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Implicações da pecuária brasileira para a segurança alimentar: a ciência e o discurso do setor produtivo

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Este artigo avalia como os atores do setor produtivo da pecuária bovina brasileira compreendem o papel desta atividade econômica na segurança alimentar em um contexto de reprimarização da economia. Com base em 12 entrevistas semiestruturadas com representantes da cadeia produtiva brasileira, realizadas entre os anos de 2013 e 2014, demonstra uma contradição entre as suas definições e as da literatura científica contemporânea: enquanto a literatura científica aponta cada vez mais a necessidade de reduzir a produção e o consumo de carne para fortalecer a segurança alimentar em longo prazo, os entrevistados apresentam a produção pecuária como essencial para garantir a segurança alimentar em níveis nacional e mundial. O artigo argumenta que o discurso do setor paradoxalmente coloca em risco a segurança alimentar do país.
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Implicações da pecuária brasileira para
a segurança alimentar: a ciência e o
discurso do setor produvo
Sustentabilidade em Debate - Brasília, v. 7, n.3, p. 112-126, dez/2016
Implicações da pecuária brasileira para a
segurança alimentar:
a ciência e o discurso do setor produvo
Implicaons of Brazilian beef producon for food security:
scienc versus industry discourses
Janaína Michelinia
Myanna Lahsenb
aDoutoranda em Ciência do Sistema Terrestre, Instuto Nacional de Pesquisas Espaciais,
São José dos Campos, SP, Brasil
End. Eletrônico: michelini_j@hotmail.com
bPesquisadora Titular no Centro de Ciência do Sistema Terrestre, Instuto Nacional de Pesquisas Espaciais,
São José dos Campos, SP, Brasil
End. Eletrônico: myannal@gmail.com
doi:10.18472/SustDeb.v7n3.2016.18525
Recebido em 22.06.2016
Aceito em 05.12.2016
ARTIGO - VARIA
RESUMO
Este argo avalia como os atores do setor produvo da pecuária bovina brasileira compreendem o papel
desta avidade econômica na segurança alimentar em um contexto de reprimarização da economia.
Com base em 12 entrevistas semiestruturadas com representantes da cadeia produva brasileira,
realizadas entre os anos de 2013 e 2014, demonstra uma contradição entre as suas denições e as da
literatura cienca contemporânea: enquanto a literatura cienca aponta cada vez mais a necessidade
de reduzir a produção e o consumo de carne para fortalecer a segurança alimentar em longo prazo, os
entrevistados apresentam a produção pecuária como essencial para garanr a segurança alimentar em
níveis nacional e mundial. O argo argumenta que o discurso do setor paradoxalmente coloca em risco
a segurança alimentar do país.
Palavras-chave: Pecuária. Discurso. Segurança alimentar..
ABSTRACT
This arcle examines how actors involved in Brazil’s beef producon sector dene the sector’s role in
food security in the context of re-primarizaon of the economy. Data drawn from 12 semi-structured
interviews conducted between 2013 and 2014 with representaves of the sector show a contradicon
between their framings of food security and those found in the scienc literature: while the laer
increasingly stresses the need to reduce producon and consumpon of meat in order to strengthen
food security in the long term, respondents present beef producon as essenal to ensure food security
at the naonal and global levels. Findings therefore indicate that the sector’s discourse paradoxically
puts the country’s food security at risk.
Keywords: Livestock. Discourse. Food security.
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1 INTRODUÇÃO
No atual cenário mundial, em que os impactos ambientais causados pelas ações humanas estão
provocando profundas alterações globais, o debate sobre a segurança alimentar (SA) intensica-se
cada vez mais, pois a produção de alimentos, ao mesmo tempo em que gera mudanças ambientais
globais, também é impactada pelos efeitos dessas mudanças. A agropecuária contemporânea contribui
substancialmente para a extrapolação dos limites planetários propostos por Rockstrom et al. (2009),
enquanto que, em pleno século XXI, as esmavas indicam que cerca de 795 milhões de pessoas no
mundo estão subnutridas (FAO, 2015). Mais do que simplesmente aumentar a quandade de comida,
a humanidade lida com os desaos de produzir alimentos de uma forma ambiental e socialmente
sustentável e, também, de desenvolver a capacidade políca, logísca e econômica de garanr aos
mais pobres o acesso a esse alimento (GODFRAY et al., 2010; FAO, 2011).
Mudanças recentes nos padrões alimentares mundiais transformaram o verginoso crescimento da
demanda por carne e produtos lácteos em uma ameaça à segurança alimentar, pois a pecuária está
relacionada a importantes impactos ambientais (HERRERO; THORTON, 2013). Essa avidade representa
o uso mais ineciente dos recursos naturais para a produção de proteína, assim como o que mais
ameaça os ecossistemas, essenciais também para a sobrevivência da espécie humana (LAHSEN et al.,
2016; RANGANATHAN et al., 2016).
