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Mentira e Ansiedade Social: Comparação de Diferentes Métodos de Entrevista na Deteção da Mentira

Authors:

Abstract

Na área forense, a discriminação de inocentes e mentirosos é ainda um desafio. Um aspeto importante a considerar, no sentido de prevenir erros, são as características individuais. Neste estudo atentamos ao nível de ansiedade social, uma característica relevante a considerar, uma vez que pessoas com elevada ansiedade social se tornam suscetíveis de serem consideradas menos credíveis, podendo ser interpretadas como estando a mentir, mesmo dizendo a verdade. Pretendíamos ainda comparar os efeitos de dois tipos de entrevista na discriminação destes indivíduos. Deste modo, na amostra foram incluídas pessoas com diferentes níveis de ansiedade social. Foram entrevistadas a dizer a verdade ou a mentir, com recurso e comparação da entrevista de recolha de informação e da entrevista acusatória. Várias dimensões associadas à mentira (esforço mental, nervosismo, controlo do comportamento, detalhe e plausibilidade do discurso) foram avaliadas por observadores, aos quais foi pedido que discriminassem a veracidade dos discursos. Os resultados sugerem que os níveis de ansiedade social têm influência na avaliação do esforço mental, nervosismo e detalhe do discurso. Contrariamente ao esperado, os entrevistados inocentes com elevada ansiedade social foram nos dois tipos de entrevista mais corretamente discriminados do que os mentirosos com baixo nível de ansiedade social. As taxas de acerto foram mais favoráveis para os relatos obtidos com a entrevista acusatória, para todos os grupos exceto os entrevistados inocentes com baixa ansiedade social. Verificou-se que os níveis de ansiedade social podem influenciar a opinião sobre características relacionadas com a deteção da mentira o que em última instância pode afetar a tomada de decisão sobre a inocência dos suspeitos.
Universidade de Aveiro
2014
Departamento de Educação
SÓNIA MARISA
PÓVOA SANTOS
MENTIRA E ANSIEDADE SOCIAL: COMPARAÇÃO
DE DIFERENTES MÉTODOS DE ENTREVISTA NA
DETEÇÃO DA MENTIRA
Universidade de Aveiro
2014
Departamento de Educação
SÓNIA MARISA
PÓVOA SANTOS
MENTIRA E ANSIEDADE SOCIAL: COMPARAÇÃO
DE DIFERENTES MÉTODOS DE ENTREVISTA NA
DETEÇÃO DA MENTIRA
Dissertação apresentada à Universidade de Aveiro para cumprimento dos
requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Psicologia Forense,
realizada sob a orientação científica da Doutora Paula Emanuel Rocha Martins
Vagos, Professora Auxiliar Convidada do Departamento de Educação da
Universidade de Aveiro
Dedico este trabalho à minha mãe e ao meu João.
o júri
presidente
Prof. Doutora Sandra Cristina de Oliveira Soares
Professora Auxiliar do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro
Prof. Doutor Carlos Fernandes da Silva
Professor Catedrático do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro
Prof. Doutora Paula Emanuel Rocha Martins Vagos
Professora Auxiliar Convidada do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro
Agradecimentos
Agradeço à professora Paula Vagos pela sua inteligência, exigência e
empenho na minha orientação. Se calhar ainda não sabe, mas fez-me sentir
apoio e inspiração durante este percurso.
À Beatriz Oliveira, por todas as horas que disponibilizou a acompanhar este
projeto. Obrigada pelo exemplo de trabalho, responsabilidade, empenho,
perfeccionismo e entusiasmo.
Um muito obrigado a todos os participantes, sem os quais seria impossível a
realização deste trabalho. Um obrigado enorme pela disponibilidade e por em
alguns dias mais complicados nos terem dirigido palavras de interesse para
com este projeto, relembrando a sua importância e contribuindo para que me
enchesse novamente de energia.
Agradeço também aos professores muito cativantes e estimulantes com quem
tive a sorte de aprender nesta universidade e que mantiveram sempre o meu
entusiasmo acordado!
Às formidáveis pessoas do Bloco 7 por me acolherem, me fazerem sentir em
casa e tornarem mais fáceis e agradáveis alguns dias complicados.
Quero ainda agradecer à minha fantástica turma da licenciatura de Psicologia
do ano 2009 foram uma companhia inspiradora e estimulante.
Deixo aqui um agradecimento particular ao “grupo”: Lina, Marta, Paula, Pedro
e Susana. Sempre nos fomos encontrando nos trabalhos disto e daquilo… E
os trabalhos saíram bem, mas sobretudo saiu bem a amizade e o
companheirismo que tornaram estes anos muito felizes.
Neste ano apesar do trabalho mais individual continuaram a ser colaborativos,
prestáveis e importantes: Pedro, obrigada pela ajuda no angariar dos
participantes; Marta, obrigada por ouvires os meus desabafos e partilhares
comigo a tua serenidade; Susana obrigada pela companhia, pelo estímulo e
troca de ideias sempre inspiradoras.
Lina, obrigada por me acompanhares neste processo como em todos, sempre
atenta. Sabes que te admiro e que sempre foste um exemplo de empenho e
competência. E sobretudo de amizade.
À Paula que me acompanhou de forma tão próxima na realização deste
trabalho. E em tudo. Tu sabes. És brilhante.
À minha mãe e ao meu João: vocês são a minha família e a minha base.
Foram e serão sempre importantes.
palavras-chave
deteção da mentira, ansiedade social, entrevista de recolha de informação,
entrevista acusatória, carga cognitiva, características individuais.
resumo
Na área forense, a discriminação de inocentes e mentirosos é ainda um
desafio. Um aspeto importante a considerar, no sentido de prevenir erros, são
as características individuais. Neste estudo atentamos ao nível de ansiedade
social, uma característica relevante a considerar, uma vez que pessoas com
elevada ansiedade social se tornam suscetíveis de serem consideradas menos
credíveis, podendo ser interpretadas como estando a mentir, mesmo dizendo a
verdade. Pretendíamos ainda comparar os efeitos de dois tipos de entrevista
na discriminação destes indivíduos.
Deste modo, na amostra foram incluídas pessoas com diferentes níveis de
ansiedade social. Foram entrevistadas a dizer a verdade ou a mentir, com
recurso e comparação da entrevista de recolha de informação e da entrevista
acusatória. Várias dimensões associadas à mentira (esforço mental,
nervosismo, controlo do comportamento, detalhe e plausibilidade do discurso)
foram avaliadas por observadores, aos quais foi pedido que discriminassem a
veracidade dos discursos.
Os resultados sugerem que os níveis de ansiedade social têm influência na
avaliação do esforço mental, nervosismo e detalhe do discurso.
Contrariamente ao esperado, os entrevistados inocentes com elevada
ansiedade social foram nos dois tipos de entrevista mais corretamente
discriminados do que os mentirosos com baixo nível de ansiedade social. As
taxas de acerto foram mais favoráveis para os relatos obtidos com a entrevista
acusatória, para todos os grupos exceto os entrevistados inocentes com baixa
ansiedade social.
Verificou-se que os níveis de ansiedade social podem influenciar a opinião
sobre características relacionadas com a deteção da mentira o que em última
instância pode afetar a tomada de decisão sobre a inocência dos suspeitos.
keywords
lie detection, social anxiety, information-gathering interview, accusatory
interview, cognitive load, individual characteristics.
abstract
In the forensic field the discrimination of innocents and liars still is a challenge.
A significant aspect to be considered to prevent errors are the individual
characteristics. In this study, we included social anxiety levels, as a strong part
of human behaviour and individual characteristic, in order to prevent wrongfully
accusations or judgments. Since socially anxious people, despite their truth
telling, are often consider less credible, and interpreted as being lying. Also
intended to compare the effects of two types of interview in the categorization
of these individuals.
Therefore, the sample included people with different levels of social anxiety
(high and low). They were interviewed telling the truth or lying, using the
information-gathering interview, and accusatory interview methods.
Several lying associated dimensions (mental effort, behaviour control,
nervousness, plausibility and speech detail) were evaluated by observers,
which were asked to judge the veracity of those statements.
The results suggests that the social anxiety levels have influence in the
evaluation of mental effort, nervousness and speech detail.
Innocent interviewees with high social anxiety, contrary to expectations, were,
in both interview styles, more accurately categorized than liars with low social
anxiety. The accuracy rates were higher to the accusatory interview reports, for
all groups except for the truth tellers with low social anxiety.
It was observed the social anxiety levels may influence the opinion of
characteristics related to lie detection which can ultimately affect the decision
on the innocence of suspects.
Índice
Introdução .......................................................................................................................................... 1
Método ............................................................................................................................................... 8
Participantes ................................................................................................................................... 8
Entrevistados ............................................................................................................................. 8
Observadores ............................................................................................................................. 9
Instrumentos................................................................................................................................. 10
Amostra Entrevistados ............................................................................................................. 10
Amostra Observadores ............................................................................................................ 10
Procedimento ............................................................................................................................... 11
Procedimento Experimental .................................................................................................... 11
Procedimento Estatístico ......................................................................................................... 14
Resultados ........................................................................................................................................ 14
Avaliação das dimensões em estudo ............................................................................................ 14
Esforço Mental ........................................................................................................................ 14
Nervosismo .............................................................................................................................. 15
Controlo do comportamento .................................................................................................... 16
Detalhe ..................................................................................................................................... 17
Plausibilidade .......................................................................................................................... 18
Discriminação direta de mentirosos e inocentes .......................................................................... 18
Entrevista de recolha de informação ....................................................................................... 18
Entrevista acusatória ................................................................................................................ 19
Discussão.......................................................................................................................................... 19
Referências ....................................................................................................................................... 27
Anexos.............................................................................................................................................. 32
Índice de Tabelas
Tabela 1. Caraterização dos entrevistados ......................................................................................... 9
Tabela 2. Caraterização dos observadores da Entrevista de Recolha de Informação......................... 9
Tabela 3. Caracterização dos observadores da Entrevista Acusatória ............................................. 10
Índice de Figuras
Figura 1. Avaliação do esforço mental na ERI e do nível de detalhe do discurso na EA em função
dos níveis de ansiedade social .......................................................................................................... 15
Figura 2. Avaliação do nervosismo e do controlo do comportamento em função do tipo de
entrevista .......................................................................................................................................... 15
Figura 3. Avaliação do nervosismo dos entrevistados em função dos níveis de ansiedade social e do
tipo de entrevista .............................................................................................................................. 16
Figura 4. Avaliação do nervosismo dos entrevistados em função dos níveis de ansiedade social e da
condição ........................................................................................................................................... 16
Figura 5. Avaliação do nível de detalhe do discurso dos entrevistados na condição Verdade ........ 17
Figura 6. Discriminação de inocentes e mentirosos nos vários grupos ............................................ 18
1
Introdução
Conseguir apurar de forma inequívoca quais os intervenientes mentirosos e quais os
intervenientes inocentes permanece ainda um dos grandes desafios na área forense. Trata-se de um
contexto no qual a motivação para mentir poderá ser estimulada para evitar condições menos
desejadas pelo sujeito, como ficar sujeito a multas, sanções ou reclusão, pelo que se torna ainda
mais premente a possibilidade de distinguir claramente entre estes dois tipos de intervenientes.
Porém, vários estudos questionam a validade de alguns métodos para apurar a mentira,
nomeadamente devido ao tipo de pistas a que atendem (Hart, Fillmore, & Griffith, 2009; Mann,
Vrij, & Bull, 2002; Mann & Vrij, 2006; Vrij, Fisher, Mann, & Leal, 2008; Vrij, 2004) e referem a
interferência de variáveis individuais que podem facilitar ou dificultar a categorização de inocentes
e mentirosos (Vrij, Granhag, & Porter, 2010; Vrij, 2004).
A mentira é um fenómeno que ocorre na comunicação humana e é estudado e discutido em
diferentes âmbitos, como a ética e a moral, a ciência e o contexto legal (Ford, 2006). Acontece
quando uma pessoa procura intencionalmente enganar outra (Ford, 2006; Serota, Levine, & Boster,
2010). Independentemente da informação ser verdadeira ou falsa, a intenção do mentiroso é
transmitir informação que acredita ser falsa por forma a convencer o recetor de que a sua
mensagem é verdadeira (Ford, 2006).
