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Understanding social change in Brazil: the work of Maria Isaura Pereira de Queiroz

Abstract

The work of Maria Isaura Pereira de Queiroz has been influential in the understanding of social change in Brazil. Her analyses of the modifications, persistence, adaptations and resistance that have flourished in many spheres of social life provide elements for a reading of the social-anthropological singularities of currentchange processes that have gone on in the countrysince the 1950s. Based on an analysis in which the microsociological and macrosociological aspects are combined, she has not only drawn a sociological profile of some environments (rural neighbourhoods, for example), but also developed an approach that shows how Brazilian society has changed under increasing urbanization and industrialization - processes whichcreate interactions, practices and specific contexts thatare unique to Brazil and do not merely mirror thetrajectory followed by other nations.
Athenea Digital - núm. 12: 78-98 (otoño 2007) -ARTÍCULOS- ISSN: 1578-8946
Desvendando as dinâmicas internas
singulares dos processos de mudança social
no Brasil: um estudo das especificidades
locais, regionais e nacionais na obra de Maria
Isaura Pereira de Queiroz
Understanding social change in Brazil: the
work of Maria Isaura Pereira de Queiroz
Maria Jose de Rezende
Universidade Estadual de Londrina
wld@rantac.net
Resumen Abstract
Os estudos sobre mudança social no Brasil contam
com a contribuição de Maria Isaura Pereira de Queiroz.
Suas análises acerca das modificações, das
persistências, das adaptações, das adequações e das
resistências, que foram florescendo nas diversas
esferas da vida social, fornecem elementos para uma
leitura das singularidades socioantropológicas dos
processos de mudança em curso no país a partir da
década de 1950. Através de uma análise em que eram
combinados os aspectos, ao mesmo tempo,
microssociológicos e macrossociológicos, ela delineou
tanto um retrato sociológico de alguns agrupamentos
(bairros rurais, por exemplo) quanto uma abordagem
que revela os traços definidores da sociedade brasileira
em razão da ampliação do processo de urbanização e
de industrialização, gerador de interações, práticas e
contextos específicos que não repetem simplesmente
os rumos e as direções tomadas por outras nações.
The work of Maria Isaura Pereira de Queiroz has been
influential in the understanding of social change in
Brazil. Her analyses of the modifications, persistence,
adaptations and resistance that have flourished in many
spheres of social life provide elements for a reading of
the social-anthropological singularities of current
change processes that have gone on in the country
since the 1950s. Based on an analysis in which the
microsociological and macrosociological aspects are
combined, she has not only drawn a sociological profile
of some environments (rural neighbourhoods, for
example), but also developed an approach that shows
how Brazilian society has changed under increasing
urbanization and industrialization - processes which
create interactions, practices and specific contexts that
are unique to Brazil and do not merely mirror the
trajectory followed by other nations.
Palabras clave: mudanças; sociedade global; grupos Keywords: changes; global society; groups
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Desvendando as dinâmicas internas singulares dos processos de mudança social no Brasil
Maria Jose de Rezende
No âmbito da sociologia brasileira, Maria Isaura Pereira de Queiroz produziu diversos trabalhos
acerca das dinâmicas sociais internas de grupos tanto rurais quantos urbanos. Seus inúmeros livros e
artigos abarcaram temas de inúmeras áreas (sociologia, antropologia, política, história) do
conhecimento. Suas pesquisas tiveram um papel importante no processo de desenvolvimento das
ciências sociais no Brasil, país que estudou com afinco ao longo de várias décadas. Suas análises
sobre as singularidades sociais, políticas e culturais do Brasil foram apresentadas, por ela na
condição de professora visitante, em instituições de ensino de países como França, Canadá,
Portugal, Senegal e Bélgica. Suas pesquisas foram divulgadas sob a forma de artigos e de livros no
Brasil e em outros países (entre eles estão a França, a Itália, o México e a Colômbia).
Seus escritos compõem uma análise minuciosa da mudança social e de suas especificidades locais,
regionais e nacionais. A retomada de seus textos lança luzes sobre os processos sociais em curso no
país e no mundo de hoje e fornece elementos para clarear o significado das ações impulsionadoras
de transfigurações sociais como também dos mecanismos de resistências postos em prática
mediante as alterações que se foram impondo paulatinamente em vista das inovações tecnológicas,
dos novos comportamentos, atitudes e mentalidades que tomaram forma a partir da segunda metade
do século XX.
Neste trabalho demonstro que é de grande valia - para pensar as inúmeras transformações pelas
quais tem passado a sociedade brasileira nas últimas décadas - a tese de Maria Isaura Pereira de
Queiroz acerca da necessidade de colocar sob suspeição as análises que advogam a vigência de um
processo de homogeneização social que levaria à abolição das várias especificidades, sejam elas
rurais, locais, regionais e/ou nacionais.
Discuto, neste artigo, que suas reflexões buscavam a persistência de inúmeras especificidades
sociais, que têm sido mantidas mesmo diante de amplos processos de mudança. Tal postura levava-
a a questionar, através de vários estudos (Queiroz, 1972; 1979; 1973; 1976), a existência de uma
suposta homogeneização, das diversas esferas da vida social, oriunda dos processos de urbanização
e industrialização da sociedade brasileira. Segundo ela, não havia indicativo de que estaria ocorrendo
uma abolição das especificidades microssociais em razão dos processos de mudança em curso no
país.
Seriam a industrialização, a urbanização, o desenvolvimento tecnológico, os novos comportamentos
e atitudes oriundos desse processo capazes ou não de destruir as especificidades socioculturais das
microrregiões? Que tipo de elementos as nuanças e os detalhes dos modos de vivência de cada
grupo social forneciam para propiciar uma leitura apurada da complexidade regional e nacional
brasileira? Ao levantar essas questões, de que maneira Maria Isaura Pereira de Queiroz construía
uma reflexão crítica em relação ao modo de processamento da prática política dos dirigentes na
década de 1960 e 1970? De que maneira suas posturas continham uma crítica aos que advogavam,
através de um projeto tecnocrático, a necessidade de processar uma homogeneização do país? De
que forma as análises empreendidas por ela refutavam as discussões que exaltavam a existência de
uma oposição rígida entre o tradicional e o moderno?
Acredito que é possível, através de seus estudos das microssociedades (no caso os denominados
bairros rurais, grupos rústicos, sitiantes tradicionais), extrair elementos para compreender a
sociedade brasileira não somente quanto às suas especificidades internas, mas também no que diz
respeito às suas singularidades nacionais em face das mudanças conduzidas por um processo de
desenvolvimento tecnológico comandado pelos países mais desenvolvidos materialmente. Vindo o
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país a se integrar cada vez mais num processo de expansão do desenvolvimento capitalista,
conforme objetivava o regime militar em curso nos anos 60s e 70s, poderia ou não ocorrer uma
homogeneização social no que concerne aos modos de vida, à mentalidade, aos valores e à cultura?
Os escritos de Maria Isaura Pereira de Queiroz, mesmo não estando voltados para responder
diretamente a essa última questão, oferecem várias pistas para a análise das adaptações, das
acomodações, das combinações, das resistências e não-resistências, das integrações e não-
integrações dos diversos grupos sociais ao processo de modernização autoritária levada a termo pelo
objetivismo tecnocrático nas décadas de 1960 e 1970.
O tradicional e o moderno como processos
complementares e não opostos
Maria Isaura Pereira de Queiroz, no texto intitulado Roger Bastide, professor na Universidade de São
Paulo, faz uma afirmação que sintetiza, de certa forma, o seu modo de conceber a relação entre o
tradicional e o moderno. Ao apresentar as contribuições de Bastide, ela diz que entre as lições, que
ele havia deixado para as gerações futuras, estava a que destacava a necessidade de pensar a
urbanização, porém não na ótica que isola o moderno e o tradicional, o moderno e o arcaico. Os
estudos sobre urbanização daquele pensador tinham o mérito de não deixar de levar em conta os
tradicionalismos e os arcaísmos que vão sobrevivendo junto ao moderno e vão-se redefinindo e
ganhando novas roupagens.