Ao mesmo tempo, é importante considerar que as escolhas alimentares são inuenciadas não
só por fatores socioeconômicos, mas também por questões culturais e religiosas, variando tanto
nacionalmente como individualmente. Há evidências de que o aumento do consumo de carne
acompanha o crescimento da renda até certo nível de rendimento. Após a superação desse nível e
também com o aumento no grau de instrução, a tendência seria a diminuição do consumo, resultando
em uma “segunda transição nutriva” de grande escala na qual a proteína de origem animal tende a
ser substuída por proteínas à base de plantas (VRANKEN et al., 2014).
Diferentes estudos ciencos interdisciplinares analisam as contribuições de um possível deslocamento
das dietas promovendo a diminuição do consumo de carne como uma alternava para o enfrentamento
das mudanças ambientais globais e da insegurança alimentar (FOLEY et al., 2011; STEHFEST et al., 2009;
WESTHOEK et al., 2014). Por exemplo, Stehfest et al. (2009) argumentam que o deslocamento para
uma dieta com menos carne, seguindo a recomendação de consumo dos órgãos de saúde, poderia
“poupar” 2,7 milhões de hectares de pastagem e mais 100 milhões de hectares de áreas com culturas
desnadas à alimentação animal, que poderiam ser dedicados à regeneração vegetal e, também,
contribuiria para uma redução signicava das emissões de gases de efeito estufa mundiais.
No entanto, seguindo um direcionamento oposto a este, e acompanhando a sinalização de um mercado
crescente, a cadeia produva da carne bovina brasileira passou por uma recente reestruturação, com
forte incenvo governamental, visando ao fortalecimento da comercialização dessa commodity. Um
resultado dessa reestruturação é o crescimento expressivo das exportações de carne bovina, que
saltaram de 326.323 para 1.399.259 toneladas entre os anos 1999 e 2015 (ABIEC, 2015). Porém,
esse crescimento ocorreu a parr de uma pecuária predominantemente extensiva. Atualmente, as
pastagens ocupam uma grande área do território brasileiro, cerca de 172.330.000 de hectares (IBGE,
2006), sendo que a maior parte apresenta algum grau de degradação (SILVA, 2008). Com esse perl, a
pecuária nacional é associada a importantes impactos ambientais, como a emissão de gases de efeito
estufa (BUSTAMANTE et al., 2012), a degradação do solo e o assoreamento dos mananciais e cursos de
água (MACEDO et al., 2000).
Essa reestruturação da cadeia produva voltada à exportação está integrada ao fenômeno de
“reprimarização” da economia brasileira (DELGADO, 2013), caracterizado pela ancoragem da economia
nacional em produção de commodies que foi retomado em meados da década de 1990. Esse
fenômeno levou a um fortalecimento do agronegócio nacional, “sustentado com o apoio ostensivo de
legislações, jurisprudências, normas e recursos bilionários do Estado brasileiro, com muita frequência,
em prejuízo de direitos difusos, de minorias, e de demandas democrácas e garanas trabalhistas”
(TEIXEIRA, 2013, p. 26).
Considerando esse contexto, o objevo do presente argo é analisar como os representantes do setor
produvo da pecuária de corte nacional avaliam o papel dessa avidade econômica perante o desao
da segurança alimentar. A parr da realização de entrevistas semiestruturadas e com base na análise
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do discurso, idencamos uma contradição entre as denições do conceito de segurança alimentar
na literatura cienca contemporânea e os entendimentos expressos pelos atores entrevistados,
representantes de instuições-chaves do setor. Enquanto a literatura cienca aponta cada vez mais
a necessidade de reduzir a produção e o consumo de carne para fortalecer a segurança alimentar em
longo prazo, mais de 80% dos entrevistados explicitamente apresentaram a produção pecuária como
essencial para garanr a segurança alimentar em níveis nacional e mundial.
2 SEGURANÇA ALIMENTAR: NOVA ABORDAGEM EM UM CONTEXTO DE
LIBERALIZAÇÃO ECONÔMICA
Garanr alimento para toda a população humana é um desao que a sociedade enfrenta muito
tempo. Para além das questões relacionadas ao crescimento populacional e à quandade de alimento
produzido, a fome – e o seu enfrentamento – é uma questão políca e econômica.
No período após a Primeira Guerra Mundial, a segurança alimentar passou a ser uma preocupação
premente na Europa e a sua interpretação nha estreita ligação com o conceito de segurança nacional
e com a soberania alimentar de cada país. Essa interpretação estava relacionada ao momento histórico
que aquele connente vivenciava e evitava a vulnerabilidade dos países perante possíveis embargos ou
boicotes por razões polícas ou militares (MALUF et al., 2001).
