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Abstract

ALVES, 2007 BARBOSA, 1993 1996 BIZZOCCHI, 1998 VIARO, 2011
579
Alfa, São Paulo, 60 (3): 579-601, 2016
PROPOSTA DE NOVOS CONCEITOS E UMA NOVA
NOTAÇÃO NA FORMULAÇÃO DE PROPOSIÇÕES
E DISCUSSÕES ETIMOLÓGICAS
Mário Eduardo VIARO*
Aldo Luiz BIZZOCCHI**
RESUMO: O presente artigo visa a apresentar a metodologia de trabalho e os principais
postulados teóricos que norteiam a elaboração do DELPo (Dicionário Etimológico da Língua
Portuguesa), a cargo do NEHiLP-USP (Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História
da Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo), visto tratar-se de projeto inovador
tanto em seus aspectos teóricos quanto empírico-operacionais. Pretende-se aqui apresentar
as inovações conceituais, notacionais e terminológicas propostas pelos autores, que embasam
a elaboração do DELPo. Para tanto, baseamo-nos em referenciais teóricos sobre neologia
(ALVES, 2007; BARBOSA, 1993, 1996), lexicogênese (BIZZOCCHI, 1998) e etimologia
(VIARO, 2011), bem como propomos uma atualização na simbologia utilizada na formulação
de proposições etimológicas, que ao mesmo tempo dirima ambiguidades e inconsistências da
notação tradicional e dê conta das inovações conceituais aqui introduzidas. Pretende-se que
tanto os processos etimológicos descritos quanto os símbolos a eles correspondentes se tornem

PALAVRAS-CHAVE:   
etimológicas. Discussão etimológica. Simbologia etimológica. Notação linguística.
Introdução: o NEHiLP
O Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa
(NEHiLP), vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo, visa à

Etimologia. Para tal, congrega especialistas de várias áreas que se dedicam diretamente
a tais estudos. Muitos pesquisadores desse núcleo interdisciplinar são especialistas em
* USP – Universidade de São Paulo - Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. São Paulo – SP – Brasil.
05508-900 – maeviaro@usp.br
** Membro do Grupo de Pesquisa do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa -
NEHiLP. USP – Universidade de São Paulo - Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. São Paulo – SP – Brasil.
05508-900 – aldo@aldobizzocchi.com.br
http://dx.doi.org/10.1590/1981-5794-1612-6
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história antiga e moderna, estruturas linguísticas e teorias de reconstrução linguística.
O método empregado é o da pesquisa em documentos antigos e atuais, com vistas à
organização da informação linguística que permita gerar dados de qualidade para a
consulta tanto de especialistas em linguística como de outros setores da sociedade
que se interessem por etimologia (sobretudo jornalistas e cientistas das mais variadas


sociolinguísticas e estilísticas, associadas a informação sobre frequência de uso.
Dentre os seus projetos estão o projeto Retrodatação e o DELPo.
O projeto Retrodatação
Uma das tarefas do etimólogo é coletar contextos em determinadas obras e associá-
los à data de publicação da mesma obra, que, necessariamente, deve ser uma edição
terminus a quo da palavra
e estabelecer etimologias. Tradicionalmente, o etimólogo é entendido como uma
pessoa extremamente erudita, que sabe onde localizar as melhores fontes e não raro
conhece detalhes de conteúdo das obras que consulta/cita. Obviamente, ter erudição
e ser organizado são qualidades sempre desejáveis para o pesquisador desse trabalho,
mas não são o ponto principal. O ideal é que o menor número de erros seja cometido.
Erros que dependam apenas das propensões humanas sempre existirão, mas há alguns
tipos de erros que podem ser evitados, como os motivados por cansaço e pela falta de
atenção, dado o manuseio de um grande número de informações. Nesse ponto, acredita-
se que um programa que faça a comparação automática de um determinado terminus
a quo com a data da obra analisada auxiliaria muito as pesquisas.
As vantagens desse programa sobre a pesquisa manual seriam várias:
(a) numa pesquisa manual, o pesquisador não tem disponíveis em sua erudição todos
os termini a quo de todas as palavras de uma língua, de modo que suas descobertas se
pautam, na maioria das vezes, apenas pela “sensação” de que a palavra “não deveria
estar naquele texto”, por ele supor (baseado exclusivamente na sua experiência de falante
e/ou pesquisador) que a palavra seja mais recente do que a data do texto investigado;
(b) para sanar a impossibilidade de uma investigação exaustiva, o pesquisador acaba


origem (por exemplo, palavras de origem africana). Desse modo, o texto precisaria ser

as informações que possam ser interessantes para os estudos etimológicos.
Um programa que tivesse idealmente a lista de todas as palavras da língua
portuguesa com seus respectivos termini a quo poderia teoricamente apresentar ao
pesquisador todas as ocorrências em que a data do texto processado for menor que a
do terminus a quo, sem que ele recorresse à sua erudição, e sanaria os problemas do
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item (a) acima, ao mesmo tempo que faria uma varredura integral, anulando também
a parcialidade indesejável de (b).
Para isso foi idealizado pelo NEHiLP o programa computacional Moedor, cujo
projeto inicial foi encaminhado à Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo
em 2012, juntamente com a criação do Núcleo, e que foi desenvolvido pelo NEHiLP
em colaboração com o Instituto de Matemática e Estatística da USP entre 2013 e 2014.
O projeto Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (DELPo)
O projeto Retrodatação visa a algo mais amplo que a coleta dos dados.
Diferentemente do que ocorre com a maior parte das línguas europeias (inglês, francês,
espanhol e italiano), a informação etimológica presente nos dicionários da língua
portuguesa é bastante falha no tocante aos seus dados etimológicos. Neles:

confundem-se étimo da palavra e sua origem remota;


há total arbitrariedade no que toca a étimos de origem indígena e africana;


Acresça-se ainda que:
      
termini a quo;
não há até hoje uma metodologia para o trabalho do terminus ad quem;
a língua portuguesa está longe de ter hipóteses etimológicas e termini a quo para
acepções, pois o que existe são majoritariamente datações de lemas.
Todos os pesquisadores que se dedicam a aspectos históricos e à diacronia da língua
portuguesa sentem falta de material especializado à altura do dicionário etimológico
Oxford para a língua inglesa, do Le Robert para o francês, do de Cortellazzo & Zolli
para o italiano ou do de Corominas para o espanhol. As obras mais completas que
temos em língua portuguesa são as várias publicações de Antônio Geraldo da Cunha,
o dicionário de Houaiss & Villar e o dicionário de José Pedro Machado. São ausentes
ou muito falhos os estudos dos séculos XVII, XVIII e XX.
Assim sendo, as propostas etimológicas encontram-se pouco desenvolvidas em