Sempre buscando distinguir o que é tradicional do que é atrasado, em suas pesquisas, tais como
Bairros rurais paulistas, O povoado de Santa Brígida, O campesinato brasileiro, entre outras, ela
trazia para o debate a necessidade de estabelecer distinções entre essas duas condições. Se havia
quase que um senso comum que confundia essas duas condições, cabia aos cientistas sociais
destrinchar as diferenças que negavam que os dois termos poderiam ser tomados como sinônimos.
Se o tradicional e o moderno “são termos e elementos que se complementam no interior de um
mesmo conjunto” (Gurvitch apud Queiroz, 1972, p. 70), as noções de moderno e de atraso têm
implicações que são derivadas da oposição que o primeiro guarda em relação ao segundo. Ou seja,
numa dada condição de modernização é que se definem os elementos que destoam e que, portanto,
representam formas de atraso, assim designadas em relação a determinados parâmetros que se vão
impondo como moderno. Há, então, uma oposição entre moderno e atrasado.
A vivência do camponês, por exemplo, está mergulhada no tradicionalismo, o que não significa que
ela seja atrasada. Isso pode ser detectado através das respostas dadas pelos sitiantes tradicionais às
mudanças que se situam entre manter “os valores básicos de trabalho autônomo e de situação
econômica independente” (Queiroz, 1973, p.111) e adaptar-se às modificações socioeconômicas
(D’Aquino, 1999, p.163) que se impõem em razão do processo de urbanização e de industrialização.
As análises de Queiroz lançam luzes sobre a necessidade de distinguir atitudes tradicionais de
atitudes atrasadas. No campo da ação política, ela parece crer, em O mandonismo local na vida
política brasileira, que as mudanças ocorridas no país, desde o período colonial até 1930, vão-se
recheando de atrasos que se acumularam ao longo de séculos. Os governantes, ao se curvar,
mesmo após a República, aos interesses pessoais e privados, davam amostras de que os atrasos
políticos estavam-se perpetuando na nova configuração que se ia estabelecendo, mesmo depois de
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1930. A confusão entre as esferas públicas e privadas pode ser lida, em seus textos, como sinônimo
de atraso político. Observe-se a seguinte afirmação
“(...) A revolução de outubro não fora produto de nenhuma mudança na estrutura
social e econômica e sim uma evolução; como evolução, guardava no seu seio,
coexistentes, tendências mais novas entremeadas de velhas tendências
sobreviventes da Colônia. Assim, a passagem da solidariedade familial à
solidariedade de dependência, de elaboração mútua, não foi brusca e não acabou
com o coronel, mas se processou graças à gradual adaptação deste às novas
condições de vida. A revolução de 1930, que se realizou graças à adesão dos
velhos coronéis e que, depois de instalada, se inaugurou chamando a si o apoio dos
que ainda estavam de fora, prova que a era do coronel no Brasil ainda não se tinha
fechado” (Queiroz, 1969, p. 127).
O atraso configurava-se muito mais em razão de ações que se entremeavam para frear as mudanças
políticas do que em vista de ações que se chocavam com um dado processo de modernização. Isto
porque, de fato, a seu ver, não tinha havido, ao longo da história do país, modernizações políticas
dignas deste nome, já que os processos sociais em curso revelavam que os interesses particulares,
privados, continuaram sendo, mesmo após 1889, o cerne do padrão de domínio vigente no país.
Desse modo, nem sempre o atraso expressa uma oposição ao moderno; ele pode significar formas
de frenagem que barram reconfigurações expressivas.
As atitudes tradicionais detectadas por ela na pesquisa intitulada Bairros rurais paulistas eram
detectadas tanto nas predisposições dos indivíduos - estabelecidos numa dada região rural – de
resistir às mudanças produzidas por uma urbanização crescente, que alterava as relações sociais de
todo um grupo social, quanto no modo de adaptação, que se ia definindo continuamente.
A distinção entre o que é uma atitude tradicional e o que é uma atitude atrasada atravessa os seus
escritos, o que exige, todavia, um esclarecimento sobre o próprio significado do conceito de atitude.
Se a atitude é, como afirmam W. Thomas e F. Znaniecki (1927), “um conjunto de idéias e emoções
que se transforma em uma disposição permanente em um indivíduo” (Coulon, 1995, p.30) para agir
de uma determinada maneira e não de outra, ela é, então, um “processo da consciência individual
que determina a atividade real ou potencial do indivíduo no mundo social. A atitude é a contrapartida
do indivíduo aos valores sociais, e toda atividade humana estabelece um elo entre esses dois
elementos” (Thomas e Znanieck, 1927, p.22).
Em seus textos reunidos em O campesinato brasileiro e em Bairros rurais paulistas fica evidenciado
que Queiroz, nos moldes dos sociólogos de Chicago, mencionados acima, está buscando
compreender, ao mesmo tempo, “os valores coletivos e as atitudes individuais” (Coulon, 1995, p.31)
dos sitiantes tradicionais, mediante os processos de mudança em curso no país, nas décadas de
1960 e 1970. O problema que norteou a sua pesquisa, sistematizada naquela segunda obra acima
mencionada, era o seguinte: Estaria, de fato, o sitiante tradicional condenado à desorganização
socioeconômica? Para responder a esta questão, Queiroz fez amplo uso da noção de atitude
individual sem perder de vista os valores coletivos que davam uma fisionomia específica para o grupo
social estudado: os pequenos proprietários que formavam os bairros rurais paulistas.
Mobilizando, então, conceitos que possibilitavam, nos moldes de Gurvitch (1977), rechaçar a posição
durkheimiana de que, como grupo, os indivíduos agem e pensam totalmente diferente do modo como
agem e pensam isoladamente (Durkheim, 1984), Maria Isaura Pereira de Queiroz buscava apontar
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para os elementos que indicavam ser o problema sociológico – a condenação ou não do sitiante
tradicional à desorganização social e econômica – bastante complexo por abranger elementos
objetivos e subjetivos. Assim sendo, era essencial ater-se aos valores sociais e às atitudes
individuais. Desse modo, os valores sociais e as atitudes tinham de ser abundantemente estudados
para se obter uma resposta adequada ao problema estudado em suas pesquisas sobre os bairros
rurais, em particular, e sobre o campesinato, em geral.
O livro Tratado de Sociologia de Georges Gurvitch exerceu forte influência sobre Queiroz. Ela
encontrou nele elementos que punham em relevo os problemas atinentes à sociologia de Durkheim, a
qual é “uma ciência que estuda com uma visão de conjunto, de maneira tipológica e explicativa, os
diferentes graus de cristalização da vida social, cuja base se encontra nos estados da consciência
coletiva irredutíveis e opacos às consciências individuais” (Gurvitch, 1977, p. 26-27).
Retratos sociológicos e mudança social
A importância que Queiroz dava às atitudes individuais diante dos processos de mudanças sociais
pode ser verificada logo no início da obra Bairros rurais paulistas em que ela diz que fará um retrato
sociológico de tais bairros, definidos por ela como um conjunto de relações econômicas, políticas,
culturais e sociais (Queiroz, 1973, p. 4). Conforme afirma Bernard Lahire (2004), a construção de um
retrato sociológico só é possível através do estudo das atitudes e disposições dos indivíduos
estudados. Isto não significa, de modo algum, pensar o indivíduo descontextualizado no que diz
respeito às suas interações e à sua sociabilidade.
A construção de retratos sociológicos somente é possível, segundo Lahire, se forem seguidos quatro
passos. No primeiro reconstroem-se as disposições sociais a partir do material empírico levantado.