Essa proposta de SA foi perpetuada até o início da década de 1970, período em que houve uma grande
quebra de safras e os estoques de alimentos estavam reduzidos. Em 1974, durante a primeira Conferência
Mundial de Segurança Alimentar, promovida pela FAO, prevaleceu a ideia de que a segurança alimentar
estava quase exclusivamente ligada à capacidade de produzir alimentos, fortalecendo o argumento
da indústria química a favor da Revolução Verde, que promea aumentar a produção a parr do uso
intensivo de insumos agrícolas (MALUF et al., 2001). Observava-se, assim, a evolução de um processo
que culminaria em uma nova elaboração discursiva em relação à segurança alimentar, enraizada na
políca de liberalização.
Na agricultura, a liberalização teve início em 1986 na “Rodada Uruguai de Negociações Comerciais
Mullaterais”, com forte inuência dos EUA. Os EUA propalavam a autossuciência e segurança
alimentar como conceitos disntos, sendo a segurança alimentar a capacidade de adquirir alimento
sempre que necessário, o que seria mais fácil a parr de uma gama de fornecedores do mercado
mundial do que pela autossuciência, denida como dependência exclusiva na produção nacional
(McMICHAEL, 2001). A parr do direcionamento dos excedentes para os países do Sul, buscou-se
policamente bloquear o aumento de subsídios agrícolas nacionais pracados pelos governos de
diversos países e, também, gerenciar a crise de superprodução decorrentes das polícas agrícolas
dos Estados Unidos e da Comunidade Europeia. Após oito anos de negociações, a Rodada do Uruguai
mudou denivamente a forma de produzir, comercializar e consumir produtos agropecuários e foi
considerada o maior acordo comercial da História. As reformas implementadas incluíram a redução da
proteção do comércio, dos subsídios agrícolas e da intervenção do governo.
Depois do grande acordo da Rodada Uruguai buscou-se cada vez mais combater a fome, a desnutrição,
e os riscos de insegurança alimentar nacional por meio da políca dos preços das commodies. Assim,
as polícas de desenvolvimento concentraram-se na intensicação do comércio internacional, sob a
regência da Organização Mundial do Comércio (OMC) e com intervenções do Banco Mundial e do
Fundo Monetário Internacional (FMI) (McMICHAEL, 2005).
Essas alterações ocorridas na agropecuária nas úlmas décadas fazem parte do contexto maior de
globalização – o “fato de que estamos cada vez mais vivendo em um mesmo mundo, de modo que os
indivíduos, grupos e nações se tornaram cada vez mais interdependentes” (GIDDENS, 2012, p. 102),
e uma nova divisão internacional do trabalho que transforma as empresas mulnacionais em atores
centrais (SANTOS, 2002). Assim, as produções nacionais de alimentos tornaram-se gradualmente
mais integradas em um sistema alimentar mundial que, por sua vez, envolve volumes e valores cada
vez maiores. Essas alterações desencadearam o aumento da importação de alimentos pelos países
em desenvolvimento, a priorização pela produção de produtos agrícolas para atender ao mercado
externo, o crescimento da comercialização de alimentos processados e, o mais marcante, a ampliação
da parcipação das corporações transnacionais no setor de alimentos (CLAPP; FUCHS, 2009).
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Guiada pela lógica de acumulação de capital nanceiro, a reprimarização da economia da América
também chamada de “Consenso das commodies (SVAMPA, 2013), leva à monocultura, à
superexploração dos recursos naturais e à destruição da biodiversidade. Leva também a novas formas
de dependência e dominação nas sociedades, à concentração de terra e à reconguração dos territórios.
Em muitos países periféricos, inclusive no Brasil, essa lógica desmantelou os modos locais de produção,
fato alarmante se considerarmos que, ocupando apenas 30% da terra desnada à agricultura no Brasil,
os pequenos produtores são responsáveis pela produção de 70% dos alimentos consumidos pelos
brasileiros (CLEMENTS; FERNANDE, 2013).
Além de levarem a uma homogeneização da cultura alimentar mundial, esses fatores somados
resultaram em graves consequências para a segurança e a autonomia alimentar na América Lana
(CARVALHO, 2013); resultaram na persistência da fome mundial, mesmo após as promessas relacionadas
à revolução verde e à integração mundial dos meios de produção e comercialização. Surgindo nesse
contexto, o discurso da segurança alimentar legimou uma agricultura mundial subordinada ao capital
(McMICHAEL, 2005).
3 METODOLOGIA
Este estudo é parte da tese de doutorado da primeira autora, que buscou invesgar as produções
discursivas dos atores de diferentes setores da sociedade sobre a sustentabilidade da pecuária bovina
de corte brasileira e, também, compreender as novas formas de mobilização políca que emergem
diante da atual conguração do sistema alimentar mundial. A invesgação aqui apresentada se deu
a parr da análise de 12 entrevistas semiestruturadas realizadas nas cidades de São Paulo e Belém,
no período entre outubro de 2013 e novembro de 2014. Compõem o grupo de entrevistados os
representantes das três maiores empresas nacionais processadoras de carne, os representantes de duas
associações nacionais das indústrias do setor, os representantes de seis associações de produtores e o
representante de uma associação formada por atores de todos os elos da cadeia da pecuária no Brasil.
