ArticlePDF Available

O jornalismo participativo: reflexões acerca das práticas comunicacionais e de representação jornalística a partir do i-Report da CNN 1 The participatory journalism: reflections on the practices and journalism communication representation from i-Report of CNN

Authors:

Abstract and Figures

Abstract The technology affect modern society, and promote significant changes in the communication field. The study of journalism, limited to the analysis of participatory journalism in internet, is emphasized in the present work. One herewith tries to present reflections that regard communication and representation practices in participatory journalism, having as starting point CNN’s i-Report platform. In order to clarify matters that regard communication practices, references such as Martinez (2007), Castells (1999), Lemos (2004), Primo (2003) are used. To compose concepts about representation, teachings of Chartier (1990), Boudieu (2002) and Hall (1997) were consulted. This is an exploratory research, with a qualitative approach, that was done through documentary review. The informations analysis directs to partial results that show the broadening of communication, and representation practices of traditional journalism in the direction of participative webjournalism in which the common citizen gets an active agent identity in news construction. Key-words: Internet. Journalism. Participarory webjournalism. Representation. Communication practices
Content may be subject to copyright.
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
111
O jornalismo participativo: reflexões acerca das práticas comunicacionais
e de representação jornalística a partir do i-Report da CNN1
The participatory journalism: reflections on the practices and journalism
communication representation from i-Report of CNN
Eliane Davila dos SANTOS2
Resumo
A tecnologia afeta a sociedade moderna e promovem mudanças significativas no campo da
comunicação. Dá-se ênfase ao estudo do jornalismo delimitado à análise do jornalismo
participativo na internet. Busca-se apresentar reflexões acerca das práticas
comunicacionais e de representação do jornalismo participativo a partir da plataforma i-
Report da CNN. Para elucidar as questões sobre as práticas comunicacionais, conta-se com
Martinez (2007), Castells (1999), Lemos (2004), Primo (2003). Para compor os conceitos
sobre representação, utiliza-se os ensinamentos de Chartier (1990) Bourdieu (2002) e Hall
(1997). Trata-se de uma pesquisa exploratória, com abordagem qualitativa, mediante
estudo documental. A análise das informações direciona a resultados parciais que mostram
o alargamento das práticas comunicacionais e de representação do jornalismo tradicional
para o webjornalismo participativo, em que o cidadão comum passa a ter uma identidade
de agente ativo na construção da notícia.
Palavras-chave: Internet. Jornalismo. Webjornalismo participativo. Representação.
Práticas comunicacionais.
Abstract
The technology affect modern society, and promote significant changes in the
communication field. The study of journalism, limited to the analysis of participatory
journalism in internet, is emphasized in the present work. One herewith tries to present
reflections that regard communication and representation practices in participatory
journalism, having as starting point CNN’s i-Report platform. In order to clarify matters
that regard communication practices, references such as Martinez (2007), Castells (1999),
Lemos (2004), Primo (2003) are used. To compose concepts about representation,
teachings of Chartier (1990), Boudieu (2002) and Hall (1997) were consulted. This is an
exploratory research, with a qualitative approach, that was done through documentary
review. The informations analysis directs to partial results that show the broadening of
1 Disponível no site: http://ireport.cnn.com/. A plataforma é jornalística participativa o cidadão é convidado a
enviar fotos, vídeos e reportagens de sua autoria, com o intuito de poder compartilhar o material com os
demais usuários.
2 Mestranda em Processos e Manifestações Culturais da Universidade Feevale.
E-mail:elianedavila@yahoo.com.
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
112
communication, and representation practices of traditional journalism in the direction of
participative webjournalism in which the common citizen gets an active agent identity in
news construction.
Key-words: Internet. Journalism. Participarory webjournalism. Representation.
Communication practices.
Introdução
As mudanças na sociedade, produzidas pelas tecnologias digitais, colocam o campo
jornalístico sob a influência desse meio e alteram as práticas e os agentes da comunicação
jornalística na internet. O tema deste trabalho emerge da relevância de se pensar sobre
questões do jornalismo nesse ambiente contemporâneo, delimitado à análise do jornalismo
participativo na internet.
