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O LIVRO, O LEITOR E A LEITURA DIGITAL (book draft - relatório de projecto)

O LIVRO, O LEITOR E A LEITURA DIGITAL
Gustavo Cardoso (org.)
2014
1
ÍNDICE
- AGRADECIMENTOS
- INTRODUÇÃO A sociologia da leitura e o (novo) paradigma digital: uma
relação a explorar
Emanuel Cameira e Gustavo Cardoso
PARTE I O LIVRO, OBJECTO ECONÓMICO E CULTURAL
- O sector do livro em Portugal
José Soares Neves
- O mundo económico do livro
Sandro Mendonça
- A indústria do livro digital em Portugal: mutações de um sector tradicional
Cátia Ferreira
PARTE II GEOGRAFIAS SOCIAIS DA LEITURA E DA INTERNET
- Práticas de leitura em Portugal
José Soares Neves
- A leitura digital no mundo. Incursão por alguns estudos internacionais
Emanuel Cameira
- A língua e a Internet no contexto global
Tiago Lapa
PARTE III A DIGITALIZAÇÃO DA LEITURA
- A leitura digital no contexto global e nacional: resultados de um inquérito aos
leitores digitais em 16 países
Gustavo Cardoso e Emanuel Cameira
- A leitura digital e o jornalismo: transformação de hábitos de leitura e
transformação do jornalismo?
Tiago Lima Quintanilha e Gustavo Cardoso
- Leitura digital, Internet e media sociais: uma análise comparativa
Tiago Lapa e Gustavo Cardoso
2
PARTE IV NOVAS INSTITUIÇÕES DA LEITURA E DO LIVRO
- Tendências internacionais sobre as instituições da leitura e leitores na era da
Internet
Liliana Pacheco
- A leitura digital em contexto de biblioteca: um enquadramento analítico e
prospectivo
Carla Ganito
- Os contextos das bibliotecas escolares e municipais: procura e oferta de
recursos e serviços na era do digital
Marta Neves
PARTE V TECNOLOGIA, CIÊNCIA E O DESENVOLVIMENTO DIGITAL DO LIVRO
- A tecnologia na edição digital
Ricardo Rodrigues
- Livros, texto e tecnologias digitais
Pedro Jacobetty e João Querido
- Expectativas, preocupações e desafios: a leitura digital na perspectiva de
bibliotecários, editores, livreiros e representantes do sector das tecnologias de
informação
Cátia Ferreira
- CONCLUSÃO Ler
Gustavo Cardoso
3
AGRADECIMENTOS
4
INTRODUÇÃO
A sociologia da leitura e o (novo) paradigma digital: uma relação a explorar
Emanuel Cameira e Gustavo Cardoso
5
O pressuposto de partida é simples: tradicionalmente focados na esfera do
impresso (livros, jornais, revistas), pode dizer-se dos vários estudos e inquéritos que,
no plano nacional, a sociologia vem desenvolvendo, ao longo das últimas duas
décadas, em torno dos hábitos e práticas de leitura da população portuguesa (Freitas e
Santos, 1992; Pais, 1994; Freitas, Casanova e Alves, 1997; Neves, 2011) que os mesmos
adoptam uma perspectiva pré-      
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(Furtado, 2000: 188), compreender como se estruturam as experiências de leitura dos
portugueses quando efectivadas a partir de um ecrã de computador
1
ou através da
utilização de outros interfaces digitais afigura-se então fundamental, e isto num
modelo de sociedade cujo paradigma da tecnologia da informação (Castells, 2002)
interfere nos mais diversos domínios da existência individual e colectiva. A desordem
na leitura a que Armando Petrucci aludia deixava entrever em 1998 certas
interrogações a que uma abordagem sociológica não se poderá hoje furtar:
por primera vez, pues, el libro y la restante producción editorial encuentran que tienen
una función con un público, real y potencial, que se alimenta de otras experiencias
informativas y que ha adquirido otros medios de culturización, como los audiovisuales;
que está habituado a leer mensajes en movimiento; que en muchos casos escribe y lee
mensajes realizados con procedimientos electrónicos (ordenador, máquina de vídeo o
fax); que, además, está acostumbrado a culturizarse a través de procesos e
instrumentos costosos y muy sofisticados; y a dominarlos, o a usarlos, de formas
completamente diferentes a los que se utilizan para llevar a cabo un proceso normal de
lectura. Las nuevas prácticas de lectura de los nuevos lectores deben convivir con esta
auténtica revolución de los comportamientos culturales de las masas y no pueden dejar
de estar influenciados. (Petrucci, 1998: 541)
             
o ramo específico da sociologia
que delas se ocupa à luz de um novo objecto significa desde logo ultrapassar a questão
da simples leitura de textos impressos e referenciar um vasto corpus analítico
composto por sites, blogues, Facebook, Twitter, e-mails, e-books, etc., a que se acede
por via de diferentes dispositivos digitais, o computador, o telemóvel, o tablet ou o e-
reader. Ora, de acordo com Suzanne Bertrand-    
lire et les nouveaux dispositifs, on assiste à un brouillage des frontières entre plusieurs
        
1
Para a década de 80, confira-se por exemplo o que Anne-Marie Chartier e Jean Hébrard recordam a
propósito da introdução do Minitel (terminal de consulta de banco de dados) na sociedade francesa:

prête vraiment garde.            

6
          -
Gastaldy, 2002: 7). A primazia simbólica da ordem do livro e dos demais suportes
impressos, cientificamente reiterada (Freitas e Santos, 1992b: 80; Santos, 1992), não
circunscreve pois nas sociedades contemporâneas a abrangência desse fenómeno
social e culturalmente multiforme designado como leitura.
Citad
plano fenomenológico, não há uma mas muitas, uma infinidade de leituras, consoante
a natureza dos volumes, o tipo dos textos lidos, as pessoas que os lêem, os momentos
e as situações e           
Intimamente vinculados às dinâmicas históricas de transformação social, e bastará
assinalar a comprovada transversalidade/generalização da leitura em sociedades da
informação e do conhecimento ou inclusive o sincronismo das revoluções induzidas
pela textualidade electrónica        
                 
    5) -, encarar os tipos de interacção estabelecidos
entre os sujeitos leitores e aquilo que é lido na passagem do táctil para o digital
(operacionalizáveis no clássico leque de perguntas: quem ? o que lê? como/onde ?
porque lê? Neves, 2011: 20), obriga também a pensar as possíveis correlações
existentes entre leitura(s) em papel e leitura(s) em ecrã, distintos modos de acesso ao
texto.
Que o advento da World Wide Web, frequentes vezes associado à abolição de
um conjunto de hábitos e representações próprios da (aurática) cultura do livro
impresso, terá estruturado decisivamente todo este processo de mudança, é algo que
bastantes autores têm procurado sublinhar (Vandendorpe, 2008; Furtado, 2002; De La
Flor, 2004; Giffard, 2011). A possibilidade de instantaneamente trocar mensagens, de
proceder a uma rápida gestão do conhecimento, encontrando, lendo, descarregando
de imediato e em qualquer lugar determinado conteúdo alojado em linha, porventura
partilhado, leva a que alguns analistas optem por identificar novos leitores, cujas
modalidades de leitura e escrita em ecrãs ganham o estatuto de praxis quotidiana, da
   apel foi rotina para as
gerações anteriores. Trata-se de um deslocamento na experiência fundamental de ler
et al., in Furtado, 2010: 32). Dir-se-ia portanto que a Internet e
a progressiva convergência das tecnologias digitais, num ambiente societal em rede
onde o volume e o alcance de todos os tipos de textos e informações sofreu uma
exponencial expansão, se encarregou de tornar viável uma leitura de mobilidade
conectada, afastada da clássica visão do homo typographicus.
À luz destas tendências, que perspectivas teóricas deverá uma sociologia da
leitura digital mobilizar visando apreender a complexidade do respectivo objecto de
estudo? Importa começar por mencionar o valioso contributo da francesa Claire
Bélisle, designadamente a noção de leitura que propõe:
7
la lecture est un activité humaine, c’est-à-dire intentionnelle et motivée, accomplie par
des sujets mettant en oeuvre des stratégies pour attendre des buts par des opérations.
Cette approche a l’intérêt d’intégrer l’analyse de la tâche, avec ses composantes que
sont les buts, les moyens (entre autres, les supports que sont les livres papier et
eléctroniques) et l’environment, et l’analyse des actions, avec le déroulement
séquenciel des interactions. C’est l’instrumentation de la lecture que retiendra
l’attention ici. (Bélisle, 2004: 7-8)
Argumenta também a autora que tais práticas ocorrem sempre no âmbito de
um dado contrato de leitura. Melhor dito: inscrita no contexto socio-cultural, uma
convenção tácita de funcionamento, um quadro de referência comum a regular as
relações entre cada suporte e os seus potenciais leitores. Assim, lembrando o conceito
de horizonte de expectativas formulado por Hans Robert Jauss essa predisposição a
um certo modo de recepção realça-se como as práticas e concepções supostas num
contrato de leitura particular podem mudar de configuração caso o suporte em causa
seja outro. Martine Poulain, por seu turno, destacando a heterogeneidade contextual
em que os indivíduos se movem, ideia cara a Bernard Lahire, salienta o seguinte
aspecto:
hay que reconocer la diversidad de sus formas de ejercicio [da leitura], incluso al nivel
de un mismo individuo. (…) Las personas viven en universos heterogéneos a los cuales
se adaptan, esforzándose al mismo tiempo por dominarlos. Este contexto es, a su vez,
móvil, tanto a nivel sincrónico (para el mismo individuo, leer en el ambiente familiar,
escolar o profesional es una actividad multifacética, a veces contradictoria, en estos
contextos diferentes), como a nivel diacrónico (las disposiciones de los individuos y las
configuraciones en las cuales se mueven cambian en el transcurso de la vida). Los
hábitos de lectura o escritura de los individuos, no más que sus otros comportamentos
sociales, no pueden estar separados del contexto en el cual tienen lugar. (Poulain,
2011: 201)
tout ce qui se passe quand des gens lisent
na concepção de Passeron (1986: 18), envolve normalmente uma segmentação
interna: de um lado, a que se realiza por prazer e necessidades de informação; do
outro, a que decorre de razões escolares ou profissionais. Contudo, Wendy Griswold,
restringindo substantivamente os conceitos de leitura e de leitor nas suas

