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Guerini, Andréia; Torres, Marie-Hélène Catherine; Costa, Walter Carlos (Orgs). Vozes tradutórias: 20 anos de Cadernos de Tradução. Florianópolis: PGET/UFSC, 2016, 273 p.

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Abstract

Book Review: Guerini, Andréia; Torres, Marie-Hélène Catherine; Costa, Walter Carlos (Orgs). Vozes tradutórias: 20 anos de Cadernos de Tradução. Florianópolis: PGET/UFSC, 2016, 273 p.
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http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2016v36n3p319
Guerini, Andréia; Torres, Marie-Hélène Catherine; Costa, Walter
Carlos (Orgs). Vozes tradutórias: 20 anos de Cadernos de Tradu-
ção. Florianópolis: PGET/UFSC, 2016, 273 p.
Fabiano Seixas Fernandes
Universidade Federal de Santa Catarina
Em entrevista a Osvaldo Ferrari, o escritor argentino Jorge Luis
Borges sugeriu que a entrevista é uma forma colaborativa de en-
saio. A natureza do pensamento ensaístico – informal, experimen-
tal, desconectada da estruturação metódica do pensamento cien-
tífico, mas duplamente conectada à curiosidade e à investigação
desinteressada – pode se manifestar nos caminhos mais ou menos
erráticos que se vão contornando ao longo de uma entrevista.
Um volume de entrevistas, uma compilação de diversas conversas
completamente livres ou semi-estruturadas, potencializa este tipo
de condução desencontrada que – pela ausência do rigor investi-
gativo e estrutural informativos da tese doutoral ou do artigo aca-
dêmico –, acaba justamente encontrando uma quantidade maior de
modos de ressonância interna, e se abrindo à possibilidade de ser
reestruturado a cada ato mais ou menos errático de leitura.
Assim, se uma entrevista isolada se aproxima do ensaio, um con-
junto delas – sejam entre o mesmo par de interlocutores, entre
um mesmo interlocutor (entrevistado ou entrevistador) e pessoas
variadas, ou entre pares ou grupos distintos de pessoas – alcança o
prazer contrastivo encontrado na leitura pareada de traduções – um
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texto que já nasce sob o signo da contrastividade, da relação inter-
textual privilegiada – e seus originais, ou textos paralelos.
As quase três dúzias de conversas coletadas no volume Vozes tradu-
tórias: 20 anos de Cadernos de Tradução, justapostas em edição e
embaralhadas pelo acaso ou semi-acaso que deu cada uma das entre-
vistas à luz e que o dará a leituras cumprindo diversos propósitos e
percursos, permitem ao leitor interessado em tradução a construção
de variadas rotas de pensamento, tanto internas ao volume quanto
externas a ele. A leitura de Vozes tradutórias, assim, potencializa os
direitos do leitor promulgados por Daniel Pennac – em particular, o
direito da leitura salteada, mais ou menos ao estilo do Jogo da ama-
relinha de Cortázar ou das Cidades invisíveis de Calvino.
Para não incorrer em spoilers em uma era que os odeia – de re-
cepção sensacional de textos audiovisuais, na qual mesmo textos
escritos não têm circulação relevante senão atrelados a algum me-
canismo paratextual audiovisual –, prefiro aqui apontar caminhos
de leituras cruzadas que possam auxiliar os leitores a traçar, retra-
çar e reformar os percursos discursivos projetados por cada uma
das entrevistas individuais.
Comecemos pelas linhas de fuga internas do volume. A intro-
dução, a cargo dos organizadores, aponta alguns caminhos de
leituras geminadas destes textos através do pensamento dos entre-
vistados; gostaria de fazer o mesmo, mas – para não repetir a in-
trodução e, como assinalado anteriormente, para não dar spoilers
– seguindo os gestos dos entrevistadores: sua seleção de entrevis-
tados e tópicos, a estruturação das entrevistas e o repertório de
perguntas. Estas escolhas, feitas ao longo de duas décadas, entre
1997 e 2016, por um grupo heterogêneo de profissionais – e que,
a bem da verdade, se torna “grupo” somente ao ver seus esfor-
ços assim coligidos –, podem igualmente gerar indícios indiretos
porém reveladores sobre os rumos e enfoques que os Estudo da
Tradução vêm assumindo no Brasil.
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Segundo João Ângelo Oliva Neto, tradutor de latim e grego ao por-
tuguês, entrevistado por Andréia Guerini e Walter Carlos Costa,
“[é] fato que no Brasil se valoriza a tradução literária mais do que
em países onde se traduz mais” (p. 161). Sua declaração pode ser
constatada se traçamos um perfil geral dos intelectuais e tradutores
entrevistados ao longo dos vinte anos da Cadernos de Tradução.
