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Resumo Este artigo tem como objetivo analisar se o uso do protocolo moderno para tratamento de séries temporais corrobora os resultados encontrados anteriormente na literatura. Especificamente, analisamos o argumento não-estruturalista dos efeitos de política monetária desenvolvida na década de 70. As contribuições deste artigo são: (a) revisar os argumentos não-estruturalistas tal como expostos por Carlos Manuel Peláez e Wilson Suzigan e, posteriormente, em toda a obra do primeiro e, (b) testar a causalidade entre moeda, produto e preços, central no argu-mento dos autores, sobre a importância da política monetária, com um teste de tri-causalidade, desenvolvido por Hill (2007). Os resultados originais dos autores são corroborados, já que a política monetária (medida pela base monetária) tem efeitos sobre o produto nominal, mas não sobre o real. Abstract This article aims to examine if the use of modern protocol for time series data analysis corroborates the results found previously in the literature. Specifically, we inspect non-structuralist´s argument developed in the 70s about monetary policy effects. The contributions of this paper are: (a) reviewing non-structuralist arguments as set by Carlos Manuel Peláez and Wilson Suzigan and later in all the work of the first author and (b) test the causality between money, output and prices, the central argument of the authors on the importance of monetary policy, with a tri-causality test, developed by Hill (2007). The original results of the authors are corroborated, since monetary policy (measured by monetary base) has nominal effect on the product, but not on the real one.
Revista de Economia e Administração, v.13, n.3, 312-327p, jul./set. 2014 312
Claudio Djissey Shikida, Ari Francisco de Araujo Jr e Erik Figueiredo
Política Monetária, Produto e Preços:
Contribuições de Peláez e um teste de
tri-causalidade para o período 1861-1970
http://dx.doi.org/10.11132/rea.2014.958
Claudio Djissey Shikida
PPGOM-UFPel - Brasil
e-mail: claudio.shikida@ufpel.edu.br
Ari Francisco de Araujo Jr
Ibmec-MG - Brasil
e-mail: arifaj@gmail.com
Erik Figueiredo
PPGE-UFPB - Brasil
e-mail: eagueiredo@gmail.com
Resumo
Este artigo tem como objetivo analisar se o uso do protocolo moderno para tratamento de séries
temporais corrobora os resultados encontrados anteriormente na literatura. Especicamente,
analisamos o argumento não-estruturalista dos efeitos de política monetária desenvolvida na
década de 70. As contribuições deste artigo são: (a) revisar os argumentos não-estruturalistas
tal como expostos por Carlos Manuel Peláez e Wilson Suzigan e, posteriormente, em toda a
obra do primeiro e, (b) testar a causalidade entre moeda, produto e preços, central no argu-
mento dos autores, sobre a importância da política monetária, com um teste de tri-causalidade,
desenvolvido por Hill (2007). Os resultados originais dos autores são corroborados, já que a
política monetária (medida pela base monetária) tem efeitos sobre o produto nominal, mas
não sobre o real.
Palavras-chaves: Política Monetária, Tri-Causalidade, História Econômica do Brasil, História
do Pensamento Econômico Brasileiro.
Abstract
This article aims to examine if the use of modern protocol for time series data analysis corro-
borates the results found previously in the literature. Specically, we inspect non-structuralist´s
argument developed in the 70s about monetary policy effects. The contributions of this paper
are: (a) reviewing non-structuralist arguments as set by Carlos Manuel Peláez and Wilson
Suzigan and later in all the work of the rst author and (b) test the causality between money,
output and prices, the central argument of the authors on the importance of monetary policy,
with a tri-causality test, developed by Hill (2007). The original results of the authors are
corroborated, since monetary policy (measured by monetary base) has nominal effect on the
product, but not on the real one.
Keywords: Monetary Policy, Tri-Causality, Economic History of Brazil, Brazilian Economic
History of Thought.
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Política Monetária, Produto e Preços: Contribuições de Peláez e um teste de
tri-causalidade para o período 1861-1970
1. Introdução1
Many of the export economies of Latin America are characterized by an
even more frustrating intellectual phenomenon: theory without reality
[Peláez (1976), 287]
Carlos Manuel Peláez publicou extensivamente sobre história econômica
brasileira durante quase três décadas, dos anos 1970 aos 1990. Embora tenha
sido inicialmente um entusiasta da “escola” estruturalista, mudou de idéia em
seu mestrado e tornou-se crítico desta abordagem. Sem pretensões exausti-
vas, pode-se resumir sua postura crítica em relação à ortodoxia estruturalista
em dois itens: (i) a moeda tem um papel importante na história econômica
brasileira e (ii) a “especicidade” da América Latina deveria ser testada à luz
da teoria econômica e dos dados, ao invés de simplesmente assumida como
um axioma.