Identificar os mentirosos é uma preocupação muito antiga e ao longo da história vários
métodos foram utilizados na tentativa de o fazer. Alguns dos métodos utilizados na época medieval
remetiam para a associação da mentira com alterações fisiológicas, nomeadamente alterações
derivadas de emoções que um mentiroso poderá sentir, como medo ou ansiedade (cf. Ford, 2006).
No século XIX, Cesare Lombrose, deu início à utilização do polígrafo baseando-se também na
ideia de que ansiedade seria indicador de mentira (Lykken, 1981 cit. Ford, 2006). Ao longo do
tempo foram desenvolvidas várias técnicas de utilização do polígrafo e surgiram outros métodos
considerados promissores, como por exemplo, a identificação de estruturas do cérebro associadas à
mentira e o Brain Fingerprinting. Várias vantagens e desvantagens têm sido atribuídas a estes e
outros métodos (para uma revisão ver Ford, 2006), sendo que a observação continua a ser a forma
mais comum de deteção da mentira, permitindo fazê-lo quando não é possível o recurso a
equipamentos sofisticados como tecnologias para medir pistas fisiológicas ou neurológicas (Vrij et
al., 2010). Paul Ekman trabalhou neste sentido, descrevendo maneiras de observar atividade facial
e de perceber se a pessoa esa ser genuína. Identificou microexpressões (microexpressions) e
expressões reprimidas (squelched expressions) (Ekman & Friesen, 1978 cit. Ford, 2006),
consideradas formas genuínas de expressão emocional, tendo sido formulada a premissa de que se
a pessoa tenta esconder as suas verdadeiras emoções poderá estar a mentir (Ekman, 1985 cit. Ford,
2006).
2
Muitos métodos de deteção de mentira seguem efetivamente protocolos que tomam em
consideração as emoções, pressupondo que, por temerem ser desmascarados, os mentirosos estarão
mais ativados quando interrogados. Contudo, não é garantido que os mentirosos se mostrem mais
nervosos e preocupados (Vrij et al., 2008). Em contrapartida é possível que inocentes manifestem
sinais de preocupação e de nervosismo quando entrevistados (Vrij et al., 2008), pois mesmo não
estando a mentir as pessoas podem sentir a mesma gama de emoções, por exemplo por temerem
que não acreditem nelas (Vrij et al., 2010).
Na verdade, a investigação na área da mentira tem revelado que a presença de
comportamentos associadas ao nervosismo, como a inquietação, evitar o contacto ocular, aumento
da frequência do pestanejo, aumento de movimentos e aumento de perturbações no discurso não
parecem estar relacionados de forma consistente com o ato de mentir (Mann et al., 2002; Vrij,
2004), sendo consideradas erradamente pistas de mentira e originando o estereótipo do mentiroso
(Hart et al., 2009). De acordo, num estudo de Mann e Vrij (2006), polícias observaram vídeos de
suspeitos, desconhecendo quais os mentirosos e os inocentes, e avaliaram os mentirosos como
menos nervosos. Assim, as pistas emocionais e de nervosismo não serão suficientes para distinguir
mentirosos de honestos.
Vrij, Fisher, Mann e Leal (2006) propõem o enveredar por uma abordagem distinta: a
abordagem da deteção da mentira com base em pistas de carga cognitiva. Nesta abordagem
pressupõem-se que mentir é cognitivamente mais exigente do que dizer a verdade e que prestar
atenção a pistas de carga cognitiva poderá facilitar a deteção da mentira. De uma forma simples,
carga cognitiva diz respeito ao esforço mental necessário para responder às exigências de uma
tarefa num determinado período de tempo e pode ser afetada por vários fatores, desde o tipo de
tarefa a características individuais (Paas, Tuovinen, Tabbers, & Gerven, 2010; Xie & Salvendy,
2000). Ressalve-se que na abordagem da carga cognitiva para a deteção da mentira o termo “carga
cognitiva” significa “esforço mental”, não sendo realizada distinção.
Podem apontar-se vários motivos para explicar porque é que mentir é cognitivamente mais
exigente do que dizer a verdade. Por exemplo, é necessário formular uma história plausível e
monitorizar o que é dito para que a informação se mantenha consistente. Durante o seu relato, os
mentirosos mantém-se preocupados em controlar o seu comportamento para parecerem honestos
(Burgoon, 1994; Vrij, Granhag, et al., 2010; Vrij, Mann, Leal, & Granhag, 2010; Vrij et al., 2008).
Ao mesmo tempo, torna-se necessário prestar atenção ao comportamento do entrevistador para
realizar ajustes conforme o feedback recebido (Burgoon, 1994). Os mentirosos têm a preocupação
adicional de se recordar que estão a encenar (Vrij et al., 2008), deliberando a interação em vez de a
viver naturalmente (DePaulo et al., 2003). O facto de a verdade ter que ser suprimida das respostas
é também cognitivamente exigente (Vrij et al., 2010; Spence et al., 2001 cit. Vrij et al., 2008). E
3
enquanto a ativação de informação verdadeira acontece de forma mais automática, a ativação de
uma mentira é intencional e deliberada, exigindo maior esforço (Vrij et al., 2008; Walczyk et al.,
2005).
Em concordância com a abordagem da carga cognitiva, investigações com resultados
que evidenciam a ativação de regiões do cérebro responsáveis por funções executivas durante a
mentira, que não se verificaram quando os participantes respondem de forma verdadeira (e.g.
Spence et al., 2004). Em vários estudos também se tem verificado que os participantes relatam
maior esforço mental enquanto mentem, maior tensão e maior tentativa de controlo sobre o próprio
comportamento (Vrij, Mann, & Fisher, 2006; Vrij, Semin, & Bull, 1996). Acrescenta-se que o
esforço mental e o controlo do comportamento decorrente parecem passíveis de ser avaliados e
identificados, por observadores, como exacerbados nos mentirosos em comparação com inocentes
(Mann & Vrij, 2006).
Encontram-se estudadas várias pistas de carga cognitiva que se podem relacionar com ato
de mentir, no âmbito do comportamento verbal e não-verbal. No âmbito do comportamento não-
verbal verifica-se, por exemplo, redução da linguagem corporal (Ekman & Friesen, 1972) e
diminuição do pestanejo (Mann et al., 2002; Wallbott & Scherer, 1991). Relativamente ao
comportamento verbal foram apuradas pista ao nível da forma (tom de voz, pausas, interrupções,
hesitações, período de latência anterior à resposta, tamanho da resposta) e do conteúdo do discurso
(descrição de sentimentos, quantidade de detalhe, ocorrência de inconsistências lógicas e de
correções espontâneas) (DePaulo et al., 2003; Vrij, Edward, & Bull, 2001; Vrij, Edward, Roberts,
& Bull, 2000; Vrij, 1995).
Algumas destas pistas são efetivamente úteis para auxiliar a deteção de mentira, podendo
variar em consequência da veracidade do discurso; contudo outras podem variar por motivos não
relacionados (Hart et al., 2009), por exemplo, por serem devidas a características individuais. Posto
isto, torna-se pertinente solicitar aos observadores não para distinguirem mentirosos de inocentes, e
sim para focarem a atenção em dimensões relevantes para a deteção da mentira (Hart et al., 2009).
Alguns estudos têm encontrado evidências de que as pessoas são mais precisas na discriminação de
mentira e verdade através deste método. Por exemplo, num estudo de Vrij, Edward e Bull (2001) os
observadores categorizaram com mais sucesso mentirosos e inocentes através das classificações
atribuídas ao esforço mental do que através da resposta às questões explícitas sobre mentira.
Noutro estudo, os participantes classificaram mais corretamente mentirosos e inocentes através da
avaliação do nível de conforto durante a interação do que quando lhes foi pedido de forma direta
que os identificassem (Anderson, DePaulo, & Ansfield, 2002).
Para a recolha deste tipo de informação, que possibilita a sua observação e análise dos
suspeitos e o apurar dos factos, podem ser utilizadas várias abordagens. Duas abordagens comuns
4
são a Entrevista de Recolha de Informação (ERI), na qual são realizadas perguntas abertas, e a
Entrevista Acusatória (EA), onde os suspeitos são confrontados com acusações (Vrij et al., 2010;
Vrij & Granhag, 2012). São estilos bastante distintos, logo suscetíveis de produzir resultados
diferentes. Enquanto nos interrogatórios de recolha de informação a pessoa é encorajada a falar
pela utilização de perguntas abertas, nos interrogatórios do estilo acusatório muitas vezes a pessoa
tende a empenhar-se em negar o facto de estar a mentir, (Vrij et al., 2010). É ainda considerado que
a EA leva os entrevistados a serem menos cooperativos e que tem efeitos semelhantes nos
inocentes e mentirosos, provocando em ambos o receio de que não acreditem em si (Vrij, Granhag,
et al., 2010). Deste modo, pode tornar-se pouco eficaz, na medida em que não estimula diferenças
que facilitem a discriminação. A ERI é considerada vantajosa por vários motivos, nomeadamente
por ser mais provável a obtenção de maior quantidade de detalhes, o que poderá permitir a deteção
de inconsistências e contradições entre as respostas obtidas e os factos (Vrij et al., 2010) ou por se
tratar de um método que não envolve acusação nem outras formas de provocar desconforto nos
entrevistados, podendo por isso prevenir a obtenção de falsas confissões (Gudjonsson & Pearse,
2011).
Vrij, Mann e Fisher (2006) estudaram as perceções de participantes que mentiram ou
disseram a verdade perante estes tipos de entrevistas, obtendo resultados que ajudam a perceber os
efeitos que estas entrevistas podem ter. Tanto mentirosos como inocentes sentiram maior
desconforto durante a entrevista acusatória, sentiram-se mais ouvidos durante a ERI, e
consideraram a ERI mais exigente cognitivamente. Os mentirosos foram os que se sentiram mais
ansiosos e que consideraram ambas as entrevistas mais exigentes cognitivamente. Os autores
verificaram ainda que os participantes que se consideraram mais tímidos sentiram maior
nervosismo nas entrevistas de estilo acusatório e enquanto mentiram, e maior carga cognitiva na
ERI e na condição de mentira.
Embora mentir, conforme referido, seja cognitivamente exigente, algumas pessoas
conseguem ser muito competentes a fazê-lo. Há evidências de que determinadas características
individuais podem ter influência na habilidade para mentir de forma bem-sucedida (Kashy &
DePaulo, 1996 cit. Ford, 2006). Vrij, Granhag e Porter (2010) consideram que os melhores
mentirosos são indivíduos cujo comportamento desacredita suspeitas; para quem mentir não é
cognitivamente exigente; que enquanto mentem não sentem medo, culpa ou prazer; que são bons
atores, aparentando uma postura honesta; que são atraentes, levando à inferência de virtude e
honestidade; e que têm uma boa noção dos processos de pensamento que o outro poderá ter.
Isto remete para a importância de se atentar nas diferenças individuais ao tentar distinguir
inocentes de mentirosos, no sentido de prevenir interpretações erróneas. No julgamento que
fazemos dos outros existe tendência para a sobrestimação de fatores disposicionais em detrimento
5
de fatores causais (The Fundamental Attribution Error; Ross & Nisbett, 1991 cit. O’Sullivan,
2003), o que em termos de deteção da mentira pode resultar na incapacidade de reconhecer quando
uma pessoa de aparência credível está mentir ou quando uma pessoa de aspeto menos credível está
a dizer a verdade (O’Sullivan, 2003). O’Sullivan (2003) verificou este efeito no seu estudo, uma
vez que após a atribuição de características positivas a uma pessoa os observadores tenderam a
julga-la inocente, independentemente de ser inocente ou mentirosa, levando o autor a concluir pela
existência de uma tendência para julgar as pessoas em função das suas características em vez de
estados circunstancialmente relevantes. De acordo, Vrij (2004) explica não considerar estas
diferenças pode prejudicar a deteção da mentira, uma vez que algumas pessoas, devido ao seu
comportamento, aparentam naturalmente maior honestidade ou desonestidade do que outras.
