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Vigilância e anonimato em aplicativos mobile: um estudo sobre a privacidade em relações homoafetivas no digital | Surveillance and anonymity in mobile applications: a study about the privacy in digital same sex relations

Authors:

Abstract

RESUMO Este artigo busca compreender de que forma homens que utilizam os aplicativos de relacionamento Tinder, Grindr e Scruff – considerando seus pontos de semelhanças e de especificidades, conforme serão detalhadas ao longo deste estudo – experienciam facetas de suas identidades e constroem práticas de sociabilidade, fazendo uso ou não do anonimato, na vivência de relações homoafetivas. Além disso, a pesquisa analisa de que forma estas plataformas digitais se configuram como heterotopias e “armários digitais”, nos quais os sujeitos desenvolvem formas de resistência e proteção a práticas de vigilâncias sociais on e off-lines. Palavras-chave: Privacidade; Anonimato; Identidade; Sociabilidade; Aplicativos de Relacionamento. ABSTRACT This article seeks to understand how men who use the relationship applications Tinder, Grindr and Scruff – considering their similarities points and specificities, as will be detailed in the course of this study – experience facets of their identities and build sociability practices making use or not of anonymity, in experiences of same sex relations. Furthermore, the research examines how these digital platforms are configured as heterotopias and "digital lockers" in which subjects develop forms of resistance and protection to the surveillances practices on and off-lines. Keywords: Privacy; Anonymity; Identity; Sociability; Relationship Applications.
Liinc em Revista, Rio de Janeiro, v.12, n.2, p. 308-321, novembro 2016,
http://www.ibict.br/liinc http://dx.doi.org/10.18617/liinc.v12i2.900
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ARTIGO
Vigilância e anonimato em aplicativos mobile: um
estudo sobre a privacidade em relações
homoafetivas no digital1
Surveillance and anonymity in mobile applications: a study about
the privacy in digital same sex relations
Manuela do Corral Vieira
RESUMO
Este artigo busca compreender de que
forma homens que utilizam os aplicativos
de relacionamento Tinder, Grindr e Scruff
considerando seus pontos de
semelhanças e de especificidades,
conforme serão detalhadas ao longo
deste estudo experienciam facetas de
suas identidades e constroem práticas de
sociabilidade, fazendo uso ou não do
anonimato, na vivência de relações
homoafetivas. Além disso, a pesquisa
analisa de que forma estas plataformas
digitais se configuram como heterotopias
e “armários digitais”, nos quais os
sujeitos desenvolvem formas de
resistência e proteção a práticas de
vigilâncias sociais on e off-lines.
Palavras-chave: Privacidade; Anonimato;
Identidade; Sociabilidade; Aplicativos de
Relacionamento.
ABSTRACT
This article seeks to understand how men
who use the relationship applications
Tinder, Grindr and Scruff considering
their similarities points and specificities,
as will be detailed in the course of this
study experience facets of their
identities and build sociability practices
making use or not of anonymity, in
experiences of same sex relations.
Furthermore, the research examines how
these digital platforms are configured as
heterotopias and "digital lockers" in
which subjects develop forms of
resistance and protection to the
surveillances practices on and off-lines.
Keywords: Privacy; Anonymity; Identity;
Sociability; Relationship Applications.
1
O trabalho é resultado de parte das pesquisas realizadas no projeto de pesquisa “Consumo, identidade
e Amazônia: relações de sociabilidade e interação através da comunicação”, vinculado ao Instituto de
Letras e Comunicação da Universidade Federal do Pará (ILC-UFPA) e possui bolsa Pibic pelo Programa de
Apoio ao Doutor Pesquisador (Prodoutor) da Universidade Federal do Pará (UFPA). O presente estudo
contou com contribuições de pesquisa e reflexões do discente Lucas Gil Corrêa dos Santos, integrante
do referido projeto de pesquisa.
Doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Pará (PPGA-UFPA), professora adjunta da
Faculdade de Comunicação (Facom) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e
Amazônia (PPGCOM) da Universidade Federal do Pará. Endereço: Universidade Federal do Pará, rua
Augusto Corrêa, 1, Guamá, CEP 66075-110. Caixa Postal 479, Belém, PA. Telefone: PABX: +55 91 3201-
7000. E-mail: manuelacorralv@yahho.com.br
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CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A paisagem urbana tradicional, formada por casas, edifícios, ruas e praças, deixou de
ser o único local no qual ocorrem as interações entre os sujeitos, desde que a
consolidação da comunicação virtual fez um upload em diversos aspectos da vida em
sociedade, especialmente no que se refere ao advento das mídias móveis. Tais
interações deixaram de ocorrer apenas face a face e passaram a ser verificadas na
rede mundial de computadores e em mídias móveis, nas quais, em ambas, há a
formação de redes sociais da internet. Pierre Lévy (2007) observa que a “[...]
universalização da cibercultura propaga a copresença e a interação de quaisquer
pontos do espaço físico, social ou informacional” (2007, p. 47).