O primeiro item segue-se não de uma posição unicamente monetarista, mas
também, como chama a atenção o prefaciador de um de seus livros, das idéias
keynesianas, e mesmo de Leijonhufvud (em sua original reintepretação de Key-
nes2). O que se pode inferir da leitura dos textos de Peláez, individualmente ou
em co-autoria com Wilson Suzigan, é que o contraponto à teoria estruturalista se
dá com o destaque do papel da política monetária na economia. A segunda parte
desta crítica se enquadra em um movimento geral da historiograa econômica
brasileira, defendendo o levantamento de dados para ns de testes de hipóteses e
não apenas para ilustrações de hipóteses pré-concebidas. Este ponto é apontado
tanto por Versiani & Mendonça de Barros (1978) quanto pelo próprio Peláez,
em vários de seus trabalhos3.
Peláez4, então, coloca-se em constante contraponto a um dos mais inuentes
autores estruturalistas, Celso Furtado. Uma análise parcial do debate entre ambos
foi feita por Silber (1978). Naquele texto, mostrou-se que tanto a interpretação
de Furtado quanto a de Peláez foram insatisfatórias para explicar a política
econômica do período 1929-39. Este estudo talvez seja o mais próxima de uma
investigação do pensamento de Peláez o qual, surpreendentemente, tem sido
ignorado na historiograa do pensamento econômico brasileiro. Entretanto, é
difícil fazer qualquer armação histórica mais embasada sobre o papel da po-
lítica monetária na história econômica brasileira ou revisar as críticas à escola
1 Os autores dedicam este artigo ao falecido prof. Ernani Teixeira, excelente educador que conhecia, como
poucos, os pontos importantes da Economia Monetária.
2 Ver Leijonhufvud (1969).
3 Exemplos de trabalhos que levantaram dados históricos importantes são: Contador & Haddad (1975), Delm
Netto (2009 [1959]) e Pastore (1973a), Villela & Suzigan (1973) e Peláez (1972, 1973).
4 Embora os trabalhos iniciais sejam de ambos os autores (Peláez e Suzigan), a insistência na crítica a Furtado
é mais evidente nos trabalhos do primeiro. Assim, embora a crítica inicial seja devida a ambos os autores,
optamos por classicá-la como uma crítica de Peláez. Entretanto, é importante ressaltar que o estudo inicial
ao qual nos referimos aqui, surge inicialmente, em seus dois trabalhos conjuntos: Peláez & Suzigan (1978,
1981 [1976]).
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estruturalista sem citar seu trabalho junto a Suzigan (Peláez & Suzigan (1978,
1981) e Peláez (1979).
Mesmo Bielschowsky (1989), referência básica sobre o pensamento econô-
mico brasileiro, cita não-brasileiros como Prebisch, mas não cita Peláez (que
é cubano de nascimento)5. A mesma ausência é sentida em Coelho & Szmrec-
nyi (2007) ou nas análises sobre a formação da ciência econômica brasileira
organizadas em Loureiro (1997).
Talvez esta ausência seja devida ao pouco destaque que se dá, no Brasil, nas
análises do pensamento econômico brasileiro, a contribuições de cunho mais
quantitativo. Neste sentido, nosso trabalho tem um caráter pioneiro: não anali-
samos as críticas feitas por Peláez & Suzigan (e, posteriormente, pelo próprio
Peláez) apenas como uma crítica retórica a esta ou aquela teoria. Nossa aborda-
gem é revisitar o teste empírico (inovador para a época) feito por estes autores à
ortodoxia da época6. O trabalho de um historiador econômico, inevitavelmente
passa pela análise dos dados por meio do uso – espera-se – da melhor tecnologia
estatística da época. Nos anos 70, vários historiadores se queixavam da falta
de dados primários e enfatizavam exatamente este ponto como, por exemplo,
Buescu (1970) e Peláez & Buescu (1975).
É sabido que a metodologia de análise de vetores autoregressivos (VAR)
só se popularizou no Brasil no início dos anos 907. Na história do pensamento
econômico brasileiro, Peláez & Suzigan (1978, 1981) e Peláez (1979) foram os
pioneiros na aplicação deste teste. Até onde os autores saibam, contudo, não se
encontram citações a esta aplicação do teste de causalidade de Granger-Sims
em dados brasileiros na literatura nacional8.
Neste artigo, revisitamos este estudo. Embora os autores tenham sido pio-
neiros no uso da análise VAR, na época, não havia um protocolo consensual, na
literatura, sobre o tratamento de tendências estocásticas, ou mesmo sobre a sua
interpretação em termos da teoria econômica. Assim, perguntamo-nos sobre se
seus resultados se mantém quando aplicamos conceitos econométricos recentes
à sua base de dados.
De certa forma, mas não exatamente, pode-se dizer que testamos a intuição
destes autores. Com inspiração na literatura de dados econômicos em tempo real9,
em que se analisa o potencial distorcionário de revisões nas séries econômicas,
nossa análise emprega quase toda a base de dados original dos autores, sem atu-
5 Um resumo não-exaustivo da obra de Peláez incluiria: Peláez (1972, 1973, 1976, 1977, 1979, 1986, 1987) e,
em conjunto com Suzigan, Peláez & Suzigan (1978, 1981). Para uma resenha mais precisa dos trabalhos de
Peláez, basta consultar as referências bibliográcas em cada um destes textos.
