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ATTALI, Jacques. Une brève histoire de l`avenir.

Authors:
RESENHAS
Horizonte: Belo Horizonte, v. 5, n. 10, p. 201-208, jun. 2007 203
Resenhas
ATTALI, Jacques. Une brève histoire de l`avenir. Paris:
Fayard, 2006. 427 p.
João Batista Libanio1
Livro realmente fascinante. Economista, professor, escritor de re-
nome, com participação política na França como Conselheiro honorá-
rio de Estado e em instituições internacionais. A intuição central parte
da metáfora do coração. O sistema capitalista, desde os albores, teve
um coração. O atual coração, residindo na Califórnia americana, sofre
de cardiopatia grave, com anúnico de morte. Então, qual será o novo
coração do sistema no futuro? Para não perder-se em futurologias, ana-
lisa a história do capitalismo para dela aprender o movimento e assim
pensar o futuro com realismo e consistência.
Constata ao longo da história que quando um coração esgotava
sua função outro o substituía. Para alguma cidade ou região ou país
ser o coração, isto é, o centro do capitalismo, necessitava cumprir vá-
rias condições. Antes de tudo, possuía vasta retaguarda agrícola e um
grande porto de exportação. Respondia a uma carência do momento,
usava estratégias voluntaristas para sobrepor-se aos outros por meio
de rigor, força, dirigismo, protecionismo e controle das mudanças. Con-
tava com classe dirigente criativa que reunia os meios de transformar
um novo serviço em produto industrial. Dominava o capital, fixava os
preços, acumulava lucros, controlava salários, organizava um exército,
financiava exploradores, elaborava uma ideologia que lhe assegurasse
o poder. Controlava os recursos energéticos eficazes e os meios rápi-
dos de comunicação. Os banqueiros, os artistas, os intelectuais, os ino-
vadores investiam aí. Em volta do coração, desenvolvia-se um mundo
circundante (milieu), feito de antigos e futuros rivais em declínio ou em
expansão. O resto do mundo formava-lhe a periferia. O coração tinha
riquezas para dominar o mundo circundante e a periferia.
O A. estuda, sucessivamente, os corações do capitalismo na Eu-
ropa e depois nos EUA, indicando-lhe o tempo de domínio e a carac-
terística principal: Bruges: 1200-1350: primícias da Ordem mercantil;
1. Doutor em Teologia (Gregoria-Roma) e professor da FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia).
e-mail: secteologia@faculdadejesuita.edu.br
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Veneza: 1350-1500: a conquista do Oriente; Anvers (Antuérpia): 1500-
1560: a hora da imprensa; Gênova: 1560-1620: a arte de especular; Ams-
terdã: 1620-1788: a arte da flauta; Londres: 1788-1890: a força do vapor;
Boston: 1890-1919: a explosão das máquinas; Nova Iorque: 1929-1980: a
vitória elétrica; Los Angeles: 1980-?: o nomadismo californiano. O livro
constata já a decadência do último coração californiano. E então o A. se
pergunta: qual será o décimo? Pouco provável que o futuro seja califor-
niano. Percorre outros possíveis União Européia, países escandina-
vos, Tokyo, Shangai e Bombay, Austrália, Rússia, Canadá – e descarta-
os um depois do outro por não realizarem as condições necessárias de
um coração do capitalismo. Mas, antes de responder à pergunta pelo
futuro novo coração, descreve a decomposição da atual situação.
Depois da crise do poderio californiano e não existência de ne-
nhum possível novo coração, suceder-se-ão, no futuro próximo, três
vagas que se entremesclam. Ele as nomeia: hiper-império, hiperconflito
e hiperdemocracia. Esta última parece a priori impossível, mas é o úni-
co futuro viável para a humanidade, se ela não quiser autodestruir-se.
O A. passa a descrever cada nova onda do futuro.
Anuncia-se o hiperconflito que se segue ao fim do império ame-
ricano californiano (o nono coração) para antes de 2035, talvez pelos
anos de 2025. Brotam dificuldades globais. Os EUA serão vencidos pela
mundialização dos mercados econômicos, no seio de grave crise ecoló-
gica e pela perda de poder das empresas. Esgotadas financeira e politi-
camente já não gerirão o mundo. Entra-se em mundo policêntrico com
dezenas de poderes regionais.
O mercado desterritoriza, aumentam o crescimento mundial e a
comercialização do tempo. Este será utilizado para atividades comer-
ciais que substituirão serviços gratuitos, voluntários ou forçados. A
agricultura se torna industrializada, surge violenta urbanização dos ex-
rurais, aceleram-se as inovações. Torna-se difícil distinguir entre tra-
balho, consumo, transporte, distração, formação. Os citadinos viverão
longe dos centros. A vida urbana se torna solitária. O transporte ocupa
mais tempo. Estatui-se o novo direito de propriedade que vai da com-
pra para o acesso. O salário se gasta predominantemente em compra
de serviços: educação, saúde, segurança. Acontece ubiqüidade nôma-
de.