No segundo constata-se a variação ou não-variação do comportamento e das atitudes em vista do
contexto social. No terceiro requer-se que se interroguem, através dos dados levantados, quais são
as propriedades sociais do contexto pesquisado, ou seja, que tipos de interação são detectáveis e
quais são os lugares dos indivíduos no âmbito desta interação. Esse terceiro momento é, na verdade,
um estudo sobre os contextos, as práticas e as relações. No quarto, faz-se a gênese das diferentes
disposições dos indivíduos pesquisados, o que implica num estudo da socialização. O retrato
sociológico é finalizado somente quando todos esses passos forem dados.
Considero que, examinando detidamente a obra Bairros rurais paulistas, fica evidenciado que Queiroz
cumpre todos esses passos apontados recentemente por Lahire como condição básica para elaborar
um retrato sociológico. Ela realizou uma pesquisa empírica que lhe permitiu reconstruir as
disposições sociais de indivíduos que traziam consigo traços sobreviventes de uma cultura
específica, ou seja, a cultura rústica e/ou caipira. Isto porque as mudanças microssociológicas e
macrossociológicas que se foram, ao longo do século XIX e XX, processando não conseguiram
destruir inteiramente essa cultura. Através de uma análise sociológica em profundidade e seguindo as
orientações de Gurvitch, Queiroz demonstrou uma coexistência entre surto industrial e cultura caipira.
Assim, as disposições sociais encontravam-se marcadas por esta coexistência. Discordava ela,
então, das hipóteses que afirmavam que a civilização do café havia arruinado a civilização caipira.
Observe-se que a autora entendia por civilização um conjunto integrado de formas de vivência que
abrangiam a vida econômica, política, cultural e social.
As variações e as não-variações dos comportamentos e das atitudes individuais foram trabalhadas
por Queiroz através do detalhamento da composição interna dos bairros rurais na sua correlação com
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a sociedade global, ou seja, a sociedade brasileira como um todo. Isto permitiu a compreensão de um
contexto social em que o tradicional e o moderno se articulavam e produziam relações sociais
singulares tanto dentro de um mesmo bairro rural quanto na comparação entre um e outros.
Ela indaga, insistentemente, sobre as propriedades sociais do contexto, o que era visível em suas
discussões sobre o tipo de interação desenvolvido no interior de cada bairro rural e no interior da
sociedade global, ao mesmo tempo. As práticas e as relações sociais revelam que há inúmeras
tensões nos bairros rurais, já que estes encerram “ao mesmo tempo forças sociais de coesão e forças
sociais de divergência” (Queiroz, 1973, p. 35). Os lugares dos indivíduos (meeiros, proprietários) no
âmbito das interações sociais foram revelando especificidades que não poderiam ser vistas através
de uma análise panorâmica daqueles agrupamentos sociais.
O retrato sociológico que Queiroz se propõe a traçar tem, então, o mérito de revelar o papel da
família, do compadrio, da vida religiosa, das atividades festivas, das relações econômicas, do
trabalho, da cultura, etc., no processo de construção de semelhanças e de diferenças entre os
diversos grupos que formam os distintos bairros rurais. Se no âmbito das relações econômicas
encontram-se, nos bairros rurais, tanto indivíduos que produzem essencialmente para a subsistência
quanto outros que produzem para comercialização, em primeiro plano, e, só num segundo plano,
produzem para a subsistência, é possível deduzir daí que nos grupos em que predomina uma
agricultura comercializada não haveria mais sitiantes tradicionais.
Todavia, ela demonstra que, salvo as diferentes formas de agir dos indivíduos, tanto os que
produzem somente para a subsistência quanto os que já estão inseridos numa agricultura
comercializada podiam, sim, ser denominados de sitiantes enraizados numa mesma cultura: a caipira.
Aqueles primeiros eram denominados de sitiantes tradicionais e os segundos de modernos. Mas
tanto num caso quanto no outro o ritmo de vida cotidiano continuava seguindo o padrão tradicional
em relação ao trabalho, às crenças, aos valores, à religiosidade.
“O bairro rural tradicional é uma das formas de bairro rural, coexistindo com uma
outra forma, a do bairro rural cujos sitiantes, tendo já adotado uma agricultura
comercializada, não abandonaram, todavia as relações sociais e o modo específico
de ‘habitat’ que definem o bairro rural” (Queiroz, 1973, p. 49).
E por que, no retrato sociológico traçado por ela, ganham destaque as relações sociais e as relações
de trabalho? Porque são elas que definem por excelência um dado agrupamento social como bairro
rural. O sentimento de lealdade e a igualdade de posição social entre as famílias compõem os traços
fundamentais de tais agrupamentos; é por isso que eles são tão importantes. Isso não significa,
porém, que do ponto de vista da organização econômica os diversos bairros sejam idênticos. Em sua
pesquisa, na década de 1960, ela detectou a vigência de dois tipos de bairros rurais: o tradicional que
é formado por camponeses, que vivem numa economia de subsistência, e o moderno que é
constituído por agricultores, que já assentavam suas atividades em uma economia comercializada.
Todavia, embora fossem visíveis as diferenças de caráter econômico entre alguns bairros, não havia
diferença entre as relações sociais produzidas pelos componentes destes dois tipos de grupos.
Havia agrupamentos rurais em que as relações de trabalho, o sentimento de lealdade e as relações
sociais encontravam-se, em parte, regulados pelos princípios da civilização caipira e não somente
pelos princípios da civilização moderna. Isso não queria dizer, porém, que aquela primeira civilização
existisse na íntegra na segunda metade do século XX, no estado de São Paulo. Significava sim que
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era perceptível, no interior das relações sociais que se modificavam, a persistência e a permanência
de traços que não correspondiam às civilizações modernas.
A análise comparativa feita por Queiroz tem o mérito de trazer à tona as especificidades dos
processos de mudança social em regiões distintas, porém próximas, que compõem o entorno do
município de São Paulo. No retrato sociológico que ela construiu, ficou evidenciado que o modo como
os diversos agrupamentos ajustam-se e/ou resistem às mudanças é distinto. Havia bairros rurais em
que a cultura rústica definidora de atitudes que se assentavam numa dada relação social regulada
pelo sentimento de lealdade grupal quase que se desagregou. Em outros bairros isso não ocorreu.
Nesses últimos era nítida a coexistência entre traços modernos e traços tradicionais.
Não existia, porém, um padrão único de mudança social em razão do processo de urbanização e de
industrialização. Há singularidades, há diferenças que devem ser levadas em conta. Esse modo de
conceber o processo social lançava luzes para tornar compreensíveis não somente as modificações,
as adaptações, as decadências, as persistências e as resistências que se formavam no âmbito da
sociedade brasileira mediante o processo de industrialização, mas também as singularidades do
processo de mudança que se estabelecia num país subdesenvolvido em relação às nações
desenvolvidas.
Queiroz demonstrava que a submersão total num tipo de civilização urbano-industrial poderia implicar
não, necessariamente, avanços sociais, econômicos e culturais. Era mais provável que ocorressem
avanços em algumas áreas e decadências em outras. Isso, de certa forma, contrapunha-se àquelas
visões que supunham ser a industrialização e a urbanização uma solução para todos os males
sociais. Haveria um dinamismo tanto interno quanto externo (dentro e entre grupos) que produziriam
as mais diversas conseqüências. Uma delas seria a subordinação e o isolamento. Este último,
porém, não significava marginalização. Sociologicamente, para ela, a idéia de isolamento era mais
adequada porque isolamento é sempre limitado, nunca é total (Queiroz, 1973, p. 113).
Essa sua análise pode ser aplicada também às dinâmicas industriais entre as nações desenvolvidas
e subdesenvolvidas. Nesse último caso, haveria segmentos sociais que se integrariam às novas
condições urbano-industriais e haveria outros que sofreriam enormes abalos. Como o objetivismo
tecnocrático que se instaurou no poder após o golpe de 1964 lidava com isso? De modo simples.