6 Outro pioneiro foi Delm Netto. Ver, a este respeito, Delm Netto (2009 [1959]) e também o resumo sobre
sua obra em Macedo (2001).
7 Uma resenha de caráter didático com aplicações em séries de tempo nacionais encontra-se em Valls Pereira
(1988), um nome importante na disseminação destes métodos no Brasil. Outro trabalho importante na época
(por disseminar os conceitos de cointegração e testes de causalidade ao receber o Prêmio BNDES) foi Nakane
(1994), cuja discussão, inclusive, tratou do problema da demanda de moeda no Brasil.
8 Vale a pena lembrar que o teste de causalidade de Granger-Sims inclui não apenas valores defasados no lado
direito do VAR, mas também valores futuros. Para detalhes, ver Peláez (1979).
9 Um resumo desta literatura com aplicações para o Brasil encontra-se em Cusinatto et al (2010).
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Política Monetária, Produto e Preços: Contribuições de Peláez e um teste de
tri-causalidade para o período 1861-1970
alizações que porventura tenham sido feitas posteriormente e investigamos se o
autor, caso pudesse utilizar a econometria atual, chegaria a conclusões distintas.
Além disso, os resultados nos permitem lançar luz sobre alguns aspectos de
sua visão sobre o papel da moeda na história econômica brasileira, um tópico
sobre o qual Peláez se debruçou enfaticamente no período mais prolíco de
sua produção.
A atualização metodológica não inclui apenas o tratamento do problema
de raízes unitárias, mas também trata a questão de causalidade considerando o
curto e o longo prazo, seguindo a metodologia desenvolvida por Hill (2007).
Este ferramental permite caracterizar as associações entre as três variáveis de
interesse, a partir de uma estrutura de vetores autorregressivos (VAR).
Desta forma, este artigo segue com uma rápida resenha sobre a teoria mo-
netária dos autores. Em seguida, descreve-se a base de dados e a metodologia
empregada neste artigo. Os resultados são reportados na seção 4. Ao nal, ob-
viamente, tecemos alguns comentários sobre o trabalho na seção de conclusão.
2. O papel da moeda no pensamento de Peláez
Ignorar a moeda na análise da economia brasileira equivale a abandonar
qualquer relacionamento com a realidade. Em poucas palavras, a moeda
é importante [Peláez (1979), 108]
Em Peláez & Suzigan (1978) encontra-se, provavelmente, o melhor resumo
sobre o pensamento dos autores acerca do papel da moeda no sistema econômi-
co10. O livro, dividido em seis capítulos (incluindo a introdução), busca fami-
liarizar o leitor brasileiro com o debate macroeconômico monetário da época.
Trata-se de um livro-texto intermediário, com ênfase não apenas na exposição da
teoria macroeconômica da época, mas também em testes empíricos das mesmas.
Os capítulos segundo e terceiro apresentam, respectivamente, diversos
modelos de demanda de moeda11 e um resumo sobre o estado da arte – da
época – sobre o uso dos agregados monetários em mensurações da demanda
de moeda, bem como as estimações da mesma. A conclusão é que a escolha do
agregado (M1 ou M2) seria, basicamente, uma questão empírica. Além disso,
há uma resenha empírica sobre problemas na estimação de funções de demanda,
com um foco especial para dados da América Latina. A conclusão da resenha
empírica é a de que modelos no estilo ARIMA seriam os mais adequados para
os estudos de demanda por moeda.
No quarto capítulo, os autores apresentam os conceitos básicos da oferta
monetária e, em seguida, são discutidos os resultados dos clássicos Friedman
10 Estas idéias apareceriam, posteriormente, em quase todos os livros de Peláez.
11 A teoria quantitativa da moeda (TQM), a equação de Cambridge, a reformulação friedmaniana da TQM, o
modelo de Brunner-Meltzer, a preferência pela liquidez segundo Keynes, modelos “neokeynesianos” como
a demanda por encaixes reais de Baumol, o modelo da composição ótima de ativos de Tobin e o curioso
modelo das “duas tríades” de Hicks.
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& Schwartz (1963), Cagan (1965), além de outros autores, com ênfase não
apenas nos aspectos institucionais da oferta de moeda, mas também – como nos
capítulos anteriores – nos problemas econométricos relacionados a estimações.
O quinto capítulo analisa o papel da política monetária, sintetizando os
capítulos anteriores. O modelo IS-LM é rapidamente exposto e, em seguida,
os autores analisam a abordagem de Friedman (“teoria monetária da renda no-
minal”), na qual este modelo é complementado pela equação de Fisher e pela
hipótese de homogeneidade de grau um sobre a demanda de moeda. O capítulo
conclui com uma breve introdução à discussão sobre o debate entre os modelos de
equações estruturais e os da forma reduzida (o famoso modelo de Saint Louis)12.
