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Resumo: Neste artigo, discutimos o desenvolvimento de pessoas, conhecimentos e técnicas
pela noção de amanualidade, de Álvaro Vieira Pinto. Amanualidade é um conceito da relação
entre consciência e realidade, que entende o existente humano como ser que se constitui
ontologicamente com os objetos que possui “à mão”. As pessoas produzem a si mesmas pelo
trabalho e, ao produzir para si a materialidade de seus mundos, gradualmente desenvolvem
relações mais elaboradas. O amanual é construção sócio-histórica, situada, sempre, em processo
dialético de (re)elaboração, a partir dos quereres de cada sociedade, perante suas realidades. O
grau zero enfatiza esse ponto, não definindo indivíduos pela ausência, mas pela diversidade de
saberes e fazeres que possuem. Indicamos tal conceito para a problematização de fundamentos
em Tecnologia e Educação, para uma compreensão horizontal das técnicas, que contemple
a não contemporaneidade de conhecimentos e habilidades entre diferentes grupos sociais.
Palavras-chave: amanualidade, tecnologia, educação.
Abstract: This paper discusses the development of people, knowledge and techniques by
the notion of handiness of Álvaro Vieira Pinto. Handiness is a concept of relationship between
consciousness and reality, which understands the existing human being as a being that produces
himself ontologically with objects that are “ready-to-hand.” People produce themselves by work
and by producing for themselves the materiality of their worlds, they gradually develop more
sophisticated relationships. Handiness is a socio-historical framing, always situated in dialectical
process of (re)elaboration from the desires of each society, towards their realities. The zero
degree emphasizes this point, not dening individuals by the absence, but by the diversity of
knowledge and practices that they have. We indicate this concept to the problematization of
fundamentals in Technology and Education, to a horizontal understanding of the techniques,
which includes the non-contemporaneity of knowledge and skills among dierent social groups.
Keywords: handiness, technology, education.
Amanualidade em Álvaro Viera Pinto:
desenvolvimento situado de técnicas,
conhecimentos e pessoas
Handiness in Álvaro Vieira Pinto: Situated development
of techniques, knowledge and people
Rodrigo Freese Gonzatto1,2
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
rodrigo@gonzatto.com
Luiz Ernesto Merkle2
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
merkle@utfpr.edu.br
Educação Unisinos
20(3):289-298, setembro/dezembro 2016
Unisinos - doi: 10.4013/edu.2016.203.02
1 Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Rua Imaculada Conceição, 1155, Prado Velho, 80215-901, Curitiba, PR, Brasil.
2 Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Av. Sete de Setembro, 3165, PPGTE - Sala 5, Rebouças, 80230-901, Curitiba, PR, Brasil.
Este é um artigo de acesso aberto, licenciado por Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0), sendo permitidas reprodução, adaptação
e distribuição desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.
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Rodrigo Freese Gonzatto, Luiz Ernesto Merkle
Educação Unisinos
Introdução
Em um processo dialético, indivíduos em sociedade
produzem e constroem suas existências por meio do
manuseio e elaboração de suas realidades. Em processos
contínuos e históricos de codeterminação, a existência,
que sociedades projetam para si, de manda a elaboração
e o desenvolvimento de novos artefatos. Nesse sentido,
considerando que os conhecimentos e as habilidades
entre diferentes grupos sociais se desenvolvem de
modo não coetâneo, a pergunta que baliza este artigo
questiona: qual é a função do desenvolvimento de arte-
fatos, na constituição dos seres humanos, e como eles
se entrecruzam? Em particular, como a criação e uso de
artefatos, conhecimentos e técnicas podem se entrelaçar
ao próprio desenvolvimento de potencialidades huma-
nas, de diferentes grupos, considerando seus diversos
contextos sócio-históricos?
O conceito de amanualidade, conforme elaborado
por Álvaro Vieira Pinto, e a noção de ‘grau’ correlata a
esse conceito, permite problematizar as relações entre
uso e produção de artefatos, já que esses não nos apa-
recem ‘dados’, mas ‘feitos’, pois foram desenvolvidos
e continuam em construção. A filosofia de Vieira Pinto
indica caminhos para outra compreensão das técnicas,
mais horizontal, situando conhecimentos e práticas, sem
hierarquizar abstratamente os saberes e os fazeres, mas,
também, sem perder como horizonte o desenvolvimento
das capacidades humanas em relação ao mundo ao redor.
Álvaro Borges Vieira Pinto (1909-1987) foi professor,
médico, pesquisador, filósofo e tradutor. Atuava como
diretor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros
(ISEB), quando teve que sair do Brasil em exílio, em
virtude da perseguição do regime civil militar, iniciado
com o golpe de 1964. No exílio, aceitou o convite de
Paulo Freire para morar no Chile, onde trabalhou no
Centro Latino-Americano de Demografia (CELADE),
realizando pesquisas, traduções e ministrando cursos
sobre educação para adultos. Apesar de ter retornado
para o Brasil em 1968, antes do AI-5, o filósofo não
pode atuar publicamente, ficando afastado dos meios
acadêmicos brasileiros. Isolado em seu apartamento com
a esposa Maria Aparecida Fernandes, Vieira Pinto viveu
de traduções até seu falecimento, em 1987, deixando di-
versos manuscritos inéditos, alguns já publicados, outros
de paradeiro desconhecido. O interesse por sua produção
intelectual vem sendo renovado com o lançamento pós-
tumo do seu livro ‘O Conceito de Tecnologia’ (escrito
em 1973, mas editado e publicado somente em 2005),
que versa sobre diversos temas em tecnologia, como
automação, cibernética e as relações entre ideologia,
técnica, ciência e sociedade.
O estudo do pensamento de Álvaro Vieira Pinto
tem sido um de nossos focos de trabalho no Progra-
ma de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade
(PPGTE), em Curitiba, pois entendemos haver um
profícuo potencial de contribuição à compreensão
das tecnologias. As questões que apresentamos neste
artigo têm origem nas reflexões iniciadas em pes-
quisa de mestrado, nas áreas de Design de Interação
e Interação Humano-Computador (Gonzatto, 2014).
Entretanto, o conceito permite o inter-relacionamento
com outras áreas, visto que o próprio filósofo utilizou
essa categoria como base para a compreensão de uma
variedade de áreas e temáticas, a saber, a Educação,
a Filosofia, a Demografia, a Ciência e a Tecnologia.