Nesse contexto, as trocas comunicacionais se expandiram para os computadores e
para as mídias móveis, passando a ser mediadas também por meio de gadgets,
2
como
tablets e smartphones, que podem ser incluídos na categoria de mídias locativas
estudadas por André Lemos (2005, 2007), para quem essas mídias redesenharam a
paisagem urbana e aumentaram as informações sobre determinados locais das
cidades. “No que se refere às novas tecnologias em interface com o espaço público, a
ideia de mobilidade é central para conhecer as novas características das cidades
contemporâneas.” (LEMOS, 2005). Segundo Lemos (2007), as mídias locativas
proporcionaram uma hibridação entre espaços físicos e o ciberespaço, no que tange
aos processos sociocomunicacionais.
Assim, a cidade deixa de ser apenas um espaço físico e ganha novas camadas de
significado, ligadas à localização, informação e socialização. Esses processos estão
intimamente ligados às praticas de sociabilidade. Por meio destas, Georg Simmel
(1983) afirma que os sujeitos buscam vivências que podem acarretar conexões de
pertencimento a determinados grupos sociais ou comunidades. Por este estudo se
tratar de uma análise em perspectiva, é possível estender as proposições de Simmel
(1983) para o contexto do ciberespaço e das redes sociais da internet uma vez que
esse contexto não foi analisado pelo pesquisador , nos quais o pertencimento se
por meio das interações e conexões estabelecidas nos âmbitos individual e coletivo
entre os sujeitos ali inseridos simbolicamente, já que a “[...] importância dessas
interações está no fato de obrigar os indivíduos, que possuem aqueles instintos,
interesses, etc., a formarem uma unidade precisamente, uma sociedade” (SIMMEL,
1983, p. 166).
Em tais práticas de sociabilidade, podem ser observados os aplicativos de
relacionamentos, como Tinder, Grindr e Scruff, os quais serão analisados neste
estudo. Nesses tipos de plataforma, surgidas no fim da primeira década dos anos
2000, os sujeitos podem disponibilizar fotos e descrições de si, por meio das quais é
possível fazer diversos usos delas no que se referem à gestão da privacidade por
intermédio da seleção de quais tipos de conteúdos serão disponibilizados ou
mesmo do anonimato da identidade digital, ao não disponibilizar nenhum tipo de
conteúdo; e no uso da geolocalização característica comum dessas ferramentas
nos processos de fala estabelecidos nessas plataformas. A geolocalização é feita por
meio do sistema de GPS (Global Positioning System), presente em smartphones e
tablets.
A seleção de conteúdos disponibilizados nesses tipos de aplicativos pode ser
associada às ideias de Michel Foucault (1999), que nos apresenta a figura do
2
Expressão proveniente do inglês que designa qualquer dispositivo eletrônico portátil.
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panóptico de Jeremy Bentham: dispositivo em forma de uma construção circular
dividido em celas, com janelas internas e externas com vista para uma torre central, a
fim de monitorar as “peculiaridades” de cada um, para que os sujeitos tenham a
impressão de estarem sendo constantemente vigiados o que assegura o
funcionamento automático do poder exercido, uma vez que para [...] isso, é ao
mesmo tempo excessivo e muito pouco que o prisioneiro seja observado sem cessar
por um vigia; muito pouco, pois o essencial é que ele se saiba vigiado; excessivo,
porque ele não tem necessidade de sê-lo efetivamente” (FOUCAULT, 1999, p. 166-
167).
Tal impressão de se estar sendo monitorado é corroborada por Alexander Galloway
(2004), ao analisar os protocolos espalhados pelo ciberespaço. De acordo com esse
pesquisador, toda ação praticada no ciberespaço deixa registros, dados, vestígios do
que foi feito, por meio do armazenamento de dados e protocolos em provedores de
internet e computadores que formam a world wide web. Ao observar os
apontamentos de Galloway (2004), podemos estendê-los para o debate acerca da Lei
nº 12.965/2014, conhecida como o Marco Civil da Internet. A lei, aprovada em 2014, foi
proposta com base em consultas públicas realizadas pelo governo no ciberespaço, a
partir de percepções de Lemos
3
(2007). O Marco Civil trata de direitos e deveres
referentes à proteção da privacidade, livre expressão e cidadania exercidas pelos
usuários na rede de computadores; assim como determina diretrizes para a conduta
do Estado. Segundo Arthur Coelho Bezerra (2014), os principais eixos abordados no
texto da Lei estão:
[...] a privacidade, a neutralidade da rede e a inimputabilidade da
rede. Tais princípios garantiriam os direitos e liberdades
democráticas de internautas frente a ações abusivas de governos
(nacionais e estrangeiros) e empresas prestadoras de serviços
(BEZERRA, 2014, p.162, grifos do autor).