Podem verificar-se estes efeitos em alguns traços personalidade; por exemplo, pessoas expressivas
transmitem maior credibilidade, enquanto pessoas auto conscienciosas em público tendem a criar
uma impressão menos credível, independentemente de estarem a dizer a verdade, o que poderá
originar enganos na deteção de mentira. Sabe-se também que pessoas socialmente ansiosas
provocam nos outros uma impressão de menor credibilidade, pois a impressão de tensão,
nervosismo e medo que pode ser emitido naturalmente por indivíduos socialmente ansiosos tende a
ser interpretado como indicador de mentira (Vrij, 2004). Este fenómeno de interpretação de pistas
de nervosismo como pistas de mentira afigura-se um erro comum na deteção da mentira conhecido
como Erro de Otelo (Vrij, Granhag, et al., 2010).
A ansiedade social é uma experiência comum nas relações interpessoais, que se prende
com o temer ser julgado e avaliado de forma negativa, por parte dos outros (Baldwin & Main,
2001). Contudo, em alguns casos pode evoluir para uma experiência intensa, extremada e
patológica (Hirsch & Clark, 2004). A Perturbação da Ansiedade Social ou Fobia Social caracteriza-
se por “medo acentuado e persistente de uma ou mais situações sociais e de desempenho nas quais
o sujeito está exposto a pessoas desconhecidas ou à possível observação de outras”, sendo que “a
exposição à situação social temida provoca quase sempre ansiedade” (American Psychological
Association, 2002, p. 456). O medo resulta do temor em comportar-se de uma maneira que possa
ser avaliada de forma negativa pelos outros. Os sintomas de ansiedade podem incluir sintomas não-
verbais, como palpitações, tremores, suores, tensão muscular e rubor; e verbais, como a voz
trémula. Podem também manifestar-se em défices nas aptidões sociais, como a incapacidade de
olhar nos olhos (A.P.A., 2002). Assim, como consequência do medo da avaliação negativa por
parte dos outros, a ativação cognitiva, emocional e fisiológica parece ser moldada.
O papel da cognição no desenvolvimento e manutenção desta perturbação tem sido
estudado, existindo modelos teóricos como o de Clarck & Wells (1995) que focam o papel primário
das cognições na etiologia e manutenção da ansiedade social. Segundo este modelo, as pessoas com
6
Fobia Social, durante os eventos sociais dirigem a atenção para si próprios, acabando deste modo
por utilizar informação interna, como sentimentos de ansiedade e imagens espontâneas enviesadas,
para fazerem as suas interpretações sobre o evento social, resultando em inferências erradas sobre a
forma como parecem para os outros (Clark & McManus, 2002), pois acabam por desconsiderar a
estimulação externa (Wild, Hackmann, & Clark, 2007). Ou seja, durante os eventos sociais a
atenção tende a ser auto focada, sendo dirigida para a ativação fisiológica, comportamento,
emoções ou aparência do próprio (Clark & Wells, 1995 cit. Gaydukevych & Kocovski, 2012).
Estes processos cognitivos de auto monitorização, nomeadamente de memorização e revisão
cuidadosa do próprio discurso, têm como objetivo a própria proteção e o prevenir receber uma
avaliação negativa por parte dos outros. Ainda assim, estes processos cognitivos podem ser
contraproducentes e acabar por confirmar e provar a avaliação negativa (Clark, 2001); o foco em si
próprio e no próprio discurso pode aparentar ao outro desinteresse ou desagrado, desencadeando
dessa forma uma resposta mais hostil que acaba por contribuir para a confirmação dos receios
iniciais (Clark & McManus, 2002).
Especificamente durante as situações de desempenho e interação social, os indivíduos com
Fobia Social referem mais pensamento auto avaliativos negativos do que indivíduos sem a
perturbação (Beazley, Glass, Chambless, & Arnkoff, 2001), reportam vivenciar imagens
espontâneas de si próprios tendo mau desempenho ou exibindo sintomas de ansiedade (Hirsch &
Clark, 2004) e perante estas imagens podem haver sensações corporais e ativação de várias
modalidades sensoriais, assim como detalhes da memória autobiográfica (Hackmann, Clark, &
McManus, 2000; Wild et al., 2007).
Atentando na sintomatologia e funcionamento característico da Fobia Social e considerada
a informação exposta sobre a deteção da mentira pode perceber-se que a deteção da mentira em
indivíduos com elevada ansiedade social se torna complexa. Somam-se motivos que podem levar a
que uma pessoa inocente com elevada ansiedade social seja erradamente avaliada como estando a
mentir. Devido à emissão de pistas de nervosismo e aos défices nas aptidões sociais, estas pessoas
tendem a ser consideradas menos credíveis e a exibir sinais que podem ser interpretados como
pistas de mentira. Mesmo desconsideradas as pistas relacionadas com as emoções e o nervosismo,
os ansiosos sociais estarão possivelmente sujeitos, tal como os mentirosos, a uma maior carga
cognitiva quando comparados com indivíduos com baixos níveis de ansiedade, advinda da
preocupação intensa com o desempenho e resultante em vários processos cognitivos, que
acontecem no sentido de monitorizar e de tentar controlar o próprio comportamento, aspeto
também útil ao ato de mentir, mas neste caso com o objetivo de passar uma impressão positiva.
Posto isto, no presente trabalho serão avaliadas dimensões associadas à mentira e
reveladoras de esforço mental em sujeitos que estejam a dizer a verdade (inocentes) ou a mentir, e
7
que reportem níveis baixos ou elevados de ansiedade social, com recurso e comparação da
entrevista de recolha de informação (ERI) e da entrevista acusatória (EA).
Sabe-se que o ato de mentir exige maior esforço mental do que dizer a verdade (Vrij,
Granhag, et al., 2010; Vrij et al., 2008, 1996; Vrij, Mann, et al., 2006; Walczyk et al., 2005).
Contudo, considerando que as pessoas socialmente ansiosas, devido à sintomatologia associada,
vivenciam maior esforço mental durante as interações sociais, torna-se expectável que inocentes
com elevada ansiedade social sejam avaliados com tanto ou maior esforço mental que os
mentirosos com baixa ansiedade social, particularmente na ERI por se encontrar associada a maior
exigência cognitiva (Vrij, Mann, et al., 2006).
A literatura sugere também que os entrevistados mentirosos são considerados os mais
nervosos e os que mais controlam o seu comportamento, sobretudo aqueles com elevada ansiedade
social e durante a EA (Vrij, Mann, et al., 2010; Vrij, Mann, et al., 2006; Vrij et al., 1996). Assim é
possível, que mesmo sem estar a mentir, devido às suas características, pessoas socialmente
ansiosas sejam avaliadas com tanto ou mais nervosismo e controlo do comportamento que os
indivíduos mentirosos com baixa ansiedade social, principalmente durante a EA. Sabe-se que a EA,
comparativamente à ERI, incentiva menos o relato (Vrij et al., 2010), que uma história falsa será à
partida menos detalhada (DePaulo et al., 2003; Vrij, Mann, et al., 2010), e que a dinâmica
acusatória desta entrevista poderá ser considerada pelos ansiosos sociais uma situação
particularmente ameaçadora (Vrij, Mann, et al., 2006), podendo contribuir para um fraco
desempenho. Assim, espera-se que inocentes com elevada ansiedade social sejam avaliados como
apresentado um nível de detalhe igual ou inferior aos mentirosos com baixa ansiedade social, nesta
entrevista. Quanto à plausibilidade, é expectável que os discursos dos mentirosos sejam
considerados menos plausíveis; contudo sabe-se também que os indivíduos com elevada ansiedade
social tendem a ser considerados menos credíveis (Vrij, 2004). Assim, é possível que os indivíduos
inocentes com elevada ansiedade social tenham os seus discursos considerados tão ou menos
plausíveis que os mentirosos com baixa ansiedade social, sobretudo durante a EA.
Relativamente aos acertos na discriminação de inocentes e mentirosos, é expectável que os
inocentes com baixa ansiedade social sejam os mais frequentemente avaliados corretamente,
sobretudo na ERI, uma vez que mensagens verdadeiras são mais frequentemente julgadas
corretamente (Bond & DePaulo, 2006) e que este tipo de entrevista estimula um relato mais
completo (Vrij et al., 2010). Contudo, pela revisão efetuada coloca-se como hipótese que inocentes
com elevada ansiedade social sejam confundidos com mentirosos, sobretudo durante a EA, na qual
é possível que sejam despoletados mais sintomas de ansiedade e nervosismo, passíveis de serem
considerados pistas de mentira, por se tratar de uma situação de cariz mais ameaçador. No caso dos
indivíduos mentirosos com ansiedade social elevada é expectável que a taxa de acerto seja maior
8
do que para os mentirosos com baixa ansiedade social, sobretudo na EA, pois neste caso em
particular teremos mentirosos, que provavelmente exibirão muitas pistas de nervosismo que os
observadores tenderão a interpretar como de mentira, à luz do estereótipo do mentiroso.
Método
Este estudo comporta duas fases. Na primeira foram recrutados participantes para constituir
os grupos de Mentirosos e Inocentes com diferentes níveis de ansiedade social, que foram
convidados a realizar uma tarefa no Departamento de Educação da Universidade de Aveiro,
consistindo em duas entrevistas, sendo uma ERI e uma EA. Numa segunda fase, um grupo de
observadores visualizou os vídeos das entrevistas e foi convidado a avaliar o desempenho dos
entrevistados e a discriminar mentirosos e inocentes.
Participantes
Entrevistados
Foram avaliados 251 participantes, tendo sido posteriormente selecionados 79
participantes, estudantes universitários da Universidade de Aveiro, 81% do sexo feminino (n = 64)
e 19% do sexo masculino (n = 15), com idades compreendidas entre os 18 e os 47 anos (M= 24.68;
DP= 6.22). Os participantes encontravam-se com diferentes graus académicos concluídos: Ensino
Secundário (n = 25), Licenciatura (n= 32), Mestrado (n= 18), Doutoramento (n= 4)
Estes participantes foram alocados a dois grupos em função da pontuação obtida na escala
de ansiedade/ desconforto social. O grupo com baixo nível de ansiedade social foi composto por
participantes com pontuações ≤ 96 (M= 78.61e DP= 10.32); o grupo com elevado nível de
ansiedade social foi composto por participantes com pontuações ≥102 (M= 124.54 e DP= 14.89).
Posteriormente, foram alocados às condições Mentira vs. Verdade, constituindo os 4 grupos
participantes na primeira fase deste estudo: participantes com baixa ansiedade social inocentes
(Grupo 1; n = 21), participantes com elevada ansiedade social inocentes (Grupo 2; n = 21),
participantes com baixa ansiedade social mentirosos (Grupo 3; n = 17) e participantes com elevada
ansiedade social mentirosos (Grupo 4; n = 20). A caracterização específica de cada grupo é descrita
na Tabela 1.
Verificam-se diferenças estatisticamente significativas na distribuição de homens e
mulheres nos vários grupos (2 (3) = 12.522; p=.006). Nos grupos 2 e 4 estão presentes menos
homens e mais mulheres do que esperado; o inverso acontece no grupo 3. Não se verificaram
diferenças estatisticamente significativas na idade dos entrevistados dos vários grupos [F (3, 75) =
1.389; p=253].
9
Tabela 1. Caraterização dos entrevistados
Grupo 1
Grupo 2
Grupo 3
Grupo 4
M
DP
M
DP
M
DP
M
DP
Idade
25,19
5,7
25,71
7,23
22,00
2,77
25,35
7,45
EAESDIS
78,14
10,79
126,43
14,02
79,18
10,01
122,55
15,86
n
%
n
%
n
%
N
%
Sexo
Feminino
17
81
20
95
9
53
18
90
Masculino
4
19
1
5
8
47
2
10
Nota: EAESDIS= Escala de Ansiedade e Evitamento em Situações de Desempenho e Interação Social; Grupo 1=
inocentes com baixo nível de ansiedade social; Grupo 2= inocentes com elevado nível de ansiedade social; Grupo
3= mentirosos com baixo nível de ansiedade social; Grupo 4= mentirosos com elevado nível de ansiedade social
As diferenças nos níveis de ansiedade social são estatisticamente significativas entre os
grupos em análise [F(3, 78)= 82.543; p<.001]. Recorrendo a testes post-hoc, verificámos que as
diferenças se situam entre os grupos com baixa (Grupos 1 e 3) e os grupos com elevada (Grupos 2
e 4) ansiedade social. Mais especificamente, existem diferenças ao nível da ansiedade social entre
os inocentes com baixa ansiedade social (Grupo 1), os inocentes com elevada ansiedade social
(Grupo 2; p<.001) e os mentirosos com elevada ansiedade social (Grupo 4; p<.001). Verificam-se
também diferenças entre os mentirosos com baixa ansiedade social (Grupo 3) e os referidos grupos
com elevada ansiedade social (Grupo 2: p<.001; Grupo 4 p<.001). Entre os grupos com baixa
ansiedade social (Grupos 1 e 3) não existem diferenças estatisticamente significativas relativamente
aos níveis de ansiedade social (p= 1). O mesmo acontece para os grupos com elevada ansiedade
social (Grupos 2 e 4; p= 1).