A amanualidade e outros conceitos do pensamento de
Vieira Pinto têm nos auxiliado a visualizar um escopo
ampliado das interações mediadas por artefatos, apon-
tando para suas dimensões sociais, culturais, técnicas,
existenciais, políticas e históricas.
Amanualidade: à mão e
ao alcance da mão
O conceito de amanualidade trata da relação entre
consciência e realidade, ou seja, do ser humano em si-
tuação e os objetos disponíveis ‘à mão’, em seu entorno.
A referência ao ‘manual’, no termo ‘amanualidade’, não
se refere apenas à própria mão, mas ao ato de ‘manusear’
o mundo pela percepção sensível, com o corpo e com o
pensamento. Está relacionada com a ideia de ‘agarrar’,
de ‘preensão’, já que compreende que o ser humano é
ativo perante sua realidade.
Álvaro Vieira Pinto explica que o ser humano conhece
o mundo mediante “a amanualidade com que se apresen-
tam a nós os entes circunstantes preexistentes à ação”
(Vieira Pinto, 1960 [I], p. 68). ‘Entes’, como os objetos,
dizem respeito àqueles dispostos ao redor, que configu-
ram a realidade envolvente. A noção de circunstância é
concebida, aqui, tendo a pessoa e o seu entorno como
históricos e inseparáveis. Para entender o ser humano,
é preciso também entender o que o envolve, não como
um corpo isolado, mas como um ser em situação. Desse
modo, o manuseio é uma questão ontológica e, por isso,
está ligado às questões existenciais do ser: o que são as
coisas e quem sou está diretamente ligado a onde estou, a
qual realidade me identifico e ao trabalho realizado e que
se realiza. Cada uma dessas trata de uma configuração
única do mundo, que é compartilhada socialmente e que
muda historicamente. As pessoas são inseparáveis de
suas circunstâncias: o modo de ser do existente humano
se define pelas suas ações com os artefatos ao seu redor,
que conformam sua realidade envolvente.
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A ideia de que o ser humano existe em transformação
(e não como uma essência fixa, a-histórica e imutável)
é também fundamento existencial do pensamento de
Vieira Pinto, pois enfatiza que tanto o indivíduo quanto
os coletivos encontram-se sempre em construção de si
mesmos, elaborando sua existência por meio do trabalho,
que transforma a realidade existente em seu entorno (o
que, em Vieira Pinto, vai do local ao nacional), ou seja,
a sua amanualidade.
Proveniente das filosofias fenomenológico-existen-
ciais3, o termo amanualidade4 (handiness ou ready-to-
hand em inglês; Zuhandenheit em alemão) aparece na
obra de Martín Heidegger (2012), para quem o mundo
da pessoa é o mundo das coisas enquanto utensílios. Um
martelo é, antes de mais nada, a ação de “martelar”, e
não apenas um objeto com um cabo ou de determinado
tamanho e peso: “Mas o que é característico do utensílio?
A “amanualidade’ que significa ‘estar à mão’ […] Se
algo é algo que pode me servir, se converte em utensí-
lio” (Vieira Pinto, 1957, p. 48, tradução nossa). Quando
utilizamos um artefato ‘à mão’, em nosso cotidiano, não
distinguimos sujeito e objeto, visto que pessoa e artefato
configuram um único ser. Isso significa que a percepção
do mundo é, antes, a utilitária (de uso, em ação), e não
a teórica.
As coisas que não são utensílios seguem meramente es-
tando aí, chama isto de “estar à mão” (Alguns traduzem
como “estar frente aos olhos”.). Heidegger não admite
que um utensílio tenha saído de um estado vago prévio,
que tenha sido concebido previamente, não, a primeira
relação com o mundo é diretamente com o utensílio. O
que vem depois é o que “está à mão” (Vieira Pinto, 1957,
p. 48, tradução nossa).
Quando em uso, a amanualidade diz respeito à pessoa
e ao artefato em ação. A aparição dos artefatos como
‘objetos’ externos ocorre apenas em outra atitude da
consciência, frente à realidade (relação denominada como
‘quebra’, em português; ou breakdown, em inglês), como
em situações e operações que exijam seu reparo, sua aná-
lise teórica ou científica. Quando a atitude frente ao objeto
requisita a reflexão sobre as características e substâncias
dos objetos, e o sujeito se vê como distinto do objeto,
temos outra relação, denominada ‘ao alcance da mão’5
(present-at-hand em inglês; Vorhandenheit em alemão).
Amanualidade: trabalho
Álvaro Vieira Pinto busca na reflexão de Heidegger
a consideração da existência humana em situações con-
cretas de vivências. Em ambos os filósofos, o existente
humano é compreendido como ser que manifesta sua
existência por meio da ação de manuseio do mundo.
Por isso, a atitude prática de uso (‘à mão’) é considerada
sempre anterior à atitude teórica (‘ao alcance da mão’).
Entretanto, a concepção de amanualidade em Vieira
Pinto possui divergências com o conceito do pensador
alemão: uma das principais é que o filósofo brasileiro
parte de uma noção dialética de trabalho, em um viés
histórico. É a partir da categoria marxista de ‘trabalho’6
que Vieira Pinto irá elaborar suas ideias de mediação, de
desenvolvimento e de técnica no conceito de amanuali-
dade. A noção de trabalho é utilizada para apontar que a
existência se transforma, também, pela produção que faz
de si mesma. Aliando sua remodelação de conceitos de
Heidegger e sua interpretação do pensamento de Marx7,
Vieira Pinto irá conceber o amanual em uma abordagem
dialética da existência.
Dessa maneira, a amanualidade é caracterizada por
Vieira Pinto não só pelas duas formas de relação com os
objetos circundantes, mas inclui também o trabalho — a
produção dos artefatos. Sobre essa terceira modalidade
de amanualidade, explica:
Cremos ser útil iluminar a noção do trabalho pela noção
de amanualidade […] A associação desses dois conceitos
poderá conduzir-nos a perceber o processo de formação
da consciência autêntica da realidade (Vieira Pinto, 1960
[I], p. 61).
O trabalho, em Vieira Pinto, não diz respeito apenas
às ações realizadas pelas pessoas em seus ofícios ou
fora dos momentos de ócio, descanso ou lazer. Por
‘trabalho’, entende o tipo de ação que modifica e trans-
forma a realidade externa. O trabalho é uma questão
social, econômica, epistemológica, moral e, ainda, uma
categoria existencial,
3 Para um resgate de pensadores, conceitos e tradições de pensamento que inuenciaram Vieira Pinto, ver Côrtes (2003).
4 O termo também possui outras traduções. Fausto Castilho (em Heidegger, 2012) traduz para o português como “utilizabilidade”, por exemplo.