A discussão sobre privacidade e proteção dos dados dos sujeitos está presente nos
artigos 3º, e do Marco Civil, inseridos nos capítulos I e II da lei, os quais
relacionam o uso da internet ao direito à privacidade em rede na forma de lei, ao
pleno exercício da cidadania e ao direito de acesso à mesma, respectivamente. Nesse
contexto, torna-se pertinente uma breve explanação dos termos privacidade e
anonimato, assim como semelhanças e diferenças entre ambos no que se refere à sua
aplicação no ciberespaço.
Por privacidade, Bezerra (2014) delimita “[...] tudo o que o indivíduo não pretende
que seja de conhecimento público, reservado apenas aos integrantes de seu círculo
de convivência particular” (2014, p. 162). Ao passo que anonimato é definido por
Celso Paganelli (2011) como uma “[...] qualidade ou condição de alguém que é
anônimo, ou seja, não há como identificar o autor, seja através de assinatura ou
nome. O principal objetivo do anonimato é esconder a real identidade de alguém de
terceiros” (PAGANELLI, 2011, p. 1). De acordo com Paganelli (2011), ambos os termos
são mencionados no Artigo da Constituição Federal, no qual a privacidade é
considerada inviolável, enquanto que o anonimato, por outro lado, é proibido.
No ciberespaço, privacidade e anonimato coexistem, e, por vezes, é difícil se
estabelecerem diferenças entre eles. Paganelli (2011) ressalta que uma das marcações
associadas a esses conceitos são as apropriações e os usos de ambos. De acordo com
3
LEMOS, A. Internet brasileira precisa de marco regulatório civil. Disponível em:
<http://tecnologia.uol.com.br/ultnot/2007/05/22/ult4213u98.jhtm>. Acesso em: 6 nov. 2015.
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o jurista, essas práticas são associadas, sobretudo aos jovens que cresceram
juntamente com o avanço da internet e, por vezes, pautam suas ações no
ciberespaço por impulso e na premissa da liberdade de expressão. Estabelecendo
perspectiva com este estudo, podemos associar a discussão de Paganelli (2011) às
práticas de sociabilidade e à seleção de conteúdos, uma vez que, para Simmel (1983),
os conteúdos são canais pelos quais os sujeitos podem manifestar afinidades e, ao
compartilhá-los com outros, podem constituir conexões.
A seguir, será analisado como os usuários dos aplicativos de relacionamento Tinder,
Grindr e Scruff experienciam facetas de suas identidades, fazendo uso ou não do
anonimato; bem como de que modo esses aplicativos configuram determinadas
formas de estabelecer resistência à prática de preconceito social e a embates de
cunho familiar, cultural e religioso, vivenciadas nos três aplicativos abordados. A
escolha dessas ferramentas deu-se em razão de elas ganharem um crescente número
de usuários em nível internacional e pela expressiva popularidade que possuem no
Brasil, segundo dados que serão expostos adiante. E por semelhanças na construção
do perfil de usuário e na operabilidade dos mesmos: nas três ferramentas, é
necessário que os sujeitos disponibilizem fotografias e informações básicas sobre si
como altura, peso e preferências para criar uma identidade nestes aplicativos; e
operam segundo o uso de ferramentas geolocalizadoras, que fornecem a distância
entre os sujeitos ali inseridos simbolicamente.
Foram selecionados oito interlocutores que fazem uso desses aplicativos (Tinder,
Grindr e Scruff): todos os homens se declararam homossexuais, bissexuais ou que
transitam entre essas classificações. Cabe destacar a grande diversidade quanto à
definição da condição sexual dos interlocutores dos oito sujeitos ouvidos, quatro se
consideraram homossexuais; dois se definiram como bissexuais; e dois afirmaram ser
gays com tendências bissexuais , ampliando, desse modo, a noção dos usuários
presentes em tais ferramentas de sociabilidade. Todos os sujeitos estavam cientes do
objetivo da pesquisa e os dados aqui disponibilizados estão construídos a partir de
nomes fictícios a fim de preservar a identidade para efeitos de divulgação da
pesquisa. Esta quantidade foi determinada para aprofundar as análises, visto que a
experiência observatória de campo passou por análises qualitativas em roteiro
semiestruturado.
A estrutura básica do roteiro foi preservada com a disposição dos eixos de análise na
seguinte forma: identidade, sociabilidade, sexualidade e privacidade/anonimato.
Conforme o desenvolvimento das entrevistas, o roteiro foi adaptado, de acordo com
as respostas e posicionamentos dos interlocutores sobre os assuntos abordados.
Desse modo, a pesquisa de campo aconteceu de três formas preestabelecidas:
primeiramente, por meio de análise de cada um dos aplicativos analisados, com o
intuito de compreender sua navegabilidade e sistema operacional, seguida por
interlocuções iniciadas em cada um desses aplicativos e estendidas para o site de
rede social Facebook e para o aplicativo de mensagens WhatsApp, para avaliar os
distintos posicionamentos e atuações dos sujeitos em relação aos questionamentos
levantados. A seguir, disponibiliza-se um quadro com os nomes e as informações
principais dos interlocutores ouvidos durante a pesquisa.