Seus representantes (Roberto Campos, Daniel Faraco, O. G. de Bulhões, Mário H. Simonsen, Delfim
Netto) alardeavam que na modernização buscada por eles não havia lugar para aqueles que tinham
dificuldades de acompanhar o processo social em curso (Rezende, 2001; 1996).
Verifico que, mesmo não explicitando, a obra de Queiroz introduzia elementos que questionavam as
perspectivas tecnocráticas assentadas na modernização autoritária e, segundo Furtado (1997), em
curso, no país, nas décadas de 1960 e 1970. Ao pesquisar detalhes da vida social e constatar que
não havia um caminho único seguido pelos diversos grupos sociais, ela punha em questão a
perspectiva de linearidade diretiva sustentada pela ditadura militar, a qual insistia, através de um
dado ideário, que o país predispunha-se firmemente a assumir a condição de grande potência. O
regime justificava, assim, todos os seus atos e medidas.
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A não-abolição das especificidades sociais dos diversos grupos que
compõem a sociedade brasileira
Os textos intitulados Do rural e do urbano no Brasil (1979), Sociologia rural (1969), Bairros rurais
paulistas (1973), Cultura, sociedade rural, sociedade urbana no Brasil (1978), O povoado de Santa
Brígida (1975) e O campesinato brasileiro (1976) insistem na necessidade de compreender a
mudança social, em vista do modo como os diversos grupos reagem aos processos de transformação
em curso, num determinado momento histórico. O fato de não haver um comportamento uno,
padronizado, estanque e predefinido, bem como não existirem reações idênticas a processos
similares que atingem os agrupamentos humanos mais diversos, é necessário, segundo Queiroz,
debruçar-se sobre detalhes das práticas, das ações, das atitudes, dos comportamentos, também
variados, dos inúmeros grupos sociais que compõem uma dada sociedade.
Em seus textos citados anteriormente, é perceptível que ela procurava, naqueles grupos que
pareciam mais difíceis de serem desmantelados na íntegra pelos processos de urbanização e de
industrialização, em curso na segunda metade do século XX, os modos de resistência e/ou de
adaptação sociocultural que permitia uma coexistência amenizadora de conflitos (Queiroz, 1973,
p.138). Assim, constato que essa sua forma de refletir continha uma contundente crítica àquelas
perspectivas que se assentavam na constatação de uma rígida oposição entre o tradicional e o
moderno que acabava por exaltar os valores atinentes a este último e a inferiorizar os daquele
primeiro.
“Nesta perspectiva, tradicional e moderno se comportam (...) como dois pólos
opostos, entre os quais se estende um ‘continuum’ formado por combinações, em
doses diferentes, das qualidades existentes em cada um deles. O continuum é
vertical, as qualidades tradicionais se encontram na parte inferior; a evolução das
sociedades retardatárias em direção às adiantadas é concebida como uma
ascensão. Admite-se a existência de tipos diferentes de sociedades
subdesenvolvidas; no ápice, ao contrário, parece que não existirá senão um só
modelo dominante. Chega-se, então, a considerar (ora explícita, ora implicitamente),
a existência de uma hierarquia universal de valores das sociedades desenvolvidas,
sempre à frente do progresso técnico” (Queiroz, 1972, p. 44).
Em seu entender resistência, coexistência e adaptação não são necessariamente excludentes, já que
elas podem caminhar juntas num mesmo processo de mudança em curso. Esse seu modo de análise
encontrava-se influenciada pela sociologia de Georges Gurvitch (1894-1965) que pensava os
fenômenos sociais como pluridimensionais e dispostos em
“camadas em profundidade que podem servir de pontos de referência para
reconstituir a sua unidade indissolúvel. Da crusta exterior da sociedade – a sua
base morfológica (geográfica, demográfica, ecológica, instrumental, etc.), passando
pelos aparelhos organizados, pelas práticas quotidianas flexíveis, pelos modelos
técnicos, pelos indicativos (signos) e pelos símbolos, indo até às condutas coletivas
derrogatórias ou inovadoras que modificam as práticas e os modelos e criam
símbolos novos, até valores e idéias coletivas e finalmente até à mentalidade social,
ao mesmo tempo coletiva e individual – há um perpétuo vaivém. Todas essas
camadas em profundidades formam um conjunto indissolúvel nos fenômenos
sociais totais sem que seja excluída uma certa descontinuidade entre as camadas e
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a possibilidade de conflitos entre si. A acentuação das camadas, a sua intensidade,
avanços e atrasos variam em função de cada quadro social, cada Nós, cada grupo,
classe, sociedade global, elemento microssociológico e unidade macrossociológica
e cada um deles representa, ao mesmo tempo, fenômenos sociais totais. A isso
junta-se a alteração da hierarquia das camadas em função dos diferentes tipos de
estruturas parciais e globais, tal como a modificação de sua acentuação decorre das
modificações das conjunturas” (Gurvitch, 1977, p. 39).
Partindo dos ensinamentos de Gurvitch, ela considerava necessária a construção de tipologias
capazes de dar conta dos agrupamentos particulares (microcosmos) e das sociedades globais
(macrocosmos). Todavia, estas últimas são formadas a partir daqueles primeiros “em que cada um
representa uma totalidade” (Gurvitch, 1977, p. 40). A sociedade brasileira era tomada pela autora em
questão como uma sociedade global possuidora de uma estrutura e uma organização que incluía
vários tipos sociais, ou seja, o urbano, o rural, o tribal, etc. (Queiroz, 1979, p.162).
Qual é a implicação que essa perspectiva de Maria Isaura P. de Queiroz traz para a teoria da
mudança? Constato que, por um lado, este modo de conceber a sociedade global e as
microssociedades que a compõem contém uma crítica às perspectivas fundadas na linearidade. E,
por outro, funda-se, também numa recusa, senão total, ao menos parcial, das teses da diretividade
histórica. Ou seja, essas últimas não tinham como ser aplicadas inteiramente à sociedade brasileira,
porquanto não se verificava, mesmo nas décadas de 1960 e 1970, a existência de um processo
evolucionista em que um dado tipo de sociedade (rural) seria totalmente superado por um outro
(urbano).
Se era constatável a existência de uma predominância da economia urbana, isso não significava que
seriam abolidos integralmente todos os valores rurais de diversos grupos rústicos. Economicamente,
muitas vezes, ela constatava que, em Bairros rurais paulistas (1973), havia uma supremacia do modo
urbano de conduzir a produção de um determinado bairro rural. Todavia, no plano dos valores sociais
ocorriam permanências que ratificavam o modo de ser da civilização caipira. É interessante notar que
essa perspectiva de Queiroz (1972), rejeitava as leituras que exaltavam a estandardização
socioeconômica como prova cabal de evolução social, nos moldes de Talcott Parsons (1969), vai
representar uma crítica contundente aos estudos assentados nas perspectivas diretivas, lineares e
multilineares. Parsons afirmava que seus estudos estavam interessados no desenvolvimento
evolutivo das sociedades, tanto no seu todo, como em suas principais partes estruturais (Parsons,
1969). Ele afirmava: “Interessamo-nos pelas seqüências de padrões estruturais mutáveis que
caracterizam as sociedades, como sistemas sociais no decorrer de sua evolução, e, na medida em
que isso é permitido pelas limitações de conhecimento e espaço, pelos processos através dos quais
ocorreram as transições” (Parsons, 1969, p. 13).
O pano de fundo para essa crítica à perspectiva parsoniana ela construiu em suas pesquisas
publicadas em Bairros rurais paulistas e em O campesinato brasileiro. Nesses livros ela discutiu os
processos de ajustamentos que foram ocorrendo entre o mundo rural e o mundo urbano. Observo
que a constatação de Queiroz sobre os paralelismos independentes estabelecidos entre as
microssociedades (bairros rurais, grupos rústicos) e a sociedade global (sociedade brasileira)
reafirmava a sua tese, segundo a qual era visível no país confluência e coexistência entre o
tradicional e o moderno.
