“para onde vão as coisas?”) e a do lugar do homem no universo (“por que eu sou
assim no meio dessas coisas?”).
No jornalismo científico, assim como em todas as outras editorias, o fazer jornalístico
não se limita somente a atividade de noticiar, mas supõe o relato das ações humanas como
vimos no texto de Ijuim considerando mais que fatos, que compreendem usualmente os
resultados da ciência, mas fenômenos sociais, que concernem a atividade científica como um
processo. A tarefa do jornalista é a de compreender as ações humanas para poder narrá-las,
como vimos no vídeo elaborado pela Pesquisa Fapesp sobre a estrela Eta Carinae. Apesar do
vídeo se constituir no relato de um astrofísico, uma equipe de jornalistas foi responsável pela
pauta, entrevista, edição das falas, inserções de infográficos e imagens. Uma reportagem em
vídeo que não se restringe unicamente no fato de um astrofísico brasileiro “descobrir” verbo
tão utilizado por um jornalismo científico do tipo breaking news que uma estrela era, na
realidade, duas, mas que relata também como começou o envolvimento de Damineli com esse
objeto celeste. A expectativa do cientista em trabalhar lentamente e rotineiramente com uma
estrela que era possível trabalhar com o equipamento disponível e só visível no hemisfério sul,
mas que, de repente, ela se mostrou mais complexa de entendimento com o apagamento.
Nesse novo cenário, ele narra como propôs um novo modelo e, pouco usual em uma
abordagem do jornalismo científico que se preocupa com os resultados, como foi o diálogo
com os outros cientistas, que se mostrou difícil quando ele conta que o editor não queria
publicar o artigo.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 45
Neste artigo, exploramos duas situações nas quais os estudantes foram instados a
assumir posicionamentos sobre a abordagem dos processos da ciência no jornalismo científico
através da perspectiva narrativa. A primeira foi a aula em si e as discussões entre professor e
aluno e depois a aplicação de uma avaliação que versou sobre a aula.
Resultados: interação dos textos com os estudantes de jornalismo
Como os dois textos apontam para pontos polêmicos do jornalismo, como a
imparcialidade do jornalista perante os acontecimentos, um dos conjuntos de falas expôs a
dificuldade dos jornalistas em lidar com o real.
Professor/pesquisador: Vocês concordam com isso que o jornalista interpreta, que
ele analisa em função da sua própria experiência? Isso é tranquilo para vocês?
Silêncio de 2 minutos.
Estudante: Concordo. Todo ser é um filtro. Para o jornalista, aquela questão da
imparcialidade, totalmente neutro, você tem o seu filtro, sua experiência, seu acúmulo
de cultura, por exemplo, você tem o seu acúmulo de cultura sobre ciência, se você for
escrever sobre algo que você não tem conhecimento algum, vai ser um pouco mais
travado para você, você é livre para escrever sobre ciência, eu me sinto livre para
escrever sobre fotografia, (…) acho que sim, a experiência dele faz diferença, tudo faz
diferença, é um filtro.
Professor/pesquisador: A experiência é importante para gente contar as nossas
histórias.
Estudante: Para tudo. Para avaliar a história, para levantar a história, quando você
tem experiência, você monta a sua pauta de outra maneira. A gente por exemplo,
pode fazer uma pauta jornalística, a respeito da cultura da ciência, vão ter assuntos
que vão estar na cara que a gente não vai notar, não vai pegar, e você vai encontrar
minúcias ali, ou coisas bem óbvias que a gente o vai perceber, porque você tem
experiência naquela área.
Professor/pesquisador: Quando você tem experiência daquilo, você também
consegue detectar as mudanças, você consegue detectar mudanças ao longo dos
fenômenos da história, dos acontecimentos, você detecta mudanças a partir da
nossa experiência também, além do filtro que você (estudante) colocou, a gente
também consegue ficar mais acurado e detectar essas mudanças. Mas a técnica é
igual para nós todos.