5 O termo também possui outras traduções. Vieira Pinto (1957) traduz para o espanhol como “estar ante la mano”, por exemplo.
6 Ao longo de suas obras (Vieira Pinto, 1960, 1969, 2005), o autor incorporou a compreensão marxista de ‘trabalho’, posicionando-a como categoria
central de sua ontologia. Em um primeiro momento (Viera Pinto, 1960), associa o trabalho à amanualidade e, posteriormente (Vieira Pinto, 2005),
abandona o termo “amanualidade”, preferindo a categoria “trabalho”, mas sem deixar de trazer as considerações que já realizava com ambos os
conceitos.
7 Em sua noção de amanualidade, Vieira Pinto também incorpora e remodela conceitos de outros pensadores, como as categorias de “projeto” e
“liberdade” de Sartre, por exemplo. Para um estudo sobre as referências que formam seu conceito de amanualidade, ver Gonzatto (2014).
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Rodrigo Freese Gonzatto, Luiz Ernesto Merkle
Educação Unisinos
[…] já que não se trata de acidente do ser humano, de con-
dição adjetiva, embora permanente, da sua realidade, mas
de um modo de ser que, entre outros, revela a essência do
ente que o produz (Vieira Pinto, 1960 [I], p. 60).
A relação de fabrico é importante, pois aponta não ape-
nas para o uso das coisas, mas também para sua projetação
(design). Assim, o trabalho é o modo de amanualidade
pelo qual o ser humano “instrumentaliza os objetos que
lhe são amanuais e os transforma em recursos para a ação
sobre a natureza” (Vieira Pinto, 1969, p. 341).
Vieira Pinto parte da categoria de ‘trabalho’ para
indicar que a existência humana está sempre em cons-
trução, produzida mediante o manuseio feito com os
artefatos (seu uso, a mediação pelos artefatos) e nos
artefatos (o trabalho, uso de artefatos para transformar
outros artefatos).
[…] os objetos que se revelam como coisas […] São dados
à capacidade de manuseio do sujeito, mas para isso tiveram
antes de ser produzidos. E só puderam ser produzidos por-
que a matéria de que são feitos e todos os demais ingredien-
tes se apresentaram à ação do agente criador segundo uma
forma de manuseio mais primitiva, a forma das substâncias
brutas (Vieira Pinto, 1960 [I], p. 68-69).
O trabalho é “a forma de criação do homem pela
natureza e da criação da natureza pelo homem; […] con-
versão do meio natural bruto em espaço de convivência
humana” (Vieira Pinto, 1969, p. 339). Pelo trabalho, o ser
humano se propõe a elaborar novas condições de existên-
cia para si. É uma atividade de transformação do mundo
e, ao mesmo tempo, um processo de construção do ser
humano, já que, ao trabalhar a realidade, transforma-se o
próprio mundo que tem disponível ‘à mão’. Vieira Pinto
cita Engels (1952 in Vieira Pinto, 2005 [I], p. 189) para
explicar que “a mão não é somente o órgão do trabalho,
é também o produto do trabalho”. Mão, corpo, ideia e
pensamento são produções e mediações socioculturais.
Pelo trabalho se estabelece uma relação dialética de
transformação da realidade (enquanto a conhece) e de
conhecimento desta (enquanto a transforma). Nesse sen-
tido, trabalhar a realidade também possui uma dimensão
epistemológica. Ao transformar o mundo, o ser humano
age no ritmo de mudança inerente a toda realidade: a
consciência se torna mobilidade para compreender a
mobilidade que é o próprio mundo.
[…] o caráter, necessariamente transfigurador, do trabalho
é a via de acesso à realidade. […] De fato, não há outro
modo de captar o real senão introduzir-se na sua mobilidade,
esposando-lhe a dinâmica: o meio único de realizar a união
do homem com o mundo é a ação. Supor que a consciência
discerne num átimo a realidade exterior, é fazer dela um
aparelho fotográfico, limitado a tomar imagens que, como
os instantâneos da arte fotográfica, reproduzem tudo,
menos o essencial, o movimento do objeto (Vieira Pinto,
1960 [I], p. 61).
Aproximando ontologias existencialistas e marxistas,
Vieira Pinto concebe o trabalho como práxis, uma relação
dialética entre a mediação de um objeto ‘à mão’, que
permite conhecer outro, ‘ao alcance da mão’, enquanto
o modifica. Esse é um modo relacional que permite ao
ser humano a produção e o conhecimento do mundo,
realizado pela transformação desse pelo ‘trabalho’. Os
fundamentos conceituais em Vieira Pinto, tal como na
pedagogia crítica de Paulo Freire, posicionam o conhecer
como uma atitude ativa, de ação, e nunca como um ato
meramente passivo: “Pensar e agir, só para fins de ex-
posição didática são coisas distintas […] Pensar é desde
logo agir, como a ação é o pensamento que se conclui”
(Vieira Pinto, 1960 [II], p. 187).
Questões da técnica
Álvaro Vieira Pinto (2005) critica e se opõe ao enten-
dimento heideggeriano de que a existência é avassalada
pela tecnologia moderna e de que o ser humano deveria
fugir da técnica para buscar abrigo na “força do simples”.
Para Vieira Pinto, técnica e amanualidade são conceitos
interconectados. A técnica é um existencial do ser hu-
mano, uma dimensão humana que existe desde que se
humanizaram e se humanizam. Não é possível conceber
a ação sem a técnica, nem as descolar do ser humano.
É o ser humano que
[…] inventa a técnica, com isso carregando-se da responsa-
bilidade dos atos executados com esse caráter. A técnica in-
gressa, como fator, na constituição de sua essência, porquanto
ao se incorporar à cultura existente no momento torna-se um
legado que outras gerações recolherão e irá contribuir para
possibilitar diferentes tipos de relações de trabalho entre
os homens, na tarefa comum de agir sobre a natureza e de
organizar a sociedade (Vieira Pinto, 2005 [I], p. 191).