Tais entrevistas representam uma subseção das 34 realizadas para a elaboração da tese com uma gama
mais diversa de atores (stakeholders), que incluiu também representantes de órgãos governamentais e
de organizações não governamentais avistas.
A seleção dos entrevistados teve como ponto de parda o convite aos signatários do pacto da pecuária,
resultado da iniciava “Conexões Sustentáveis: São Paulo-Amazônia”, desenvolvida ao longo do ano de
2008 e liderada pelo Movimento Nossa São Paulo e pelo Fórum Amazônia Sustentável, com Secretaria-
Execuva exercida pelo Instuto Ethos. Embora essa iniciava propusesse uma conexão entre uma
única cidade brasileira e a região da Amazônia Legal, a consideramos relevante como referencial inicial
por reunir “atores-chaves” que apresentam uma intensa parcipação nos debates e ações relacionados
à sustentabilidade da pecuária bovina de corte em todo o território nacional. Ainda, como a coleta de
dados deste estudo começou aproximadamente cinco anos após a assinatura do pacto da pecuária, a
contribuição desses atores sociais aconteceu a parr de experiências já vivenciadas, na perspecva de
sujeitos parcipantes e atuantes no processo das recentes transformações do setor pecuário bovino
de corte nacional.
Após os contatos iniciais com representantes das instuições signatárias, foram descartadas aquelas
que não deram retorno, que não quiseram parcipar da pesquisa ou que os seus representantes
alegaram indisponibilidade na agenda. A parr desse grupo inicial, obvemos indicações para mais
atores, conforme o método “bola de neve”, que se encerra quando informações originais ou novas
pistas relevantes para o processo de invesgação não se apresentam mais (REA; PARKER, 2000).
4 ANÁLISE DO DISCURSO E O “DISCURSO DO AGRONEGÓCIO” BRASILEIRO
Adotamos uma abordagem discursiva, na linha da teoria de Foucault e, de acordo com o proposto por
esse autor, consideramos o discurso não como uma representação do real, mas como “prácas que
formam sistemacamente os objetos de que falam” (FOUCAULT, 2012, p. 60); consideramos também
que as “verdades” – tais como denições discursivas da segurança alimentar – são construções
históricas ligadas a prácas sociais e mergulhadas em relações de poder e, portanto, constuem
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propostas permanentemente em construção que devem ser interpretadas a parr de múlplas forças
sociais e diferentes interesses.
Na análise aqui proposta, o “discurso do agronegócio” na literatura contextualiza os fundamentos das
argumentações dos nossos entrevistados, considerando que a pecuária é um setor consolidado do
agronegócio nacional, mas com parcularidades inerentes à avidade que lhe imprimem uma dinâmica
caracterísca. O crescimento das avidades ligadas ao setor primário da economia em nosso país, mais
especicamente no âmbito do setor agrícola, é um fenômeno conectado a um processo complexo de
formação discursiva, “ligado à capacidade de reprodução e de renovação do discurso da classe políca
vinculada à posse da terra, presente historicamente no contexto nacional e que soube renovar-se de
maneira bastante signicava” (PORTO, 2014, p. 26).
Resgatando o conceito de “discurso da verdade” de Foucault, Porto (2014) idenca o agronegócio
brasileiro com um discurso poderoso e persuasivo que serve interesses especícos de uma classe
políca historicamente vinculada à posse da terra, apontando que este “discurso da verdade” adotado
pelo setor do agronegócio brasileiro integra:
(i) a disputa pela ideia de “sustentabilidade”, (ii) a narrava da modernização, (iii) a bandeira do combate
à fome, e (iv) mais recentemente, parece gurar também na linha argumentava dos representantes do
agronegócio uma defesa incólume da legalidade, dos princípios democrácos, do “Estado de Direito”,
obviamente não pelas anidades às bases desses conceitos, mas sim como uma maneira eciente de
travesr os interesses e as prácas dos agronegócios. (p. 27)
Esse complexo processo de construção discursiva fundamenta ações e expressões de determinados
grupos sociais não apenas no espaço agrário brasileiro, mas também em uma enorme gama de espaços
instucionais pelos quais essa lógica do agronegócio se enraíza e se fortalece no Brasil, alimentando e
sendo alimentado pelos debates internacionais, dada a nova conguração do sistema alimentar global.
