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Abstract

The object of this assay is to analyze the interpretation that Nietzsche makes of the politics old Greek and its implications in the critical one that it sends to the modern culture. Critical these that, much of the times, compromise its philosophy with forms of fascist thoughts. For such task, we privilege, over all, the young studies, in which, the philosopher deals with the politics between the Greeks, but without neglecting tickets, in texts, of other phases, when they will be excellent for ours analyzes.
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http://dx.doi.org/10.1590/2316-82422016v37n1jnj
* Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Brasil.
Correio eletrônico: jnjnicolao@gmail.com.
Nietzsche entre a Pólis
Grega e o Terceiro Reich
Alemão
José Nicolao Julião*
Resumo: O objetivo deste ensaio é o de analisar a interpretação
que Nietzsche faz da política grega antiga e as suas implicações na
crítica que ele remete à cultura moderna. Críticas essas que, muita
das vezes, comprometem a sua losoa com formas de pensamentos
protofacistas. Para tal tarefa, privilegiamos, sobretudo, os estudos
de juventude, nos quais, o lósofo trata da política entre os gregos,
mas sem negligenciar passagens, em textos, de outras fases, quando
forem relevantes para a nossa análise.
Palavras-chave: política – Estado - aristocrático
Nietzsche e o Terceiro Reich Alemão
Nietzsche, em Ecce homo, teve certo presságio de que algum
dia o seu nome estaria associado a algo de terrível, assim exprimiu:
“como uma crise sem igual na Terra, o mais profundo embate de
consciência”. (EH/EH, Por que sou um destino, 1, KSA 6.365). Sem
dúvidas que o lósofo-profeta acertou quanto ao destino que lhe
reservava a história, pois, o seu nome está ligado, de uma vez por
todas, ao cruel e abominável movimento nazifascista que aterrorizou
o mundo, poucas décadas depois de sua morte, em 1900, devido
ao uso abusivo que zeram da sua obra. Portanto, por mais que
se tenha tentado desvencilhar o nome de Nietzsche do nazismo,
Julião, J.N.
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desnazicando-o, tal como, por ex., se esforçaram, primeiramente,
Bataille
1
, Jaspers
2
, Kaufmann
3
, o historiador americano Crane
Brinton4, depois, o pensamento Pós-metafísico francês dos anos 60
- Deleuze, Foucault, Derrida, Lyotard - e, mais tarde, novamente, no
mundo de língua alemã, Hans Langreder5 e Kurt Rudolf Fischer6;
mas, sobretudo, são de suma relevância para hercúlea tarefa o trabalho
editorial e os ensaios de Montinari
7
, escritos tanto em alemão quanto
em italiano; e ainda é importante ressaltar a coletânea editada por
Jacob Golomb e Robert S. Wistrich8, na virada do século XX, 2002,
1 BATAILLE, G. Nietzsche and the Fascists. In Visions of Excess: Selectd Writings 1927-39.
Manchester: Manchester University Press, 1989. Publicado pela primeira vez in Acéphale,
January 1937. Na linha da Revista Acéphale, Bataille tentava resgatar Nietzsche da abjeta
apropriação nazista.
2 Para o existencialista Karl Jaspers, Nietzsche foi um liberal. Cf. JASPERS, Karl. Nietzsche,
Einführung in das Verständnis seines Philosophierens. JASPERS, Karl. Nietzsche, Einführung in das
Verständnis seines Philosophierens. Unveränderte Au.: Berlim/Nova Iorque, 1974, pp. 254-285.
3 Walter Kaufmann considera Nietzsche um humanista e desenvolve uma interpretação alegórica
espiritual de sua losoa. Cf. KAUFMANN, W. Nietzsche: Philosopher, Psychologist, Antichrist,
(1ªedição 1956).
4 BRINTON, C. Nietzsche. Cambridge, Massachusetts. 1941. Importante livro que apesar de não
se tratar de uma defesa explicita de Nietzsche, pois vê elementos nazistas em sua losoa, traz,
no cap. VIII, pp. 200-231 - Nietzsche and the Nazis -, um estudo sobre as relações da losoa
de Nietzsche com o Nazismo, ressaltando a gênese de tal simbiose no panorama militarista da
Primeira Guerra Mundial. Nietzsche seria então para ele “meio nazista e meio antinazista”.
5 LANGREDER, H. Die Auseinandersetzung mit Nietzsche im dritten Reich, Dissertation an der
Universität Kiel, 1971. Importante trabalho que, utilizando o método histórico, e analisando
documentos e fatos, desvencilha Nietzsche de qualquer comprometimento com o Terceiro Reich.
Montinari considera esse trabalho de suma importância para a defesa de Nietzsche quanto as
suas inuências, de fato, sobre o Nazismo. Cf. MONTINARI, M. Interpretatione Nazista. In Su
Nietzsche. Roma, 1981.
6 “Nazism as a Nietzschean ‘Experiment’” in: Nietzsche-Studien. Vol. 6. Berlin, New York:
Walter de Gruyter, 1977. Pp. 116-122. Importante artigo que mostrou que sendo o pensamento
de Nietzsche um experimento pode ele de fato ser visto como precursor ou mesmo um padrinho
de várias tendências, inclusive do nazismo.
7 FISCHER, K. R. Interpretatione Nazista. In Su Nietzsche. Roma, 1981. : Nietzsche zwischwen
Alfred Bäumler und Georg Lukács. In Nietzsche Lesen. Berlin: Verl. Walter de Gruyter, 1982.
8 GOLOMB Jacob & WISTRICH Rrobert. Nietzsche, Godfather of Fascism? On the uses and
abuses of a philosopon Unhy. New Jersey: Princetiversity Press, 2002. Destacamos os artigos
Nietzsche entre a Pólis Grega e o Terceiro Reich Alemão
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que traz respeitáveis artigos sobre o não comprometimento de
Nietzsche com o nazismo e formas totalitárias de poder. Entretanto,
mesmo assim, desde o nal dos anos 70, há uma insistente literatura
que continua desgurando o seu pensamento, ligando-o à ideologia do
Nacional-Socialismo. Entre os autores que continuam comprometendo
a losoa de Nietzsche com regimes radicais de direita, temos como
exemplos
9
: J.P. Stern, Howard Williams, Margaret Canova, Abir
Taha. Segundo J.P. Stern
10
, ninguém incorporou melhor o modelo
nietzschiano da autenticidade pessoal, que consiste em criar valores
próprios para si mesmo, do que Adolf Hitler. Margaret Canova
11
considera que Nietzsche, em sua preferência pela hierarquia natural
em detrimento da igualdade natural, tornou-se “o pai espiritual do
fascismo” e simplesmente uma fonte do pensamento protofascista.
Para Howard Williams12, não é fantasioso supor que exista de fato
uma anidade entre as opiniões de Nietzsche e o fascismo. Abir
Taha13 faz ligações da losoa de Nietzsche com a Doutrina Nazista
Secreta, que ela nomeia de Nazismo Esotérico14, especialmente no
que concerne ao conceito e culto do além-do-homem.