   
33). Preside à presente obra um entendimento diferente. Admite-se uma noção mais
ampla de leitura (de textos digitais), vinculada também aos contextos escolar e
         
through a text-saturated world news Web sites, e-mail messages, tweets, or text
      -se no digital, revela-se talvez
oportuno equacionar as noções-chave de classe de leitores e cultura de leitura
avançadas na reflexão teórica de Griswold (2005), pese embora ambas de difícil
8
operacionalização. Grosso modo, compondo-se a classe de leitores por membros
altamente escolarizados e de elevado capital económico, jovens, lendo regularmente
livros em situações de lazer e trabalho (sobrestima-se aqui a modalidade do impresso)
         
            
classe(s) de indivíduos se alude tendo por base a(s) leitura em ecrã(s)?. A questão é tão
mais pertinente se articulada ao conceito de cultura de leitura     
province, a country), where most people, over and above the demands of their job or
        swold cit. in
Neves, 2011: 37). No fundo, o que se discute é a valorização da literacia e da leitura em
todos os suportes e contextos sociais; no caso da sociedade portuguesa, a vitalidade
da sua cultura de leitura.
Recordando considerações de Anthony Giddens, Manuel Castells ou Scott Lash,
Judy Wajcman adianta como a aceleração da vida quotidiana contemporânea está
intimamente ligada à intervenção das tecnologias digitais. No entanto, além dos
change the nature and
meaning of tasks and work activities, as well as creating new material and cultural
       
daquelas tecnologias consubstancia uma das áreas de maior potencial de crescimento
para as ciências sociais (Cardoso, 1998: 29), analisar o que está envolvido nas
operações de ler suscitadas numa era de interfaces digitais, ao nível das práticas
concretas, das expectativas, das representações, possui suficiente pertinência para
perceber eventuais alterações nas relações com a leitura por parte da população
portuguesa.
É precisamente através do conceito de leitor imersivo, virtual que a perspectiva
de Lucia Santaella se inscreve em toda esta discussão. Se Katherine Hayles (2010) se
interessa pela hiperleitura, estratégia de resposta face a um contexto saturado de
informação (a tónica está na tácita selecção ou justaposição dos textos pelos quais
se deambula, ou que acidentalmente se nos deparam), Santaella tipifica quem a ela se
             
manuseando volumes, percorrendo com seus passos a biblioteca, mas um leitor em
estado de prontidão, conectando-se entre nós e nexos, num roteiro multilinear, multi-
sequencial e labiríntico que ele próprio ajudou a construir ao interagir com os nós
  leitor
contemplativo, meditativo, vindo do Renascimento e prevalecendo hegemonicamente
até meados do século XIX, o objecto livro pressupõe uma modalidade e um tempo de
leitura e atenção específicos, o leitor fragmentado, movente, nascido com o
aparecimento dos jornais é então, por contingência, um leitor mais célere, de
fragmentos, de linguagens híbridas, de notícias quotidianas massificadas. Não obstante
9
a sequencialidade histórica que parece marcar o surgimento destas três categorias de
leitores, tende a haver coexistência temporal entre elas.
Ideal-tipicamente, o leitor virtual     E assim,
defende Bertrand-Gastaldy,
la tendance se dessine vers des lectures ouvertes, relationnelles, multidimensionnelles
et encore plus personnalisées qu’auparavant. Il se pourrait que, dans certaines
conditions, les lectures favorisées soient des lectures fragmentées de passages de
documents répondant à des questions très précises, voire factuelles qui ne suivent pas
la linéarité de l’énoncé mais les hyperliens existants ou créés par l’instrument de
recherche, par l’index, en fonction des visées de l’«utilisateur» (le mot semble, dans ces
conditions, plus approprié que celui de «lecteur»). Le butinage, la lecture découverte, le
survol, la lecture sélective sont alors privilégiées
2
. (Bertrand-Gastaldy , 2002: 7-8)
Reter que as mesmas tecnologias digitais, mediando a(s) leitura(s) que se
fazem, traduzirão diferentes coisas para diferentes grupos de indivíduos. E que tanto o
interface (o gadget) como os conteúdos em causa implicarão distintas formas e
objectivos de leitura. Com efeito, cada indivíduo pode potencialmente ler em ecrã uma
multiplicidade de textos, em situações variadas da sua vida social e cultural. O ponto
determinante reside no facto de não se lidar exclusivamente com práticas de leitura
eruditas ou cultivadas, distintivas no sentido imputado por Pierre Bourdieu, mas
também, recuperando premissas do norte-americano Robert Darnton, aquela leitura
comum ou normal, tomando o texto enquanto instrumento orientado para fins que lhe
são exteriores, longe da contemplação de carácter estético-literário e presa às
preocupações imediatas (comunicar, divertir-se, documentar-se) do dia-a-dia
3
(Baudelot e Cartier, 1998: 26-27). Conferir inteligibilidade ao fenómeno da leitura
digital requererá, em igual medida, a identificação de sujeitos que, segundo diversos
graus de recorrência e pluralidade, utilizam o(s) interface(s) na sua vertente de
tecnologia comunicacional ou social, síncrona ou assíncrona (lendo e-mails, mensagens
de telemóvel, textos acedidos no âmbito das redes sociais, etc.) e/ou visando
apropriar-se de materiais legíveis de maior permanência (hipertextuais ou não), e-
books ou textos publicados em páginas da Web. Mark Deuze não deixa de o
reconhecer:
a sketch of characteristics common to a culture does not presuppose that all individuals
located within that culture behave or act in similar ways, nor that a set of emerging
2
No que à leitura digital se refere, David Levy (1997) realça por exemplo a tendência de leituras em ecrã
de menor profundidade, mais fragmentadas ou dispersas. Por seu lado, Sven Birkerts, na obra The
Gutenberg Elegies: The Fate of Reading in an Electronic Age (1994), alega a transição de uma leitura de
maior densidade, vertical, para outra na diagonal, como é habitual designar-se, à superfície do texto.
3
Binómio em que vários autores reconhecem validade analítica quando se tem em vista a compreensão
das práticas de leitura, por 
veja-se Dufays, Jean-Louis (2005),  
in Jouve, Vincent (org.), L’expérience de lectureroviste, pp. 309-322.
10
practices is a linear progression from or improvement upon those that came before. (…)
In the ways humans and machines interact in the context of ever-increasing
computerization and digitalisation of society an emerging digital culture is expressed.
Such a culture thus has consequences on a shared social level both online as well as
offline. (Deuze, 2006: 69)
Importante nesta fase indicar as duas definições de leitura que Olivier Donnat
(veja-se Neves, 2011: 27) avançou: prática cultural e actividade de recepção. É sob tal
alternância de enfoque que a sociologia da leitura (de suportes impressos, registe-se)
tem vindo aliás, globalmente, a assentar. Se no primeiro caso prevalece o peso
explicativo das variáveis sociográficas, as estruturais relações de homologia entre as
características dos indivíduos e os seus tipos e intensidades de leitura, no segundo
promove-se um olhar eminentemente compreensivo, tentando dissecar a variedade
de significados que cada acto de ler comporta. Ainda que não seja propósito deste
estudo enveredar pelas apropriações e elaborações de sentido que os indivíduos
activamente encetam frente a determinadas configurações textuais (Manguel, 1998),
essa a linha de Michel de Certeau (1990) por exemplo, considerar-sena análise da