Tabela 1 Interlocutores.
Usuário (a)
Idade
Preferências
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Impulsivo
35 anos
Homens barbudos e gordinhos.
Audacioso
20 anos
Homens esbeltos, de barba e inteligentes.
Manipulador
29 anos
Homens magros e de corpos definidos.
Irreverente
19 anos
Homens magros.
Tímido
20 anos
Homens de corpos definidos, que estudam.
Convincente
21 anos
Homens engraçados, gordinhos e barbudos.
Bem-humorado
19 anos
Homens mais velhos com senso de humor.
Sei lá
21 anos
Homens barbudos, um pouco altos.
Fonte: elaborada pela autora.
A pesquisa de campo durou dois meses: de junho a agosto de 2015, com homens que
utilizam os aplicativos Tinder, Grindr e Scruff, na faixa etária dos 19 aos 35 anos, que
se intitularam como jovens, bem como trabalham e/ou estudam e vivem na região
metropolitana de Belém (PA).
4
A delimitação da terminologia jovem se deu em razão
da relação de causalidade feita por Paganelli (2011) entre juventude e apropriações da
internet no que tange o uso do anonimato,
5
bem como a partir da identificação em
que cada um teve de se autorreconhecer jovem. Por tal motivo, essa delimitação teve
como característica ser marcada pelo autorreconhecimento, conforme ressalto:
[As limitações de faixa etária] Não necessariamente englobam algo
maior da definição de juventude que é o fato do indivíduo se
identificar como jovem, independente da idade que tenha. Trata-se
de sujeitos que se reconhecem como jovens a partir dos modos de
vida que possuem em seus territórios, enquanto espaços
praticados (VIEIRA, 2013, p. 37).
Parte da pesquisa de campo foi realizada com a criação de um perfil nos três
aplicativos, visando-se a inserção como um usuário dessa plataforma prática que se
configura como a parte etnográfica participante das ferramentas abordadas. Foi
mantida certa linearidade no modo de apresentar o perfil através da escolha da
mesma foto de rosto nos três aplicativos, e, na descrição, o usuário foi identificado
apenas como alguém que aprecia uma conversa leve e interessante e aberto a todo
tipo de relacionamento. Adiante, os aplicativos abordados no estudo serão
apresentados individualmente, mostrando detalhes do processo de criação de cada
um.
HETEROTOPIAS DIGITAIS
As formas de sociabilidade, advindas com os aplicativos de relacionamento, dialogam
de modo muito próximo com as heterotopias estudadas por Michel Foucault (1984),
4
Aglomeração urbana formada por pelos municípios de Belém, Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa
Isabel do Pará, Santa Bárbara do Pará e Castanhal.
5
Em determinado trecho do artigo Anonimato e internet: Análise do princípio constitucional frente às
recentes decisões do STJ”, é dito que uma explicação plausível para o uso do anonimato na internet
seria a liberdade dos usuários da web, sobretudo os jovens, que faz com que estes ajam por impulso e
sem se preocupar com as consequências de suas ações no ciberespaço.
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na forma de um conceito cunhado no campo da arquitetura e urbanismo, ressaltando
os espaços públicos. Uma vez que Foucault (1984) não pensou nas heterotopias no
contexto da cibercultura, faremos uma análise em perspectiva dos apontamentos
foucaultianos nos aplicativos de relacionamentos aqui abordados. Parte dos sujeitos
que utilizam tais ferramentas de sociabilidade, por vezes pretendem expressar certos
comportamentos considerados indesejados diante da família, amigos e da sociedade
como um todo, no que Foucault (1984) denomina heterotopia de desvio, já que “[...]
se localiza indivíduos cujo comportamento desvia em relação á média ou à norma
exigida” (FOUCAULT, 1984, p. 416). Eles o fazem uma vez que podem ter a impressão
de manter a privacidade de determinada faceta de sua identidade em ambientes
físicos ou simbólicos, que podem ser atribuídos a essa classificação de heterotopia,
estabelecidas pelo filósofo.
Esta impressão foi relatada por Bem-humorado, ao dizer que apenas em
determinados locais da cidade de Belém se sente à vontade para deixar transparecer
facetas do que afirma ser sua real orientação sexual: “Me sinto realmente tranquilo
no Oito,
6
na Unama e afins. Ambiente onde te aceitam. Diferentemente do local de
trabalho. Se descobrirem, já era”. Além dos locais físicos, os interlocutores também
utilizam os aplicativos de relacionamentos com essa finalidade, como é o caso de
Tímido”, que afirmou usar esse tipo de ferramenta para sociabilizar com sujeitos que
possam se encontrar em situações semelhantes, uma vez que se considera “fora do
meio”, por não gostar de locais frequentados por membros da comunidade LGBT
(lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros). Desse modo, é possível
perceber, por meio das análises das falas dos interlocutores, o exercício e a
experiência da heterotopia em espaços físicos da cidade e espaços simbólicos, como
os aplicativos de relacionamento que serão apresentados detalhadamente a seguir.