A técnica é definida como “a mediação na obtenção
de uma finalidade humana consciente” (Vieira Pinto,
2005 [I], p. 175), pois é um ato humano, uma ação que
se origina e se conserva no pensamento de quem age,
mas realizada objetivamente no mundo material. Para
Vieira Pinto, a criação técnica trata da realização de algo
melhor por um novo modo, para o desenvolvimento de
um grupo social em um determinado momento.
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Toda ação está obrigada a seguir certos caminhos, reco-
nhecidos úteis no correspondente momento do progresso
humano. Tal modo de proceder é o que se chamará técnica.
A escolha dos materiais e a forma a eles dada obedece às
finalidades a que os objetos se destinam, as quais por isso
só podem ser aquelas efetivamente proveitosas, apenas
abandonadas quando se descobrem outras de maior proveito
(Vieira Pinto, 2005 [I], p. 65).
Entretanto, não existe uma ‘melhor técnica’ universal,
abstrata, já que nenhuma obtém os mesmos resultados
em todos os tempos e lugares. É por isso que se desen-
volve e, da mesma maneira, deve sempre ser considerada
historicamente e em virtude de suas circunstâncias. Em
uma concepção dialética, a técnica ‘velha’ é um modo
estabilizado de trabalho, o que, em um determinado
momento, uma sociedade conhece como melhor para
chegar a um resultado desejado e que configura a ama-
nualidade de um determinado momento. Já a técnica
‘nova’, produto das técnicas anteriores, exige considerar
o novo produzido por ela, pois, ao criar a técnica nova,
com ela também emergem novos artefatos e novas pos-
sibilidades do ser humano.
Vieira Pinto denuncia os discursos que posicionam
uma determinada tecnologia como essencialmente “su-
perior” ou “avançada”. Apesar de considerar que toda
técnica possui conteúdo ideológico, denomina alguns
discursos sobre a tecnologia como uma “ideologia da
técnica”, buscando evidenciar a operação de posicio-
namento de um grupo de técnicas de um povo como as
únicas que recebem o status de “tecnológicas”. O em-
prego do termo ‘tecnologia’, apenas como referência a
um determinado conjunto de técnicas ou artefatos, é uma
estratégia para inferiorizar outras práticas, produções e
trabalhos humanos, como “não técnicos”. Um exemplo
atual é a utilização de ‘tecnologia’ para fazer referência
exclusivamente a equipamentos eletrônicos e digitais,
como se só esses fossem tecnológicos, ignorando que
outros artefatos, como o caderno, a fala ou o quadro-
-negro também o são. Os artefatos digitais, tais como os
computadores, podem ser úteis em determinadas situa-
ções e em certos grupos sociais, mas não são a técnica
universalmente mais avançada e nem sempre serão a
técnica que um coletivo necessita para seu desenvol-
vimento em um certo momento histórico. Os computa-
dores que existem hoje representam apenas alguns dos
modos como computadores podem ser feitos, e não uma
essência “finalizada”. Representam o desenvolvimento
da técnica em certos contextos, no entanto, nem nessas
circunstâncias são objetos acabados ou ‘últimos’, visto
que estão passíveis de outros desenvolvimentos. Vieira
Pinto preocupa-se com a constituição ideológica que
se utiliza de artifícios discursivos sobre a tecnologia,
para dominação e criação de dependência, por meio da
desvalorização das demais técnicas e sua utilização para
justificar a introdução forçada e colonizadora de certos
artefatos, como condição necessária para todos os povos
que buscam se desenvolver.
Não é possível posicionar tecnologias como ‘supe-
riores’, de modo universal e genérico, como se fossem
exigências do desenvolvimento. Contrariando a ideia
de que certos equipamentos e maquinários são uma ne-
cessidade – por se viver, supostamente, uma ‘Sociedade
da Informação’, em uma ‘Era da Informática’, causada
por uma ‘Revolução Tecnológica’, ou outras caracte-
rizações deterministas da história – a tecnologia não é
agente externo do desenvolvimento (Gonzatto e Merkle,
2012). É o ser humano que desenvolve tecnologias para
se desenvolver. Todas as eras do ser humano foram in-
formacionais e tecnológicas, mas assumem diferentes
formas e relações concretas, ou seja, se desenvolvem a
partir da amanualidade de uma sociedade, e não apesar
dessa. Para o filósofo, não é possível afirmar que, em
alguns lugares, ‘exista tecnologia’ e, em outros, não,
assim como é ingênuo acreditar que apenas algumas
nações tenham a capacidade de desenvolvimento tec-
nológico. O desenvolvimento de uma sociedade (e, no
caso, Vieira Pinto se refere especialmente às nações
subdesenvolvidas) tem que partir como continuidade de
seu próprio processo histórico, e não pela mera sequência
do caminho traçado por quem realizou seu desenvolvi-
mento, o qual, na atualidade, se encontra como centro
das relações internacionais.
Como exemplo, o desenvolvimento de uma técnica
manual artesanal existente pode ser uma produção mais
útil para a transformação da realidade e da criação de
novas potencialidades humanas, em um coletivo que
vive de artesanato, do que a instalação repentina de
uma fábrica por uma multinacional, em uma região na
qual tal tipo de sistema de produção não represente uma
continuidade do desenvolvimento da amanualidade dos
sujeitos que ali vivem. O desenvolvimento da técnica
como desenvolvimento do ser humano se realiza não
apenas pela introdução ou acesso a certos equipamentos,
mas pelo relacionamento amanual que as pessoas fazem
dos referidos equipamentos, que leva à superação das
formas não produtivas de trabalho por aqueles que traba-
lham e para o desenvolvimento daqueles que trabalham.
Transformar a realidade material deve estar ligado à
criação de novas condições de vida, úteis e desejadas por
aqueles que vivem naquela condição (o que Vieira Pinto
chama de “trabalho para si”, para as finalidades do grupo
social que trabalha; em oposição ao trabalho alienado,
“para o outro”, do trabalho explorado exclusivamente
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Rodrigo Freese Gonzatto, Luiz Ernesto Merkle
Educação Unisinos
para finalidades alheias). Essa concepção está atrelada à
compreensão da técnica como produção social e coletiva
(e, consequentemente, à certa divisão do trabalho):
[…] a técnica não se confunde com a distribuição horizontal
de conhecimentos pragmáticos no grupo social. É, antes
de tudo, o esforço que a comunidade empreende, a fim
de melhorar o modo de fabricação dos bens necessários,
mediante a alteração dos procedimentos que tem por hábito
empregar. É criação do novo a partir do antigo, é, pois,
desenvolvimento (Vieira Pinto, 1960 [I], p. 79).