Observadores
Para a segunda fase do estudo foi constituído, de forma aleatória, um grupo de 158
observadores, 54% do sexo feminino (n= 85) e 46% do sexo masculino (n= 73), com idades
compreendidas entre os 18 e os 48 anos (M = 24.20; DP= 4.55), estudantes da Universidade de
Aveiro, com diferentes graus académicos concluídos: Ensino Secundário (n= 56); Licenciatura (n=
76) e Mestrado (n= 25). Destes participantes, 79 visualizaram os relatos dos entrevistados com uma
EA (Tabela 2) e 79 visualizaram os relatos dos entrevistados com uma ERI (Tabela 3).
Tabela 2. Caraterização dos observadores da Entrevista de Recolha de Informação
Grupo 1
Grupo 2
Grupo 3
Grupo 4
M
DP
M
DP
M
DP
M
DP
Idade
22.95
2.78
23.90
4.63
25.18
3.87
25.65
4.74
n
%
n
%
n
%
n
%
Sexo
Feminino
11
52%
10
48%
11
65%
12
60%
Masculino
10
48%
11
52%
6
35%
8
40%
Grupo 1= inocentes com baixo nível de ansiedade social; Grupo 2= inocentes com elevado nível de ansiedade social;
Grupos 3= mentirosos com baixo nível de ansiedade social; Grupo 4 = mentirosos com elevado nível de ansiedade
social
10
Tabela 3. Caracterização dos observadores da Entrevista Acusatória
Grupo 1
Grupo 2
Grupo 3
Grupo 4
M
DP
M
DP
M
DP
M
DP
Idade
22.86
4.17
22.10
4.14
25.76
4.39
25.55
6.13
n
%
n
%
n
%
n
%
Sexo
Feminino
11
52
11
48
7
41
12
60
Masculino
10
48
10
52
10
59
8
40
Grupo 1= inocentes com baixo nível de ansiedade social; Grupo 2= inocentes com elevado nível de ansiedade social;
Grupos 3= mentirosos com baixo nível de ansiedade social; Grupo 4 = mentirosos com elevado nível de ansiedade
social
Instrumentos
Amostra Entrevistados
Escala de Ansiedade e Evitamento em Situações de Interação Social
Para seleção da amostra e divisão dos participantes em grupos com diferentes níveis de
ansiedade social utilizou-se a Escala de Ansiedade e Evitamento em Situações de Desempenho e
Interação Social (EAESDIS; Pinto-Gouveia, Cunha, & Salvador, 2003), tendo sido solicitada
resposta apenas à subescala relativa ao desconforto/ansiedade. Esta subescala permite avaliar o
nível de ansiedade perante várias situações sociais, consideradas representativas do tipo de
situações temidas usualmente pelos indivíduos com Perturbação da Ansiedade Social (Pinto-
Gouveia et al., 2003). As situações sociais são descritas numa lista de 44 itens sobre os quais
devem ser pontuados em escala de Likert o nível de desconforto/ansiedade (de 1= nenhum, até 4=
severo). Esta subescala apresenta elevada consistência interna (α = .95) e fiabilidade teste re-teste
(r = .86) (Pinto-Gouveia et al., 2003).
Amostra Observadores
Heteroavaliação de desempenho
Para que os observadores avaliassem o desempenho dos entrevistados foi constituído um
questionário com 12 itens (Anexo A), que incluiu questões sobre cinco dimensões relevantes a este
estudo: esforço mental (carga cognitiva), nervosismo, controlo do comportamento, detalhe e
plausibilidade do relato.
Para a avaliação da dimensão esforço mental foram incluídas três questões, por exemplo,
em que medida é que o(a) entrevistado(a) aparenta estar a esforçar-se mentalmente para
conseguir responder à entrevista, com uma escala de resposta variando entre 0 (nenhum esforço) e
100 (Muito esforço). Para a dimensão nervosismo também foram incluídas três questões,
nomeadamente, quão nervoso(a) aparentar estar o entrevistado(a) avaliada desde 0 (nada nervoso)
a 100 (muito nervoso). Para a dimensão controlo do comportamento foram igualmente incluídas
11
três questões sendo uma delas em que medida o(a) entrevistado(a) tentou controlar o seu próprio
comportamento), cotada desde 0 (não tentou controlar o comportamento) a 100 (esforçou-se muito
por controlar o comportamento). Para averiguar a opinião sobre o detalhe do relato foi realizada
apenas uma pergunta, assim como para averiguar a opinião sobre a plausibilidade. Este
questionário foi pontuado através de escalas visuais analógicas, de 0 a 100, sendo estas as únicas
âncoras apresentadas. Normalmente são utilizados questionários com escalas de diferencial
semântico nas quais o participante assinala o nível de carga cognitiva percebido. Trata-se de
escalas consideradas sensíveis, válidas e bem aceites pelos respondentes (Ayres, 2006; Paas &
Merrienboer, 1994; Paas et al., 2010). A última questão remetia para a decisão sobre a veracidade
do discurso dos entrevistados, primeiro solicitando uma resposta dicotómica.
Procedimento
Procedimento Experimental
Entrevistados
Seleção
Com recurso ao Qualtrics Survey Software (versão 2014.20; Qualtrics, Provo, UT) os
participantes começaram por ser informados dos objetivos gerais do estudo e da possibilidade de
serem selecionados para participarem numa tarefa no Departamento de Educação da Universidade
de Aveiro. Foram informados das condições de participação (garantia de confidencialidade) e foi
solicitado o consentimento informado. Nesta plataforma, responderam ao questionário
sociodemográfico e à EAESDIS (Pinto-Gouveia et al., 2003). Foram definidos campos de resposta
obrigatória para evitar que itens não respondidos comprometessem os resultados. Todas as
instruções necessárias para a resposta aos questionários estavam descritas. No final, foi solicitado
às pessoas interessadas que deixassem o seu contacto para ser feito o agendamento da tarefa, caso
fossem selecionadas.
Foi dada prioridade ao contacto com as pessoas que apresentavam as pontuações mais
elevadas e mais baixas na escala de Ansiedade/Desconforto da EAESDIS (Pinto-Gouveia et al.,
2003). Deste processo de seleção por conveniência resultaram dois grupos, sendo que o grupo com
baixa ansiedade social foi constituído por participantes com pontuação na EAESDIS inferiores ao
percentil 50 (pontuações ≤ 96) e o grupo com elevada ansiedade social foi constituído por sujeitos
com pontuação superior ao percentil 60 (pontuações 102). A partir destes grupos, foram
selecionados, de forma aleatória, os elementos a participar nas condições Mentira ou Verdade.
Apesar de se tratar de uma seleção de participantes por conveniência sabe-se que algumas
características típicas das pessoas com Fobia Social têm sido encontradas em estudos com
desenhos experimentais análogos, isto é, com participantes com níveis de ansiedade social
12
normativos. Embora seja necessária posterior confirmação em estudos com população clínica, com
esta opção existe maior disponibilidade de participantes, uma vez que indivíduos com Fobia Social
muitas vezes não procuram tratamento, tornando difícil recrutar participantes com esta perturbação
(Stopa & Clark, 2000).
Tarefa
Os participantes foram recebidos por uma experimentadora no Departamento de Educação
e conduzidos até à porta de um gabinete.
Na condição Verdade a porta do gabinete encontrava-se destrancada e a experimentadora
entregou aos participantes uma lista com as instruções necessárias para preparar o gabinete (Anexo
B) para receber um novo professor no departamento, deixando-os sozinhos, durante 5 minutos para
que executassem a tarefa. Foi-lhes pedido que quando terminassem a tarefa esperassem que a
experimentadora regressasse. Após os 5 minutos a experimentadora regressou e conduziu os
participantes à sala de entrevistas.
Na condição Mentira, após conduzir os participantes à porta do gabinete a entrevistadora
entregava-lhes um envelope que pedia que lessem e ausentava-se. O envelope continha a seguinte
mensagem: “Se a porta do gabinete se encontrar fechada deverá aguardar que a experimentadora
regresse”. Efetivamente nesta condição a porta estava trancada e os participantes eram deixados à
espera durante 3 minutos. Passado esse tempo, a experimentadora regressava e entregava aos
participantes a lista com as instruções necessárias para preparar o gabinete para receber o novo
professor, mas desta vez explicando aos participantes que a sua tarefa seria entrar no gabinete, ler
as instruções e imaginar que preparavam o gabinete. Estes participantes permaneceram no gabinete
durante 2 minutos e foram seguidamente conduzidos à sala de entrevistas.
Em ambas as condições, quando os participantes chegaram à sala de entrevistas foram
informados de que seriam entrevistados, duas vezes e por duas entrevistadoras, para se determinar
se tinham preparado ou não o gabinete para receber o novo professor. Foi-lhe ainda explicado que
as entrevistadoras não sabiam se efetivamente o gabinete tinha sido preparado e que deveriam
tentar convencê-las de que, de facto, tinham realizado a tarefa.
Para motivar estes participantes a esforçarem-se durante as entrevistas foi ainda anunciada
a possibilidade de participarem num sorteio para ganhar um prémio monetário no caso de o seu
discurso ser considerado credível. Além disso, foi-lhes explicado que durante as entrevistas
estariam a ser avaliados por um grupo de observadores que iria assistir em tempo real, através da
câmara de um computador, e que decidiria se o entrevistado estava a mentir ou a dizer a verdade.
Na realidade estes observadores não existiram, mas desta forma foi salientada a avaliação do
desempenho, fator que pode contribuir para um cenário mais suscetível de despoletar ansiedade
13
social, e que de acordo com DePaulo et al. (2003) torna os indivíduos mais suscetíveis de
aumentarem a atenção auto focada, estimula a ruminação e diminui a autoconfiança.
Na ERI foi solicitado aos participantes que descrevessem com o máximo de detalhe
possível o que fizeram para preparar o gabinete para receber o novo professor. Na EA os
participantes foram acusados de não terem preparado o gabinete e foi-lhes pedido que explicassem
o que estiveram realmente a fazer. As questões das entrevistas foram realizadas de forma
padronizada e não existiram perguntas de seguimento.
Até ao momento das entrevistas os participantes ainda não haviam tido qualquer contacto
com as duas entrevistadoras. A presença de duas entrevistadoras permitiu que a ordem das
entrevistas pudesse ser contrabalançada. Ambas as entrevistadoras realizaram os dois tipos de
entrevistas e foram cegas relativamente aos grupos de pertença dos participantes. Durante a
entrevista houve ainda o cuidado, por parte das entrevistadoras de tentar manter uma postura neutra
de forma a não influenciar o discurso ou o comportamento dos participantes. As entrevistas foram
filmadas a 1,5 metros de distância, de forma a aparecerem apenas os participantes nos vídeos, tendo
sido enquadrados de frente e da cintura para cima. Por fim, foram explicados os objetivos do
estudo.
Observadores
Seleção
Os observadores foram alunos da Universidade de Aveiro, selecionados de forma aleatória.
Tarefa
Os observadores começaram por ser informados de que a sua tarefa seria ver um vídeo e
avaliar o desempenho da pessoa presente nesse vídeo. Após ter sido recebido consentimento oral,
foi ainda explicado que iriam observar o relato de alguém que afirmava ter organizado um gabinete
para receber um novo professor na UA, mencionando-se que apenas se sabia que a pessoa tinha
estado no local mas que não se sabia se tinha efetivamente preparado o gabinete para acolher o
professor.
Os observadores tiveram a possibilidade de ver o Questionário de Heteroavaliação do
Desempenho antes da visualização do relato dos entrevistados, com exceção das questões relativas
à deteção da mentira. Esta opção foi tomada no sentido de orientar a atenção dos observadores para
a avaliação das dimensões relevantes para o estudo, porém sem os alertar para a deteção da
mentira. É possível que, por ignorarem que a deteção da mentira seja um objetivo em estudo, se
previna que os observadores dirijam a atenção para pistas comportamentais irrelevantes e baseadas
no estereótipo do mentiroso (Hart et al., 2009).