O aplicativo Tinder, criado em setembro de 2012 por um grupo de estudantes da
Universidade do Sul da Califórnia, promove apresentações entre pessoas que
possuam perfil na plataforma. A popularidade do Tinder é relativamente significante:
no mundo, 100 milhões de pessoas o utilizam, enquanto no Brasil, o número de
usuários é de 10 milhões, segundo dados da companhia responsável pelo aplicativo,
divulgados em entrevista ao portal de notícias UOL, em abril de 2014. O aplicativo é
voltado a todo tipo de público homens e mulheres héteros, bissexuais ou
homossexuais, que fazem diferentes apropriações e usos dessa plataforma digital. Na
mesma entrevista, um dos fundadores do Tinder, Justin Mateen, falou sobre essa
apropriação feita pelos usuários:
Essencialmente, promovemos uma apresentação entre duas
pessoas. É comum que as pessoas usem para achar parceiros. No
entanto, pode ser para um relacionamento amoroso, amizade ou
para fazer negócios. São os usuários que definem como usar a
ferramenta.
Nessa ferramenta, a sociabilidade é estabelecida por intermédio da conversação em
rede e dos impactos advindos dessa apropriação. Para Raquel Recuero (2009), as
linguagens e contextos dessas conversações são constituidores de identidades dos
sujeitos no ambiente online, uma vez que “[...] é um tipo de comunicação que
privilegia o anonimato, em detrimento da identificação” (RECUERO, 2009, p. 3).
Desse modo, os sujeitos expressam complementaridades e negociações de
conteúdo, laços e espaços de sociabilidade e interação por meio do uso de
6
Bar amplamente frequentado por membros da comunidade LGBT na cidade de Belém.
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expressões de linguagem, que podem adquirir diferentes significados de acordo com
o contexto na qual essas interações são geradas.
O Grindr surgiu em março de 2009, na cidade de Los Angeles, criado pelo israelense
Joel Simkhai. O aplicativo foi o pioneiro na sociabilidade virtual entre homens que
fazem parte da comunidade LGBT. É o aplicativo de relacionamento mais popular
entre homens homossexuais, com 4,5 milhões de usuários no mundo inteiro e 130 mil
no Brasil, segundo dados de março de 2013, divulgados em entrevista concedida ao
portal iG. Simkhail, na mesma entrevista, contou o que o levou a criar o app
7
: “Como
gay, sempre foi um desafio conhecer outros homens. Você olha para alguém e deduz
se é gay ou não, mas nunca tem certeza. Procurei uma solução para saber quem era
semelhante a mim ao meu redor, utilizando o celular”.
A fala de Simkhail pode ser analisada a partir dos estudos de Simmel (1983) sobre a
seleção de conteúdos como formas de estabelecer práticas de sociabilidade, que
aplicativos como o Grindr possibilitam a sociação entre os usuários e maiores chances
dos atores sociais terem conhecimentos com os quais as interações são iniciadas,
através dos conteúdos disponibilizados nessas ferramentas digitais e nas interações
entre os usuários.
O aplicativo Scruff, também voltado aos homossexuais, foi criado em 2010 pelos
norte-americanos Johnny Scruff e Jason Marchant. Segundo a desenvolvedora do
aplicativo, em 2013, o número de usuários já chegava a 5,5 milhões em nível mundial.
No Brasil, o número chega a 500 mil. Em entrevista publicada no portal G1, em
novembro de 2013, Marchant comentou sobre a importância do Brasil para o
crescimento do Scruff: Os usuários nos Brasil ajudaram a traduzir o aplicativo para o
português desde o lançamento e temos tido uma forte presença no país desde então”.
Após a apresentação dos três aplicativos de relacionamentos abordados nesta
pesquisa, brotam alguns questionamentos a serem explorados mais profundamente
nas próximas seções. Será que os usuários conseguem manter a privacidade de suas
identidades nesse tipo de plataforma? Quais as hipóteses que levam esses sujeitos a
adotarem determinadas condutas nessas ferramentas? Formas de estabelecer
resistência a práticas de preconceito sociais e a embates de cunho familiar, cultural e
até mesmo religioso? De qual maneira a busca pelo sigilo nas possíveis interações
afeta as práticas de sociabilidade desses sujeitos nos ambientes online e offline?
IDENTIDADE E PRIVACIDADE
Para o sociólogo espanhol Manuel Castells (2010), a identidade dos sujeitos é
formada por relações de trocas entre eles e o mundo, em um processo denominado
identidades híbridas. Tais combinações entre indivíduos, sociedades e culturas, de
acordo com Castells (2010), é o que caracteriza a sociedade pós-moderna, na qual os
sujeitos possuem uma identidade primeira que, gradativamente, vai sendo somada a
novas identidades a partir de experiências vivenciadas, uma vez que o
[...] significado organiza-se em torno de uma identidade primária
(uma identidade que estrutura as demais) autossustentável ao
longo do tempo e do espaço [...] Não é difícil concordar com o fato
de que, do ponto de vista sociológico, toda e qualquer identidade é
7
Abreviatura de application, ou seja, aplicação. Aplicação essa que é instalada em dispositivos de
comunicação.