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Queiroz argumenta que uma parte expressiva das teorias da mudança centradas na oposição entre
aqueles dois pólos acabava por plantar a idéia de que coexistiam o mundo rural e o mundo urbano
“comanda e faz perdurar as desarmonias dos grupos sociais que se encontram no
interior do contínuo formado pelos dois pólos; tais grupos não escaparão ao seu
destino infeliz a não ser abandonando o mais depressa possível seus elementos
tradicionais e adotando rapidamente os propostos pelos países desenvolvidos”
(Queiroz, 1972, p.48).
No artigo Do rural e do urbano no Brasil, ao defender que a sociedade brasileira possuía uma
estrutura e uma organização dotadas de arranjos variados que tornam possível a coexistência de
tipos sociais diversos, ela está, de certa forma, retomando um debate em voga no final do século XIX
e início do século XX, do qual participaram pensadores como Sílvio Romero (1851-1914) e Euclydes
da Cunha (1866-1909). Assim como este penúltimo, ela discordava da tese de Herbert Spencer
(1820-1903) segundo a qual todas as sociedades tiveram um mesmo ponto de partida e teriam um
mesmo ponto de chegada. Há um questionamento à perspectiva histórica fundada na linearidade
evolutiva.
Euclydes da Cunha (1966; 1995), ao estudar a vida social e política no Brasil, também trazia à tona
os avanços e os recuos presentes nas ações dos setores preponderantes ao longo do século XIX.
Em vários momentos ele demonstrava suas dúvidas quanto à existência de uma linearidade evolutiva
no país.
A coexistência entre o tradicional e o moderno
No artigo Pesquisas sociológicas sobre o subdesenvolvimento: reflexões metodológicas, Queiroz
esclarece que sua perspectiva estava fundada na de Georges Gurvitch que não via possibilidade de
“falar de progressão nem de ponto de partida, nem de progresso” (Queiroz, 1972, p. 69). Conceitos
como tradicional e moderno não podem, assim, ser tomados como opostos. Eles são
“complementares, uma vez que se interligam e se pressupõem (...)” (Queiroz, 1972, p.69). Há uma
espécie de entrelaçamento e de associação entre eles formando um todo dotado de organicidade.
A comprovação da coexistência do tradicional com o moderno e do rural com o urbano, levava, dizia
Queiroz, não a simplificações, mas, pelo contrário, à admissão de que tanto o rural quanto o urbano
possuíam complexidades singulares e partilhadas. Ao admitir que na sociedade brasileira coexistem
vários tipos (o urbano, o rural, o tribal) a socióloga em questão estava diante do desafio de apreender
os processos sociais nos seus aspectos pluridimensionais e em suas múltiplas camadas. Isto significa
que há uma necessidade de proceder, ao mesmo tempo, a uma análise microssociológica e
macrossociológica. A pesquisa deve, então, elucidar, num estudo da mudança social, a posição que o
todo ocupa nas partes e a posição que estas últimas ocupam no todo.
As discussões sobre mudança social no Brasil teriam de partir de uma visão de conjunto da
sociedade brasileira, rompendo, desse modo, com análises que enfatizam o pitoresco e o exótico.
Somente assim, seria possível, segundo Queiroz, apreender o que há de moderno no tradicional e o
que há de tradicional no moderno. Isto deveria ser feito através de um processo explicativo capaz de
vencer inteiramente a unilateralidade que incapacita o pesquisador para entender os caracteres
essencialmente brasileiros tanto dos grupos urbanos quanto dos grupos rurais. Isto possibilitaria
saber se a sociedade possuía ou não, na década de 1970, um caráter predominantemente urbano.
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As reflexões de Maria Isaura Pereira de Queiroz acerca da mudança social estão pautadas na
necessidade de diferenciar, nos moldes de H. Lefebvre (1968, 1970, 1970a), urbanização verdadeira
de urbanização precária. Aquela primeira ocorre quando há, de fato, um processo de industrialização
em curso; a segunda se processa quando há uma difusão de um estilo de vida urbano, mas sem o
lastro do desenvolvimento industrial. Para ela, entre 1820 e 1930 teria havido, no país, uma expansão
de um estilo citadino burguês em que as cidades, ainda que estivessem subordinadas ao campo,
iam-se projetando material e simbolicamente como um meio superior a este último. “Trata-se agora,
de um novo arranjo da sociedade, segundo outros padrões, e do aparecimento de novas camadas
sociais” (Queiroz, 1972, p.171).
O fato de o processo de industrialização ter vindo após a firmação de um estilo de vida citadino trouxe
ou não trouxe conseqüências? Se sim, de que tipo eram estas? Evidentemente, toda mudança social
implica desdobramentos singulares. Nesse caso específico, ela verificava que modificações calcadas
num estilo de vida desconexo das condições materiais brasileiras levaram as camadas aburguesadas
a desejarem e a cultuarem um padrão de vida que se assemelhava, o máximo possível, às
sociedades industrializadas européias do século XIX. Ficava, então, subentendido, em suas análises,
que os efeitos culturais desse processo foram devastadores, já que potencializaram a formação de
elites de luxo voltadas para gastos supérfluos.
Foram muitos os pensadores brasileiros que teceram amplas críticas à importação, pelas elites, de
um estilo de vida europeu. Silvio Romero fazia uma crítica ácida àqueles por ele denominados
“burgueses boçais”. Estes eram assim designados porque mandavam vir do estrangeiro até os paus
de vassouras e os palitos de dente (Romero, 1943, p. 121-2). Manoel Bomfim (1868-1932) e
Euclydes da Cunha também, no início do século XX, teciam amplas críticas ao estrangeirismo dos
setores preponderantes. Aquele primeiro os considerava parasitários e incapazes de construir um
projeto de nação soberana. Os segmentos dominantes eram dominados por uma cobiça
incomensurável do modo de vida do além-mar (Bomfim, 1993). Aquele segundo advertia os setores
preponderantes que era melhor ser genuinamente brasileiro, por pior que isso lhes parecesse, do que
ser a cópia de qualquer povo europeu (Cunha, 1995).
Não só no início do século XX, mas também no seu decorrer, outros pensadores sociais também se
referiram às elites de luxo como danosas para o país. Celso Furtado (1920-2004) criticou inúmeras
vezes o caráter perdulário das elites brasileiras. Ele enfatizava que o subdesenvolvimento do país
estava marcado por uma baixa taxa de poupança que inviabilizava um desenvolvimento industrial
significativo, o que se devia a uma “forte propensão ao consumo por parte dos grupos de alta renda”
(Furtado, 2002, p. 14).
Maria Isaura Pereira de Queiroz participava desse debate chamando a atenção para a necessidade
de levar em conta as diferenças microssociais que são geradas na sociedade global, entendida por
ela, como a sociedade brasileira como um todo. Nem todos os setores dominantes brasileiros podiam
dar-se o luxo de ser imitadores de um estilo de vida europeu. Nem todos os segmentos
preponderantes, em suas várias camadas, podiam ser perdulários a este ponto. Não era em todas as
regiões do país que havia a possibilidade das elites imitarem um estilo de vida das sociedades
européias industrializadas. Todavia, ocorre, nessas condições, a geração de disparidades enormes
que os estilos de vida absolutamente diferentes - no que diz respeito aos extremos de ostentação, por
um lado, e de miserabilidade, por outro - passam a alimentar e a potencializar.
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A análise, posta nestes termos, possibilita compreender, segundo Queiroz, a razão pela qual a
“civilização citadina” que emergiu no país, a partir do século XIX, foi obcecada pela idéia de se
distinguir da “civilização rústica”. Construiu-se, no plano cultural, um enorme distanciamento que
passou a valorizar somente os elementos urbanos, tidos como expressão do moderno. Os elementos
tradicionais da cultura e da economia brasileira passaram a ser identificados como expressão de um
mundo atrasado, de um mundo arcaico. As investidas dos setores tecnocratas, a partir de 1964, para
conduzir o país rumo à modernização, reiteravam exatamente estes elementos apontados por Maria
Isaura Pereira de Queiroz.