(or do not become) both me-76).
Como escreve Fernando De La Flor, debruçando-se sobre a hodierna
-se num autêntico
kit de estratégias de recepção variadíssimas, que têm como marco um ecrã todo-
            
              
recepção se trata. Sustenta Martine Poulain que a revolução electrónica e d
multiplicado la presencia de lo escrito y su uso; también ha conducido a todo lector a

2011: 203). A lecto-escrita; lê-se igualmente para escrever (Adler et al., 1998)
4
.
De facto, é devido ao permanente confronto dos sujeitos com a evolução das
     consumers of
expertise           unt
Bauman 1990: 200) que surge o conceito de literacia digital.
The new literacies of the Internet and other ICTs include the skills, strategies, and
dispositions necessary to successfully use and adapt to the rapidly changing
information and communication technologies and contexts that continuously emerge in
our world and influence all areas of our personal and professional lives. These new
literacies allow us to use the Internet and other ICTs to identify important questions,
locate information, critically evaluate the usefulness of that information, synthesize
4
Por exemplo: escrevendo para criar um novo documento ou para modificar um existente;
escrevendo de maneira abreviada ou pouco estruturada, com uma função provisória, que não visa a
elaboração de um texto ou documento final; escrevendo anotações ou comentários a algo que se leu;
preenchendo formulários, etc.
11
information to answer those questions, and then communicate the answers to others.
(Leu et al., 2004: 1572)

na vida diária (social, profissional e pessoal) de informação escrita de uso corrente
     
2000: 1), vem sofrendo uma deriva justificada essencialmente pelo crescente interesse
em redor das formas electrónicas de expressão. Com consequências óbvias ao nível do
modo como comunicamos e disseminamos a informação, como encaramos as (por
            
, graças
às potencialidades de combinação multimédia (texto, som, imagem, vídeo) encerrada
nos meios digitais (Castells, 2001), é perante uma textualidade mestiça (a expressão é
de Fernando De La Flor) que, em certos casos, os sujeitos se encontram. Aliada à
te
 et al., idem: 1590)
5
, quer a leitura
quer a escrita transformam-se textual, relacional, espacial e temporalmente.
Os atributos dos textos mudam, num cenário onde quem escreve e lê passa
cada vez mais tempo diante de ecrãs produzindo-os e/ou consumindo-os.

linear text in digital format, a nonlinear text with hyperlinks, a text with integrated

proeminência do design de informação contemporâneo.
De um ponto de vista relacional, a emergência da componente de escrita
dentro dos novos media (recorde-se que à segunda geração da Internet comercial,
com a blogosfera, os wikis, etc., se juntou uma valência autoral da parte dos
utilizadores Axel Bruns introduziu a este respeito a noção de produser
6
) parece capaz
de modificar a relação inscrita entre quem lê e escreve, na medida em que se assiste a
um incremento da interactividade.
5
O grupo constituído pelos investigadores Donald Leu, Charles Kinzer, Julie Coiro e Dana Cammack
apontam alguns exemplos do que integram debaixo da nomenclatura novas literacias   
engine effectively to locate information; evaluating the accuracy and utility of information that is
 
functions such as checking spelling accuracy, inserting graphics, and formatting text; participating
effectively in bulletin board or listserv discussions to get needed information; knowing how to use e -
mail to communicate effectively; and inferring correctly the information that may be found at a
ibidem: 1590).
6
         
 and recent developments have made it
ever more easy, and in some cases even inevitable, for such user
(2009), Blogs, Wikipedia, Second Life, and Beyond From Production to Produsage, New York, Peter
Lang Publishing, p. 22.
12
The internet and other new media give users the means to generate, seek and share
content selectively, and to interact with other individuals and groups, on a scale that
was impractical with traditional mass media. (Livingstone, 2005: 5)
Tanto a interacção social como a conversação reflexiva, subentendendo uma
dimensão da leitura que pode ser construída ou originada pelo próprio, ocorre através
do uso das tecnologias digitais. Neste contexto, ganha especial ênfase na leitura digital
o balanço entre práticas individuais e sociais de leitura, até porque convém referir
como muitos dos conteúdos que efectivamente se lêem na Internet (notícias, por
exemplo) aparecem filtrados em função de critérios de popularidade ou relevância
(Picone, 2007: 98), isto é, definidos também pelos interesses de outros indivíduos.
Desde largos anos que o processo de ler tem sido investigado sob ângulos
vários. Ora explorando a estrutura do discurso, as características concretas dos textos,
ora sondando as estratégias de compreensão que os leitores implementam, ora até
prestando atenção ao papel do leitor, às funções da leitura ou aos media usados nesse
âmbito. Relativamente às interacções erigidas entre o leitor e texto, Leu e Reinking
admitem, respondendo à idealizada e metafórica assunção de que o leitor interage
com o texto em busca do(s) seu(s) sentido(s), da sua compreensão, que
electronic learning environments (…) provide an opportunity to operationalize this
idealized notion of a dynamic, reciprocal interaction between readers and texts. We use
the term “electronic learning environments” to refer to environments where text carries
at least a portion of the information within an interactive electronic medium. Electronic
learning environments include what are commonly referred to as hypertext,
hypermedia or multimedia. Within electronic learning environments, readers actively
manipulate the nature of the information they encounter as they navigate through
flexibly structured resources in an attempt to construct meaning. (…) Many electronic
learning environments actively respond to readers who seek information from multiple
media sources. (…) For example, might (…) provide an explanation for a difficult
concept unfamiliar to a user, animate a complex process to illustrate causes and
consequences, provide a video segment to demonstrate a procedural routine, or display
written responses by other users about their learning experiences. (Leu e Reinking,
1996: 44-45)
São assim desafiadas as formas tradicionais (mais estáticas) de relação com a
matéria escrita nas sociedades actuais, em que os aparelhos tecnológicos quase
assumem o estatuto de segunda pele do indivíduo (Baudrillard, 1993), com ele
compondo um circuito integrado. Provavelmente com variações conforme se dirija o
foco para os chamados nativos digitais
7
(teoricamente, sujeitos de uma geração que
7

all youth are digital natives. Digital natives share a common global culture that is defined not only by
age, strictly, but by certain attributes and experiences in part defined by their experience growing up
immersed in digital technology, and the impact of this upon how they interact with information
technologies, information itself, one another, and other people and institutions. Those who were not
                t
               
13
cresceu mergulhada numa parafernália de dispositivos digitais, dos quais se serve
quotidianamente) ou para os imigrantes digitais (socializados na utilização dessas
tecnologias já em etapas ulteriores da sua vida, combinando ferramentas digitais e
analógicas com o intuito de aceder à informação ou de comunicar com terceiros), dois
conceitos cunhados em 2001 por Marc Prensky.
Em 1994, o estudo intitulado Práticas culturais dos lisboetas, coordenado por
José Machado Pais, observava que, à data, a alusão à fragilidade dos hábitos de leitura
dos portugueses (de livros, jornais e revistas) ocupava um espaço substancial nos
debates em torno da constelação dos seus comportamentos culturais, estritamente
falando. Essa apatia          
«massificadora» imposta pelos grandes meios de comunicação assentes na tecnologia
electrónica, em detrimento do livro, como lugar privilegiado do pensamento, da

    cerner, no original) uma actividade que tanto
pertence ao tempo de trabalho como ao de lazer, e releva do registo do utilitário, da
         idem: 193). Algo que,
obviamente, também perpassa pela leitura protagonizada em múltiplos suportes
digitais.
No quadro desta discussão, encontra-se interesse na mobilização e adaptação
analítica de certos conceitos propostos por Idalina Conde acerca da problemática
sociológica das práticas culturais, não circunscritas à sua dimensão cultivada. Quando
se pretende conhecer hábitos e comportamentos de leitura mediados por
equipamentos com uma plural disponibilidade de usos (lúdico e/ou funcional, escolar
e/ou profissional, ou mesmo da ordem da fruição literária), presumir desde logo uma
realidade constituída por práticas (de leitura) receptivas
emissões (que substituiria por tipos de textos) inalteráveis pelo receptor ainda que por
   operacionais, servindo de plataforma de usos expressivos ou
criativos por parte de quem lê, e ambíguas ou polivalentes
-122). É aqui sugerido
         
artefactos materiais e dispositivos agenciais para a leitura e escrita que acontece
dentro ou fora do espaço domiciliar. Empiricamente, é portanto verosímil que, no
momento em que escreve, determinado sujeito possa estar num espaço tendo a seu
lado um livro em suporte papel e um computador portátil. Ou o seu iPad, mediante o
qual consulta publicações online (conectadas ao Google ou à Amazon) ou artigos de
formato pdf que lhe foram enviados e que entretanto armazenou. Essa reconfiguração
da experiência de ler dá azo a uma hibridização de competências, a uma multiplicidade
sensorial da literacia e da leitura.
http://cyber.law.harvard.edu/research/youthandmedia/digitalnatives/areallyouthdigitalnatives, acedido
em 10 de Julho de 2012).
14
Num tempo de modernidade líquida, caracterizada pelo estado ubíquo,
desmaterializado, dinâmico e maleável da informação, que assim contraria convenções
sociais antes estabelecidas, Bauman (2000) aponta para os indivíduos na sua condição

adoption and employment of technological innovations, in a dynamic process within
the everydayness of their soci      
sensível no que diz respeito às práticas de leitura digital é a circunstância de se
perspectivar um condicionamento provocado pelos estilos e ciclos de vida, pelos
papéis sociais que os indivíduos vão desempenhando, dimensão eventualmente
dotada de maior densidade explicativa se comparada a influências de teor geracional.

mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo adopta, não porque essas
práticas satisfazem necessidades utilitárias, mas porque dão forma material a uma
narrativa particular de auto-      
estilos de vida numa sociedade de capitalismo desenvolvido que multiplicou de tal
modo a diversidade de opções passa também por identificar a incorporação de uma
         -a-dia
dos indivíduos. O capital simbólico dos objectos de uso corrente, profundamente
estetizados, pressupõe a atribuição de significados além da mera utilidade,
consumindo-se por arrasto um valor signo, conforme Baudrillard pretendeu
         
contemporaneidade eclética com tendências homogeneizantes paralelas a efeitos

Interrogar a apropriação das tecnologias digitais onde se lê, reportadas a
temporalidades e espacialidades específicas, contrastantes e entrecruzadas, de
trabalho e de lazer (Pais, 1998; Rainie e Wellman, 2012) - lendo no computador do
escritório ou da biblioteca um artigo saído no jornal diário, lendo em trânsito e no
iPhone um e-mail recebido ou lendo um romance na praia através do Kindle -, torna
pois necessário trazer para a análise a teoria da domesticação da tecnologia, de Roger

on consumption rather than mere use. So attention has been given to what ICTs mean
to people, how they expe
(Haddon, 2003: 44).
É a assimilação da tecnologia nas rotinas e micro-práticas da vida quotidiana
dos seus utilizadores que ilumina o dito processo de domesticação, capacidade na
dependência dos diferentes tipos de capital que se possui ou dos quais se está
destituído (Bourdieu). Domesticação da Internet num primeiro nível, querendo-se
deduzir uma definição de leitor digital como alguém a ela ligado, aproveitando o
acesso a documentos e informações, a sua partilha, e as funcionalidades comunicativas
disponibilizadas pelo dispositivo digital ao dispor. Na era da literacia online, esse o
requisito base. Manuel Castells acentua que
15
we do not “watch” the Internet as we watch television. In practice, Internet users (the majority
of the population in advanced societies and a growing proportion of the third world) live with
the Internet. (…) Working with the Internet includes occasional surfing of non-work-related web
sites or the sending of personal e-mails as a result of widespread multitasking in the new
informational environment. Furthermore, the Internet is increasingly used to access mass
media (television, radio, newspapers), as well as any form of digitized cultural or informational
product (films, music, magazines, books, journal articles, databases). (Castells, 2009: 64)
E-mails e textos também lidos e/ou enviados em segundos. Sucede que
tencionando-
            
technologies, idem: 4), deverão ser
salientados os sites, congregando informações de variada índole, ou as
aplicações/ferramentas dos media sociais (blogues, Twitter, Facebook, Orkut, etc.).
Neste caso, a publicação, produção colaborativa e difusão de vários géneros de
conteúdos destinados à leitura tem lugar de maneira descentralizada. Sobre isto se
tem preocupado o campo dos Internet Studies, procurando apurar os reais usos e
perfis dos internautas. A via tradicional da sociologia da leitura deixa na sombra todas
estas práticas leiturais. Ora, com o objectivo de tentar compor uma sociologia da
leitura digital, o facto de as indústrias (culturais) dos bens impressos sofrerem
modificações com a entrada na sociedade da informação, revendo os modelos de
negócio e redefinindo os seus produtos e canais de distribuição (Thompson, 2010),

géneros de textos: representações derivadas ou secundárias de livros impressos e
publicados ou de textos pensados primariamente para publicação impressa, e
publicação de textos electrónicos pensados e concebidos para se moverem em
           
transposição para o digital experimentado pelos intervenientes das cadeias de edição
de livros, jornais e revistas (apostando na orientação personalizada dos materiais de
leitura para suportes tais como os tablets, os smartphones ou os e-readers), cobre
então outra dinâmica não despicienda aspirando-se chegar à identificação,
necessariamente provisória, de tipos de leitores digitais. Ao situarmo-nos nesse plano,
assume-se um recorte tipológico que, de modo algum, esgota adicionais ou mais finas
declinações do ser leitor advindas do confronto com os dados empíricos. Todavia, a
ideia de um leitor total, omnívoro, que tudo, desde os textos contidos nas
plataformas dos media sociais e noutras páginas Web aos formatos especialmente
vocacionados (o exemplo dos e-books) para os novos interfaces digitais (móveis), que
recorre às populares formas tecnológicas do SMS e do correio electrónico (e-mail), e
que faz uso das possibilidades da rede, revestirá seguramente a especificidade de um
certo grupo de leitores. Em segundo lugar, a ideia de um leitor parcelar demarcando
livros, jornais e revistas, Eduardo de Freitas e Maria de Lourdes Lima dos Santos fixam

16
dois desses três conjuntos de publicações, sem traduzir necessariamente capacidades
         -, que
elucidaria práticas de leitura combinando algumas das seguintes actividades:
  Web, nos textos das redes e media sociais, utilização dos
sistemas de SMS e de e-mail, leitura de livros ou demais documentos digitais (e-books,
ficheiros pdf, etc.) passíveis de consumo em diferentes gadgets. Vale no entanto a
pena relembrar que na leitura em meio digital se cruzam potencialmente dimensões
de aquisição e/ou partilha mas também de comentário, de estatuto crítico ou social.
Finalmente porém, importa não negligenciar na tipologia o que aqui se apelida de
proto-leitor  -se
  idem: 68), por força de incipientes competências de literacia
digital ou tecnológica se mostra alheado ou afastado das práticas de leitura acima
discriminadas (somente fazendo uso pragmático do SMS ou do e-mail por exemplo).
Será porventura útil nesta fase abordar o contributo-chave de John B.

           opriada
para os novos tipos de informação e comunicação em rede, que se estão tornando
             
massificação que as redes sociais introduzem e que interessa evidentemente assinalar
no estudo da leitura digital. A bem dizer, a comunicação de massa implica a indefinição