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construída. A principal questão, na verdade, diz respeito a como, a
partir de quê, por quem e para quê isso acontece (CASTELLS, 2010,
p. 23).
O caráter de constante formação das identidades implica em uma fragmentação
desse “eu” que, segundo Sherry Turkle (1997), proporciona novas experiências
relacionadas à identidade e a sua fragmentação. Os fragmentos dessa identidade,
que se torna múltipla, compõem as diversas facetas da subjetividade dos atores na
cibersociedade, conforme Turkle (1997). A fragmentação da identidade é vivenciada
por Audacioso nos apps Tinder e Grindr, que, de acordo com as peculiaridades de
cada plataforma, releva ou preserva mais dados a respeito de si revelando manter
um grau de privacidade maior no Grindr quando o compara com o Tinder.
Audacioso revelou que, no Tinder, mostra mais de si, por meio de fotografias
disponibilizadas no aplicativo por conta do que considera ser o objetivo principal de
cada aplicativo:
No Tinder eu acho que por ser uma rede não só de relacionamento,
mas também de amizades, as pessoas se sentem mais a vontade
para tal, para se mostrarem mais. Eu, por exemplo: sempre mostro
um pouco de mim através das fotos, não escrevo nenhuma
descrição, apenas seleciono as fotos que eu mais gosto e com elas
tento mostra um pouco de mim. No Grindr eu vejo como um
"menu gay", onde a coisa é mais pesada, a maioria procurando
relações rápidas, casuais e sem comprometimento sério. Por isso
que a maioria esconde a identidade, porque não quer ser visto
numa rede social assim.
Ao resguardar certas informações sobre si, Audacioso estabelece fronteiras que
delimitam o que se torna público e privado no “eu digital” do interlocutor. Essa
dualidade é observada por Eric Landowski (1992) no que o semiólogo determina
“sociedade refletida”. Segundo esse apontamento, o que é considerado “público” e
“privado” está se aproximando de tal modo que as fronteiras entre ambos estão se
tornando tênues a ponto de haver interseções entre estes dois polos. A
interpolarização entre “público” e “privado” também afeta o modo como a
identidade dos usuários é construída nos aplicativos de relacionamento, e pôde ser
experienciada por Impulsivo ao ponderar o que disponibilizar ou não quando
decidiu aderir ao aplicativo Grindr:
Eu mostro imagem, mas não dou muita informação sobre quem eu
sou A minha foto no perfil do Grindr mostra apenas metade do
meu rosto, porque eu não quero que pessoas estranhas tenham
acesso às minhas informações pessoais, porque podem vir a usá-las
contra mim ou mesmo possam acabar me identificando na rua.
Sabe, a nossa cidade é relativamente pequena, onde a maioria das
pessoas é ligada por amizade ou parentesco. Então mostrar a cara
é muito mais perigoso pra quem quer se manter no sigilo.
Após a análise de como os sujeitos fazem o uso da privacidade e do anonimato ao
construírem as identidades dos seus perfis nos apps analisados, e das implicações que
esses usos exercem nesta construção, serão analisados a seguir pontos relacionados
à sexualidade e a relação com questões sobre ferramentas de geolocalização e
privacidade, que configuram esses aplicativos como “armários digitais”.
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“ARMÁRIOS DIGITAIS”, PRIVACIDADE E SEXUALIDADE
Depois que os sujeitos se inserem no ambiente simbólico dos apps, estes fazem
diversas apropriações dessas ferramentas. Tais apropriações acontecem por
diferentes motivos e, durante esta pesquisa, uma das que mais se sobressaíram nas
falas dos interlocutores foi a questão do “armário digital”, o qual é negociado entre
os sujeitos inseridos nesses aplicativos, a fim de manter a privacidade de suas
identidades e orientações sexuais vivências que estão relacionadas às ferramentas
geolocalizadoras dessas plataformas e que serão analisadas a partir de agora. Por
meio do trabalho de campo, foi possível perceber outro aspecto ligado à privacidade
nos aplicativos de relacionamento: a questão de eles utilizarem a geolocalização para
fornecer a distância entre os usuários dessas ferramentas. Sei Lá contou que, certa
vez, conheceu um usuário do aplicativo Grindr, que estava localizado há poucos
metros de onde mora.
Tinha um cara no aplicativo que estava a poucos metros de
distância da minha casa. Chegamos a teclar e descobrimos que
éramos vizinhos de rua. Ele era parente de uns vizinhos. Era do Rio
de Janeiro e tava passando uma temporada com os tios aqui na
rua. Daí, a gente decidiu parar de se falar e, se a gente se
esbarrasse na rua, a gente faria de conta que sequer nos
conhecíamos, porque vai que alguém descobrisse sobre nós.