No capítulo 6, o interesse dos autores volta-se para os resultados estatísticos
sobre a programação monetária do caso brasileiro. Seus resultados teóricos e
empíricos iniciais sugerem que o comportamento econômico agregado não é
dominado pelos fatores estruturais (que os autores chamam de hipótese con-
vencional do desenvolvimento econômico brasileiro, ou seja, mainstream”
da época: a visão estruturalista).
Além disso, nossa inação no período poderia ser, de fato, encarada como
um fenômeno monetário. Do ponto de vista teórico, os autores argumentam que,
para a sustentação da TQM, são necessárias a separação (1) da oferta e demanda
de moeda e (2) do multiplicador de moeda da base monetária. A separabilidade
entre oferta e demanda de moeda é vericada empiricamente. Além disso, o
teste de Granger-Sims (recém-desenvolvido na época) sugeria causalidade
unidirecional da moeda para a renda nominal. Esses resultados sinalizavam,
segundo os autores, que as decisões quanto à demanda de moeda do setor pri-
vado seriam estáveis e que as mudanças na renda nominal e nos preços seriam
fruto de choques exógenos na política monetária (interpretação monetarista da
inação brasileira da época).
Adicionalmente, a evidência econométrica dos autores sugeria a não-rejeição
da hipótese de separabilidade entre a base monetária e o multiplicador de moeda,
ou seja, a experiência brasileira parecia mostrar que os controles monetários
eram escassamente ecazes no curto prazo.
Em contraposição à ortodoxia da época, formada pelas diversas proposições
estruturalistas, Peláez & Suzigan (1978) enfatizavam os impactos da política
monetária nas economias latino-americanas. Preocupados não apenas com a
comparação teórica de modelos, os autores mostravam preocupação com os
testes empíricos. Após breve resenha do assunto, postularam que:
“Primeiro, um aumento da base monetária pode ser compensado por
variações em direção oposta do multiplicador da moeda causadas pelo
comportamento do público e do sistema bancário comercial. Destarte,
12 Outros modelos citados são o de Brunner-Meltzer (no qual inclui-se a restrição orçamentária do governo no
arcabouço IS-LM com três ativos nanceiros), Tobin e o de Tobin-Buiter. Outro bom resumo sobre o debate
macroeconômico da época encontra-se em Barbosa (1983) e Barbosa (1992). De forma mais didática, o debate
aparece também em Branson & Litvack (1978).
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a política monetária efetiva requer que os fatores que afetam o multipli-
cador da moeda sejam independentes do que afetam a base monetária.
Empiricamente, deve existir ortogonalidade das variações percentuais
no multiplicador e na base monetária. Segundo, mesmo se a variação
na base monetária tivesse impacto total no estoque de moeda, o impul-
so monetário poderia não afetar totalmente a renda nominal devido à
causalidade reversiva sob a forma de variações em direção oposta da
velocidade-renda da moeda. (...) Empiricamente, a segunda condição
de separação requer ortogonalidade de variações percentuais na
velocidade-renda (ou seja, a demanda de moeda) e na oferta de moeda.
[Peláez & Suzigan (1978): 9-10]
Mais especicamente, o modelo teórico utilizado em Peláez & Suzigan
(1978) (e também Peláez (1979)) assume uma demanda de moeda:
md = f(yp, r) (1)
Ou seja, a demanda por encaixes reais de moeda é função positiva da renda
permanente e negativa da taxa de juros. Sendo esta função estável13, então va-
riações na renda nominal seguir-se-iam de variações na oferta de moeda. Assim,
a oferta nominal de moeda seria:
M = KH (2)
Em (2), como M é a oferta nominal de moeda e H é a base monetária
(papel-moeda em poder do público, C, mais encaixes dos bancos comerciais,
R), então k é o multiplicador monetário. A expressão do multiplicador pode ser
encontrada se detalharmos a composição da base monetária. A mesma é dada
pela soma do papel-moeda em poder do público (cM) e o encaixe total dos
bancos (drM). Ou seja:
, com c + d = 1 (3)
Reescrevendo, obtemos a expressão (2) anterior, com o multiplicador de-
sagregado:
H = (1 – d) M + drMM = H (4)
A teoria quantitativa da moeda é dada por:
13 Os autores apresentam evidências de estabilidade da demanda de moeda no Brasil e no mundo. Ver Peláez
& Suzigan (1978).
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MV = Py (5)
Com a demanda por moeda estável, temos, com (4) e (5), que:
MV = Py (6)
De (6) temos as relações de causalidade supostas por Peláez14:
Seguindo a formulação de Friedman, assume-se que C/M, R/D e H sejam
independentes de Py e P, o que faz com que variações nestas variáveis sejam
resultantes apenas de variações em M15. Obviamente, não se espera causalidade
de M para a renda real y (= Py/P).