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
abundam etimologias ad hoc e étimos desconhecidos.
Como produto final da pesquisa do NEHiLP, desenvolver-se-á o DELPo
(Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa), inicialmente on-line, mas com
possíveis versões impressas. Além da desejável versão integral do DELPo, imagina-
se que também será possível fazer publicações parciais, por exemplo, por áreas

Para a elaboração do DELPo há grupos especializados de pesquisadores em:
(a) palavras de base latina ou associadas a substratos antigos (antigos helenismos,

(b) palavras de origem ameríndia;
(c) palavras de origem africana;
(d) palavras de origem árabe;
(e) palavras de origem indiana, chinesa e japonesa;
(f) palavras de origem desconhecida;
(g) palavras internacionais europeias surgidas a partir do século XVII (de várias
origens, sobretudo italiano, espanhol, francês e inglês);
Inovações conceituais e notacionais introduzidas pelo DELPo
Além do aspecto inovador da metodologia utilizada para a constituição do corpus
sobre o qual o dicionário será elaborado, também foram introduzidas inovações
conceituais no que respeita à descrição dos fenômenos evolutivos que afetam as palavras
ao longo de sua história, com repercussões na formulação das chamadas proposições
etimológicas, o que ensejou o desenvolvimento paralelo de uma nova notação descritiva
desses fenômenos.
Muitos dos conceitos aqui apresentados são de uso corrente na Etimologia; outros
já haviam sido propostos anteriormente (BIZZOCCHI, 1998, 2013; VIARO, 2011), ao
passo que alguns, ainda, estão sendo apresentados agora pela primeira vez. À época,
esses estudos aliaram a pesquisa etimológica a técnicas quantitativas de lexicometria
(análise estatística informatizada de léxico), tendo consistido numa etapa de revisão

numa etapa de aplicação do novo modelo teórico assim desenvolvido a um corpus de
textos acadêmicos e jornalísticos em seis línguas europeias, a saber, português, espanhol,
francês, italiano, inglês e alemão.
O motor dessa pesquisa fora a constatação de que, quando se tomam traduções de
um mesmo texto para várias línguas europeias (por exemplo, um manual de instruções
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redigido em vários idiomas), nota-se que, onde o francês e o inglês empregam
a palavra latina instruction (do latim instructionem), em que só a desinência foi
-tionem pelo vernáculo -ção (instrução) e
suprime o c do radical, enquanto o italiano elimina o n e o c
(istruzione), e o alemão cria um decalque a partir do latim (Anweisung). Ou seja,
diante da necessidade de importar uma palavra latina, cada língua a incorpora segundo
um processo diferente.
     
etimológicos disponíveis não fazem distinção clara entre os itens lexicais herdados
do latim em época pré-histórica (léxico hereditário), os criados a partir de material
vernáculo em época histórica (criações intralinguísticas) e os resultantes de empréstimo,
limitando-se as mais das vezes a apontar o étimo e a apresentar abonações. Vários deles
    termômetro, helicóptero,
etc.), como resultantes de composição entre elementos gregos e/ou latinos como se tal
processo tivesse ocorrido simultaneamente em português e em outras línguas, isto é,
como se tais termos não tivessem sido criados num determinado idioma (quase nunca
o português) e só então exportados aos demais.
      
dividem o léxico em palavras cultas e vulgares, desconsiderando a existência de
  
  
rigor, deveriam ser tidos como semicultos; outras, ainda, tratam decalques de termos
estrangeiros como palavras vernáculas, ignorando, ainda, que o decalque pode ser

(1998), confundem vulgar e culto com hereditário e empréstimo, como se todas as
palavras vulgares tivessem sido herdadas (desconsiderando-se, pois, as composições
e derivações modernas dessas palavras) e todos os empréstimos fossem cultos, isto é,
provenientes do grego ou latim sem nenhum metaplasmo (desconsiderando, agora,
empréstimos como o do inglês futebol, que nada tem de culto, ou semicultismos como
artigo e cabido).
Outro aspecto totalmente ignorado pela literatura em questão é que, ao criar e
renovar seu léxico, as línguas fazem escolhas entre as várias possibilidades que lhes
são dadas – criação intralinguística, empréstimo, decalque, etc. – e que essas escolhas,
por serem feitas de forma sistemática, tornando-se mesmo injunções em certos casos,
revelam algo da visão de mundo dos falantes em relação à própria língua. Além disso,
como tais escolhas mudam com o tempo, pode-se reconstituir a evolução histórica
dessa visão de mundo pela análise sincrônica do espectro etimológico do léxico, seja
no momento presente ou em sincronias passadas.
O projeto DELPo também incorpora e amplia as inovações notacionais (VIARO,
2011) em grande parte para dar conta do próprio enriquecimento conceitual acarretado
pelo projeto, bem como para eliminar ou ao menos minimizar inconsistências que a
notação etimológica tradicional comporta.
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    DELPo será constituído a partir do
on-line, das quais as proposições
etimológicas e a discussão etimológica são campos a ser preenchidos pelos
      
norma a ser seguida por esses pesquisadores e constam em manual próprio, disponível
no site do Núcleo (www.nehilp.org).
A formulação de proposições etimológicas segundo a metodologia adotada no
DELPo
Como primeira inovação notacional, o DELPo faz distinção entre os símbolos *
(dado reconstruído) e « (dado inexistente), antepostos à forma linguística em análise.
Este último símbolo é usado, conforme Viaro (2011), para indicar formas inexistentes ou
impossíveis em vez do asterisco chomskyano. Já o símbolo * é estritamente reservado
na sua interpretação schleicheriana, mais antiga, como “forma reconstruída” (portanto
supostamente existente, ao menos em teoria). A razão disso é que o uso contraditório
do asterisco cria aporias no estudo diacrônico.
Uma etimologia pode ser expressa de maneira sucinta por uma ou mais proposições
etimológicas
uma mesma sincronia ou de duas sincronias contíguas.
Nessas transformações, temos o dado original (x) cronologicamente anterior ao
dado derivado (x’) separado por um símbolo entre eles.
Ambos podem ser dados atestados (x), dados inexistentes («x) ou dados
reconstruídos (*x). Os dados atestados encontram-se em obras, os dados inexistentes
e os dados reconstruídos não se encontram em obra alguma; no entanto, os dados
reconstruídos obedecem a uma sequência previsível de transformações diacrônicas,
ao passo que os dados inexistentes são meros exemplos conjecturais da aplicação de
regularidades analógicas, que não têm nenhuma frequência de uso em uma determinada
sincronia e em um determinado sistema linguístico.
Também podemos falar de dados desusados (†x), quando, em uma determinada
sincronia, a frequência de uso for baixa ou nula, comparada a sincronias anteriores. O
conceito de desuso está ligado ao estudo do terminus ad quem.
Os dados, portanto, pertencem a sistemas linguísticos, que, por sua vez, estão
vinculados a línguas   
deve aparecer o nome da língua da qual é proveniente.
São oito os símbolos utilizados na descrição das sincronias:
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 x o dado linguístico y é derivado morfológico de x
x ð y ou y ï x o dado linguístico y é afetado por analogia com x
 x transforma-se em y
x y x e y são homófonos
x @ y x é cognato de y
x y x é uma variante de y
x ~ y x e y
 z é uma composição de x e de y
São quatro os símbolos vinculados à descrição diacrônica:
x > y ou y < x x é étimo/origem de y
 x se tornou y
 y é um decalque de x
x y ou y x x foi substituído por y
Os elementos x ou y sempre terão o formato “língua dado”, exceto se a língua for
o português (nesse caso teríamos apenas “dado”), exceção feita se não se trata de uma