No seu estudo sobre a construção políca da palavra “agronegócio” no Brasil, Bruno (2009) idencou
alguns “supostos” chaves nas argumentações de lideranças do agronegócio brasileiro que também
contribuem para as análises propostas no presente argo, incluindo: (i) o princípio da valorização de
[lideranças do setor do agronegócio] e desqualicação do “outro”, o “outro” sendo os trabalhadores
rurais, os agricultores pequenos e os movimentos sociais no campo; ii) “a crença na ausência de
alternavas históricas outras além do agronegócio”, sendo este considerado uma avidade de grande
importância para o país, especialmente pela capacidade de geração de riqueza; iii) “o agronegócio
como expressão da modernidade e de um novo modelo de desenvolvimento que atende aos interesses
e às necessidades de todos”, sendo reconhecido como uma avidade produva, rentável e moderna.
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
É preciso esclarecer que o discurso dos atores sobre a relação entre a pecuária de corte nacional e
a segurança alimentar mundial não foi um tópico previamente incluído na invesgação proposta na
Tese e, inclusive, não estava inserido nas questões do roteiro que orientou as entrevistas realizadas.
No entanto, a argumentação baseada nessa relação esteve presente de forma marcante no discurso
dos representantes do setor produvo, o que nos levou a aprofundar a invesgação e as análises nesse
sendo. Dez dos 12 entrevistados – o equivalente a mais de 80% dos atores – consideraram em seus
discursos de forma direta ou indireta as questões relavas à segurança alimentar mundial. Esse tópico
esteve presente de forma mais enfáca no discurso dos representantes de instuições envolvidas
com a comercialização internacional dos produtos da pecuária, como as indústrias frigorícas e as
associações que as representam.
Para a apresentação dos dados, selecionamos trechos dos discursos dos atores e organizamos os seus
argumentos em três temácas proeminentes: 1) Incerteza quanto à capacidade de suprir a demanda
futura de alimentos de uma população mundial crescente; 2) O Brasil como um dos principais países
responsáveis pela produção de alimentos e pela segurança alimentar mundial, sobretudo devido à
produção de soja e carne; 3) Naturalização do aumento do consumo de carne associado ao aumento de
renda. A Tabela 1 apresenta os dados organizados, na qual optamos por não idencar as instuições.
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Tabela 1 – Argumentos sobre a relação entre a pecuária nacional e a segurança alimentar.
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Considerando os dados apresentados, é possível observar que um dos elementos incorporado na
elaboração discursiva em relação à segurança alimentar foi a “bandeira do combate à fome” (PORTO,
2014). Esses argumentos estão notadamente presentes nos discursos dos atores “Indústria Frigoríca
A” (Frig-A), “Associação das Indústrias A” (AssocInd-A) e da “Associação de Produtores D” (AssocProd-D)
(eixo temáco “Incerteza quanto à capacidade de suprir a demanda futura de alimentos”). Esses
discursos comunicam uma visão catastróca da necessidade de produção urgente de alimento perante
uma população mundial em franco crescimento, omindo o reconhecimento da questão ambiental e
os riscos para a produção de longo prazo gerados pelo modelo de produção intensivo adotado, além
das questões sociais ligadas à desigualdade.
A “bandeira do combate à fome” integra também a concepção do Brasil como celeiro do mundo,
considerado um país de território connental com todos os quesitos ambientais necessários para produzir
carne de forma mais sustentável e barata em comparação a outros países. De forma complementar a
ele, é um argumento a favor da liberalização do comércio de alimentos. Considerando esse ponto
de vista, apresentado por todos os atores entrevistados, exceto pela “Associação Representante de
Produtores B” (AssocProd-B), o Brasil assumiria o papel de fornecer alimento de qualidade, carne em
especial, a preços baixos para países que não teriam condições de produzi-lo por questões territoriais,
climácas, tecnológicas, ou até mesmo por questões jurídicas relacionadas a conitos por posse de
terra, entre outros.
Observa-se, portanto, um exercício discursivo colocando a pecuária nacional como principal opção
perante os desaos lançados à segurança alimentar mundial devido ao aumento do consumo de carne.
A manutenção dessa forma de organização do sistema alimentar é posta como verdade (PORTO, 2014),
embora existam tensões importantes relacionadas a prácas insustentáveis desse setor produvo
e, também, em relação ao papel da liberalização do comércio na manutenção da fome mundial
(McMICHAEL, 2005). A análise mais detalhada do discurso do representante AssocInd-B exemplica a
construção deste argumento: a parr de casos singulares, citando países como a Indonésia e a Arábia
Saudita – que apresentam condições especícas em relação à produção de carne – reforça a parr de
exceções, a importância da pecuária nacional de forma generalizada, advogando também os princípios
da economia neoliberal perante o enfrentamento da insegurança alimentar, claramente explícito nesta
armação: “eu acho que a liberalização do comércio tem um papel importante porque você vai produzir
onde você tem condições de produzir”.
Outro argumento recorrente no discurso dos atores alega que as formas inovadoras, modernas e
ecientes de produção pracadas pelo agronegócio permiram o aumento da produção de alimentos, o
que nos remete ao “suposto” elencado por Bruno (2009): “agronegócio como expressão da modernidade
e de um novo modelo de desenvolvimento que atende aos interesses e às necessidades de todos”.
