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A retórica do prólogo no Trautado da Vida do Infante D. Fernando

Authors:
ROMÂNICA
REVISTA DE LITERATURA
ROMÂNICA
REVISTA DE LITERATURA
Departamento de Literaturas Românicas
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
N.º 18
Redacção: Teresa Amado, Fernando Guerreiro,
João Figueiredo
Consultores: José Augusto Cardoso Bernardes (U. de Coimbra), Ettore
Finazzi-Agrò (U. di Roma “La Sapienza”), Silvina Rodrigues Lopes (U. Nova
de Lisboa), Elena Losada Soler (U. de Barcelona), Violante Magalhães (Esc.
Sup. de Educação João de Deus), Rosa Martelo (U. do Porto), Anne Marie
Quint (U. de Paris – Sorbonne Nouvelle)
Publicação Anual
© 2009 Departamento de Literaturas Românicas
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
www.fl.ul.pt
Paginação e arte final: Inês Mateus
Impressão e acabamento: Textype
Tiragem: 300 exemplares
ISSN: 0872-5675
Depósito legal: ?????????????
Paratexto
11 Cristina Sobral A retórica do prólogo no Trautado da Vida do Infante
D. Fernando
27 Isabel Almeida O que dizem «licenças». Ecos da fama da Clavis
Prophetarum
59 Ernesto Rodrigues Dedicatória: relação e discurso
77 Maria das Graças Moreira de Sá O paratexto em Oliveira Martins
91 Maria do Céu Estibeira Uma perspectiva da Marginalia de Fernando
Pessoa
109 Luís Mourão De fora para dentro e outra vez para fora: operações
paratextuais no bairro de Gonçalo M. Tavares
127 João Almeida Flor Na Periferia da Tradução Literária
137 Pedro Flor Retratos e Miniaturas no Renascimento em Portugal
157 Fátima Ribeiro de Medeiros Caminhos da Ilustração Portuguesa do
Livro para Crianças e Jovens
188 Rita Taborda Duarte A Palavra Imagem
Outros Estudos
195 José Miguel Martínez Torrejón Víspera de la Batalla. El Hervidero
Manuscrito Portugués Ante la Invasión de Marruecos
218 Pablo Javier Pérez Lópes Fernando Pessoa, el nietzscheano involuntario
Recensões
247 White, Landeg, The Collected Lyric Poems of Luís de Camões, 2008 (João
Almeida Flor)
253 Patricia Anne Odber de Baubeta, The Anthology in Portugal: a new
approach to the history of Portuguese literature in the twentieth century,
2007 (João Almeida Flor)
257 António M. Machado Pires, Luz e Sombras no Século XIX em Portugal,
2007 (Maria das Graças Moreira de Sá)
260 Jovens ensaístas lêem jovens poetas, Pedro Eiras (coord.), 2008 (Ariadne
Nunes)
Paratexto
A retórica do prólogo no Trautado da Vida do Infante
D. Fernando
Cristina Sobral
Universidade de Lisboa
No contexto da guerra de conquista norte-africana levada a cabo pelos
reis da dinastia de Avis de Portugal, uma figura assumiu importância central
na construção de instrumentos ideológicos e simbólicos eficazes no
prosseguimento dos objectivos políticos delineados a partir de D. João I: o
Infante D. Fernando, seu quinto filho varão.
São sobejamente conhecidos os factos que levaram este Infante, em
colaboração com seu irmão D. Henrique, à empresa da conquista de Tânger
(1437) e ao desastre militar que motivou a sua prisão
1
. Tomado como refém
da entrega de Ceuta, viria a morrer em Fez, ao fim de seis anos de cativeiro,
que sofreu na companhia de alguns dos seus servidores. Entre eles estava o
seu secretário, João Álvares, que lhe sobreviveu e que foi resgatado pelo
Infante D. Pedro em 1448. Tomado sob a protecção de D. Henrique, é a João
Álvares que caberá escrever a memória dos acontecimentos passados em
Marrocos e integrá-los numa biografia edificante do Infante D. Fernando
que, legitimando o seu sofrimento e abandono, argumentasse o carácter
providencial do desastre de Tânger e a santidade martirial de um príncipe
que haveria, a partir de então, de ser elevado e venerado como um dos ícones
da guerra africana
2
.