europeu”, “português brasileiro”, “português angolano”, “português cearense”. Não se
usa porém a expressão “português arcaico” (nem “português medieval”, “português

meio de uma numeração superscrita anteposta ao dado.
Uma proposição etimológica tem autoria (que é apresentada por meio de uma
graus de certeza.1

em cada sincronia. Para checar a regularidade da incidência de leis fonéticas, foi
desenvolvido pelo NEHiLP o programa Metaplasmador, disponível para uso público
em seu site (aba “Programas/Metaplasmador”). Os graus de certeza são:
[1] Certo:
quando houver aplicação regular das leis fonéticas entre dados não reconstruídos,

[2] Provável:
quando houver aplicação regular de leis fonéticas entre dados reconstruídos, além

quando houver irregularidade nas leis fonéticas em apenas um locus da etimologia

1 Segundo Jespersen (1954, p. 307, nota 1): It is of course, impossible to say how great a proportion of the etymologies
given in dictionaries should strictly be classed under each of the following heads: (1) certain, (2) probable, (3)
possible, (4) improbable, (5) impossible – but I am afraid the rst two classes would be the least numerous.
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[3] Possível:
quando houver aplicação regular das leis fonéticas entre dados não reconstruídos,

quando houver aplicação regular de leis fonéticas entre dados reconstruídos, mas

quando houver irregularidade nas leis fonéticas em apenas um locus da etimologia

[4] Improvável:
quando houver irregularidade nas leis fonéticas em apenas um locus da etimologia

quando houver irregularidades nas leis fonéticas em mais de um locus da etimologia

[5] Impossível:
quando houver irregularidade nas leis fonéticas em mais de um locus da etimologia

Resumidamente (sendo i = número de loci irregulares):
Tabela 1 – Atribuição de graus de certeza a partir de índices da etimologia proposta.
Regularidade
das leis fonéticas
(i 1)
sim sim sim sim não não não não
Reconstrução sim sim não não sim sim não não
Manutenção do
signicado sim não sim não sim não sim não
Número de loci
irregulares 0 1 0 1 0 1 0 1 > 1 > 1 > 1 > 1
Grau de certeza [2] [3] [3] [4] [1] [2] [3] [4] [4] [5] [4] [5]
Fonte: Elaboração própria.
Esse protocolo é válido para palavras herdadas. Nos casos de analogia, empréstimos,
substituições e decalques, outros critérios devem ser adotados. Os graus de certeza
poderiam ser acrescidos de + quando houvesse uma atuação analógica. Por exemplo,
se uma proposição etimológica de grau 4 não segue as leis fonéticas porque necessita
de uma explicação de cunho analógico, sua notação seria [4+]. Os empréstimos
evidentemente sofrem adaptação ao sistema fonológico da língua-alvo na sincronia
em que ocorrem; no entanto, nem sempre esse sistema é conhecido, tendo em vista a


no julgamento. O mesmo se pode dizer das substituições e dos decalques.
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A discussão etimológica
A discussão etimológica se detém na argumentação de cada proposição etimológica,
    
da palavra e nos cognatos interlinguísticos (e eventualmente nas suas disparidades

sobre a atualidade da palavra ou sobre sua raridade, seu grau de especialização, sobre
seu uso ou desuso.
Também são pertinentes questões sintáticas que envolvam aspectos morfossintáticos
        
participação da palavra em lexias.
Nesse campo do verbete, plenamente desenvolvido numa acepção principal,
discorre-se sobre as diferentes acepções que lhe são subordinadas.
Por exemplo, suponhamos que estrela1, “corpo celeste”, seja vocábulo herdado,
mas estrela2, “atriz famosa”, seja decalque do inglês star e não uma derivação direta.
A solução para isso está na acepção principal estrela1, dentro de cujo campo
Etimologia estará toda a história da palavra estrela.
Numerados estarão, dentro desse campo, primeiro, a proposição “latim stellam >
estrela ï latim astrum” e toda a discussão etimológica e seus cognatos e, em seguida,
a proposição “inglês starestrela”, com seus próprios comentários e cognatos. Assim
sendo, o comentário de “inglês starestrela2”, onde haverá
apenas uma remissão à acepção principal “estrela1”. Sendo assim o campo Etimologia
corretamente preenchido, essa discussão reaparecerá no lema.