A importância de refletir sobre esse novo cenário, que apresenta rupturas de
paradigmas no jornalismo devido a ter se tornado participativo na internet é justificado
pela necessidade de um aprofundamento de pesquisas e reflexões sobre as práticas de
comunicação e representação que evidenciam o cidadão como produtor de notícias na
internet. A plataforma midiática apresenta características de um modelo de produção
jornalística na internet, o que pode contribuir para evidenciar as práticas comunicacionais e
de representação no campo jornalístico contemporâneo.
Como questão norteadora deste estudo, vê-se que as práticas comunicacionais
vivenciadas no jornalismo participativo geram mudanças na representação dos papéis dos
agentes da comunicação. Assim, este trabalho contribui para o entendimento dos princípios
que norteiam as novas práticas comunicacionais e de representação do jornalismo
participativo na internet, em que as pessoas comuns tornam-se fontes de produção de
conteúdo para as mídias jornalísticas. Busca-se aqui apresentar reflexões acerca das
práticas comunicacionais e de representação do jornalismo participativo a partir da
plataforma i-Report da CNN.
Para elucidar as questões sobre as práticas comunicacionais conta-se com Martinez
(2007), Castells (1999), Chaparro (2009), Fonseca e Lindemann (2007), Lemos (2004),
Primo (2003). Para compor os conceitos sobre representação, utiliza-se os ensinamentos de
Chartier (1990), Bourdieu (2002) e Hall (1997).
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
113
As análises feitas, nesta pesquisa, encaminham o diálogo para resultados parciais de
um alargamento das práticas comunicacionais e de representação do jornalismo tradicional
para o webjornalismo participativo, onde o cidadão comum passa a ter uma identidade de
agente ativo na construção da notícia. A metodologia do estudo segue as recomendações de
Prodanov e Freitas (2013), sendo utilizada a pesquisa exploratória com abordagem
qualitativa, de base documental quanto aos procedimentos.
Para melhor organização da pesquisa, as seções estão assim dispostas:
primeiramente, se trata das questões relativas às práticas comunicacionais jornalísticas no
jornalismo participativo. Em segundo lugar, questões sobre webjornalismo e as
representações ganham relevo. Segue-se com a apresentação das questões metodológicas e,
a seguir, com a seção que contextualiza a plataforma i-Report e em que a análise e
resultados. Por último, há uma seção para as considerações finais.
1 As práticas comunicacionais no jornalismo participativo
A reflexão sobre as questões envolvendo o jornalismo são sempre relevantes para
os estudos acadêmicos. As pesquisas voltadas às questões do jornalismo e do jornalismo
participativo na internet são questões instigantes. Tudo é jornalismo? Quando o cidadão
comum posta uma notícia na área reservada do site é delimitada como webjornalismo é
jornalismo? Tudo é jornalismo?
Vive-se em um período caracterizado por intensas mudanças na sociedade,
principalmente devido à aceleração tecnológica. uma nova forma de pensar o
jornalismo na Web e, conforme Martinez (2007) ocorre uma mudança nas questões
relacionadas tanto a quem produz a notícia, quanto ao tempo em que elas são produzidas.
O espaço é de fluxos e de tempos intemporais, como confirma Castells (1999).
Sempre houve o desejo de comunicação entre os seres humanos. Chaparro (2009)
comenta que a ideia de difundir os acontecimentos pelo planeta, independentemente do
horário em que ocorrem, sujeita o campo jornalístico a algumas modificações. É, muitas
vezes, pela internet que ocorre a propagação das informações e do conhecimento. A nova
forma como esses são divulgados levam à reflexão sobre a atual lógica na estrutura das
relações humanas, ou seja, uma nova relação de poder, uma nova lógica de negócios e
há novos mecanismos culturais, conforme Chaparro (2009).
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
114
Desde a Revolução Industrial, a escrita começou a ser transmitida de forma
organizada e pode-se afirmar que foram as novas tecnologias que operaram uma grande
modificação em relação a seu compartilhamento em termos de agilidade e de eficiência.
“Vencida uma das principais limitações humanas, tempo/espaço, ninguém tem dúvida ao
atribuir a vitória aos recursos tecnológicos que veiculam a informação”. (Medina, 1978, p.
20). Fonseca e Lindemann (2007) consideram que a internet rompeu um processo
comunicacional vertical, permitindo uma forma comunicacional horizontal. Há novas
práticas de interação entre os indivíduos e, desses, com o jornalismo, na internet, que
permeiam a vida social, política e cultural, o que contribui para pensar-se sobre uma
transformação do ser humano, da cultura e das sociedades.