A noção dialética de ação em Vieira Pinto (2005)
aponta sua inerente contradição de ser, ao mesmo tempo,
conservadora e revolucionária. A técnica é conservadora
quando a repetição dos mesmos atos permite alcançar
os mesmos objetivos. Porém, a produção das coisas
não se interrompe no estágio em que se encontra em
cada momento, visto que não haveria surgimento do
novo se os métodos e as máquinas manejadas tivessem
sempre resultados abundantes e não houvesse o risco de
insucesso. Dessa maneira, é justamente pela prática con-
servadora que emerge a técnica como prática revolucio-
nária, já que, pelo surgimento de novas contradições, do
estabelecimento de novas finalidades e da consequente
busca por outros objetivos, são objetivadas formas mais
rendosas e eficientes de trabalhar com a realidade. O
caráter revolucionário da técnica é um aspecto da ação
humana sobre a realidade, que nunca chega a um termo
final, por encontrar no próprio sucesso o estímulo para
a sua negação. Essa dialética ocorre sempre situada em
cada momento histórico e com a realidade concreta em
que as pessoas vivem:
O homem primitivo, depois de haver inventado o arco
e a flecha não consegue, é claro, enviar nenhum satélite
artificial ao espaço, mas consegue caçar animais que até
então estavam fora de seu alcance; o homem neolítico,
que descobriu a roda do oleiro, não era capaz de fabricar
substâncias sintéticas, mas fabricava vasos e artefatos de
cerâmica, antes inexistentes. Em todos estes exemplos,
vemos o implemento natural, que nada mais é do que uma
ideia cultural convertida em instrumento, retornando à na-
tureza, em forma de força relativamente original, autônoma
e distinta das demais, para atuar no mundo inanimado,
modificá-lo e criar objetos ou resultados inéditos (Vieira
Pinto, 1969, p. 532).
Nesses exemplos, Vieira Pinto torna explícita a
relação entre a amanualidade, realidade circundante, e
a criação do novo, que são os objetos e, consequente-
mente, a própria cultura e existência humana. É a partir
do manuseio da realidade, da utilização, tanto do mundo
em que está situado quanto da experiência acumulada,
da cultura produzida e das suas finalidades desejadas,
que o ser humano produz sua realidade. É essa mediação
social, intencional, que Vieira Pinto denomina como
‘técnica’. Uma concepção que recupera, do marxismo
e do existencialismo, noções para conceber o humano
como ser ativo, perante sua realidade, e histórico, por
transformá-la pela técnica.
Desenvolvimento: grau de
amanualidade e grau zero
O desenvolvimento de técnicas entre coletivos dife-
rentes é questão que pode ser analisada a partir das no-
ções de ‘grau de amanualidade’ e ‘grau zero’. Para Vieira
Pinto, a relação entre pessoa e realidade se dá a partir
de um grau de amanualidade, ou, em outras palavras,
significa considerar que a amanualidade se desenvolve.
O que distingue as diferentes gradações de manuseio dos
objetos é o trabalho que já foi e que está sendo feito. Essa
questão é exemplificada no seguinte trecho:
O caráter de amanualidade implica a gradação nos tipos
de manuseio e não se mostra, conforme deixa crer a teoria,
como propriedade unívoca. Mas, que se esconde por trás
desta gradação do “amanual”? O trabalho. Uma coisa é
mexer-se em um pouco de barro, outra é segurar uma vasilha
para beber, e outra ainda é tomá-la nas mãos para apreciar
a beleza dos desenhos e do colorido que lhe foi dado pela
arte cerâmica. Nos três casos, […] temos a mesma matéria,
mas três graus distintos de manuseio, representando três mo-
dalidades de ser, com tudo quanto de significado particular
há para cada um; e o que determina a diferenciação entre
esses três modos é a operação do trabalhador, que imprime
em cada caso à substância bruta original propriedades que
condicionam as diferentes possibilidades de manuseio. Com
efeito, é o trabalho que eleva a realidade a um outro grau
de amanualidade. E com essa elevação surgem concomi-
tantemente novas características do objeto (Vieira Pinto,
1960 [I], p. 69).
Para Vieira Pinto, em cada situação, se estabelece um
grau de amanualidade, que se trata de uma construção
histórica e social realizada por meio do trabalho. O
trabalho, acumulado no processo histórico e social de
transformação dos artefatos, leva a relação entre pessoa
e realidade a outro grau de amanualidade, novas formas
de compreensão da realidade e novas características do
artefato, assim, novas formas de manuseio e de moda-
lidades de ser. No exemplo de Vieira Pinto, podemos
identificar algumas dessas relações de manuseio (modos
de amanualidade): transformar o barro (produção, tra-
balho), utilizar a vasilha produzida para agir (mediação
entre sujeito e objeto ‘à mão’) e a sua apreciação (sujeito
analisando o objeto ‘ao alcance da mão’).
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Amanualidade em Álvaro Viera Pinto: desenvolvimento situado de técnicas, conhecimentos e pessoas
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A acumulação do trabalho (‘trabalho morto’, na ter-
minologia marxista) é fundamental ao desenvolvimento
da amanualidade. Considerar que os objetos acumulam
trabalho quantitativamente e se transformam qualita-
tivamente em novos objetos é base da noção de que
novas formas de manuseio são um fenômeno cultural,
social, existencial e histórico, um desenvolvimento das
percepções (e da materialidade) e do próprio ser do
existente humano.
A relação de amanualidade entre pessoas e os objetos
disponíveis ‘a mão’ se dá de muitos modos. Um mesmo
objeto é manuseado de formas diversas, na interação
com diferentes pessoas, pois se inclui na amanualidade
a historicidade dos sujeitos e das construções da reali-
dade. As mediações emergem da codeterminação entre
materialidade do trabalho acumulado e intencionalidade
de quem o usa, e que aprende sócio-historicamente.
Cada grande façanha técnica realizada pela humanidade
engendra outras condições de vida e portanto estabelece o
fundamento para a instituição de uma nova essência para os
seres humanos que vierem a existir em tempos posteriores
(Vieira Pinto, 2005 [I], p. 191).
