ArticlePDF Available

UM SISTEMA DE TRANSCRIÇÃO PARA LÍNGUA DE SINAIS BRASILEIRA: O CASO DE UM AVATAR

Authors:

Abstract and Figures

A língua de sinais brasileira (libras) é uma língua visuoespacial reconhecida como segunda língua oficial do Brasil. Existem vários estudos que mostram que as línguas de sinais são línguas naturais. Contudo, diferentemente das línguas orais, que podem ser representadas, por exemplo, pelo sistema alfabético, a libras não possui um sistema de transcrição amplamente aceito. Muitos autores adotam o sistema de glosas, por causa da facilidade de leitura proporcionada, visto que são palavras de uma língua oral usadas para representar um sinal de forma aproximada. Este trabalho tem como objetivo propor uma sistematização da transcrição por glosas e mostrar sua importância para pesquisas linguísticas e de engenharia. Esse estudo é relevante tanto para o estudo da língua em si, como também na construção de avatares voltados para uma tradução automática. Neste trabalho também é avaliada a relação entre glosas em ASL e libras de forma explícita, apontando simplificações benéficas. Além disso, estabelece-se uma distinção entre transcrições largas e estreitas de glosas, exemplificando sua representação com um agente virtual sinalizador.
Content may be subject to copyright.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 12
UM SISTEMA DE TRANSCRIÇÃO PARA
LÍNGUA DE SINAIS BRASILEIRA: O CASO
DE UM AVATAR
Francisco Aulísio dos Santos PAIVA
1
José Mario De MARTINO
2
Plinio Almeida BARBOSA
3
Ângelo Brandão BENETTI
4
Ivani Rodrigues SILVA
5
Resumo: A língua de sinais brasileira (libras) é uma ngua visuoespacial reconhecida
como segunda língua oficial do Brasil. Existem vários estudos que mostram que as
línguas de sinais são línguas naturais. Contudo, no que diz respeito à escrita e
diferentemente das línguas orais, que podem ser representadas, por exemplo, pelo sistema
alfabético, a libras não possui um sistema de transcrição amplamente aceito. Muitos
autores adotam o sistema de glosas por causa da facilidade de leitura proporcionada, visto
que são palavras de uma língua oral usadas para representar um sinal de forma
aproximada. Este trabalho tem como objetivo propor uma sistematização da transcrição
por glosas e mostrar sua importância para pesquisas linguísticas e computacionais. Este
estudo é relevante tanto para o estudo da língua em si, como também para construção de
avatares voltados para uma tradução automática. Neste trabalho também é avaliada a
relação entre glosas em língua de sinais americana (ASL) e libras de forma explícita,
apontando simplificações benéficas para a transcrição. Além disso, estabelece-se uma
distinção entre transcrições largas e estreitas de glosas, exemplificando sua representação
com um agente virtual sinalizador.
Palavras-chave: Libras. Transcrição. Glosas. Avatares. Tradução automática.
1
UNICAMP Universidade Estadual de Campinas Departamento de Engenharia de Computação e
Automação Industrial. Campinas São Paulo Brasil. 13083-852 aulisio.paiva@gmail.com
2
UNICAMP Universidade Estadual de Campinas Departamento de Engenharia de Computação e
Automação Industrial. Campinas São Paulo Brasil. 13083-852 martino@fee.unicamp.br
3
UNICAMP Universidade Estadual de Campinas Departamento de Linguística. Campinas São Paulo
Brasil. 13083-852 pabarbosa.unicampbr@gmail.com
4
FACTI Fundação de Apoio à Capacitação em Tecnologia da Informação. Campinas São Paulo
Brasil. 13069-901 angelo.benetti@facti.com.br
5
UNICAMP Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Fonoaudiologia. Campinas São Paulo
Brasil. 13083-887 ivani.rodrigues.silva@gmail.com
http://dx.doi.org/10.21165/gel.v13i3.1440
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 13
Introdução
A língua de sinais brasileira (libras) é a segunda língua oficial do Brasil. A
oficialização da libras ocorreu com a Lei Federal nº. 10.436 de 24 de abril de 2002, que a
reconhece como “meio legal de comunicação e expressão”. Essa lei enfatiza ainda que o
sistema linguístico visuoespacial possui estrutura gramatical própria, do que se pode
inferir que libras não é português brasileiro sinalizado.
Contudo, não há um sistema de escrita de libras com ampla aceitação, nos moldes
do alfabeto utilizado pelas línguas orais. Segundo McCleary e Viotti (2010), desde 1960
apresentam-se sistemas de representação de sinais, porém a comunidade surda não os tem
aceitado como uma ferramenta ortográfica e os linguistas não os têm assumido como uma
ferramenta de análise. Exemplos desses tipos de sistema são: o sistema de William Stokoe
(STOKOE, 1960, 1978), SignWriting de Valerie Sutton (1996 apud MCCLEARY;
VIOTTI, 2007) e HamNoSys de Kyle e Woll (1985 apud AMARAL, 2012).
A razão para a falta de aceitação geral, pela comunidade científica ou mesmo pelos
surdos, desses sistemas de transcrição de sinais é que eles apresentam uma estrutura muito
codificada e/ou gráfica (MCCLEARY; VIOTTI, 2007). Isso cria dificuldades para
compreensão de textos, caso o indivíduo não possua um conhecimento adequado da forma
de escrever. Sendo assim, a fim de facilitar a leitura dos sinais de uma língua de sinais, é
muito comum o uso do sistema de transcrição por glosas. Glosas são palavras de uma
determinada língua oral grafadas com letras maiúsculas que representam sinais manuais
de sentido próximo. Wilcox, S. e Wilcox, P. P. (1997) definem glosa como sendo uma
tradução simplificada de morfemas da língua sinalizada para morfemas de uma língua
oral.
Não se sabe ao certo quando se começou a usar palavras para representar sinais
manuais, contudo, uma pista no trabalho de Stokoe (1960). O autor relata que em
Études sur la lexicologie et la grammaire du langage naturel des signes (Paris, 1854), Y-
L. Remi Valade rejeita um sistema de transcrição, utilizado na época, por conter uma
grande quantidade de símbolos. Sua proposta era padronizar um dicionário francês-língua
de sinais francesa, em que cada palavra em francês seria descrita por um sinal manual
através de uma palavra com tradução mais próxima. Ele afirma que uma palavra francesa
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 14
representaria um sinal e, a partir disso, facilitaria sua utilização para escrever enunciados
de língua de sinais.
Vale destacar que o trabalho de Stokoe (1960) tem grande importância para os
estudos linguísticos das nguas de sinais. Seu estudo forneceu as primeiras evidências
para que a estrutura da ASL (língua de sinais americana) fosse considerada como uma
língua natural, ao invés de apenas um sistema de gestos (LIDDELL; JOHNSON, 1989).
Stokoe propôs que um sinal apresenta três partes independentes que vieram a ser
chamadas de parâmetros: configuração de mão, localização e movimento. Sua pesquisa
despertou e influenciou outros trabalhos na área, como por exemplo, os de Liddell e
Johnson (1986, 1989), Bellugi e Klima (1975), Frishberg (1976) e Battison (1974), sendo
que esse último propôs a inclusão do parâmetro orientação da palma da mão, na
fonologia das línguas de sinais. Outro parâmetro relevante, incorporado ao estudo da
língua de sinais, foi a expressão não manual. Os trabalhos de Baker e Cokely (1980),
Baker e Padden (1978) e Baker-Shenk (1983) são estudos que analisam a importância
gramatical expressa pela face (sobrancelhas franzidas, piscar dos olhos, movimentos de
lábios) e pelo corpo (movimento de cabeça e tronco). O trabalho de Baker-Shenk (1983)
foi base para Ferreira-Brito e Langvein (1995) identificarem as marcas não manuais em
libras que, segundo esses autores, foram encontradas na cabeça, rosto e tronco.
Na mesma linha de pesquisa em ASL, foram realizados estudos sobre libras por
vários pesquisadores brasileiros, como Ferreira-Brito (1995), Felipe (1998), Quadros
(1999), dentre outros. Segundo McCleary e Viotti (2007), esses autores, juntamente com
Santos (2002), ChanVianna (2003) e Finau (2004) adotaram em seus trabalhos o sistema
de glosas para a transcrição de libras. Mencionam, ainda, que esse sistema aparece em
trabalhos acadêmicos desde 1984. Em ASL existem os trabalhos de Friedman (1979),
Liddell (1977, 2003), Liddell e Johnson (1986, 1989), Klima e Bellugi et al. (1979) e
Padden (1983), dentre muitos outros, que utilizam o sistema de glosas.
Este trabalho tem por objetivos: propor uma contribuição para a sistematização da
transcrição por glosas e mostrar a importância dessa transcrição, tanto para a pesquisa
básica, quanto para aplicações, tais como a construção de avatares voltados para uma
tradução automática de português brasileiro para libras. O diferencial desta pesquisa em
relação às citadas acima é sua aplicação para a sinalização feita por um agente virtual
sinalizador (avatar). O avatar é uma animação gráfica que representa um personagem em
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 15
um determinado ambiente computacional. Este trabalho visa ainda apontar transcrições
que facilitem o desenvolvimento do avatar, principalmente no que diz respeito a uma
maior naturalidade em seus movimentos. Nesse sentido, um aspecto essencial deste
estudo é a distinção entre representações largas e estreitas para a implementação dos
sinais, e assim proporcionar mais espontaneidade ao avatar e melhor qualidade à tradução
automática.
Este trabalho está organizado da seguinte forma: na próxima seção, resenham-se
os estudos das transcrições por glosas usadas em ASL. Na seção seguinte, alinha-se o uso
das transcrições por glosas em ASL com seu uso em libras. Na penúltima seção, é feita
uma revisão bibliográfica dos sistemas de tradução automática que utilizam avatares para
a sinalização, bem como é realizado um estudo das transcrições que facilitam a
sinalização feita por um avatar a partir de uma representação por glosas. Por fim, a última
seção apresenta as considerações finais e também sugestões para trabalhos futuros.
Aspectos do uso de glosas
Nesta seção serão abordados alguns aspectos e formas de transcrição por glosas
em ASL e em libras. É comum vermos autores utilizando essa forma de transcrição,
porém sem grande preocupação com seu formalismo, talvez pelo caráter intuitivo.