O Trautado da vida e feitos do muito vertuoso senhor ifante Dom Fernando,
escrito por João Álvares pouco depois de 1451
3
, constitui, assim, um dos mais
interessantes e férteis relatos memiorialistas do séc.XV ibérico e tem sido
1
A bibliografia sobre o assunto é muito vasta e pode ser consultada em Fontes, Percursos, pp. 72-73.
2
Sobre a promoção do seu culto v. Fontes, Percursos, pp. 196-198.
3
A edição crítica de Calado (Álvares, Trautado)cujas páginas citarei, toma como testemunho-base
um manuscrito (B
ITAGAP
Manid 1065) copiado em Portugal, em 1451-60 (Calado, Frei João
Álvares, p. 74) e conservado na Biblioteca Nacional de Madrid (códice 8120).
Românica 18, 2009
objecto de diversos estudos. Ultrapassada a dificuldade da sua integração nos
géneros narrativos tradicionais
4
, a obra deve ler-se como uma narrativa de
historicidade comprovada documentalmente, que apresenta ao leitor uma
selecção e uma interpretação de factos históricos adequada à demonstração
da santidade da personagem biografada, linha de análise já seguida por
Fontes no seu estudo (pp. 163-167).
Neste género de textos, a tradição impõe quase sempre a presença de um
prólogo, cuja estrutura e tratamento tópico a teoria retórica previa
5
. Entende-
-se por prólogo o discurso autónomo que tem uma distribuição retórica e uma
significação próprias, constituindo uma unidade literária, situado no começo
da obra de carácter literário, cuja factura está orientada para cativar a atenção
do público numa atmosfera de entusiasmo emotivo e criar uma expectativa
nova e interessante, que o faz prosseguir na leitura ou audição
6
. Foi definido
por S. Isidoro pela sua natureza não narrativa e pela sua localização anterior
à narração
7
. No Trautado, correspondem a esta definição não uma mas três
unidades textuais (cinco páginas na edição, correspondentes a quase dois
fólios do testemunho), assinaladas no manuscrito com letrinas rubricadas e
decoradas. A primeira unidade paratextual (a que chamarei Prólogo I) inicia-
se no fl. 1 sem a anteposição de qualquer rubrica intituladora. A segunda
(Prólogo II) segue-se a uma epígrafe de incipit (“Começase o trautado da vida
e feitos do mujto virtuoso Senhor Ifante dõ fernãdo”), rubricada e demarcada
do texto por uma linha de espaço antes e outra depois, e a terceira (Prólogo
III) distingue-se de forma menos forte, sem espaçamento distintivo e apenas
introduzida pela letrina, que faz avançar duas linhas de texto.
Existem entre os três prólogos níveis de articulação diferentes: o segun -
do e o terceiro parecem mais interdependentes e mostram, pela anteposição
Paratexto
12
4
Alguns autores hesitaram em classificar o texto como relato historiográfico ou hagiográfico
(v. Calado, Frei João Álvares, pp. 261-264; Mattoso, “Le Portugal“, pp. 95-96; Krus, “Crónica”,
p. 174; Nascimento, “Hagiografia”, p. 309). Porém os estudos sobre hagiografia têm mostrado
que esta dicotomia não deve ser tida em conta quando tratamos de textos medievais (v. por
exemplo Heffernan, Sacred Biography; Lifshitz, “Beyond positivism”; Sobral, “O Modelo”).
5
Curtius, La Littérature Européenne, vol. I, pp. 108-110, 132-135; Janson, Latin prose prefaces;
Lausberg, Manual, vol. I, pp. 240-260; Minnis, Theory; Montoya Martinez, Riquer, El prologo;
Nascimento, “Hagiografia”, p. 307.
6
Montoya Martinez, Riquer, El prologo, p. 150.