Uma das concepções fundamentais das filosofias
da existência, importante para a compreensão da ama-
nualidade, é a de que “a existência precede a essência”
(Sartre, 2010, p. 23), ou seja, estamos em um mundo
que nos é anterior e existimos nesse mundo antes de
compreendê-lo. Enquanto existentes, as essências são
produzidas por nós. No contexto da alfabetização, Paulo
Freire (2011, p. 19) reformula essa expressão, indicando
que: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”8.
A pessoa que não lê palavras possui uma leitura do
mundo em que essas palavras estão. Desse apontamento
desdobram implicações na maneira como entendemos
as questões da educação e da técnica e encontramos
um aprofundamento nas passagens em que Vieira Pinto
afirma que analfabetismo é um grau da alfabetização:
O analfabetismo não é o estado inicial, natural do ser huma-
no, pois não tem sentido dizer-se que uma criança em idade
pré-escolar é analfabeta. A criança torna-se analfabeta, em
virtude do particular processo de educação que a sociedade
pobre lhe destina. O analfabeto não possui como essência
ser analfabeto, mas é o resultado, o termo de um processo
educacional, tal como o letrado. O analfabeto é educado
pelas condições da sociedade para se tornar analfabeto, não
nasce tal. Alfabetizar e analfabetizar são duas formas de
educação que a sociedade está constantemente destinando
a duas classes de seus infantes, de acordo com a situação
de trabalho e de nível econômico que lhes oferece (Vieira
Pinto, 1960 [II], p. 383).
O analfabetismo não possui uma essência diferente
da alfabetização, pois é um grau desta. Assim, Vieira
Pinto mostra que esta não é uma questão binária ou de
oposição, mas de desenvolvimento. A alfabetização está
sempre situada em um processo sócio-histórico:
A etapa histórica vivida pela sociedade determina: (1) a
formação do educador; (2) as possibilidades quantitativas
da educação, ou seja, o número de membros da sociedade
aos quais pode ser distribuída, em seus diversos graus; (3)
as possibilidades qualitativas da educação, ou seja, o con-
teúdo e a forma do saber que é dado aos alunos em todos os
graus do ensino; (4) a distribuição do ensino escolarizado
entre os membros da comunidade, desde o grau zero (o
analfabetismo) até as modalidades avançadas de investi-
gação científica, de especialização técnica, de instrução
universitária. (Vieira Pinto, 2010, p. 113-114).
Vieira Pinto questiona a ideia de ‘analfabetismo’ ao
propor a compreensão da alfabetização ‘em grau zero’9.
O autor não ignora as pessoas que não conseguem ler
e escrever palavras. No entanto, evidencia que existem
pessoas que não agem no mundo por essa leitura e escrita.
[…] o analfabetismo é um grau do processo de educação, e
não ausência de educação, grau que é preciso evidentemente
superar, sendo para isso o primeiro requisito entendê-lo
na sua verdade. O analfabeto é um indivíduo educado
nas condições que a realidade nacional lhe oferece. Sabe
numerosas coisas de que necessita para subsistir, e só não
sabe ler e escrever porque nas condições de trabalho estas
não são exigências de subsistência. O erro fundamental da
pedagogia erudita e simplista […] está em supor que tem
por objeto indivíduos não educados, num grau nulo de
conhecimento (Vieira Pinto, 1960 [II], p. 383).
Considerar o ‘grau zero’ também implica o entender que
ser alfabetizado vai além da habilidade específica de ler
e escrever. Sobre o aspecto político dessa compreensão,
Alexandre Bandeira (2011, p. 112) explica que noção de
grau zero torna explícito que “não basta o país alcançar o
grau de uma nação totalmente alfabetizada no papel, mas
na realidade ser ‘alfabetizada em escala zero’”.
8 A expressão aparece no livro “A importância do ato de ler” (Freire, 2011), que possui a dedicatória “Com Álvaro de Faria, Álvaro Vieira Pinto e
Ernani Maria Fiori experimentei, no Chile, em tempo de exílio, momentos de intensa criatividade. Aos três, fraternalmente. / Paulo Freire / São Paulo,
junho de 1982”.
9 Apesar de outros estudos (Bandeira, 2011; Gonzatto, 2014) apresentarem a expressão ‘escala zero’ ou ‘alfabetização em escala zero’, em Vieira
Pinto (2010), encontramos apenas o termo “grau zero”.
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Colocando dessa maneira, Vieira Pinto aponta que
toda pessoa está em uma relação amanual, pois sempre
há um manuseio do mundo que é estabelecido. Ana-
lisando qualitativamente, diferenciar uma pessoa de
outra, ou uma geração de outra, como letrada ou iletrada,
implicaria em uma naturalização de sua condição e uma
consequente hierarquização, o que, axiologicamente, é
questionável. Uma pessoa que não saiba partir do alfa-
beto para compreender as palavras de um texto escrito,
ainda assim, lê a realidade que lhe circunda. Se palavras
escritas fazem parte de seu entorno e essa pessoa precisa
se relacionar com as palavras para sobreviver, mesmo
sem acesso ao alfabeto para mediar sua leitura, as mani-
pula de algum modo, a partir de outras mediações. Todo
sujeito está no mundo e tem uma leitura desse mundo.
Freire nos oferece um exemplo:
Daí que também não pudesse reduzir a alfabetização ao
ensino puro da palavra, das sílabas ou das letras. Ensino em
cujo processo o alfabetizador fosse “enchendo” com suas
palavras as cabeças supostamente “vazias” dos alfabetizan-
dos. Pelo contrário, enquanto ato de conhecimento e ato
criador, o processo da alfabetização tem, no alfabetizando,
o seu sujeito. O fato de ele necessitar da ajuda do educador,
como ocorre em qualquer relação pedagógica, não significa
dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua
responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e
na leitura desta linguagem. Na verdade, tanto o alfabetiza-
dor quanto o alfabetizando, ao pegarem, por exemplo, um
objeto, como laço agora com o que tenho entre os dedos,
sentem o objeto, percebem o objeto sentido e são capazes de
expressar verbalmente o objeto sentido e percebido. Como
eu, o analfabeto é capaz de sentir a caneta, de perceber a
caneta e de dizer caneta. Eu, porém, sou capaz de não apenas
sentir a caneta, de perceber a caneta, de dizer caneta, mas
também de escrever caneta e, consequentemente, de ler
caneta. A alfabetização é a criação ou a montagem da ex-
pressão escrita da expressão oral. Esta montagem não pode
ser feita pelo educador para ou sobre o alfabetizando. Aí tem
ele um momento de sua tarefa criadora (Freire, 2011, p. 29).