Aos cientistas sociais ela recomendava que evitassem análises acerca do subdesenvolvimento que
partissem de juízos de valores amplamente difundidos naquele momento, ou seja, aqueles
assentados numa suposta cisão profunda entre o tradicional e o moderno. Ela sugeria que fosse
abraçada uma perspectiva em que o
“tradicional não existe mais em si mesmo, e nem também o moderno; [eles] fazem
parte de um fenômeno social total, no interior do qual devem ser captados e
definidos. (...) Cada sociedade, a cada momento de sua história, define de modo
diferente o que nela existe de ‘tradicional’e de ‘moderno’. Deste modo, toda
hierarquia universal de valores, habitualmente ligada a tais conceitos nas pesquisas
sobre o subdesenvolvimento, perde sua razão de ser; também perde sua razão de
ser toda visão do mundo comandada por dois princípios opostos, sejam eles
tradição-modernidade, primitivo-civilizado, rural-urbano, comunidade-sociedade,
racional-irracional, etc.” (Queiroz, 1972, p. 70).
Percebo em seus escritos uma postura política crítica tanto aos intelectuais que abraçavam as teses
da superioridade do moderno em detrimento do tradicional quanto às propagandas do regime militar
que enalteciam uma estandardização da sociedade. O ideário dos dirigentes, no início dos anos 70s -
justamente no momento em que ela estava compondo essas suas reflexões - enaltecia a busca do
“Brasil: Grande potência”, na qual ganhava proeminência a defesa de um tipo de mudança em que
todos os processos sociais estivessem voltados para a construção de um país moderno,
industrializado, harmônico e coeso. A tecnocracia civil e militar estava voltada para a implementação
de uma sociedade na qual se vencessem paulatinamente as heterogeneidades políticas e culturais.
Ser diferente, pensar diferente e desejar algo politicamente diferente dos padrões impostos pelo
regime pós-1964 era tido como uma heresia.
É nesse contexto que se pode interpretar a preocupação de Maria Isaura Pereira de Queiroz em
questionar politicamente a tese de acordo com a qual era vantajoso para o país que ocorresse uma
estandardização da sociedade. Aparentemente, ela explicitava que estava questionando apenas os
intelectuais que difundiam essas idéias. Todavia, a sua refutação parece não estar circunscrita
somente aos homens de ciência, mas também aos homens de ação, que naquele momento
porfiavam por implementar uma forma de modernização autoritária que era propalada como o
baluarte do progresso combinado com a imposição de uma dada ordem social construída pelos
condutores da ditadura militar. Ao pressupor que era necessário reconhecer que existem em todas as
sociedades e em todos os grupos, potencialidades capazes de produzir as mais diversas formas de
mudança social, ela punha, intencionalmente ou não, diversos elementos potencialmente
questionadores da ação política dos tecnocratas civis e militares que assumiram a tarefa de
desfechar todas as mudanças no decorrer das décadas de 1960 e 1970.
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Maria Isaura Pereira de Queiroz e a refutação das teses de
homogeneização sociocultural
Com este artigo tentei demonstrar, até o momento, que a obra de Maria Isaura Pereira de Queiroz
oferece às ciências sociais no Brasil um caminho fértil para o desvendamento de um diálogo teórico
tanto com a produção sociológica contemporânea em geral quanto com as ciências sociais brasileiras
das décadas de 1950, 1960 e 1970. A compreensão destes múltiplos diálogos travados por ela pode
ser obtida através de muitos caminhos. No conjunto, sua obra revela muitos embates teóricos e
políticos acerca das dificuldades de democratização do Brasil nas décadas de 1950 e 1960. Traz à
tona, ainda, as discussões sobre as transformações culturais a partir de meados do século XX, em
vista da expansão da cultura de massa e de sua tendência a uma provável homogeneização de
hábitos, costumes e valores. Portanto, as questões que mais lhe chamou a atenção foram aquelas
decorrentes do processo de industrialização e de urbanização em curso, no país, após 1930.
O desafio posto à análise da obra de Queiroz pode ser sintetizado da seguinte maneira: como fazer
uma reflexão que apreendesse as dimensões tanto objetivas quanto subjetivas da realidade social
brasileira? Em primeiro lugar, a autora levantou dados empíricos que permitiram elaborar uma análise
macrossociológica e microssociológica ao mesmo tempo. Este tipo de abordagem coloca-a no âmbito
de um debate teórico dos mais relevantes nas ciências sociais no século XX. Ou seja, aquele que
buscava valorizar as inter-relações entre a estrutura social e o indivíduo. A análise empreendida por
ela não tomará o indivíduo somente como ponto de partida. Ela recusava o caminho aberto por
Talcott Parsons (1902-1979), no qual a perspectiva macrossocial ganha proeminência, visto que em
sua teoria geral da ação (Parsons, 1968; 1974) há um enfraquecimento do indivíduo em favor dos
sistemas sociais (Quintaneiro & Oliveira, 2002).
Em qual reflexão fica mais evidente o distanciamento de Queiroz em relação à abordagem
parsoniana que dominava as reflexões sobre a América Latina em meados do século XX? Nas
discussões acerca das singularidades do desenvolvimento urbano e industrial brasileiro, ela refutava,
inteiramente, a perspectiva linear de Parsons que possibilitava uma leitura, a seu ver, uniforme do
processo social latino-americano. Tal uniformidade fazia perder de vista as especificidades locais e
regionais. Percebe-se, assim, em seus escritos uma crítica aos teóricos da modernização econômica
e política. Rostow (1971), Nurske (1957), Hoselitz (1952), por exemplo, elaboraram, em meados do
século XX, análises dos processos de modernização que estavam, de alguma forma, inspiradas nos
pressupostos evolucionistas difundidos por Parsons.
Havia uma teoria fortemente difundida na América Latina que supunha a necessidade de que os
países periféricos buscassem estabelecer processos de mudanças capazes de superar os atrasos
em que estavam submersos. Nesse caso, a Europa e a América do Norte deveriam ser tomadas
como modelos de modernização que a sociedade brasileira, por exemplo, deveria perseguir. Isso,
porém, não significava, que os denominados países atrasados alcançariam o grau de
desenvolvimento econômico, técnico, tecnológico das nações mais adiantadas. Essa pressuposição
está assentada na noção de universais evolutivos posta por Parsons no livro Sociedade: perspectivas
evolutivas e comparativas (1969).
“Com tal categoria, Parsons entende referir-se àquele ‘complexo de estruturas e de
processos coligados cujo desenvolvimento aumenta a tal ponto as capacidades de
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Desvendando as dinâmicas internas singulares dos processos de mudança social no Brasil
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adaptação a longo vencimento’ de uma sociedade, que somente aquelas dotadas
de tais universais podem atingir ‘níveis superiores’” (Chisleni, 2005, p. 221).
As teses acerca da necessária criação de um padrão de homogeneização social - para gerar tanto
instituições quanto indivíduos com capacidade de adaptar-se a uma expansão econômica e
tecnológica supressora de atitudes e de comportamentos socioculturais tradicionais – serão
inteiramente refutadas por Maria Isaura Pereira de Queiroz. Suas obras são uma peleja constante
contra este tipo de abordagem que faz uma tipologia rígida das diversas sociedades em vista de uma
suposta evolução adaptativa.
No que se refere tanto à esfera política e econômica quanto à sociocultural ela, através de diversas
pesquisas empíricas (1973; 1975; 1976; 1978), vai demonstrar que não tinha qualquer cabimento que
as explicações tanto teóricas (estrutural-funcionalistas, por exemplo) quanto políticas estivessem
assentadas na tese de que as mudanças desencadeadas pela urbanização e pela industrialização
resultaria num amplo processo de equalização que levaria a América Latina a se aproximar dos
países capitalistas avançados.