3. Base de dados e Metodologia
Como citado anteriormente, para este artigo usamos os dados originais de
Peláez e Suzigan. Entretanto, é necessário fazer duas ressalvas. Peláez (1979)
utilizou em seus testes de Granger-Sims uma base de dados delimitada entre
1870 e 1976 oriunda de Peláez & Suzigan (1978)16. Após 1972, alguns dados
foram retirados do Banco Central e de Contador & Haddad (1975)17 . Em nos-
so caso, as variáveis foram transformadas em índices (com a base em 1949) e
logaritmizadas18. Em segundo lugar, não havia, em Peláez & Suzigan (1981)
uma série de base monetária completa para 1972 (apenas os dois primeiros
trimestres foram reportados), não permitindo a construção completa da base de
dados. Entretanto, Peláez (1979) arma que os resultados obtidos com a base
14 O diagrama a seguir aparece em praticamente todas as obras de Peláez, quando o autor pretende enfatizar o
papel dos fatores monetários.
15 Do ponto de vista monetarista, como destaca Barbosa (1983), a moeda seria controlável, não necessariamente
endógena pois é fácil construir modelos monetaristas com moeda endógena. O que distinguiria, segundo este
autor, a visão monetarista e a estruturalista seria a passividade da moeda, no sentido de que a base monetária
seria endógena ao modelo. Neste caso, a velocidade-renda da moeda ou o multiplicador monetário seriam
instáveis. Outro argumento estruturalista é o de que a passividade da moeda seria devida a uma relação causal
na qual o governo geraria décits para depois emitir moeda (argumento devido a Inácio Rangel). Para detalhes,
ver Barbosa (1983), cap.4, seção IV.5.
16 Na verdade, na primeira edição do livro, de 1976.
17 Reproduzidos em Contador (1977).
18 Vale dizer que os autores não deixam claro se utilizaram os índices logaritmizados ou se usaram logaritmos
diretamente sobre as séries. A leitura de Peláez & Suzigan (1978) e Peláez (1979) parece apontar para a
segunda alternativa.
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tri-causalidade para o período 1861-1970
entre 1870 e 1976 não se alteravam com a amostra estendida para trás, para o
período 1861-1976. Desta forma, trabalhamos com a base no período 1861-
1970. Adicionalmente, resolvemos testar a causalidade usando duas medidas
de “moeda”: M1 e a base monetária (H).
Isso posto, passa-se a apresentação do teste para causalidade de longo-prazo
desenvolvido por Hill (2007). O método baseia-se em uma estrutura trivariada
para os vetores autoregressivos (VAR), permitindo caracterizar causalidades
não-lineares entre as variáveis. Para tanto, estabelece-se uma cadeia de cau-
salidades em múltiplos períodos, considerando um processo estacionário Wt =
(X´t, Y´t, Z´t)´.
Dessa forma, diz-se que Y não causa X no horizonte h > 0” (denotada por Y
X) se a inclusão dos valores passados e presentes de Y não melhorarem o
erro quadrático médio mínimo da previsão para Xt+h em algum t. Assim, pode-se
dizer que Y não causa X até o horizonte h > 0” (Y X), se Y X para cada
k = 1, 2,..., h. Por m, “Y não causa X em qualquer horizonte h > 0” (Y X),
se Y X, para todos os h > 0.
Dito isso, assume-se que
Wt = πi Wt–i + εt,
Com erro ortogonal, E(εt,i Wt–k,j) = 0 e média zero. A previsão h-passos à
frente, Wt+h, satisfaz:
Wt+h = πi Wt+h–i = πi
(h) Wt+1–i
+ εt,
Com,
Por exemplo, representa a matriz de constantes mx × my, associadas à
inuência causal de Y para X.
Isso posto, a cadeia de causalidades é estabelecida a partir da seguinte
caracterização:
Passo 1: Y sempre causa X? Usando uma estratégia trivariada, o teste inicial
será:
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H0
(∞) : Y (X, Z) πXY = πZY = 0 (Teste 0.1)
H0
(∞) : (Y, Z) X πXY = πXZ = 0 (Teste 0.2)
Se ambas as hipóteses forem rejeitadas, procede-se o teste para a não cau-
salidade em horizontes especícos.
Passo 2: Teste para Y X, Y Z e Z X, ou seja, se há causalidade
um passo à frente.
Em primeiro lugar, observa-se se Y causa X um passo à frente:
H0
(1) : Y X πXY = πXZ = 0 (Teste 1.0).
Se a evidência sugere a não causalidade entre Y e X, realizam-se:
H0
(1.1) : Y Z πZY = 0 (Teste 1.1)
H0
(1.2) : Z X πXZ = 0 (Teste 1.2)
Caso um dos testes conrme a não causalidade, então está-se diante de uma
quebra na cadeia da causalidade. Logo, conclui-se que Y X. Se as hipóteses
nulas dos testes 1.1 e 1.2 forem rejeitadas, procede-se ao passo 3.
Passo 3: Teste para causalidade em múltiplos horizontes. Esse passo
é necessário se os testes anteriores sugerirem que não há cau-
salidade entre Y e X, mas que existe uma cadeia de causalidade
entre Y, X e Z.
H0
(h) : Y X πXY = πXZ,i = 0, i = 1,..., h –1 (Teste h.0).