Situação semelhante foi vivenciada por Irreverente enquanto usava o aplicativo
Grindr. O interlocutor descobriu que um dos usuários que conheceu no aplicativo era,
na verdade, um primo que também era seu vizinho fato que propiciou algumas
mudanças na relação entre ambos:
Vi que tinha um perfil novo que se chamava Urso Carinhoso. Lá ele
tinha foto do tórax, e a metragem dizia que ele se encontrava
dentro da vila de onde eu moro. Como meu primo vivia sem
camisa, deu pra notar que o mesmo sinal que ele tinha no peito,
aparecia na foto de perfil do tal Urso. Daí, postei no Facebook
quando descobri, ele viu e ficou sabendo que eu sabia; logo ele me
bloqueou nos apps em que eu podia vê-lo. Hoje ele me respeita
mais do que antes. Antes ele adorava me zoar por eu ser gay e,
agora, fica na dele.
A partir das falas de Sei Lá e Irreverente”, é possível perceber como esses
aplicativos funcionam como formas de resistência a repressões de diversas
naturezas, de modo que os sujeitos ali inseridos vivem em uma espécie de “armário”,
que se torna compartilhado com demais usuários desses aplicativos. Richard Miskolci
(2009) traz o conceito de “armário ampliado”, no qual o ciberespaço serve como um
novo ambiente para a sociabilidade homoafetiva, possibilitando aos indivíduos tecer
relações e reconhecer eventuais parceiros, ao mesmo tempo em que podem manter
o “anonimato” no mundo offline.
Essa percepção foi destacada na fala de Manipulador, que afirmou ter conhecido
indivíduos que, por conta da localização e do contato muito próximo à família,
amigos e colegas de trabalho, utilizavam essas plataformas interagir com usuários de
bairros afastados ou que não tivessem ligação com seu círculo de amigos ou
conhecidos. Em seguida, acrescentou que:
Tem caras que usam o aplicativo no trabalho ou longe de casa
justamente pra conhecer caras de outros bairros, fora do seu
círculo de amigos e conhecidos. Porque teclar com pessoas
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próximas aumenta a exposição. Principalmente pra quem é
enrustido, tem namorada ou esposa ou vem de famílias
intolerantes.
Segundo Manipulador, tais sujeitos consideravam que interagir com outros
geograficamente próximos aumentaria a exposição e a sensação de estarem sendo
monitorados de algum modo por todos ao redor. Assim, será que é mesmo possível
manter a privacidade e mesmo o anonimato no uso desse tipo de aplicativo?
Ao traçar um paralelo entre a sensação de se estar sendo constantemente vigiado,
apontamento atribuído a Foucault (1999), com aspectos da sociabilidade nos
aplicativos de relacionamento, é possível associar a estrutura do panóptico com a
sociedade de modo geral, que constantemente vigia os sujeitos inseridos nela e por
vezes oprimindo aquilo que se distingue dos padrões vigentes no caso dos
interlocutores ouvidos neste trabalho, a orientação sexual é a “peculiaridade” que se
desvia dos padrões heteronormativos impostos, o que faz com que haja o forjamento
de uma identidade heterossexual, conforme salienta Eve Sedgwick (2007). Tímido
teme vivenciar essa opressão, uma vez que sua família não sabe que o interlocutor é
homossexual.
Minha família não sabe de nada ainda, mas, com certeza, haverá
alguma repressão, sim. Meus pais são evangélicos. Então, acho que
haveria discussões de temática religiosa e "moral" segundo a
religião deles. Por isso, às vezes, eu não sei muito bem o que
esperar quando eles souberem.
Desse modo, para poderem se expressar “sem medo”, ainda que sob constante
alerta, os sujeitos se recolhem às heterotopias simbolicamente, nesse caso, os
aplicativos de relacionamento , já que estas, segundo Foucault (2013), têm o “[...]
poder de justapor em um só lugar real vários espaços, vários posicionamentos que
são em si próprios incompatíveis” (2013, p. 418). Tal relação de poder entre indivíduos
e sociedade também é analisada por Foucault (1979, 1984), juntamente com a
construção dos discursos no que se referem à formação das relações sociais e da
identidade do sujeito.
Essas relações estão ligadas à (des)construção do sujeito e de sua subjetividade, e
estão presentes em aspectos relacionados à alteridade, construção do discurso e
poder; bem como das relações sociais estabelecidas entre sujeitos. Tal
(des)construção do sujeito relacionada às relações sociais foi sinalizada pelos
interlocutores em outra fala de Tímido, na qual o interlocutor contou que alguns
sujeitos, cujos perfis eram anônimos, com os quais estabeleceu contato no Scruff,
disponibilizavam fotografias de si mediante pedido de o outro fazer o mesmo
durante a interlocução, e que havia um perfil de idade dos sujeitos que agiam deste
modo:
Já conversei com alguns caras que mostram o rosto na foto do
perfil sem medo e outros não têm absolutamente foto nenhuma
no perfil e mandam a foto de rosto pra mim no privado. A maioria
pede foto minha de rosto e eu tenho que pedir a deles em retorno.