O uso de Glosas em ASL
Klima e Bellugi (1979) estabelecem uma notação para a transcrição de sinais por
meio de glosas, que veio a ser usada no trabalho de Liddell (1986, 2003). De acordo com
esses autores, palavras em inglês, com letras maiúsculas, representam sinais em ASL e
o denominadas glosas. A escolha de uma glosa acontece a partir de um consenso entre
falantes da língua e pesquisadores, em que discutem como traduzir uma palavra que
corresponde a um sinal. Mostraremos a seguir outras formas do uso de glosas propostas
por Klima e Bellugi juntamente com exemplos.
Glosas com mais de uma palavra são separadas por hífen, elas são
utilizadas quando é preciso traduzir mais de uma palavra em inglês por um único sinal.
Por exemplo: LOOKAT, DON’T-WANT.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 16
Glosas em que cada letra é separada por hífen representam um
soletramento. É comum soletrar quando não se sabe o sinal de algo. Exemplos: C-A-R,
J-O-H-N. Alguns autores utilizam simplesmente o sinal # para representar a soletração,
ficando apenas #JOHN.
Duas glosas unidas por um arco indicam um sinal composto em ASL.
Composição é uma maneira de criar um novo sinal a partir de outros existentes.
Exemplo: o sinal foi criado para representar o alarme de um despertador
próprio para pessoas surdas. Esse alarme emite flashes de luzes, por isso o sinal BLINK
foi usado nesse sentido e o sinal TIME foi usado para representar o alarme do despertador.
Segundo os autores, a composição opera como um processo gramatical que supõe a
iconicidade dos sinais e os utiliza a partir de seu significado original, formando um novo
sentido.
Glosas unidas por um arco invertido indicam uma contração. Um sinal
representa uma contração quando seu significado é exatamente obtido pelos significados
dos sinais que o compõem. Isso difere do caso acima, em que o significado “despertador”
é um terceiro elemento que emerge da composição de TIME e BLINK. Um exemplo disso
é o sinal: .
Uma glosa precedida por um arco representa uma forma limitada em ASL,
ou seja, indica uma especificação de tamanho e/ou formas geométricas. Exemplos:
Duas glosas separadas por uma barra indicam a mistura de dois sinais. Um
exemplo disso é o sinal EYES/EXPERT, que indica ter um olhar específico para
reconhecer uma determinada característica de algum objeto.
Glosas com uma marcação subscrita foram usadas para indicar um tipo de
variante do sinal. As formas SIGNinv, SIGNvar, SIGNreg indicam, respectivamente, um
sinal inventado, uma variante estilística, como o caso de um sinal informal e uma variante
regional.
Outro uso recorrente no trabalho de Klima e Bellugi (1979) é uma marcação com
colchetes que representa uma mudança de flexão do sinal.
INFORM[x: ‘me’] ou INFORM[x: ‘me to you’]: essas glosas significam
uma indicação específica para uma determinada ação.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 17
ASK[N: multiple]: representa uma flexão de número.
SICK[M: predispositional] e BLUE[M: ‘dark’]: indicam um aspecto
temporal, de foco ou grau.
Vale destacar que, em linguística, o asterisco (*) antes de uma sentença indica sua
agramaticalidade.
Alguns exemplos com parte das propostas acima seriam os seguintes (KLIMA;
BELLUGI, 1979, p. 206-207):
1. Ted has a blue spot.
TED HAVE BLUE SPOT.
2. Ted has a dark blue spot.
TED HAVE BLUE[M: ‘dark’] SPOT.
3. Ted has a bruise.
Observe que a glosa do item 3 apresenta um significado diferente,
porque o elemento BLUE não representa cor suscetível de variar em grau. Nesse caso,
esse sinal significa hematoma. Portanto, uma sentença agramatical seria transcrever, por
exemplo:
Liddell (1986) afirma que o trabalho de Klima e Bellugi (1979) foi o primeiro
grande estudo sobre sinais compostos em ASL. Ele ressalta ainda que esses sinais não são
previsíveis a partir do significado dos sinais isoladamente. Por exemplo, o sinal
significa goal(objetivo). É fácil ver que o sentido de objetivo não
fica claro apenas pelo significado das palavras THINK (“pensar”) e SPECIFIC
(“específico”). Assim como não é evidente que signifique bruise
(hematoma). É bom lembrar que a composição é um recurso usado também em línguas
orais, exemplos disso são as palavras do inglês, flashlight (“lanterna”) e shoelaces
(“cadarços”).
Segundo Baker-Shenk e Cokely (1982), uma outra maneira de expressar novos
significados é através da mudança do parâmetro movimento. Os sinais QUIET e
ACQUIESCE, na figura 1, exemplificam a ideia. Observe na figura 1 que o sinal QUIET
começa com a mão esquerda próxima à mão direita, em formato de X, o que é diferente
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 18
na sinalização de ACQUIESCE em que a mão esquerda começa mais abaixo. Isso
demonstra que apenas com um movimento diferente é originado um novo sinal.
No entanto, observe que nesse caso não é necessária uma marcação diferenciada
na glosa, porque, como mencionado na introdução, o parâmetro movimento é um dos
traços constitutivos do sinal.
Figura 1 O sinal (1) é QUIET e (2) é ACQUIESCE (BAKER-SHENK; COKELY,
1982, p. 41)
Muitas vezes, em uma língua oral, utiliza-se expressões faciais para representar
algum sentimento, sobretudo quando se expressa entusiasmo, tristeza ou desgosto por
algo ou acontecimento. Isso facilita o entendimento daquilo que queremos dizer, pois uma
expressão facial é tão importante que em alguns casos nada precisa ser dito. Wilcox, S. e
Wilcox, P. P. (1997) afirmam que expressões faciais, postura do corpo e outras expressões
não manuais nas línguas de sinais têm um papel ainda mais importante do ponto de vista
linguístico, porque são usados para expressar informações gramaticais. Na literatura,
essas expressões são chamadas de sinais não manuais (SNMs), considerados na pesquisa
atual como um quinto parâmetro constitutivo do sinal.
Um exemplo do uso de SNMs se dá na expressão da modalidade de negação. Em
ASL, orações interrogativas e negativas geralmente são expressas usando algum
movimento de cabeça. O trabalho de Baker-Shenk (1983) faz um estudo analítico das
expressões não manuais em ASL, principalmente analisando: negação, yes-no question
(questões sim/não) e wh-question (interrogativas parciais, aquelas começadas por
pronomes como who, what, how em inglês. E em português: que, quem, como). Observe,
a seguir, algumas propostas de glosas feitas por Baker-Shenk (1983) para solucionar essas
questões.
Nas glosas abaixo, a frase será marcada com uma barra sobrescrita juntamente
com o tipo da marcação não manual.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 19
1. Wh-questions (interrogativas parciais)
Em Baker-Shenk (1983) é relatado que questões do tipo “wh” foram descritas em
Baker (1980) e Baker e Coley (1980) contendo um franzimento de testa, mudança de
tronco e olhar em direção ao destinatário.
whq
• Name Your W-H-A-T
What’s your name?
Observe que toda a frase é marcada como uma pergunta, ou seja, há uma marcação
da frase inteira como domínio da interrogativa parcial.
2. Yes/no questions
Nesse tipo de perguntas há um levantamento das sobrancelhas e um arregalar de
olhos quando se interroga. Foi proposta para a sua marcação a letra “q”.
q
• FATHER BECOME-ANGRY
Did Dad get angry?
3. Negação
As expressões geradas pela negação de algo são descritas por esses autores como:
movimento de cabeça de um lado para outro, franzimento de testa, enrugamento do nariz
e levantamento do lábio superior. Foi proposta para a sua marcação a expressão “neg”.
neg
ME FEEL GOOD ME
No, I don’t feel good.
A barra em toda a frase indica que os SNMs ocorrem em todo o domínio da frase.
Veja o exemplo a seguir com as marcações de negação e interrogação em que o mesmo
recurso pode ser usado para um domínio inferior à frase.
neg whq
• H-E-Y, ME VOLUNTEER ME, W-H-A-T
Hey, I didn’t volunteer. What’s going on?
4. Topicalização
Em ASL, assim como em uma língua oral, existem maneiras de destacar um
segmento de frase, o chamado tópico, a partir de recursos entoacionais. Um paralelo
desses recursos pode ser feito pelo uso dos SNMs. De fato, Fischer (1975), Liddell (1977,
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 20
1980) e Banker e Cokely (1980 apud BAKER-SHENK,1983) notaram e descreveram que
as SNMs utilizadas na topicalização são: levantamento de sobrancelhas, cabeça inclinada
para trás e um olhar constante, mas sempre fixo no destinatário. Para representar essa
característica utiliza-se a letra “t”.
Note que nos dois últimos exemplos foram transcritas frases que expressam
sentido temporal. Isso é um desafio para o uso de glosas. Enquanto em inglês (e
português) o tempo é marcado com morfemas gramaticais (como “ed” restrito ao verbo,
em inglês), em ASL, o tempo é indicado no início da frase para assinalar que o domínio
temporal se refere ao evento a que a frase alude.
Para encerrar essa seção, será indicada mais uma forma de transcrição em glosas
proposta por Liddell (2003). Seu sistema de notação é análogo aos sistemas vistos
anteriormente, porém utilizado de forma ampliada e mais complexa. Sua intenção é usá-
lo para dar conta de todos os níveis linguísticos em ASL. Por exemplo, o autor (2003,
p.24) sugere representar por glosas a frase “I want you to stay”, em que o pronome “you”
marca plural para duas pessoas em localizações diferentes através da seguinte notação:
LEFT RIGHT
• PRO-1 WANT YOU YOU TO STAY
A notação PRO-1 representa o pronome pessoal em primeira pessoa e as
marcações LEFT e RIGHT indicam as direções dos olhares para a localização em que se
encontram as pessoas referidas. Como veremos adiante, existem três inconvenientes nesse
tipo de notação para o controle do avatar. O primeiro é a não delimitação exata do domínio
no sistema de notação. Como no exemplo acima, em que a palavra RIGHT é maior que a
glosa YOU. Assim, não fica claro o término da sinalização do olhar. Como veremos
adiante, o emprego de delimitadores como < YOU > right explicita os limites de
aplicação do gesto. O segundo inconveniente se refere à necessidade de manter todas os
componentes da notação na mesma linha, em virtude de um tratamento computacional. O
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 21
terceiro é a necessidade de indicar a localização exata das pessoas para o avatar. Essas
propostas serão detalhadas neste trabalho.