Entre os trintas e três tradutores e pesquisadores cujas entrevistas
foram recolhidas no volume, 17 são tradutores literários atuando
conjuntamente como professores universitários, 12 deles em insti-
tuições nacionais do sul e do sudeste (a única exceção sendo Hen-
ryk Siewierski, ligado à UnB) e cinco em instituições estrangeiras
(Amina di Munno, Bruno Osmino, Didier Lamaison, Michael R.
Katz e Washington Benavides).
O segundo maior grupo de entrevistados é o único não necessa-
riamente ligado à universidade (ao menos o único cujas entrevis-
tas não fazem menção de filiação universitária sequer no pequeno
resumo oferecido), e é igualmente composto por seis tradutores
literários; destacam-se, neste grupo, duas pioneiras dos Estudos da
Tradução, Maria Cândida Bordenave e Lia Wyler, ligadas igual-
mente ao SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores).
O terceiro maior grupo, contanto cinco entrevistas, contém estudio-
sos da tradução cujos depoimentos foram mais teóricos: Christiane
Nord, em uma das entrevistas mais marcadamente dialogadas em
todo o volume, concedida a Monique Pfau e Meta Elizabeth Zipser,
fala sobre diversos aspectos do funcionalismo – relação com clien-
tes, análise textual e culturemas –; Michael Cronin fala a Alessandra
Ramos de Oliveira Harden sobre aspectos culturais e políticos de sua
produção teórica; José Lambert, sobre a relação entre os Estudos da
Tradução e a Literatura Comparada, sobre a globalização e o estatu-
to institucional da tradução nas universidades; José Días Cintras fala
a Eliana P. C. Franco sobre sua área de especialidade, a Tradução
Audiovisual; Yves Gambier, em entrevista a Jean-François Bruneliè-
re, discute os Estudos da Tradução enquanto disciplina.
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Outro grupo menor de teóricos, compondo três entrevistas, é o de
tradutoras-teóricas: Martha Pulido respondeu a Letícia Goellner
perguntas sobre suas traduções literárias e sua atuação institucio-
nal; Luise von Flotow respondeu a Luciana Rassier e Rosvitha
Blume perguntas sobre suas traduções literárias, motivadas por
seu engajamento na interface entre os Estudos da Tradução e os
Estudos Feministas; Leonor Scliar-Cabral, cuja entrevista conce-
dida a Andréa Cesco e Mara Gonzalez Bezerra centrou-se em suas
traduções a partir o espanhol, tangenciou o tópico da tradução de
teoria (ao falar de sua primeira tradução) e de ser, ela mesma, uma
escritora traduzida.
Há ainda algumas entrevistas de mais difícil classificação: Eglê
Malheiros é a única tradutora abertamente não-literária entrevista-
da, mas é também escritora, e a entrevista não se furta a enfatizar
sua filiação à literatura; a entrevista de John Gledson versa sobre
sua atuação como organizador de uma antologia de crônicas de Ma-
chado de Assis (Cia das Letras, 2013), também estando, como a de
Eglê Malheiros, filiada à literatura por uma via não-tradutória; sua
entrevista também se cruza à de Dorothée de Bruchard, que res-
pondeu perguntas sobre sua atuação tanto quanto tradutora como
editora literária e de traduções.
Assim, contamos 26 entrevistas com tradutores literários e ao me-
nos 25 entrevistados ligados diretamente a universidades. Chama a
atenção o fato de que nenhuma das entrevistas mais marcadamente
teóricas haja sido feitas com pensadores ou brasileiros ou (embora
José Lambert venha atuando em instituição brasileiras como pro-
fessor visitante) que hajam construído sua carreira no Brasil – um
possível índice de que, apesar do desenvolvimento dos Estudos da
Tradução e do interesse crescente de estudiosos estrangeiros pelo
Brasil, ainda geramos uma produção intelectual que busca superar
a subalternidade.
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No quesito representatividade de gênero, a Cadernos de Tradução
publicou onze entrevistas com mulheres (dez das quais reproduzi-
das no volume) contra vinte e cinco entrevistas com homens (vinte
e três das quais reproduzidas). A ausência de representatividade
numérica é, de certa maneira, compensada pela força e variedade
da atuação feminina representada nas entrevistas. Conforme des-
tacado acima, entre as entrevistadas encontramos duas escritoras
consagradas (Eglê Malheiros e Leonor Scliar-Cabral), duas das
poucas entrevistadas cuja conversa relaciona teoria ou atuação ins-
titucional e tradução (Luise von Flotow e Martha Pulido) e duas
pioneiras da implementação dos Estudos da Tradução no Brasil,
e igualmente responsáveis pelo desenvolvimento do status profis-
sional do tradutor brasileiro através de sua atuação no SINTRA
(Maria Cândida Bordenave e Lia Wyler). A entrevista com Doro-
thée de Bruchard, mesclando tradução e atuação editorial, também
agrega variedade ao conjunto.