14
Foi dada indicação aos observadores de que apenas poderiam fazer uma visualização
completa do vídeo. Os vídeos foram previamente editados com recurso ao Windows Movie Maker,
tendo-se omitido os momentos em que as entrevistadoras colocaram as questões aos participantes;
os observadores ficaram assim limitados ao relato dos participantes, não sendo visível qual o tipo
de entrevista ou de atitude por parte da entrevistadora. Desta forma pretendeu-se que a avaliação do
grupo de observadores fosse influenciada apenas pelo desempenho do entrevistado.
O Questionário de Heteroavaliação foi também apresentado com recurso ao Qualtrics
Survey Software (versão 2014.20; Qualtrics, Provo, UT).
No final, foram explicados os objetivos do estudo e os participantes assinaram o formulário
de consentimento informado.
Procedimento Estatístico
Todos os resultados foram analisados com recurso ao programa estatístico SPSS (IBM
SPSS Statistics 22). Para analisar os resultados relativos à avaliação dos observadores sobre as
várias dimensões em estudo foram conduzidas ANOVAS mistas, tendo como fatores entre sujeitos
a condição (verdade e mentira) e o nível de ansiedade social (alto e baixo), e como fator intra
sujeitos o tipo de entrevista (ERI e EA). Como variáveis dependentes intra sujeito foram
consideradas as avaliações subjetivas sobre as várias dimensões em estudo (esforço mental,
nervosismo, controlo do comportamento, detalhe e plausibilidade). Para verificar se existiram
diferenças nas taxas de acerto em função dos grupos de entrevistados nos dois tipos de entrevistas
foram realizadas análises de Qui-quadrado, uma vez que se tratavam de dados categóricos
(acerto/erro). O nível de significância estatística considerado foi p <.05.
Resultados
Avaliação das dimensões em estudo
Esforço Mental
Após a realização da ANOVA mista, verificou-se que apenas houve efeito significativo do
nível de ansiedade social dos entrevistados na avaliação do esforço mental (F= 5; p=.028;
2=.062). A análise post-hoc com o teste Bonferroni indicou a ocorrência de diferenças
estatisticamente significativas na avaliação do esforço mental dos entrevistados com diferentes
níveis de ansiedade social durante os relatos na ERI (p=.044), tendo os entrevistados com elevado
nível de ansiedade social sido avaliados com maior esforço mental do que os entrevistados com
baixo nível de ansiedade social (Figura 1).
15
Figura 1. Avaliação do esforço mental na ERI e do nível de detalhe do discurso na EA em função dos níveis
de ansiedade social
Não se verificaram efeitos significativos na avaliação do esforço mental em função da
condição (F= 1.23; p=.269), nem em função do tipo de entrevista (F= 7.44; p=.391) em ambas as
entrevistas. Também não se verificaram efeitos estatisticamente significativos na avaliação do
esforço mental em função da interação entre as variáveis entre sujeito ansiedade social (alta ou
baixa) e condição (verdade ou mentira) (F=.001; p=.975).
Nervosismo
Com a realização da ANOVA mista, verificaram-se efeitos significativos do tipo de
entrevista na avaliação do nervosismo dos entrevistados (F= 5.43; p=.022; 2=.068). O teste post-
hoc Bonferroni revelou diferenças significativas na avaliação do nervosismo nas entrevistas
(p=.022), tendo os participantes, no geral, sido considerados mais nervosos durante a EA do que
durante a ERI (Figura 2).
Figura 2. Avaliação do nervosismo e do controlo do comportamento em função do tipo de entrevista
A análise desta ANOVA permitiu também verificar que o nível de ansiedade social teve
efeito quase significativo na opinião sobre o nervosismo dos entrevistados nas diferentes
entrevistas (F= 3.60; p=.061; 2=.046). Os entrevistados com elevada ansiedade social foram
considerados ligeiramente mais nervosos do que os entrevistados com baixa ansiedade social, na
EA (p=.347). Os entrevistados com baixa ansiedade social, foram igualmente considerados mais
nervosos na EA (p=.158) (Figura 3).
16
Figura 3. Avaliação do nervosismo dos entrevistados em função dos níveis de ansiedade social e do tipo de
entrevista
Verificaram-se ainda efeitos da interação entre as variáveis entre sujeito ansiedade social
(alta ou baixa) e condição (verdade ou mentira) (F= 8.356; p =.005), independentemente do tipo de
entrevista. No caso dos entrevistados com baixa ansiedade social, os inocentes foram considerados
menos nervosos do que os mentirosos (p = .012). Nos grupos na condição mentira, os entrevistados
com elevada ansiedade social foram considerados menos nervosos do que aqueles com baixa
ansiedade social (p =.027). A avaliação dos inocentes com elevada ansiedade social não apresentou
diferenças significativas dos outros grupos (Figura 4).
Nota: Grupo 1= inocentes com baixo nível de ansiedade social; Grupo 2= inocentes com elevado nível de ansiedade social; Grupo 3=
mentirosos com baixo nível de ansiedade social; Grupo 4= mentirosos com elevado nível de ansiedade social
Figura 4. Avaliação do nervosismo dos entrevistados em função dos níveis de ansiedade social e da
condição
Em ambas as entrevistas não se verificaram efeitos significativos na avaliação do
nervosismo em função da condição (F=.464; p =.498).
Controlo do comportamento
Com a realização da ANOVA mista, verificaram-se efeitos significativos do tipo de
entrevista na opinião sobre o controlo do comportamento (F= 6.28; p =.014; 2=.077). O teste
Bonferroni revelou diferenças significativas na avaliação do controlo do comportamento nas
17
entrevistas (p=.014), sendo que os entrevistados foram avaliados como controlando mais o
comportamento durante a EA do que durante a ERI (Figura 2).
Não se verificaram efeitos significativos na avaliação do controlo do comportamento em
função da condição (F= 1.63; p =.206), nem em função do nível de ansiedade social (F=.019; p
=.892) nos dois tipos de entrevistas. Também não se verificaram efeitos significativos em função
da interação entre as variáveis entre sujeito ansiedade social (alta ou baixa) e condição (verdade ou
mentira) (F=.065; p=.800).
Detalhe
Através da ANOVA mista, verificaram-se efeitos significativos em função das interações
entre as variáveis entre sujeito ansiedade social (baixa vs. elevada) e condição (Verdade vs.
Mentira) na opinião sobre o detalhe dos discursos, para as duas entrevistas (F= 4.16; p =.045; 2
=.053). Com recurso à análise post-hoc com o teste Bonferroni verificaram-se diferenças
estatisticamente significativas nas avaliações do detalhe dos grupos na condição Verdade tanto na
ERI (p =.050) como na EA (p =.035). Na ERI foram avaliados como mais detalhados os discursos
dos entrevistados inocentes com baixa ansiedade social (Grupo 1) comparativamente com os
entrevistados inocentes com elevada ansiedade social (Grupo 2). Na EA aconteceu o oposto, tendo
sido considerados mais detalhados os discursos dos entrevistados inocentes com elevada ansiedade
social (Grupo 2), comparativamente ao discurso dos entrevistados inocentes com baixa ansiedade
social (Grupo 1) (Figura 5).
Nota: Grupo 1= inocentes com baixo nível de ansiedade social; Grupo 2= inocentes com elevado nível de ansiedade social
Figura 5. Avaliação do nível de detalhe do discurso dos entrevistados na condição Verdade
Verificaram-se também efeitos próximos de estatisticamente significativos na avaliação do
detalhe em função do nível de ansiedade social dos participantes (F= 4.88; p =.030; 2 =.061). A
análise com o teste Bonferroni indicou a ocorrência de diferenças quase significativas
estatisticamente na avaliação do detalhe do discurso dos entrevistados durante a EA (p=.057),
tendo os entrevistados com elevado nível de ansiedade social tido o seu discurso avaliado como
mais detalhado do que participantes com baixa ansiedade social (Figura 1).
18
Não se verificaram efeitos significativos na avaliação do detalhe em função da condição
Verdade vs. Mentira (F= 1.74; =.190), nem em função do tipo de entrevista (F=.094; p =.760).
Plausibilidade
Com a realização da ANOVA mista, não se verificaram quaisquer efeitos estatisticamente
significativos na avaliação da plausibilidade dos relatos dos entrevistados. Não se verificaram
efeitos significativos em função do tipo de entrevista (F=.683; p=.411). Também não se
verificaram efeitos em função da condição (F=1.18; p=.280), do nível de ansiedade social (F=.096;
p=.757) ou da interação entre estas variáveis (F=.571; p=.452).
Discriminação direta de mentirosos e inocentes
Entrevista de recolha de informação
Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas nas taxas de acerto dos
observadores ao avaliarem os discursos obtidos nas entrevistas de recolha de informação para os
vários grupos (2(3)= 10.850, p= .013). Os valores mais preponderantes aconteceram nos grupos de
inocentes com baixa ansiedade social (Grupo 1) e no grupo de mentirosos com elevada ansiedade
social (Grupo 4). No primeiro caso aconteceram mais acertos do que esperado, sendo que os
entrevistados inocentes com baixa ansiedade social foram frequentemente interpretados
corretamente (Grupo 1) e raramente interpretados como mentirosos. No segundo caso aconteceram
mais erros do que esperado, sendo os participantes mentirosos com elevada ansiedade social
frequentemente interpretados como estando a dizer a verdade (Grupo 4) (Figura 6).
Nota: Grupo 1= inocentes com baixo nível de ansiedade social; Grupo 2= inocentes com elevado nível de ansiedade social; Grupo 3=
mentirosos com baixo nível de ansiedade social; Grupo 4= mentirosos com elevado nível de ansiedade social
Figura 6. Discriminação de inocentes e mentirosos nos vários grupos
19
Entrevista acusatória
Não se verificaram diferenças estatisticamente significativas nas taxas de acerto dos
observadores ao avaliarem os discursos obtidos nas entrevistas acusatórias nos vários grupos
(2(3)= 3,516, p= .319). As taxas de acerto foram maiores nos grupos com a condição verdade,
sendo que a maior taxa de acerto se verificou para os entrevistados com elevada ansiedade social,
sendo estes participantes frequentemente classificados como inocentes (Grupo 2) (Figura 5).
Sumário
Considerada toda a informação (Figura 5), verifica-se que nos grupos com a condição
Verdade (Grupos 1 e 2) a taxa de acerto é sempre maior do que a de erro, independentemente do
tipo de entrevista; já nos grupos com a condição Mentira (Grupos 3 e 4) encontram-se situações
distintas em cada entrevista. No caso dos mentirosos com baixo nível de ansiedade (Grupo 3)
aconteceram mais erros do que acertos na ERI, enquanto na entrevista acusatória existiram mais
acertos do que erros. Para os mentirosos com elevado nível de ansiedade (Grupo 4) aconteceram
igualmente mais erros do que acertos na ERI. As taxas de acerto com base nos discursos obtidos
durante a EA foram maiores para todos os grupos, com exceção do grupo composto pelos
entrevistados inocentes com baixa ansiedade social (Grupo 1).
Discussão
Na deteção da mentira, um aspeto importante de considerar, no sentido de prevenir erros,
são as características individuais (Vrij et al., 2010; Vrij, 2004). Neste estudo atentamos no nível de
ansiedade social, uma característica relevante a considerar, uma vez que que pessoas com elevada
ansiedade social se tornam suscetíveis de serem consideradas menos credíveis, correndo o risco de
serem interpretadas como estando a mentir, mesmo quando estão a dizer a verdade (Vrij, 2004).
Deste modo, foram incluídas na amostra pessoas com diferentes níveis de ansiedade social, que
foram entrevistadas numa ERI e numa EA, tendo vários aspetos do seu desempenho sido
posteriormente avaliados por observadores. Pretendeu-se perceber qual o impacto do nível de
ansiedade social dos participantes na opinião dos observadores, em várias dimensões do
comportamento associadas à deteção da mentira, e por fim, na sua tomada de decisão sobre a
veracidade dos discursos, em ambas as entrevistas.