Nesse diálogo, tocamos no ponto crucial para a prática jornalística que é a
neutralidade do jornalista perante os fatos, procurando a objetividade total dos
acontecimentos. Os textos de Ijuim e Charaudeau questionam essa prática ao defenderem que
os jornalistas devem, sim, utilizar a própria experiência para se posicionarem perante o que
chamam de fatos. Para Charaudeau, partindo do acontecimento, o jornalista interpreta e
analisa em função de sua própria experiência, de sua própria racionalidade, de sua própria
cultura, tudo isso combinado com as técnicas próprias a seu ofício (2010: 156). Já o
imaginário consolidado da profissão pressupõe que o jornalista não interprete com a própria
experiência, mas que deixem os fatos dizerem por si próprios. O estudante conseguiu notar
esse ponto controverso da prática jornalística, o que foi o objetivo da unidade de ensino, sendo
que os textos lidos foram levados em conta para a rejeição desses estudantes em
considerarem que o jornalista seria um profissional absolutamente imparcial e neutro perante
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 46
os fatos. Durante a fala, o professor/pesquisador ressaltou que com essa experiência adquirida
a partir do aprofundamento no assunto que se está noticiando, o produto jornalístico resultaria
em um texto também aprofundado, já que as mudanças no tempo seriam detectadas e
trabalhadas pelo jornalista. A detecção das mudanças no tempo proporcionaria condições para
o trabalho com os processos da ciência, o que foi um dos objetivos desta pesquisa.
Após a exibição do vídeo Eta Carinae: além do eclipse surgiram mais discussões sobre
jornalismo, narrativa e ciência.
Professor/pesquisador: Vocês conseguiram ver os elementos narrativos dessa
história? Ele falou primeiro do envolvimento dele com aquela estrela. Tinha 20 anos,
astrônomo vive muito... mostra questões históricas, viu aquele fenômeno e depois foi
para revisões bibliográficas, porões de observatório. Todo momento ele está narrando,
lembrando coisas que foram importantes para construir o que se conhece hoje sobre
esse astro. E depois o fechamento da narrativa, que é você tentar prever as
consequências para o futuro, essa estrela pode explodir a qualquer momento ou
milhões de anos.
Estudante: Parece que foi combinado com o professor. Parece ele não cita, dos
efeitos, o ano, aquela coisa chata. Ela conta de um jeito que fica tão gostoso. É o que
você falou, nos textos, meio que um contador de histórias mesmo. A gente abraça,
acolhe, o fechamento ele leva no bom humor. Um contador, de alguma maneira,
parece que ele foi direcionado, faça dessa maneira.
Professor/pesquisador: uma equipe de jornalistas, que deve ter instruído ele a
fazer isso e ele já tem um histórico forte com divulgação científica, ele tem uma
naturalidade para falar. Então são as duas coisas, essa equipe de jornalistas que
estava com ele e ele tem esse lado de contador de histórias. Não foi uma coisa que o
jornalista entrou no meio e fez passagem e tal.
A pergunta: “vocês conseguiram ver os elementos narrativos da história?” teve por
objetivo fazer com que os alunos refletissem sobre as mudanças na trajetória da pesquisa
desenvolvida por Damineli durante o tempo em que pesquisou a estrela Eta Carinae. Com essa
percepção dos elementos narrativos, o objetivo foi proporcionar condições para que os alunos
notassem os processos da ciência, o que fica mais fácil de visualizar com os elementos
narrativos do discurso de Damineli. O estudante ressaltou também a maneira mais prazerosa
de se abordar a ciência utilizando esse viés narrativo, o que também é um objetivo de uma
abordagem narrativa para o jornalismo. Após o comentário de um dos alunos que “pareceu
que foi combinado”, o professor/pesquisador fez a ressalva que, apesar de só a fala de
Damineli aparecer no vídeo, uma equipe de jornalistas deve ter instruído ele a fazer isso. A
linguagem tradicional de televisão é a já batida fala gravada do jornalista, passagem com
sonora. Assim, a maneira tradicional jornalística, além de não proporcionar a abordagem dos
processos da ciência, também não contribui para o prazer de se assistir ou ler sobre ciência na
mídia.
Os alunos também foram instados a assumirem posicionamentos sobre jornalismo,
narrativa e ciência em uma avaliação escrita.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 47
Relacionamento entre o jornalismo científico e a perspectiva narrativa para o
jornalismo
Uma aula da disciplina foi dedicada a aplicação de uma avaliação. Ela foi composta por
trechos dos textos de Charaudeau e Ijuim citados neste artigo, além do texto Divulgação
científica: a mitologia dos resultados, do jornalista português António Cascais. Em um estudo
sobre as formas pelas quais a dinâmica da ciência e da tecnologia é mobilizada pelos meios de
comunicação, Cascais (2003) reflete sobre o que chamou de “mitologia dos resultados”, o que
consistiria na representação da atividade científica pelos seus produtos e na omissão dos
processos da atividade científica. Assim, outro texto com grande relevância para o trabalho
com os estudantes de jornalismo na perspectiva de criar condições para a abordagem dos
processos da ciência no jornalismo científico.