Variedade maior encontramos nos pares ou grupos de línguas de
atuação dos tradutores. A primeira entrevista publicada pela revis-
ta, já em seu segundo número (1997) foi concedida por Paulo Hen-
riques Britto, já então aclamado tradutor do inglês, a Walter Carlos
Costa; a entrevista não foi premonitória de uma predominância do
inglês como língua de partida preferencial. As principais línguas
europeias encontram-se representadas: francês (Ivo Barroso, Do-
rothée de Bruchard, Mônica Cristina Corrêa e Didier Lamaison),
italiano (Marco Lucchesi) e espanhol (Leonor Scliar-Cabral, Aldyr
Garcia Schlee, Horácio Costa). Embora a Ivo Barroso as entrevis-
tadoras Andréia Guerini e Marie-Hélène Torres façam perguntas
sobre suas traduções a partir do alemão, a única entrevista específi-
ca sobre uma tradução do par alemão-português, a de João Azenha
Jr, concedida a Mauri Furlan, também é a única a versar sobre o
problema da tradução indireta: Azenha traduzira O mundo de Sofia
a partir do alemão, sendo, entretanto, o original dinamarquês.
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A propósito da tradução indireta, João Azenha faz, a meu ver, um
comentário instigante, por ser controverso, que poderia de algum
modo reverberar a seleção massiva ocidental e europeia de pa-
res linguísticos esboçada no conjunto das entrevistas: “a chamada
‘via indireta’ foi usada para que chegassem até nós autores de lín-
guas ditas minoritárias ou exóticas. Não fosse o alemão, Ibsen ou
Tchekhov talvez não tivessem o lugar que têm hoje na dramaturgia
universal. O mesmo pode se dizer de autores russos e gregos que
chegaram até nós através do francês. Pessoalmente, acho que será
sempre assim: uma língua de menor prestígio num cenário de dis-
puta e de sobrevivência linguística utiliza-se de outra, que desfruta
de autoridade, a fim de levar as ideias de seus autores para além de
suas fronteiras” (p. 32).
As “línguas de menor prestígio” ocupam, de fato, menor espaço no
conjunto das entrevistas: constam do volume a entrevista de Ma-
mede Mustafa Jarouche – reconhecido justamente pelas primeiras
traduções diretas das 1001 noites do árabe para o português bra-
sileiro – e a de Henryk Siewierski, tradutor do polonês para uma
língua não-materna.
Ainda no quesito pares linguísticos, merece destaque a pluralidade
particular do conjunto de entrevistas do russo: a de Boris Sch-
naiderman, um dos mais aclamados tradutores para o português
brasileiro, chama atenção não só pelo entrevistado, mas pela douta
e extensa equipe de entrevistadores – Haroldo de Campos, Steven
White, Márcio Seligmann Silva, Walter Carlos Costa e Andréia
Guerini –; Michael R. Katz e Bruno Osmino traduzem do russo
para o inglês e do russo para o italiano, respectivamente, sendo,
portanto, a língua traduzida com o maior número de línguas de
chegada de toda a coleção.
Todas estas recorrências poderiam ser consideradas acidentais – o
que lhes daria, como disse acima, um certo caráter de amostragem
aleatória que permite ler as entrevistas e seu conjunto metracritica-
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mente. Não menos metacrítica talvez pudesse ser a atenção que se
desse às perguntas feitas pelos entrevistadores.
A pergunta mais recorrente aos entrevistados versou sobre o início
de suas carreiras como tradutores; pode assumir as mais diferen-
tes formas, em graus variados de especificidade, desde “Como a
tradução entrou na sua vida?” (feita por Marlova Aseff a Aldyr
Garcia Schlee, p. 145) ou “Como e quando nasceu/surgiu seu in-
teresse pela tradução?” (feitas por Anna Palma/Andréia Guerini
e Dina Omari/Marie-Hélène Torres a Amina di Munno e Maria
Cristina Corrêa, respectivamente, p. 101 e 191) até “Como você
se decidiu a traduzir?” (feita por Walter Costa a Paulo Henriques
Britto, p. 20) e “Como você se descobriu tradutora?” (feita por
Letícia Goellner, p. 247).