Por que eles não mandam de livre e espontânea vontade. Eu
também percebo que os caras mais jovens não ligam muito pra
isso. A preocupação maior com a imagem e a exposição vêm de
caras mais velhos.
A partir disso, quando um usuário pretende preservar sua identidade no ambiente
digital, este pode se valer de recursos que mantenham a privacidade de seus perfis,
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como o uso de fotografias que venham a esconder seus rostos e relevar apenas
determinadas partes de seus corpos. Ao possuir relação intrínseca com fotos e uso do
corpo, a construção identitária é algo performático já que, segundo Judith Butler
(2003), são comportamentos variáveis de acordo com o contexto, o momento e os
sujeitos. É possível reconhecer exemplos de performance
8
na troca das fotos do perfil
de Convincente no Scruff. O estudante declarou que experimentou alternar fotos
de si que mostravam o rosto e outras que focavam outras partes do corpo:
Uma coisa que eu percebi é que quando era a foto do meu corpo,
quase todos os que vinham falar comigo eram exclusivamente
fotos de corpo em seus perfis e, quando era foto de rosto, os que
tinham foto de rosto vinham falar. Os que tinham foto de rosto
eram mais tranquilos. Eram menos inconvenientes com relação a
sexo.
Por meio da fala de Convincente”, é possível analisar que o compartilhamento de
conteúdos é capaz de gerar laços de sociabilidade, conforme aponta Simmel (1983).
Bem-humorado também sinalizou ter vivenciado experiências semelhantes à de
“Convincente ao utilizar o mesmo aplicativo de relacionamento.
A maioria é cavaleiro sem cabeça, ninguém mostra a cara e aposto
que eles mostrariam fotos de partes íntimas se pudessem. que
esses aplicativos não permitem esse tipo de imagem. São poucos
aqueles que mostram o rosto sem nenhum disfarce de óculos
escuros, bonés, fotos tiradas a mil quilômetros de distância e
outros subterfúgios assim.
Alguns dos sujeitos encontrados pelo interlocutor ocultam seus rostos e buscam
chamar a atenção para seus corpos, pois, segundo Luiz Felipe Zago (2013), além de
revelar a identidade, os rostos expõem a homossexualidade dos indivíduos aos
demais usuários das plataformas virtuais, ao passo que os corpos não ocultam a
identidade, como também afirmam uma identidade heterossexual dos usuários, no
que Zago (2013) afirma ser o cerne da biossociabilidade gay online.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como finalidade compreender como os usuários dos aplicativos
Tinder, Grindr e Scruff experienciam determinadas facetas de suas subjetividades,
utilizando ou não o subterfúgio do anonimato; bem como de que forma esses
aplicativos configuram determinadas formas de estabelecer resistência a práticas de
preconceito sociais e a embates de cunho familiar, cultural e religioso, vivenciados
nos três aplicativos abordados.
Diante das análises dos materiais coletados com as interlocuções, foi possível
perceber que os usuários gerenciam a privacidade de seus perfis nesses aplicativos
por meio da publicação de fotos que possam revelar mais ou menos quem são, e por
intermédio do que é dito ou não sobre si. Desse modo, ativam diferentes
perfomances no que se referem a gostos, informações e preferências do seu “eu
digital”, em busca do estabelecimento de práticas de sociabilidade com o Outro.
8
As proposições de Butler (2003) sobre performance se relacionam com esta pesquisa no que se refere a
um processo de negociação entre os sujeitos, o qual favorece que os indivíduos vivenciem novas
experiências, ao desconstruírem os mecanismos de identidades utilizados no ciberespaço.
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Tal pluralidade de performances influencia diretamente nas práticas de sociabilidade
estabelecidas nesses ambientes simbólicos quando confrontadas com a localização
dos sujeitos envolvidos em tais práticas. De modo que, quanto mais próximos estão,
maior a possibilidade de eles serem “descobertos” enquanto usuários de tais
ferramentas e de ter sua identidade e orientação sexual expostas diante da família,
amigos ou de colegas de trabalho, o que causaria alterações negativas em sua
vivência no ambiente offline.
Tal conduta por parte desses sujeitos se relaciona com a questão da resistência
estabelecida pelos usuários: seja contra o preconceito social advindo da família, de
questões religiosas e de códigos culturais estabelecidos em sociedade. Além dessas
questões, nessas ferramentas, os sujeitos podem vivenciar mais de um
relacionamento além do vivenciado fora do ciberespaço, muitas vezes com indivíduos
do mesmo sexo. Dessa sorte, quando o fazem, procuram estabelecer uma espécie de
“acordo de sigilo” do que é iniciado no ambiente digital, bem como possibilitam
tentativas de privacidade das identidades e dos aspectos a ela relacionados, bem
como das intencionalidades e práticas sociais estabelecidas entre si, o Outro e a
sociedade.
Artigo recebido em 07/07/2016 e aprovado em 03/11/2016.
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