Neste artigo, analisamos as respostas à questão um, que foi: “Qual a relação entre o
jornalismo científico e o jornalismo visto por este ângulo narrativo de acordo com Charaudeau
e Ijuim?”. A questão um foi escolhida pelo fato de ser a melhor questão para a investigação do
relacionamento entre jornalismo e narrativa, que é o objetivo deste artigo.
A maioria das respostas a primeira questão assumiu que é difícil divulgar a ciência
para um público amplo através do jornalismo, sendo que o viés narrativo para o jornalismo
poderia auxiliar nesse trabalho de circulação da ciência na sociedade. Muitos alunos lembraram
dos termos técnicos que poderiam ser explicados pela narrativa e muitos deles usaram o
conceito de tradução para compreender o papel do jornalismo científico. Bastaria ao jornalista
traduzir o discurso científico para o discurso jornalístico. Apesar de termos discutido em sala
de aula que o papel do jornalista não é o de um mero tradutor, muitos estudantes mantiveram
esse posicionamento na avaliação. De acordo com um dos alunos
41
:
Ambos os autores permitem a compreensão do jornalismo como tradução dos fatos
enquanto processo. A finalidade ou consequência não completam sozinhas a narrativa
jornalística. O jornalismo científico insere-se nesses mesmos aspectos: a
necessidade de tradução da linguagem dos especialistas de maneira estratégica e
inteligente, com o desafio de compreender o fato e a pesquisa científica como
processo ao invés de meros resultados; combatendo o sensacionalismo e a bizarrice e,
estimulando o uso de recursos linguísticos na narrativa para ganhar audiências.
Nesse discurso nota-se a interpretação do jornalismo como tradução, mas o estudante
aponta, inclusive grifando, para os processos. Possivelmente devido à leitura de Ijuim e
Charaudeau, que teorizaram o jornalismo enquanto expressão narrativa, o estudante refere-se
a ela, combatendo, inclusive, a possibilidade de que ela se sirva de “sensacionalismos” e
“bizarrices” com intuito de obter maior audiência. Por tradução o estudante compreende que
os fatos difusos o propiciam o entendimento para os leitores, da mesma maneira que uma
língua estrangeira não é compreendida por pessoas que não dominam essa língua. O jornalista
deveria assim trabalhar para traduzir os fatos transformando-os em uma narrativa e, só assim,
41
Grifos do estudante.
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 48
os leitores iriam compreender o que está sendo noticiado. O que é relevante para os
propósitos desta pesquisa é que esse estudante trocou a palavra narrativa por processo,
possivelmente estabelecendo uma relação entre a busca pelo processo dos fatos e o
encadeamento desses fatos na transformação de uma narrativa.
Novamente o estudante insiste na ideia de tradução, ao afirmar que o jornalismo
científico necessita traduzir a linguagem dos especialistas. Para ele, essa tradução é um
desafio para os jornalistas, porque eles devem proporcionar a compreensão do fato e
considerarem a pesquisa científica como processo ao invés de meros resultados. Essa tradução
pode estar relacionada à circulação da ciência na sociedade que o jornalismo propõe e, nesse
percurso de tradução, os processos da ciência poderiam ser abordados, o que foi o objetivo da
unidade de ensino.
Também podemos notar no encerramento da resposta uma relação do jornalismo
enquanto produto mercadológico, já que a notícia é vista como um produto que deve objetivar
o ganho de audiências para o efetivo consumo do público. A narrativa e a abordagem dos
processos da ciência, para esse estudante, não devem se desgarrar do objetivo maior do
jornalismo que é ganhar audiências.
Contextualizar o fato foi lembrado por outro estudante:
No jornalismo científico é necessário que o repórter, enquanto pesquisador e redator
de determinada reportagem, preocupe-se em contextualizar o fato, ir além do trivial,
do que é feito massivamente pelos veículos de mídia. É preciso ir além do urgente, do
imediato para abordar o importante. O jornalista precisa ir além da simples divulgação
de pesquisas científicas, oferecendo ao público, especializado ou não, uma visão
global, contextualizada do fato (da pesquisa, descoberta científica), oferecendo a ele a
oportunidade de refletir e de ser verdadeiramente influenciado ou provocado, pela
narrativa.