O sistema de notação de Liddell (2003) para indicação da localização é bastante
complexo, como resume a tabela da página 134 (LIDDELL, 2003, p. 134). Isso pode
comprometer a inteligibilidade bem como o tratamento computacional, como se observa
nos seguintes exemplos:
1. SHOOT-GUN-ATxy
2. SHOOT-GUNL
No item 1, as direções do tiro são indicadas através das posições de x e y, isto é, o
tiro vai de x para y. Enquanto que, em 2, indica simplesmente o local em que foi feito o
disparo e a direção, sem especificar os alvos. Ainda sobre o uso do sobrescrito, nas
páginas 40 e 41 da referência acima, exemplos para diferenciar dois usos do sinal
MONDAY em relação ao movimento que é realizado. No item 1 abaixo, o movimento da
mão é circular e repetido, enquanto que no item 2 há um único movimento para baixo.
1. MONDAY
2. MONDAY[WEEKLY]
Uma maneira de simplificar a realização desses sinais por um avatar é identificá-
los simplesmente com o modificador na mesma linha da glosa, como, por exemplo,
MONDAY-WEEKLY.
Nossa hipótese de pesquisa é a de que as simplificações notacionais, mais
detalhadamente discutidas adiante, facilitam o processamento computacional. Essas
simplificações permitem dar conta dos tipos de sentenças em libras apresentadas adiante
sem perda quanto à representação linguística.
Na próxima seção será feita uma comparação entre a transcrição em ASL e em
libras. Essa comparação serve de base para a notação utilizada na tradução automática de
português brasileiro para libras apresentada neste trabalho.
O uso de glosas em libras
Como mencionado na introdução, o sistema de glosas aparece no Brasil, em
trabalhos acadêmicos, a partir de 1984. Da mesma forma como definida para ASL, a glosa
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 22
é uma palavra grafada com letras maiúsculas que corresponde a uma tradução possível
para o português.
Nos estudos de libras, a transcrição é algumas vezes chamada de simplificada ou
sistema de notação por palavras (FELIPE, 1998; FINAU, 2004), pois as palavras de uma
língua oral são usadas para representar um sinal de forma aproximada. Segundo McCleary
e Viotti (2007), nos últimos anos foram propostas diversas formas de representar as
línguas de sinais e ainda hoje ocorrem adaptações. Porém, não uma aceitação geral
devido à dificuldade de leitura que esses sistemas colocam para pessoas que não são
treinadas. Assim, a transcrição por glosas é adotada por vários autores, principalmente
por sua facilidade de interpretação. Abaixo, observem como transcrever enunciados,
conforme proposto por Ferreira-Brito (1995) e Felipe (1998):
1. Sinais em libras são representados com letras maiúsculas, conforme visto
anteriormente.
ESCOLA, ESTUDAR.
CRIANÇA ESTUDAR MUITO.
A criança estuda muito.
Em libras, o verbo não possui flexão para modo e tempo, por isso é escrito sempre
no infinitivo, da mesma forma que artigos não são transcritos.
2. Separam-se duas palavras por hífen quando elas são necessárias para
representar um sinal, como visto na notação de Klima e Bellugi (1979).
NÃO-QUERER, COMER-MAÇÃ, MEIO-DIA.
3. O sinal composto é análogo ao descrito por Klima e Bellugi (1979), porém
ao invés de um arco para a separação, pode ser descrito simplesmente por um acento
circunflexo. Ressalta-se que o sinal composto é comumente usado para criar um novo
sinal. Por exemplo:
CAVALOLISTRA é o sinal de zebra.
4. Datilologia é o sistema de representação do alfabeto manual das línguas
de sinais e uma forma de soletração comumente usada para sinalizar nomes próprios, ruas,
objetos ou palavras que não possuam sinais específicos. Usa-se o hífen para separar cada
letra.
M-A-R-I-A, C-O-A-R-T-I-C-U-L-A-Ç-Ã-O
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 23
5. Também em Klima e Bellugi (1979), é possível constatar a indicação da
flexão do verbo marcando sujeito e objeto. De forma análoga, Ferreira-Brito (1995)
definiu essa marcação para marcar pessoas no singular utilizando os números de 1 a 3, e
1p, 2p e 3p para pessoas do plural. Como no caso abaixo:
1ENTREGAR2 LIVRO.
Eu entreguei o livro para você
3pTELEFONAR1 ONTEM.
El@S me telefonaram ontem.
6. O uso do arroba (@) em libras indica a ausência da marca de gênero, pois
os sinais não apresentam marcas desse tipo. Exemplo:
AMIG@, FRI@, MUIT@.
7. Quando necessário, os autores incorporam as expressões faciais e
corporais nas glosas. Ferreira-Brito (1995) e Felipe (1998) utilizam recursos análogos
propostos por pesquisadores de ASL. Representam as expressões com uma barra
sobreposta indicando o seu tipo (? interrogação, ! exclamação, t topicalização, ñ
negação, int intensidade, para um caso de pedido usa-se EFp força ilocucionária, EFo
para o caso de uma ordem.)
t
CARRO, EU COMPRAR NOVO.
Eu comprei um CARRO novo.
Esses são alguns exemplos de transcrição por glosas em libras e, na seção seguinte
serão exploradas formas de marcação para expressões faciais que foram propostas por
Quadros e Karnopp (2004). Serão também discutidas soluções gerais ligadas às
marcações não manuais, auxiliares (expressão de concordância), tempo do verbo e do
enunciado, sintaxe espacial e verbos direcionais.
Aspectos linguísticos para implementação
A transcrição de sinais é uma tarefa complexa, pois muitos aspectos são perdidos
ao representar uma língua visuoespacial. Quadros e Karnopp (2004) utilizaram glosas
para as transcrições e fotos de uma pessoa falante de libras para representar os sinais. O
uso de fotos facilita o reconhecimento das expressões faciais e outros gestos, porém são
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 24
recursos limitados, visto que detalhes das expressões são perdidos, como mudanças na
direção do olhar, lábios, elevação das sobrancelhas e movimentos de lábios. Quanto às
glosas, Quadros e Karnopp (2004), assim como Finau (2004), acrescentam modificações
e complementam as fotos com setas para indicar algum movimento.
Para este trabalho, devido à simplicidade desse sistema para uma aplicação
computacional, escolhemos o uso de glosas de que fazem Quadros e Karnopp (2004). Esta
escolha não se motiva por questões linguísticas, mas por questões metodológicas. Sendo
assim, propomos abaixo modificações a esse sistema de glosas para facilitar a
implementação de um avatar. Para tanto, por se tratar de questões importantes para a
implementação, estudaremos interrogação, negação, intensificação e sintaxe espacial.
Transcrevendo sinais
Baseados nos estudos de Liddell (1980) e Bahan (1996) sobre expressões faciais
em ASL, Quadros e Karnopp (2004) observaram que em libras as sinalizações também
acontecem frequentemente acompanhadas por movimentos de cabeça e corpo. Veja
abaixo a proposta dos autores para representar esse tipo de marcação:
(a) <>do direção dos olhos (do) em uma concordância gramatical;
(b) <>mc movimento de cabeça (mc) para sinalizar foco;
(c) <>n movimento de cabeça que expressa negação (n);
(d) <>t marcação de tópico (t);
(e) <>qu e <>sn marcação de interrogativas (qu interrogativas parciais;
sn interrogativas sim ou não).
O trecho ou sentença que se deseja transcrever ficará entre os sinais de maior e
menor <> e acrescenta-se a notação do tipo de sinal não manual de acordo com o aspecto
gramatical envolvido. Note que essa marcação é similar àquelas marcas não manuais
propostas em ASL por Baker-Shenk (1983) e em libras por Ferreira-Brito (1995) e Felipe
(1998). Contudo, o uso dos sinais <> é mais simples e prático, permitindo uma
visualização mais clara do domínio de atuação do SNM, porque evita a utilização de
barras e componentes sobrescritos. Adiante veremos alguns exemplos de aplicações
dessas notações. Antes disso, vale destacar a diferença entre tópico e foco.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 25
O tópico é o termo que se deseja destacar numa sentença, e para isso alguns
recursos são colocá-lo no início e marcá-lo com uma ênfase em relação ao resto da
sentença. Já o foco é um termo que, ao ser interpretado, apresenta uma entonação mais
marcada e pode estar em qualquer lugar na sentença (QUADROS; KARNOPP, 2004).
Observe os exemplos dos autores:
<BOLA-FUTEBOL>t, <ONDE O JOÃO PEGAR>qu
Esta bola de futebol, onde o João pegou?
EU LIVRO <PERDER>mc
Eu perdi o livro.
No primeiro exemplo, podemos perceber que o tópico possibilita a organização
diferente da sentença e retoma o tema topicalizado em seguida, com uma pergunta sobre
ele. Já o foco introduz no discurso uma expressão com ênfase e seu intuito é estabelecer
um contraste ou dar uma importância maior a algo, que é o caso do segundo exemplo. O
verbo final é relacionado e realizado concomitantemente a uma expressão não manual
afirmativa. A compreensão dessas marcações nos prepara para a compreensão das formas
de transcrições de interrogativas e como incorporar negações em glosas.
Transcrevendo interrogativas
Baseados nos trabalhos de Baker-Shenk (1983), Baker (1980), Baker e Coley
(1980), é possível observar em ASL as expressões não manuais feitas em interrogativas
parciais e em questões do tipo sim/não, mostrando também exemplos de sua transcrição
em glosas. Quadros e Karnopp (2004) descrevem tipos de interrogativas em libras com
suas respectivas marcações nas glosas:
1. Interrogativas parciais, geralmente associadas às palavras O QUE, COMO,
ONDE, POR QUE, QUEM: <>qu
<O QUE JOÃO PAGAR>qu
O que João paga?
< QUEM MARIA CONHECER >qu
Quem Maria conhece?
Para esses casos, os autores descrevem uma elevação de cabeça juntamente com
um franzir de testa.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 26
2. Interrogativas sim/não são aquelas que esperam uma resposta afirmativa
ou negativa: <>sn
<JOÃO COMPRAR BICICLETA>sn
João comprou uma bicicleta?
As expressões não manuais mais comuns são abaixamentos de cabeça e elevação
das sobrancelhas.
3. Interrogativas que aparecem em orações subordinadas ou perguntas
indiretas. Segundo os autores, essas interrogativas apresentam uma expressão facial
diferenciada. Sua marcação é <>qu, para tornar essa notação mais mnemônica pode-se
adotar <>sub, em que sub se refere à subordinada. Um outro argumento contra a notação
utilizando marcas diacríticas é o fato de alguns teclados não as possuírem, por exemplo,
o americano.