Nesse contexto, tem-se, entre outros, o jornalismo participativo ou webjornalismo,
na internet, que se caracteriza pela produção de notícias por qualquer usuário. Neste
trabalho, jornalismo participativo e webjornalismo são entendidos como sinônimos.
Pode-se dizer, tomando como referência Primo (2003), que o webjornalismo
participativo é um hipertexto compartilhado e de interação mútua. As notícias são geradas
não apenas pelas mídias de massa, mas por todos os usuários que podem ser produtores de
notícia. Essa dimensão ainda é pouco explorada, uma vez que pode gerar questionamentos,
quando associadas ao jornalismo clássico, o que nos faz pensar que nem todas as
experiências de jornalismo participativo são totalmente abertas, ou seja, impedem a efetiva
interação mútua.
Lemos (2004) converge com a ideia de que a evolução tecnológica alterou os
processos de produção jornalística e possibilitou o aparecimento de novas maneiras de
entender o jornalismo, ou seja, o sistema de produção e de transmissão da informação é
outro, diferente do tradicional.
Chaparro (2009) crê que as notícias, isto é, todo o conteúdo que é disponibilizado
pelo âmbito jornalístico pertence a quem produz a notícia e, hoje, os sujeitos, antigamente
passivos, foram transformados em agentes produtores de conteúdos. Ou seja, gerar notícias
deixou de ser um papel exercido exclusivamente por jornalistas para passar às mãos de
quaisquer indivíduos. Este fato ocorreu também em função da agilidade e das facilidades
com que a informação se dissemina, mudando, também, as rotinas de produção, igualmente
alteradas em função da tecnologia.
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
115
O que segue na próxima etapa de discussão é o direcionamento do olhar às
perspectivas do Webjornalismo e suas representações.
2 Representações do webjornalismo participativo
A rapidez com que se tem acesso às novas tecnologias digitais tem auxiliado na
construção de novas relações entre os cidadãos comuns e o jornalismo praticado na
internet. Pode-se afirmar que qualquer um pode intervir no meio jornalístico, dividindo o
espaço midiático com os profissionais do ramo que, historicamente, eram os únicos
responsáveis pela construção da notícia.
Nesse contexto, existe outro componente sobre o qual é importante pensar: a
representação. As representações são as formas como a sociedade o mundo. A
representação é, de certa maneira, a forma como se interpreta o mundo. A maneira como se
uma imagem, um texto e os acontecimentos sociais. O ser humano vai tecendo sua
construção a partir de suas vivências e experiências de vida.
Abbagnano (2007), em seu dicionário de filosofia, determina que a representação é
uma imagem ou ideia ou ambas as coisas. O termo, segundo o autor, foi utilizado pelos
escolásticos para falar sobre o conhecimento como semelhança do objeto. Já Chartier
(2002), ao discursar sobre a palavra representação, contribui com conceitos contraditórios,
dando uma ideia de ausência e, por outro lado, uma ideia de presença.
Dessa forma, dialogar sobre a questão da representação não é tarefa fácil. Embora
sejam um dos conceitos mais complexos da atualidade, todos os indivíduos, por meio de
processos mentais, estão constantemente fazendo representações em suas atividades do
cotidiano e no ambiente da internet.
Segundo Chartier (1991), as representações estão conectadas à ordem social do
indivíduo e são construídas ao longo do tempo. Pode-se dizer que a representação é uma
estratégia de classe, em que cada grupo elabora a realidade à sua maneira. Chartier (1990)
constata que a representação é o resultado de uma prática. Para o autor, a representação
não se separa da prática. A prática é um ato que o indivíduo tem no mundo e que faz com
que o mesmo tenha um lugar social. O mundo da representação cria as práticas sociais e,
portanto, não pode existir sem a prática.
Segundo Pesavento (2003), as representações criam significado e sentido. As
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
116
pessoas, de uma forma geral, constroem suas identidades e agem no mundo a partir das
representações que possuem. A representação pode estar no espaço da realidade, porém não
é a imagem perfeita desse real. Pesavento (2003) segue dizendo que as representações são
discursos que se estabelecem em virtude das relações de poder. Dessa forma, o pensamento
dominante ganha força de verdade e de realidade a ser seguida.