que tenha os meios técnicos, as habilidades e os recursos para adquiri-idem: 35).
Se no caso dos meios de comunicação e escrita interpessoal, como o e-mail ou o SMS,
o que está grosso modo em causa são textos dirigidos para um outro específico, nas
redes sociais lê-se mais, há mais gente a escrever, desencadeiam-se também processos
de comentário. Esse fenómeno social cada vez mais significativo e penetrante que se
baseia na rápida circulação dos mais variados tipos de textos (ao limite, é incontrolável
onde vai parar o que se escreve, alvo de sucessivas partilhas ou redistribuições por
diferentes grupos de internautas) permite assim levantar a hipótese de que as redes
sociais abrem as portas para a massificação da leitura digital. A ideia de que qualquer
pessoa tem hoje em si os meios da comunicação de massas, em virtude de poder
colocar textos em plataformas digitais com vista a serem lidos por uma diversidade de
indivíduos (Castells, 2007), carrega contudo um aspecto que se afasta de outra das
propriedades que Thompson destacou. À partida, a fundamental desigualdade entre
quem escreve e lê        
massa, parceiros       ibidem: 35) ,
quando pensada na esfera dos media e redes sociais revela um alcance distinto.
Simultaneamente sujeitos em processos de produção, transmissão e recepção, deixa
pois de ser verdadeiro que os me      
contínuas do feedback ibidem: 34).
17
Que historicamente o número de leitores suplantou sempre o número de
autores é algo que parece não oferecer dúvidas. A tese de Dennis Baron é a de que a
Internet terá impulsionado uma transformação:
thanks to the internet, that gap may be narrowing dramatically. Each new stage in the
history of writing technologies tends to expand the authors club, and the digital
explosion seems to have opened that guild up to something approaching universal
membership, at least so far as the universe of computer users goes. On the internet,
everyone’s an author, every scrap of prose a publication. (2009: 157)
De facto, a utilização da Internet alastrou-se por todo o mundo a uma
velocidade absolutamente ímpar se se considerar quaisquer outros meios de
comunicação
8
. Mas em consonância com o que vários autores sublinham, é preciso
explicitar melhor em que medida nas contemporâneas sociedades da informação o
próprio modelo comunicacional mudou. Pode dizer-se que esse novo modelo fundou
os seus alicerces numa comunicação de carácter globalizado, na intersecção em rede
dos meios de comunicação interpessoais e de massas, sem esquecer os diferentes
padrões ou graus de interactividade associados à emergente mediação em rede
(Cardoso, 2011). A auto-comunicação de massa de que fala Manuel Castells it is
mass communication because it reaches potentially a global audience through the p2p
networks and Internet connection. It is multimodal, as the digitization of content and
advanced social software, often based on open source that can be downloaded free,
allows the reformatting of almost any content in almost any form, increasingly
distributed via wireless networks. And it is self-generated in content, self-directed in
emission, and self-        
(Castells, 2007: 248) em traços largos é-o porque fruto de uma individualizada
apropriação. Mas também a comunicação mediada de um para muitos, que por
exemplo preside à utilização do Facebook   comunicação
interpessoal multimédia (refira-se o uso dos programas de conversação instantânea),
testemunham a metamorfose em matéria de modelo comunicacional. O resultado são
então práticas e níveis de envolvimento e/ou interacção muito distintos, certas
abrangendo actividades de leitura claro está, atravessadas pela influência de um
denominador comum, a mediação por ecrãs.
Como adianta Henry Jenkins, os indivíduos vivem actualmente num mundo
onde           
where the power of the media producer and the power of the media consumer
    (Jenkins, 2006: 259-260). Fluxos de conteúdos e
formas de disseminação mais directas e libertas dos mecanismos de gatekeeping em
8
 
1.4 billion in 2008. By 2008, rates of penetration had reached more than 60 percent in most developed

18
que interferem jornalistas, editores, etc. Gustavo Cardoso resume-o nos seguintes
moldes:
os nossos conteúdos sejam eles noticiosos, informativos ou de entretenimento
parecem ter-se alterado graças à presença de conteúdos fornecidos pelos próprios
utilizadores dos meios de comunicação e não apenas pelas empresas de mídia, dando
lugar à coexistência de diferentes modelos de informação para diferentes públicos.
(Cardoso, 2011: 236)
No fundo, dever-se ter presente o que Jenkins nomeia de cultura da
convergência, teoricamente perceptível quando se faz entrar na discussão dois
conceitos subjacentes, convergência de media e cultura participativa. O primeiro
aponta para a progressiva adaptação dos mass media ao advento da Internet, visando
a distribuição dos seus produtos por outra via, ou seja, para o princípio de que vários
tipos de conteúdos perpassam portanto múltiplas plataformas de media
9
, e isso a par
de um comportamento migratório que certos públicos ou audiências levam a cabo,
oscilando entre canais no consumo de tais conteúdos. Já quanto à noção de cultura
participativa o ponto determinante reside no facto de a convergência igualmente

and make connections among dispersed media content. The term participatory culture
contrasts with older notions of passive media spectatorship. Rather than talking about
media producers and consumers as occupying separate roles [a fundamental
desigualdade a que atrás se aludiu] we may now see them as participants who interact
with each other according to a   Daqui deriva que
num contexto de convergência de media, e na intenção de nos centrarmos na leitura
feita sobre uma pluralidade de ecrãs, todo o conteúdo escrito pode ser activa e
facilmente difundido e/ou seleccionado pelos leitores. De acordo com esta lógica de
raciocínio, querer compreender o fenómeno da leitura digital pede a necessária
atenção à possibilidade de os sujeitos navegarem ao redor da paisagem de media,
escolhendo ou alternando entre dispositivos tecnológicos consoante a actividade ou o
objectivo em causa, a própria natureza dos textos, e, por outro lado, comentando
notícias e artigos publicados online, lendo e/ou produzindo conteúdos escritos nos
fóruns da Web e nos sites das redes sociais (neste particular, uma leitura que assume
um cariz também acidental, já que os indivíduos, na condição de destinatários das suas
redes de amigos, acabam por ler textos que, se calhar, noutras plataformas ou
suportes não procurariam de modo voluntário)
10
. Saber até que ponto o poder
9
Inclusivamente numa mesma máquina ou gadget podem convergir conteúdos e/ou funções muito
diversas. Atente-se no exemplo do smartphone, misturando, entre outras, valências do computador, do
telefone, da câmara digital, da Internet, possibilitando não só a interacção como também a produção e
o acesso a uma enorme variedade de conteúdos.
10
       rom a variety of different sources, networked
individuals must actively develop the skills to critically assess the institutional information they find and
what they receive from their personal networks. The ability to balance these two information sources is
a key for networked individuals as they cope with information overload. They rely on search engines,
19
transformador da Internet influencia a(s) leitura(s) que hoje se faz(em) constitui toda
uma questão.
É também o problema de questionar qual o modelo que se crê hodiernamente
associado ao mais vasto público-leitor (Santos, 1992). A ideia de que o sujeito
informado  
              se
constrói agora no espaço virtual da Internet, ao mesmo tempo que escreve e lê,
substituindo essa visão chegada do século XIX e que tinha por idiossincrasia uma noção
de sujeito informado correspondente à figura do leitor de jornais, modalidade
democratizadora do impresso (Darnton, 2011: 143). Oportuno a este respeito
recuperar uma passagem da Revista Universal Lisbonense (1841) que Maria de Lourdes
Lima dos Santos citou num seu artigo:
Este século tão destruidor como criador, matou a Livraria e pôs no seu lugar o
Jornalismo. Assim deveria ser, porque este século é popular. Os livros eram a muita
ciência para poucos homens; os jornais são um pouco de ciência para todos. O que os
livros monopolizavam, os jornais o derramam como podem. (Santos, 1992: 20)
É um facto que a Internet, a tal massificação do texto a que se refere Umberto
Eco (1996) - da opinião de que a invenção do computador permitiu, depois da
televisão, o regresso à Galáxia Gutenberg, informando-nos acerca do mundo na forma
de páginas e palavras -, se converteu num poderoso, sem paralelo, canal de
distribuição. A pergunta que aqui genericamente se antecipa é se aqueles que lêem (e
escrevem) online vêem tal leitura como uma actividade de substituição ou extensão
      
como influencia ela a leitura do que existia antes em papel e que agora também se
propagou pela esfera digital?
A leitura e a escrita constituem hoje os requisitos elementares para que
qualquer indivíduo se consiga integrar nas várias dimensões da vida contemporânea:
  pólis, condição da cidadania, a leitura e a sua ausência estabelecem o
limiar da sociabilização, que, após a alfabetização, ganhou hoje na (i)literacia o seu