Entre os discursos dos atores sociais entrevistados (Frig-A, AssocProd-A, AssocProd-B, AssocInd-B), os
exemplos do aumento da produção brasileira da soja e da carne e o domínio do mercado internacional
desses dois produtos foram citados como conquistas relevantes para o enfrentamento da insegurança
alimentar.
Uma análise supercial poderia validar essas argumentações, pois, de fato, observa-se um aumento
considerável na safra de grãos e na quandade de carne produzida nas úlmas décadas. Tomando como
exemplo o caso dos cereais – uma categoria de produtos com grande relevância para a alimentação dos
brasileiros – observou-se um salto na produção nacional: na década de 1990, a produção média per
capita de grãos foi de 450 kg/pessoa, enquanto que entre 2003 e 2013, a média foi de 707,7 kg/pessoa
(TEIXEIRA, 2013). No entanto, uma análise detalhada em relação a esse ganho de produção revela uma
perda para a segurança alimentar nacional, pois os cereais que compõem a alimentação codiana
da população brasileira, como o feijão e o trigo, apresentam queda na produção e/ou aumento da
importação, enquanto os grãos direcionados ao mercado externo estão em pleno avanço. De acordo
com as projeções do agronegócio divulgadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(BRASIL, 2014), a produção de feijão no Brasil, por exemplo, deve diminuir de 3,7 para 3,2 milhões de
toneladas no período entre os anos 2013/14 e 2023/24, enquanto as importações aumentarão 24%
nesse mesmo período.
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Analistas concluem que, de modo global, o projeto “modernista” dominante em processos de polícas
públicas relacionados aos alimentos e à agricultura tem falhado, no sendo de gerar resultados
sustentáveis para muitas populações pobres em países menos desenvolvidos (por exemplo, THOMPSON;
SCOONES, 2009) o que se aplica também ao Brasil. A expansão das monoculturas brasileiras afeta
diretamente a produção de outras culturas, predominantemente substuindo a produção diversicada
de alimentos para o consumo interno por culturas que não são consumidas por humanos (GOMES;
GOMES, 2014). Com isso, o país está cada vez mais dependente da importação de alimentos básicos
“num contexto de elevadas vulnerabilidades da oferta mundial por conta, em parcular, dos cada
vez mais frequentes e intensos sinistros climácos derivados do processo de aquecimento global”
(TEIXEIRA, 2013, p. 28).
Existem ainda as ameaças à segurança alimentar relacionadas à expansão da fronteira agrícola em áreas
de vegetação nava, também como consequência da atual ênfase no consumo de carne. No Brasil, a
maior produção de carne e de soja (em grande parte exportada para fabricação de ração para animais)
ocorre no Cerrado, com a rápida expansão da fronteira agrícola em áreas remotas e preservadas ao
norte. Os resultados são potencialmente trágicos para o bem-estar humano, para a conservação da
biodiversidade e para a própria segurança alimentar no Brasil. Os inúmeros serviços ecossistêmicos
oferecidos pela vegetação nava do Cerrado, incluem regulação climáca e abastecimento de água
potável limpa para a maior parte do Brasil, mantém o sistema aquífero subterrâneo Guarani, alimentando
oito das 12 regiões hidrográcas do Brasil e águas atmosféricas ou subterrâneas para outras regiões
e países. Isso signica que a estabilidade e o funcionamento dos ecossistemas circundantes em todas
essas regiões – e sua produção de alimentos – dependem fortemente da integridade biológica do
Cerrado, que está sendo degradado por ganhos econômicos de curto prazo, principalmente devido à
produção de carne e de soja (LAHSEN et al., 2016).
Observa-se, portanto, um paradoxo: em detrimento da segurança alimentar nacional prioriza-se
o aumento da exportação de produtos agropecuários, justamente sob o argumento de garanr a
segurança alimentar global.
Fortalecendo esse paradoxo, foi possível observar outro elemento marcadamente presente no discurso
dos entrevistados: a naturalização do aumento do consumo mundial de carne. A relação direta entre
o aumento de renda e o aumento do consumo é dada como fato invariável e denivo, sem um
quesonamento sobre os elementos circunstanciais que levam a isso, e sem uma análise críca sobre
as consequências dessa tendência, conforme é possível observar no discurso de diversos entrevistados
(Frig-A, Frig-B, Frig-C, AssocInd-A, AssocInd-B, AssocProd-A e AssocProd-B).
As evidências de uma segunda transição alimentar desmentem essa naturalização do aumento do
consumo desse alimento atrelado ao aumento de renda. Paterson (2001) também desmisca essa
naturalização, argumentando que o consumo de carne é encharcado de signicados culturais, e as
dietas abundantes em carne estão associadas à reprodução de várias formas de poder social. Uma
delas seria a masculinidade, em que o consumo de carne estaria relacionado à mulplicação da cultura
patriarcal. A outra seria a dominação, pois expressaria o poder do humano sobre o resto da natureza
de forma bastante clara, relacionada à quandade de recursos necessários para a sua produção. E,
por m, a carne seria um símbolo de modernidade e riqueza, tanto que a associação entre a carne e a
modernidade teria produzido uma políca global em que o aumento do consumo de carne foi tomado
como um indicador de modernização nos países em desenvolvimento.