ou eruditos (cultismos) e vulgares ou populares (vulgarismos). Essas categorias dizem
respeito à origem do vocábulo e não ao seu uso: há palavras herdadas, como escorreito,
que só ocorrem no registro ultraformal, assim como há cultismos, como operário,
que são de amplo uso em todos os níveis de linguagem, do ultraformal ao informal e
popular. É importante distinguir, portanto, ao estudar uma acepção, a origem culta ou
popular de seu uso.
No entanto, há gradações importantes entre esses dois extremos. Podemos dizer
que há semicultismos quando há hibridismo de elementos cultos e vulgares, seja por
combinação ou por vulgarização da forma greco-latina. Também há semivulgarismos,
ou seja, vocábulos existentes na língua desde seus primórdios, surgidos no período
chamado de “latim cristão”, quase sempre ligados à Igreja, disseminados na fala popular,
mas de baixa frequência de uso, assim como restritos a certos gêneros discursivos em
que a fala era mais monitorada. Somente uma investigação detalhada das sincronias
pretéritas (feitas com pesquisa e com a ajuda de ferramentas como o Metaplasmador)
poderá dizer exatamente em que momentos o latim clássico atuou com maior ou menor
força para exercer um papel na etimologia de uma palavra.
Metaplasmos irregulares, como no caso de escola, cabido, cônego e missa apontam
para os chamados semivulgarismos.
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       
  poperô, tilim-tilim),2 as derivações de
siglas (ufologia, petista, aidético) ou de nomes próprios (amperímetro, kantiano),
bem como as recomposições (reprograa, informática, metrô, minissaia, showmício).
Considerando-se ainda que uma palavra pode ter origem numa língua sem qualquer
contribuição, direta ou indireta, de outra, ou pode ter-se formado a partir de elementos

modelo estrutural estrangeiro, reconhecem-se dois processos básicos de formação
lexical:
os autogenéticos (hereditariedade ou criação intralinguística);
os alogenéticos (empréstimo ou criação a partir de elementos alógenos).
Pode-se dizer que são autogenéticas as palavras que não contenham nenhum
elemento proveniente de outro sistema linguístico, quer no plano da expressão quer no
do conteúdo, e que são alogenéticas as que contenham pelo menos um desses elementos,

Assim sendo, fará parte da seção “Discussão etimológica” do campo Etimologia a
seguinte terminologia para as acepções (BIZZOCCHI, 1998, 2009, 2013):
1. Processos autogenéticos (autogenia):
a. herança (vocábulos vernáculos ou hereditários);
b. neologia fonológica (neologismo fonológico);
c. ressemantização (de palavras autogenéticas);
d. composição ou derivação (a partir de palavras autogenéticas).
2. Processos alogenéticos (alogenia):
a. empréstimo de palavra estrangeira (“estrangeirismo”);
b. ressemantização
c. ressemantização
d. composição ou derivação (a partir de palavras alogenéticas).
Os cultismos e semicultismos enquadram-se na categoria alogenética, já que
resultam de elementos importados do grego ou latim. No exemplo citado mais acima,
estrela1 é vocábulo autogenético, ao passo que estrela2 é alogenético.
É preciso considerar ainda que a fronteira entre as duas famílias de processos é
    
2 plim-plim, miau, zunzum,
ziguezague, tique-taque, tilim, e seus derivados miar, zunzunar, ziguezaguear, tilintar). Discute-se muito se essas
palavras são de fato neologismos ex nihilo          poperô, chinfrim,
pirlimpimpim, zureta            

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
latino que lhe deu origem. Por exemplo:
mosteiro monastériomonastērĭum
Nesse aspecto, é discutível o estatuto dos epônimos, nomes próprios que se tornam
comuns. Muitos deles homenageiam o criador do objeto que nomeiam. Por exemplo,
ampère, macadame, gilete e zepelim são epônimos dos sobrenomes Ampère, Gillette,
MacAdam e Zeppelin, respectivamente. No caso de gilete, o substantivo comum não

produto, originalmente fabricado pelo próprio inventor. Outro caso de marca registrada
que se tornou nome comum é maisena (< Maizena®). Dentre os compostos e derivados
desse tipo temos: português abreugraa, francês voltmètre, inglês Newtonian, alemão
Kantismus, e, de modo geral, todos os derivados de nomes de pessoas e países, como
hitlerista e zimbabuês.
Siglas e acrônimos são às vezes passíveis de lexicalização e chegam a ter uma
pronúncia silábica, enquanto outras permanecem pronunciadas de modo soletrado
(BARBOSA, 1993, 1996). De qualquer maneira, elementos formados por acronímia
como USP, AIDS, PT, e seus derivados uspiano, aidético, anti-AIDS, petista também
formam grupos especiais a ser estudados.
Detalham-se a seguir os processos etimológicos que envolvem casos acima
descritos.
Herança
São classificados como vernáculos ou hereditários os vocábulos herdados
diretamente do sistema linguístico numa sincronia imediatamente anterior, sem a

é vernáculo tudo quanto já existia no latim vulgar e continuou a existir, de modo que,
quando adquiriram o status de línguas distintas do latim, esse acervo de material lexical
e gramatical passou a constituir o léxico de base dessas línguas. A representação de
uma herança é x > y.3 As formas nominais latinas, nesse caso, virão no acusativo (sem
apócope do -m).

durante os últimos séculos do Império Romano e início da Idade Média (séculos I a

  guardar < latim vulgar *guardare 
wardan
3 

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dishdiskazdiscus). Visto

dependendo da sincronia, ou são empréstimos ou são herança.
Diferentemente da notação tradicional, é possível haver notações como x > y < z,
y é uma forma com dupla origem. Por exemplo:
latim pro > por < por ~ †per < latim per.
Empréstimo
O termo empréstimo é aplicado a tudo aquilo que não é criado em sincronia nem
é herdado, ou seja, uma palavra proveniente de um outro sistema numa determinada
sincronia. O termo estrangeirismo costuma ser usado como sinônimo de empréstimo,
mas é preciso fazer algumas distinções, pois há os considerados “estrangeirismos
nacionalizados” e os “não nacionalizados”. O termo estrangeirismo não é, portanto, um
termo técnico adotado pelo NEHiLP na seção de “Discussão etimológica” do campo
Etimologia
clássicos. Salvos uns poucos casos (status, habitat), palavras do grego e do latim já
ingressam plenamente “nacionalizadas”, ao passo que alguns estrangeirismos ou estão
futebol, abacaxi) ou não (pizza, bonbonnière).
Diferentemente do uso tradicional, não se fará distinção entre esses dois grupos de
palavras (isto é, as vindas do grego ou do latim clássico e as vindas de outras línguas)
e em ambos os casos se fará a sua representação como xy (as formas nominais
latinas, nesse caso, virão no nominativo). Isso é válido tanto para os cultismos diretos
quanto para os indiretos (quando uma palavra latina ou grega, por exemplo, entra no
português não diretamente do latim ou do grego, mas por meio de uma língua moderna
intermediária, como o francês, o italiano, o espanhol ou o inglês).
Exemplos de propostas etimológicas:
latim temperātūratempératuretemperatura;
theatrumthéâtreteatro.
Algumas vezes, uma palavra de um sistema A é admitida pelo sistema B e, tempos
depois, retorna para A. Não raro esse retorno ocorre quando a palavra já havia caído