O forte impulso que comprometeu o pensamento de Nietzsche
com formas de políticas totalitárias tem suas origens: primeiro, nas
suas ambíguas declarações sobre a democracia e o socialismo, sobre
de Müller-Lauter, Daniel Conway e Alexander Nehamas, Kurt Rudolf Fischer, o deste último é
parcialmente baseado no artigo já mencionado na nota 6.
9 Alguns destes exemplos são apresentados por Keith Ansel Pearson em seu An Introduction
to Nietzsche as Political Thinker. Cambridge: Cambridge University Press, 1994, p. 32 e ss.
10 Cf. STERN, J. P. Nietzsche. Glasgow: Collins, 1978, p. 79.
11 Cf. CANOVA, M. On Being Economical with the Truth: Some Liberal Reection. In Political
Studies, 38, march, 1990, p.17.
12 Cf. WILLIAMS, H. Nietzsche and Fascism. In History of European Ideas, 11. 1989. Pp. 897-8.
13 Cf. TAHA, A. Nietzsche, Prophet of Nazis: The Cult of the Superman. 2005. Preface, vii.
14 A distinção entre Nazismo esotérico e exotérico é feita por William Bluhm para diferenciar
as práticas internas e elitista da doutrina da difusão popular e ordinária da mesma. Cf. Theories
of the Political System: Classic of Political Thought and Modern Political Analysis, 1978.
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os judeus e a exaltação da guerra e da crueldade como formas de
se atingir uma cultura elevada, assim como na elaboração dos seus
conceitos de além-do-homem e vontade de potência; segundo, na
adulteração que seus textos sofreram, devido, sobretudo, à forma
desorganizada e caótica como o lósofo elaborou os seus escritos,
principalmente o espólio, como exemplo disso, podemos conferir o
trabalho editorial organizado M-L. Haase no volume IX da KGW,
York: Walter de Gruyter, 2001;15 terceiro, na forte inuência que a
sua obra exerceu sobre o militarismo do Segundo Reich alemão, na
época da Primeira Guerra Mundial que foi transmitido ao Terceiro
Reich;16 quarto, na difusão dos trabalhos de autores conservadores
liados ao partido Nacional-Socialista alemão, sobretudo Alfred
15 Haase chama atenção do leitor, entre outros, pelos persistentes erros desde a
Grossoktavausgabe (GA: 1894-1926) e ainda mantido na edição crítica de Colli &
Montinari, que comprometem o pensamento de Nietzsche com o antissemitismo.
Entre esses: 1. o termo “petulância de judeu” [Juden-Zudringlichkeit], apresentado
no volume XIV da GA, p. 360, como aforismo 227, mantido na edição crítica KGW
(VIII 2, 10[20]) que, de fato, se tratava de “petulância de cachorro” [Hunde-
Zudringlichkeit], corrigido agora e publicado na KGW IX 6, W II 2, p. 127, 39-41.
2., “judeus ruins” [Schlecht-Juden], que aparece no fragmento 10 [196] da KGW
VIII 2, que na verdade trata-se “batalha de Sedan” [Schlacht von Sedan] – conito
travado em 1 de setembro de 1870, próximo à cidade francesa de Sedan, durante
a Guerra franco-prussiana. No mesmo artigo, Haase destaca a posição crítica de
Nietzsche ao antissemitismo tanto em sua correspondência quanto em anotações
de cadernos (p. 44-45).Cf. HAASE, Marie-Luise. “Excursion in das Reich der
Tinten-Fische und Feder-Füchse. Ein Werkestattbericht zur Edition von KGW IX”.
In: Nietzsche-Studien. N. 36. Berlin, New York: Walter de Gruyter, 2007, pp. 41-46.
16 Sobre a relação da losoa de Nietzsche com o projeto militar expansionista alemão do
Segundo Reich, cf. BRINTON, Crane. Nietzsche. Cambridge, Massachusetts: Harvard University
Press, 1941, p. 200-206, no qual narra a culpa de guerra [Krieg-Schuld] de Nietzsche, ou seja,
se a losoa nietzschiana era estimuladora dos soldados alemães entrincheirados, pois exaltava
a violência e a crueldade como forma de domínio. O estudo mapeia alguns livros, artigos de
revista, matérias de jornais e declarações da época (entre 1914-1919) que tratavam da defesa
ou acusação do envolvimento da losoa de Nietzsche como ideologia da guerra. Portanto, foi
esse primeiro impulso que teria levado os nazistas anos depois a se apropriarem da obra do
lósofo, justicando o antissemitismo, a violência e a crueldade como forma de domínio e o
ideal de uma super-raça expressa na gura do Übermensch.
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Bäumler, Alfred Rosenberg, Ludwig Klages, Heinrich Härtler, Richard
Oehler, Oswald Spengler e Heidegger17. Entre esses, Bäumler18 e
Rosenberg19 são os mais comprometedores devido ao papel que
desempenhavam como ideólogos do partido. Bäumler chegou ao
exagero com declarações do tipo: “E quando nós convocávamos essa
juventude: ‘Heil Hitler!’ – ao mesmo tempo atendíamos ao chamado
de Nietzsche”.
20
Richard Oehler, primo de Nietzsche, junto com
Elizabeth Nietzsche, são responsáveis pela adulteração de textos e
17 Sobre Heidegger, é prudente observar que a sua liação ao Nacional-Socialismo foi de curta
duração e que o seu desvencilhamento se deu concomitantemente a sua aproximação com a
losoa de Nietzsche, nos anos 1936-37. Sobre a ligação de Heidegger com o nazismo cf.
sua carta ao reitorado acadêmico da Universidade de Freiburg de 04/11/1945. HEIDEGGER,
Martin. Carta ao Reitorado Acadêmico da Universidade de Freiburgo de 04/11/1945. In Escritos
Políticos. Lisboa: Editora Instituto Piaget, p. 182. Entretanto, com a publicação dos Schwarze Hefte
[Cadernos negros] reaviva o debate em torno do tema. Sobre a aproximação de Heidegger com
Nietzsche e o seu afastamento do nazismo cf. FARREL KRELL, David – Heidegger et Nietzsche.
In Phénoménologie et Metaphysique. Paris: PUF, 1987. Cf. também: HEINZ, M. and Th. Kisiel.
“Heideggers Beziehungen zum Nietzsche-Archiv im Dritten Reich”, in Annäherungen an Martin
Heidegger, ed. FS Hugo Ott and v. H. Schäfer Frankfurt and New York, 1996; SLUGA, Hans D.,
Heidegger’s Crisis: Philosophy and Politics in Nazi Germany, Harvard University Press, 1993.
18 BÄUMLER, A. Nietzsche der Philosoph und Politiker. Leipzig: Verl. Reclam, 1931. Bäumler,
como professor universitário e editor de obras de Nietzsche, contribuiu para a difusão desgurada
do lósofo e teve ainda a contribuição de seu secretário Heinrich Härtler, que escreveu um manual
intitulado Nietzsche und der Nationalsozialismus. Sobre o mau uso, por parte de Bäumler, dos
textos de Nietzsche, cf. MONTINARI, M. Interpretatione Nazista. In Su Nietzsche. Roma, 1981.