Abaixo seguem alguns exemplos de transcrições:
a. EU QUERER SABER, <QUEM O JOÃO ESCOLHER>sub
Eu quero saber quem o João escolheu.
Quando o sinalizador expressa atitudes como de dúvida e/ou desconfiança, isso
afeta diretamente a marcação não manual, merecendo uma subcategoria à parte das
interrogativas acima. Os autores propuseram a marcação <>qu∼∼, mas para simplificar
pode-se adotar apenas <>duv, pois do ponto de vista gramatical, interrogativas como as
exemplificadas abaixo são do tipo sim/não.
b. <ESCOLA PROFESSOR ENSINAR MATEMÁTICA>duv
Na expressão desse tipo de interrogativa com a atitude de dúvida, os autores notam
lábios comprimidos ou em protrusão, levantamento de ombros e franzimento de testa.
Sinalizando a negação
Em libras, basicamente a negação pode ser sinalizada em uma expressão de duas
formas. Uma maneira é por meio de componentes manuais acrescentando os sinais de
NÃO, NADA e NUNCA ou sinalizando com algum componente não-manual (expressão
facial ou movimento de corpo). A partir disso, há três processos para a negação (FELIPE,
2007):
1. Simplesmente acrescentando o sinal NÃO em uma frase.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 27
EU OUVIR NÃO.
Eu não ouvi.
EU PRECISAR NÃO
Eu não preciso.
2. Execução de um movimento contrário ao sinal. Um exemplo desse
processo é o sinal de NÃO-GOSTAR, em que muda apenas o movimento do sinal
GOSTAR. Ferreira-Brito (1995) observa que há uma alteração do parâmetro movimento
o que implica o aparecimento de um novo item de estrutura “fonético-fonológica”, o qual
seria de uma contraparte negativa. A autora afirma ainda que, nesses casos, a mudança de
direção é feita para fora, isto é, geralmente com a palma da mão voltada para fora.
• EU NÃO-GOSTAR CARNE, PREFERIR FRANGO, PEIXE.
Eu não gosto de carne, prefiro frango ou peixe.
3. A realização de um movimento de corpo que pode ainda ser incorporado
aos processos acima, como o sinal de NÃO-GOSTAR concomitante a um aceno de
cabeça. No exemplo abaixo, Felipe (2007) usa o sinal PODER e para a negação é feito o
aceno negativo com a cabeça.
EU VIAJAR NÃO-PODER.
Eu não posso viajar.
Segundo Quadros e Karnopp (2004), pode-se, ainda, assinalar o domínio de
realização da negação, ou seja, marca-se o trecho durante o qual o sinal não manual de
negação é feito. É permitido, também, o uso da forma de topicalização mencionada no
início da seção. Esses autores observaram que a utilização da topicalização muda a ordem
das frases, visto que a flexibilidade da alteração dessa ordem da frase relaciona-se ao
mecanismo gramatical da topicalização. Por exemplo:
<FUTEBOL>t, <JOÃO GOSTAR NÃO>n
De futebol, o João não gosta.
Note que é colocada uma ênfase maior no sinal FUTEBOL e o trecho JOÃO
GOSTAR NÃO é marcado adicionando um movimento de cabeça em todo ele. Isso reflete
a importância de limitar os domínios, tornando mais clara a forma de se comunicar e
expressar uma ideia. O que inclui entender como se comportam os verbos, representações
de tempo, flexões de pessoas e de aspecto, sendo que esse último é referente às formas e
à duração dos movimentos dos sinais. É o que se abordará a seguir.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 28
Problemas em sintaxe espacial
O verbo possui função central em uma frase, estabelecendo uma relação de
dependência entre sujeito e predicado. Felipe (2002) afirma que na flexão verbal da libras
existe uma característica de direção, marcando dessa forma a flexão de pessoa na
sentença. Por exemplo, na frase “Eu entrego algo a você”, a direção estabelecida acontece
do emissor para o receptor.
Nesse sentido, Quadros e Karnopp (2004) estudam os verbos na língua de sinais
dividindo-os em duas classes: os verbos sem concordância e os verbos com concordância.
Os verbos TER, FALAR, AMAR e CONHECER são definidos como verbos sem
concordância, pois precisam de um argumento explícito na frase. Entende-se melhor esse
conceito quando se confrontam com os verbos com concordância, por exemplo: DIZER,
ENTREGAR, AJUDAR, REMETER. Esses verbos estão associados a marcações não
manuais e a um movimento direcional. Isso significa que esses sinais começam e/ou
terminam em um determinado lugar. Por esse motivo Felipe (1988, 1991a, 1993a apud
FELIPE, 2002) denomina-os de verbos direcionais. A autora segue a nomenclatura usada
por autores consagrados em ASL (FRIEDMAN, 1976; FISHER, 1975; PADDEN, 1983).
Portanto, daqui em diante, os verbos com concordância serão denominados de verbos
direcionais, e os verbos sem concordância serão chamados de verbos simples.
Vale ressaltar que Quadros e Karnopp (2004) informam que o conjunto de verbos
citados foi trabalhado por Klima e Bellugi (1979) e Liddell (1980), procurando reconhecer
suas assimetrias morfológicas. Baseados nesses autores, serão vistos, a seguir, alguns
exemplos e problemas com transcrições de frases com verbos desses tipos.
Quadros e Karnopp (2004, p. 158) mencionam que verbos com
concordância apresentam maior liberdade quanto à ordenação na frase.
(a) <MARIA.b>do <JOÃO.a a.OLHAR.b>do.
João olha para Maria.
(b) JOÃO <GOSTAR MARIA>do
João gosta da Maria.
Recorde-se que a expressão do olhar é definida como “do”. No exemplo (a) se vê
que JOÃO olha para MARIA e a forma de indicar essa ação é marcando o domínio do
trecho de frase em que ocorre. Outra característica dessa transcrição é a marcação de
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 29
JOÃO e MARIA no espaço, marcados por “a” e “b”, respectivamente. Isso endossa a
importância da sintaxe espacial na compreensão da mensagem de uma frase. Em (b), a
autora utilizou a direção do olhar, mas como o verbo GOSTAR é um verbo simples, isto
é, não direcional, poderia ter sido transcrito apenas como JOÃO GOSTAR MARIA.
Assim, continuaria sendo gramatical. Ao contrário do seguinte caso:
*MARIA <JOÃO GOSTAR>
A frase anterior pode gerar dúvida quanto a quem gosta de quem, por falta de
marcação da direção do olhar. Tem-se assim uma frase agramatical, comprovando a
limitação de verbos simples em relação à ordenação dos constituintes da frase.
No intuito de ilustrar as possibilidades de ordenamentos dos principais
constituintes em libras (sujeito, verbo e objeto), destaca-se um exemplo de flexibilidade
da língua. Em (a) tem-se a ordem OSV e, na sentença abaixo, tem-se a ordem SVO:
JOÃO <a.AJUDAR.b MARIA.b>do João ajuda a Maria.
Essa ordem é compreensível e aceita conforme a literatura, contudo, ainda há a
possibilidade de ter a ordem SOV. Confira:
<JOÃO>do <MARIA>do <a.AJUDAR.b>do
João ajuda a Maria.
Essa forma continua sendo gramatical, embora para isso seja preciso haver uso de
SNM. Isso ilustra a flexibilidade dos verbos direcionais. Retomando a posição no espaço
de JOÃO e MARIA, pode-se ver uma analogia com os exemplos mostrados em ASL e
em libras propostos por Ferreira-Brito (1995) e Felipe (1998).
A ideia de marcar as pessoas por letras deixa claro seu papel em cada glosa que
lhes faz referência. Vale mencionar que a concordância estabelecida entre sujeito e objeto
através do verbo é importante para a compreensão de uma frase. Sobretudo, em alguns
casos, é preciso dizer, explicitamente, a direção que está sendo requerida no contexto
enunciativo. No trabalho de Quadros e Karnopp (2004), é abordada a ideia do auxiliar em
língua de sinais. Segundo as autoras, o auxiliar “é uma expressão pura de concordância
estabelecida através do movimento de um ponto a outro”. O caso em que se faz necessária
a utilização dessa marca é somente quando a frase não estiver na ordenação SVO. Na
sinalização do auxiliar (AUX), frequentemente, a expressão não manual da direção dos
olhos está associada ao movimento. Veja alguns exemplos dados por essas autoras:
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 30
JOÃO.a <MARIA.b a.AUX.b>do <GOSTAR>mc <b.AUX.a>do
<NÃO>n
João gosta da Maria e ela não gosta dele.
Acima, foram abordadas as marcações espaciais para o sujeito e o objeto, “a” e
“b”, respectivamente. O sinal AUX indica que “a” gosta de “b”, e a recíproca indicada
por <b.AUX.a>do é falsa. Note que a direção do olhar que percorre de um ponto a outro
é uma característica essencial que representa onde o movimento inicia e termina. Assim,
o sentido que se deseja passa a ter uma maior eficácia. É análoga a representação quando
a recíproca da frase é verdadeira:
<JOÃO.a>do <MARIA.b><a.AUX.b>do <GOSTAR <b.AUX.a>do
TAMBÉM>mc
João gosta da Maria e ela também.
Nos dois exemplos acima percebe-se a relevância do auxiliar cuja omissão,
segundo as autoras, gera uma expressão agramatical. Ou seja, na língua de sinais brasileira
não é permitida a omissão do auxiliar para esses casos.
*JOÃO GOSTAR MARIA, MARIA <TAMBÉM>mc.
João gosta da Maria e Maria também.
Outras funções importantes na frase são a flexão de número e a flexão de aspecto.
A primeira refere-se à flexão do verbo para um ou mais referentes e a segunda está
relacionada às formas e à direção dos movimentos.
Em alguns casos, o verbo precisa concordar com vários referentes que estão
estabelecidos no espaço e isso os integra ao discurso. Baseados em Quadros e Karnopp
(2004, p.120) seguem alguns exemplos de flexão para uma ou mais pessoas:
JOÃO a.ENTREGAR.b LIVRO
João entrega o livro para alguém.
JOÃO a.ENTREGAR.bc LIVRO
João entrega um livro para cada um dos dois.
JOÃO a.ENTREGAR.bcd LIVRO
João entrega o livro para cada um dos três.