contribuiu decisivamente para que sejam cada vez em maior número aqueles que
   
como são também cada vez mais as ocasiões, os contextos e os domínios, assim como
os suportes, que apelam à sua 
daqui para um olhar sociológico de muitas perguntas: que conclusões podem ser
ventiladas acerca da leitura digital mediante a sua associação a determinadas variáveis
do foro sociográfico? O que muda nas práticas da leitura com a transposição ou
bookmarks, and tags. Moreover, people develop ways to alert them to new information about issues
 (Rainie e Wellman, 2012: 232-233).
20
desenvolvimento dos conteúdos para o formato digital? Disseminando textos a largas
audiências, que interferência têm as plataformas das redes sociais nesse âmbito?
Como é a leitura digital percepcionada pelos indivíduos? Que regularidades são
passíveis de objectivação quando analiticamente se cruzam leituras digitais e em
papel? E, por arrasto, em que medida a focagem na leitura digital sintoniza e/ou
complexifica com novas categorias de leitores a sociologia da leitura que em Portugal
se vem fazendo?
Para este fim, com a leitura digital latamente considerada, é-se levado a
concluir com uma citação de Bernard Lahire:
il y a lecture et lecture, et il faut rappeler cette évidence contre les tendances les plus
anodines (que l’on retrouve souvent dans les commentaires des tableaux statistiques
concernant la fréquence de lecture, selon la cátegorie socio-professionnelle, le sexe, le
niveau de diplôme…, de tel ou tel genre d’imprimé) à faire comme si, entre les “non-
lecteurs” ou les plus “faibles lecteurs” et les plus “forts lecteurs”, la différence n’était
qu’une différence quantitative (“on lit d’autant moins de telle ou telle cátegorie
d’imprimés que l’on fait partie de telle ou telle catégorie de lecteur…”). (Lahire, 1993:
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      
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     Percepção estética e públicos da cultura, Lisboa,
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26
PARTE I
O LIVRO, OBJECTO ECONÓMICO E CULTURAL
27
Que se possa afirmar que o universo do livro experimenta actualmente múltiplos
processos de mudança não equivale contudo a assumir a simples substituição de
paradigmas ou de formatos. Aliás, o que se afigura empiricamente constatável, é a
convivência entre modelos, não tendo a cultura do impresso sido abolida em virtude
da entrada em cena do digital. Não é pois por acaso que os três capítulos compondo
esta primeira secção se esforçam ora em caracterizar o sector nacional do livro do
ponto de vista de várias facetas da sua oferta (olhando para as entidades que editam e
comercializam livros, agentes de mediação da leitura cuja actuação se inscreve ainda
dominantemente dentro do paradigma do impresso), ora as modificações tecnológicas
e económicas que não só transformam o livro tal como o conhecíamos enquanto
objecto como também a indústria que nele se baseia, sem deixar de dar conta das
mudanças que já se conseguem verificar em Portugal nas esferas da edição e da venda
de livros em função da influência que as realidades da Internet, em particular, e dos
meios digitais, em geral, acabam por exercer. Tratando-se de contributos não
especificamente centrados nas práticas de leitura propriamente ditas, mas
identificando aspectos relacionados com a produção/intervenção no conjunto de
leituras que os leitores podem então realizar, acabam igualmente por facultar
informação substantiva para responder a essa questão que serviu de título a um livro
dirigido pelo historiador Jean-Yves Mollier, Où va le livre? (2000). É dos nexos possíveis
de estabelecer entre os diferentes textos desta parte que não se podem
perspectivar transições em curso como eventuais reconfigurações do mundo social do
livro na sociedade portuguesa em termos de novos modelos de negócio e de novas
lógicas de produção e promoção, favorecendo por seu turno a emergência de outros
tipos de leituras e modos de acesso aos livros, artefactos nesse limbo entre papel e
digital, bem e serviço.
28
1
O sector do livro em Portugal
José Soares Neves
29
Introdução
Quais as caraterísticas do sector do livro em Portugal? Que informação estatística está
disponível e é suscetível de contribuir para essa caracterização? O objetivo do
presente capítulo é compreender de onde partimos relativamente a um dos principais
suportes de leitura, o livro, tendo por base fontes estatísticas. São várias as principais
fontes aqui utilizadas, de natureza e alcances diferentes, mas que, no seu conjunto,
permitem avançar vários elementos para uma caracterização global do sector:
estatísticas oficiais (INE), sistema ISBN, Depósito Legal e inquéritos ao sector. O
levantamento e crítica das fontes constam de um estudo com uma reflexão mais vasta
sobre um sistema de informação do sector do livro (Neves, Santos, Lima, Vaz e
Cameira, 2012). Considera-se o sector como o conjunto de agentes cuja atividade está
relacionada com a edição ou a comercialização de livros. Embora não se ignore que
        CO, ela não será
necessariamente seguida uma vez que raramente é utilizada, desde logo nas
estatísticas internacionais (Wischenbart e Ehling, 2009: 5).
Neste capítulo refere-se a evolução do panorama editorial português ao longo da
primeira década do século XXI quanto às empresas (volume de negócios, pessoal ao
serviço) e outras entidades que editam livros, bem como os títulos e os exemplares
editados. Aborda-se a comercialização, em particular nas livrarias e nas grandes
superfícies mas também noutros canais, incluindo o comércio eletrónico.
Apesar dos avanços recentes permanecem inúmeras lacunas na informação disponível
em Portugal, aspeto particularmente notório em contraste com outros países, lacunas
que inviabilizam não o alargamento da análise a outras dimensões mas também o
aprofundamento daquelas aqui abordadas.
Uma das lacunas é a inexistência de inquéritos regulares à edição e à comercialização.
Se isto é relevante quanto ao formato papel, é particularmente evidente quanto aos
formatos eletrónicos, os quais constituem o principal desafio com que o sector do livro
está confrontado em múltiplos planos (a cadeia do livro, os direitos de autor e os
direitos de reprodução, para citar apenas alguns) e que tem impactos diferenciados
em cada país. Por esse motivo têm sido realizados nos últimos, na Europa e noutros
quadrantes geográficos, estudos nacionais que incluem, ou são direcionados
especificamente, para a edição e a leitura digitai, o que não é o caso de Portugal.
30
O sector do livro como objeto de estudo
O sector do livro tem uma longa tradição de estudo pelas ciências sociais,
designadamente da Economia e da Sociologia da cultura. Os trabalhos de Lewis Coser e
outros (Coser, 1975; Coser, Kadushin e Powell, 1982), bem como de autores da socio-
economia da cultura em França, como François Rouet (1992; 1998) ou Françoise
Benhamou (1986; 1996), ou obras sobre as indústrias culturais e as indústrias criativas,
de que o livro é um dos constituintes (Garnham, 2005), são algumas referências
importantes.
Em Portugal vários autores abordaram o sector da edição. Entre eles importa citar
Fernando Guedes e as suas reflexões em torno da história do livro e da edição, do livro
como objeto cultural e económico (Guedes, 2001), as obras de Jorge Martins no
tocante aos indicadores de mercado, ao marketing, aos agentes envolvidos na cadeia
do livro, numa perspetiva nacional ou transnacional (Martins, 1999a; Martins, 1999b),
à rede social do livro (Martins, 2005a; 2007) e mais especificamente sobre o próprio
livreiro (Martins, 2005b). Rui Beja editou recentemente obras sobre a história do
Círculo de Leitores, casa editorial fundada em 1970, e sobre a edição em Portugal nas
últimas três décadas (Beja, 2011; 2012). José Afonso Furtado é outro autor
incontornável, não só no que se refere ao livro, à edição e ao mercado (Furtado, 1995;
1998), às leituras (Furtado, 2000), às implicações das novas tecnologias e à leitura
digital (Furtado, 2003; 2004; 2007), mas também quanto à relevância da gestão
estratégica (Furtado, 2008) e, mais recentemente, à literacia na sociedade da
informação (Furtado, 2012).
Após a criação do Observatório das Actividades Culturais (OAC) em 1996 o sector foi
um objeto de estudo com alguma continuidade. Disso são exemplos a avaliação das
políticas culturais nacionais (Santos e outros, 1998), de medidas políticas públicas
específicas do sector como o Preço Fixo do Livro (Santos e Gomes, 2000), de
construção e análise de indicadores de mercado (Freitas, 1998; Santos e Gomes, 2000)
ou sobre as oportunidades profissionais das mulheres no sector (Gomes, Lourenço e
Martinho, 2005). Outros estudos e documentos referem, embora por vezes com
perspetivas mais gerais, as entidades com atividade de edição (Gomes, Lourenço e
Martinho, 2006; Gomes e Martinho, 2009: 64-79). Os relatórios do Inquérito ao Sector
do Livro, realizado entre 2007 e 2009 foram entretanto publicados (Neves, Santos,
Lima, Vaz e Cameira, 2012; Neves, Santos e Vaz, 2012). E, ainda no âmbito do OAC,
foram disponibilizadas séries estatísticas sobre as empresas da edição e
comercialização com dados do Instituto Nacional de Estatística (Neves e Santos, 2010)
e sobre a edição com base na informação do sistema do Depósito Legal (Neves, Santos
e Lima, 2012).
Promovido pela APEL, foi realizado recentemente um estudo sobre a dimensão do