19 Alfred Rosenberg, em Mito do Século XX, põe Nietzsche ao lado do alemão Paul de Lagarde
(1827-1891) e do inglês Houton Chamberlain (1855-1927). O antissemitismo de Lagarde foi
pioneiro para certos aspectos da ideologia Nacional Socialista, em particular a de Alfred
Rosenberg
. Ele defendia que a Alemanha deveria criar uma forma “nacional” de
Cristianismo
que seria expurgada dos elementos semíticos e insistia que os Judeus eram “pestes e parasitas”
e que deveriam ser exterminados “tão rapidamente quanto possível”. O Racista Chamberlain,
em seu livro A Gênese do Século XX, de
1899
, sustentou que a raça superior ariana, descrita por
Arthur de Gobineau, era ancestral de todas as classes superiores européias e da Ásia, indo
mais além, armando que ela não havia sido extinta, subsistindo em estado puro na Alemanha
(Cf. ROSENBERG, A. Der Mythus des 20. Jahrhunderts. Hoheneichen - Verlag München, 1934).
20 “Und wenn wir dieser Jugend zurufen: Heil Hitler! - so grüßen wir mit diesem Rufe zugleich
Friedrich Nietzsche”. (in: Nationalsozialistische Monatshefte, Heft 49 April 1934, 5 Jg.). Publicado
também em “Nietzsche und der Nazionalsozialismus”. In Studien zur deutsche Geistesgeschichte.
Berlin: Junker und Dünnhaupt, 1937. P. 294.
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aproximações com Hitler, que visitou o Nietzsche-Archiv, em Weimar,
por duas ocasiões, em 1934.21 Hitler se reuniu pela primeira vez com
Elizabeth, por intermédio de Mussolini
22
, já um profundo admirador
do lósofo; desde os anos vinte mantinha contato com o círculo dos
amigos do Nietzsche-Archiv, inclusive fornecendo ajuda nanceira,
além de também ser conhecido o discurso do ditador italiano no qual
se refere explicitamente a Nietzsche, em 21 de maio de 1934. Além
disso, como se não bastasse a apropriação e aproximações indevidas
de Nietzsche com nazifascistas e com pensadores conservadores,
os pensamentos de esquerda, dos anos 40 e 50 do séc. passado
também contribuíram bastante para a difusão desgurada da losoa
nietzschiana. O mais proeminente representante da esquerda que
atacou contundentemente o pensamento de Nietzsche foi, sem dúvida,
Lukács, que o viu como “o fundador do irracionalismo do período
imperialista” e precursor do Nacional-Socialismo.23
21 Em uma dessas visitas, o Führer depositou ores no túmulo do lósofo e Elisabeth lhe
presenteou com a bengala favorita do irmão, com a qual foi fotografado, olhando nos olhos
do busto em mármore branco de Nietzsche. Essa foto foi feita pelo fotógrafo ocial e também
biógrafo de Hitler, Heinrich Hoffmann, e foi publicada na bibliograa (que vendeu quase um
milhão de meio cópias em 1938); ele caracterizou essa foto com a seguinte legenda: “o Führer
diante do busto do lósofo alemão cujas ideias nutriram os dois grandes movimentos populares:
o Nacional Socialismo da Alemanha e do fascismo da Itália” (Cf. SLUGA, Hans D. Heidegger’s
Crisis: Philosophy and Politics in Nazi Germany, Harvard University Press, 1993, p 179).
22 Gottlieb Scheufer cita o telegrama de Elizabeth enviado a Mussolini na ocasião do seu
aniversário de 50 anos em 1933, que demonstra certa admiração e intimidade da irmã do lósofo
com o Duce italiano: “Para o nobre discípulo de Zaratustra que Nietzsche sonhou e inspirou
despertar os valores aristocráticos, o Nietzsche-Archiv deseja os melhores e calorosos votos
com profundo respeito e admiração.”. SCHEUFFLER, G. Friedrich Nietzsche im dritten Reich.
Bestäntigunu und Aufgaben. Erfurt, E. Scheufer, 1933. (Wissenschaftliche Schriftenreihe,
Nr. 37), p. 7.
23 Cf. LUKÁCS, G. Die Zerstörung der Vernuft. Berlin: Aufbau-Verlag, 1953. Sobre a relação
da losoa nietzschiana com os pensamentos conservador de Bäumler e de esquerda de Lukács,
cf. o ensaio de MONTINARI, M. Nietzsche zwischwen Alfred Bäumler und Georg Lukács. In
Nietzsche Lesen. Berlin: Verl. Walter de Gruyter, 1982.
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Nietzsche e a Pólis Grega
A rotulação de nazista remetida contra Nietzsche vem daqueles
que negligenciam a sua exaltação soberana e aristocrática [vornehm]24
do indivíduo tal como os gregos compreendiam e a sua forte aversão
pela modernidade, sobretudo, aquela manifesta pela política com
a concepção de Estado democrático herdada, segundo ele, do
cristianismo25, mas que já havia sofrido traços de decadência na
civilização grega clássica. A crítica nietzschiana à política, todavia,
não é feita no terreno político propriamente dito, mas numa perspectiva
da análise dos valores e da elevação do homem e da sua contínua
superação.
26
Portanto, a ideia de aristocrático desenvolvida por
Nietzsche não deve ter a conotação política e militarista tal como foi
empreendida pela SS nazista27, mas, antes, deve ser compreendida
como uma elevação espiritual do homem, ou seja, como um radicalismo
aristocrático [aristokratischer Radicalismus]28. Apesar disso ser
mais evidente para os leitores do lósofo, principalmente em Para
além de bem e mal e Genealogia da moral, o aristocratismo exposto
nessas obras pode ser bastante esclarecido se recorrermos a alguns
24 O conceito de aristocrático, em Nietzsche, ao invés de lhe eximir de culpabilidade de vínculos
com o nazismo, às vezes é usado para reforçar o elo; nessa direção vai Abir Taha que em seu
livro, Nietzsche, Prophet of Nazis: The Cult of the Superman, op. cit., que pretende demonstrar
a íntima ligação do lósofo com o abominável movimento alemão.
25 Para Nietzsche, “o movimento democrático constitui a herança do movimento cristão” (JGB/
BM 202, KSA 5.125).
26 Cf. JGB/BM 257, KSA 5.205-6.
27 Cf. sobre a constituição de uma elite aristocrática, no Terceiro Reich, ZIEGLER, Hebert.
Nazi Germany’s New Aristocracy - The SS Leadership, 1925-1939. 1989.
28 Em uma carta enviada a George Brandes, datada de 2 dezembro, 1887, Nietzsche lhe agradece
pela expressão empregada para referir-se a sua losoa, “aristokratischer Radicalismus”. Cf. KSB
8.206. Sobre o tema do radicalismo aristocrático, Bruce Detwiler dá título ao seu livro inspirado
na expressão. Cf. DETWILER, Bruce. Nietzsche and the Politics of Aristocratic Radicalism.
Chicago, London: University of Chicago Press, 1990, p. 189.
Julião, J.N.