Antes de 2030, todos se conectam a todas as redes de informa-
ção por infra-estruturas de alta fluidez, móveis e fixas do tipo Google.
Acessa-se a internet sem fio e de alta fluidez. A nanotecnologia produz
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computadores cada vez menores e portáteis. Multiplicam-se os robots
domésticos. Etariamente o mundo envelhece. As cidades crescem. Se,
de um lado, escasseiam bens insubstituíveis, de outro, produzem-se
tecnologias que superam as raridades insubstituíveis pela via da redu-
ção do consumo de energia, do tratamento do lixo, do repensamento
das cidades e dos transportes.
Ameaça a perda de fôlego tecnológico. O tempo se torna a úni-
ca verdadeira raridade. Gasta-se menos tempo para produzir e mais
para consumir. Assim, o tempo que um computador requer para ser
confeccionado não se compara com aquele que o usuário consumirá,
usando-o horas e horas. Os produtos postos no mercado são “cronó-
fagos”, isto é, devoram o tempo das pessoas. Basta observar como se
usa o telefone celular.
No hiper-império, a primeira onda do futuro, impõe-se a genera-
lização da democracia do mercado em mundo policêntrico. A super-
vigilância e a autovigilância substituem o Estado em desconstrução.
Impõe-se a transparência. Nos vôos internacionais já se obriga a levar
objetos de asseio em plásticos transparentes. E as pessoas passam
por controles que as vêem até por dentro. A vigilância visa manter a
segurança. A autovigilância cuida da saúde, da educação, da cultura
por meios sofisticadíssimos de softwares. Acontece a mercantilização
absoluta do tempo. Criam-se empresas nômades, que não se vinculam
a nenhum país como tal. Os donos de tal império são também hiper-
nômades, nômades virtuais. Eles dirigirão o império fora do solo, sem
centro. As vítimas são os infranômades. Impõe-se tal governança no
hiper-império que, para defender a liberdade, paradoxalmente a supri-
me. É a última expressão do individualismo. Soa a marcha triunfal do
dinheiro que explica o essencial dos recentes sobressaltos da história:
para acelerá-la, recusá-la ou dominá-la.
Levado ao extremo, o dinheiro destruirá tudo que lhe faz mal, in-
clusive os Estados. E o liquidará lentamente. O mercado se erige em lei
única do mundo: incontrolável, sem fronteiras, planetário, criador de
riquezas comerciais, fautor das novas alienações, das fortunas e das
misérias extremas. Sobrepõe-se à democracia. Tudo será privado: in-
clusive o exército, a polícia, a justiça. Os últimos serviços coletivos
saúde, educação, segurança, soberania – se privatizam.
As empresas não se reconhecem nacionais. Os pobres se consti-
tuem mercado. As leis serão substituídas por contratos, a justiça pela
arbitragem, a polícia por mercenários. Os espetáculos e os esportes
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crescem para distrair os sedentários. Imensas massas de nômades da
miséria, os infranômades, batem-se contra as fronteiras ricas para bus-
car de que viver. As companhias de seguro regulam o mundo, fixam
normas a que os Estados, as empresas e os particulares se submetem.
Organismos privados de governança velam pela conta dos assegurado-
res, pelo respeito dessas normas.
As pessoas se tornam objeto de contínua auto-reparação, de pró-
teses de si, de clonagem. É o ser humano feito artefato consumidor de
artefatos. A poliordem, a supervigilância engendram o superconflito.
Segunda onda do futuro.
O superconflito nasce de ambições regionais, de exércitos pira-
tas, de exércitos de corsários. Os piratas são as máfias, as gangues, os
movimentos terroristas. Os corsários são as empresas de mercenários
com antigos militares, contratadas pela polícia e pelo exército. Surge a
cólera dos leigos e dos crentes. Os leigos são os críticos e os crentes as
expressões fundamentalistas religiosas.
As armas do hiperconflito se fundam na vigilância, no uso de recur-
sos químicos, biológicos, bacteriológicos, eletrônicos, nanotecnológi-
cos. Novas teorias de guerra defendem armamentismo, alianças, ne-
gociações, ajudas militares, dissuasão bélica dos regimes agressivos,
ataques preventivos. Novos tipos de guerras: pelas raridades do petró-
leo e da água, pelas fronteiras do Oriente Médio à África, por aumentar
a influência, e as travadas entre piratas e sedentários.
Ditaduras militares, ao confundir exército com polícia, tomarão
o poder. O hiperconflito cristaliza todos os outros conflitos e explo-
de ameaçando a sobrevivência da humanidade. Sucederão barbáries
regressivas e batalhas devastadoras. Usar-se-ão armas hoje ainda não
vislumbradas. Opor-se-ão Estados, grupos religiosos, entidades terro-
ristas, piratas privados.