Através dos resultados relativos à opinião dos observadores nas várias dimensões em
estudo (esforço mental, nervosismo, controlo do comportamento, detalhe e plausibilidade do
discurso) verificou-se que apenas houve influência da interação entre o nível de ansiedade social e
a condição (Verdade vs. Mentira) na avaliação do detalhe do discurso em ambas as entrevistas. A
interação entre o nível de ansiedade social e a condição mostrou também influência na avaliação do
20
nervosismo, mas sem se verificar influência do tipo de entrevista. Foi possível perceber também
que os níveis de ansiedade social podem ter influência na opinião sobre o esforço mental,
nervosismo e detalhe do discurso, de forma distinta nos dois tipos de entrevista. Os resultados
sugerem ainda influência do tipo de entrevista, por si só, na avaliação que observadores realizaram
relativamente ao nervosismo e ao controlo do comportamento. Nos resultados relativos à
discriminação de mentirosos e inocentes, verificou-se, contrariamente ao esperado, que os
entrevistados inocentes com elevada ansiedade social foram, nos dois tipos de entrevista, mais
corretamente discriminados como estando a dizer a verdade, do que os entrevistados mentirosos
com baixo nível de ansiedade social foram identificados como estando a mentir. Verificou-se ainda
que as taxas de acerto foram mais favoráveis para os relatos obtidos com a entrevista acusatória,
para todos os grupos exceto para os entrevistados inocentes com baixa ansiedade social.
Relativamente à avaliação dos observadores sobre as várias dimensões em estudo esperava-
se que os entrevistados inocentes com elevado nível de ansiedade social fossem avaliados com um
grau de detalhe igual ou inferior aos mentirosos com baixa ansiedade social, na entrevista
acusatória. Os resultados obtidos demonstraram que a interação entre a condição e o nível de
ansiedade social dos entrevistados teve impacto na avaliação que os observadores fizeram sobre o
detalhe dos discursos em ambas as entrevistas, tendo estes efeitos acontecido apenas para os grupos
da condição Verdade. Contudo, na EA o que se verificou foi que os entrevistados inocentes com
elevado nível de ansiedade social tiveram o seu discurso avaliado como o mais detalhado
comparativamente aos inocentes com baixa ansiedade social, o que não vai de encontro ao
esperado, sobretudo nesta entrevista, que em termos de interação social pode ser considerada mais
ameaçadora. Na ERI foram considerados mais detalhados os discursos dos inocentes com baixa
ansiedade social, comparativamente aos inocentes com elevada ansiedade social. Porém, parece
fazer sentido que o desempenho dos inocentes socialmente ansiosos ao nível do detalhe tenha sido
mais favorável na EA, considerando que a ERI foi a entrevista na qual as pessoas socialmente
ansiosas foram avaliados com maior esforço mental, o que pode ter prejudicado o desempenho
nesta entrevista ao nível do detalhe. Alguns estudos sugerem, que, em consequência da atenção
auto focada, os indivíduos com Fobia Social, poderão vivenciar um enviesamento negativo na
interpretação de situações sociais ambíguas e moderadamente negativas (Beazley et al., 2001;
Hirsch & Clark, 2004). Assim, poderá especular-se que devido à habitual interpretação dos eventos
sociais de forma mais negativa, os entrevistados socialmente ansiosos não se terão deixado afetar
pelo carácter mais ameaçador da EA, enquanto para os entrevistados com baixa ansiedade social
esta terá sido encarada como uma vivência menos usual e mais propícia a um desempenho menos
favorável.
21
Verificou-se também que o nível de ansiedade social, por si só, tem influência na avaliação
dos observadores sobre o detalhe do discurso, sendo que os entrevistados com elevado nível de
ansiedade social tiveram os seus discursos avaliados como mais detalhados durante a EA. É
possível que tanto os inocentes com elevada ansiedade social comparativamente aos inocentes com
baixa ansiedade social, como dos ansiosos sociais no geral (isto é, independentemente de estarem a
mentir ou a dizer a verdade), tenham tido os discursos considerados como mais detalhados devido à
preocupação em passar uma boa impressão de si próprios (Clark, 2001).
Contudo, os mentirosos e inocentes não foram distinguíveis com base no detalhe do seu
discurso. A literatura refere que geralmente o discurso dos mentirosos é menos detalhado; contudo,
é possível que por não darem a sua credibilidade por garantida, ao contrário dos inocentes, por
vezes se esforcem para dar mais detalhe ao seu relato (DePaulo et al., 2003; Vrij, Granhag, Mann,
& Leal, 2011; Vrij et al., 2010), sendo possível que este aspeto tenha contribuído para reduzir a
influência da condição na avaliação dos observadores sobre o detalhe. Além disso, quando
conseguem antecipar as perguntas que lhes serão feitas, os mentirosos podem parecer tão
consistentes quanto os inocentes (Vrij et al., 2009), sendo que o objetivo do estudo poderia ter sido
previsto pelos participantes com base nas instruções recebidas.
Os níveis de ansiedade social tiverem influência na avaliação dos observadores relativa ao
esforço mental. Esperava-se que os inocentes com elevada ansiedade social fossem avaliados com
tanto ou maior esforço mental que os mentirosos com baixa ansiedade social, na ERI. Efetivamente
os entrevistados com elevada ansiedade social foram avaliados com maior esforço mental, na ERI,
mas independentemente de estarem a mentir ou a dizer a verdade. Estes resultados vão de encontro
à literatura, na medida em que a ERI é considerada mais exigente cognitivamente (Vrij, Mann, et
al., 2006) e devido à sintomatologia da ansiedade social ser também sugestiva de que, durante uma
interação social, pessoas socialmente ansiosas estarão sujeitas a maior carga cognitiva,
comparativamente a pessoas com baixos níveis de ansiedade social (Clark & Wells cit.
Gaydukevych & Kocovski, 2012; Beazley et al., 2001; Hackmann et al., 2000; Hirsch & Clark,
2004; Wild et al., 2007). Porém, estes resultados sugerem a impossibilidade de distinguir inocentes
e mentirosos com elevada ansiedade social com base no esforço mental.
Contudo, considerada isoladamente a influência da condição não se evidenciaram efeitos
significativos na avaliação do esforço mental, o que não vai de encontro a resultados obtidos em
estudos anteriores (Mann & Vrij, 2006; Vrij, Mann, et al., 2006). Algumas limitações
metodológicas poderão explicar o atenuar dos efeitos dos entrevistados serem mentirosos ou
inocentes nesta avaliação. Suprimir a verdade das respostas é um dos fatores que contribui para a
exigência cognitiva durante a mentira (Vrij, Fisher, et al., 2006). Neste caso os participantes
mentirosos em vez de realizarem a tarefa sobre a qual tiveram que mentir limitaram-se a ler uma
22
breve mensagem e a aguardar, o que poderá consistir numa memória pouco relevante e fácil de
suprimir. Acrescenta-se ainda que além de terem acesso à lista de tarefas a realizar tiveram a
possibilidade de permanecer no mesmo espaço que os inocentes aquando a leitura, o que não se
verifica em algumas metodologias (por exemplo, Vrij, Mann, Leal, & Granhag, 2010; Vrij, Mann,
et al., 2006), e poderá ter facilitado a formulação da mentira, tendo colocado os mentirosos numa
situação mais equiparável à dos inocentes. Uma das estratégias que os mentirosos podem utilizar e
que dificultam a deteção da mentira passa por incluir nos seus relatos uma mistura de informações
verdadeiras e falsas (Vrij, Granhag, et al., 2010). É possível que os mentirosos tenham sentido
alguma facilidade na utilização desta estratégia, recorrendo por exemplo à inclusão da descrição do
gabinete, que tiveram possibilidade conhecer, no seu discurso. Por outro lado, é necessário
considerar que a carga cognitiva, apesar de mais exacerbada nos mentirosos não é exclusiva destes,
podendo os inocentes necessitar de pensar arduamente (Vrij, Granhag, et al., 2010). Por exemplo, a
recuperação de uma história verdadeira pode ser exigente se a história não for ensaiada (Vrij et al.,
2008), como é o caso na condição verdade.
Esperava-se que os entrevistados inocentes com elevada ansiedade social fossem avaliados
como apresentando tanto ou maior nervosismo que os mentirosos com baixa ansiedade social,
durante a EA. Os resultados obtidos suportaram que o nível de ansiedade social dos entrevistados
teve influência na forma como foram avaliados. Conforme seria de esperar os entrevistados com
elevada ansiedade social foram avaliados como mais nervosos durante a EA do que durante a ERI
(Vrij, Mann, et al., 2006), embora com uma diferença muito ligeira. Os entrevistados com baixa
ansiedade social foram considerados igualmente mais nervosos na EA, em comparação à ERI. A
interação entre o nível de ansiedade social e a condição mostrou também influência na avaliação do
nervosismo, mas independentemente do tipo de entrevista. No caso dos entrevistados com baixa
ansiedade social, os inocentes foram considerados menos nervosos do que os mentirosos.
Considerando apenas os entrevistados mentirosos, foi possível verificar que os mentirosos com
elevada ansiedade social foram considerados os menos nervosos comparativamente aos mentirosos
com baixa ansiedade social, o que poderá ser explicado por uma maior prática dos ansiosos sociais
na auto monotorização do comportamento (Clark, 2001). Entre os inocentes com elevada ansiedade
social e os mentirosos com baixa ansiedade social, conforme esperado, não se verificaram
diferenças significativas, o que significa que os observadores não foram capazes de distinguir estes
indivíduos com base no nervosismo. Porém o facto dos entrevistados estarem a mentir ou a dizer a
verdade, quando considerado isoladamente, não teve influência na opinião dos observadores sobre
o nervosismo, assim não surgiram efeitos significativos que corroborassem resultados de estudos
anteriores no sentido dos mentirosos serem considerados mais nervosos, particularmente na EA
(Vrij, Mann, et al., 2006). Isto remete para outros estudos indicativos de que a presença de pistas de
23
nervosismo não se relaciona de forma consistente com o ato de mentir (Mann et al., 2002; Mann &
Vrij, 2006; Vrij, 2004). Strömwall, Granhag e Hartwig (2004 cit. Vrij, Mann, et al., 2010) explicam
que as pessoas acreditam que demonstrar nervosismo, agitação e evitar o contato ocular parece
suspeito, tendo esta crença sido verificada num estudo no qual mentirosos e inocentes utilizaram
estratégias não-verbais semelhantes no sentido de suprimir sinais de nervosismo (Vrij, Mann, et al.,
2010).
O tipo de entrevista, por si só, teve efeito na forma como os observadores avaliaram os
entrevistados relativamente ao nervosismo e ao controlo do comportamento. Os entrevistados
foram, no geral, considerados mais nervosos durante a EA, o que vai de encontro à literatura (Vrij,
Mann, et al., 2006). Relativamente ao controlo do comportamento, esperava-se que os inocentes
com elevado nível de ansiedade social fossem avaliados como controlando o comportamento tanto
ou mais que os mentirosos com baixo nível de ansiedade social, particularmente na entrevista
acusatória (Vrij, Mann, et al., 2010; Vrij, Mann, et al., 2006; Vrij et al., 1996). Em concordância,
no seu conjunto, os entrevistados foram avaliados como controlando mais o comportamento
durante a EA, tendo sido esta a única influência estatisticamente significativa na avaliação desta
dimensão. No entanto, seria de esperar que tanto os mentirosos como os ansiosos sociais,
considerados isoladamente, fossem avaliados como os que mais tentaram controlar o seu
comportamento, o que não ocorreu. É possível que no caso dos mentirosos isto não se tenha
verificado devido, a tratar-se de uma circunstância na qual as repercussões da mentira não
motivassem elevada preocupação com o desempenho (Malone & DePaulo, cit. Vrij, Granhag, et
al., 2010), traduzindo-se num baixo esforço. No caso dos ansiosos sociais é possível que este
aspeto não se tenha verificado por se tratar de uma amostra não clínica, na qual estarão incluídos
ansiosos sociais bem adaptados, nos quais os processos de monitorização do comportamento
característicos da sintomatologia (Clark, 2001) não sejam tão evidentes.