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textos de juventude
29
nos quais é resgatada uma ideia política do
agon grego que é fundamental para compreendermos o processo
funcional e orgânico da pólis grega e suas implicações na formação
de cidadãos elevados. Todavia, seus detratores consideram essa ideia
demasiadamente desumana, pois resgata estruturas e sentimentos
de uma humanidade pagã que não eliminava do seu âmbito nem
a crueldade nem a inveja, tampouco a escravidão e a violência,
comportamentos repudiados pelo humanismo moderno. Nietzsche
seria, portanto, um retrógrado saudosista e conservador da aristocracia
grega, um precursor dos sistemas ideológicos totalitários. Desatento a
certos esclarecimentos prévios, o pensamento do nosso lósofo pode
realmente ser transgurado em ideologia nazifascista, o que também
pode ser extraído da rica perspectiva interpretativa que sua losoa
oferece; porém, quem for por este caminho hermenêutico, do ponto
de vista político, segue o mesmo risco do cético, concernentemente
ao conhecimento e o mesmo do niilista do ponto de vista metafísico
e/ou moral, ou seja, está fadado ao fracasso, a autorrefutação, pois
se pratica aquilo que se condena, renuncia-se àquilo que se arma,
aniquila-se, assim, a própria vida.
A ida de Nietzsche à cultura grega como modelo para a
renovação e exaltação da cultura germânica, não foi uma novidade
para o pensamento oitocentista, pois está em consonância com o
ensinamento que começa com Winkelmann, no século anterior, que
em suas Reexões sobre a Imitação (1755-56), considerava que o único
meio dos alemães se tornarem grandes e se possível inimitáveis, seria
imitando os gregos antigos
30
, posição que inuenciou fortemente
toda tradição alemã do Classicismo ao Romantismo, na arte, do
29 Sobre a visão de Nietzsche do agon grego, cf. A Disputa em Homero (FV/CP 5, KSA 1.783)
e O Estado Grego (CV/CP 3, KSA 1.764). Trata-se de dois dos cinco prefácios, de 1872, a livros
que Nietzsche pretendia escrever, mas cuja tarefa nunca levou a cabo, mas trazem grandes
esclarecimentos sobre a reexão de Nietzsche sobre a Grécia antiga.
30 Cf. WINKELMANN, Johann J. Réexion sur l’imitation des oevres grecques em peinture et
em sculpture. Alerçon (Orne): Aubier, 1990.
Nietzsche entre a Pólis Grega e o Terceiro Reich Alemão
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Idealismo especulativo a Schopenhauer e Nietzsche na losoa. Esses
movimentos, apesar das suas grandes diferenças, se identicavam pela
exaltação da criatividade autêntica da cultura grega como modelo para
renovação da cultura germânica. Nietzsche, não obstante, foi um dos
primeiros, senão o primeiro, a ver na civilização grega a manifestação
tanto da beleza, leveza, serenidade e altivez quanto do obscurantismo,
crueldade, desespero, inveja e trapaças. Ele compreendeu o mundo
grego arcaico como sendo constituído dessa dupla característica, por
um lado, a harmonia e, por outro lado, também, com aquilo que é
terricante. Por isso, o lósofo de maneira alguma desconsiderava
os aspectos violentos e terríveis da política grega, ele pensava que
o poder e a força dessa civilização residiam justamente em graus
consideráveis de inveja, crueldade e violência
31
. A visão nietzschiana
da política saudável e violenta da pólis não pode ser compreendida
sem também um esclarecimento prévio do espaço público, da arena
na qual ela se constituiu.
Para Nietzsche, a política grega é uma atividade engajada
daqueles que são livres de um mundo de necessidades privadas.
Portanto, os homens políticos, ou seja, livres, não fazem uso da política
para ns próprios, privados, mas sempre buscam a satisfação do
público. Por isso, desde que os gregos se desvencilharam do domínio
da necessidade e passaram a ser regidos por um logos prático, as
virtudes passaram a ser as práticas exaltadas
32
, os homens políticos,
31 Cf. CV/CP 5. 785, KSA 1.785. Como exemplo de crueldade, Nietzsche cita a passagem do
combate entre Aquiles e Heitor, na Ilíada, canto XXIII, onde o herói grego ultraja cruelmente
o herói troiano.
32 A virtude (aretê) como maneira do homem grego constituir sua formação sempre foi exaltada
na cultura, na paidéia grega. Assim podemos ver nos tempos de Homero, p. ex., a exaltação da
coragem, manifesta em Aquiles, e a da astúcia, em Odisseu; mais tarde, com as tragédias, a
exaltação da justiça e da solidariedade como as mais importantes virtudes; no período clássico,
vemos em Sócrates e Platão a exaltação das virtudes cardinais, sabedoria, temperança, justiça
e coragem; em Aristóteles, a exaltação da prudência. Segundo Pierre Aubenque, as origens da
prudência aristotélica estariam nas tragédias gregas. Cf. AUBENQUE, Pierre. La Prudence chez
Aristote. Paris: PUF, p.19 ss. Para uma leitura mais complexa dessas nuanças e mudanças de
paradigmas na ética antiga grega, cf. WILLIAMS, Bernard. Shame and Necessity. California:
Julião, J.N.
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livres, expressavam suas opiniões e direcionavam os caminhos da pólis
em um espaço público interagido. A compreensão da simbiose entre
a política e a pólis grega é então fundamental para compreendermos
a posição nietzschiana de cultura e vida elevada, tal qual é descrita
Segunda Extemporânea:
Isto é uma lei universal que o ser vivo pode tornar-se saudável, forte e
fecundo, mas dentro de certo horizonte; se não for capaz de delimitar um
círculo do seu horizonte e, por outro lado, o seu egoísmo o impede de
subordinar o seu olhar ao horizonte de outrem, morrerá de preguiça ou de
pressa excessiva. A serenidade, a boa consciência, a alegria na ação, a
conança no futuro, tudo isso depende, no indivíduo como na nação, da
existência de uma linha de demarcação entre o que é claro e pode abarcar-
se com o olhar e o que é obscuro e confuso (HL/Co. Ext. II, 1, KSA 1.251).
Na última parte de Para além de bem e mal, intitulada “O
que é o aristocrático? [Was ist vornehm?]”, embora haja diferenças
paradigmáticas consideráveis entre os dois períodos, o Nietzsche
maduro, em consonância com suas reexões juvenis, apresenta a
singular relação que os gregos mantinham com a sua cidade. Os
cidadãos existiam na cidade-Estado, mas não para ela,
O essencial numa boa e sã aristocracia é que esta não se sinta como uma
função, seja de um rei ou de uma comunidade, mas o último signicado e
a mais alta justicação deles, e que recebe de boa consciência o sacrifício
de inumeráveis indivíduos, que, por causa dela, devam reduzir-se a serem
homens incompletos, escravos, instrumentos. O seu credo fundamental deve
resumir-se nisso, que a sociedade não deva existir pela própria sociedade,
mas simplesmente como base e como alicerce, para servir de sustentáculo,
de meio de elevação para uma espécie eleita de ser para que possam atingir
as suas mais altas tarefas... (JGB/BM 258, KSA 5.206).33
University of California Press, 2008.