Dada a proximidade entre atividade acadêmica e prática tradu-
tória apontada pela maioria das entrevistas, parece natural que a
segunda pergunta mais recorrente do conjunto verse precisamen-
te sobre a relação teoria/crítica/prática. Algumas de suas muitas
formulações incluem:
Você acha que as teorias ajudam a traduzir melhor? Você
segue alguma teoria? (a Ivo Barroso e Dorothée de Brucha-
rd, p. 72 e 96)
Qual a sua posição em relação à teoria, à prática e à crítica
de tradução? (a Mônica Cristina Corrêa, p. 103)
Em que medida a teoria e a crítica de tradução podem ser
úteis ao tradutor? (a Lia Wyler, p. 64)
Você considera importante conhecer teoria da tradução para
traduzir melhor? Você traduz com base em alguma teoria?
(a Eglê Malheiros, p. 69)
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Como você avalia o papel do crítico em relação às traduções
publicadas? Como você acha que esses críticos podem influ-
enciar a atividade tradutória? (a Michael R. Katz, p. 168)
Alguns entrevistados responderam especificamente sobre a crítica
feita às suas traduções:
Como você se pronunciaria em relação à crítica (tanto na
forma de resenhas quanto na forma de trabalhos) de suas
traduções? Por exemplo, muitas vezes os críticos tecem
comentários a respeito do seu texto, identificando-o com
o texto do autor original. Você teria algum exemplo para
ilustrar este ponto? (a José Roberto O’Shea, p. 52)
Qual tem sido a crítica a seu trabalho de tradutora, especial-
mente ao de literatura infantil? (a Lia Wyler, p. 62)
Um grupo menor respondeu sobre a relação entre novas tecnolo-
gias e a prática de tradução. Paulo Henriques Britto respondeu a
duas questões a este respeito: “O que você acha da tradução auto-
mática ou da tradução com auxílio de programas de computador?”
e “Em que sentido os avanços recentes como os dicionários eletrô-
nicos e a Internet facilitam ou complicam seu trabalho?” (p. 23,
grifos meus). A seleção lexical explicitamente positiva ou negativa
encontrada aqui ecoa em outras formas de elaborar a pergunta en-
contradas na coleção:
Em que a internet afetou sua forma de trabalhar a tradução?
(a Marco Lucchesi, p. 56, grifo meu)
Em que medida as novas tecnologias afetaram a sua rotina
de trabalho? (a Lia Wyler, p. 63, grifo meu)
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Tecnologias digitais lhe permitiram realizar, computacio-
nalmente, processos “verbivocovisuais” anunciados, desde
antes, no programa-piloto da poesia concreta. […] Você vê
férteis os caminhos de cooperação envolvendo novas tecno-
logias? (a Augusto de Campos, p. 129, grifo meu)
A relação com mercados editoriais ou o posicionamento frente a
estes também foi alvo recorrente de inquérito (sobre a relação com
as editoras, perguntas foram feitas a Eglê Malheiros (p. 69), Do-
rothée de Buchard, na condição de editora (p. 99), João Ângelo
Oliva Neto (p. 156), Michael R. Katz (p. 165) e Horácio Costa (p.
186); perguntas sobre mercados editoriais específicos foram feitas
a Maria Cândida Bordenave (p. 29), Amina di Munno (p. 193),
Sérgio Medeiros (p. 257) e Irineu Franco Perpétuo (p. 239); José
Roberto O’Shea (p. 52-53) e Mamede Mustafa Jarouche (p. 201-
202) responderam os dois tipos). De certo modo, as entrevistas de
Michel Cronin, José Lambert (ambos falando de globalização e
internacionalização) e Luise von Flotow (falando de traduzir escri-
toras no Canadá) talvez possam ser referendas a este ponto.