JOÃO a.ENTREGAR LIVRO.b+c+d
João entrega o livro para todos.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 31
No último exemplo propomos uma simplificação, quando for para se dirigir a
todos os referentes basta subscrever “todos”. A transcrição ficará da seguinte forma:
JOÃO a.ENTREGAR LIVRO.todos.
Segundo as autoras, a principal distinção dos exemplos acima é a forma como se
faz o movimento. Nos três primeiros exemplos o sinal de entregar é feito para cada um
dos referentes, no último exemplo apenas um movimento é realizado incorporando
assim todas as pessoas que receberão o livro. Tratar questões espaciais dessa forma ou,
como vimos anteriormente, na sintaxe espacial, torna a ação mais simples do que utilizar
a indicação específica como exemplificada em ASL (INFORM[x:‘me to you’],
ASK[N:multiple]).
Lembre-se que, em ASL, se representa também aspectos temporais, de foco ou
grau. Basta inserir o aspecto requerido na glosa, como nos casos:
SICK[M:predispositional] e BLUE[M:‘dark’].
Esse estudo em ASL foi realizado por Klima e Bellugi (1979). Baseados nesse
trabalho, Quadros e Karnopp (2004) verificaram esse tipo de flexão aspectual também em
libras:
CUIDAR[incessante], CUIDAR[ininterrupta], CUIDAR[habitual]
Com a inclusão desses aspectos, já se consegue ter uma ideia de como é realizado
o sinal. Segundo as autoras, na ação incessante, o movimento é mais rápido, enquanto
que, em ininterrupta, se faz o sinal de forma parada para se dar a sensação de que a ação
inicia e continua. Diferente da ação habitual que significa algo que tem recorrência, nesse
caso o sinal será feito mais devagar.
Para transcrever um aspecto de velocidade, tensão ou até mesmo de duplicação
das mãos podem ser usados sinais de +, diferentemente do que se tem visto (anteriormente
o sinal de “+” foi usado para representar repetição do sinal). Exemplos:
Para representar Velocidade\tensão:
DIARIAMENTE, <DIARIAMENTE++>
Intensificação do sinal:
BONITO, <BONITO+>, <BONITO++>
VERGONHA, <VERGONHA+>, <VERGONHA++>
(Nesse último exemplo tem-se uma duplicação de mãos)
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 32
Todos os sinais exemplificados acima estão associados a expressões faciais, tais
como abertura da boca, levantamento de sobrancelhas e uma expressão de admiração ou
espanto nos sinais BONITO e VERGONHA. Essas expressões trazem um caráter
semântico forte, pois enriquecem o sentido dos sinais e da interpretação de frases.
Sabe-se que em libras não há desinência de gênero e número, tampouco há marca
de tempo para verbos. Por conta disso, para encerrar essa seção, trataremos de como
transcrever sentenças que envolvem questões de tempo, tendo como base o estudo feito
por Felipe (2007). Segundo a autora, o tempo é marcado utilizando advérbios de tempo,
ou seja, para descrever o presente usa-se: HOJE, AGORA; para o passado: ONTEM,
ANTEONTEM; e futuro: AMANHÃ. Pode-se ainda usar o sinal PASSADO ou JÁ, para
dizer que uma ação já ocorreu, ou o sinal FUTURO, para dizer algo que ainda irá ocorrer.
Todas as frases que não apresentam nenhuma marcação temporal assumem-se como
realizadas no presente.
Existem perguntas que utilizam o sinal QUANDO e a resposta geralmente possui
um advérbio de tempo, ou simplesmente o dia, quando o evento acontecerá. Felipe (2007)
traz como solução para a transcrição as seguintes marcações: QUANDO-PASSADO e
QUANDO-FUTURO. Exemplos:
EL@ VIAJAR FORTALEZA QUANDO-PASSADO?
Quando ela viajou para Fortaleza?
EL@ VIAJAR CAMPINAS QUANDO-FUTURO?
Quando ela viajará para Campinas?
Outra forma de se perguntar quando ocorrerá algo é por meio da soletração D-I-
A, que pede como resposta um dia específico. Exemplo:
EU CONVIDAR VOCÊ PASSEAR. VOCÊ PODE D-I-A? Eu convido
você para passear. Qual dia você pode?
Nessa seção foram vistas várias formas de transcrições de libras. A seguir, o foco
será nas aplicações que se podem fazer das ideias vistas acima. Um sistema de transcrição
de uma língua de sinais pode oferecer várias possibilidades para as pessoas que o utilizam,
uma das principais aplicações é o aprendizado da própria língua e de outras. Com uma
transcrição adequada pode-se pensar em uma dicionarização da língua de sinais, traduções
e interpretações mais eficientes, inclusive a animação de um avatar a partir de traduções
automáticas.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 33
Na próxima seção, o foco será no estudo de transcrições por glosas que possam
facilitar a tradução automática do português brasileiro para libras. O objetivo principal é
abordar maneiras que tornem mais eficiente a sinalização feita por um avatar.
Tradução automática de línguas de sinais
A tradução automática se ocupa da tradução de uma língua natural por meio de
programas de computador. É importante mencionar que esse processo não é feito
simplesmente traduzindo palavra por palavra. Os sistemas de tradução automática buscam
abranger diferentes níveis linguísticos, consistindo comumente por análises morfológica,
sintática e semântica (DORR et al., 1999). Depois de feitas as análises da língua origem
(ou fonte) resultará na representação interna com características de uma língua (ou
“linguagem”, na tradução mais corrente) intermediária. Segundo Door e seus colegas
(1999), essa representação é independente das línguas origem e alvo, constitui-se de uma
linguagem simbólica denominada interlíngua.
Em nosso trabalho, o objetivo é traduzir português brasileiro (língua origem) para
libras (língua alvo). Desde o início da discussão, salientou-se que os sinais de libras são
representados por palavras do português, grafadas em letras maiúsculas (glosas). A glosa
é uma linguagem intermediária, porém é claramente dependente tanto da língua fonte
quanto da língua alvo. Para o caso em que uma dependência, Dorr et al. (1999)
caracteriza essa abordagem como de transferência. A arquitetura de transferência pode
fornecer uma tradução de ótima qualidade, visto que é possível serem feitas transferências
sintáticas ou mesmo transferências que considerem o contexto semântico. Por sua vez,
vale destacar que o conteúdo traduzido da libras será representado por um avatar.
A tradução automática de línguas de sinais possui uma história relativamente
recente, quando comparada à tradução de línguas orais. Para ter uma melhor visão, será
considerado o trabalho de Huenerfauth (2003), em que é traçado um panorama geral de
alguns projetos de tradução de línguas de sinais. Um dos primeiros estudos com esse
escopo foi a implementação do sistema Zardoz (VEALE et al., 1998). Esse sistema
consiste na tradução de textos em inglês para ASL, língua de sinais irlandesa (ISL) e
língua de sinais japonesa (JSL). Contudo, o foco da implementação foi a ASL, e os autores
propuseram uma abordagem de interlíngua. O sistema acaba sendo insuficiente na
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 34
representação de sinais não manuais, bem como na produção da saída de animações
(HUENERFAUTH, 2003).
O projeto ViSiCAST (Virtual Signing: Capture, Animation, Storage and
Transmission) foi proposto a fim de melhorar o acesso das pessoas surdas às informações
e aos serviços sociais (correios, lojas, centros de saúde e hospitais). O sistema foi feito
para traduzir um texto em inglês para línguas de sinais europeias. Ele possui uma
abordagem de transferência que converte o texto para uma representação intermediária
(ELLIOT et al., 2000). O sistema de animação do ViSiCAST é o Signing Gesture Markup
Language (SiGML) que utiliza uma versão XML da notação HamNoSys (Hamburg Sign
Language Notation System). Essa notação especifica a configuração da mão, orientação
da palma e detalhes do movimento para realização dos sinais (HUENERFAUTH, 2003).
Assim, é a partir dessa notação que o avatar é controlado.
Um outro sistema de tradução, chamado TEAM, proposto por Zhao et al. (2000),
faz a tradução de textos em inglês para ASL. Essa abordagem utiliza a notação de glosas
com parâmetros como representação intermediária. Segundo os autores, os parâmetros
indicam informações gramaticais como tipos de sentenças, variações morfológicas e
expressões faciais. A glosa é também utilizada como índice que está relacionado a um
dicionário, o qual armazena os movimentos parametrizados de todos os sinais (ZHAO et
al., 2000). Segundo Huenerfauth (2003), esse sistema é o único dos sistemas considerados
acima que implementa uma animação razoável do avatar. Contudo, ele deixa a desejar em
controles limitados para alguns sinais não manuais, por exemplo, falha ao tentar executar
inclinação de cabeça e movimentos de olhos.
No caso da língua de sinais brasileira, também existem pesquisas voltadas para a
implementação de sistemas de tradução automática do português brasileiro para libras.
Exemplo disso é o sistema Falibras. Em Brito et al. (2012), os autores mencionam que,
em sua implementação, são utilizadas transferência sintática e memória de tradução. O
sistema faz uso de técnicas de probabilidade para tratar problemas de ambiguidade. Vale
destacar que propõem uma conversão do texto em português para uma representação
intermediária em glosas.
Apesar de a libras possuir todos os componentes de uma língua oral, ainda é muito
pouco formalizada. Com o intuito de propor um formalismo para a descrição fonológica
de libras, Amaral e De Martino (2010) e Amaral (2012) propuseram um sistema de
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 35
transcrição para a reprodução de conteúdo em libras sinalizado por um avatar. Esses
autores implementaram um avatar com características realistas, em que o programa
processa sinais descritos em arquivos XML. Vale destacar que, em seus trabalhos, os
sinais são descritos por meio de unidades mínimas distintivas (configuração da mão,
orientação da palma, localização e movimento), permitindo ainda sua parametrização.
Argumentam ainda que essas características viabilizam conjugação verbal, concordância
de gênero, número e grau. Nesse sentido, os autores mencionam que um avatar pode ser
aplicado na educação, entretenimento, comunicação pessoal, favorecendo a inclusão
social de pessoas surdas.
Amaral (2012) argumenta que, para implementar um avatar, é necessário que o
sistema de transcrição registre todos os detalhes relevantes dos sinais envolvidos na
enunciação. Isso favorece a naturalidade e a espontaneidade encontradas, por exemplo,
em um intérprete de libras.