é chamado de retroversão. Por exemplo, o vocábulo português fetiche é empréstimo
do francês fétiche, por sua vez importado do português feitiço e ressemantizado.
Simbolicamente:
fetichefétichefeitiço.
591
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Nesse caso, representam-se as formas alótropas como cognatas: feitiço @ fetiche.
Também pode ocorrer retroversão de formas cultas, como se vê no francês †parformer
inglês performperformer. O lat. humor, “líquido”, passou nessa acepção ao
fr. medieval humour (atual humeur
ao inglês humour, que mais tarde adquiriu a acepção de “senso de humor, graça,
humorismo”. Esta acepção retornou ao francês como humour, que hoje convive com
humeur (formas divergentes). Igualmente, o francês entrevue, “entrevista”, passou ao
inglês interview por restituição4
interview
entrevue é uma entrevista para tratar de negócios (uma oferta de emprego, por exemplo)
e interview é a entrevista jornalística.
Alguns cultismos, por serem indiretos, entram na língua com a forma fonética do
idioma a partir do qual foram importados. Isso produz uma divergência entre a forma
assumida por esse cultismo e a que seria esperada se ele proviesse diretamente do
grego ou latim.
Por exemplo:
phrenēsisfrénésiefrenesi;
Sīrēnsirènesirene;
latim domĭnōdominodominó.
Quando uma língua importa um semicultismo, este normalmente mantém seu
caráter semiculto. Por exemplo, o francês nécessaire provém do latim necessarĭus (com
adaptação da terminação), o qual passou ao português nécessaire na acepção de “bolsa
ou estojo feminino para utensílios de toalete”. Da mesma forma, o latim socĭĕtās gerou
o francês société e, a seguir, esta forma passou ao inglês society.
Normalmente, os cultismos entram nas línguas vulgares por via escrita e só


pronúncia. Entretanto, às vezes, pode haver a transmissão oral de um cultismo indireto,
isto é, a partir de outra língua que não o grego ou latim. Nesse caso, pode ser reproduzida

francês estimeesteem«estime
Assim como acontece com palavras vulgares, cultismos também podem ser
emprestados acompanhados de desinências, que se incorporam ao radical da palavra
na nova língua. Os cultismos franceses privé e habitué passaram sem alteração ao port.
privé e habitué, respectivamente, portanto com manutenção da desinência de particípio
[e] e não «
portugueses um caráter híbrido, isto é, semiculto.
4 Decalque, mais adiante.
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Decalque
Tradicionalmente chama-se de decalque, calque ou clipping a tradução de um
vocábulo (ou dos elementos que o compõem) de um outro sistema diferente do estudado
por equivalentes do sistema em questão. Sua representação é x y.
Exemplos:
inglês skyscraper arranha-céu;
inglês hot-dog cachorro-quente;
francês chou-eur couve-or.
O NEHiLP faz um uso ampliado do conceito de decalque, pois também o aplica ao


Por exemplo, a palavra relação não foi herdada do latim (portanto, não poderíamos
        
histórica, como latim relātĭō > relação, muito menos como se fosse uma palavra
herdada, como latim relātĭōnem > relação ou latim relātĭōne- > relação), tampouco
foi um mero empréstimo (e seria impreciso indicá-la como latim relātĭōrelação,
porque não se trata de uma mudança fonética regular, mas sistemática). A forma mais
adequada de indicá-la seria latim relātĭō relação. Ou seja, o símbolo usado para
decalque também se aplicará para tradução parcial:
francês †estrangier estrangeiro;
inglês goalkeeper goleiro;
espanhol cañón canhão.
Outro caso particular de decalque é o chamado empréstimo semântico (também
conhecido como extensão semântica ou loanshift), como no já mencionado inglês
star (“corpo celeste” >> “atriz famosa”) estrela (ambas as acepções) ou em inglês
mouse (“animal” >> “periférico de informática”) português europeu rato (ambas as

latim nuclĕus (“caroço” >> “núcleo de uma célula ou de um átomo”) alemão Kern
(ambas as acepções, cf. Kernphysik
Também se incluem como subtipos de decalques os chamados empréstimos
de restituição (BIZZOCCHI, 1998, p. 124), nos quais parte de um vulgarismo ou
semicultismo estrangeiro é traduzido por elementos cultos gregos ou latinos. Por
exemplo:
ing. feed back retroalimentar.
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el, do francês
que se torna -al em português em casos como francês opérationnel operacional.
Pode-se dizer que houve uma restituição parcial quando algumas partes semicultas
ou vulgares são traduzidas por correspondentes cultas e outras não, como em:
inglês starship francês astronef astronave.
O inverso também pode acontecer. Quando um decalque ocorre por meio da
substituição de elementos gregos ou latinos por equivalentes vernáculos (tradução
de cultismo). Nesse caso, ocorre a substituição de parte da palavra culta por outra

ocorrer de forma total ou parcial. Exemplos:
latim superpōnĕre sobrepor;
latim interrumpĕre interromper;
latim perfectus perfeito;
latim commōtĭō comoção.
O mesmo pode ocorrer para étimos semicultos ou vulgares:
francês désordre desordem.
A pesquisa etimológica dos empréstimos e decalques deve ser meticulosa, pois
nada garante que haja conexão etimológica em palavras que podem ter surgido de
maneira independente e motivadas pelo próprio conceito e não uma pela outra. Por
  saca-rolhas seja uma tradução
do francês tire-bouchons, nem que acendedor de cigarros seja tradução do inglês
cigarette lighter
como laranjeira é motivado por laranja, o que leva praticamente todas as línguas


afastar essa hipótese: quando um artefato de origem estrangeira é introduzido numa
sociedade, é natural que, junto com a coisa, venha o nome. Portanto, quem cunhou
saca-rolhas ou acendedor de cigarros em português certamente não desconhecia as
denominações originais desses objetos. Estes são, pois, casos em que a explicação
exata da etimologia do vocábulo depende de dados empíricos raramente disponíveis,
         
      
certeza da proposição etimológica.
594 Alfa, São Paulo, 60 (3): 579-601, 2016
Derivação
O símbolo x y designa amplamente uma palavra y formada em sincronia dentro
de um sistema por diversos processos, como prexação, suxação, parassíntese,
derivação regressiva ou derivação imprópria (também conhecida como conversão),
seja a partir de radical vulgar, seja herdado ou estrangeiro. Exemplos:
cabeçacabecear;
mesamesário;
saudososaudosismo;
transaçãotransar.

dicionários etimológicos como derivadas, quando são, na verdade, traduções. Exemplo:
desaardéer (e não “desaardéer”).
          