Ainda, a concepção da carne como “insubstuível” (AssocProd-B) contradiz a ciência da nutrição,
segundo a qual dietas vegetarianas e veganas planejadas são adequadas em termos nutricionais, além
de gerarem benecios para a saúde tanto na prevenção como no tratamento de algumas doenças
(CRAIG; MANGELS, 2009).
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os discursos dos entrevistados se aproximam do discurso econômico hegemônico idencado por
Bruno (2009) e Porto (2014). Alinhado com a reorganização do sistema alimentar mundial, esse
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discurso relaciona segurança alimentar ao comércio internacional, em um contexto de mercanlização
dos alimentos e reprimarização da economia dos países periféricos. Somados, esses fatores levam a
uma desorganização dos sistemas locais de produção e à degradação ambiental, levando à insegurança
alimentar em longo prazo.
Como forma de contestação desse modelo, a dissecação desses discursos nos fornece caminhos para
a formulação de questões ciencas que podem contribuir para a construção de modelos alternavos
perante o desao da segurança alimentar. Referimo-nos a questões relavas aos padrões de consumo
e à apropriação de recursos naturais vinculada à busca pelo crescimento econômico ilimitado.
A naturalização do consumo de carne e da sua associação (cultural e circunstancial) com a emergência
social observada no discurso dos entrevistados efetua/representa o processo políco de “fechar” (“close
down”) considerações e expressões de outras maneiras de entender o fenômeno de carne no Brasil,
contrariamente ao que seria um processo de “abrir” (“open up”) narravas e, com elas, deliberações
mais inclusivas/amplas relacionadas à denição de futuros colevos (STIRLING, 2008). A abertura para
uma variedade de narravas e considerações corresponde à pluralidade real de possibilidades e é
um elemento fundamental para conseguir denição e realização de possibilidades mais desejáveis,
sustentáveis e democrácas (SCOONES et al., 2015; STIRLING, 2008). Porém, é notável a ausência de
consideração de tal pluralidade em narravas de desenvolvimento agrícola de forma geral (SCOONES,
2009), inclusive no Brasil, ao menos como sugerido pelos dados e autores encontrados neste estudo.
Na medida em que o poder e o controle da agricultura corporava aumentam, ou em que a importância
das tarifas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e regimes de
subsídio se intensicam, tais questões polícas são cada vez mais pernentes (THOMPSON; SCOONES,
2009).
É importante destacar que, embora assumamos que o debate sobre o consumo da carne seja importante
para repensar a organização de todo o sistema alimentar mundial, admimos que tal discussão é
extremamente complexa e deve ser analisada profundamente. Reduzir o excesso de consumo de carne
a parr de impostos e mudanças na legislação certamente irá restringir o acesso aos consumidores mais
pobres, justamente aqueles que mais dependem das proteínas animais para manterem-se saudáveis
(FAO, 2011). Por outro lado, em circunstâncias favoráveis, é possível e desejável do ponto de vista
de éca e de saúde humana e ambiental – se alimentar predominantemente com produtos de base
vegetal (PIMENTEL; PIMENTEL, 2003).
Também vale notar a importância de viver em harmonia com os seus valores ambientais. Considerando
que os brasileiros expressam grande preocupação com as ameaças associadas às mudanças climácas
e à perda da biodiversidade (LEISEROWITZ, 2007; PEW CENTER, 2015) e, como nação, incoerentemente
estão entre os maiores consumidores mundiais desse alimento (CHEMNITZ; BECHEVA, 2014), haveria
ganhos com a redução do consumo de carne e, assim, uma contribuição com o enfrentamento de
ambos os problemas, além da redução dos riscos de câncer associados com o consumo de certos
produtos de carne.
O desao é conseguir também um ambiente discursivo melhor adaptado a diálogos amplos,
parcipavos, e bem informados quanto à variade de riscos e alternavas existentes, uma condição
desejável para deliberação nacional sobre os “trade-os” complexos e escolhas colevas que minimizam
e migam as ameaças para a saúde das pessoas e do ambiente.
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Book
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Multiple ‘green transformations’ are required if humanity is to live sustainably on planet Earth. Recalling past transformations, this book examines what makes the current challenge different, and especially urgent. It examines how green transformations must take place in the context of the particular moments of capitalist development, and in relation to particular alliances. The role of the state is emphasised, both in terms of the type of incentives required to make green transformations politically feasible and the way states must take a developmental role in financing innovation and technology for green transformations. The book also highlights the role of citizens, as innovators, entrepreneurs, green consumers and members of social movements. Green transformations must be both ‘top-down’, involving elite alliances between states and business, but also ‘bottom up’, pushed by grassroots innovators and entrepreneurs, and part of wider mobilisations among civil society. The chapters in the book draw on international examples to emphasise how contexts matter in shaping pathways to sustainability Written by experts in the field, this book will be of great interest to researchers and students in environmental studies, international relations, political science, development studies, geography and anthropology, as well as policymakers and practitioners concerned with sustainability.