7
“Prooemium est initium dicendi. Sunt enim prooemia principia librorum, quae ante causae
narrationem ad instruendas audientium aures coaptantur. Cuius nomen plerique latinitatis
periti sine translatione posuerunt. Hoc autem vocabulum apud nos interpretatum praefatio
nuncupatur, quasi praelocutio” (Isidoro de Sevilha, Etimologias, vol. I, p. 548).
do incipit, manter uma relação mais estreita com a obra, enquan to o primeiro
parece manter uma maior exterioridade relativamente a ela
8
. O facto não
deixa de surpreender
9
, não só porque o seu estatuto para textual o equipara
aos outros dois, como porque nos três a estrutura e a matéria se repetem
em termos gerais, colocando desde logo a questão da pertinência ou da con -
veniên cia de três prólogos à primeira vista redundan tes, redundância que
parece mais notória entre o Prólogo II e o Prólogo III, em consonância com a
sua mais estreita articulação na estrutura externa do manuscrito.
Vejamos o Prólogo II
10
. Abre com uma afirmação sentenciosa (“Quanto
som dignos de perpetua memoria aqueles que neste mundo viverom e
obrarom vertuosamente a razom no.lo demonstra”), confirmada por uma
auctoritas (S. Gregório). A sentença, que afirma a importância exemplar da
memória, acolhe um tópico historiográfico muito comum
11
. Segue com a
apresentação das circunstâncias em que o autor se dispõe a escrever, descritas
em tom emotivo e realista, apontando desde logo, por um lado, para o valor
do seu relato testemunhal, e, por outro, para o enquadramento martirial em
que a narrativa será desenhada: “já esperto das temerosas visões em outro
tempo conseguidas sob poderio dos mouros, roubado da conversaçom
daquele Senhor vertuoso, em cuja conpanha, sem alheo costrangimento, me
somety ao pesado jugo do infiel cativeiro, e dey aa memoria aquelas cousas
que muyto contristom a minha alma”. Seguindo a tópica retórica tradicional,
João Álvares anuncia em seguida a obediência a uma encomenda superior
(“porque o mui alto e muy poderoso prinçepe ho Senhor Ifante dom Anrique
me mandou”) e apresenta a matéria tratada (“leixase em escripto o que sabia
da vida e feitos de seu irmãão o Ifante dom Fernando, o qual antre os mouros,
Cristina Sobral 13
8
Isso mesmo reconheceu o editor, que interpretou a primeira unidade paratextual como Prólogo
e considerou, inadequadamente, as outras duas como “aquilo que Frei João Álvares escreveu no
sentido de traçar a biografia do Infante Santo” (Calado, Frei João Álvares, pp. 90-91), integrando-
-as na numeração sequencial dos capítulos, apesar de a matéria não ser narrativa.
9
A surpresa foi sentida também por Calado, que acaba por reconhecer que a matéria que
distingue como primeiro e segundo capítulos (Prólogos II e III) não é narrativa e que poderia ser
uma continuação do prólogo, apesar de separada dele pelo incipit. De forma algo confusa, acaba,
porém, por validar a sua primitiva leitura, considerando que “os dois primeiros capítulos ficam
perfeitamente limitados dentro dos seus objectivos”, os quais, porém, não define claramente
(Calado, Frei João Álvares, pp. 91-92).
10
Apresento em três quadros finais a estrutura retórica dos prólogos, no texto fixado por Calado
(Frei João Álvares). Por essa razão dispenso-me de mencionar número de página quando cito os
prólogos.
11
Bourgain, “Les prologues des textes narratifs”, p. 246.
neestes dias, por eixalçamento da santa ffe católica fez seu acabamento”).
Reafirmando a singularidade do seu testemunho (“por eu seer ao presente a
mais principal e achegada testymunha destes feitos”) e a obediência ao senhor
que o patrocina (“p[e]ra conprir mandado do dicto Senhor, me dispus ao
seguinte trabalho”), termina com a indispensável afirmação de modéstia
(“fraqueza e boto entender”, “fraquo entender”, “rudo engenho”), que reclama
auxílio divino (“ao todo poderoso Deus peço ajuda e favor, e graça aaquela
Senhora Virgem sua madre”).