Nesse exemplo, além de mostrar diferentes relações
amanuais com o mundo, tanto em relação ao objeto
“caneta” como pelo ler e escrever, percebe-se que as re-
lações sociais – como a que existe entre alfabetizador(a)
e alfabetizando(a) – são a base do desenvolvimento, da
escrita, e, portanto, de técnicas (e, consequentemente,
da amanualidade).
Assim, fica evidente que a alfabetização em Vieira
Pinto e Paulo Freire estabelece um diálogo. Considerar
o grau zero indica o que Freire (1987) denunciou com a
sua crítica à educação bancária: educandos não são um
vazio, não estão esperando passivamente que sejam de-
positados os conhecimentos, pois possuem uma relação
anterior com o mundo em que se encontram e com o
qual se defrontam. No contexto de produção dos obje-
tos, considera que as pessoas não são apenas receptoras
passivas da tecnologia. Entretanto, perceber o grau zero
não significa que não há com o que se preocupar, como se
fosse indiferente se uma pessoa realiza seu manuseio em
graus elaborados ou em grau zero, ou que a resposta seja
manter um imobilismo, já que ‘as pessoas resolvem seus
problemas por si mesmas’. Ninguém está ‘prisioneiro’ de
sua relação amanual com os objetos. É nesse ponto que
a categoria trabalho assume uma importante perspectiva
no conceito de amanualidade em Álvaro Vieira Pinto,
postulando que a realidade pode ser transformada. Re-
conhecer a existência de um grau zero é reconhecer que
a amanualidade pode se desenvolver, mas sem ignorar
os saberes e fazeres já existentes, assim como os quere-
res (finalidades) daqueles a quem interessa seu próprio
desenvolvimento.
O termo ‘grau zero’ é uma expressão utilizada por
outros autores. Em Barthes, o “grau zero da escritura”
indica que:
[…] o grau zero não é, pois, a bem dizer, um nada (contras-
senso corrente, no entanto), é uma ausência que significa;
atingimos aqui um estado diferencial puro; o grau zero de-
monstra o poder de qualquer sistema de signos que, destarte,
fabrica sentido “com nada”: “a língua pode contentar-se
com a oposição de alguma coisa com nada”. O conceito de
grau zero, oriundo da Fonologia, é de uma grande riqueza
de aplicação; em Semântica, em que se conhecem signos-
-zero (“fala-se de “signo-zero” no caso em que a ausência
um significante explícito funciona, ela própria, como um
significante”) (Barthes, 2006, p. 81).
Apesar disso, não temos referências de pesquisa que
apontem exatamente o sentido de ‘zero’, do qual parte
Vieira Pinto, tendo em vista que utiliza principalmente
tal termo em seu livro sobre alfabetização (Vieira Pinto,
2010); assim, é possível que a ideia de “zero” tenha sur-
gido a partir de referências da Linguística. No verbete do
‘Pequeno vocabulário de linguística moderna’ (Borba,
1976), temos:
Zero – Ausência de um elemento formal que, entretanto, ca-
racteriza a presença de outro. Uma unidade pode ter função
linguística porque se opõe à sua ausência. O grau zero [Ø]
pode aparecer em todos os níveis da língua. Ex.: port. […]
Sintaxe – na frase – em cada coração, uma saudade – que
é verbal, o verbo está em grau zero (haver, existir) (Borba,
1976, p. 125).
Quanto à ideia de ‘grau’, entendemos que Álvaro
Vieira Pinto não deseja indicar uma sequência linear de
desenvolvimento (como, por exemplo, grau um, dois,
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Amanualidade em Álvaro Viera Pinto: desenvolvimento situado de técnicas, conhecimentos e pessoas
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etc.), mas contestar a noção ingênua de ausência de
relação entre o ser humano e o mundo. Nesse horizonte,
também não é possível dizer que exista um grau ‘final’
ou ‘último’ de amanualidade, como um imaginário grau
10/10 ou 100%. A noção de grau não visa mera contagem
em escala, tampouco institui uma métrica comparativa.
Não existe algo como o “maior grau na escala”. Não há
quem tenha se desenvolvido por completo ou algo que
esteja em um “estágio final”, já que a amanualidade,
a técnica e o ser humano estão sempre em construção
contínua. Por ‘grau’ entendemos que a amanualidade se
transforma (se desenvolve) de modo relacional, variando
historicamente, não sendo propriedade estática ou fixa
dos objetos ou das pessoas.
A noção de grau zero aponta e abre a perspectiva
de que sempre há possibilidade de desenvolvimento e
de transformação, mas não a determina, visto que nem
sempre se têm as condições para tal. Passar de um modo
de amanualidade para outro (modificar a relação amanual
entre ser humano e mundo), de forma com que se possa
manusear a realidade com recursos mais elaborados,
significa se desenvolver pela transformação do modo
de ser. A passagem de um modo de amanualidade para
o outro se efetiva a partir do amanual preexistente, que
se direciona para um novo modo.
A reflexão sobre a questão do desenvolvimento é
recorrente no pensamento de Álvaro Vieira Pinto. O
próprio pensador se propôs a elaborar uma filosofia
do subdesenvolvimento10. Para Vieira Pinto, pensar e
realizar o desenvolvimento da nação subdesenvolvida
exige categorias diferentes daquelas que a realidade
desenvolvida dispõe. Ao contrário, no subdesenvolvi-
mento há a urgência de transformação de sua condição
e o potencial para tal. A realidade subdesenvolvida não
se encontra nessa situação por acaso, infortúnio, nem
por uma suposta determinação geográfica, biológica ou
tecnológica. O subdesenvolvimento está relacionado à
divisão internacional do trabalho, na qual a periferia sub-
desenvolvida é mantida em uma relação de dependência
dos centros desenvolvidos. Seguindo a compreensão de
desenvolvimento cepalina11, Vieira Pinto postula que,
para se desenvolver, não basta apenas seguir os caminhos
percorridos por aqueles que já se encontram desenvol-
vidos, nem por modelos prontos, advindos das nações
que, no momento, centralizam as relações internacionais.