É importante lembrar que o objetivo do nosso trabalho é propor uma transcrição
por glosas que tenha detalhes suficientes, facilitando a sinalização do avatar. Por sua vez,
isso tornará ainda uma tradução automática mais eficaz. No que se refere às glosas, elas
podem ser tomadas como uma representação intermediária na tradução automática. Para
melhor entender a necessidade de diferentes níveis de detalhamento de características do
sinal nas glosas, pode-se fazer uma analogia com as transcrições larga (broad) e estreita
(narrow) do campo da fonética.
A transcrição larga designa uma transcrição que utiliza um conjunto de símbolos
mais simples possível com o fim apenas de diferenciar dois sinais. O inverso disso é a
transcrição estreita, que mostra mais detalhes fonéticos na representação com o fim de
mostrar a pronúncia, como o sinal foi realizado (LADEFOGED; JOHNSON, 2011).
Na próxima seção, serão abordados esses dois tipos de transcrições aplicados em
glosas. Teremos como base os exemplos de Quadros e Karnopp (2004) e também as
implicações dos níveis de transcrição para um avatar. Para o desenvolvimento de um
modelo piloto do avatar serão considerados para implementação os tipos de sentenças
ilustrados na seção seguinte.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 36
Glosas para um avatar sinalizador de libras
Baseados no estudo feito na seção “O uso de glosas em libras”, serão apresentados
exemplos de transcrições por glosas que facilitem a implementação de um agente virtual
sinalizador de libras. Para tanto, parte-se do conteúdo teórico visto na seção anterior,
estabelecendo conexões que distinguem uma transcrição larga de uma estreita.
Aspectos metodológicos
Nossa metodologia consiste em apresentar um conjunto pré-definido de tipos de
sentença, a partir do qual apontam-se propostas de refinamento ou alteração a partir da
notação de Quadros e Karnopp (2004) que tornarão possível o desenvolvimento de um
protótipo para o avatar. Ressalta-se que a razão da escolha dessa notação se deve ao fato
de ser mais apropriada como ponto de partida para a tradução automática e controle de
um avatar.
Como visto na seção sobre “Aspectos linguísticos para implementação” de glosas
em libras, a transcrição da frase “João não deu o livro a Maria” pode ser feita
simplesmente da seguinte maneira:
(1) JOÃO MARIA DAR LIVRO NÃO
Acima vê-se um exemplo de uma transcrição larga, pois não adota nenhum detalhe
em sua representação. Essa transcrição pode ser compreendida por uma pessoa surda
alfabetizada devido à sua simplicidade e porque mostra apenas os sinais usados. Contudo,
para a implementação de um avatar, essa representação não seria suficiente. Recordemos
os problemas vistos na seção sobre sintaxe espacial, onde foram apresentadas
características dos verbos direcionais em que se estabeleciam as posições do sujeito e
objeto no espaço. Uma ideia inicial para o avatar seria identificar a existência de verbos
direcionais na frase. Como sugerido em Quadros e Karnopp (2004), pode-se ter a seguinte
transcrição:
(2) JOÃO.a MARIA.b a.DAR.b LIVRO NÃO
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 37
No exemplo (2) tem-se uma transcrição mais estreita em que “a” e “b” indicam
posicionamento de João e Maria, respectivamente. Com isso temos, por meio do verbo
DAR, a direção estabelecida entre o sujeito e o objeto. Veja na figura 2 uma proposta para
o avatar.
Figura 2: JOÃO.a MARIA.b a.DAR.b LIVRO NÃO
Para um avatar é melhor que uma transcrição seja o mais estreita possível. Note,
por exemplo, que o avatar da figura 2 não faz a marcação de JOÃO e MARIA com a
direção do olhar. Inclusive há ainda a possibilidade de instruir o avatar para que
intensifique o sinal de NÃO. Nesse caso, faz-se necessário também representar as
expressões não manuais, estreitando a transcrição como segue em (3), em que se veem as
indicações dessas expressões para os sinais representados em todas as glosas.
(3) <JOÃO.a>do <MARIA.b>do <a.DAR.b><LIVRO NÃO>n
A sentença acima pode ser representada pelo avatar como mostra a figura 3.
A partir de agora, observe como utilizar transcrições estreitas. Pode-se usar o
mesmo procedimento de detalhamento da transcrição por glosas também para verbos não
direcionais que se sirvam do sinal auxiliar (AUX), como no exemplo (4) para o verbo
GOSTAR. A frase “João gosta da Maria e ela não gosta dele” pode ser transcrita como
segue:
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 38
Figura 3: <JOÃO.a>do <MARIA.b>do <a.DAR.b><LIVRO NÃO>n.
(4) <JOÃO.a>do <MARIA.b>do <a.AUX.b>do <GOSTAR>mc
<b.AUX.a>do <NÃO>n
Observe a realização dessa representação estreita no avatar da figura 4.
Figura 4: Sinalização do item (4)
Conforme foi visto nos exemplos (3) e (4), foi necessário um movimento de
cabeça e uma contração dos lábios para enfatizar a negação. Colocar ênfase em frases
negativas é comum também em línguas orais. Isso pode ser feito tanto pela entoação,
quanto pela duplicação da partícula negativa, por exemplo: “Eu não vou não”. Essa frase
em glosas seria transcrita assim:
(5) EU <NÃO IR>n <NÃO>n
Observe na figura 5 como o avatar poderia sinalizar essa frase.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 39
Nesse exemplo, a marcação do domínio <NÃO IR>n sugere o movimento de
cabeça de negação após o sinal EU, finalizando a frase com o sinal NÃO novamente.
Além disso, também é possível e gramaticalmente correto enfatizarmos uma
interrogativa. Por exemplo, na frase
Figura 5: EU <NÃO IR>n <NÃO>n
“Quem gosta de gato?” pode ser transcrita da seguinte forma: < QUEM GOSTAR
GATO >qu. Aqui o sinal QUEM está no lugar do sujeito, o que denota o sintagma
interrogativo. Com o intuito de enfatizar a pergunta, repete-se o sinal ao final da frase.
(6) <QUEM GOSTAR GATO>qu <QUEM>qu.
A expressão do item (6) pode ser sinalizada pelo avatar como mostra a figura 6.
Figura 6: <QUEM GOSTAR GATO>qu <QUEM>qu.
Nesse exemplo, vê-se claramente as expressões não manuais de levantamento de
cabeça e franzimento de testa. Essas características são comuns em interrogativas, como
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 40
apresentamos neste trabalho. Nesse mesmo sentido, as interrogativas dos tipos sim/não e
parciais também trazem sinais não manuais similares. Exemplos são as transcrições das
frases “O João comprou um carro?” e “O que João pegou?”. Veja suas transcrições e
representações nas figuras 7 e 8.
(7) <JOÃO COMPRAR CARRO>sn
Figura 7: <JOÃO COMPRAR CARRO >sn
Figura 8: <JOÃO PEGAR O QUE>qu
(8) <JOÃO PEGAR O QUE>qu
Recorde que na seção sobre “Aspectos linguísticos para implementação” foi
mencionado que, em interrogativas parciais, as expressões mais comuns são elevação de
cabeça, juntamente com um franzir de testa. as interrogativas sim/não são marcadas
com abaixamento de cabeça e elevação de sobrancelhas. São justamente essas
características que estão sendo realizadas pelo avatar. É bom lembrar que as expressões
faciais, ou não manuais no geral, são tão importantes que a literatura informa que sua
ausência acaba tornando agramatical as sentenças, quando a ordem não é SVO
(QUADROS; KARNOPP, 2004).
Essas expressões, como apresentadas acima, são usadas com um aspecto que
lembra a ênfase realizada pela entoação nas línguas orais. Através dessas mesmas
marcações, também podem ser comunicados estados emocionais. Em línguas orais é
muito comum o uso de alterações no grau de intensidade de adjetivos. Na libras, para
indicar uma intensificação utiliza-se o sinal “+”, por exemplo: bonito, muito bonito e
belíssimo. As transcrições desses sinais podem ser feitas da forma: BONITO,
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 41
<BONITO+>, <BONITO++>. As realizações dessas glosas com o avatar ficaria como
segue.
Figura 9: BONITO, <BONITO+>, <BONITO++>
É possível intensificar substantivos também, como o caso de “vergonha”, em que
ocorrem “muita vergonha”, “extrema vergonha”. Sua representação em glosas pode ser
feita como VERGONHA, <VERGONHA+>, <VERGONHA++>. Veja como o avatar
representa abaixo (figura 10).
Figura 10: VERGONHA, <VERGONHA+>, <VERGONHA++>
É importante notar que, nas representações correspondentes às figuras 9 e 10, os
sinais são intensificados de formas diferentes. Enquanto que no adjetivo “bonito” utiliza-
se apenas uma das mãos, a intensificação mais extrema de “vergonha” utiliza as duas. É
importante ressaltar a possibilidade de considerar essa intensificação por duplicação de
mãos como uma das formas de se expressar novos significados. Portanto, o estudo do
parâmetro número de mãos tem grande relevância para o avatar. Identificando sinais que
possuem essa mesma característica pode-se estabelecer um padrão ou um conjunto de
índices que facilite o reconhecimento desses sinais para o avatar.
Para finalizar, destaca-se o problema de sintaxe espacial, em que é preciso
flexionar o verbo em número. Isto é, existem casos em que o verbo precisa concordar com
uma ou mais pessoas.
Por exemplo:
(9) JOÃO a.ENTREGAR.b LIVRO
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 42
João entrega o livro para alguém.
(10) JOÃO a.ENTREGAR.bc LIVRO
João entrega um livro para cada um dos dois.
(11) JOÃO a.ENTREGAR.bcd LIVRO João entrega o livro para cada um dos
três.
(12) JOÃO a.ENTREGAR LIVRO.b+c+d.
João entrega o livro para todos.
Para o último exemplo, propõe-se a substituição de “b+c+d” por simplesmente a
palavra “todos”. Isso facilita a sinalização do avatar, em contraste com o movimento
diferenciado das primeiras transcrições, em que o verbo é repetido para cada pessoa, como
mencionado anteriormente. Já no último, pode ser realizado um único movimento
semicircular para incluir todos os referentes no discurso. Veja na figura 11 a sinalização
do avatar.
Figura 11: Sinalização dos itens (9), (10), (11) e (12)
Uma característica dessa realização pelo avatar é que a mão parte de uma
localização inicial específica no espaço para uma outra. Assim como os casos dos verbos
direcionais vistos, por exemplo, a marcação de JOÃO e MARIA como a e b,
respectivamente. Pode-se pensar, como trabalho futuro, o estreitamento da glosa
incorporando marcas que identifiquem a localização de pontos no espaço. Assim, seriam
informados ao avatar locais que ajudariam na sintaxe espacial.