Usando conceitos apresentados por Bourdieu (2002) e Chartier (2002), é possível
dizer que as representações são elaborações da sociedade, são visões do mundo a partir de
contextos de grupo. Bourdieu (2002) ressalta que há sempre uma luta por representações e
os diferentes grupos, por meio da própria representação, podem até dominar uns aos
outros.
Bourdieu (2002) e Chartier (2002) convergem quando apontam que as
representações estão localizadas no tempo e são elaboradas pelos indivíduos e seus grupos.
Esses grupos, de alguma forma, podem forjar uma realidade social que pode ser construída
para estabelecer obediência ou para dominar a sociedade. Eis o jogo do discurso sendo
apresentado em meio à sociedade.
Hall (1997) comenta que o estudo da representação parte de uma visão da cultura
na criação de um intercâmbio de significados de um grupo comum em um determinado
período. A ideia de partilhar a cultura permite encontrar na linguagem um meio para dar
sentido, ou seja, dar significação às coisas. Sendo o compartilhamento de significados
possível, por meio da linguagem (verbal ou não verbal), pode-se afirmar que a linguagem
produz significado e é fator relevante para a compreensão das questões sobre
representação. A representação, conforme Hall (1997), envolve a língua, as imagens,
sinais, sons como que formam o mundo para uma determinada cultura. É a aproximação do
sujeito com a linguagem que permite entender melhor a questão da representação.
A representação corresponde, portanto, às associações de sentido com determinado
signo, o que é viabilizado, principalmente, por meio da linguagem (Hall, 1997). Sendo a
representação um discurso, a identidade eclode mediante as ideias que são representadas
pelos próprios discursos de uma cultura, pela forma como cada um é interpelado por
discursos e como se admite a posição de sujeito frente à cultura. A identidade deve ser
pensada a partir da representação, uma vez que ela vem unificada ao posicionamento do
sujeito no interior das representações.
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
117
“Enquanto estrutura de significados partilhados, a cultura oferece a matéria prima
para a identidade quando mobiliza os significados para a estruturação dos indivíduos e dos
grupos dentro da cultura”. (Felippi e Peccinin, 2014, p. 51). Dessa forma, pode-se dizer
que tanto a cultura, como a identidade, são de caráter simbólico e também concreto, uma
vez que a mobilização de significado se dá em meio às práticas sociais.
Percebe-se que as aproximações entre o webjornalismo e as questões sobre as
representações e simbolismos estão mais evidentes e essa ideia contribui para a construção
do real e a validação das questões culturais e identitárias. È possível dizer que há
mudanças na representação mental do cidadão comum, agora, participativo no processo de
construção da notícia e seu consumidor. Essas questões merecem um olhar mais minucioso
nos estudos de pesquisadores da área. Percebe-se que ao aproximar webjornalismo e
questões sobre representações observa-se que essa nova modalidade de produção de notícia
contribui para a construção do social e para a validação de questões culturais e identitárias.
3 Metodologia
A metodologia do estudo segue as recomendações de Prodanov e Freitas (2013),
sendo utilizada a pesquisa exploratória com abordagem qualitativa, mediante estudo
documental. Procura-se trabalhar com duas categorias de análise em interface: as práticas
comunicacionais e de representação do jornalismo participativo. Selecionam-se, entre
outros teóricos, para elucidar as práticas comunicacionais os estudos de Martinez (2007),
Castells (1999), Chaparro (2009), Fonseca e Lindemann (2007), Lemos (2004), Primo
(2003). Para compor os conceitos sobre representação, utiliza-se os ensinamentos de
Chartier (1990), Bourdieu (2002) e Hall (1997).
Busca-se, neste trabalho, apresentar reflexões acerca das práticas comunicacionais e
de representação do jornalismo participativo a partir da plataforma i-Report da CNN. O
estudo segue as seguintes etapas metodológicas: na seção de análise e resultados,
primeiramente faz-se a contextualização do estudo documental, ou seja, a contextualização
sobre o que é a plataforma Report. O percurso segue com a interpretação das categorias
elegidas em interfase, isto é, buscam-se os resultados a partir dos eixos práticas de
comunicação e representação do jornalismo participativo na internet. Ao final, apresenta-se
um quadro resumo das análises e resultados por meio do estudo da ferramenta i-Report da
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
118
CNN. O desenvolvimento da metodologia prevê uma construção epistemológica conceitual
que direciona a interfase das categorias levando em consideração de que as
representações/simbolismos, assim como a cultura contribuem para construção da
identidade do cidadão comum que passa a ser agente do meio midiático.