Parece natural que, dada a já mencionada relação tradução/insti-
tuição universitária que perpassa a coleção, determinadas pergun-
tas, digamos, “ontológicas” e por elementares sobre o significado
de tradução, sobre o que é ser tradutor etc. hajam sido pouco
frequentes; respondem-nas apenas Paulo Henriques Britto (p. 15),
Mônica Cristina Corrêa (p. 101), Amina di Munno (p. 195) e Sér-
gio Medeiros (p. 257). Igualmente escassas foram perguntas de
cunho mais técnico sobre o ato tradutório; há poucas sobre tradu-
ção colaborativa (Boris Schneiderman (p. 46), Henryk Siewierski
(p. 80) e Augusto de Campos (p. 122) são os únicos entrevistados
a reconhecidamente haverem traduzido em cooperação), métodos
de tradução (Maria Candida Bordenave (p. 28) e Michael R. Katz
(p. 166)) e revisão de traduções (José Roberto O’Shea (p. 53), Ivo
Barroso (p. 76) e Horácio Costa (p. 189)). Das duas entrevistadas
envolvidas com o SINTRA, apenas Lia Wyler (p. 64) respondeu
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um pergunta sobre a organização sindical dos tradutores. Outros
tipos de perguntas, igualmente relevantes e técnicas, recorrendo
uma vez incluíram perguntas feitas a José Roberto O’Shea sobre a
tradução de dialetos (p. 51); a Lia Wyler sobre diálogos e neolo-
gismos (p. 65); a Ivo Barroso sobre questões métricas em tradu-
ção poética (p. 76-77); a Aldy Garcia Schlee sobre a autotradução
(p. 147); a João Ângelo Oliva Neto sobre documentação histórica,
biográfica e crítica (p. 159); e a Mamede Mustafa Jarouche sobre
fontes (p. 199).
Passando agora ao segundo ponto prometido, as linhas externas
de fuga do volume, comecemos pela mais óbvia: sua relação com
o periódico que lhe deu origem. Vozes tradutórias compila, em
ordem cronológica, 33 das 36 entrevistas publicadas na Cadernos
de Tradução ao longo de sua existência. Quanto às entrevistas ex-
cluídas, ou não versavam diretamente sobre tradução (como a de
Pierre-Marc de Biasi, sobre crítica genética, e a de José Rodrigues
Coura, sobre o multilinguismo no periódico médico brasileiro Me-
mórias do Instituto Oswaldo Cruz, respectivamente concedidas a
Sergio Romanelli/Hanna Betina Götz e William Hanes na edições
29.1 (2012) e 36.2 (2016)) ou eram de personalidade entrevistada
mais de uma vez (Christiane Nord foi entrevistada nas edições 5.1
(2000) e 34.2 (2014), sendo apenas a segunda recolhida no volu-
me). (Sendo estes os critérios para exclusão, torna-se um tanto
curiosa a inclusão da entrevista com John Gledson que, como apon-
tado anteriormente, pouco parece ter a ver com tradução.)
As entrevistas são um gênero que faz parte da história da Cader-
nos; apenas doze de seus números não trazem qualquer entrevista,
seis deles trazem duas entrevistas (prática que se inicia já no ter-
ceiro número) e, recentemente, o número 35 (2015) publicou nada
menos que quatro: uma no volume um (com Yves Gambier) e três
no volume dois (com Irineu Franco Perpétuo, Didier Lamaison e
Martha Pulido). Vozes tradutórias, assim, é um documento sobre
os rumos dos Estudos da Tradução no Brasil, de um modo geral, e,
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mais especificamente, sobre o desenvolvimento do mais importante
periódico brasileiro dedicado à disciplina.
Finalmente, Vozes tradutórias é um dos mais recentes produtos dos
esforços de mapear e documentar (e, portanto, fortalecer) o desen-
volvimento dos Estudos da Tradução que vêm sendo desenvolvidos
pelos Programas de Pós-Graduação em Estudos da Tradução es-
palhados pelo país, em especial os das Universidades Federais de
Santa Catarina (PGET) e Ceará (POET). Junta-se a publicações e
esforços de mapeamento geral do campo como Os estudos da tra-
dução no Brasil nos séculos XX e XXI (dos mesmos organizadores;
Tubarão & Florianópolis: Copiart/PGET, 2013), Literatura tra-
duzida: antologias, coletâneas e coleções (Torres; Freitas; Costa
[Orgs.]. Fortaleza: Substância, 2016), Estudos da Língua Brasilei-
ra de Sinais (vols. I, III e III, Ronice Müller de Quadros [Org].
Florianópolis: Insular, 2013), o Dicionário de tradutores literários
no Brasil (NUPLITT) e mesmo o GT de Estudos da Tradução da
última ANPOLL (Unicamp, 2016), que discutiu em profundidade
o desenvolvimento institucional da disciplina.
Assim como são muitos os caminhos permitidos pela estrutura
semi-aberta ou inteiramente livre do diálogo, são muitos os cami-
nhos para se refletir crítica ou metacriticamente sobre os Estudos
da Tradução a partir de Vozes tradutórias; seja salteando entre as
entrevistas, seja cotejando o volume com outros de mesma lavra,
o livro nos leva a fazer um apanhado da trajetória da tradução e
da disciplina que a estuda, bem como a fazer um arrazoado do que
ainda há por ser feito e conquistado.
Recebido em: 15/07/2016
Aceito em: 01/08/2016
Publicado em setembro de 2016
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