neologismo exional (ALVES, 2007). Quando o português cria soldada a partir de
soldado, professora de professor e presidenta de presidente, trata-se de um tipo de
derivação semelhante à que ocorre em espanhol e italiano quando derivam banano
(“bananeira”) de banana por analogia com pero/pera (< lat. pirum/pira, de pirus/
pirum

como cantamos não deriva de cantar

Casos como esses são simplesmente indicados da seguinte forma:
cantamos ~ cantar,


cultos. Nesse caso, não se trata de empréstimos, pois o étimo não pertence a sincronia
alguma e a sistema algum. Por exemplo, o português iniciativa é um empréstimo do
francês initiative, que foi criado a partir de um inexistente latim «initiativa, derivado
de initiare, ou seja, utilizaram-se elementos do latim mas a palavra latina propriamente
dita não existe. A indicação dessa proposta etimológica seria, porém, como se a
palavra latina estivesse na mesma sincronia do francês, pois foi a fonte de inspiração
do neologismo culto:
latim initiareinitiativeiniciativa.
595
Alfa, São Paulo, 60 (3): 579-601, 2016
Outros exemplos:
latim fractusfractalfractal;
Gengenegenomegenoma.
Chama-se truncação (ALVES, 2007, p. 68) a eliminação de uma parte, geralmente

composição ou a sequência formada por elemento e parte de outro.5 Representa-se a
parte truncada entre barras verticais. Exemplos em português:
preju|ízopreju;
micro|computadormicro;
vice|-presidentevice;
ex|-maridoex;
francês métro|politainmétrometrô;
francês photo|graphiephotofoto;
francês cinéma|tographecinémacinema.

vulgar (port. agricultável, deseducar
qualquer natureza (fr. désordre). Nesta categoria entram também os casos da chamada
falsa derivação (ou pseudoderivação). Ocorre que, muitas vezes, ao importar um


   
uma pseudossuxação, e o elemento acrescentado é, na verdade, um pseudossuxo,
uma vez que inexiste a palavra primitiva de onde a suposta derivação originaria.
Por exemplo:
latim commoduscommodious (não há inglês «commod);
francês photographe photographer (pois inglês photograph é derivação
regressiva);
latim philosŏphusphilosopher (não há inglês «philosoph);
latim litterārĭusliterarisch;
latim physĭcusphysikalisch;
latim mūsĭcusmusicien.
5 Esses elementos são conhecidos como prexoides, suxoides ou, mais genericamente, quase-morfemas e
fractomorfemas, dentre outros nomes. Composições feitas com esses elementos são chamadas de palavras-valise e o
processo, por vezes, é conhecido como recomposição (LINO, 1990, p. 30-31; ALVES, 2007, p. 69).
596 Alfa, São Paulo, 60 (3): 579-601, 2016
Composição
Uma palavra composta é formada pela composição entre dois ou mais radicais
(vernáculos ou estrangeiros) em uma dada sincronia. Só entram nesta categoria as
palavras que tiverem efetivamente sido criadas por esse processo na própria língua
que se está analisando. Assim, puxa-saco, pernilongo e cabisbaixo são compostos
vulgares legitimamente portugueses. Já cachorro-quente, citado no item anterior, não
é resultado de composição em português, mas, como vimos, tradução do ing. hot-dog.
A notação da composição é x + yz.6
Grande parte dos cultismos existentes atualmente não existia em grego ou latim,
tendo sido criada nas próprias línguas europeias modernas, especialmente no francês e

culturalmente em determinadas sincronias. Como boa parcela desses novos cultismos

     
basicamente de duas maneiras: por composição entre radicais cultos ou por derivação

Por exemplo:
hélicoptère helicóptero;
francês social + francês démocratesocial-démocratesocial-democrata.
A composição também pode ocorrer entre elementos que sofreram truncação.
Exemplos:
show + |co|mícioshowmício;
brasi|leiro| + |para|guaiobrasiguaio;
portu|guês| + |espa|nholportunhol;
francês inform|ation| + francês |auto|matiqueinformatiqueinformática;
inglês repro|duction| + inglês |photo|graphy > inglês reprographyreprograa;
inglês auto|mobile| + inglês partautopart autopeça;
inglês mini|ature| + inglês skirtminiskirt minissaia.
Analogia
O fenômeno da analogia7 é uma transformação que ocorre em sincronia e dentro
de um mesmo sistema. Na analogia, uma palavra ou um grupo de palavras (um molde)
6 A denominação composição híbrida é por vezes dada àquela forma construída com um radical culto e um semiculto,
com um radical culto e um vulgar, com um radical semiculto e um vulgar ou, ainda, com dois radicais semicultos (por
exemplo, port. auriverde, rubro-negro, bafômetro).
7 O produto de muitas analogias é às vezes conhecido como etimologia popular.
597
Alfa, São Paulo, 60 (3): 579-601, 2016
atua sobre outras formando um terceiro elemento. A analogia, propriamente dita,
não está na mesma dimensão do fenômeno diacrônico, mas deveria ser representada
perpendicularmente a ele. Como essa notação é complexa, coloca-se a seta especial que
representa o fenômeno analógico (ð) na direção oposta à da transmissão (por herança
ou por empréstimo). Assim sendo, se x y de tal modo que z 
z ð y < x ou como x > y ï z (outros símbolos
podem ocorrer no lugar de > dependendo do caso), onde dizemos que x é o étimo, y é
o produto analógico e z é o molde analógico.
Exemplo:
latim *foresta > oresta ï or (e não «foresta);
latim consecrareconsacrer ï francês sacrer (e não francês «consécrer).
Em alguns casos, um cultismo pode ser emprestado e dispor dos mesmos elementos
cultos, porém combinados de modo incompatível com o sistema fonológico do grego
ou do latim. Por exemplo, o espanhol fez corresponder aos vocábulos latinos dīminuĕre,
immortālis e commōtĭō as formas disminuir, inmortal e conmoción, ou seja, reabilitou
formas arcaicas do latim, anteriores à assimilação (embora *disminuĕre, *inmortālis
e *conmōtĭō não sejam atestadas, mas dedutíveis). No entanto, o surgimento dessas
formas no espanhol não deve ter-se dado por um desejo de reconstruir a forma primitiva
dessas palavras, mas por efeito da analogia com outras palavras (por exemplo, disponer,
intenso e contracción). Outras vezes, uma palavra culta sofre mudanças fonéticas, típicas
de palavras vulgares, embora haja problemas com respeito às sincronias envolvidas.
Esse fenômeno, por vezes, é conhecido como metamorsmo (BIZZOCCHI, 1998, p.
104). Às vezes, essas mudanças são obrigatórias. A investigação das sincronias em que
tais mudanças ocorreram é um trabalho urgente para o NEHiLP, pois caracterizar tais
formas como resultados de analogia só pode ser feito por meio da determinação do
vocabulário das sincronias pretéritas em que ocorreram. Exemplos:
latim sectaseita ï --
latim doctordoutor ï --
latim conceptusconceito ï -
latim statŭaestátua ï 
Nesse caso também podemos incluir os semivulgarismos, que não podem ser
considerados empréstimos, mas, ao mesmo tempo, não têm exatamente o mesmo
estatuto das palavras herdadas, uma vez que seu uso era inicialmente restrito a ambientes
de fala monitorada, como a igreja e a universidade, por exemplo, o que resguardou tais
palavras de sofrer todos os metaplasmos regulares a que estavam sujeitas as palavras
vernáculas, resultando daí formas híbridas, como lat. canonĭcus, clerĭcus, capitŭlum
e articŭlus, de que resultaram no português as palavras cônego, clérigo, cabido e
artigo. A categoria dos semivulgarismos é a única que não está sujeita a ganhar novas
598 Alfa, São Paulo, 60 (3): 579-601, 2016
unidades, visto que o fenômeno que as produziu ocorreu uma só vez, na passagem de
uma língua histórica para outra.
A atuação analógica pode gerar vulgarismos, semicultismos e, teoricamente, até
cultismos. Exemplos:
latim dromedārĭus > francês dromedierTrampeltier ï alemão trampeln +
alemão Tier;
latim corporaliscaporale ï italiano capo;
latim impedĭō > impeço ï peço < latim *petĭō latim petō;
latim impressa > imprensa ï prensa < latim prehēnsa).
Substituição
O fenômeno da substituição envolve, normalmente, duas transmissões distintas
que se cruzam e é representado por x y.
Tal símbolo é particularmente útil para entender o rearranjo diacrônico pelo qual
passam os sistemas. Assim, um subconjunto dos advérbios interrogativos envolve os