4 Análise e resultados
Para melhor entendimento do i-Report da CNN, primeiramente descreve-se como
funciona a ferramenta na internet. Na próxima seção, inter-relacionam-se os conceitos das
praticas comunicacionais e de representação no webjornalismo participativo. Procura-se
refletir sobre as categorias elegidas, tendo em vista a questão norteadora que incita que as
práticas comunicacionais vivenciadas no jornalismo participativo geram mudanças na
representação dos papéis dos agentes da comunicação. Assim, este trabalho contribui para
o entendimento dos princípios que norteiam as novas práticas comunicacionais e de
representação do jornalismo participativo na internet, em que as pessoas comuns tornam-se
fontes de produção de conteúdo para as mídias jornalísticas.
4.1 Contextualização da plataforma I- Report
O i-Report é um site da emissora CNN dos Estados Unidos que possui o objetivo de
estreitar a relação entre o público e os jornalistas da emissora. O conteúdo gerado pelos
cidadãos é disponibilizado no ambiente virtual e podem ser levados à visualização na
televisão via canal CNN. A Figura 1 é apresenta a tela principal da plataforma.
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
119
Figura 1 - Tela inicial do i-Report
Fonte: Site da CNN (2015)
O i-Report é uma plataforma multimídia que o site da CNN disponibiliza a seus
usuários, possibilitando-lhes o envio de aparatos noticiosos, tais como textos, fotografias
e/ou vídeos. Em 2012, o i-Report ganhou o CNN i-Report Awards3. Esse prêmio tem
por objetivo dar reconhecimento a ferramentas de jornalismo participativo.
Com um cenário de seção colaborativa, o i-Report, desde 2006, apresenta processos
de mediação jornalística e práticas comunicacionais que resultam de uma lógica de
hibridização que conduz a um processo de comunicação de massa e ao compartilhamento
de informações geradas pelas pessoas comuns. As notícias ou compartilhamentos feitos no
i-Report do site da CNN podem ser sobre viagens, alimentação, economia, política,
esportes, etc. No site i-report, as informações visualizadas permitem aos internautas a
votação das matérias mais interessantes. Além disso, os jornalistas da CNN podem
selecionar notícias que são compartilhadas por esses colaboradores e fornecer-lhes um selo
de certificação CNN. Uma vez recebido o selo, esse material pode ser levado, também, ao
canal televisivo da própria emissora.
A nova maneira de lidar com o público, por meio dessa estratégia de comunicação,
aproxima o jornalista à notícia, visto que a CNN acredita que dar voz ao cidadão comum,
que está mais próximo ao acontecimento, permite maior agilidade na construção da notícia.
Além disso, os relatos feitos por internautas contribuem para que a emissora ganhe em
produção de narrativas mais convincentes e reais.
3 Fonte: http://edition.cnn.com/ireport-awards/
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
120
4.2 Práticas de comunicação e da representação do jornalismo participativo na internet
A análise documental permite evidenciar que os padrões e as práticas de
comunicação foram alargados. É possível dizer que, desse modo, com a ferramenta i-
Report, disponibilizada no site da emissora CNN, quem produz os conteúdos não são
apenas os jornalistas da emissora, mas também os cidadãos comuns. O sistema de
produção foi modificado, ou seja, o jornalista cidadão comum está mais próximo do
acontecimento e pode imprimir sua própria representação de realidade. Castells (1999)
complementa que essas modificações são oriundas, principalmente, do fato de a tecnologia
da internet acelerar todo o processo do jornalismo.
O i-Report, conforme Fonseca e Lindemann (2007), pode ser considerado como um
modelo de comunicação que altera o processo vertical da comunicação. O que se percebe é
que, ao dar voz ao sujeito, no ambiente virtual, a comunicação passa a ser horizontal,
resultado gerado a partir da interação do indivíduo ao meio social, político e cultural. Os
jornalistas amadores, capazes de argumentar e participar desses espaços em tempo real,
assumem diversos papéis tais como: geradores de conteúdo, moderadores, leitores e
editores.