33 Hannah Arendt, também, com bastante propriedade, chama a atenção para o espaço público
no qual se constitui a cidade grega: “A rigor, a polis não é a cidade-estado em sua localização
física; é a organização da comunidade que resulta do agir falar em conjunto, e seu verdadeiro
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No entanto, a exaltação do indivíduo soberano na cultura
grega deve ser compreendida de tal forma que o espaço público
que o concebe deve ser o legitimador dessa elevação, ou seja, é com
o assentimento público que o indivíduo se torna elevado. Porém,
para que tal instância seja inquestionável, há uma necessidade
que a linguagem e o modo de pensar estejam relacionados de forma
integralmente saudável com a instituição social da pólis. Para
Nietzsche, a procedência da pólis e da losoa está intimamente
ligada, ou seja, o pensamento losóco emergiu em solidariedade
com as estruturas sociais e intelectuais que são próprias da cidade
grega.
34
Entretanto, em um determinado momento, surgiu certo
predomínio do discurso racional sobre todos os outros instrumentos
de poder, quer dizer, as ações e ensinamentos socráticos afrouxaram
a relação orgânica antes existente, pois se introduziu o abstrato como
objeto das discussões, dando mais ênfase ao especulativo teórico do
que a sabedoria prática.
A relação originária entre a linguagem e a política será para
Nietzsche a marca, que mais distanciará depois, o homem moderno
do grego, sobretudo arcaico, pois, segundo ele, a maior característica
de um grupo “forte” de homens é a sua habilidade em nomear as
coisas para suas próprias vidas práticas. O uso da linguagem como um
instrumento político é a forma como Nietzsche vê a força da sociedade
grega. Na melhor época grega – para ele, o período trágico –, a pólis
é a arena pública onde os cidadãos competem tanto sica, através
dos jogos, quanto e, mais importante, discursivamente, através da
política. Contudo, segundo o nosso lósofo, Sócrates inaugura, de
certo modo, a decadência dessa cultura, pois toma a virtude como
algo que pode ser ensinado. A base da crítica de Nietzsche contra
espaço situa-se entre as pessoas que vivem juntas com os mesmos propósitos”. Cf. ARENDT,
Hanna. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 2000, p. 211.
34 J. P. Vernant é defensor dessa mesma tese, só que ele minimiza bastante se comparado a
Nietzsche as diferenças entre o pensamento dos Pré-socráticos e Socráticos. Cf. VERNANT, J.
P. – Mito e Pensamento Entre os Gregos. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1990.
Julião, J.N.
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Sócrates e Eurípides é que eles zeram da linguagem algo que pode
ser ensinado e consequentemente aprendido, mas que não é acessível
a quase ninguém35.
A concepção arcaica grega exemplica, para Nietzsche, então
uma relação “saudável” entre homem e política. Ele vê a cidade-Estado
como um disfarce apolíneo sobre o qual os perigos da compreensão
dionisíaca são transgurados na cultura ou exteriorizados na arte da
guerra. Por isso, para ele, a mais importante instituição política grega
arcaica será o agon, a disputa [Weltkampf] – na qual o caos escondido
no desejo de dominação e na dominação em si mesma – é vista de
uma maneira saudável, tal como a continuidade e a estabilidade
política. Portanto, os pré-requisitos para uma cultura elevada são
assegurados. No contexto do agon, ninguém pode se tornar o melhor
e ser o mais hábil para determinar por si mesmo as regras da disputa,
pois deve haver um assentimento das partes envolvidas, deve haver
um reconhecimento do melhor entre os pares, caso contrário, se gera
a desmedida, o desequilíbrio [hybris]. Entretanto, a disputa deve ser
mantida para que haja desenvolvimento e aperfeiçoamento da cultura.
É à luz desse contexto que se pode compreender a passagem referente
a Platão, no prefácio supracitado, intitulado A Disputa de Homero,
no qual é dito que nos diálogos do lósofo, aquilo que possui um
destacado sentido artístico é, nas mais das vezes, o resultado de uma
rivalidade com a arte dos oradores, dos sostas, dos dramaturgos de
seu tempo, descoberta para que ele pudesse dizer por m: “vejam,
também posso fazer o que os meus melhores adversários podem;
sim, posso fazê-lo melhor do que eles...” (CV/CP 5, KSA 1. 790).
Podemos compreender, da mesma forma, também, uma
aprovação curiosa de Nietzsche do ostracismo: prevenir-se contra
a hybris, pois isto ajuda a saúde da pólis. Segundo nosso lósofo,
35 Cf. GT/NT 11, KSA 1.75, quando Nietzsche fala da morte da tragédia. A esse respeito, cf.
BEHLER, E. “Sokrates und die grieschische Tragödie. Nietzsche und die Brüder Schlegel
über den Ursprung der Morderne.” In: Nietzsche Studien Band 18, Berlin/ New York: Walter de
Gruyter & Co., 1989., p. 141-157.
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os gregos são antes de tudo homens políticos em si e realmente a história
não conhece nenhum outro exemplo de um desencadeamento tão espantoso
do impulso político... Esta rivalidade sangrenta de uma cidade contra
outra, de uma facção contra a outra, esta cobiça mortífera das pequenas
guerras... - em que sentido interpretar tal barbárie inocente do Estado grego?
De onde ele retira sua desculpa diante do tribunal eterno? Orgulhoso e
quieto o Estado avança, quem o conduz pelas mãos é a magníca mulher
que oresce, a sociedade grega (CV/CP 3, KSA 1.771-2).
O que é importante e torna possível a ocasional e espantosa
exuberância política dos gregos é que a política e a cidade-Estado
não existem por si mesmas, ou seja, a pólis não se justica por si
mesma. Conjuntamente, com a necessidade da força política, na
fundação da cidade-Estado vem uma exigência para a sua manutenção
e dinâmica, pois, de fato, isto é natural, não importa quão rme sejam
as fundações da pólis, sem a sua manutenção nenhuma cultura pode se
desenvolver. Nietzsche atribui então grande peso a esta necessidade
e em decorrência disto, chama atenção para um fato ilustrativo da
cultura grega: aos pais sem lhos são negados por completo os direitos
cívicos. “Sem Estado, no natural bellum omnium contra omnes, a
sociedade não pode de maneira alguma lançar raízes em uma escala
maior e além do âmbito familiar” (CV/CP 3, KSA 1.772). Ao invés
da constante luta de todos contra todos, para a sobrevivência nos
tempos pré-políticos, o Estado (pelo menos, o grego) concentra
erupções, talvez mais violentas, e admite: “No intervalo... sob o efeito
daquela guerra concentrada e dirigida para dentro... a m de deixar
a or luminosa do gênio brotar, assim que surjam alguns dias mais
quentes” (CV/CP 3, KSA 1.772).