No âmbito da sociologia latino-americana, na década de 1960, havia, por exemplo, as análises
estrutural-funcionalistas de Gino Germani (1969; 1973) que buscavam traçar um perfil sociocultural
das nações tidas por ele como as mais avançadas do continente. Filiado ao modelo parsoniano ele
procurava encontrar, através de suas pesquisas, um conjunto de traços indicadores de que alguns
países (Argentina, Brasil, Chile) haviam alcançado um nível intermediário de “desenvolvimento
econômico e de modernização social” (Germani, 1973, p.11). Para ele, guardando as devidas
proporções, os países mais avançados da América Latina estavam atravessando, nas décadas de
1950 e 1960, “uma fase homóloga àquela pela qual transitaram muitos países europeus nas décadas
transcorridas entre as duas últimas guerras (Germani, 1973, p.12).
O que incomodava Maria Isaura Pereira de Queiroz nesse tipo de análise feita por Germani? Era,
evidentemente, a tentativa de criar uma teoria geral explicativa para os países da América Latina
através de uma comparação descabida com os países europeus. No texto Singularidades sócio-
culturais do desenvolvimento brasileiro (1975), ela recusava a noção de interdependência que era
aplicada pelo estrutural-funcionalismo às condições vigentes no continente. E em que consistia tal
recusa? No fato de que esta perspectiva teórica supunha que as alterações em algumas partes das
sociedades latino-americanas afetariam a estrutura social (pensada, principalmente, nos níveis da
organização social e da cultura) como um todo, o que levaria ao desmantelamento de comunidades
tradicionais inteiras, já que estas seriam paulatinamente suplantadas pelo processo de modernização
que atingiria o mundo objetivo e o mundo subjetivo. Isto levaria a modificações nas esferas
econômica, social, política e cultural. Assim, comportamentos, normas e valores tenderiam a ser
homogeneizados.
Maria Isaura Pereira de Queiroz realizou uma vasta pesquisa acerca do modo de organização tanto
social quanto político nas décadas de 1950 e 1960 e demonstrou, através de dados empíricos, que
não estava ocorrendo uma modernização da vida política brasileira como um todo. Seu estudo (1976)
intitulado Política, ascensão social e liderança num povoado baiano atestava que a industrialização e
a urbanização não haviam destruído ou mesmo neutralizado o mandonismo local no país. Bastava
analisar as ações, as atitudes e os valores de lideranças políticas, de cabos eleitorais e de eleitores
para concluir que o oligarquismo continuava uma força viva no país, apesar de todas as mudanças
que estavam em andamento em meados do século XX.
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Através de uma análise microssociológica que tinha como objetivo encontrar elementos para operar
uma refutação das generalizações explicativas, ela estabelecia uma crítica ao neo-evolucionismo que
acreditava que o desenvolvimento econômico levava à instalação de uma vida política mais racional e
mais eficiente devido a um amplo processo de secularização que reduziria os espaços pessoais,
afetivos e personalistas. Em suas pesquisas pelo interior (Santa Brígida – Ba) do país (Queiroz,
1976), ela afirmava detectar um funcionamento da política baseada em troca de favores,
reciprocidade, relações pessoais e afetivas. Discordava ela, então, que a sociedade brasileira estaria
passando, em meados do século XX, por um processo de padronização política e cultural.
A análise microssociológica indicava que havia um entendimento singular, por parte dos votantes,
acerca da vida política. Em alguns recônditos do país ficava muito claro que as atitudes não só de
lideranças e de cabos eleitorais, mas também de eleitores, não estavam sendo cambiadas com a
emergência da industrialização e da urbanização.
“Votar num candidato indicado por um coronel não é aceitar passivamente a
vontade deste. É dar conscientemente um voto a um chefe poderoso de quem já se
obteve algo ou se almeja obter algo. O voto é, pois, consciente, mas orientado de
maneira diversa do que o voto de um cidadão de sociedade diferenciada e
complexa. No primeiro caso, o voto é um bem de troca. No segundo caso, o voto é
a afirmação pessoal de uma opinião. Na perspectiva da sociedade global, Santa
Brígida vota de maneira ‘desviada’e ‘anormal’. Na perspectiva de Santa Brígida, não
se chega a compreender a conceituação de voto dada pela sociedade global”
(Queiroz, 1976, p,119).
Não havia uma suposta linearidade entre mudança econômica, mudança social, mudança política e
mudança cultural. Ela lançava mão de vários autores (Ferreira de Camargo (1961), Costa (1968),
Furtado (1961), Rodrigues, (1971); Lopes, (1968, 1964)) para demonstrar que não estavam em curso,
com a industrialização e a urbanização do país, a partir da década de 1930, processos universais de
secularização, de democratização, de racionalização, de homogeneização cultural, política e
econômica.
Apesar de não citar os nomes dos pesquisadores brasileiros, que estão sendo por ela criticados,
pode-se observar que, no seu entender, a maior parte das teorias sobre o desenvolvimento aceitava
de maneira implícita ou explícita a tese de que os processos de industrialização produziriam uma
homogeneização da sociedade, que faria desaparecer as diferenças entre o tradicional e o moderno,
o rural e o urbano, o arcaico e o novo. O elemento mais preocupante deste tipo de análise era,
principalmente, a emergência de posturas políticas e intelectuais que condenavam as diferenças
“histórico-culturais atuais entre as sociedades desenvolvidas e as subdesenvolvidas” (Queiroz, 1975,
p. 64).
Mesmo não os mencionando diretamente, é visível que Queiroz endereçava suas críticas tanto aos
sociólogos brasileiros, que eram técnicos no Instituto Brasileiro de Estudos Superiores –ISEB
(Guerreiro Ramos, por exemplo), quanto a acadêmicos, como Luís Aguiar da Costa Pinto, que se
ocupavam da temática do desenvolvimento nas décadas de 1950 e 1960. Conquanto não acreditasse
em critérios de ações universais, ou seja, válidos para todas as sociedades, Guerreiro Ramos
deixava claro que concebia o desenvolvimento como um esforço de construção nacional fundado nas
necessidades impostas pelas particularidades de uma dada estrutura social. Desse modo, todas as
pesquisas dos cientistas sociais deveriam estar voltadas para a compreensão dos elementos que
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fossem mais urgentes para o desenvolvimento da nação. Ele afirmava, na década de 1950, que
estudos sobre pormenores da vida nacional não tinha cabimento, uma vez que se devia buscar refletir
sobre a condição de existência da maioria e não de minorias isoladas. Para ele, devia-se “estimular a
formulação de interpretações genéricas dos aspectos global e parcial das estruturas nacionais e
regionais” (Ramos, 1957, p. 105).
Este tipo de abordagem sobre a sociedade brasileira suscitava muitas controvérsias no âmbito das
ciências sociais brasileiras. Embora não citasse nominalmente Guerreiro Ramos, é óbvio que Maria
Isaura Pereira de Queiroz vai se empenhar em rebater fortemente os argumentos que tendiam a
validar somente os estudos sobre aspectos mais amplos da vida nacional. Isso porque tais trabalhos
estavam direcionados, segundo ela, a uma ampla análise dos caminhos e descaminhos da sociedade
urbano-industrial, a respeito dos quais formulavam-se teorias genéricas que deixavam escapar a
persistência de atitudes e de valores indicativos de uma não-linearidade histórica. Ou melhor, a
industrialização do país não estava rompendo com as relações diretas de pessoalidade e com as
formas de agir e de ser que faziam sobreviver, sob outro formato, arcaísmos diversos.
E como apreender tais processamentos? Queiroz diz: somente através de pesquisas que se atenham
aos detalhamentos da vivência social em comunidades tanto rurais quanto urbanas. Guerreiro
Ramos, por sua vez, afirmava: “Em países como o Brasil (...) é verdadeiro contra-senso ou
despistamento sair (...) a campo em busca de conhecimento pormenorizado dos mecanismos da
comunidade, segundo regras made in USA” (Ramos, 1957, p.106).