Nessa seção, foram abordados aspectos essenciais para a sinalização de um avatar,
sobretudo o detalhamento de marcações nas glosas. Por sua vez, essas ideias podem ser
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 43
muito úteis para a inteligibilidade, espontaneidade e naturalidade do avatar. Vale destacar
também que tal estreitamento das glosas pode ajudar na compreensão da tradução
automática do português brasileiro para libras.
Considerações Finais
Este trabalho apresentou um panorama do uso e importância das glosas para a
pesquisa linguística em línguas de sinais, especificamente ASL e libras. Além de
assinalar, baseados nos usos que se consagraram no país, os aspectos distintivos das
glosas, procurou-se apontar para as representações mais econômicas a partir das quais foi
possível falar de níveis de representação largo e estreito, esse último fundamental para a
implementação de um avatar.
A partir do desenvolvimento desta pesquisa, surgiram ideias que podem ser
realizadas em trabalhos futuros, como, por exemplo: sistematização do parâmetro número
de mãos no caso de intensificação do avatar; a implementação e uma possível
padronização de expressões não manuais para interrogativas. Nesse caso, foi possível
fazer uma distinção entre atitude e função gramatical que pode ainda contribuir para o
entendimento do papel dos SNMs na expressão da atitude em libras. E ainda, a
especificação de pontos no espaço tridimensional que facilite a marcação de sujeitos e
objetos, conforme sugerido na sintaxe espacial.
Agradecimentos: Este trabalho foi financiado pelo Programa de Apoio à Pós-Graduação
e à Pesquisa Científica e Tecnológica em Tecnologia Assistiva (PGPTA) Edital
Capes/SDH/MCTI 59/2014 Processo # 88887.091672/2014-01 Projeto
“Tecnologias Assistivas para a Síntese, Tradução e Reconhecimento da Língua de Sinais
Brasileira”.
PAIVA, Francisco Aulísio dos Santos; MARTINO, José Mario De; BARBOSA, Plinio
Almeida; BENETTI, Ângelo Brandão; SILVA, Ivani Rodrigues. A transcription system
for Brazilian sign language: the case of an avatar. Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3,
p. 12-48, 2016.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 44
Abstract: Brazilian Sign Language (Libras) is a visuospatial language recognized as the
second official language of Brazil. There are several studies showing that sign languages
are natural languages. However, as far as writing is concerned and differently from oral
languages that can be represented by, for instance, the alphabetical system, Libras has
no widely-accepted transcription system. For the sake of readability, several authors
adopt a system of glosses. Glosses are words of an oral language used to approximately
represent a signal of a sign language. This work aims at proposing a scheme for gloss
transcription system by showing its importance for both linguistic and engineering
research. This study is relevant both to the study of language itself and to the building of
avatars devoted to automatic translation. In this work, glosses in ASL and Libras are
explicitly compared with each other in order to propose beneficial simplifications for the
transcription. Furthermore, a distinction between a broad and a narrow transcription of
glosses is presented, which allows its representation with a sign language virtual agent.
Keywords: Libras. Transcription. Glosses. Avatars. Automatic translation.
Submetido em: 29/04/2016.
Aceito em: 22/07/2016.
Referências
ALKOBY, K. A Survey of ASL Tenses. In: Proceedings of the 2nd Annual CTI
Research Symposium. 1999.
AMARAL, W. M.; DE MARTINO, J. M. Towards a transcription system of sign
language for 3d virtual agents. In: SOBH, T.; ELLEITHY, K. (Eds.). Innovations in
Computing Sciences and Software Engineering, Springer, 2010. p. 85-90.
AMARAL, W. M. Sistema de transição da língua brasileira de sinais voltado à
produção de conteúdo sinalizado por avatares 3D. 2012. 243 f. Tese (Doutorado em
Engenharia Elétrica) Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, Universidade
Estadual de Campinas, Campinas, 2012.
BAHAN, B. Non manual realization of agreement in American sign language.
Boston, MA: Ph.D. Dissertation, Boston University, 1996.
BAKER, C. Sentences in American Sign Language. In: BAKER, C.; BATTISON, R.
(Eds.). Sign Language and the Deaf Community: Essays in honor of William C. Stokoe.
Silver Spring, Md.: National Association of the Deaf, p. 75-86, 1980.
BAKER, C.; COKELY, D. American Sign Language: A Teacher’s Resource Text on
Grammar and Culture. Silver Spring, MD: T.J. Publishers, 1980.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 45
BAKER, C.; PADDEN, C. A. Focusing on the Nonmanual Components of American
Sign Language. In: SIPLE, P. (Ed.). Understanding Language through Sign Language
Research. New York: Academic Press, 1978. p. 27-57.
BAKER-SHENK, C. A Micro-Analysis of the Nonmanual Components of Questions
in American Sign Language. Doctoral Dissertation, University of California, Berkeley,
1983.
BATTISON, R. Phonological deletion in American Sign Language. Sign Language
Studies, 5, p. 1-19, 1974.
BELLUGI, U.; KLIMA, E. S.; SIPLE, P. Remembering in signs. Cognition, 3(2), p. 93-
125, 1975.
BRITO, P. H. S.; FRANCO, N. M.; CORADINE, L. C. FALIBRAS: Uma Ferramenta
Flexível para Promover Acessibilidade de Pessoas Surdas. TISE: Nuevas Ideas em
Informatica Educativa, 8, 2012.
CHAN-VIANNA, A. C. Aquisição de português por surdos: estruturas de posse. 2003.
144 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) Universidade de Brasília, Brasília, 2003.
CHAVEIRO, N.; BARBOSA, M. A.; PORTO, C. C. Revisão de literatura sobre o
atendimento ao paciente surdo pelos profissionais da saúde. Revista da Escola de
Enfermagem da USP, 42(3), p. 578-583, 2008.
DORR, B. J.; JORDAN, P. W.; BENOIT, J. W. A survey of current paradigms in machine
translation. Advances in computers, 49, p. 1-68, 1999.
ELLIOTT, R.; GLAUERT, J. R.; KENNAWAY, J. R.; MARSHALL, I. The development
of language processing support for the ViSiCAST project. In: Proceedings of the fourth
international ACM conference on Assistive technologies, p. 101-108, 2000.
FELIPE, T. A relação sintático-semântica dos verbos e seus argumentos na LIBRAS.
1998. 143 f. Tese (Doutorado em Linguística) Centro de Letras e Artes, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998.
FELIPE, T. Sistema de flexão verbal na Libras: Os classificadores enquanto marcadores
de flexão de gênero. In: Anais do Congresso Surdez e Pós-Modernidade: Novos rumos
para a educação brasileira, p. 37-58, 2002.
FELIPE, T. A.; MONTEIRO, M. S. Libras em Contexto: Curso Básico (Libras in
context: Basic Course). Rio de Janeiro: WalPrint Gráfica e Editora, 2007.
FERREIRA-BRITO, L. Por uma gramática de línguas de sinais. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1995.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 46
FERREIRA-BRITO, L.; LANGEVIN, R. Sistema Ferreira Brito-Langevin de
Transcrição de Sinais. In: FERREIRA BRITO, L. Por uma gramática de Língua de
Sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.
FINAU, R. A. Os sinais de tempo e aspecto na Libras. 2004. 238 f. Tese (Doutorado
em Letras) Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná,
Curitiba, 2004.
FISHER, S. Influences on word-order change in American Sign Language. In. LI, C.
(Ed.). Word Order and Word Order Change. Austin: University of Texas Press, p. 1-
25, 1975.
FRIEDMAN, L. Phonology of a soundless language: phonological structure of the
American Sign Language. Doctoral Dissertation, University of California, Berkeley,
1976.
FRISHBERG, N. J. Some aspects of the historical development of signs in American
Sign Language. Dissertation abstracts international. A. The humanities and social
sciences, 37(4), 1976.
HUENERFAUTH, M. A survey and critique of American Sign Language natural
language generation and machine translation systems. Technical Report, Computer
and Information Sciences, University Pennsylvania, MS-CIS-03-32, 2003.
KLIMA, E.; BELLUGI, U. The signs of language. Cambridge, Mass: Harvard
University Press, 1979.
KYLE, J.; WOLL, B. Sign language: The study of deaf people and their language.
Cambridge: Cambridge University Press. 1985.
LACERDA, C. A inclusão escolar de alunos surdos: o que dizem alunos, professores e
intérpretes sobre esta experiência. Cad. Cedes, Campinas, 26(69), p. 163-184, 2006.
LADEFOGED, P.; JOHNSON, K. A course in phonetics. Nelson Education, 2014.
LIDDELL, S. American sign language sintax. The Hague: Mouton, 1980.
LIDDELL, S. K. Grammar, gesture, and meaning in American Sign Language.
Cambridge University Press, 2003.
______. An Investigation into the Syntactic Structure of American Sign Language.
UMI, 1977.
LIDDELL, S. K.; JOHNSON, R. E. American Sign Language: the phonological base.
Sign Language Studies, v .64, p. 195-278, 1989.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 47
______. American Sign Language compound formation processes, lexicalization, and
phonological remnants. Natural Language and Linguistic Theory, 4(4), p. 445-513,
1986.
MCCLEARY, L.; VIOTTI, E. Transcrição de dados de uma língua sinalizada: um estudo
piloto da transcrição de narrativas na língua de sinais brasileira (LSB). In: SALLES, H.
(Org.). Bilinguismo dos surdos: questões linguísticas e educacionais. Goiânia: Canone
Editorial, 2007. p. 73-96.
MCCLEARY, L.; VIOTTI, E.; DE ARANTES LEITE, T. Descrição das línguas
sinalizadas: a questão da transcrição dos dados. ALFA: Revista de Linguística, 54(1), p.
265-289, 2010.
PADDEN, C. Interaction of morphology and syntax in American Sign Language.
Doctoral Dissertation, University of California, San Diego, 1983.
QUADROS, R. M. Phrase structure of Brazilian sign language. 1999. 280 f. Tese
(Doutorado em Linguística e Letras) Pontifícia Universidade Católica, Rio Grande do
Sul, 1999.
QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos.
Artmed Editora, 2004.