Tal como o segundo, o terceiro prólogo abre igualmente com uma
sentença sobre a importância exemplar da memória. Não se encontra a
confirmação de autoridade mas, em seu lugar, uma amplificação do tema,
que sublinha a importância da escrita no conhecimento dos notáveis feitos
dos antigos, a lembrar ecos da historiografia afonsina, bem conhecida em
Portugal
12
. De novo são apresentadas as circunstâncias em que o autor se
dispõe a escrever, acentuando-se agora a emotividade do discurso através de
um expressivo paralelo entre o cativeiro do Infante e seus companheiros e a
última ceia de Jesus e seus apóstolos (Jo. 13.1; 15.16; 22. 26):
…eu, que fuy dos chamados e escolhidos pera o convite postumeiro,
onde em lugar de pam se comeu amargura e o bever com lagremas
foy mesturado, de que se escrepve que, como ho Senhor muito
amase os seus, na fim os amou muito mais e, feita a çeea e eu
avondado de tam tristes manjares, sobre o regaço do Senhor me
acostey, onde me muytos sagredos forom revelados.
Este paralelo, que constitui o núcleo central do Prólogo III, é rico em
significados:
1) implica desde logo o sentido martirial da morte do Infante, pela
evidente imitatio Christi;
2) credibiliza o discurso do autor, pelo testemunho directo e pela
partilha do sofrimento, emotivamente evocado, pela comparação
com S. João, o discípulo a quem segredos foram revelados e que
estava, portanto, na posse de informação privilegiada pela sua
intimidade com Jesus;
3) fundamenta o dever de prestar testemunho e de revelar uma
verdade inquestionável, que justifica a redacção da obra;
Paratexto
14
12
O tópico, presente na Primera Crónica General de Alfonso X (vol. I, p. 3) e na Crónica Geral de
Espanha de 1344 (vol. II, pp. 4-6), era bem conhecido pelos cronistas da dinastia de Avis (Zurara,
Guiné, pp. 5-6) e pelo próprio rei D. João I (Livro de Montaria, p. 2).
4) capta a benevolência do público pela identificação emotiva;
5) constrói, pelo uso da imagem, a delectatio.
Assim, ao mesmo tempo que obtém a benevolentia compassiva do leitor
e que o seduz pelo deleite, João Álvares insere a narrativa num género concre -
to, as paixões dos mártires, condicionando a leitura que se seguirá e criando
um horizonte de expectativas favorável à matéria hagiográfica da obra.
O modus agendi, que os autores de prólogos normalmente declaram
expli cando fontes e métodos de selecção ou compilação, simplifica-se pela
ausência de fontes escritas, provindo toda a informação de relatos ouvidos e
do conhecimento directo do autor (“apresento este trautado, primeiramente
do que me foy contado e depois do que vy”). A parte final do prólogo é
ocupada com a invocação do encomendador, ao qual a obra é dedicada (“com
reverença de vosa exçilente Senhoria e sob coreiçom e enmenda de vossa muy
nobre e vertuosa descripçom…espero que, pelo seu, este tractado vos seja
mais apto e graçioso”), intercalada com a inevitável invocação da ajuda divina
e modesta afirmação de “inorançia e sinpreza”.
O paralelismo estrutural dos Prólogos II e III é, assim, evidente (v. quadros
finais), tornando-se necessário explicar a duplicação. Na verdade, cumprem
diferentes funções. Ao contrário do segundo, onde o Infante aparece mencio -
nado na 3ª pessoa, no terceiro prólogo desaparece o tópico da obediência,
substituído pela dedicação da obra ao Infante D. Henrique, ao qual o autor se
dirige na 2ª pessoa, o que faz este prólogo equivaler a uma carta dedicatória.
O dever de registar a memória devida aos virtuosos, apresentado como a
utilitas da obra no exórdio de ambos os prólogos, torna-se uma motivação
mais premente no terceiro, pela antevisão das penas merecidas pelo silêncio
(“nom som ousado d·encobrir[…] o que eu, calando, de seer mereçedor de
muitas penas me nom poderia escusar”). Por fim, o paralelismo evangélico
construído no Prólogo III reafirma, agora mais poderosamente, o estatuto de
mártir do Infante, apenas enunciado no Prólogo II, e atribui ao autor um grau
de credibilidade inultrapassável devido à conotação sacral da sua própria
equiparação ao evangelista João, a que a coincidência do nome dá ainda maior
poder de sugestão, e que lhe permitirá conduzir a narrativa sem admitir
qualquer questionamento. O reforço obtém-se ainda pela explicitação, no
Prólogo III, do modus agendi, ausente do outro prólogo, e que neste usa o verbo
sensorial (“vy”), certificador da verdade. É interessante que em nenhum dos
dois prólogos a veracidade da narrativa seja explicitamente afirmada nem
argumentada, apesar de se contar entre os tópicos habituais dos prólogos,
Cristina Sobral 15
nomeadamente dos hagiográficos
13
. Aparentemente, a credi bi li zação do au -
tor construída, da qual se infere um grau absoluto de veraci dade, é suficiente.
João Álvares terá planeado estes dois textos introdutórios para poder
dirigir-se a dois destinatários diferentes: o comum leitor, no Prólogo II, e, no
Prólogo III, o seu patrocinador, D. Henrique, a quem o conteúdo da obra
deveria agradar, não só pela necessidade de justificar o patrocínio mas
sobretudo por João Álvares ter plena consciência da importância política que
tinha a interpretação da morte de D. Fernando como um martírio e por saber
do empenho do Infante Navegador nessa interpretação. Assim, o prólogo que
lhe é dedicado parece ter sido pensado para cumprir também a função
de confirmatio da proposta apresentada no prólogo anterior, onde o “acaba -
mento” do “Ifante dom Fernando[…] antre os mouros” é declarado “por
eixalçamento da santa ffe catolica”.
Admitindo esta leitura, coloca-se em seguida a questão da funciona li -
dade do Prólogo I, aquele que apresenta, na estrutura externa do manuscrito,
uma maior independência. O que mais marcadamente distingue este prólogo
é, além da delimitação clara, na sua estrutura retórica, de uma refutatio, a
contaminação de todo o texto por um discurso notoriamente orientado para
a contradição dos opositores (v. quadro final). Aqui a sentença exordial toma
como tema a verdade, afirmando o mérito dos que dela dão testemunho e
vinculando-o ao mérito dos evangelistas. Evoca-se, portanto, a verdade
inques tionável, sancionada por Deus, que João Álvares articula causalmente
(“porende eu”) com o seu próprio testemunho. A credibilização da sua voz
autoral, também tratada nas causae compositionis dos dois outros prólogos,
assume neste pormenores biográficos inéditos, que traçam mais nitidamente
a linha tangencial das vidas do biógrafo e do biografado. O segmento textual
seguinte, a refutatio, aponta hostilmente o dedo aos “maldizentes” e “sofis ma -
dores”, já não aqueles, abstractos, virtuais, de que João Álvares, enquanto
autor, se demarcara no exórdio, mas aqueles cujas vozes conhece e que, muito
concretamente, gostaria de poder calar (“posto que minha mãão abranjer
nom possa a poher.se sobre as bocas”), cujas línguas gostaria de “moderar e
refrear” e cujo poder é bem real, visto que, se apenas o desejo da fama o
movesse, encontraria nesse poder boas razões para receio (“nom por eu
desejar tanto o louvor desta obra que muito mais nom devese reçear de me
apoer aos contrairos sofismadores”). Mas, como afirmará também nos outros
Paratexto
16
13
Braga, “Prologhi delle opere in prosa”, pp. 122-123; Dolbeau, “Les prologues de légendiers
latins”, p. 345.
prólogos, João Álvares obedece ao encargo que lhe fizera D. Henrique, senhor
sob cuja protecção crê estar a salvo. É à certificação de verdade, expressa
enfaticamente em triplicação de adjectivos (“cousas çertas e manifes tas e em
todo vereficadas”) e enumeração verbal (“o vy e ouvy e assy o afirmo”), que
está subordinada a apresentação da materia, contaminada pela refutação
vigorosa do seu contrário (“nom em fingidas patranhas nem em ouçiosas
fabulas, que seguem empos dos ventos e careçem de toda verdade”, “nom
mento”, “do contrario me sento por pelegrim e estranho”). Ganha a propositio,
com a invocação do testemunho divino, um tom assertivo, categórico, que
não se encontra nos outros prólogos. É interessante notar que da conclusio
está ausente o motivo da humilitas, aliás escassamente presente no Prólogo I,
e que, além da petição de ajuda divina, vemos aparecer a evoca ção de outro
protector (ausente dos outros prólogos), capaz de se sobrepor ainda à
protecção do Infante D. Henrique, o próprio rei D. Afonso V, e repe tir-se, pela
última vez, a invectiva contra os adversários. É também única neste prólogo
a identificação explícita do autor (“eu, frey Joham Alvarez”), ampa rado no
seu título (“cavaleiro da Ordem d’ Avis”) e na sua ligação insti tu cio nal a um
grande senhor (“e da casa do Senhor Ifante dom Anrique”).
A certificação de verdade, a contradição dos opositores, a alegação de
protecção poderosa e o reforço da autoridade autoral, marcantes neste prólo -
go, esclarecem a razão da sua existência. Enquanto os outros dois podem ser
considerados prólogos a nostra persona, em que o autor apresenta as circuns -
tâncias pessoais que o impelem a escrever uma obra para a qual ninguém
estaria mais habilitado e nos quais procura captar a benevolência do público
pela identificação emotiva e pelo deleite, o Prólogo I é um prólogo ab
adversariorum persona, que visa o vitupério dos opositores
14
. A necessidade
de um prólogo assim parece apontar para um contexto de recepção de previ -
sível animosidade
15
. Não devemos deixar-nos iludir pelo facto de nos três
prólogos encontrarmos estruturas e tópicos da retórica tradicional. Apesar
de serem os prólogos muitas vezes vistos como lugares-comuns despidos de
referencialidade, creio, pelo contrário, que os moldes formais da retórica
Cristina Sobral 17
14
Lausberg, Manual, vol. I, pp. 250, 252.
15
Podemos encontrar um caso similar num dos prólogos de Odão de Cluny à Vida de S. Geraldo
de Aurillac, de cujo estatuto de confessor duvidavam muitos, que não viam como um poderoso
conde o poderia ter alcançado. O hagiógrafo, prevendo as objecções, despende boa parte do pró -
logo, concebido para esse fim, explicando o método usado para apurar a verdade, e refutando os
que questionam a santidade de Geraldo (Braga, “Prologhi delle opere in prosa”, pp. 123-126).
ofereciam em muitos casos um modus dicendi, usado pelos autores para mais
eficazmente transmitirem ao público os conteúdos pretendidos.
Sabemos que, logo em 1437, o desastre de Tânger foi interpretado na
sociedade portuguesa sob diferentes perspectivas. Dos fidalgos que tinham
participado no cerco, alguns contestaram abertamente a actuação do Infante
D. Henrique, vendo na prisão de D. Fernando o resultado de uma desastrada
intervenção militar, interpretação refutada, aliás, pelo rei:
quamdo o Iffante Dom Hamrique ueo de Tamger, porque algúús
daquelles fidallguos que com elle forom, queremdo emcobrir seus
falleçimentos, deziam algúuas cousas comtra o Iffamte, aas quaaes
seu jrmãao nom quis dar nenhuúa ffe, amte dezia que seu jrmaão
nom poderia fazer cousa que nom fosse justa e boa. mas que elles o
deziam por se escusar, do que comtra elles rrazoadamente podia
seer dito.
16
Outros adoptam oposta atitude, lançando as bases de uma interpretação
providencialista do cativeiro do Infante Santo:
o soberano não se deixou influenciar pelo clima de contestação às
decisões tomadas pelo Navegador, patente em parte nos homens
que regressavam de Tânger, elogiando mesmo a atitude de Álvaro
Vaz de Almada, que, antes de se apresentar ao rei, “logo de finos
panos e alegres coores se vestio, a sy e a todollos sseus[…] com sua
barba feyta e o rosto cheo d’alegria”, para depois, na sua presença,
enumerar as diversas razões pelas quais D. Duarte “devia seer muy
alegre e contente, estimando ænada ho cativeiro do Ifante seu
irmãao, que era huum homem soo e mortal, em que avia muytos
remedios, em respecto da grande fama que naquelle fecto em seu
nome se ganhara”.
17
O assunto da entrega de Ceuta e da libertação de D. Fernando é longa -
mente discutido, em Janeiro-Fevereiro de 1438, nas cortes de Leiria, onde os
partidos a favor e contra a entrega de Ceuta se manifestam, estando o Infante
D. Henrique entre os últimos. D. Duarte morre em Setembro de 1438, dei -
xando o reino mergulhado numa grave crise política que só virá a resolver-se,
depois da batalha de Alfarrobeira (1449), durante o reinado de D. Afonso V.