Não existiram efeitos significativos em função do tipo de entrevista por si na avaliação
do esforço mental nem do detalhe, o que não vai de encontro a resultados obtidos em estudos
anteriores, nos quais a ERI é considerada mais exigente cognitivamente (Mann & Vrij, 2006; Vrij,
Mann, et al., 2006) e mais propícia à obtenção de detalhe (Vrij, Granhag, et al., 2010). É possível
que por na EA ter sido pedido aos entrevistados para descreverem o que estiveram a fazer dentro
do gabinete a exigência cognitiva e o nível de detalhe se tenha tornado aproximado nos dois tipos
de entrevista.
Era esperado que os indivíduos inocentes com elevada ansiedade social tivessem os seus
discursos considerados tão ou menos plausíveis que os mentirosos com baixa ansiedade social,
sobretudo durante a EA, contudo, não se verificaram quaisquer efeitos estatisticamente
significativos na avaliação dos observadores sobre este parâmetro. Como em resultados anteriores a
24
EA foi considerada pelos entrevistados mais desconfortável do que a ERI (Vrij, Mann, et al., 2006),
seria de esperar que pelo menos os ansiosos sociais, que inclusive foram avaliados como mais
nervosos durante esta entrevista, tivessem efetivamente o seu discurso avaliado como menos
plausível. Também por haver tendência para serem considerados menos credíveis (Vrij, 2004)
esperava-se que os seus discursos fossem avaliados como menos plausíveis. Este efeito poderá não
ter sido visível no presente estudo, por versar uma amostra não clínica, que poderá compor-se por
ansiosos sociais bem treinados. A opinião dos observadores sobre a plausibilidade do discurso dos
entrevistados também não foi influenciada por os entrevistados estarem a mentir ou a dizer a
verdade. É possível que por um lado, os mentirosos não se tenham sentido motivados o suficiente
para se esforçarem a mentir (Malone & DePaulo, cit. Vrij, Granhag, et al., 2010) e por outro os
inocentes tenham sentido como garantida a sua credibilidade, não se esforçando tanto (DePaulo et
al., 2003; Vrij et al., 2011; Vrij et al., 2010).
Relativamente à discriminação de mentirosos e inocentes, conforme seria de esperar, os
inocentes, principalmente aqueles com baixa ansiedade social, foram os mais corretamente
discriminados pelos observadores, sobretudo na ERI. Estes resultados vão de encontro a resultados
previamente obtidos, indicativos de que as taxas de acerto são geralmente superiores para inocentes
(DePaulo et al., 2003). Quanto à discriminação de mentirosos e inocentes, esperava-se que os
inocentes com elevada ansiedade social fossem frequentemente considerados mentirosos,
principalmente durante a EA, o que não se verificou, tendo sido estes os entrevistados mais
frequentemente bem identificados neste tipo de entrevista, embora tratando-se de resultados não
significativos. Relativamente aos entrevistados mentirosos com elevada ansiedade social, tinha-se
colocado como hipótese que seriam os mais frequentemente bem identificados, sobretudo na EA,
considerada a possibilidade dos observadores terem a sua decisão influenciada pelo estereótipo de
mentiroso. Contudo nesta entrevista aconteceram tantos acertos como erros, o que vai de encontro à
literatura relativamente às taxas de sucesso na discriminação (Bond & DePaulo, 2006). Na ERI, o
que se verificou foi que os mentirosos com elevada ansiedade social foram frequentemente
considerados inocentes, o que não vai de encontro ao esperado, uma vez que os ansiosos sociais são
geralmente considerados menos credíveis (Vrij, 2004), tornando-se indivíduos menos prováveis de
ser considerados inocentes (Bond & DePaulo, 2008).
No seu conjunto, os resultados relativos às taxas de discriminação podem ser explicados
por uma tendência, identificada, para considerar os outros honestos (Levine, Park, &
MacCornack, 1999). Efetivamente, no seu dia-a-dia as pessoas depararam-se mais com mensagens
verdadeiras do que com mentiras, por isso tendência para assumir que a maioria dos
comportamentos serão reflexo de honestidade (heurística da disponibilidade, O’Sullivan, Ekman, &
Friesen, 1988; Vrij, Granhag, et al., 2010). De acordo, ao estudar a presença de enviesamentos
25
cognitivos na deteção a mentira, Burgoon, Blair e Strom (2008) verificaram a ocorrência da
tendência para a sobrestimação da honestidade dos outros. Os autores verificaram ainda que este
efeito acontece de forma intensificada quando os observadores têm acesso às pistas não-verbais,
como no caso da visualização de vídeos, comparativamente à mesma informação mostrada em
áudio ou transcrita. Adicionalmente, no caso dos mentirosos com elevada ansiedade social podem
especular-se alguns motivos para que tenham sido bem-sucedidos a mentir, nomeadamente a
existência de aspetos comuns entre a sintomatologia da ansiedade social e as características que
promovem o sucesso na mentira, como a auto monotorização do comportamento. Sabe-se também
que a ERI é considerada uma entrevista menos desconfortável pelos participantes (Vrij, Mann, et
al., 2006), o que poderá, neste caso ter atenuado a emissão de pistas de nervosismo e contribuído
para que os observadores os considerassem mais credíveis.
Comparadas as taxas de acerto obtidas nas duas entrevistas observa-se que a na EA as taxas
de acerto foram maiores para todos os grupos, com exceção dos inocentes com baixa ansiedade
social. Contudo, são apontadas várias limitações a este tipo de entrevista e várias vantagens à ERI,
nomeadamente a obtenção de maior detalhe, o que no contexto forense é útil em termos de permitir
a comparação dos relatos com evidências já apuradas, podendo verificar-se inconsistências e
contradições (Vrij, Granhag, et al., 2010). Esta vantagem parece ter-se evidenciado no caso dos
inocentes com baixa ansiedade social, o grupo mais bem discriminado e neste tipo de entrevista;
tendo sido também o grupo no qual os discursos foram avaliados com maior nível de detalhe, neste
tipo de entrevista. Porém, nem todos os grupos foram avaliados como tendo o discurso mais
detalhado na ERI. Os grupos com elevada ansiedade social tiveram o seu relato avaliado mais
detalhado na EA, o que pode ter contribuído para a taxa de acerto superior para estes grupos
precisamente nesta entrevista, comparativamente à ERI. Os entrevistados com baixa ansiedade
social foram ainda considerados os mais nervosos durante a EA. Este aspeto poderá explicar a
maior taxa de acerto para os mentirosos com baixa ansiedade social a partir do relato obtido nesta
entrevista, considerando que as pistas de nervosismo tendem a ser interpretadas como pistas de
mentira. Adicionalmente, este aspeto também poderá ser explicativo de uma menor taxa de acerto
para os inocentes com baixa ansiedade social na EA, comparativamente à ERI.
Devem considerar-se algumas limitações metodológicas, além das já referidas, como o
facto da amostra de entrevistados na qual as diferenças entre os grupos com baixa e alta ansiedade,
apesar de significativas, em termos de percentis não se distanciam muito. Acrescenta-se que tanto a
amostra de entrevistados como a amostra de observadores é reduzida, tendo o desempenho de cada
entrevistado e a decisão sobre ser mentiroso ou inocente sido avaliada apenas por um observador.
Além destas limitações decorrem outras, simplesmente por se tratar de um estudo de laboratório,
nomeadamente o facto de os participantes não optarem por mentir, sendo instruídos a fazê-lo,
26
tratando-se assim de uma mentira que foi permitida e que pode ser por eles considerada aceitável e
menos exigente (Vrij, Granhag, et al., 2010). Adicionalmente as consequências negativas de ser
identificado como mentiroso e as consequências positivas de ser considerado inocentes são
pequenas (Malone e DePaulo, 2001 cit. Vrij, Granhag, et al., 2010), daí o usual recurso a incentivos
monetários no sentido de aumentar a motivação para um desempenho convincente. Precisamente
por isto, o nível de motivação dos participantes para serem credíveis durante os relatos torna-se
importante de considerar e pode encontrar-se em algumas metodologias (por exemplo, Vrij, Mann,
et al., 2010). Alguns autores salientam ainda que a oportunidade de aceder a outros tipos de
informação, como informações de terceiros, evidências físicas e confissões, contribuem para a
deteção da mentira (Park, Levine, McCornack, Morrison, & Ferrara, 2002), o que não é possível
neste tipo de estudo no qual os observadores tiveram acesso apenas à informação presente nos
vídeos.
Uma vez que um dos motivos que pode levar a que pessoas socialmente ansiosas inocentes
sejam confundidas com mentirosos tem a ver com a emissão de pistas de nervosismo e com o facto
de serem consideradas menos credíveis seria interessante a realização de um estudo de deteção da
mentira com esta população, no qual o estímulo avaliado pelos observadores fosse apenas áudio.
Adicionalmente isto poderia contribuir para que a tendência para a sobrestimação da honestidade,
que os resultados sugerem neste estudo, fosse diminuída (Burgoon et al., 2008).
No presente trabalho a avaliação das várias dimensões em estudo foi realizada apenas pelos
observadores. Seria pertinente estudar as autoavaliações dos entrevistados sobre estas dimensões,
uma vez que permitiria compreender o impacto que mentir tem nas pessoas socialmente ansiosas,
nomeadamente ao nível cognitivo. Além disso, seria interessante obter as suas perceções sobre os
efeitos de cada entrevista. Adicionalmente, seria interessante verificar se estas autoavaliações
seriam consistentes com avaliações realizadas por observadores.
Ainda assim este estudo permitiu a compreensão de alguns fenómenos que podem ser
importantes na deteção da mentira de pessoas socialmente ansiosas. Obtivemos resultados
sugestivos de que níveis elevados de ansiedade social podem estar associados a uma carga
cognitiva percebida como mais elevada, independentemente da pessoa estar a mentir ou a dizer a
verdade. Este aspeto tem implicações para a deteção da mentira com a abordagem da carga
cognitiva uma vez que adivinha dificuldades na discriminação destes indivíduos. Reforça ainda que
as características individuais podem contribuir para diferentes níveis de carga cognitiva (Paas,
Tuovinen, Tabbers, & Gerven, 2010; Xie & Salvendy, 2000). Torna-se ainda interessante se
considerarmos que perante alguns resultados que não foram no sentido esperado, nomeadamente ao
nível da avaliação que os observadores fizeram do detalhe do discurso dos ansiosos sociais e a
elevada frequência com que os mentirosos com elevada ansiedade social foram considerados
27
inocentes na ERI, ao integrarmos a sintomatologia da ansiedade social na interpretação é possível
fazer-se sentido dos resultados obtidos.
Verificámos ainda que independentemente dos níveis de ansiedade social e da condição os
entrevistados foram considerados mais nervosos e avaliados com maior controlo do
comportamento durante a EA, o que reforça que a EA tende a desencadear respostas semelhantes
nas pessoas (Vrij, Granhag, et al., 2010). Assim, embora os resultados na discriminação de
mentirosos e inocentes tenham sido mais favoráveis nesta entrevista, ao considerar a análise dos
resultados obtidos nas dimensões sobressaem as limitações deste tipo de entrevista. Este trabalho
reafirma também que diferentes tipos de entrevista têm influência na forma como as mesmas
pessoas podem ser percecionadas, ficando salientada a importância das variações intrapessoais. A
mesma pessoa pode responder de forma diferente em diferentes contextos, o que deve ser
considerado (Vrij, Granhag, et al., 2010), devido à possibilidade de conduzir a impressões
diferentes nos observadores.
A deteção de mentira depende fortemente das características dos mentirosos e dos
inocentes, sendo a credibilidade que mentirosos e inocentes transparecerem o fator com maior
impacto no julgamento (tomada de decisão). A credibilidade da pessoa tem inclusive maior
impacto do que o facto de mentir ou dizer a verdade, sendo mais provável que pessoas muito
credíveis sejam consideradas inocentes quando mentem, do que pessoas com baixo nível de
credibilidade que digam a verdade (Bond & Depaulo, 2008). Assim, este estudo reveste-se de
pertinência e permitiu efetivamente verificar que os níveis de ansiedade social podem influenciar a
opinião sobre características relacionadas com a deteção da mentira, nomeadamente esforço
mental, nervosismo e detalhe do discurso, o que em última instância pode afetar a tomada de
decisão sobre a inocência dos suspeitos.
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Anexos
Anexo A Questionário de Heteroavaliação
Em que medida é que o entrevistado/a aparenta estar a esforçar-se mentalmente para
conseguir responder à entrevista?
Em que medida é que o entrevistado/a parece estar a pensar arduamente para conseguir
responder à entrevista?