No caso especíco deste estudo, onde se investigará a relação de causalidade
entre Moeda, Produto e Preços, a partir de duas especicações, Y1 = M1, X =
Produto, Z = Preços e, Y2 = Base Monetária (h), X = Produto, Z =Preços, os
testes serão procedidos da seguinte forma: a) no Passo 1 observa-se se há uma
relação de causalidade da moeda para o produto e os preços (Teste 0.1), e da
moeda e dos preços para o produto (Teste 0.2). Caso se estabeleça uma relação
de causalidade, passa-se para o Passo 2, vericando as causalidades simples (um
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tri-causalidade para o período 1861-1970
passo à frente), de moeda para o produto (Teste 1.0), de moeda para os preços
(Teste 1.1), e dos preços para produto (Teste 1.2). Por m, caso se verique que
não há causalidade entre Moeda e Produto, mas há uma cadeia de causalidade
entre Moeda, Preços e Produto, adotam-se os testes do Passo 3.
4. Resultados
Nesta seção serão apresentados e discutidos os principais resultados do
estudo. Serão considerados quatro conjuntos de estimação, denominados de
Estruturas. Cada Estrutura será composta por uma matriz Wt contendo três va-
riáveis. A inferência se baseará em duas estimações, uma com as variáveis em
primeira diferença e outra com as variáveis em nível.19 Logo, a seção conterá
oito estimações, duas para cada Estrutura.
Os quatro bancos de dados serão: 1) Estrutura I: Wt = (M1, PIB, d), ou
seja, a moeda representada por M1, o produto nominal e o deator implícito
do PIB; 2) Estrutura II: W (h, PIB, d), onde, o h será a base monetária; 3)
Estrutura III: Wt = (M1, PIBR, d), com o PIBR representado o produto real e;
2) Estrutura IV: Wt = (h, PIBR, d).
Os oito VAR’s estimados terão as defasagens selecionadas pelo critério de
Akaike (AIC). Os testes para as Estruturas I e II, portanto, relacionados ao pro-
duto nominal, estão sumarizados na Tabela 1. Note que o cronograma segue os
Passos 1 e 2. As hipóteses nulas dos testes são apresentadas na segunda coluna.
A terceira e a quarta colunas contêm os p-values para os testes de causalidade em
primeira diferença (Diff) e em nível (Level). Nessa etapa está-se considerando a
Estrutura I: M1, Produto nominal e Preços (Y, X e Z). A quinta e sexta colunas
dispõem os p-values para os testes de causalidade considerando a Estrutura II:
Base Monetária, Produto nominal e Preços. As estimações foram baseadas em
uma janela xa de tamanho sessenta e um. Dado que a amostra contém apenas
cento e dez observações, optou-se por xar a ordem máxima da defasagem do
VAR em seis.
Para a Estrutura I, em primeira diferença, selecionou-se um VAR com seis
defasagens. Os testes para vericação da causalidade entre moeda e renda
para vários horizontes (Teste 0.1 e Teste 0.2), indicam que a hipótese nula da
não causalidade é rejeitada a um nível de signicância de 1% (p-values iguais
a 0,0000). Ou seja, moeda causa produto e preços e; moeda e preços causam
produto. Diante disso, buscou-se estabelecer a cadeia de causalidade um passo
à frente, moeda-produto, moeda-preços, preços-produto (Testes 1.0, 1.1 e 1.2).
Novamente, foram rejeitadas as hipóteses nulas de não causalidade a um nível
de signicância de 1%. Desta forma, foram estimados testes de causalidade para
horizontes especícos, de 2 a 6.
19 Foram realizados os testes para raiz unitária de Phillips e Perron, PP, e KPSS. Os resultados indicaram que
todas as séries são não estacionárias, em particular, integradas de ordem 1 (I(1)).
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Estimando as equações com as variáveis em nível, o que controlaria os
resultados por possíveis vetores de cointegração, observou-se, nos dois pri-
meiros testes que moeda causa produto e preços; e moeda e preços causam
produto. A análise individual arma que moeda não causa produto, mas moeda
causa preços e preços causa produto (Testes 1.0, 1.1 e 1.2). Vale salientar que
os VAR’s estimados, tanto em nível, como em primeira diferença, apresentam
erros correlacionados20 .
Tabela 1: Testes para Tri-causalidade
Testes Hipótese y = M1 y = Base Monetária
Diff Level Diff Level
Teste 0.1 ∆y PIBa0,0000 0,0000 0.0361 0,0000
Teste 0.2 ∆y PIBb0,0000 0,0000 0.1381 0.3508
Teste 1.0 ∆y PIB 0,0000 0,0000 0.4965 0.3421
Teste 1.1 ∆y d0,0000 0,0000 0.0216 0.0000
Teste 1.2 ∆d PIB 0,0000 0,0000 0.0665 0.3906
Ord. VAR - 6 6 3 4
Ljung-Box 0,0914 0,0908 0,4640 0,4712
a Equivalente a ∆y PIB, ∆d; b
Equivalente a (∆y, ∆d) PIB.