O cidadão comum, no jornalismo tradicional, é considerado um sujeito passivo. No
jornalismo participativo, o cidadão comum é considerado como um sujeito ativo. Essa
visão tende a alterar os meios de representação dos acontecimentos e da própria
representação desse sujeito. De acordo com Chartier (1990), é possível dizer que a
representação é resultado de uma prática, ou seja, a prática é um ato que o indivíduo tem
no mundo e que faz com que ele tenha um lugar social. No ambiente i-Report, verifica-se
uma alteração significativa quanto à representação do sujeito comum, pois esse passa a ser
representado como um ser ativo no processo jornalístico, e isso modifica as regras que
norteiam as relações entre os jornalistas, as notícias e os meios de produção do conteúdo.
O i-Report, além de trazer uma nova forma de comunicação jornalística,
proporcionada por avanços tecnológicos, revela uma forma de comunicação, linguagem,
consumo da informação e discurso sobre a sociedade em que se vive. Por consequência,
são geradas novas leituras e representações nas informações compartilhadas. Os discursos
produzidos a partir das plataformas midiáticas a são elaborados por indivíduos e seus
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
121
grupos que, à luz de Bourdieu (2002) e Chartier (2002), podem forjar uma realidade social
e construí-la para que seja obedecida ou para dominar a sociedade.
O fato de o i-Report ser uma plataforma midiática participativa não muda o fato de
que, assim como no jornalismo clássico, mantenha representações construídas e, muitas
vezes, persuasivas. A diferença, muitas vezes, consiste apenas em ser uma narrativa
construída por várias pessoas sobre um acontecimento selecionado, ao invés de uma
narrativa escrita apenas por um jornalista. Pode-se dizer também que o fato de i-Report ser
uma plataforma participativa não altera a percepção de que o jornalismo sofre pressões de
forças sociais.
O cidadão comum, na plataforma i-Report, constrói sua identidade na mídia por ter
legitimada sua função como agente da mesma. Ao reconhecer que o sujeito comum pode
gerar conteúdo e participar ativamente da plataforma virtual, à luz de Hall (1997), é
possível identificar que a identidade é pensada a partir da representação que ele assume no
meio social.
Com base na análise da plataforma i-Report da CNN, das reflexões acerca das
práticas comunicacionais e de representação do jornalismo participativo, chegou-se ao
seguinte quadro resumo:
Quadro 1 Quadro resumo
Quadro Resumo
I-Report- jornalismo participativo
Práticas
comunicacionais
e de
representação
jornalística
-as práticas comunicacionais foram alargadas;
- produtores de conteúdo são os jornalistas e o cidadão comum;
- a tecnologia acelera o processo de comunicação;
- o cidadão comum está mais próximo do acontecimento e imprime sua própria
representação da realidade na narrativa que constrói; o processo de comunicação tende a ser
horizontal;
- a representação do cidadão comum tende a assumir diversos papéis e alterar os meios de
representação dos acontecimentos e do próprio sujeito, ou seja, o cidadão comum legitima-
se ativo no processo jornalístico;
- há modificações das regras que norteiam as relações entre jornalistas, as notícias e os
meios de produção de conteúdo;
-percebe-se a apresentação de uma nova linguagem, consumo da informação e discursos
sobre a sociedade;
-os discursos ainda são elaborados por indivíduos nas plataformas midiáticas, podendo forjar
uma realidade social, com o intuito de ser construído para estabelecer obediência ou para
dominar a sociedade;
-o jornalismo participativo na internet sofre pressões das forças sociais; o cidadão comum
constrói sua identidade na mídia por ter legitimada sua função como agente participante.
Fonte: Elaborado pelo pesquisador (2015)
O quadro1 demonstra que o jornalismo participativo na internet traz um novo
cenário para os meios midiáticos. As representações e simbolismos que advém desse novo
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
122
cenário corroboram para a construção da que a identidade do sujeito comum, que ora se
como agente da mídia ou a própria mídia. Essas associações são possíveis, visto que a
cultura, as representações e os simbolismos interferem diretamente na formação da
identidade desse sujeito.
Considerações finais
Este estudo tematizou questões sobre o campo do jornalismo, delimitado à análise
do jornalismo participativo na internet.