mercado da cópia ilegal com incidência no sistema de ensino (Dionísio e Leal, 2012).
31
Entre os modelos que permitem enquadrar uma abordagem do sector do livro pode
ser considerado o das indústrias culturais que, embora heterogéneas, Maria de
Lourdes Lima dos Santos define como aquelas atividades industriais que integram
trabalho cultural ou artístico diretamente nos seus produtos (Santos, 1999). Françoise
Benhamou (1996), Nicholas Garnham (2005) ou Gisèle Sapiro (2005) são autores que
elucidam de que modo bens culturais como o disco, o filme ou o livro, pelas
peculiaridades dos respetivos conteúdos, estão na base da constituição de um campo
distinto de análise económica que chega à definição daquelas indústrias de acordo,
grosso modo, com cinco critérios, a saber: reprodutibilidade (a partir de um protótipo
reproduzido ou difundido a uma escala massificada); incerteza (no sentido em que os
produtores, neste caso editores de livros, têm dificuldade em prever a procura do bem
produzido; desenvolvem-se estratégias para captar a atenção do consumidor);
concentração (no fundo, sejam elas horizontais ou verticais, trata-se de estratégias
cujo intuito é minorar a incerteza do mercado e conquistar ou reforçar aí a posição da
empresa, resultando na criação de economias de escala); risco económico (dada a
imprevisibilidade da procura, os investimentos iniciais implicam um inevitável risco
económico, gerido à luz do seguinte princípio o sucesso de um best-seller pode
contudo colmatar as perdas derivadas de sucessivos fracassos editoriais); direitos (há
proteção autoral e de reprodução, isto é, existem leis criadas para salvaguardar a
propriedade intelectual e os conteúdos criativos).
Outro modelo articula as artes, as indústrias culturais e as criativas, nas quais os
direitos de propriedade intelectual são centrais (Garnham, 2005) e a que dois estudos
recentes deram grande notoriedade, um à escala europeia, o outro em Portugal: o
relatório KEA para a Comissão Europeia (AAVV, 2006) generalizou a noção de sector
cultural e criativo que inclui, para além do núcleo central das artes e o círculo das
indústrias culturais (sector cultural), o círculo das atividades e indústrias criativas e o
das indústrias com aquele relacionadas (que conformam o sector criativo), e atribuiu,
possivelmente, uma visibilidade sem precedentes ao valor económico das atividades
consideradas como culturais e criativas; e o relatório coordenado por Augusto Mateus
para o Ministério da Cultura sobre o sector cultural e criativo em Portugal (Mateus,
Primitivo, Caetano, Barbado e Cabral, 2010). Para além destes dois estudos, que
definem o sector a partir das atividades consideradas e quantificam o seu peso
económico, haverá que referir ainda o trabalho que vem sendo realizado na União
Europeia desde meados da última década do século passado sobre estatísticas
culturais (Neves, 2008; Deroin, 2011), mais proximamente realizado no quadro da
ESSnet-Culture (2009-2011) e que culminou com a publicação do relatório final em
2012 no qual se estabelece uma nova grelha de atividades culturais e criativas (Bina,
Chantepie, Deroin, Frank, Kommel, Kotynek e Robin, 2012). Em concreto, a
importância deste último relatório reside na possibilidade de a referida grelha vir a ser
adotada nas estatísticas oficiais dos estados membros, como aliás é já o caso de
Portugal.
32
Fontes estatísticas primárias sobre o sector do livro
No plano internacional importa referir os esforços realizados pela UNESCO desde a
aprovação em 1964 de uma resolução com recomendações sobre a normalização
internacional das estatísticas relativas à edição de livros e publicações periódicas
(Unesco, 1965). Com o intuito de fornecer informação normalizada acerca das diversas
facetas da produção e distribuição de publicações impressas, adverte para a
necessidade de cada Estado Membro pôr em prática um conjunto de princípios no que
diz respeito a definições, classificações e apresentação de dados estatísticos relativos a
livros, periódicos e revistas. Uma nova proposta para a recolha de estatísticas
internacionais do livro foi recentemente difundida pela UNESCO, embora nela se
destaque a dificuldade de serem estabelecidos padrões a este nível (Wischenbart e
Ehling, 2009).
De acordo com uma abordagem comparada internacional são quatro as fontes a que
mais frequentemente se recorre para caracterizar o sector do lado da oferta: as
estatísticas oficiais produzidas pelos institutos nacionais de estatística por via de vários
projetos, o Depósito Legal (DL), o International Standard Book Number (ISBN) e os
inquéritos de sector (branch survey, barómetros ou estudos de mercado) (Neves,
Santos, Lima, Vaz e Cameira, 2012).
No quadro da União Europeia, três projetos de produção de informação estatística
adquirem atualmente especial relevância para este sector, uma vez que resultam de
um esforço do EUROSTAT no sentido da uniformização (ou harmonização) de critérios
na recolha de dados pelos institutos nacionais de estatística. São os projetos
relacionados com as empresas (Structural Business Statistics), o emprego (Labour
Force Survey) e o comércio internacional (Comext), para os quais é possível, em cada
país e no conjunto dos países da UE, extrair informação sobre o sector do livro,
naturalmente comparável entre eles (Beck-Domzalska, 2007: 78-85 e 178-182).
Por seu turno, o Depósito Legal (DL) consiste na obrigação
11
de os editores e/ou
produtores de qualquer tipo de documento depositarem numa instituição nacional
designada para o efeito um ou mais exemplares para uso público. Ao longo da história
do DL os requisitos têm evoluído sobretudo no que diz respeito aos suportes e tipos
de publicações abrangidos, para além do livro impresso, como por exemplo materiais
não livro, materiais audiovisuais e publicações eletrónicas (Campos, 2005: 2-3). Na
maioria dos países a legislação consigna à respetiva biblioteca nacional a
responsabilidade pela acessibilidade, divulgação e preservação da coleção nacional. O
DL tem vindo a ser utilizado como uma fonte na produção de informação estatística
sobre o acervo bibliográfico editado (Schroeder e Steenkist, 2005: 7).
Em Portugal o Depósito Legal está regulamentado pelo Decreto-Lei nº 74/82, de 3 de
Março, e pelo Decreto-Lei nº 362/86, de 28 de outubro. É uma atribuição da Biblioteca
Nacional. Tem como objetivos a constituição, conservação, produção e divulgação de
11
Com exceções. Na Holanda, o Depósito Legal não é obrigatório (Schroeder e Steenkist, 2005: 8).
33
uma coleção bibliográfica nacional com todas as publicações editadas no país. A
referida coleção inclui monografias, publicações periódicas, teses de mestrado e
doutoramento e produtos semelhantes.
Quanto ao ISBN, é um sistema numérico que visa normalizar, generalizar e melhor
identificar livros e produtos semelhantes (folhetos impressos, publicações multimédia
e eletrónicas) em qualquer parte do mundo. Criado nos anos 70 em Inglaterra, o ISBN
é regulado pela International ISBN Agency que coordena a atividade das agências
nacionais. O ISBN vigora em cerca de 160 países (Pimentel, 2007: 231). Na
generalidade dos países não é obrigatório por lei, pelo que a
participação/comunicação das editoras às agências nacionais de ISBN é voluntária.
Refere-se a expetativas de edição e não necessariamente a publicações como no DL.
Constitui, em alguns países, como é o caso de Espanha em que é obrigatório, uma
fonte relevante para as estatísticas do sector.
Relativamente aos inquéritos ao sector a quarta e última fonte de informação
estatística aqui considerada saliente-se antes de mais a sua heterogeneidade, pelo
que têm dificuldades comparativas tanto no plano nacional como transnacional. São
diversos os propósitos (caracterização do sector, aprofundamento de um
determinando segmento), as perspetivas adotadas (estudos económicos, de mercado,
sociológicos, etc.) e a regularidade com que são realizados. Fornecem geralmente
dados detalhados do mercado (financeiros, físicos, informações sobre mercado
nacional/exterior, bens, categorias editoriais, consumos e direitos de autor e de
propriedade intelectual) e das editoras e, eventualmente, de empresas de outras
atividades como a distribuição e o retalho. São promovidos por instituições
diferenciadas, quer públicas quer privadas, neste último caso em particular pelas
organizações profissionais do sector, em parceria, isoladamente ou com o apoio da
tutela da Cultura, situação mais comum.
Do conjunto de fontes consideradas ressalta com clareza a proximidade, embora não
sobreposição, entre Depósito Legal e ISBN (Schroeder e Steenkist, 2005: 31-32). Mas
da análise das vantagens e limitações respetivas resulta igualmente a sua
complementaridade, pelo que devem ser consideradas num sistema de informação
sobre o sector (Neves, Santos, Lima, Vaz e Cameira, 2012).
Informação estatística sobre a oferta de livros em Portugal
Parte relevante da informação estatística é de caráter económico. Nos anos oitenta
foram produzidos dois relatórios para a tutela da cultura em Portugal: o Estudo dos
Aspectos Económicos da Edição em Portugal (Varela e Ramos, 1984) e o Relatório da
Comissão do Livro (Moura, Cabral, Guedes e Furtado, 1986). O primeiro debruçou-se
sobre o mercado do livro, as empresas do sector e o papel do então Instituto
Português do Livro (IPL) e tinha por objetivos: a caracterização da estrutura