Tal situação se torna insuportável. A salvação virá de uma hiper-
democracia. Hoje impensável, até mesmo impossível. O A. lista males
que ou nos destruirão ou exigirão solução de hiperdemocraica. Ei-los
alguns: aquecimento global, distância crescente entre ricos e pobres,
aumento da obesidade, crescimento do uso de drogas, domínio da vio-
lência na vida cotidiana, atos terroristas cada vez mais terrificantes,
impossível bunkerização dos ricos, mediocridade dos espectáculos,
ditadura das companhias de seguro, invasão do tempo pelas mercado-
rias, falta de água e de petróleo, crescimento da delinqüência urbana,
crises financeiras cada vez mais freqüentes, ondas de imigração de-
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sembarcando nas nossas praias com mão estendida e depois de punho
levantado, tecnologias cada vez mais assassinas e seletivas, guerras
cada vez mais loucas, miséria moral dos mais ricos, vertigem da auto-
vigilância e da clonagem.
Abrindo réstia de esperança, indica as vanguardas já existentes da
hiperdemocracia. Chama de transumanos as pessoas que acentuarão
a dimensão de relação. Surgem já empresas relacionais. Repensam-se
instituições, o lugar do mercado como resultado coletivo da busca de
bem comum e o exercício da inteligência universal. Propugnam-se os
bens essenciais, a qualidade do tempo.
Novas forças altruístas e universalistas já em ação tomam o poder
mundial, sob o império da necessidade ecológica, da ética econômica,
cultural e política. Elas revoltam-se contra as exigências da vigilância,
contra o narcisismo, contra as normas. Buscam novo equilíbrio pla-
netário, entre mercado e democracia. Gestam instituições mundiais e
continentais que, graças às novas tecnologias, organizam a vida coleti-
va. Instalam governo democrático universal. Fixam limites ao artefato
mercado, à modificação da vida, à valorização da natureza.
Favorecem a gratuidade, a responsabilidade, o acesso ao saber.
Possibilitam o nascimento de inteligência universal que põe em comum
capacidades criativas de todos. Nova economia relacional produz ser-
viços sem tirar proveito deles. Contém-se a mundialização, sem recu-
sá-la. Circunscreve-se o mercado, sem negá-lo. Institui-se democracia
planetária, concreta, ao cessar o domínio de um império. Abre-se novo
infinito de liberdade, responsabilidade, dignidade, superação, respeito
do outro. Faz-se nascerem novos modos de viver e criar a partir de to-
das as sabedorias do mundo.
E as sugestões se multiplicam. Vale a pena o leitor conferi-las e dei-
xar-se iluminar por elas. Feixe luminoso de esperança ilumina o pesado
quadro do hiper-império e do hiperconflito. O fundamento último da
esperança reside em que a história se anima pela força maior da liber-
dade, capaz de recarregar de ânimo um presente obscurecido pelas cri-
ses. O A. resume, em alguns pontos, as leis da história do futuro: criar
um ambiente relacional, suscitar o desejo de destino comum, favorecer
a criação mais livre, construir grande porto e grande praça econômica,
formar os cidadãos eqüitativamente nos saberes novos, dominar as no-
vas tecnologias que estão a surgir, elaborar uma geopolítica, construir
alianças necessárias. O futuro de uma nação passa pela criatividade,
eqüidade, lealdade, mobilidade, trabalho e justiça. Implica criar socie-
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dade eqüitativa e igualitária, mobilidade eqüitativa do trabalho, esta-
tuto remunerável de quem procura trabalho, reformar serviços públi-
cos em vista dos mais desprotegidos, promover discriminação positiva
para grupos segregados, reforçar a eficácia do mercado, gerar gosto do
trabalho, da concorrência, do esforço, da curiosidade, da liberdade, da
aspiração à mudança, ao novo. Cabe criar, atrair e reter a classe criati-
va, aumentar gastos por estudante, reagrupar universidades, dar-lhes
autonomia de gestão, incentivar sua relação com setor privado, promo-
ver a estética urbana, industrial, social. Enfim, importa fazer nascer a
hiperdemocracia.
O livro oferece espaço para excelente seminário de estudos e dis-
cussão. O nível de informação é gigantesco. A competência do A. im-
pressiona. A riqueza de sugestões revela imaginação criadora e utópica.
Valeria a pena confrontar as teses e proposições do livro com a reali-
dade concreta do Brasil e tirar daí conseqüências sociais. Os políticos
aprenderiam muito da sua leitura e alargariam horizontes de pensar e
planejar. Eis, portanto, livro que merece atenção e cuidadoso estudo.
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