Esse estudante reconheceu que o trivial é feito massivamente pelos meios de
comunicação, sendo uma das poucas respostas com críticas à prática jornalística atual. Para
esse estudante, a unidade de ensino produziu significados coerentes com os objetivos da
unidade, que foi proporcionar aos estudantes o reconhecimento de ir além do urgente, dos
resultados da ciência, mas abordar também o contexto, os processos da ciência, uma visão
global daquele fato/resultado que já é vastamente tratado pela mídia tradicional.
Outro estudante também viu a forte relação entre o jornalismo científico e a proposta
narrativa para o jornalismo:
O jornalismo narrativo está bem relacionado com o jornalismo científico. Para
Charaudeau o jornalismo narrativo não está só preocupado com o fato em si, mas ele
também apresenta as causas que levaram a aquele fato, as consequências, de que
maneira ele ocorreu. E o jornalismo científico também apresenta essas questões. No
jornalismo científico não é interessante apresentar apenas os fatos, os resultados (o
que o jornalismo do cotidiano faz normalmente) então para “ter” um espaço o
jornalismo científico normalmente é apresentado em textos narrativos onde é possível
escrever sobre a intenção da pesquisa científica. Essa relação se também pois
normalmente alguma pesquisa científica começa, toma origens nas perguntas, nas
// ESTUDOS DE JORNALISMO, n.º 6, v. 2 // abril de 2017 // 49
questões que tornam o mundo inteligível. Como a audiência nem sempre está
acostumada e entende o que está escrito por cientistas o jornalismo científico para
conseguir o objetivo de informar a massa precisa se aproveitar do jornalismo
narrativo, mais comum, mais fácil de ser compreendido pela massa.
Para esse estudante, com base no trecho do texto de Charaudeau, o jornalista que se
vale da narrativa pode ir além dos fatos, buscando as causas e consequências daquele fato.
Pensando o jornalismo científico, esse estudante fez um exercício de historicidade ao relacionar
o texto que fica estritamente aos fatos ser relacionado só aos resultados da ciência, sendo que
o jornalista poderia ir além dos fatos e resultados da ciência para buscar as intenções da
pesquisa científica, o que tem a ver com os processos. Com a resposta, podemos concluir que
a unidade de ensino cumpriu o objetivo em apresentar os processos da ciência, indo além
dos resultados, ao abordar o jornalismo enquanto expressão narrativa da contemporaneidade,
que foi o objetivo desta pesquisa. A unidade de ensino funcionou junto aos estudantes no
sentido de fazer com que eles vissem o jornalismo científico além dos resultados.
Considerações finais
Na aula sobre aspectos narrativos do jornalismo, julguei a pertinência do uso de
textos de dois teóricos da comunicação que consideraram o jornalismo para além do dito
factual para pensarem o jornalismo enquanto processo narrativo, a história e o contexto
imbuídos naquilo que os jornalistas consideram enquanto fato. Isso teve por objetivo fazer
com que os alunos vissem além dos resultados da ciência e aceitassem a possibilidade de se
abordar também os processos da ciência na prática jornalística. Os textos foram eficazes em
fazer com que os estudantes assumissem posicionamentos referentes ao problema em se
limitar só ao dito fato, ideia que é pregada em manuais de redação dos jornais e aceito como
norma profissional. Os fatos devem dizer por si mesmos, em um asséptico texto que
responde às questões do lide. Os artigos trabalhados com os estudantes, bem como nossas
interações em sala de aula, buscaram questionar esse relato frio dos jornalistas, na qual os
jornalistas podem usar a própria experiência para se posicionarem perante os fatos. Como foi
exposto, quando os jornalistas têm experiência daquilo que está escrevendo, ele também
consegue detectar as mudanças de posicionamento das pessoas envolvidas e as mudanças na
direção da trajetória dos acontecimentos. A visualização dos processos da ciência fica mais
facilitado de serem percebidos a partir dessa percepção do jornalismo enquanto narrativa.
Um dos estudantes reconheceu que o jornalista, e todo ser, é um filtro, o que é um
passo i