Quando se adota a Estrutura II, os resultados indicam, em primeira diferença,
que base monetária causa produtos e preços (Teste 0.1). Porém, base monetária
e preços não causam produto em todos os períodos (Teste 0.2). Os testes de
causalidade simples indicam que base monetária não causa produto um passo
à frente (Teste 1.0). A base monetária causa preços (Teste 1.1) e preços causa
produto (Teste 1.2). Dado que a cadeia de causalidade foi quebrada, adotaram-se
testes para a causalidade em múltiplos horizontes. O que se observou, para os
períodos h = 2, 3, 4, foi que a base monetária causa produto (p-values 0.03754,
0.0503 e 0.0073, respectivamente) com alguns níveis de defasagem. É importante
20 O teste Ljung-Box reportou p-values abaixo de 0.10.
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Política Monetária, Produto e Preços: Contribuições de Peláez e um teste de
tri-causalidade para o período 1861-1970
salientar, que, ao contrário das estimativas com a Estrutura I, os resíduos dessa
regressão são não autocorrelacionados.
Ainda na Estrutura II, mas com o VAR em nível, os resultados, são os se-
guintes: a base monetária causa produto e preços (Teste 0.1); a base monetária
e preços não causam produto em todos os períodos (Teste 0.2); a base mone-
tária não causa produto um passo à frente (Teste 1.0); a base monetária causa
preços (Teste 1.1) e, nalmente, preços não causa produto (Teste 1.2). Diante
de uma nova quebra na cadeia da causalidade, aplicou-se o Passo 3 para seis
períodos à frente. Novamente, vericou-se que a base monetária causa produto
com alguns níveis de defasagem (p-values 0.0321, 0.0305, 0.0224, 0.0216, e
0.0008, respectivamente).
Para que a teoria quantitativa da moeda seja respeitada, não podemos en-
contrar causalidade entre moeda e produto real. Assim, realizamos os mesmos
testes substituindo o produto nominal pelo produto real (Estruturas III e IV).
Os resultados estão sintetizados na Tabela 2. Grosso modo, os resultados para
a Estrutura III são similares aos obtidos para a Estrutura I. As estimativas, mais
uma vez, produzem erros autocorrelacionados. No que se refere à Estrutura IV
em primeira diferença, observa-se que a hipótese nula não pode ser rejeitada
em nenhum dos testes. Isto é, não há relação de causalidade entre as variáveis
(p-values superiores a 0,10).
Quando se adotam estimações em nível, controladas pela possível cointe-
gração entre as variáveis, os resultados indicam que: a Base Monetária causa
Produto e Preços (Teste 0.1); Base Monetária e Preços não causam Produto em
todos os períodos (Teste 0.2); Base Monetária não causa Produto um passo à
frente (Teste 1.0); Base Monetária causa Preços (Teste 1.1) e; Preços não causa
o produto (Teste 1.2). Diante de uma nova quebra na cadeia da causalidade,
aplicou-se o Passo 3 para quatro períodos à frente. Novamente, vericou-se
que a Base Monetária não causa Produto com alguns passos à frente níveis de
defasagem (p-values 0.2420, 0.2942, 0.4103, e 0.3951, respectivamente).
Como as Estruturas II e IV não apresentaram problemas de autocorrelação
dos resíduos estimados, podemos analisar a hipótese de Peláez a partir delas.
Para recapitular, a diferença entre elas é que, na primeira utiliza-se o produto
nominal e, na segunda, o produto real.
Na estrutura II não rejeitamos a hipótese de que, para o período amostral
analisado por Peláez, a base monetária causa preços e produto, o que está de
acordo com as hipóteses do autor. Já na estrutura IV, a base monetária causa
preços, mas não há causalidade da base com o produto real.
Outro resultado é que a base monetária (h) mostrou-se mais adequada do que
a oferta de moeda (M1) no que diz respeito ao ajuste dos modelos. É importante
notar que o conceito de base monetária, neste caso, compõe-se de: moeda em
poder do público, o caixa em moeda corrente dos bancos comerciais, os depó-
sitos destes nas autoridades monetárias, os depósitos compulsórios e também
os depósitos à vista no Banco do Brasil, o que foi uma peculiaridade do sistema
monetário brasileiro de até 1986.
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Este resultado é interessante porque, em Peláez & Suzigan (1978), a questão
de escolha entre oferta de moeda ou base monetária para estudos monetários
é extensamente debatida, tanto no que diz respeito ao aspecto teórico, quanto
empírico. Neste último caso, os autores consideram a escolha da proxy como
uma questão empírica. Após diversos testes com diversas denições de base
monetária – e um debate teórico interessante com Pastore (1973b) – os autores
constroem duas denições de base monetária, cuja diferença é apenas a inclusão
do Banco do Brasil em uma delas. A conclusão é que:
“Observa-se que a base monetária domina o estoque de moeda, seja qual
for a denição da base (...). No período nal, provavelmente devido à
endogeneização da base e aos choques violentos da política monetária,
a elasticidade base monetária da moeda cai a níveis muito baixos, suge-
rindo a necessidade de reconsiderar (sic) cuidadosamente o modelo de
programação monetária do Brasil. Nenhuma base domina totalmente o
processo de criação de moeda, mesmo ajustando a base pela política de
recolhimentos compulsórios”. (Peláez & Suzigan, 1978, p.192)
Se formos éis à estrutura original de dados testada pelos autores, deveríamos
analisar as Estruturas I e III. Entretanto, neste caso, as conclusões originais não
se mantém, dados os problemas de autocorrelação dos resíduos.