O desenvolvimento acontece pelo trabalho desalienado
daqueles que trabalham em suas próprias realidades,
mediante o desenvolvimento técnico (e apropriação
das técnicas mais elaboradas) posto a serviço de suas
próprias finalidades. O desenvolvimento tecnológico é
o que objetiva as possibilidades de ação (elaboração do
amanual), a partir da amanualidade, com a qual as pes-
soas se encontram. A amanualidade de Vieira Pinto, neste
sentido, é um conceito que, modelado desde a realidade
subdesenvolvida, se propõe útil para a conscientização
das possibilidades de desenvolvimento.
Considerações nais
A compreensão de técnica de Vieira Pinto considera a
não contemporaneidade dos conhecimentos e saberes. Po-
siciona que cada momento histórico possui técnicas mais
elaboradas para determinados fins, não sendo possível
comprimir toda a historicidade em uma perspectiva linear,
tampouco considerar um grupo restrito de artefatos como
técnica ‘universal’ ou ‘mais eficiente’. A horizontalidade
na análise da técnica concebe que as técnicas e artefatos
não podem ser caracterizados como essencialmente
‘avançados’ ou ‘atrasados’. Nesse sentido, em tempos
passados, reconhece-se que a magia foi “a única técnica
possível nas condições em que floresceu” (Vieira Pinto,
2005 [I], p. 194), ao mesmo passo que “a técnica sempre
foi científica, no estado em que era possível a ciência em
cada época” (Vieira Pinto, 2005 [I], p. 290).
A técnica é um existencial do ser humano, que existe
desde que o ser humano se faz humano. Cada sociedade
desenvolve-se em um processo histórico de transfor-
mações, no qual, simultaneamente, coletivos moldam a
tecnologia que necessitam e as técnicas de cada momento
moldam as relações sociais. O manual do mundo é social;
é o manual do conjunto de utensílios que determinado
grau do processo cultural chegou a produzir:
Qualquer que seja o grau de seu desenvolvimento, todo
grupo social tem uma tecnologia suficiente para enfrentar
a natureza e dela obter a produção necessária para viver.
A função social da tecnologia pobre não se distingue em
essência da possuída pela tecnologia rica. Ambas são for-
mas em que assenta a existência de populações humanas
desiguais. A técnica avançada, mesmo assim sempre im-
perfeita e transitória, constitui também a modalidade pela
qual a sociedade altamente desenvolvida trava, a seu modo,
10 Importante ressaltar que, entre as décadas de 1950 e 1960, quando Vieira Pinto começa a publicar suas ideias sobre o desenvolvimento, o autor
fazia parte do ISEB e encontrava-se em um ambiente intelectual no qual o debate do desenvolvimento nacional era central, visto que o próprio
Instituto (órgão vinculado ao Ministério de Educação e Cultura brasileiro) havia sido criado em 1955, no governo de Café Filho, para desenvolver
trabalhos em torno dessa temática.
11 Em sua época, as concepções de desenvolvimento dos intelectuais ligados ao CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe)
inuenciaram os pensadores do ISEB, incluindo Álvaro Vieira Pinto.
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a batalha pela sobrevivência, tornada em termos relativos
menos dura graças ao aperfeiçoamento das armas de que
dispõe. Consequentemente, por este ângulo de apreciação
ambas desempenham o mesmo papel, o que não significa
serem equivalentes na produtividade e na capacidade de
domínio da natureza, que outorgam ao homem (Vieira
Pinto, 2005 [I], p. 297).
Kleba (2006) entende que Vieira Pinto combina
relativização e hierarquia, quando posiciona, por meio
de exemplos, que
[…] a forma de conservar a carne através da secagem sob
a sela do cavalo, a produção de carne seca, como em geral
populações desprovidas no Brasil o fazem, equivaleria, em
sua finalidade e função, ao frigorífico [pois] […] Ambas
as técnicas aplicam os conhecimentos disponíveis, naquele
momento, perseguindo a mesma finalidade (Kleba, 2006,
p. 81).
Entretanto, a comparação de técnicas visa assumir
uma perspectiva crítica, e não apenas considerá-las
idênticas. É ingênua a interpretação de que a técnica
mais elaborada de uma sociedade possa ser simplesmente
substituída por outra qualquer ou vice-versa. Como o
próprio autor afirma, quanto ao exemplo anterior:
Não havendo ninguém que defenda a conservação da técnica
primária, evidentemente terá de ser substituída. Mas isso
não seria feito pela simples instalação de alguns modernos
e grandes frigoríficos […] enquanto prevalecer a ausência
de compreensão crítica e global do problema da alimentação
popular, motivada pela predominância de outros tipos de
interesses na produção, como por exemplo a prioridade dada
à exportação do produto […] o que terão de fazer as forças
desejosas de substituir a técnica do jabá pela frigorificação
será […] tirar, em totalidade, o contexto atrasado da situação
de pobreza em que vegeta (Vieira Pinto, 2005 [I], p. 304).
Vieira Pinto deseja manter como horizonte o ques-
tionamento sobre o desenvolvimento técnico e a quem
isso beneficia. Longe de um ingênuo ‘relativismo’ das
técnicas, o conceito de amanualidade evidencia suas
diferenças e posiciona tensões entre diferentes modos de
interagir com os artefatos. Não há técnica ou artefato que,
por si só, seja de melhor ou maior qualidade que outro,
pois não se podem descolar os artefatos daqueles que os
manuseiam e do manuseio que é realizado. A análise deve
ser sempre entendida como situada sócio-historicamen-
te, e não como uma generalização abstrata, a exemplo
do que é comum em algumas das compreensões sobre
artefatos interativos ou educacionais. Nesse sentido,
diferentes disciplinas e áreas do conhecimento fazem
usos diferenciados do digital, do computar, conforme
necessitam para se constituírem enquanto áreas. Não se
trata de terem maestria ou não do digital em sua trans-
formação, mas, sim, de manusearem o computacional em
diferentes graus, conforme suas necessidades e projetos.
Por fim, acreditamos que os conceitos discutidos ao
longo deste artigo têm potencial para o debate, seja em
tecnologias analógicas ou digitais, seja em manuais ou
mecânicas, embora ainda precisem ser articulados outros
aspectos. Diversas questões do pensamento de Álvaro
Vieira Pinto sobre a amanualidade ainda carecem de
investigações, como do “para si” e “para o outro”, sua
compreensão histórica, a questão das máquinas e da
cibernética, as noções de projeto, mediação e atividade,
assim como, também, da identificação das relações entre
os conceitos de Vieira Pinto e Paulo Freire.
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Submetido: 10/05/2016
Aceito: 18/07/2016