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empresarial do sector e a identificação dos principais indicadores económicos; a
análise do mercado do livro, com incidência na procura interna e externa na oferta
nacional; a análise das políticas de marketing-mix e de produção; a identificação das
características organizacionais das empresas e dos mecanismos económicos; um
contributo para uma avaliação das ações já desencadeadas pelo IPL; um esboço de
diagnóstico do sector, o qual se desdobrava em diversos planos. Por sua vez, o
Relatório da Comissão do Livro retoma o diagnóstico e as propostas feitas no
anteriormente referido sobre o papel da tutela e centra-se nas políticas culturais para
as quais propõe 105 medidas (Moura, Cabral, Guedes e Furtado, 1986).
No início da década de noventa um outro estudo, igualmente realizado para a tutela
do sector (então Instituto Português do Livro e da Leitura, IPLL) incidiu no Mercado do
Livro em Portugal e abordou tanto a oferta como a procura (Gaspar e outros, 1990;
Gaspar e outros, 1992).
Estes estudos constituem contributos relevantes à altura da sua realização, mostram
as dificuldades que a abordagem estatística enfrenta, sugerem aspetos metodológicos
e permitem traçar a evolução do sector em Portugal em alguns planos. Mas,
paralelamente, mostram também que não se avançou significativamente na
implementação, ou sequer na definição, de um sistema de informação capaz de dar
conta da evolução do sector nos seus principais contornos, de uma forma permanente,
adequada e continuada. A suspensão, não retomada, do inquérito anual realizado e
difundido pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL)
12
(últimos dados
sobre 1999) é outro elemento que evidencia as lacunas de informação existentes.
Especificamente quanto às estatísticas nacionais, oficiais, sobre o livro, nas últimas
décadas identificam-se duas grandes fases na informação reunida e disponibilizada na
publicação anual do INE dedicada à cultura. Na primeira o INE difundiu parte dos
dados produzidos pela APEL com base em inquérito estatístico iniciado em meados da
década de oitenta do século passado (e não apenas dos seus membros, como até
então) e vai até 1998. A segunda decorre desde 1999, ano em que passou a publicar
dados provenientes do seu Inquérito às Empresas (a partir de 2004 Sistema de Contas
Integradas das Empresas), desde 2009 agrupados nas atividades culturais e criativas
(INE, 2010) de acordo com o trabalho então em curso no âmbito da ESSnet-Culture
atrás referida.
Os dados do INE incidem sobre um conjunto relevante, embora limitado, de dimensões
económicas. Essa constatação motivou a realização em simultâneo de inquéritos às
empresas de edição e às de comercialização de livros em 2008, os quais, como de resto
outros inquéritos antes realizados, registaram baixas taxas de resposta, mas
permitiram avançar dados mais detalhados sobre o sector em múltiplas dimensões
(Neves, Santos e Vaz, 2012), parte dos quais serão retomados adiante
13
. O inquérito,
12
Sobre os inquéritos aos editores e às livrarias da APEL ver Neves, Santos, Lima, Vaz e Cameira (2012).
13
Sobre o processo que conduziu à realização do Inquérito, seus objetivos e contexto em que foi
concretizado ver a Introdução em Neves, Santos, Lima, Vaz e Cameira, (2012: 17-25). Sobre a
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tal como de resto o estudo em que se insere, coincidiu no tempo com alterações
significativas no sector entre as quais se destaca, após uma fase de concentração ao
nível do comércio, o desencadeamento de novos e poderosos processos de integração
horizontal ao nível editorial e a entrada do capital financeiro nesta área, processos em
que a criação do grupo Leya teve um papel preponderante. Entre 2007 e 2010
verificou-se a concentração em grandes grupos editoriais como a Porto Editora e a
Babel, para além da Leya (Beja, 2012: 106-110).
A edição
Antes de passar à apresentação de um conjunto de informação estatística convém ter
presente que a atividade de edição de livros não obedece a qualquer regulamentação
específica. Por outras palavras, é editor quem quer ou se reivindica de tal condição. No
ISBN basta declarar-se como editor. No DL, cujo registo é comummente feito pelas
tipografias, basta que uma dada entidade, ou indivíduo, se assuma como editora de
um determinado título. As empresas comerciais têm de registar a atividade económica
principal e as secundárias de acordo com a nomenclatura das atividades económicas
em vigor no ato de constituição. Repare-se que o INE considera as editoras de livros de
acordo com a nomenclatura das atividades económicas e como atividade principal.
Entidades que editam livros
O sistema ISBN reporta-se a entidades muito diversas desde autores/editores até às
empresas, passando por organismos da administração pública central e local o que
tem a vantagem de mostrar com clareza que esta atividade não se limita às empresas
cuja atividade principal é a edição de livros (as consideradas nas estatísticas oficiais),
antes pelo contrário. Isso mesmo fica patente no Inquérito ao Sector do Livro uma vez
que na listagem de 9.939 entidades com prefixo ISBN de editor atribuídos no período
1988/2007, 9% são consideradas autores-editores, ou seja, solicitaram um único
prefixo (Neves, Santos, Lima, Vaz e Cameira, 2012: 75).
metodologia seguida ver Neves, Santos e Vaz (2012: 15-42). A este propósito deixam-se aqui as
principais coordenadas: os questionários foram aplicados pela equipa do OAC por via postal em 2008; o
ano de referência dos dados é 2007; foram inquiridas empresas de edição de livros como atividade
principal (294) e com outra atividade principal (82); e empresas do comércio a retalho de livros (323); as
taxas de resposta foram, respetivamente, 17%, 21% e 16%. O questionário às empresas do comércio a
retalho de livros incluiu um módulo sobre os estabelecimentos.
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Indicadores das empresas da edição
Quanto ao subuniverso das entidades editoras formado pelas empresas com atividade
principal de edição de livros estão disponíveis vários indicadores
14
. Faz-se aqui
referência a três deles. O primeiro remete para o total de empresas cujo número tem
vindo a crescer e é de 451 em 2010 quando, em 2007, era 429. O pessoal ao serviço
mostra uma tendência contrária, de queda, dado que o seu número passou de 2.840
em 2007 para 2.541 em 2010. O terceiro indicador reporta-se ao volume de faturação.
Deste ponto de vista, embora se tenha verificado em 2008 um pico significativo, mas
     -se, de criação da Leya, e de uma maneira
geral, de continuação do processo de concentração em grandes grupos editoriais
iniciado no ano anterior), o valor registado em 2010    está próximo
dos resultados verificados no conjunto dos anos mais recentes.
De um modo mais detalhado pode-se dizer que predominam as pequenas e muito
pequenas empresas em número de pessoal ao serviço (até 10) que têm vindo a
aumentar e representam 91% em 2010. O grosso das empresas está localizado nas
regiões de Lisboa e Norte (63% e 23%, respetivamente, em 2010, o que significa que
nestas duas regiões se localizam 86%), sendo que, numa perspetiva mais geral, é visível
o aumento das empresas localizadas no Norte concomitantemente com a diminuição
das situadas em Lisboa. A mesma estrutura e a mesma tendência se verifica quanto à
distribuição do volume de negócios, mas neste indicador a diferença entre as duas
regiões diminui bastante e é de 57% contra 38% (Lisboa e Norte, respetivamente, em
2010), valores que, somados, representam 96% do total nacional.
Títulos editados e exemplares produzidos
De acordo com os títulos registados no âmbito do Depósito Legal que constitui uma
aproximação possível ao panorama editorial português constata-se um padrão
ascendente de 2000 para 2010 (Neves, Santos e Lima, 2012: 56). O crescimento é,
aliás, expressivo, uma vez que os títulos registados passam de 14.066 em 2000 para
17.203 em 2010, o que significa portanto uma variação de 3.137 títulos (gráfico 1).
Tomando por base 2010 chega-se ao número significativo de 44 depósitos em média
por dia.
14
Sobre as empresas da edição e da comercialização de livros utilizam-se três referências como fontes
complementares, para o período 2000-2010: o Inquérito ao Sector do Livro no que toca ao levantamento
e crítica dos indicadores (Neves, Santos, Lima, Vaz e Cameira, 2012); uma atualização dos indicadores
que inclui séries para 2000-2007 e notas sobre os métodos utilizados nesse período pelo INE (Neves e
Santos, 2010); e o volume Estatísticas da Cultura 2010 (INE, 2011) com dados de 2007 a 2010 para
alguns indicadores. Uma vez que esta série segue o mesmo método (fonte Sistema de Contas Integradas
das Empresas e CAE Rev 3) e os dados anuais são comparáveis será a aqui utilizada.
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Gráfico 1
Títulos depositados ao abrigo do DL por ano (2000-2010) número
Fonte: Neves, Lima e Santos (2012: 56), a partir de BNP.
Os títulos em língua portuguesa original, portanto que não resultam de traduções, são
claramente maioritários e representam entre 69% e 75% no período 2000-2009.
Embora as oscilações anuais sejam notórias é patente que nos anos mais próximos se
verifica um aumento percentual das obras traduzidas para português (quadro 1).
Quadro 1
Títulos em português por língua original e por ano (2000-2010) número
Ano
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008