No entendimento de Nietzsche, o Estado, para ser saudável,
deve, fundamentalmente, sempre ser uma instituição comunitária, ein
Organismus. Não se trata de uma plêiade, ou seja, de uma simples
coleção de indivíduos fortes reunidos no espaço político da pólis;
as políticas devem acontecer, não devem ser usadas para benefício
próprio, nenhum indivíduo deve se sentir fora da pólis e capaz de
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usá-la em seu benefício próprio. O cidadão deve ter outros objetivos,
ele deve se desenvolver através da cultura [Bildung] e tornar-se
um tipo politicamente saudável. Para o autor do Zaratustra, uma
situação de “feliz-cidade”, ou seja, uma grande saúde gerando uma
grande política e vice-versa foi mantida, mesmo que precariamente,
em toda parte em um determinado período da história da Grécia,
nomeadamente, na época trágica, por homens que eram ao mesmo
tempo artistas, lósofos e homens de Estado [Staatsmänne]. Nietzsche
viu, então, que os lósofos pré-socráticos e os primeiros poetas trágicos
(Ésquilo e Sófocles) tinham a mesma roupagem, preenchiam aquelas
exigências. Por isso, entende a Oréstia, de Ésquilo, como uma trilogia
dramática sobre os problemas de mudanças na ordem social e política
da consciência moral grega (Cf. CV/CP 3, KSA 1.722 ss). Em outra
passagem, mencionada por ele, Tales de Mileto, reconhecendo as
perigosas potencialidades desinterativas na proliferação da pólis, tenta
uma unicação cultural da Grécia por meio de uma confederação
política (Cf. Nachlass/FP 6 [49], KSA, 8.118). Em todo caso, esta
delicada superação progressiva só pode ser mantida através de
esforços de homens como Tales e Empédocles - “genuínos homens
de Estado” (Nachlass/FP 6 [38], KSA, 8. 113), como Nietzsche os
chama.
Sem um contínuo esforço artístico, o número de antagonismos
e contradições implícitos na noção de continuidade acabaria por
destruir a pólis. Como todo poder político organizado, a pólis deve
manter as congurações sociais e políticas como elas são. Porém,
isso é hostil ao desenvolvimento progressivo da Bildung. Mas, sem
o renascimento contínuo que o homem de Estado promove, a pólis,
como elemento apolíneo da cultura, constantemente tenta dominar
o progenitor dionisíaco. Nietzsche demonstra essa simbiótica
relação em O Nascimento da tragédia. Portanto, na medida em que
o Estado consegue tal domínio, ele seleciona um número de afetos
através dos quais a regularidade da performance seria garantida.
Nietzsche entre a Pólis Grega e o Terceiro Reich Alemão
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As características apolíneas do Estado constituem uma negação
da necessidade de mudança. Mas, imediatamente, o Estado tenta
desenvolver princípios pelos quais alguns homens nele começarão
a achar agradável o que é de fato desagradável. O Estado gera então
uma “falsa consciência, que alguém deveria gostar de fazer coisas
desagradáveis” (MA I/HH I 474, KSA 2.308). De fato, Nietzsche
escreve que a necessidade pela manutenção, na origem, cria uma
estrutura de classes; desenvolvem-se então duas classes, uma de
trabalho escravo e uma de trabalho livre. Essa relação de poder
organizada entre as duas classes é a mais forte e típica, que depois,
inconscientemente, servirá de modelo para outros tipos de relação.
Entretanto, essa dicotomia se torna o foco central do Estado e gerará
imediatamente problemas (Cf. MA I/HH I, 439, 450, KSA 2.286/292).
Ocorre então rapidamente uma transformação paralelamente
estruturada e análoga àquela diagnosticada, posteriormente, no
primeiro ensaio da Genealogia da moral, ou seja, a gênese do
ressentimento. A classe inferior não deve ter motivos para adorar
o Estado, pois, na relação com a classe dominante, ela é fraca e
sofredora, procura uma justicação para o que lhe aconteceu e acaba
por se identicar com as forças que lhe são hostis. Embora, como
já mencionamos, haja mudanças paradigmáticas no processo do
desenvolvimento intelectual do jovem Nietzsche, ele lançou algumas
bases que depois, no pensamento maduro, se consolidarão a partir
de novos padrões de avaliação. Deste modo, podemos ver no prefácio
a O Estado Grego a ocorrência de um exemplo:
Como se uma vontade mágica emanasse deles, (os conquistadores), as
forças fracas aderem velozmente, de modo enigmático, e é miraculosa a
sua transformação numa anidade que até então não existia, na presença
daquela avalanche de violência que de repente ganha volume, e sob o
encanto daquele núcleo criador (CV/CP 3, KSA 1. 770).
Essa relação é a base do ressentimento apresentada, anos
Julião, J.N.
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depois, na Genealogia da moral, só que com uma linguagem própria
[eigne Sprache]
36
, ou seja, sob a égide da doutrina da vontade
de potência em sua simbiótica relação com as forças. A falta de
organização por parte dos fracos os conduz a se unirem psiquicamente
aos fortes. Para o nosso lósofo, psicologicamente, esta compensação
é a fonte da genealogia da moral escrava; socialmente, isto tem uma
importante consequência, pois tal desenvolvimento, no Estado,
admite uma evasão da responsabilidade por parte daqueles que se
identicam com este modo negativo. Na moral escrava, os homens
não se comportam como indivíduos, mas como partes; através da
divisão do trabalho, o Estado determina que os homens façam coisas
contrárias a sua natureza. “Na moral o homem não trata a si mesmo
como individuum, mas como dividuum” (MA I/HH I, 57, KSA 2.76).
A necessária organização do Estado faz com que as pessoas tornem-
se diferentes, pela divisão de responsabilidade, do comando e da
execução, através da intervenção das virtudes de obediência, do
dever e do patriotismo. Assim, a organização social e o Estado em
particular geram em muitos indivíduos uma conduta associada com
a moral escrava. Com o tempo progressivo, isto tende a afetar toda
comunidade.
A divisão do trabalho
37
torna-se então o principal instrumento
36 No prefácio da Genealogia da moral, Nietzsche, ao referir-se a Humano, demasiado humano,
diz: “Como tenho dito, foi à primeira vez que eu trouxe à luz aquelas hipóteses, genealógicas,
as quais estes tratados são dedicados, com torpeza, que eu seria o último a querer ocultar-me,
ainda sem liberdade, sem dispor de uma linguagem própria [eigne Sprache] para dizer estas
coisas próprias e com múltiplas recaídas e utuações” (EH/EH, Humano demasiado, humano
4, KSA 6.326). Talvez, possamos armar que no Prefácio a O Estado Grego, tal hipótese já
haviam sido esboçadas.
37 O conceito de divisão do trabalho é moderno, Adam Smith, no primeiro Capítulo de Riqueza das
Nações, mostra como a divisão do trabalho aumenta a produção da industria. (Cf. Investigação sobre
a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações. São Paulo: Editora Abril Cultural, Os Pensadores,
1974. P. 13 e ss.). Mesmo a divisão natural do trabalho tal como Marx descreve em O Capital
ainda é num contexto das discussões da moderna ciência econômica (Cf. MARX, K. O Capital:
Crítica da Economia Política. Livro 1. Vol I. 13a edição, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989).
Portanto, pode parecer anacrônico transferir tal tema para os antigos, sobretudo aos gregos para
Nietzsche entre a Pólis Grega e o Terceiro Reich Alemão
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da organização política, porém, para Nietzsche, trata-se de uma forma
de decadência, pois diminui as disposições do homem, tornando-o
medíocre e de menor valor, degradando consequentemente a cultura.