SANTOS, D. V. Estudos de língua de sinais: Um contexto para a análise da língua
brasileira de sinais (Libras). 2002. 378 f. Tese (Doutorado em Linguística) Faculdade
de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002.
SHEPARD-KEGL, J.; NEIDLE, C.; KEGL, J. A. Legal Ramifications of an Incorrect
Analysis of Tense in ASL. Journal of Interpretation, 7(1), p. 53-70, 1995.
SMITH, C.; LENTZ, E. M.; MIKOS, K. Signing Naturally, Teacher’s Curriculum
Guide, Level 1. Berkeley, CA: DawnSignPress, 1988.
STOKOE, W. C. Sign language structure. Silver Spring: Linstok Press, 1978.
______. Sign language structure: an outline of the visual communication system of the
american deaf. Studies in Linguistics: Occasional Papers 8. Buffalo, NY: Buffalo
University, 1960.
SUTTON, V. SignWriting web site. La Jolla, CA.: Deaf Action Committee for
SignWriting, v. 15, n. 2, p. 2006, 1996. Disponível em: <http://www.signwriting.org>.
Acesso em: 14 abr. 2016.
VEALE, T.; CONWAY, A.; COLLINS, B. The challenges of cross-modal translation:
English-to-Sign Language translation in the Zardoz system. Machine Translation, 13(1),
p. 81-106, 1998.
Revista do Gel, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 12-48, 2016 48
WILBUR, R. B.; MALAIA, E.; SHAY, R. A. Degree modification and intensification in
american sign language adjectives, Springer Berlin Heidelberg, p. 92-101, 2012.
WILCOX, S.; WILCOX, P. P. Learning to see: Teaching American Sign Language as a
second language. Gallaudet, University Press, 1997.
ZHAO, L.; KIPPER, K.; SCHULER, W.; VOGLER, C.; BADLER, N.; PALMER, M. A
machine translation system from English to American Sign Language. In: Envisioning
machine translation in the information future, p. 54-67, Springer Berlin Heidelberg,
2000.
... Nevertheless, the author also stated that, in other sign languages studies, eyebrow patterns seem to distinguish interrogative sentence types: furrowed eyebrows for wh-questions and raised eyebrows for yes-no questions, which is also mentioned by Borràs-Comes and Prieto (2011). Additionally, in line with these authors, a similar result was found in Brazilian Sign Language (Libras), since furrowed brow plus head up/elevation were described for wh-questions and raising eyebrows along with head lowering for yes-no questions (Paiva et al., 2016). ...
Article
Full-text available
The aim of this paper is to compare the multimodal production of assertions and questions in two different languages: Brazilian Portuguese and Mexican Spanish. Descriptions of the auditory and visual cues of these speech acts are presented based on Brazilian and Mexican corpora. The sentence "Como você sabe" was produced as an assertion and an echo question by ten speakers (five male) from Rio de Janeiro and the sentence "Apaga la tele" was produced as an assertion and a yes-no question by five speakers (three male) from Mexico City. The speech acts intonational patterns were described in terms of F0 movements and annotated in the nuclear region of the contours with ToBI system. Momentary facial muscular changes (namely Action Units) located in the upper and lower part of the face as well as head movements were used to analyze the facial expressions. The acoustic description showed that Brazilian Portuguese assertions are produced with a falling F0 nuclear configuration (H+L*L%) and echo questions with a rising F0 nuclear configuration (L+<H*L%). Mexican Spanish assertions present two types of F0 nuclear configurations, either a low flat nuclear F0 (L*L%) or a falling-rising (L+H*L%) nuclear F0, whereas Mexican Spanish yes-no questions are produced with a low nuclear F0 followed by a rising boundary tone (L*LH%). The outcome of the visual analysis indicates that, whereas Brazilian Portuguese assertions are visually produced with blink and right head tilt and Mexican Spanish assertions with lip stretcher, lowering the eyebrows, tightening the eyelid and wrinkling the nose can be considered question markers in both language varieties.
Research
Full-text available
Chaibue e Aguiar (2016) submitted statistical data to demonstrate major difficulties on the part of the Sign Language Translators/Interpreters when translating from Brazilian Sign Language (Libras) to Oral Portuguese (LPO). I will consider that, by associating Translation Studies with the current Sociolinguistics Studies, it is possible to provide solutions for the translation of the voices and images of the Deaf Gay when performing an artistic show as a Drag Queen. Thus, from a qualitative approach in which data analysis was inductive and interpretative, I invoked the (re)interpretation of the translation techniques – reformulation, free translation and back translation – so as to understand the linguistic variation, the social meaning of the variation and the speech style of the Drag Queen. As a result, I have confirmed the hypothesis raised: for translating the voices and images of the Deaf Gay when performing a Drag Queen, it is essential to associate Translation Studies with Gender and Style Studies, in particular those ones which Sociolinguistics are embedded.
Article
Full-text available
Eixo Temático 1. Práticas educacionais bilíngues para surdos na educação infantil ao ensino superior RESUMO Pretende-se com o artigo, compreender questões relacionadas às causas e efeitos da aquisição tardia da língua de sinais por alunos surdos atendidos no contraturno escolar no Centro de Capacitação de Profissionais de Educação e Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS), situado no município de Cascavel-PR, Brasil. Para explorar as informações, organizou-se questionários semiestruturados de aplicação remota para os profissionais que acompanham os alunos do CAS e para os respectivos responsáveis. Posteriormente, os alunos foram entrevistados para triangular as entrevistas com as respostas dos questionários, com foco na análise qualitativa. As entrevistas serão transcritas com o auxílio do software Eudico Language Annotator (ELAN). Esta pesquisa, em andamento, apresenta resultados parciais que ainda não permitem conclusões. A ferramenta analítica a ser utilizada nesse estudo como procedimento de pesquisa será a análise textual discursiva (ATD), por tratar-se de um exercício com características epistemológicas por meio da desconstrução e reconstrução de textos propostos para a constituição de um todo integrado. Desse modo, espera-se compreender o que se mostra no fenômeno quanto às causas e efeitos da aquisição tardia da língua de sinais dos alunos do município de Cascavel-PR. Palavras-chave: Aquisição tardia da língua; Língua de sinais; Crianças surdas. ABSTRACT The aim of the article is to understand issues related to the causes and effects of late sign language acquisition by deaf students assisted during counter-round school at the Training
Article
Full-text available
RESUMO: Com o advento das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) tem-se o surgimento de pesquisas acadêmicas sobre sistemas computacionais de Tradução Automática (TA) do Português Brasileiro (PB) para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Diante deste cenário, este estudo realiza uma Revisão Sistemática de Literatura (RSL) de artigos científicos brasileiros relativos à temática em questão, com vistas a analisar a produção científica desses durante o período de 2010 a 2018. Esta é uma pesquisa quanti-qualitativa, na qual foram analisados, sob o viés da RSL, 21 artigos científicos, coletados via Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Google Acadêmico, os quais foram classificados em duas categorias (Ciências da Computação e Linguística Aplicada) e três subcategorias (Reflexão, Proposta, Experiência), para fins de sistematização da análise de dados. Os resultados revelaram aspectos como (a) a baixa produção científica sobre TA PB-Libras, (b) as regiões brasileiras Nordeste e Sul como os principais polos de publicação e (c) um percentual de artigos científicos mais expressivo voltado a abordagens relacionadas à área das Ciências da Computação do que à Linguística Aplicada. PALAVRAS-CHAVE: sistemas computacionais; tradução automática; Libras; revisão sistemática de literatura.
Chapter
Full-text available
Scalar adjectives lacking closed upper boundaries (like far) can be coerced to have a closed upper boundary reading when combined with degree modification with too, e.g. too far to walk. Parallel to the mapping of event structure to scalar structure in adjectives [4], we observe that scalar adjectives are end-marked in ASL. These adjectives receive marking similar to telic verbs, indicating that, like the visibility of event structure in verbs, scalar structure, or at least the upper boundary, is also visible in ASL. The Event Visibility Hypothesis (EVH) was formulated based on the observation that telic verb signs are distinguished from atelics by end-marking reflecting final states of telic events. Here, it is extended to a general Visibility Hypothesis for sign languages.
Book
This study, first published in 1988, examines cases of interaction of morphology and syntax in American Sign Language and proposes that clause structure and syntactic phenomena are not defined in terms of verb agreement or sign order, but in terms of grammatical relations. Using the framework of relational grammar developed by Perlmutter and Postal in which grammatical relations such as "subject", "direct object", etc. are taken as primitives of linguistic theory, facts about syntactic phenomena, including verb agreement and sign order are accounted for in a general way. This title will be of interest to students of language and linguistics.
Article
The American Sign Language of the deaf (ASL) has a level of structure which is analogous to phonology. The natural basis for both lexical description and analysis of variation is the articulatory dynamics of the hands and body.
Article
In the sign languages of the deaf some signs can meaningfully point toward things or can be meaningfully placed in the space ahead of the signer. Such spatial uses of signs are an obligatory part of fluent grammatical signing. There is no parallel for this in vocally produced languages. This book focuses on American Sign Language to examine the grammatical and conceptual purposes served by these directional signs and demonstrates a remarkable integration of grammar and gesture in the service of constructing meaning.
Article
RESUMO: Este artigo focaliza uma experiência de inclusão de aluno surdo em escola regular, com a presença de intérprete de língua de si-nais. Alunos, professores e intérpretes envolvidos foram entrevistados e seus depoimentos analisados. Os dados indicam problemas que ocorrem no espaço escolar, alguns identificados pelos entrevistados como desconhecimento sobre a surdez e sobre suas implicações edu-cacionais, dificuldades na interação professor/intérprete e a incerteza em relação ao papel dos diferentes atores neste cenário. Os depoi-mentos apontam ainda dificuldades com adaptações curriculares e estratégias de aula, exclusão do aluno surdo de atividades. Todavia, tais aspectos são negligenciados, já que há um pressuposto tácito de que a inclusão escolar é um bem em si. Pretende-se contribuir para a reflexão acerca de práticas inclusivas envolvendo surdos, procurando compreender seus efeitos, limites e possibilidades e buscando uma atitude educacional responsável e conseqüente frente a este grupo. ABSTRACT: This paper focuses on the experience of deaf student inclusion in a regular school, with the presence of sign language in-terpreters. The students, teachers and interpreters involved were interviewed and their statements were analyzed. These data de-scribes the problems occurring at school as ignorance on deafness * Doutora em Educação e docente do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Cur-so de Fonoaudiologia da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP).