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Temas de debate público e primeiras páginas dos jornais diários brasileiros

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Artigo
Temas de debate público e primeiras páginas dos jornais diários brasileiros
Comunicação&política, v.27, nº3, p.043-072
1. Introdução
Para este texto são apropriados os conceitos de hard news e
soft news, segundo o que foi apresentado em 1978 por Gaye
Tuchman em estudos sobre os espaços destinados à temática
mulher no jornalismo norte-americano. De acordo com a defini-
ção de Tuchman, o primeiro tipo corresponderia às notícias des-
providas de subjetividade, fornecendo informações básicas e
inegáveis de um acontecimento normalmente relacionado a um
** Professor do Departamento de Comunicação e do
Mestrado Interdisciplinar em Ciências Sociais Aplicadas da
Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG.
Doutor em Ciência Política pelo IUPERJ.
*** Graduanda em Comunicação Social da UEPG.
**** Graduanda em Comunicação Social da UEPG.
Temas de debate público e
primeiras páginas dos jornais
diários brasileiros*
Emerson Urizzi Cervi**
Camila Montagner Fama***
Isadora Ortiz de Camargo****
*Versão preliminar deste texto foi apresentada na XI Seminário de Inverno de Estudos em Comunica-
ção da Universidade Estadual de Ponta Grossa - UEPG, em junho de 2008.
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tema de relevância para o debate público, como política, econo-
mia, segurança, conflitos internacionais etc. Já o segundo tipo de
construção das notícias (soft news) é mais focado em temas de me-
nor relevância social, como variedades, esportes, celebridades e
outros de caráter mais privado. No último caso o jornalista pode
apresentar no texto suas observações subjetivas, em formatos mais
livres. Neste trabalho convencionamos a temática de variedades
sobre cultura, esportes, moda e vida das celebridades como soft
news. Assuntos relacionados à política, em especial à organização
dos partidos políticos e candidatos à disputa eleitoral, como hard
news. A opção justifica-se pelo fato de que o período de análise co-
incide com um ano em que não existem campanhas eleitorais no
País, mas as lideranças e partidos políticos estavam se preparando
para as disputas municipais de 2008. Pretende-se analisar, com isso,
em primeiro lugar, que tipo de notícia ganha mais destaque nas
capas dos jornais em forma de chamada de primeira página duran-
te a campanha política, se soft ou hard news; ou seja, temas de vari-
edades e cultura ou de política partidário-eleitoral. Feito isso,
pretende-se verificar que assuntos ganham o espaço mais nobre da
capa de um periódico diário, que é a manchete da edição. Esse du-
plo objetivo será tratado, ainda, a partir de um estudo comparati-
vo entre jornais de circulação local, regional e nacional para
verificação de possíveis diferenças entre os padrões de produção
das primeiras páginas.
Busca-se entender se os veículos de comunicação optam por dar
visibilidade a temas mais ‘leves’ e sobre assuntos menos relevantes
do ponto de vista social, favorecendo o aspecto comercial do ‘negó-
cio’ jornalismo ou se eles dão maior visibilidade a temas de rele-
vância para o debate público, ainda que apresentem menor ‘apelo
comercial’, como assuntos relacionados às disputas eleitorais. O
foco do estudo encontra-se nas relações entre a busca por visibili-
dade pública, interesses comerciais da mídia e critérios de
noticiabilidade em seis jornais diários brasileiros com diferentes
áreas de abrangência: Diário dos Campos e Jornal da Manhã, com
circulação local no município de Ponta Grossa (Centro-Sul do
Paraná); Gazeta do Povo e Folha de Londrina, com circulação no Esta-
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do do Paraná; e Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, que circu-
lam em todo o país.
O espaço em que os temas são expostos ao público de maneira
privilegiada, e assim ganham visibilidade, é a primeira página. Trata-
se de um objeto fundamental para o estudo dos critérios de
noticiabilidade por permitir visualizar que temas públicos são con-
siderados mais importantes pelos produtores dos jornais. De acor-
do com Wolf (2003), é durante o processo de seleção do que será
notícia, aliado ao grau de importância dos acontecimentos, que sur-
gem tipologias como as hard e soft news. Segundo Tuchman (1978),
as hard news abrangem o conjunto de notícias mais recentes, factuais
e de cunho social, que respeitam a dimensão dos acontecimentos.
Já as soft news referem-se a ocorrências menos relevantes, nas quais
o jornalista teria uma maior liberdade na narrativa dos fatos.
No processo de seleção dos acontecimentos, vários autores des-
tacam o caráter comercial como um fator determinante para a apa-
rição das soft news. Assim, as primeiras páginas acabam por se
transformar em um território de disputa por visibilidade de temas
de interesse para o debate público ou de interesse comercial para a
empresa jornalística. A hipótese inicial do trabalho é que as soft
têm maior visibilidade, devido à característica comercial da mídia
e do interesse crescente, conforme estabelece Humanes (2006), pelo
entretenimento no jornalismo. Isso se daria de maneira generaliza-
da, independente da área de circulação do jornal, visto que os pe-
quenos periódicos sofrem influência decisiva dos diários de
circulação nacional. Para testar essa hipótese, estuda-se a presença
do tema pré-campanha eleitoral nas primeiras páginas.
Partindo da busca de informações pela população, muitas vezes
estimulada pelos próprios meios de comunicação, profissionais do
jornalismo moldam as primeiras páginas dos jornais com base no
interesse potencial do público. Nesse sentido, é relevante traçar
um panorama da disputa pela primeira página entre as chamadas
referentes a temas classificados como de variedades e as chamadas
sobre política partidária. A preferência por um ou outro tipo de
notícia para as chamadas de primeira página é essencial para quali-
ficar o papel dos jornais no debate público sobre temas socialmen-
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te relevantes ou se, de maneira oposta, os veículos de comunicação
optam por dar visibilidade a temas mais ‘leves’ e menos relevantes
do ponto de vista social. Isso importa porque nas complexas socie-
dades contemporâneas, os meios de comunicação de massa têm o
importante papel de oferecer o insumo fundamental para a infor-
mação e consequente debate público.
Assim, é através dos espaços cedidos na mídia que assuntos são
pautados e podem gerar discussões na sociedade, o que significa
ser um campo privilegiado de identificação dos temas que vão com-
por a esfera pública. Luis Felipe Miguel (2002) ressalta que os mei-
os de comunicação são uma esfera de representação política já que:
“A mídia é, nas sociedades contemporâneas, o principal instrumento
de difusão das visões de mundo e dos projetos políticos; dito de
outra forma, é o local em que estão expostas as diversas representa-
ções do mundo social, associadas aos diversos grupos e interesses
presentes na sociedade” (MIGUEL, 2002, p. 6).
No entanto, deve-se considerar que os meios de comunicação
possuem diferentes espaços de visibilidade. A retratação da reali-
dade nestes espaços é o que estabelece uma hierarquia de temas
oferecidos pelos jornalistas à esfera pública. Dentre os espaços no
jornalismo impresso, destacam-se as manchetes das edições diárias
por sua dupla representação. De um lado, identificam os temas
que vão ganhar maior evidência e terão maior chance de entrar no
debate travado na esfera pública. Por outro, em função da impor-
tância social dada às manchetes do dia, elas servem como indica-
dor dos critérios de seleção jornalísticos no momento em que são
elencados temas sociais que farão parte da cobertura diária em es-
paços com elevado grau de destaque nos jornais.
Entendendo a força que os meios de comunicação e as caracte-
rísticas intrínsecas que as manchetes dos jornais têm na sociedade
contemporânea, cabe perguntar: que assuntos ganham destaque
nas primeiras páginas dos jornais? É possível identificar uma ten-
dência mais comercial ou de prestação de serviço ao debate públi-
co de fato pelos diários a partir de suas primeiras páginas? E, ainda,
podem-se identificar similaridades ou diferenças de temas apresen-
tados nas capas de jornais de circulação local, regional ou nacional?
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Para Mário Erbolato, “as três maiores vantagens dos jornais so-
bre o rádio e a televisão são: tempo, espaço e durabilidade”
(ERBOLATO, 1985, p.37). Ele explica que o leitor é quem decide
quando vai ler o jornal, e não é o meio de comunicação que deter-
minará a hora que as notícias serão transmitidas. Quanto ao espa-
ço, Erbolato afirma que não são apenas dados boletins aos leitores,
mas notícias com mais profundidade e extensão. Já com relação a
durabilidade ele refere-se a disponibilidade que a notícia tem no
papel jornal, assim sendo “a notícia impressa está ao nosso dispor
enquanto o jornal não for rasgado, queimado, ou jogado fora”
(ERBOLATO, 1985, p.37). A questão é saber se os meios impressos
reservam às manchetes temas de maior relevância e se há diferen-
ças significativas nos critérios de seleção para as manchetes entre
jornais com distintas abrangências.
Como diariamente acontecem diversos fatos sociais que podem
vir a ser reportados pelos meios de comunicação faz-se necessária a
seleção daquilo que será ou não notícia. Para tanto, pesquisadores
realizaram pesquisas para indicar quais são os critérios que os jor-
nalistas utilizam para decidir o que será noticiável. Mauro Wolf
explica que esses critérios definem a “relevância de cada aconteci-
mento para ser transformado em notícia” (WOLF, 2006, p.189).
Ele ainda coloca que “a noticiabilidade está estreitamente relacio-
nada com os processos de rotinização das práticas produtivas”
(WOLF, 2006, p.190). Assim, o “conjunto de critérios tomados
como referência no meio jornalístico para elaboração dos noticiári-
os e que permitem a seleção rápida e rotineira dos fatos que serão
notícia” são chamados de valores-notícia (MONTEIRO, 2006, p.
154). É a partir destes valores-notícia que os acontecimentos são
selecionados e enquadrados nas páginas dos jornais. Levando-se
em conta todos esses aspectos, deve-se dar atenção para as notícias
que recebem destaque na primeira página dos impressos, já que as
capas dos jornais tornam-se a vitrine do que o impresso está
publicizando e sua manchete é a chamada para a notícia de maior
destaque do dia.
Segundo Gaye Tuchman, “as primeiras páginas contém a infor-
mação geral ‘simplesmente objetiva’” (TUCHMAN, 1998, p.13).
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Em outras palavras, depois de passar por todos os ‘filtros’ das roti-
nas produtivas e valores-notícia falta decidir que temas sociais en-
trarão na primeira página e, destes, qual ganhará o status de principal
notícia do dia ao ser elevado à condição de manchete do jornal.
Para Deodoro José Moreira, “é a primeira página que atrai ou
não o leitor. Sua decisão de ler depende do grau de atratividade da
capa” (MOREIRA, 2004, p.31), o que acrescenta aos critérios de
seleção dos jornalistas o elemento do ‘apelo comercial’ para garan-
tir a manutenção dos índices de leitura e circulação dos veículos
impressos. Assim, o leitor, ao visualizar os periódicos terá acesso
primeiramente às capas e nelas “a manchete é essencial em uma
edição” (MOREIRA, 2004, p. 33). Porém, devido a possíveis dis-
tinções entre linhas editoriais, nem sempre jornais de mesma
abrangência têm manchetes com os mesmos temas. Isso acontece
porque para que um assunto ganhe visibilidade é necessário que
ele seja aceito como detentor de tal importância. No mesmo senti-
do, Bezerra explica que “para construir uma edição diária é preciso
fazer escolhas e estas são feitas segundos critérios das editorias que
certamente, obedecem a critérios instituídos pelo jornal” (BEZER-
RA, 2006, p.12).1 Para analisar os temas que ganham espaço nas
primeiras páginas e, em especial, nas manchetes, o texto que segue
divide-se em três partes. Na próxima são apresentadas as princi-
pais discussões sobre o papel das manchetes nos diários contempo-
râneos. Segue-se a metodologia de pesquisa e principais resultados
para os seis jornais analisados. Por fim, são feitas algumas conclu-
sões a respeito dos temas que ganham destaque nas primeiras pági-
nas dos jornais.
1Referindo-se às manchetes como um dos cinco lugares narrativos do jornal, que são definidos
por espaços nos quais encontram-se fragmentos da realidade selecionados e publicados nas pági-
nas dos jornais que “possuem um sentido de todo para os atores e espectadores daquele evento”.
As manchetes promovem um jogo de esconde-esconde porque, ao colocar em destaques com
letras grandes e no alto da primeira página algum assunto, o jornal está hierarquizando as notí-
cias. Assim, “as manchetes são entendidas como as chaves mestras que abrem a página do jor-
nal” (BEZERRA, 2006, p.15).
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2. Discussão teórica sobre o papel da primeira página
A mídia, enquanto espaço de visibilidade pública, exerce por meio
de seus profissionais o papel de selecionador dos temas que julga
importantes para serem noticiados. Dessa forma, apenas uma par-
cela da realidade é transmitida para o público pelos meios de co-
municação. Sujeita à seleção pelos critérios do que é noticiável, a
política é um exemplo de tema que necessita dos meios de comuni-
cação para ganhar visibilidade na sociedade contemporânea, não
só pelo interesse de seus atores políticos, mas também como parte
do conjunto de informações necessárias ao fortalecimento do de-
bate público. Para Gomes, há uma tensão e disputa entre os atuan-
tes do campo jornalístico e do político na produção da imagem
política, sendo que o primeiro tem vantagem por controlar a esfera
da visibilidade pública (GOMES, 2004). Por sua vez, a ideia de
empresa, definida por Gomes como uma das estruturas que coexis-
tem diante da “diversidade interna do universo do jornalismo”,
também age de forma a modificar os critérios que tornam alguns
assuntos mais visíveis do que outros nos jornais. Um exemplo é a
possibilidade de atenção maior ou menor a notícias que envolvem
variedades, cultura e entretenimento na primeira página dos peri-
ódicos, em detrimento de temas como política. Segundo Mauro
Wolf (2003), o produto informativo é resultado de uma série de
negociações que definem o que deve ser inserido no jornal e como
fazê-lo. Entre essas negociações, a percepção da mídia como em-
presa, que possui interesses comerciais e visa atingir a determina-
do público, pode trazer influências para o processo de produção da
informação.
Diante dessas diferentes abordagens, pode-se considerar que o
espaço em que as notícias são expostas ao público de maneira pri-
vilegiada, e assim ganham visibilidade, é a primeira página. De
acordo com Wolf (2003), é durante o processo de seleção do que
será notícia, aliado ao grau de importância dos acontecimentos,
que surgem tipologias como as hard e soft news. A distinção entre
soft e hard news perpassa ainda estudos sobre as dimensões da notí-
cia. Para Carlos Eduardo Franciscato, a notícia é um objeto de aná-
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lise único e que possui suas especificidades. Assim, deve ser consi-
derada composta por duas dimensões que se complementam: a da
informação e a da narrativa. Ligadas às hard news, notícias informa-
tivas teriam a capacidade de organizar a realidade, reportando-a de
maneira mais fidedigna possível (FRANCISCATO, 2002). Já as
notícias com dimensão narrativa são mais próximas das soft news.
Segundo Afonso Albuquerque, embora torne o fato social melhor
compreendido pelo público, o formato da narrativa tende a ser
identificado, também, como uma traição aos princípios da objeti-
vidade jornalística (ALBUQUERQUE, 2000).
No processo de seleção dos acontecimentos, diferentes autores
destacam o caráter comercial como um fator determinante para a
aparição das soft news. A pesquisadora Maria Luísa Humanes (2006)
acredita que a caracterização da mídia como uma empresa comercial
influencia no predomínio de um “jornalismo rosa”, com notícias
voltadas ao entretenimento, ou relacionadas ao tema das chamadas
variedades. Nessa mesma linha, Nord (2006) afirma que a
comercialização do sistema de produção de notícias tem levado um
crescimento das informações com pouco conteúdo informativo, além
de favorecer a produção de noticiários mais baratos (NORD, 2006).
Diante da influência de fatores comerciais, a existência de um ‘va-
lor-notícia’ exclusivamente jornalístico, conforme conceito de Galtung
e Rugi (1965), parece ficar em segundo plano. Na verdade, o que se
deve perceber é que, à lista dos fatores que tornam alguns temas
mais noticiáveis que outros, acrescentam-se a percepção de quais deles
auxiliam os interesses comerciais da mídia. Dessa forma, os estudos
de Galtung e Rugi (1965) tornam-se relevantes. Utilizando a
metodologia de análise quantitativa em quatro jornais noruegueses,
esses autores elencaram doze valores presentes nos acontecimentos,
capazes de influenciar a seleção dos fatos sociais. Revisados em 2001
por Harcup e O’Neill2, eles passaram a incluir a variável “entreteni-
mento” como valor-notícia nos temas selecionados pelos jornalistas.
2De acordo com revisão de Harcup e O’Neill, podemos citar 12 “valores-notícia”: poder de elite,
celebridade, entretenimento, surpresa, fatos negativos, fatos positivos, magnitude, relevância,
continuidade ou sequência e agenda da mídia.
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Adotando os conceitos de Harcup e O’Neill, há uma forte possibi-
lidade das soft news terem maior visibilidade na primeira página
nos jornais. O mesmo ocorre em relação a autores que entendem
os jornais como uma empresa na qual a decisão sobre o que é notí-
cia é influenciada por fortes interesses comerciais. Nesse caso, dar
maior atenção a temas como ‘variedades’ seria uma das formas de
alcançar os resultados comerciais desejados. Por outro lado, como
hard news têm importante impacto no debate sobre temas públi-
cos, os assuntos políticos – em especial no que refere às disputas
pré-eleitorais –, por seu caráter de relevância e factualidade, garan-
tem uma ampla oferta de notícias aos produtores.
Com isso, a primeira página acaba sendo um território por na-
tureza da disputa por visibilidade. O que se busca neste trabalho é
identificar qual dos dois tipos de notícias – soft ou hard news – tem
a preferência dos produtores na seleção dos assuntos que vão para
a capa dos jornais. A hipótese inicial é que as soft têm maior visibi-
lidade, devido à característica comercial da mídia e do interesse
crescente, conforme estabelece Humanes, pelo entretenimento no
jornalismo. Para testar essa hipótese, verifica-se a presença do tema
pré-campanha eleitoral nas primeiras páginas.
Observando a importância das manchetes na primeira página
dos jornais, o grupo de pesquisa Mídia e Política da Universidade
Estadual de Ponta Grossa – UEPG coletou informações a respeito
das primeiras páginas dos jornais diários de abrangências diferen-
tes, de agosto a outubro de 2007, para retratar que temas transfor-
mam-se em manchete nesses jornais. Para tanto foi utilizada a
metodologia de pesquisa de análise de conteúdo. Wilson Corrêa
da Fonseca relata que “a análise de conteúdo (AC), em concepção
ampla, se refere a um método das ciências humanas e sociais desti-
nado à investigação de fenômenos simbólicos por meio de várias
técnicas de pesquisa” (FONSECA, 2005, p. 280). Ela leva em consi-
deração a coleta quantitativa de dados ao mesmo tempo em que
permite a análise qualitativa.
A escolha dos jornais locais (Diário dos Campos e Jornal da Ma-
nhã) se deu a partir do pressuposto que eles são os periódicos com
maior veiculação na cidade de Ponta Grossa, sede do grupo de pes-
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quisa. Além do fato de o Diário dos Campos ser o impresso mais
antigo do município e o Jornal da Manhã ser um diário que recente-
mente passou por uma restauração de sua linha editorial. Ambos
têm circulação diária excetuando as segundas-feiras. A Gazeta do
Povo integra a análise por ser o jornal de veiculação diária, com
sede em Curitiba, de maior circulação na capital paranaense, além
de contar com uma linha editorial de abrangência regional. A Folha
de Londrina é um jornal de circulação regional, porém, com sede no
segundo maior município do Paraná e não na capital do Estado. Os
jornais Estado de São Paulo e Folha de São Paulo foram escolhidos por
serem periódicos de circulação nacional e diária. O primeiro existe
desde 1875, o que o torna o jornal mais antigo ainda em circulação.
O segundo, passou a ser o jornal mais vendido do país desde o
início dos anos 90. No próximo tópico é abordada a metodologia
utilizada para a pesquisa e análises empíricas a respeito dos dados
e os principais resultados.
3. Análise empírica
Dentre as variáveis incluídas neste trabalho encontram-se os temas
abordados pelos jornais em suas manchetes; que tipos de fontes
aparecem mais; a abrangência dos assuntos manchetados nos jor-
nais e os elementos selecionadores, que indicam a presença de de-
terminados valores-notícia, nas manchetes, tais como relevância do
tema, magnitude, presença de celebridade social, entre outros. Além
disso, para o restante das chamadas, são analisados os tipos de te-
mas que deram origem aos textos de primeira página. Para perce-
ber as diferenças na visibilidade das soft e hard news, tomando como
exemplos os grupos temáticos variedades e pré-disputa eleitoral
nas primeiras páginas dos jornais, utiliza-se a metodologia quanti-
tativa de análise de conteúdo. Esta técnica permite representar quan-
tidades, tipos, qualidades e distinções entre os jornais analisados
(BAUER; 2003). Segundo Herscovitz (2007), trata-se de um méto-
do capaz de comparar o conteúdo jornalístico de diversas mídias
em diferentes culturas, além de detectar tendências e modelos da
cobertura dos meios.
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Durante três meses3 – agosto a outubro de 2007 – pesquisadores
do grupo de pesquisa em Mídia e Política, da Universidade Estadual
de Ponta Grossa, coletaram dados quantitativos das primeiras pá-
ginas de seis jornais diários. Entre eles, estão os jornais ponta-
grossenses Diário dos Campos e Jornal da Manhã; os de circulação
regional Gazeta do Povo e Folha de Londrina, o primeiro com sede em
Curitiba e o segundo com sede em Londrina. Além dos jornais de
circulação nacional Folha de São Paulo e Estado de São Paulo. A esco-
lha por utilizar jornais de abrangências distintas permite análises
comparativas. Já a decisão por utilizar tais periódicos se justifica
pelo número de exemplares de cada um e o reconhecimento destes
nas respectivas áreas de atuação.
Dentre as variáveis utilizadas para análise, este trabalho dá des-
taque a quatro. A primeira, base para a condução da pesquisa e
distinção entre soft e hard, é o tema. Foram selecionados dois te-
mas: variedades e cultura, para representar as soft news; e política
partidária ou pré-eleitoral, representando as hard news. A segunda
variável, dia da semana, mostra as diferenças em relação à agenda
dos acontecimentos e as opções editoriais da mídia. Já a análise de
formato da chamada, área em cm2 e posição na página (se na pri-
meira ou segunda dobra) podem revelar qual dos temas tem, real-
mente, maior visibilidade – tanto em frequência quanto em
tamanho das chamadas – nas capas dos jornais. Por fim, as diferen-
tes áreas de abrangência dos acontecimentos transformados em
chamadas de primeira página formam a quarta variável. Pretende-
se verificar o comportamento dos jornais diante do leque de temas
e acontecimentos da região em que eles são representados.
Embora não seja capaz de revelar, sozinha, a real visibilidade
dos temas na primeira página, a observação da frequência de apari-
ções deles permite traçar um retrato inicial de como ocorre a co-
bertura dos jornais. Em relação aos dois temas descritos acima,
3Esse período não vale para o Jornal da Manhã, que em 2007 passou por profunda reformulação
gráfica e editorial, sendo apresentado como um novo jornal a partir de 1º de setembro de 2007.
Por este motivo os pesquisadores resolveram coletar informações apenas para os meses de se-
tembro e outubro para este jornal. Os demais jornais tiveram informações coletadas nos três
meses.
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foram coletadas 727 chamadas, sendo 627 de variedades/cultura e
100 de pré-disputa eleitoral e política partidária4. Isso representa
uma proporção de seis chamadas sobre variedades para cada chama-
da a respeito de política. Para saber se essa distribuição repete-se em
todos os jornais ou se há diferenças entre eles, a tabela 1 mostra as
frequências dos temas nos jornais. Em primeiro lugar, é preciso no-
tar que percentuais para cada um dos temas em análise não são
altos, o que significa que em todos os jornais o total de chamadas
em relação a eles varia de 6% a 12%, ficando entre 94% e 88% das
chamadas distribuídas entre outros assuntos no período.
4Isso não significa que os autores estejam reduzindo as chamadas de hard news às relacionadas à
política partidária e pré-eleitoral. Outros temas hard, como Economia e Violência, também ga-
nham espaço nas capas dos jornais, mas não são objeto de atenção neste trabalho.
Tab. 1 – Frequências das chamadas nas primeiras páginas
Jornal Pré-campanha e política partidária Cultura e variedades
Nº de chamadas % válido Nº de chamadas % válido
Diário dos Campos 14 1,5 48 5,2
Jornal da Manhã 15 2,2 70 10,4
Gazeta do Povo 41 2,4 180 10,7
Folha de Londrina 12 1,2 66 6,4
Folha de São Paulo 13 0,9 118 8,4
Estado de São Paulo 5 0,4 145 10,4
Média 16,66 1,43 104,5 8,58
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política da UEPG.
Os percentuais para a pré-campanha eleitoral e política partidá-
ria mostram que o tema teve pouca presença na primeira página,
com valores como 0,4% no Estado de São Paulo a 2,4% na Gazeta do
Povo. No caso de variedades, o menor percentual consta em 5,2%,
no Diário dos Campos, confirmando a predominância em aparições
para as soft news, em detrimento das hard news – o que é demons-
trando pelo percentual médio dos seis jornais, onde política parti-
dária e pré-campanha eleitoral representaram 1,43% do total, contra
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8,58% de variedades. O jornal em que os dois temas tiveram mais
destaque em frequência foi a Gazeta do Povo.
É importante perceber ainda a diferença existente para a temática
da pré-campanha eleitoral em relação à área de circulação dos jor-
nais. Como o período adotado para coleta é de agosto a outubro de
2007, temos um ano de antecedência para as eleições municipais,
momento em que começam a se delinear as primeiras parcerias
políticas para a disputa nas urnas. Nesse caso, os dados de apenas
0,9% na Folha de São Paulo e 0,4% no Estado de São Paulo, com circu-
lação nacionals, sobre a disputa política, mostram-se significativos,
pois indicam um maior afastamento da mídia em relação ao poder
político local. Isso se inverte quando se observa o número de cha-
madas de variedades/cultura na primeira página dos jornais. Os de
circulação local Diário dos Campos e Jornal da Manhã apresentam
percentuais inferiores do restante dos jornais, de abrangência regi-
onal e nacional. O maior índice é da Gazeta do Povo, com 10,7%.
Entretanto, para obter um panorama completo da visibilidade dos
temas, é preciso avançar nas análises. A tabela 2 mostra as diferen-
ças na cobertura dos temas em relação aos dias da semana, pois no
Brasil as tiragens dos jornais aos domingos chegam a ser quatro
vezes maiores que a média dos demais dias da semana. Para conhe-
cer a visibilidade de determinado tema é preciso identificar quanto
ele aparece aos domingos nas primeiras páginas dos jornais.
Por sua proximidade com entretenimento, as soft news frequen-
temente ocupam um espaço definido na produção jornalística: os
Tab. 2 – Distribuição das chamadas por temas e dia da semana
Jornal Pré-campanha e política partidária Cultura e variedades
Domingo Outro dia Domingo Outro dia
Diário dos Campos 4 (28,6) 10 (71,4) 21 (43,8) 27 (56,3)
Jornal da Manhã 5 (33,3) 10 (66,7) 25 (35,7) 45 (63,4)
Gazeta do Povo 4 (9,8) 37 (90,2) 36 (20) 144 (80)
Folha de Londrina 6 (50) 6 (50) 13 (19,7) 53 (80,3)
Folha de São Paulo 4 (30,8) 9 (69,2) 26 (22) 92 (78)
Estado de São Paulo 1 (20) 4 (80) 29 (20) 116 (80)
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política da UEPG.
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Artigo
Emerson Urizzi Cervi, Camila Montagner Fama e Isadora Ortiz de Camargo
cadernos de cultura. A escolha por analisar, assim, a diferença nos
números de aparições dos temas aos domingos dá-se pelo fato de
que é neste dia em que a maior parte de cadernos sobre o tema são
publicados. Na tabela acima, o exemplo mais facilmente observável
é o do Diário dos Campos. O dia em que variedades/cultura mais
aparece é o domingo, com 43,8%. Ou seja: de 48 chamadas, 21
foram publicadas aos domingos, contra 27 nos outros dias.
Já as hard news, devido ao baixo número de aparições, não tra-
zem grandes mudanças na cobertura. Na tabela acima, os dados
são bastante difusos. A Gazeta do Povo, que registrou 41 chamadas
sobre pré-campanha e política partidária, dedicou apenas 9,8% da
cobertura do tema para os domingos, contra 90,2% nos outros dias.
Em contrapartida, o Jornal da Manhã publicou um terço das chama-
das sobre o tema no domingo.
Há, então, duas possibilidades de interpretação. A primeira vê a
cobertura da pré-disputa eleitoral e política partidária nas suas ca-
racterísticas de hard news como sendo um tema relevante e predo-
minantemente factual que acaba distribuído de maneira uniforme
ao longo de toda semana. O fato de existir, em todos os jornais
analisados, uma editoria fixa para política, que circula diariamen-
te, contribui com esse argumento – é o caso da Gazeta do Povo (ver
tabela 2). Todavia, existe também a ideia de que, por se encaixar
em um cenário complexo, o eleitoral, e ao mesmo tempo pouco
definido (dada a distância do período da campanha propriamen-
te dita), a atenção para o tema aos domingos denota uma cober-
tura mais aprofundada. É, então, o caso do Jornal da Manhã (ver
tabela 2).
A tabela 3 a seguir traz os formatos em que os temas mais esti-
veram presentes na capa dos jornais. São, também, indicadores de
visibilidade. Um maior número de manchetes indica que o tema
foi considerado mais vezes como a notícia de maior destaque do
jornal. A presença de fotografias faz com que as notícias tenham
impacto na primeira página, de forma a atrair a atenção do leitor.
Já uma frequência considerável de ‘chamadas-título’ pode indicar
que o tema não teve tanta visibilidade, uma vez que tal formato
exige uma área menor em cm2.
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Temas de debate público e primeiras páginas dos jornais diários brasileiros
Comunicação&política, v.27, nº3, p.043-072
Tab. 3 – Distribuição das chamadas por tipo e formato
Jornal Manchete Manchete Chamada Chamada Foto- Chamada-
com foto sem foto com foto sem foto legenda título
Pré-campanha e partidos políticos
Diário dos Campos - 2 (14,2) 5 (35,7) 4 (28,5) - 3 (21,4)
Jornal da Manhã 1 (6,6) 1 (6,6) 5 (33,3) 7 (46,6) 1 (6,6) -
Gazeta do Povo 2 (4,8) 2 (4,8) 9 (21,9) 19 (46,3) - 9 (21,9)
Folha de Londrina - - 5 (41,7) 4 (33,3) - 3 (25)
Folha de São Paulo 2 (15,3) - 1 (41,6) 10 (33,3) - -
Estado de São Paulo - - 1 (20,0) 4 (80,0) - -
Variedades e Cultura
Diário dos Campos - 1 (2,0) 27 (58,2) 7 (14,5) 2 (4,7) 11 (22,9)
Jornal da Manhã 1 (1,43) - 31 (44,2) 19 (27,1) 9 (12,8) 10 (14,2)
Gazeta do Povo - - 63 (35) 42 (23,3) 40 (22,2) 35 (19,4)
Folha de Londrina - - 27(40,9) 9 (13,6) 8 (12,1) 22 (33,3)
Folha de São Paulo 1 (0,85) 1 (0,85) 36 (30,7) 17 (14,5) 21 (17,9) 41 (35,0)
Estado de São Paulo - - 59 (40,7) 45 (31,0) 19 (13,1) 22 (15,2)
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política da UEPG.
Se pensarmos na idéia de um cenário de disputa entre as hard e
soft news, tem-se, a partir dos dados acima, que as primeiras obtêm
algumas vantagens em relação aos formatos. A política, no conjunto
da pré-campanha eleitoral e das relações partidárias, soma 10 man-
chetes, metade delas com fotografias. Dessa forma, apesar da baixa
frequência, quando presente nos jornais a temática ganha destaque
como a notícia mais importante do dia. As variedades tiveram ape-
nas quatro manchetes durante o período de coleta (a metade tam-
bém com fotografias). Vale destacar que a existência ou não de
manchetes atua diretamente sobre a visibilidade dos temas. No caso
de variedades, porém, o formato predominante de chamadas com
foto, em detrimento da maioria de chamadas sem fotopara política,
deve ser considerado, sobretudo se aliado também ao formato foto-
legenda, que aparece em algumas ocasiões. Assim, temos, até aqui,
que as chamadas de soft news aparecem em número maior, predomi-
nando em formatos secundários, como chamada com foto. Por sua
vez, as hard news, que aparecem menos vezes, têm um número maior
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Emerson Urizzi Cervi, Camila Montagner Fama e Isadora Ortiz de Camargo
de manchetes. Seguindo esse raciocínio, a tabela 4 visa comparar a
visibilidade de acordo com o tamanho das chamadas em quatro
grupos de mesma proporção (quartis). A ordem é crescente: do
primeiro quartil até o quarto quartil. Pressupõe-se que um núme-
ro maior de chamadas no quarto quartil mostra uma maior visibi-
lidade do tema por ter ocupado mais espaço na capa.
Os resultados mostram que a maior parte das chamadas sobre
pré-campanha eleitoral e política partidária esteve no terceiro
quartil, acima da média no que diz respeito ao espaço ocupado na
primeira página. A temática de variedades, ou soft news, apresenta
resultados semelhantes. A maioria das chamadas estava localizada
entre o segundo e terceiro quartil, próxima do tamanho médio. Com
exceção dos jornais Gazeta do Povo e Estado de São Paulo, o número
predominante de chamadas sobre esse tema encontra-se no quarto
quartil. Isso significa que nos jornais onde há mais chamadas sobre
soft news, estas têm menor tamanho. Já no caso das chamadas de
hard news, houve um predomínio de textos de maior tamanho,
embora em um número menor de ocorrências. Por fim, a tabela 5
indica as diferenças de acordo com a abrangência das chamadas.
Tab. 4 – Distribuição das chamadas por tamanho categórico
Jornal Primeiro Segundo Terceiro Quarto
quartil quartil quartil quartil
Pré-campanha e partidos políticos
Diário dos Campos 2 (14,2) 1 (7,1) 6 (42,8) 5 (35,7)
Jornal da Manhã - 2 (13,7) 7 (46,6) 6 (40)
Gazeta do Povo 11 (26,8) 9 (22) 12 (29,2) 9 (22)
Folha de Londrina - 6 (50) 3 (25) 3 (25)
Folha de São Paulo 1 (7,7) 3 (23) 6 (46,2) 3 (23,1)
Estado de São Paulo - - 3 (60) 2 (40)
Variedades e Cultura
Diário dos Campos 12 (25) 3 (6,2) 10 (20,8) 23 (48)
Jornal da Manhã 12 (17,1) 11 (15,8) 22 (31,4) 25 (35,7)
Gazeta do Povo 40 (22,2) 51 (28,3) 65 (36,1) 24 (13,4)
Folha de Londrina 9 (13,6) 21 (31,8) 17 (25,7) 19 (28,8)
Folha de São Paulo 29 (24,6) 29 (24,6) 28 (23,7) 32 (27,1)
Estado de São Paulo 56 (38,6) 39 (26,9) 32 (22,1) 18 (12,4)
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política da UEPG.
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Artigo
Temas de debate público e primeiras páginas dos jornais diários brasileiros
Comunicação&política, v.27, nº3, p.043-072
Ao observar os dados sobre a abrangência das chamadas, deve-
se levar em conta a relação desta com a área de circulação do jor-
nal. Pelas informações acima, nota-se que a cobertura de alguns
jornais não corresponde com a área. É o caso da Gazeta do Povo, que
circula no estado do Paraná. Este jornal apresenta 67 chamadas de
variedades/cultura como de âmbito local, 65 nacional e apenas 31
regional. Tem-se, portanto, uma tendência do jornal, que é regio-
nal, a realizar coberturas locais e nacionais para as soft news. A Gaze-
ta do Povo também pode ser usada como exemplo no caso das
chamadas sobre tema pré-campanha eleitoral, com 21 entradas
voltadas à abrangência local. Porém, nesse sentido, tal cobertura
se mostra justificável, uma vez que a temática da política envolve
a disputa para a administração municipal. O contrário, no entan-
to, acontece com o Diário dos Campos, de abrangência local, que
tem sete chamadas sobre política em abrangência regional e seis
de local. Com área maior de cobertura, a Folha de São Paulo traz
apenas três chamadas sobre pré-campanha eleitoral local. Trata-
se de uma situação semelhante à da Gazeta do Povo. Já em relação
Tab. 5 – Distribuição das chamadas por abrangência
Jornal Local regional nacional internacional
Pré-campanha e partidos políticos
Diário dos Campos 6 (42,8) 7 (50) 1 (7,2) -
Jornal da Manhã 10 (66,7) 2 (13,3) 3 (20) -
Gazeta do Povo 21 (51,2) 5 (12,2) 13 (31,8) 2 (4,8)
Folha de Londrina 2 (16,6) 2 (16,6) 8 (66,7) -
Folha de São Paulo 3 (23,1) - 8 (61,6) 2 (15,3)
Estado de São Paulo - 1 (20) 4 (80) -
Variedades e Cultura
Diário dos Campos 39 (81,2) 7 (14,6) 1 (2,1) 1 (2,1)
Jornal da Manhã 31 (44,3) 23 (32,8) 13 (18,6) 3 (4,3)
Gazeta do Povo 67 (37,2) 31 (17,2) 65 (36,1) 17 (9,5)
Folha de Londrina 32 (48,5) 13 (19,7) 14 (21,2) 7 (10,6)
Folha de São Paulo 17 (14,4) 9 (7,6) 55 (46,6) 37 (31,4)
Estado de São Paulo 24 (16,6) 5 (3,5) 82 (56,6) 34 (23,4)
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política da UEPG.
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às chamadas internacionais, a tabela acima expressa uma maior
facilidade dos jornais nacionais em abordarem tais temas – é o
caso da Folha de S.Paulo, com 15,4% dos temas ligados à política
como internacionais. Esses dados são ilustrados a seguir, no grá-
fico 1, que mostra os resultados de um teste de correspondência
entre as abrangências das chamadas (local, regional, nacional e
internacional) e as áreas de circulação dos jornais (local, regional
ou nacional).
1,51,00,50,0-0,5-1,0-1,5
1,5
1,0
0,5
0,0
-0,5
-1,0
-1,5
nacional
regional
local
Internacional
Nacional
Regional
Local
Q-quadrado 2.705,350 Sig. 0,000
área de abrangência do jornal
abrangência da chamada
Graf. 1 – Correspondência - abrangência das chamadas e circulação dos jornais
O gráfico 1 mostra claramente como há uma relação direta en-
tre área de circulação do jornal e a abrangência predominante das
chamadas de primeira página. Jornais locais apresentam grande
proximidade com chamadas locais, o mesmo acontece com perió-
dicos regionais e os de circulação nacional, que se aproximam mais
das chamadas de abrangência nacional e internacional. Os resulta-
dos como um todo são altamente significativos, com nível de
significância de 0,000 e coeficiente de qui-quadrado de 2705,35.
Isso demonstra que no período analisado não houve uma influên-
cia direta dos grandes jornais sobre as decisões a respeito dos te-
mas que ocuparam as primeiras páginas dos jornais de circulação
regional e local para os temas variedades e política.
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Temas de debate público e primeiras páginas dos jornais diários brasileiros
Comunicação&política, v.27, nº3, p.043-072
3.1 Temas nas manchetes5
Em relação às manchetes dos jornais, A pesquisa considerou a pre-
sença de apenas uma manchete por edição. Sendo assim, o número
de manchetes analisadas por jornal, equivale ao número de edi-
ções publicadas no período. A Gazeta do Povo, Folha de São Paulo e
Estado de São Paulo tiveram 92 edições entre 1º de agosto e 31 de
outubro. Já no Diário dos Campos, que não circula às segundas-fei-
ras e feriados, foram 75 manchetes publicadas. Enquanto o Jornal
da Manhã reformulado teve 48 edições entre 1º de setembro e 31
de outubro. Em relação aos espaços ocupados pelas manchetes nos
jornais, a tabela 6 a seguir apresenta a média de ocupação em cm2
por edição, o total ocupado ao longo do período analisado e o per-
centual em relação ao espaço total destinado às chamadas informa-
tivas por jornal.
5A análise das manchetes exclui o jornal Folha de Londrina por conta de inconsistências e ausências
no trabalho de coleta de dados desse jornal.
Tab. 6 – Espaços ocupados pelas manchetes nos jornais diários
Indicadores Diário dos Jornal da Gazeta Folha de Estado de
Campos Manhã do Povo São Paulo São Paulo
Média de cm2 da manchete/edição 251,5 273,2 260,6 237,1 258,9
Total de cm2 das manchetes 18.866,8 13.116 23.980,7 21.819,8 23.819,1
Cm2 ocupado pelas manchetes 23,5 23,0 23,9 23,7 25,0
Nº de edições no período 75 48 92 92 92
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política (UEPG).
A tabela acima demonstra uma relativa normalidade a respeito
dos espaços ocupados pelas manchetes nos jornais analisados. Em
quatro deles, o percentual ocupado pela manchete gira em torno
de 23% do total de espaço informativo da capa. No Estado de São
Paulo o percentual ocupado pelas manchetes fica em 25%. Consi-
derando que em média, uma edição de jornal diário, apresenta entre
dez e vinte chamadas em sua primeira página, se uma única delas,
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no caso a manchete do dia, ocupa cerca de um quarto do total noti-
cioso, esta ganha relativo destaque, não apenas quanto a visibilida-
de, mas também em relação ao espaço dos demais temas noticiados
na primeira página.
Também se pode observar que em todos os jornais o uso de
fotografias nas manchetes não foi preponderante (ver tabela 7).
Ao dividir as manchetes entre aquelas acompanhadas por fotos das
que não têm fotos, percebe-se que o maior percentual fica em man-
chetes sem fotos. O jornal que mais utilizou o recurso fotográfico
em suas manchetes foi o Jornal da Manhã, com 43,75% do total. O
jornal Diário dos Campos não se diferencia muito de seu concorren-
te local quanto ao uso de imagens nas manchetes 42%. Já a Gazeta
do Povo é o jornal que apresenta o menor percentual de manchetes
com foto 23,9%, enquanto os dois periódicos de circulação nacio-
nal ficam entre 31% e 32% de foto nas manchetes.
Tab. 7 - Formato das manchetes por jornal
Tipo de manchete Diário dos Jornal da Gazeta Folha de Estado de
Campos Manhã do Povo São Paulo São Paulo
Manchete com foto 31 (41,33) 21 (43,75) 22 (23,91) 30 (32,60) 29 (31,52)
Manchete sem foto 44 (58,66) 27 (56,25) 70 (76,08) 62 (67,39) 63 (68,47)
Total 75 (100) 48 (100) 92 (100) 92 (100) 92 (100)
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política (UEPG).
A partir dessas informações é possível inferir que os temas
manchetados nos jornais diários não estão, necessariamente, rela-
cionados à disponibilidade de uma boa fotografia. Isso deixa os
editores um pouco mais ‘livres’ dos interesses comerciais para defi-
nir o tema da manchete do jornal, sem a necessidade de vínculos
constantes com imagens chamativas.
A seguir são apresentados os resultados por temas selecionados
para todas as manchetes publicadas no período. Os temas foram
divididos em cinco grupos. O primeiro, chamado de Temas Sociais,
inclui assuntos relacionados à economia, saúde, educação, atendi-
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Artigo
Temas de debate público e primeiras páginas dos jornais diários brasileiros
Comunicação&política, v.27, nº3, p.043-072
mento a carentes e minorias, infra-estrutura urbana, meio ambien-
te, violência e segurança pública, pré-campanha eleitoral e política
partidária. O segundo grupo, chamado de Institucional, reúne po-
lítica institucional e assuntos relacionados à ética e moral. O tercei-
ro, chamado de Internacional, agrupa as manchetes a respeito de
temas de outros países. Ele é seguido pelo tema Entretenimento,
que reúne assuntos sobre variedades, cultura e esportes. Por fim,
há o grupo dos Outros Temas, que não podem ser enquadrados
em nenhum dos assuntos anteriores.
Tab. 8 – Tipo de tema nas manchetes dos jornais
Tipo de Tema da Manchete Diário dos Jornal da Gazeta Folha de Estado de
Campos Manhã do Povo São Paulo São Paulo
Social 51 (68) 31 (64,6) 54 (58,7) 49 (53,3) 55 (59,8)
Institucional 21 (28) 10 (20,8) 33 (35,9) 36 (39,1) 35 (38)
Internacional 0 0 1 (1,1) 2 (2,2) 2 (2,2)
Entretenimento 3 (4) 2 (4,2) 1 (1,1) 4 (4,3) 0
Outro 0 5 (10,5) 3 (3,3) 1 (1,1) 0
Total 75 (100) 48 (100) 92 (100) 92 (100) 92 (100)
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política (UEPG).
A tabela 8 acima mostra uma regularidade entre os jornais no
que diz respeito ao tema da manchete. Em todos eles predomina o
tema social, embora na Folha de São Paulo o percentual tenha fica-
do muito próximo da metade. Os dois jornais locais apresentam os
maiores índices de temas sociais no espaço de maior visibilidade.
Em todos os cinco, o segundo tema que mais aparece no topo da
primeira página é o Institucional, variando de 20% a 35% do total.
Já o tema Internacional, Entretenimento e Outros apresentam
percentuais pouco significativos. Em relação aos temas sociais, no
Diário dos Campos predominaram manchetes a respeito de infra-
estrutura urbana (22% do total), seguida por violência, 10%. No
Jornal da Manhã, em primeiro lugar ficou o tema social violência/
segurança pública 22,9%, seguido de infra-estrutura urbana 14,6%.
Percebe-se uma reprodução dos padrões de seleção de temas nos
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dois jornais locais. Apenas com inversão de percentuais, eles desta-
cam violência e infra-estrutura. Para a Gazeta do Povo, o tema social
que mais apareceu em manchete foi economia com 17,4% e infra-
estrutura 14,5%. A predominância de economia como tema social
mais presente nas manchetes também se dá nos dois jornais de
circulação nacional, com o mesmo percentual (34,8% do total).
Outro ponto observado pela pesquisa diz respeito às fontes de
informação citadas nas manchetes. Em todos os impressos a não
utilização das citações nas manchetes predominou. As fontes de
informação servem para reforçar o que o jornalista diz em seu tex-
to. Para Gaye Tuchman, o uso das citações serve para evitar a pre-
sença dos jornalistas no relato e se estende até o uso das aspas como
um dispositivo que assinala certos aspectos do texto (TUCHMAN,
1999, p. 7). Mas isso não se mostra relevante nas chamadas de pri-
meira página, que parece ser um espaço destinado à produção de
sentidos da própria comunidade de jornalistas, sem o recurso do
apoio das fontes. Aqui, para análise das manchetes, as fontes foram
classificadas em cinco grupos (HABERMAS, 1997). São eles:
lobistas, aqueles que defendem interesses de grupos específicos;
defensor do interesse público, como o próprio nome já diz, defen-
dem o interesse geral ou de grupos marginalizados; porta-voz de
temas marginais, estão as pessoas que expressam sua opinião sobre
temas negligenciados e que geralmente estão fora do debate públi-
co; e intelectuais, que têm voz por serem portadores de reconheci-
mento público em alguma área de conhecimento.
O jornal que menos utilizou citações de fontes nas manchetes
foi o Jornal da Manhã. Ele citou apenas uma vez uma fonte classifi-
cada como lobista, durante os dois meses de análise. O que mais
citou fontes em suas manchetes foi o Estado de São Paulo, com ape-
nas 42,3% do total de manchetes sem fontes. Na verdade, o Estado
de São Paulo diferencia-se bastante dos demais jornais, que variaram
entre 73% e 97% das manchetes sem fontes. Outra característica em
comum é que nenhum deles usou intelectuais como fontes de infor-
mações nas manchetes. Sendo que o mesmo não aconteceu com
fontes classificadas como porta-voz de temas marginais, porque o
jornal Estado de São Paulo utilizou a uma única vez (ver tabela 9).
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Temas de debate público e primeiras páginas dos jornais diários brasileiros
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Tab. 9 – Tipo de fonte nas manchetes dos jornais
Tipo de fonte Diário dos Jornal da Gazeta Folha de Estado de
Campos Manhã do Povo São Paulo São Paulo
Lobista 2 (2,7) 1 (2,1) 3 (3,3) 5 (5,4) 9 (9,8)
Especialista 4 (5,3) - 4 (4,3) 0 15 (16,3)
Defensor de Interesse Público 4 (5,3) - 2 (2,2) 6 (6,5) 5 (5,4)
Porta-voz de temas marginais - - - - 1 (1,1)
Intelectual - - - - -
Outro 5 (6,7) 0 5 (5,4) 13 (14,1) 23 (25)
Não utilizou fonte 60 (80) 47 (97) 78 (84,8) 68 (73,9) 39 (42,4)
Total 75 (100) 48 (100) 92 (100) 92 (100) 92 (100)
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política (UEPG).
Quanto a presença de fontes nas manchetes, percebe-se que o
Estado de São Paulo diferencia-se dos demais porque foi o impresso
que mais utilizou as citações de fontes “outro” (25%). Essa catego-
ria foi criada para encaixar as fontes que não se classificaram como:
lobista, especialista, defensor do interesse público, porta-voz de
temas marginais, e nem intelectual. Trata-se do cidadão comum
por excelência. Um critério adicional que a pesquisa levou em con-
sideração foi a origem das citações. Elas foram classificadas em ofi-
cial, disruptiva e outra, baseadas nos estudos de Molotch e Lester
(1993). Na primeira estão enquadradas todas as citações de indiví-
duos que representam as instituições públicas ou privadas que não
falam apenas em seu nome, mas institucionalmente. Na segunda, se
encaixam as opiniões expressas a partir de eventos ou crises geram
instabilidade social, assim o fato acaba sendo maior que a fonte. E na
classificação ‘outros’ estão aqueles que não são representantes ofi-
ciais e que também não estão promovendo nenhum movimento
social. Como percebe-se na tabela 10, todos os jornais utilizaram
mais vezes fontes oficiais do que disruptivas ou as classificadas como
outro, exceto o Jornal da Manhã que quando usou citação foi de
fonte disruptiva. O jornal que mais usou fontes oficiais na manche-
te foi o Estado de São Paulo, em cerca de 50 do total. As fontes
disruptivas e outro praticamente não aparecem nas manchetes do
periódico.
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Artigo
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Tabela 10 – Origem das fontes citadas em manchetes dos jornais
Origem das fontes Diário dos Jornal da Gazeta Folha de Estado de
Campos Manhã do Povo São Paulo São Paulo
Oficial 14 (18,7) 0 12 (13) 17 (18,5) 44 (47,8)
Disruptiva 0 1 (2,1) 2 (2,2) 3 (3,3) 4 (4,3)
Outro 1 (1,3) 0 0 4 (4,3) 5 (5,4)
Não utilizou 60 (80) 47 (97) 78 (84,8) 68 (73,9) 39 (42,4)
Total 75 (100) 48 (100) 92 (100) 92 (100) 92 (100)
Fonte: Grupo de Pesquisa em Mídia e Política (UEPG).
O que poderia parecer um elemento de pluralidade de ‘vozes’
nas manchetes – a presença de fontes externas – transforma-se na
verdade em reforço da visão oficialista a respeito dos fatos sociais,
em especial de temas sociais. Isso ganha contornos maiores no Esta-
do de São Paulo, que cita fontes oficiais em 44 das 92 manchetes
analisadas aqui. Na outra ponta encontra-se o Jornal da Manhã, que
não apresenta fontes nesses textos. Quanto à abrangência do tema
manchetado, é possível perceber que todos os jornais analisados
destinam as manchetes predominantemente ao seu público alvo.
Os jornais de circulação local em Ponta Grossa, por exemplo, noti-
ciaram manchetes com assuntos de abrangência local em mais da
metade de suas edições. O Diário dos Campos teve 73% de suas
manchetes relacionadas aos temas do município. Já o Jornal da Manhã
contou com 54,2%. A Gazeta do Povo, de circulação estadual, apresen-
tou manchetes de abrangência regional na ordem de 55,4% do total.
Os impressos nacionais seguiram a mesma linha, sendo que a Folha
de São Paulo publicou 78,3% de manchetes com abrangência nacio-
nal e o Estado de São Paulo o fez em 76% das vezes.
O gráfico de correspondência a seguir (gráfico 2) indica uma
significativa correspondência estatística, também, entre as manche-
tes dos jornais analisados e as respectivas áreas de circulação dos
mesmos. Embora o modelo não seja tão forte quanto o das chama-
das como um todo (gráfico 1), o qui-quadrado de 305,05 e nível
de significância de 0,000 permitem afirmar a existência de uma
forte relação entre a área de circulação de um periódico e a
abrangência dos temas das manchetes.
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1,51,00,50,0-0,5-1,0-1,5
1,5
1,0
0,5
0,0
-0,5
-1,0
-1,5
nacional
regional
local
Internacional
Nacional
Regional
Local
Q-quadrado 305,055 - Sig. 0,000
área de abrangência do jornal
abrangência da chamada
Graf. 2 – Correspondência - abrangência das manchetes e circulação dos jornais
Também aqui, nas manchetes, verifica-se uma ‘independência’
dos jornais de menor porte (local e regional) em relação à temática
de abrangência nacional. No entanto, isso não permite afirmar que
haja a mesma autonomia em relação aos temas de interesse para o
debate público de fato, pois, como visto anteriormente, as chama-
das relacionadas a assuntos mais voltados à vendagem das edições
ocuparam mais espaço nas capas do que as chamadas que permiti-
riam fomentar o debate público a respeito da disputa pré-eleitoral,
por exemplo.
4. Considerações finais
Como conclusão a respeito da discussão feita até aqui é preciso
apontar a significativa diferença que existe entre o número de cha-
madas sobre temas soft news e pré-campanha eleitoral nas primei-
ras páginas de todos os jornais analisados. Encontramos
praticamente seis vezes mais chamadas sobre temas de cultura e
variedades do que de política partidária ou pré-eleitoral nos jor-
nais de todas as áreas de abrangência. Ganham destaque aqui o
Jornal da Manhã, Gazeta do Povo e Estado de São Paulo, local, regional
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Emerson Urizzi Cervi, Camila Montagner Fama e Isadora Ortiz de Camargo
e nacional, respectivamente, com 10% de chamadas de variedades
e cultura nas suas primeiras páginas. Já em relação às chamadas
sobre política, os jornais que apresentaram um número maior des-
ses temas em suas capas foi o Jornal da Manhã e a Gazeta do Povo,
com cerca de 2% do total. Além de mostrar a diferença de propor-
ção entre os dois tipos de chamada, a presença de Jornal da Manhã e
Gazeta do Povo em ambas é um indicativo de que não concorrem
entre si pelos espaços de capa dos jornais. Estes dão mais atenção
para os interesses comerciais do que para o debate público sobre
temas relevantes de fato – a não ser que as discussões sobre política
partidária e pré-eleitoral não sejam consideradas um tema de rele-
vância social.
Todas as variáveis utilizadas para testar a visibilidade dos temas
na primeira página indicaram certa vantagem para as soft news em
relação às chamadas de hard news. De maneira geral, cultura e vari-
edades apareceram proporcionalmente mais aos domingos – quan-
do há maior circulação – do que nos demais dias da semana.
Estiveram em formatos com média visibilidade, embora a propor-
ção de manchetes sobre política tenha sido maior que as sobre va-
riedades e cultura. Quanto aos tamanhos das chamadas, apesar de
variações internas, os dois temas ficaram muito próximos de tama-
nhos medianos.
Para destacar um ponto positivo nas chamadas sobre política e
variedades nas primeiras páginas dos jornais, este diz respeito a
relação entre área de circulação dos jornais e abrangência dos te-
mas reproduzidos nas primeiras páginas, onde existe forte relação
positiva. Tanto para as chamadas sobre política quanto as de varie-
dades, nos jornais de circulação municipal (Diário dos Campos e
Jornal da Manhã) predominaram abrangências locais. Por outro lado,
nos jornais de circulação em todo o país (Folha de São Paulo e Estado
de São Paulo), houve maioria de chamadas com abrangência nacio-
nal. Já em relação aos jornais de circulação regional, não se pode
chegar às mesmas conclusões. Na Gazeta do Povo nota-se uma maio-
ria de chamadas com abrangência local para temas de política e
pré-campanha eleitoral, enquanto que na Folha de Londrina a maio-
ria das chamadas sobre estes temas foi de abrangência nacional. Já
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para as soft news, na Gazeta do Povo houve um equilíbrio entre
abrangência nacional e local, com pequena vantagem para a segun-
da; enquanto na Folha de Londrina a abrangência local contou para
a maioria das chamadas sobre variedades e cultura. De qualquer
maneira, em ambos os casos a abrangência regional foi minoritária.
Ainda é possível perceber que os impressos tendem a seguir uma
linha editorial que apresenta coerência com a área de abrangência
de cada jornal, relacionando-os ao público a que se destinam. Isso
porque, em todos os jornais analisados, os temas abordados em
suas manchetes estavam relacionados ao público-alvo do veículo e
percebeu-se um predomínio de temas de ordem social. A
abrangência da maioria das manchetes estava relacionada a área de
cobertura do jornal. A diferença é que os jornais de circulação local
têm presença mais significativa manchetes sobre violência e infra-
estrutura. Nos jornais de circulação regional e nacional predomi-
nam manchetes sobre economia. Nesse ponto, é possível pensar
que a abrangência dos periódicos foi algo que influenciou no pro-
cesso de seleção dos temas para as manchetes. Os temas que mais
aparecem nos jornais de Ponta Grossa não são necessariamente
os mesmos que se tornaram manchetes nos jornais regionais ou
nacionais.
Também foi possível perceber que grande parte das manchetes
não utiliza fotografias. Das 399 analisadas, 266 abriram mão desse
recurso gráfico, o que significa mais de 66%. Uma possível explica-
ção para isso talvez seja o fato de que a manchete já chama a mais
atenção do leitor por outros aspectos como posição privilegiada na
página do jornal, ou pelo tamanho e formato da letra utilizada. As
informações sobre temas que predominam nas manchetes ganham
importância quando se identifica que, em média, as manchetes ocu-
pam quase um quarto do espaço informativo da primeira página
destinado aos textos noticiosos, que podem variar de dez a vinte
chamadas por edição. Nota-se que apesar dos avanços tecnológicos
e gráficos dos veículos impressos, as manchetes continuam tendo
importância na composição das capas dos jornais.
Por outro lado, o que permanece inalterado nas manchetes é a
baixa pluralidade de ‘vozes’ nos textos com maior destaque. Com a
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exceção do Estado de São Paulo, na imensa maioria das manchetes
não há citação de fontes externas aos meios de comunicação, o que
demonstra um predomínio da visão de mundo do jornalista nas
capas dos jornais. E, quando as fontes aparecem, inclusive no Esta-
do de São Paulo, elas são predominantemente oficiais e, portanto,
reforçam a visão institucionalizada da realidade, o que não leva a
uma democratização das abordagens nas manchetes dos jornais
analisados. Em suma, pode-se dizer que estes jornais brasileiros
destacam uma realidade social em suas manchetes, porém, a partir
da visão oficialista a respeito dos temas. Para dar continuidade às
análises e consistência às conclusões, futuras pesquisas devem am-
pliar o escopo da análise, seja através da verificação de outros peri-
ódicos, ou da comparação entre chamadas sobre variedades e
política em períodos eleitorais.
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Temas de debate público e primeiras páginas dos jornais diários brasileiros
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Temas de debate público e primeiras páginas
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Resumo
O texto tem dupla finalidade: analisar os
assuntos selecionados para ocupar o espa-
ço das manchetes de jornais diários brasi-
leiros e verificar o tipo de notícia que
ganha destaque nas capas dos mesmos jor-
nais. O estudo das manchetes justifica-se
por ser esse tipo de chamada de primeira
página a de maior destaque dos jornais em
função da importância dada ao tema pe-
los produtores das notícias. Por outro lado,
a verificação do conjunto de temas que
ganha a primeira página dos jornais com-
pleta o quadro, visto que a primeira pági-
na como um todo é espaço privilegiado
dos jornais. Para tanto, é usada uma
tipologia de classificação das notícias em
hard e soft news aplicadas às primeiras pá-
ginas de periódicos diários de circulação
local, regional e nacional durante o perío-
do pré-eleitoral de 2007. Trata-se de um
estudo comparativo que reúne seis jornais
diários de diferentes áreas de circulação:
Diário dos Campos e Jornal da Manhã (cir-
culação apenas no município de Ponta
Grossa – PR), Gazeta do Povo e Folha de Lon-
drina (circulação regional no Estado do
Paraná) e Folha de São Paulo e Estado de São
Paulo (circulação nacional).
Palavras-chave
Manchetes – jornais diários – primeira pá-
gina – variedades – política
Abstract
The text has pair purpose: to analyze the selected
subjects to occupy the space of headline of
Brazilian daily periodicals and to verify the type
of notice that gains prominence in the first pages
of same periodicals. The study of headline it is
justified for being this type of call of first page
of bigger prominence of periodicals in function
of the importance given to the subject for the
producers of the notice. On the other hand, the
verification of the set of subjects that the first
page of periodicals complete the picture, since
the first page as a whole is privileged space of
periodicals. For in such a way a tipology of
classification of the notice in hard and soft
news is applied to the first pages daily of local,
regional and national circulation during the pre-
electoral period of 2007. One is about a
comparative study that congregates six
periodicals daily of different areas of circulation:
Diário dos Campos and Jornal da Manhã
(circulation only in the city of Ponta Grossa -
Paraná), Gazeta do Povo and Folha de Lon-
drina (regional circulation in the State of the
Paraná) and Folha de São Paulo and Esta-
do de São Paulo (national circulation).
Key words
Headline – daily periodicals – first page –
varieties – politics
E-mails:
eucervi@uepg.br; camila_fama@hotmail.com; camargoisadora@yahoo.com.br
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Recorrendo à idéia de campo de Bourdieu busca-se demonstrar que, por forte que seja a presença dos meios de comunicação na dinâmica política contemporânea, a política não se subordina a ela, pois constitui campo específico, com regras e lógica próprias.
Adversarismo político e lugares narrativos: proposta de um modelo analítico
  • Heloisa Bezerra
  • Dias
BEZERRA, Heloisa Dias. "Adversarismo político e lugares narrativos: proposta de um modelo analítico". Trabalho apresentado no 2° Congresso da Alacip: Campinas, 2006.
Técnicas de codificação em Jornalismo -Redação
  • Mário Erbolato
ERBOLATO, Mário. "Técnicas de codificação em Jornalismo -Redação, captação e edição no jornal diário". São Paulo: Ática, 1985.
Limites teóricos e metodológicos nos estudos sobre a noticiabilidade
  • Carlos Franciscato
  • Eduardo
FRANCISCATO, Carlos Eduardo. Limites teóricos e metodológicos nos estudos sobre a noticiabilidade. Rio de Janeiro-RJ, 2002.
The structure of foreign news: the presentation of the Congo, Cuba and Cyprus crises in four Norwegian newspapers
  • J Galtung
  • M Rugi
GALTUNG, J. & RUGI, M. "The structure of foreign news: the presentation of the Congo, Cuba and Cyprus crises in four Norwegian newspapers". Journal of International Peace Research, nº 1, 1965, pp. 64-91.