Sob o impacto da divisão do trabalho, o espaço político da ágora, o
qual torna o agon possível, rapidamente começa a se desintegrar. O
indivíduo é encorajado a ser pessoalmente irresponsável por seus
atos - especialmente na produção. Como um recurso euripidiano
do Deus ex machina
38
, ele pode responsabilizar seus atos a uma
autoridade externa. Ele pode agora agir para a atividade do Estado
desde que o mundo político se torne uma máquina distinta dos
indivíduos que o compõem, ele pode, evidentemente, não agir para
o Estado - a existência da escolha implica na consciência do “para”
como o problema. “Tudo que o homem faz a serviço do Estado,
contraria a sua natureza - diz Nietzsche - é obtido através da divisão
do trabalho”. (Nachlass/FP 12. 11 (252), KSA, 12. 97). Através da
divisão do trabalho, o Estado alimenta indivíduos incompletos, porém
mais úteis e, pela primeira vez, o indivíduo pode ser considerado a
partir da sua utilidade, encurtando o passo para uma consideração
do próprio Estado como uma fonte de poder útil. É no meio de tais
mudanças estruturais na pólis grega que ocorre um conjunto de
eventos históricos, os quais aceleram o desenvolvimento da divisão
do trabalho e do Estado moral escravo.
O desenvolvimento agonístico da cultura era postulado sob a
base de que nenhuma pessoa ou mesmo uma pólis fosse de fato a
melhor, pois senão estariam condenados a um desequilíbrio entre
quem – como Nietzsche chama atenção – nada era mais ultrajante do que o trabalho. Mesmo o
trabalho artístico, como, por ex., uma escultura de Fídias, era para ser contemplada, mas o ato
de fazer era desconsiderado, usando uma analogia de Plutarco, Nietzsche compara a um pai que
se honra do seu lho, mas se envergonha do ato sexual que o gerou. (Cf. FV/CP 3, KSA 1. 766).
38 Esta técnica é bastante utilizada por Eurípides quando algo divino ou sobrenatural – mesmo
um personagem – aparece de repente e aparam as arestas deixadas na história, p. ex., o nal de:
As Bacantes, Medéia, Alceste, Andrômaca e Helena. Esta técnica pode ser usada em qualquer
gênero literário, porém muito criticada, hoje, devido à fraqueza do desfecho da trama.
Julião, J.N.
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as partes, gerando assim a hybris. Antes de tudo, na prática da
política, com o espaço político ampliado, previne-se o povo de uma
posição fora do mito político e do uso do Estado para ns privados.
Nietzsche, com base em Tucídides (A Guerra do Peloponeso, 1), vê
a vitória dos atenienses que venceram as Guerras Persas – narradas
por Heródoto – como a fonte de uma mudança das mais importantes
na orientação do mundo grego. As guerras surgiram então como um
daemon ex machina, e deram m ao conito político grego. O perigo da
existência mesma e a denição do Estado são tão grandes, e a vitória
ateniense é tão completa, que Atenas se torna convencida de que a
força e a predominância política são as únicas formas em que pode
conar para manter a sua supremacia e segurança. Além da vitória
sobre os persas, Atenas desenvolve uma atitude de dominação através
da política. Em um fragmento do verão de 1875, Nietzsche anota: “a
dominação espiritual de Atenas foi um impedimento [Verhinderung]
à toda reforma. Um pensamento obrigatório volta para o período
em que a dominação não estava presente: isto não foi necessário;
isto está por detrás da vitória sobre os persas” (Nachlass/FP 6 [27],
KSA, 8.108).
Depois que isso se tornou fortemente estabelecido, passou a
vigorar “a teoria abominável de que se pode servir a cultura apenas
armada até os dentes e vestidos com luvas de boxe” (Nachlass/FP
6 [27], KSA, 8.108). Semelhante a Tucídides, Nietzsche percebe
penosamente, exibindo seus traços por sua crença de que sem o
Estado os homens se ferirão uns aos outros. Essa combinação entre
acidente natural e acidente histórico levam as políticas para longe
de ser uma atividade que ilumine uma cidade saudável, para ser
um m em si mesmo. Tal fato – paralelo à revolução socrática na
epistemologia – é um desastre geral para toda a cultura grega. A
predominância de Atenas é tão grande que nenhum inimigo externo
persiste sob quem perla as agressões que as contradições internas
do Estado irão atenuar.
Nietzsche entre a Pólis Grega e o Terceiro Reich Alemão
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O mais importante, na análise de Nietzsche, é que: a evolução
da pólis grega seguiu certo padrão ontológico, todavia, isto não é de
jeito algum inevitável neste início silvestre. Em um momento chave,
a Guerra Persa deu um ímpeto diferente de mudança qualitativa à
fundação estrutural do mundo grego. A importância da ocorrência
histórica especíca mostra que Nietzsche pensa que a ação humana
concreta pode ser o que há de mais importante no curso do evento
humano. Se tal realização abre a porta da possibilidade histórica,
isto também retira do processo histórico alguma noção de uma lógica
dialética, conduzindo inevitavelmente para uma condição social
diferente.
Nietzsche entre a pólis grega e o Estado moderno
A efetivação desastrosa do Estado tem uma consequência de
extremo alcance para evolução social e política tardia. Como o Estado
se transformou de arena de poder em instrumento de poder, um novo
tipo de homem surge para fazer uso desta ferramenta. Armado com
a abstração socrática e autoconsciência, ele ca essencialmente
fora do horizonte moral da comunidade. Uma vez que a maioria dos
povos que permanece em comunidade se esquece, necessariamente,
da origem do seu sentimento moral e põe-se ciente da inércia de sua
crença não examinada, aquele que possui “autoconsciência” e poder
começa a manipular o Estado para seus ns privados e próprios.
Considerando o mundo político dos helenos,
não quero ocultar em quais manifestações do presente acredito reconhecer
perturbações perigosas na esfera política, tão críticas para a arte quanto
para a sociedade. Se deve existir homens que, por nascimento, situam-se
fora dos instintos do povo, do Estado... tais homens inevitavelmente haverão
de imaginar como meta última do Estado a mais imperturbável vida em
conjunto de grandes comunidades políticas, nas quais seria permitido que
eles perseguissem antes de tudo as próprias intenções, sem limites” (CV/
CP 3, KSA 1.772).
Julião, J.N.
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Tais homens tendem para a destruição política. É evidente
que Nietzsche também via neles falhas. Em sua juventude,
admirou Bismarck39, através de quem pensou um rejuvenescimento
educacional da cultura alemã. Mas, rapidamente, reconheceu no
político alemão um novo Alcibíades40. Em suas apreciações sobre
Bismarck e Alcibíades, o lósofo nunca indicou que ambos tivessem
um papel comparável àqueles reservados aos grandes trágicos gregos
e a potencialidade da cultura pan-helênica. Em seu tempo, Nietzsche
via Wagner e a sua nova “cultura universal”, apesar de seu lapso com
o nacionalismo, como a mais importante gura da época. Assim como
Tucídides, Nietzsche pensou que Péricles e Clêon cometeram muitas
falhas como líderes, mas quem foi verdadeiramente responsável pela
queda de Atenas foi o homem sem pátria, Alcibíades, que usou o
Estado em benefício próprio.