respectivamente por ubi, unde, qua e quo. Podemos dizer que latim unde > onde, mas
latim qua por onde.8
Esse é o caso, por exemplo, do fenômeno (comum em diversas sincronias) da
restauração (também chamada de refecção) de uma forma popular (que cai em desuso)
por outra culta, de mesma origem (MAURER JR., 1951, p. 62), ou seja, algo como
z > x x’z. Essa substituição pode ser parcial ou total. Por exemplo:
latim silentĭum > †seenço silênciosilentĭum;
latim ōrem > †chor orōs, -ris;9
latim monastērĭum > mosteiro monastériomonastērĭum.
Por vezes a restauração é parcial:
latim inimīcum > †ẽemigo inimigo latim inimīcus (e não «inimico);
latim fēlīcem > †iz feliz latim fēlix, -īcis (e não «felice).

8 Este caso, particularmente, é bastante complexo, pois podemos dizer que numa determinada sincronia: onde (< latim
unde) ~ u (< latim ubi) e depois, com o desuso de u, a palavra unde > onde (“de onde” >> “onde”), ao passo que, mais
modernamente, a + onde > aonde (“aonde” >> “onde”) como, bem mais antigamente, espanhol donde (“de onde” >>
“onde”) < de + onde.
9 or > †frol.
599
Alfa, São Paulo, 60 (3): 579-601, 2016
latim nīdum > francês ni francês nidnīdus;
latim salūtem > francês salu francês salutsalūs, -ūtis.

sub > so sob ï latim sub ou latim
nāscĕre > nacer nascernāscĕre, que no português europeu se pronuncia

Por vezes, a palavra vulgar supostamente refeita não foi documentada e deve ser
reconstruída, por exemplo:
latim sŏlum > *soo solosŏlum;
latim altum > *outo altoaltus;
latim clārum > *charo craro ~ claroclārus.
Algumas restaurações ocorrem por meio de semicultismos. Esse fenômeno é
bastante comum em algumas sincronias, como, por exemplo, após a Renascença.

latim elĕphas, -antisalifante elefanteelĕphas, -antis;
latim astronomĭaastrolomia astronomiaastronomĭa;
latim informāreenformar informarinformare.
Também se incluem aqui os casos denominados como transcriação, nos quais um
cultismo é criado para substituir uma parte de um termo culto já existente. Por exemplo:
latim signātārĭussegnatario italiano rmatariorma;
latim jūdaismusgiudaismo italiano ebraismoebreo.
Conclusão
O presente artigo procurou demonstrar sucintamente como o NEHiLP pretende, a
partir de tecnologia computacional inovadora e uma grande equipe de pesquisadores
do Brasil e exterior, elaborar um dicionário etimológico da língua portuguesa que

gênero disponíveis no mundo para outros idiomas. Por sua plataforma computacional, o
DELPo será não só obra de consulta por especialistas e público em geral como também
permitirá pesquisas por tema (palavras de determinada época, palavras de determinada

estatísticas, relatórios e muitos outros recursos que poderão vir a posicionar o Brasil e
a língua portuguesa como futuras referências no campo da ciência etimológica.
600 Alfa, São Paulo, 60 (3): 579-601, 2016
Como vimos, um dos aspectos inovadores do projeto DELPo é a adoção de novos

introdução de uma nova notação simbólica que dê conta dos mesmos. Espera-se que tais
conceitos e símbolos se tornem, progressivamente, correntes na literatura etimológica



novos conceitos e símbolos precisarão ser introduzidos, ou mesmo se os atuais precisarão

VIARO, M.; BIZZOCCHI, A. Proposal of new concepts and a new notation in formulating
etymological propositions and discussions. Alfa, São Paulo, v.60, n.3, p.579-601, 2016.
ABSTRACT: This paper aims to present the work methodology and the main theoretical
postulates that guide the preparation of DELPo (Etymological Dictionary of the Portuguese
Language), under the responsibility of NEHiLP (Center for Support to the Research in
Etymology and History of the Portuguese Language), as it comes to an innovative project
both in its theoretical and empirical-operational aspects. It is intended here to present the
conceptual, notational and terminological innovations proposed by the authors, that support
the preparation of DELPo. For this, we rely on theoretical references on neology (ALVES,
2007; BARBOSA, 1993), lexicogenesis (BIZZOCCHI, 1998), and etymology (VIARO, 2011)
and propose an update on the symbols used in the formulation of etymological propositions,
which can at the same time clear up ambiguities and inconsistencies of traditional notation and
answer for the conceptual innovations introduced here. It is intended that both the described
etymological approach and the symbols corresponding to them become standard in the research
in etymology and etymological lexicography.
KEYWORDS: Etymology. Lexicography. Etymological dictionaries. Etymological propositions.
Etymological discussion. Etymological symbolism. Linguistic notation.
REFERÊNCIAS
ALVES, I. M. Neologismo: criação lexical. 3.ed. São Paulo: Ática, 2007.
BARBOSA, M. A. Léxico, produção e criatividade: processos do neologismo. 3.ed.
São Paulo: Plêiade, 1996.