O objetivo do trabalho consistiu em refletir acerca das práticas comunicacionais e
de representação do jornalismo participativo a partir da plataforma i-Report da CNN.
A análise revelou que o jornalismo participativo é um resultado dos avanços
tecnológicos da sociedade moderna que provocam um alargamento das práticas
comunicacionais e de representação jornalística, que modificam as regras que norteiam as
relações entre jornalistas, as notícias e os meios de produção de conteúdo.
O estudo de caso analisado permitiu identificar que o cidadão comum tendeu à
identidade de agente ativo na construção da notícia, legitimado e representado como agente
da própria mídia jornalística. Verificou-se que os discursos ainda são elaborados por
indivíduos, ou seja, tanto no jornalismo tradicional como nas plataformas midiáticas, as
notícias permitem forjar uma realidade social e podem ser construídos para estabelecer
obediência ou para dominar a sociedade. Nesse sentido, a notícia continua sendo uma
representação da realidade social.
As contribuições desse estudo direcionam à compreensão de que as novas
tecnologias digitais permitiram que houvesse uma mudança no jornalismo em si, tornando-
o participativo, interativo, sob influência do social. Entendeu-se que as limitações do
estudo estariam na dificuldade de uma aproximação entre a representação e o jornalismo.
Nos conglomerados da mídia, a diferenciação entre o jornalismo e a participação do leitor
é grande e bem delimitada física e conceitualmente.
Acredita-se ser relevante promover estudos no campo jornalístico, pois suscitam
algumas questões importantes, como a participação do cidadão comum na construção do
conteúdo jornalismo e mediação do jornalista na disseminação das notícias assim
adquiridas.
Em suma, o jornalismo participativo na internet deu relevo a um novo cenário
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
123
jornalístico em que o sujeito comum da sociedade apoderou-se de algo que a tecnologia
digital ofereceu, onde o sujeito assume a representação de agente da mídia, ou seja, torna-
se a própria mídia.
Referências
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Brasil: Martins Fontes, 2007.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2002.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. V.1 São Paulo, SP: Paz e Terra, 1999.
CHAPARRO, Manuel. Jornalismo: linguagem e espaço público dos conflitos da
atualidade. São Paulo, SP: Inéditos, 2009.
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL,
1990.
_______. O mundo como representação. In: Estudos Avançados. 5, n. 11. São Paulo, SP
Jan./Abr., 1991, p. 173-191.
_______. A beira da falésia: a história entre as incertezas e inquietudes. Trad. Chitoni
Ramos. Porto Alegre: Ed URFGS, 2002.
FELIPPI, A; PICCININ, F. Q. Um Rio Grande do Sul narrado: identidade regional no
Jornal Nacional. Revista Fronteiras estudos midiáticos. N 16(1); 2014, p. 49-58.
Disponível em:
http://revistas.unisinos.br/index.php/fronteiras/article/view/fem.2014.161.06/4004. Acesso
em: 06 ago. 2015.
FONSECA, Virginia; LINDEMANN, Cristiane. Webjornalismo participativo: repensando
algumas questões técnicas e teóricas. Revista FAMECOS, n. 34, dez.2007, quadrimestral,
p.86-94. Porto Alegre: PUC-RS. Disponível em:
< http://www.ichca.ufal.br/laboratorio/novasmidias/textos/questoesteoricas.pdf>.
Acesso em : 13 ago. 2015.
HALL, Stuart. The work of representation. In: HALL, Stuart (Org.) Representation.
Cultural representation and cultural signifying practices. London/Thousand Oaks/New
Delhi: Sage/Open University, 1997, p. 2-73.
I-REPORT. Site da plataforma i-Report da CNN. Disponível em: <
http://ireport.cnn.com/>. Acesso em: 06 ago.. 2015.
LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. 2 ed.
Porto Alegre: Sulina, 2004.
Ano XI, n. 10. Outubro/2015. NAMID/UFPB - http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica
124
MARTINEZ, Adriana Garcia. A construção da notícia em tempo real. In: FERRARI,
Pollyana (Org.). Hipertexto Hipermídia: as novas ferramentas da comunicação digital.
Editora Contexto: São Paulo, 2007, p. 13-27.
MEDINA, Cremilda de Araújo. Notícia: um produto à venda: jornalismo na sociedade
urbana e industrial. São Paulo, SP: Alfa-Omega, 1978.