Tabela 2: Testes para Tri-causalidade
Testes Hipótese y = M1 y = Base Monetária
Diff Level Diff Level
Teste 0.1 ∆y PIBRa0,0000 0,0000 0.0043
Teste 0.2 ∆y PIBRb0,0000 0.0018 0.7548
Teste 1.0 ∆y PIBR 0.0035 0.4970 0.5607
Teste 1.1 ∆y d0,0000 0.0008 0.0363
Teste 1.2 ∆d PIBR 0,0000 0.0104 0.8833
Ord. VAR - 3 6 4
Ljung-Box 0,0903 0,0935 0,4712
a Equivalente a ∆y PIBR, ∆d;
b Equivalente a (∆y, ∆d) PIBR.
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Política Monetária, Produto e Preços: Contribuições de Peláez e um teste de
tri-causalidade para o período 1861-1970
Conclusão
Os anos 1960 e 1970 foram ricos em controvérsias econômicas no Brasil.
Contudo, estas controvérsias nem sempre foram apoiadas pelo uso de testes
empíricos. Neste sentido, os artigos da dupla Carlos M. Peláez e Wilson Suzigan
(e os trabalhos individuais de Peláez) representaram um contraponto original à
ortodoxia da época, cujo autor mais conhecido talvez seja Celso Furtado.
Ao contrário de limitar o debate apenas a disputa de teorias sem uma fun-
damentação estatisticamente correta, estes trabalhos utilizaram-se não apenas
da econometria aplicada disponível – sob os recursos tecnológicos sabidamente
limitados de então – mas também de tecnologia econométrica avançada para
os padrões da época. O pioneirismo no uso do teste de causalidade, até onde
os autores saibam, não foi devidamente reconhecido na história da ciência
econômica brasileira.
Este artigo revisitou o tema, utilizando dados reportados pelos próprios
autores, mas sob uma metodologia mais avançada. A proposição de que fatores
monetários seriam mais importantes na explicação da história econômica bra-
sileira, na visão dos autores, poderia ser analisada a partir da não-rejeição da
teoria quantitativa da moeda.
Paradoxalmente, a conclusão dos autores mantém-se apenas quando se utiliza
a base monetária como proxy da oferta de moeda. O uso de M1, tal como nos
testes de Granger-Sims originais dos autores, não forneceu resultados robustos.
É importante deixar claro que os resultados não são sucientes para rebater
as teses estruturalistas já que não foram incluídas variáveis representativas dos
argumentos destes autores em nosso modelo. Além disso, nosso objetivo não
era o de comparar as duas teorias21.
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21 Barbosa (1992) fez um comparativo entre as duas escolas e, claro, este é um trabalho que também pode ser
reavaliado em pesquisas futuras.
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The stationarity hypothesis plays a fundamental role in the main results of econometric theory. The importance of this hypothesis has been recognized for many years, but it was only after the papers bv Granger & Newbold (1974) and Nelson & Plosser (1982) that the implications of non-stationarity for economic time series were treated appropriately. A special class of non-stationary variables, with important statistical and economical proprieties, is that of the integrated variables. Recently a great theoretical effort has been made in arder to obtain estimation methods and tests for models in which integrated variables are present. This survey reviews some of the theoretical results in the literature about integration and co-integration and also applies this methodology to Brazilian time series.
Article
This paper develops a simple sequential multiple-horizon non-causation test strategy for trivariate VAR models (with one auxiliary variable). We apply the test strategy to a rolling window study of money supply and real income, with the price of oil, the unemployment rate and the spread between the Treasury bill and commercial paper rates as auxiliary processes. Ours is the first study to control simultaneously for common stochastic trends, sensitivity of test statistics to the chosen sample period, null hypothesis over-rejection, sequential test size bounds, and the possibility of causal delays. Evidence suggests highly significant direct or indirect causality from M1 to real income, in particular through the unemployment rate and M2 once we control for cointegration. Copyright © 2007 John Wiley & Sons, Ltd.
História Monetária do Brasil
  • C M Suzigan
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Claudio Djissey Shikida, Ari Francisco de Araujo Jr e Erik Figueiredo CONTADOR, C. R. Ciclos econômicos e indicadores de atividade no Brasil. Rio de Janeiro, IPEA/INPES, 1977.
Análise da política econômica e do comportamento da economia brasileira durante o período 1929-1939 Formação Econômica do Brasil
  • Simão Silber
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