Chapter
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This introductory chapter discusses the theme of this book, which is about the role of corporate actors in the global food system. The book examines the role of corporations in the formation of the norms, rules, and institutions that govern the global food system, and evaluates the wider implications of corporate power in global food governance for the sustainability of the global food system and for societal debates over sustainability in the global food system. It also identifies different channels through which corporations influence global food and agriculture governance and examines the implications of that influence.
Technical Report
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O objetivo deste Documento é de apresentar os conceitos e fundamentos da forragicultura, como formação, manejo e degradação de pastagens; a identificação das principais gramíneas e leguminosas forrageiras tropicais ou subtropicais; as estratégias de recuperação e de renovação de pastagens; a consorciação de pastagens; os efeitos das forrageiras sobre a qualidade do solo; e a viabilidade econômica e rentabilidade de estratégias de recuperação de pastagens degradadas.
Article
No contexto contemporâneo, especialmente nas duas últimas décadas, o chamado agronegócio vem se consolidando no Brasil sustentado por processos políticos e econômicos que transcendem a esfera nacional e que lhe permitem taxas de crescimento significativas, configurando, juntamente com o setor energético e com o setor mineral, o que vem sendo chamado de "re-primarização" da economia nacional. Em que pese essa guinada mais recente, o que não pode ser deixado de lado é o fato de que tal fenômeno está intimamente ligado à capacidade de reprodução e de renovação da classe política historicamente vinculada à posse da terra, que soube remodelar sua imagem a partir de uma produção discursiva complexa e que, ao apropriar novos elementos, busca obscurecer as práticas tradicionais dessa elite ligada diretamente aos conflitos fundiários. Nesse sentido, este artigo tem como objetivo realizar uma leitura de alguns canais em que o discurso do agronegócio ganha forma, em especial na mídia impressa que tem papel significativo na formação da opinião pública. Pode-se observar que ao fazer uma bricolagem de uma série de elementos (sustentabilidade, modernidade, desenvolvimento, legalismo, etc.), a produção discursiva que dá sustentação e aceitabilidade às práticas do agronegócio visam, sobretudo, promover uma conotação benfazeja ao agronegócio e seu modelo de exploração agrícola.
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Article
Latin America presents a very polarised scenario. Currently, one of the most remarkable patterns is the passage from the Washington Consensus, based on financial valorization, to the Commodity Consensus, based on the large-scale extraction and exportation of natural goods. The article attempts to characterise the current situation and, at the same time, aims at a presentation of different political and intellectual tendencies: liberal neo-developmentalism, progressive neo-developmentalism and post-developmental thinking. The text analyses some links between these perspectives, especially between liberal neo-developmentalism and progressive neo-developmentalism, because both imply a return to the classical understanding of development in the strong sense, that is, associated with a productivist vision and incaccurate industrialist rhetoric. Finally and against his background, it presents some general lines of contemporary post-developmental thinking.
Article
In a context of international scrutiny, important efforts are being made to preserve Brazil’s tropical forests. Meanwhile, the destruction of its Cerrado biome advances with increasing leaps but little controversy. Yet the damaging changes threaten life-supporting natural resources and ecosystem services that are vital for the majority of Brazilians, as well as for the continued viability of agriculture. This ancient region of considerable geological and cultural significance encapsulates all of the major environmental challenges to sustainability, and begs new responses from science and society. Fresh policies are needed to promote and integrate the importance of this biome for the nation. These include implementing systematic monitoring systems and improving the management of established ones, minimizing new clearing. Degraded areas must be restored to comply with existing Brazilian environmental laws and international commitments related to climate change, biodiversity conservation, and sustainable development. Addressing the threats to this critically important yet neglected biome requires attention to structural governance problems, including improved education and involvement of stakeholders in key decision making about the region, as well as historically informed reexamination of the country’s economic development path.
Article
Meat consumption patterns worldwide have dramatically changed over the past 50 years, putting pressure on the environment and leading – especially in industrialised and emerging countries – to unbalanced diets. Given demographic projections and foresight reports, the question is raised whether there are limits to the meat consumption. Based on data from 120 countries, this article analyses the evolution of meat consumption in general and the relationship between meat consumption and income in particular. The study shows evidence for an inverted U-shaped relationship between meat consumption and income, meaning that – at a certain level of income – average meat consumption will stagnate or even decline. The results can help policy makers to develop incentives for both environmental and health policies and offers stakeholders opportunities for further research and innovation.