PESAVENTO, Sandra Jathay. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica,
2003.
PRIMO, A. F. T; RECUERO, R. da C. Hipertexto Cooperativo: Uma Análise da Escrita
Coletiva a partir dos Blogs e da Wikipédia. Revista da FAMECOS, n.22, 2003, p. 54-65
PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho
cientfico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadmico. 2. ed. Novo
Hamburgo: Feevale, 2013. Disponível em:
<http://docente.ifrn.edu.br/valcinetemacedo/disciplinas/metodologia-do-trabalho-
cientifico/e-book-mtc>. Acesso em: 04 ago. 2015.
.
ResearchGate has not been able to resolve any citations for this publication.
Article
Full-text available
RESUMO O artigo trata de como o jornalismo, ao interpretar os fatos, os institui atribuindo sentidos à experiência em sociedade. Para tanto, toma o jornalismo televisivo por meio da análise de duas reportagens do Jornal Nacional (JN), da Rede Globo. Ambas são escolhidas como recorte analítico em decorrência dos elementos identitários regionais que apresentam na narrativa e que é recorrente na mídia sobre o Rio Grande do Sul. A partir desse fenômeno, faz-se uma associação entre os estudos culturais e as teorias da narrativa, compreendendo o jornalismo como uma forma cultural, com uma materialidade estética e política. Toma-se o modelo do circuito da cultura (Johnson, 1999) para realizar a análise, para o qual o processo comunicativo é estudado em sua integralidade, possibilitando estabelecer relações entre a produção jornalística, o texto, seu consumo e as implicações no tecido social. Palavras-chave: narrativa, telejornalismo, região, identidade cultural; circuito da cultura. ABSTRACT This article analyzes how journalism interprets facts and in doing so attributes senses to the experience in society. For this purpose, we take TV journalism and analyze two reports aired on Rede Globo's Jornal Nacional (evening news). Both have been selected as an analytical cut because of the regional identity elements they present in the narrative and which is recurrent in the media about Rio Grande do Sul State. Based on this phenomenon we establish an association between cultural studies and narrative theories, understanding journalism as a cultural form with aesthetic and political materiality. We take the model of the culture circuit (Johnson, 1999) to perform the analysis. The communicative process is studied as a whole, which makes it possible to establish a relationship between the journalistic production, the text, its consumption and the implications in the social fabric.
Article
CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Trad. de Maria Manuela Galhardo. Lisboa: Difusão Editora, 1988, 244 p.
Hipertexto Hipermídia: as novas ferramentas da comunicação digital
  • Adriana Martinez
  • Garcia
MARTINEZ, Adriana Garcia. A construção da notícia em tempo real. In: FERRARI, Pollyana (Org.). Hipertexto Hipermídia: as novas ferramentas da comunicação digital. Editora Contexto: São Paulo, 2007, p. 13-27.
Notícia: um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial
  • Cremilda Medina
  • De Araújo
MEDINA, Cremilda de Araújo. Notícia: um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial. São Paulo, SP: Alfa-Omega, 1978.
Dicionário de Filosofia. Brasil: Martins Fontes
  • Nicola Abbagnano
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Brasil: Martins Fontes, 2007.
História e História Cultural
  • Sandra Pesavento
  • Jathay
PESAVENTO, Sandra Jathay. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
Hipertexto Cooperativo: Uma Análise da Escrita Coletiva a partir dos Blogs e da Wikipédia Revista da FAMECOS Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013
  • A F Recuero
  • R Da
  • C Prodanov
  • Cleber Cristiano
  • Ernani Freitas
  • Cesar De
PRIMO, A. F. T; RECUERO, R. da C. Hipertexto Cooperativo: Uma Análise da Escrita Coletiva a partir dos Blogs e da Wikipédia. Revista da FAMECOS, n.22, 2003, p. 54-65 PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013. Disponível em: <http://docente.ifrn.edu.br/valcinetemacedo/disciplinas/metodologia-do-trabalhocientifico/e-book-mtc>. Acesso em: 04 ago. 2015. .
In: Estudos Avançados. 5, n. 11. São Paulo
_______. O mundo como representação. In: Estudos Avançados. 5, n. 11. São Paulo, SP Jan./Abr., 1991, p. 173-191.