Para o Estado ser usado, ele tem de ser avaliado, caso contrário,
poderá ser perigoso se arriscar na destruição da guerra. Assim, nos
tempos modernos, o aparecimento de doutrinas de ponto de vista
“otimistas liberais” tende a tomar da guerra a qualidade antagônica.
A consciência competitiva da guerra é mudada com o movimento
de massas, particularmente suscetível de manipulação ideológica
(Cf. MA I/HH I 441, KSA 2.287-8). Quando este desenvolvimento
combinado com a falta de responsabilidade é engendrado pelo Estado,
o perigo se torna enorme. Contrário àqueles que veem nos tempos
modernos o desenvolvimento nal do indivíduo autônomo, Nietzsche
acha que o homem moderno não é uma personalidade, mas um mero
ser isolado. Ele representa todos os átomos contra a comunidade...
Ele instintivamente se eleva com outros átomos. O que ele combate,
não combate como uma personalidade, mas como o representativo
39 Nietzsche tinha 17 anos quando Bismarck chegou ao poder, em 1862, do qual foi deposto
somente em 1890, um ano depois do colapso mental que abalou o lósofo em Turim.
40 Segundo sucessor do governo ateniense depois da morte de Péricles. Segundo Nietzsche, com
base em Tucídides, um aventureiro, egoísta responsável pela desgraça de Atenas.
Nietzsche entre a Pólis Grega e o Terceiro Reich Alemão
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do átomo contra o todo. Cedo, em Schopenhauer como Educador,
Nietzsche notou que “nós vivemos em um período de caos atomístico”
(SE/Co. Ext. III. 4, KSA, 1. 370).
Como na moralidade escrava, a tendência através da
fragmentação é criada pelo desejo de ser tornar forte. Por isso, pensa
que “o indivíduo é uma peça extremamente vulnerável de vaidade e
exigências onde todos devem ser iguais: onde todos devem se erguer
entrepares” (Nachlass/FP 40 [26], KSA, 11.642). Este vigor possível
possibilita algumas pequenas vaidades a serem satisfeitas, mas a base
da cultura precisa, necessariamente, perecer. Todo mundo tornando-
se igual signica, para Nietzsche, todo mundo ser individualmente
orientado através de seus ganhos privados, e assim na totalidade do
seu ser, tornar-se matéria de igualdade para o domínio da necessidade.
Essas consequências são incompatíveis com a raiz do pré-requisito
agnóstico para a cultura e a política.
A consequência do desenvolvimento do estado moral
escravocrata é muito clara para Nietzsche. Há uma progressiva
depreciação da política. Por isso, em Para além de bem e mal, diz que
O movimento democrático não é apenas uma forma de decadência da
organização política, mas uma forma de decadência, nomeada de diminuição
do homem, fazendo-o medíocre e de menor valor. Esta não é a posição do
homem que é contra a política, mas contrariamente, daquele que é contra
as consequências humanas do que nós chamamos de política (JGB/BM
203, KSA 5.126).
A visão de Nietzsche da pólis grega então serve como um
contraponto ao Estado moderno que com suas pretensões e ideais de
liberdade e igualdade, herdados da cultura cristã, não traz nenhuma
vantagem para a vida, serve apenas a uma humanidade decadente
que se satisfaz com o arrebanhamento e a planicação mediana do
homem. Nietzsche então estabeleceu um critério para analisar o
caráter elevado ou decadente de uma cultura, que passa a ser a vida,
Julião, J.N.
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portanto, se a cultura é elevada, a vida do cidadão com e por ela se
eleva também e vice-versa. O pensamento de Nietzsche, entretanto,
não tem pretensões de erguer um Estado planicador da ordem social
com objetivos de domínio político, a sua pretensão é mais nobre, é
espiritual e de cunho estético, não se expressaria satisfatoriamente
num modelo ou sistema ideológico, pois o seu pensamento autêntico
é de uma ordem mais elevada, permanente fonte de inspiração,
uma eterna convocação para criação, enquanto a estética nazista
é a da destruição e do extermínio, é uma caricatura grosseira da
losoa nietzschiana. O nazismo, malgrado a comparação, está para
a losoa de Nietzsche na mesma proporção que o stalinismo está
para o pensamento de Marx.
Abstract: The object of this assay is to analyze the interpretation
that Nietzsche makes of the politics old Greek and its implications
in the critical one that it sends to the modern culture. Critical these
that, much of the times, compromise its philosophy with forms of
fascist thoughts. For such task, we privilege, over all, the young
studies, in which, the philosopher deals with the politics between
the Greeks, but without neglecting tickets, in texts, of other phases,
when they will be excellent for ours analyzes.
Keyword: politics – State - aristocratic
Referências bibliográcas
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Artigo recebido para publicação em 14/08/2015.
Artigo aceito para publicação em 08/10/2015.
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Book
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Chapter
Nietzsche presents an iconoclastic philosophy which goes beyond the traditional boundaries of western thought, particularly the boundaries of western thought as they have been shaped by the Christian religion. The son of a Lutheran clergyman his philosophy has the air of an individual who wishes to get away as far as possible from his own roots. Nietzsche’s philosophy will forever be associated with the undermining of religious belief and the notion of the ‘death of god’. In place of God Nietzsche puts the active human will which has, in his view, the capacity in the very few to shape a world of its own. Because of its identification with the decline of religious belief and any absolute presuppositions, Nietzsche’s philosophy is often identified as an important starting point for postmodernism. Nietzsche’s view of experience is radically centred upon the human individual. As Warren puts it, ‘he reconceives central ideals of modern rationalism, especially the ideal of humans as agents with capacities for freedom, sovereignty, reciprocity and responsibility’.1 With Nietzsche freedom, sovereignty, reciprocity and responsibility are not grounded in any metaphysical belief or in a conception of an interpersonal reason. They derive solely from the life of self-conscious, active individuals.
Book
This classic is the benchmark against which all modern books about Nietzsche are measured. When Walter Kaufmann wrote it in the immediate aftermath of World War II, most scholars outside Germany viewed Nietzsche as part madman, part proto-Nazi, and almost wholly unphilosophical. Kaufmann rehabilitated Nietzsche nearly single-handedly, presenting his works as one of the great achievements of Western philosophy. Responding to the powerful myths and countermyths that had sprung up around Nietzsche, Kaufmann offered a patient, evenhanded account of his life and works, and of the uses and abuses to which subsequent generations had put his ideas. Without ignoring or downplaying the ugliness of many of Nietzsche's proclamations, he set them in the context of his work as a whole and of the counterexamples yielded by a responsible reading of his books. More positively, he presented Nietzsche's ideas about power as one of the great accomplishments of modern philosophy, arguing that his conception of the "will to power" was not a crude apology for ruthless self-assertion but must be linked to Nietzsche's equally profound ideas about sublimation. He also presented Nietzsche as a pioneer of modern psychology and argued that a key to understanding his overall philosophy is to see it as a reaction against Christianity. Many scholars in the past half century have taken issue with some of Kaufmann's interpretations, but the book ranks as one of the most influential accounts ever written of any major Western thinker. Featuring a new foreword by Alexander Nehamas, this Princeton Classics edition of Nietzsche introduces a new generation of readers to one the most influential accounts ever written of any major Western thinker. © 1968, 1974 by Princeton University Press. All Rights Reserved.