  Anais Recife:
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 1993. p. 477.
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M. E. (Org.). Morfologia histórica. São Paulo: Cortez, 2013. p. 58-105.
Article
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A mudança nas normas de polidez afeta e reconfigura o sistema de tratamentos de uma dada língua. Localizar fontes primárias escassas, como os manuscritos quinhentistas e seiscentistas, permite que se estude, para além das formas de tratamento, a formação de um novo acordo de polidez, assentado em uma nova sociedade que começa a se formar em meados do século XVI na América Portuguesa. São índices desse novo sistema as formas vossa mercê e você. Os arranjos feitos no início do processo de colonização afetaram as formas e funções de cortesia do que viria a se tornar o português brasileiro (PB), daí a ênfase que damos aos séculos XVI e XVII. Investigamos neste texto (a) fontes documentais manuscritas quinhentistas e seiscentistas que trazem ocorrências abundantes de vossa mercê e que nunca foram analisadas em pesquisas sobre formas de tratamento; (b) o uso das formas vossa mercê e você a partir de uma obra literária e de fontes metalinguísticas; e tecemos observações à luz da investigação proposta. Uma das contribuições deste artigo é a atestação do terminus a quo da palavra você, que data de 1638. Outras decorrências da análise levada a cabo são a defesa de uma necessária interdisciplinaridade dos estudos de Filologia, Paleografia e Linguística Histórica, além da constituição de um diálogo efetivo entre os projetos coletivos estaduais que pesquisam a história do PB, considerando-se sua sócio-história comum.
Chapter
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O capítulo propõe estudar os termos da área da História Natural que eram neológicos no final do século XVIII e foram registrados no Diccionario de Termos Technicos de Historia Natural, escrito por Domingos Vandelli e publicado em 1788. Foram considerados neológicos os termos para os quais a datação indicada no dicionário Houaiss (tomado como referência) é posterior a 1788. A partir dos neologismos descritos, observa-se que o referido dicionário foi uma obra de grande importância para a consolidação da terminologia em língua portuguesa.
Article
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This paper aims to present the work methodology and the main theoretical postulates that guide the preparation of DELPo (Etymological Dictionary of the Portuguese Language), under the responsibility of NEHiLP-USP (Center for Support of Research in Etymology and History of the Portuguese Language of the University of São Paulo), as it pertains to an innovative project both in its theoretical and empirical-operational aspects. It is intended here to present the conceptual, notational and terminological innovations, proposed by the authors, that support the preparation of DELPo. For this, we rely on theoretical references etymology (VIARO, 2011) and propose an update on the symbology used in the formulation of etymological propositions, which can at the same time clear up ambiguities and inconsistencies of traditional notation and answer for the conceptual innovations introduced here. It is intended that both the described etymological processes and the symbols corresponding to them become standard in the research in etymology and etymological lexicography. ■
Article
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Este artigo discute a dinâmica de formação das unidades que compõem o léxico, notadamente das línguas europeias ocidentais (românicas e germânicas), a partir da identificação dos diversos processos lexicogênicos existentes. Para tanto, reconhecem-se dois tipos básicos de processos: os autogenéticos (herança ou criação interna) e os alogenéticos (empréstimos), cujos subtipos são aqui descritos. Com base na etimologia dos elementos temáticos (radicais e afixos), os itens lexicais de línguas europeias costumam também ser divididos em cultos, semicultos e vulgares. Essa classificação decorre do reconhecimento da profunda influência cultural e, consequentemente, linguística que os idiomas literários da Antiguidade Ocidental (grego e latim clássicos) exerceram sobre as modernas línguas de cultura da Europa, dentre as quais o português. Esta pesquisa procura identificar, por meio de análise empírica sobre um corpus formado de textos de vários gêneros, os processos lexicogênicos presentes nas principais línguas românicas e germânicas, tanto aqueles já descritos anteriormente na literatura especializada quanto alguns novos, que os estudos anteriores ignoravam ou classificavam erroneamente em outras categorias.
Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa. Manual do NEHiLP
  • Universidade De
  • São Paulo
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa. Manual do NEHiLP. São Paulo, 2015. Versão 2.1.
Derivação ou terminação: limites para a semântica, lexicologia e morfologia históricas
  • M E Viaro
  • M J Ferreira
  • Z O Guimarães-Filho
VIARO, M. E.; FERREIRA, M. J.; GUIMARÃES-FILHO, Z. O. Derivação ou terminação: limites para a semântica, lexicologia e morfologia históricas. In: VIARO, M. E. (Org.). Morfologia histórica. São Paulo: Cortez, 2013. p. 58-105.
As palavras também escondem a idade
  • E Bechara
  • S Elia
BECHARA, E. As palavras também escondem a idade. In: ELIA, S. et al. (Org.). Na ponta da língua 1. Rio de Janeiro: Liceu Literário Português;
Observatório do português contemporâneo
  • M T R Lino
  • Da F
LINO, M. T. R. da F. Observatório do português contemporâneo. In: COLÓQUIO DE LEXICOLOGIA E LEXICOGRAFIA, 1., 1990. Actas. Lisbon: Universidade Nova de Lisboa, 1990. p. 28-33.
A ideologia das raízes. Língua Portuguesa
  • A Bizzocchi
BIZZOCCHI, A. A ideologia das raízes. Língua Portuguesa, São Paulo, v.40, p. 60-63, Feb. 2009.
Neologismo: criação lexical. 3
  • Referências Alves
REFERÊNCIAS ALVES, I. M. Neologismo: criação lexical. 3.ed. São Paulo: Ática, 2007.
Acrograma e sigla: estatuto semântico-sintáxico e tratamento na obra lexicográfica
  • M A Barbosa
BARBOSA, M. A. Acrograma e sigla: estatuto semântico-sintáxico e tratamento na obra lexicográfica. In: REUNIÃO ANUAL DA SBPC, 45., 1993. Anais… Recife: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 1993. p. 477.