Ao retomar, na década de 1970, o debate acerca das singularidades socioculturais brasileiras,
Queiroz retomava, em uma outra conjuntura, um embate vigoroso que envolveu Guerreiro Ramos e
Emílio Willems. Aquele primeiro havia afirmado, na década de 1950, que o artigo deste último
intitulado Cunha: tradição e transição em uma cultura rural no Brasil não acrescentava nada, pois
representava somente o esclarecimento de um “pormenor da vida rural brasileira de secundaríssima
importância” (Ramos, 1957, p.106). Posturas como essas estavam na raiz de um modo de pensar,
segundo Queiroz, voltado para uma busca obstinada de homogeneização econômica e cultural. Ela
insistia, porém, que este tipo de perspectiva estava sendo expressivamente rejeitado na década de
1970, em virtude das pesquisas empíricas que traziam à tona a sobrevivência de uma expressiva
pluralidade cultural e identitária.
“História, cultura , ideologias, sistemas de valores específicos de uma civilização ou
de uma sociedade global tornam-se assim aos olhos dos sociólogos-pesquisadores,
dos sociólogos-técnicos, dos sociólogos-planificadores, valores menores diante
desse valor, para eles evidentemente maior, que é o desenvolvimento econômico. A
maior parte das pesquisas empíricas, voltando-se para a práxis, tornam-se outros
tantos instrumentos cuja finalidade é ajudar a rápida instalação da homogeneidade
cultural. Admite-se, portanto, que o conjunto das sociedades globais, para melhorar
deve tomar o caminho da monotonia” (Queiroz, 1975, p. 64).
É possível encontrar também um diálogo, não explicitado neste artigo, acerca das singularidades
socioculturais brasileiras, de 1975, com o sociólogo Luís Aguiar da Costa Pinto que partilhava de uma
perspectiva fundada na linearidade histórica. Ao discutir as mudanças sociais, ele se ocupava dos
ritmos distintos das diferentes partes. Ou seja, a esfera econômica e a esfera política não se
transformavam num mesmo ritmo. Assim como não se modificavam em compasso idêntico as
instituições, os valores e a ordem econômica. Por que Queiroz rechaçava esta forma de abordagem?
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Porque ela supunha também uma forma de homogeneização social e cultural, pois prescrevia a
correção dos ritmos através de um direcionamento do desenvolvimento rumo à superação dos
atrasos (Costa Pinto, 1986). A obra de Queiroz não estava de acordo, então, com as pressuposições
de Costa Pinto de que os arranjos entre o arcaico e o moderno eram passageiros e seriam superados
pela expansão da industrialização e da urbanização.
Considerações finais
Através de uma análise das atitudes individuais, Maria Isaura Pereira de Queiroz detecta que havia,
entre os diversos grupos pesquisados, aqueles que adotavam formas de agir indicadoras de
resistência, ou de adaptação, ou de adequação às novas condições que vão emergindo com a
expansão da sociedade urbano-industrial no país. Não havia um único tipo de agir. Havia vários. Isso
tornava as mudanças singulares, específicas, no que diz respeito às práticas e às relações
estabelecidas.
Suas análises demonstraram, principalmente nas obras Bairros rurais paulistas e O campesinato
brasileiro, que os grupos sociais rurais não estavam todos submetidos às mesmas condições, seja à
de estagnação seja à de adaptação às mudanças sociais que estavam em curso nos anos 50s e 60s
do século XX. Uns adotavam modos de agir condizentes com a expansão da industrialização e da
urbanização sem abandonar um estilo de vida singularizado pela cultura rústica. Outros
apresentavam dificuldades de adaptação e estagnavam-se. Estes últimos agiam de maneira a
precipitar um amplo processo de decadência.
Verifico, então, que a análise da mudança social em Maria Isaura Pereira de Queiroz está centrada
na busca de compreensão das atitudes dos agentes sociais mediante os processos em curso. Isso
porque são elas que esclarecem as nuanças distintas do agir diferenciado dos vários agrupamentos
atingidos ora pelo isolamento, ora pela integração, ora pelos desequilíbrios gerados pela urbanização
desigual que se processa no país. Todavia, não se pode imaginar que os grupos rurais estudados por
ela foram somente vítimas deste processo de mudança. Eles tiveram um papel fundamental no modo
de configuração das novas relações entre o mundo rural e o mundo urbano. Não foram, então,
somente agentes passivos que foram transfigurados por forças externas. Eles se debateram com
essas últimas, definindo dinâmicas próprias que estiveram interferindo no redimensionamento da vida
social brasileira, na segunda metade do século XX.
Queiroz chegou a essas conclusões estudando os detalhes da vida social dos grupos pesquisados e
demonstrando, a partir de tais esmiuçamentos, que há especificidades que não se deixam apreender
por uma análise genérica. Quando ela afirmava, em Bairros rurais paulistas, que os grupos não
tinham sido somente impactados por dinâmicas externas a eles, mas que eles tinham também
definido dinâmicas internas de adequação, de adaptação, de acomodação, de refutação, de
resistência, de estagnação, ela não estava pensando apenas nos processos econômicos, mas
também nos das demais esferas da vida social.
A análise em profundidade possibilitou a ela detectar, em algumas circunstâncias, uma espécie de
paralelismo independente que se estabeleceu entre as microssociedades e a sociedade global
(sociedade brasileira como um todo). Isso não queria dizer que esses dois níveis de organização da
vida social fossem inteiramente dissociados. Eram eles distintos, organizados de modo diferente, mas
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não inteiramente alheios. Tanto que foi possível detectar nos processos de mudanças ora
paralelismos, ora divergências, ora convergências (Queiroz, 1973, p.140).
Enfim, era visível que esse modo de análise proposto por Maria Isaura Pereira de Queiroz oferecia,
na década de 1960 e 1970, pistas para pensar os processos de modernização autoritários que
estavam em curso naquele momento. Ao propor uma reflexão que levasse em conta as dinâmicas
internas dos diversos grupos sociais que compõem a sociedade global, ela estava, de certa forma,
questionando as perspectivas que advogavam a possibilidade de direcionar o país para uma
condição de potência industrial que imporia uma dada dinâmica a todas as esferas da vida social. No
texto Singularidades sócio-culturais do desenvolvimento brasileiro, ela afirmava: “Torna-se (...) difícil
pensar que caminhamos para a estandardização, impelindo para um plano completamente
secundário tudo o que nos singulariza” (Queiroz, 1975a, p.76).
Uma análise em profundidade dos detalhes dos modos de processamento das mudanças revelava
que a sociedade global poderia abrir algumas veredas novas que iriam definir novos padrões de
organização social; todavia, sempre haveria mecanismos para resistir às homogeneizações
pretendidas pela modernização autoritária colocada em curso pela ditadura militar. Alguns de seus
textos tratavam, às vezes, indiretamente das questões mencionadas nestes dois últimos parágrafos.
Há, então, em inúmeras obras suas, pistas interessantíssimas para decifrar os (des)caminhos
impostos pelo regime que vigorou no país entre 1964 e 1985. Tem-se aqui o ponto de partida para
um outro artigo.
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Historia editorial
Recibido: 09/04/2007
Primera revisión: 03/05/2007
Aceptado: 12/10/2007
Formato de citación
De Rezende, María José (2007). Desvendando as dinâmicas internas singulares dos processos de
mudança social no Brasil. Athenea Digital, 12, 78-98. Disponible en
http://psicologiasocial.uab.es/athenea/index.php/atheneaDigital/article/view/363
Maria Jose de Rezende. Doutora pela Universidade de São Paulo, Professora de Sociologia do
Programa de Mestrado em Ciências Sociais e do de especialização em Ensino de Sociologia da
Universidade Estadual de Londrina. Autora do livro A ditadura militar no Brasil (EDUEL). Co-autora
dos livros Iniciação à Sociologia (Atual) e Direitos Humanos e Educação (Cortez).
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