Em que medida aparenta estar a ser difícil para entrevistado/a responder à entrevista?
Quão ansioso/a parece ser o/a entrevistado/a?
Quão nervoso/a aparentar estar o/a entrevistado/a?
Quão inquieto/a aparentar estar o/a entrevistado/a?
Em que medida o/a entrevistado/a tentou controlar o seu próprio comportamento?
Em que medida o/a entrevistado/a tentou regular o seu próprio comportamento?
Em que medida o/a entrevistado/a tentou dominar o seu próprio comportamento?
Quão plausível considera o relato deste indivíduo?
Quão detalhado considera o relato deste indivíduo?
Acredita que o/a entrevistado/a esteve realmente no gabinete as realizar as tarefas que
mencionou?
1
1
Apenas esta pergunta foi respondida de forma dicotómica.
Anexo B Tarefas a realizar para preparar o gabinete
De seguida vai entrar num gabinete que terá de preparar para receber o Professor João
Monteiro, um novo Professor do Departamento de Educação. Para isso deverá efetuar as instruções
abaixo descritas. Quando acabar espere dentro do gabinete pela experimentadora.
Instruções:
1. Coloque no saco plástico as três garrafas e o envelope vazio e deixe o saco no canto da
janela.
2. Coloque o telefone que está dentro do armário, em cima da secretária, no canto superior
esquerdo.
3. Da mesma forma, vá buscar o agrafador, o furador e a caixa de clipes ao armário e
coloque-os em cima da mesa, no canto superior direito.
4. No quadro, escreva o ano em que nos encontramos (à frente de ANO) com o marcador
azul.
5. Da mesma forma, escreva no quadro, à frente de “Observações” (OBS.:), “Bem-Vindo à
UA”, com o marcador verde.
6. Coloque a cadeira sem rodas, que se encontra ao pé da porta, à frente da secretária, mais
perto da janela.
7. Coloque a cadeira com rodas atrás da secretária.
8. Feche o estore.
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Article
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The question of whether discernible differences exist between liars and truth tellers has interested professional lie detectors and laypersons for centuries. In this article we discuss whether people can detect lies when observing someone's nonverbal behavior or analyzing someone's speech. An article about detecting lies by observing nonverbal and verbal cues is overdue. Scientific journals regularly publish overviews of research articles regarding nonverbal and verbal cues to deception, but they offer no explicit guidance about what lie detectors should do and should avoid doing to catch liars. We will present such guidance in the present article. The article consists of two parts. The first section focuses on pitfalls to avoid and outlines the major factors that lead to failures in catching liars. Sixteen reasons are clustered into three categories: (a) a lack of motivation to detect lies (because accepting a fabrication might sometimes be more tolerable or pleasant than understanding the truth), (b) difficulties associated with lie detection, and (c) common errors made by lie detectors. We will argue that the absence of nonverbal and verbal cues uniquely related to deceit (akin Pinocchio's growing nose), the existence of typically small differences between truth tellers and liars, and the fact that liars actively try to appear credible contribute to making lie detection a difficult task. Other factors that add to difficulty is that lies are often embedded in truths, that lie detectors often do not receive adequate feedback about their judgments and therefore cannot learn from their mistakes, and that some methods to detect lies violate conversation rules and are therefore difficult to apply in real life. The final factor to be discussed in this category is that some people are just very good liars. The common errors lie detectors make that we have identified are examining the wrong cues (in part, because professionals are taught these wrong cues); placing too great an emphasis on nonverbal cues (in part, because training encourages such emphasis); tending to too-readily interpret certain behaviors, particularly signs of nervousness, as diagnostic of deception; placing too great an emphasis on simplistic rules of thumb; and neglecting inter- and intrapersonal differences. We also discuss two final errors: that many interview strategies advocated by police manuals can impair lie detection, and that professionals tend to overestimate their ability to detect deceit. The second section of this article discusses opportunities for maximizing one's chances of detecting lies and elaborates strategies for improving one's lie-detection skills. Within this section, we first provide five recommendations for avoiding the common errors in detecting lies that we identified earlier in the article. Next, we discuss a relatively recent wave of innovative lie-detection research that goes one step further and introduces novel interview styles aimed at eliciting and enhancing verbal and nonverbal differences between liars and truth tellers by exploiting their different psychological states. In this part of the article, we encourage lie detectors to use an information-gathering approach rather than an accusatory approach and to ask liars questions that they have not anticipated. We also encourage lie detectors to ask temporal questions-questions related to the particular time the interviewee claims to have been at a certain location-when a scripted answer (e.g., "I went to the gym") is expected. For attempts to detect lying about opinions, we introduce the devil's advocate approach, in which investigators first ask interviewees to argue in favor of their personal view and then ask them to argue against their personal view. The technique is based on the principle that it is easier for people to come up with arguments in favor than against their personal view. For situations in which investigators possess potentially incriminating information about a suspect, the "strategic use of evidence" technique is introduced. In this technique, interviewees are encouraged to discuss their activities, including those related to the incriminating information, while being unaware that the interviewer possesses this information. The final technique we discuss is the "imposing cognitive load" approach. Here, the assumption is that lying is often more difficult than truth telling. Investigators could increase the differences in cognitive load that truth tellers and liars experience by introducing mentally taxing interventions that impose additional cognitive demand. If people normally require more cognitive resources to lie than to tell the truth, they will have fewer cognitive resources left over to address these mentally taxing interventions when lying than when truth telling. We discuss two ways to impose cognitive load on interviewees during interviews: asking them to tell their stories in reverse order and asking them to maintain eye contact with the interviewer. We conclude the article by outlining future research directions. We argue that research is needed that examines (a) the differences between truth tellers and liars when they discuss their future activities (intentions) rather than their past activities, (b) lies told by actual suspects in high-stakes situations rather than by university students in laboratory settings, and (c) lies told by a group of suspects (networks) rather than individuals. An additional line of fruitful and important research is to examine the strategies used by truth tellers and liars when they are interviewed. As we will argue in the present article, effective lie-detection interview techniques take advantage of the distinctive psychological processes of truth tellers and liars, and obtaining insight into these processes is thus vital for developing effective lie-detection interview tools.
Article
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Five decades of lie detection research have shown that people’s ability to detect deception by observing behavior and listening to speech is limited. The problem is that cues to deception are typically faint and unreliable. The aim for interviewers, therefore, is to ask questions that actively elicit and amplify verbal and nonverbal cues to deceit. We present an innovative lie detection perspective based on cognitive load, demonstrating that it is possible to ask questions that raise cognitive load more in liars than in truth tellers. This cognitive lie detection perspective consists of two approaches. The imposing-cognitive-load approach aims to make the interview setting more difficult for interviewees. We argue that this affects liars more than truth tellers, resulting in more, and more blatant, cues to deceit. The strategic-questioning approach examines different ways of questioning that elicit the most differential responses between truth tellers and liars.
Article
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This paper discusses cognitive load measurement techniques with regard to their contribution to cognitive load theory (CLT). CLT is concerned with the design of instructional methods that efficiently use people's limited cognitive processing capacity to apply acquired knowledge and skills to new situations (i.e., transfer). CLT is based on a cognitive architecture that consists of a limited working memory with partly independent processing units for visual and auditory information, which interacts with an unlimited long-term memory. These structures and functions of human cognitive architecture have been used to design a variety of novel efficient instructional methods. The associated research has shown that measures of cognitive load can reveal important information for CLT that is not necessarily reflected by traditional performance-based measures. Particularly, the combination of performance and cognitive load measures has been identified to constitute a reliable estimate of the mental efficiency of instructional methods. The discussion of previously used cognitive load measurement techniques and their role in the advancement of CLT is followed by a discussion of aspects of CLT to which measurement of cognitive load is likely to be of benefit. Within the cognitive load framework, we will also discuss some promising new techniques.
Article
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A primary focus of research in the area of deceptive communication has been on people's ability to detect deception. The premise of the current paper is that participants in previous deception detection experiments may not have had access to the types of information people most often use to detect real-life lies. Further, deception detection experiments require that people make immediate judgements, although lie detection may occur over much longer spans of time. To test these speculations, respondents (N=202) were asked to recall an instance in which they had detected that another person had lied to them. They then answered open-ended questions concerning what the lie was about, who lied to them, and how they discovered the lie. The results suggest people most often rely on information from third parties and physical evidence when detecting lies, and that the detection of a lie is often a process that takes days, weeks, months, or longer. These findings challenge some commonly held assumptions about deception detection and have important implications for deception theory and research.
Article
The concept of mental workload has long been recognized as an important factor in individual performance within complex systems. It is documented that either overload or underload may degrade performance, and further affect the efficiency of the whole system. Therefore, systems designers need some explicit models to predict the mental workload imposed on individuals by the system at an early design phase so that alternative system designs can be evaluated. In examining mental-workload literature, it is found that few predictive mental-workload models have considered factors specific to individuals. This research aims to develop a practical framework for predicting mental workload in both single- and multi-task environments considering such individual factors. In order to describe mental workload more precisely and more completely, a framework for mentalworkload definitions, which contains instantaneous workload, average workload, accumulated workload, peak workload and overall workload, is proposed. In order to model individual factors, two new variables, i.e. effective workload and ineffective workload, are introduced to model the taskgenerated workload and individual-generated workload. The extension of the model to multi-task environments is also discussed. The proposed conceptual models are domain-independent and could be used to guide the development of operational models for different specific tasks.
Article
In this paper we argue that there is little need for more of the traditional deception detection research in which observers assess short video clips in which there are few (if any) cues to deception and truth. We argue that a change in direction is needed and that researchers should focus on the questions the interviewer needs to ask in order to elicit and enhance cues to deception. We discuss three strands of research into this new ‘interviewing to detect deception’ approach. We encourage practitioners to use the proposed techniques and encourage other researchers to join us in conducting more research in this area. We offer some guidelines for what researchers need to keep in mind when carrying out research in this new paradigm.
Article
In this article, we review two influential methods of police interviewing practice and their associations with false confessions. These are the Reid technique, which is commonly used by police forces in the United States, and the PEACE model, which is routinely used in the United Kingdom. Several authors have recently expressed concerns about the guilt-presumptive and confrontational aspects of the Reid technique and its association with false confessions and recommend that it be replaced by the PEACE model. Anecdotal case studies and DNA exonerations have shown that false confessions are more common than previously thought and are typically associated with two main causes: manipulative/coercive interrogation techniques and suspects’ vulnerabilities in interviews. The main challenge for the future is to develop interview techniques that maximize the number of noncoerced true confessions while minimizing the rate of false confessions. In the meantime, the electronic recording of police interviews, which provides invaluable transparency and accountability, is the single best protection against police-induced false confessions.
Article
Previous research suggests that liars are not aware that they tend to decrease their movements during deception. Moreover, it is unclear how liars will behave if someone informs them about their behavioral rigidity during deception, and to what extent several processes (tension, attempted behavioral control, and cognitive effort) are associated with deception. In the present experiment, subjects were interviewed twice. During one interview, they told the truth, and during the other interview, they lied. In the information-present condition, before both interviews, subjects were told that deception is usually associated with a decrease in movements. In the information-absent condition, no information was given. The results revealed that whereas subjects believed that they increased their movements during deception, a decrease in movements, in fact, occurred. Provision of information about deceptive behavior had no effect. The results also showed that a decrease in movements was associated with attempted control and cognitive load processes, and occurred independently from the tension experienced by deceivers.
Article
The present experiment examined the apparently incongruent findings that police officers (i) believe that suspects show nervous behaviour when they lie but (ii) seem able to detect deceit in suspects who do not show nervous behaviours. It was hypothesized that police officers’ judgements about whether a suspect is lying would not be correlated with their judgements regarding whether the suspect is tense, but, instead, would be correlated with their judgements regarding whether suspects are having to think hard or attempting to control their behaviour.Each of 84 police officers saw seven truths and seven lies told by suspects during their police interviews. Participants in Condition 1 were asked to indicate after each clip whether the suspect was lying, whereas participants in Condition 2 were asked to note after each clip to what extent the suspect appeared to be tense, having to think hard or attempting to control their behaviour. Condition 3 was a combination of Conditions 1 and 2 and participants were asked all the above questions. The findings support the hypotheses and therefore negate the assumption that police officers primarily look for cues of nervousness when they attempt to detect deceit.