Em 1443, a notícia da morte do Infanto Santo desencadeia comoção social:
a “morte deste Yfante por sua calydade e desemparo foy muyto sentyda e
Paratexto
18
16
Zurara, Ceuta, p. 130.
17
Fontes, Percursos, p. 101, que cita Pina, D. Duarte, p. 563.
pranteada neste Reyno, e priyncipalmente dos Yfantes seus Yrmãos, que lhe
mandaram fazer muy honrradas e sollenes exequyas e saymento”
18
. A ferida
não sarou facilmente e ainda sangrava quando, em 1451, durante as festas do
casamento da infanta Leonor com Frederico III, se fez um discurso público
relatando “de que modo Dom Fernando[…] se entregou à morte pela pátria e
libertação do seu povo em África”, desencadeando entre o povo “grande e
alto clamor” pelo príncipe “martirizado” e emocionando mesmo o embai -
xador Nicolau Lanckman
19
. Se considerarmos que este discurso se integrava
no programa oficial das festas oferecidas pelo rei para celebrar o casamento
de sua irmã com o imperador alemão, há que entendê-lo como elemento de
uma estratégia oficial, promovida pelo rei, para divulgar nos centros europeus
de poder político a figura do seu tio como mártir da Cristandade. No reino,
no final do século (1468-78), o valor sacrificial da morte do Infante tinha sido
assumido como o emblema do desastre de Tânger e encontra eco em textos
memorialistas
20
.
Entre os leitores de João Álvares contar-se-iam muitos dos que haviam
participado na tentativa falhada de conquistar Tânger e muitos dos que
haviam defendido a entrega de Ceuta como resgate pela vida do príncipe.
Entre eles, alguns estariam certamente dispostos a discutir a interpretação
providencialista promovida oficialmente. A estratégia do biógrafo previne
uma recepção desfavorável, estabelecendo assertivamente, no primeiro pró -
logo, a sua autoridade e revestindo-se de atributos morais, sociais e de ligação
política que tornam a sua posição inatacável. Isso permite-lhe, ao longo da
narrativa, acolhendo embora o desejo manifesto de D. Fernando de ser resga -
tado – desejo conhecido de todos pelas cartas enviadas ao reino nesse sentido
– ir atribuindo ao Infante gestos e sentimentos em que, progressi vamente, o
espírito do martírio se vai manifestando por uma crescente indiferença pelo
sofrimento e pela aceitação da morte
21
. Não era possível a João Álvares,
narrando factos tão recentes e testemunhados, escamotear as várias diligên -
cias empreendidas por D. Fernando para obter o seu salvamento ou a fuga,
Cristina Sobral 19
18
Pina, D. Afonso V, p. 691.
19
Leonor de Portugal, pp. 37-39.
20
Por exemplo em Paulo de Portalegre: “do devoto Senhor ho Imfante Dom Fernãdo que moreo
antre hos imfieis por livrar os seus”, “depos a primeira ida de Tangere, quando ficou laa e se deu
en arrefés por livrar a todos ho Imfante Dom Fernando” (Paulo de Portalegre, Novo Memorial,
pp. 152, 162).
21
Álvares, Trautado, pp. 42, 43, 58, 79.
nem o seu desejo de abreviar a dor
22
. Mas era-lhe possível transmitir aos
vindouros os segredos que só ao fiel secretário haviam sido revelados e que
lhe permitiam contar mais do que os gestos presenciados: os pensamentos
íntimos do Infante, as considerações interiores que haviam, afinal, pesado
nas suas decisões:
E nom enbargando que este Senhor conheçese o trabalho e perigoo
que lhe seriia poendo.se em mããos e poder de tam maa jente, como
aquele que de bõõa vontade consentyra de dar sua vida, logo aly,
por serviço de Deus e por livramento de todos, ele se ofereçeu e pos
em arrafem.
23
Reserva-se, assim, a competência para interpretar correctamente – e não
“ao reves ou pello contrairo” – as intenções do Infante. Depois do eficiente
trabalho de persuasão a que os três prólogos o conduziram, não ousará o
leitor perguntar como sabia o biógrafo o que pensava o Infante no momento
em que aceitou entregar-se como refém nem por que planeia a sua fuga
alguém que, desde o primeiro momento (“logo aly”), “consentyra de dar sua
vida”, como o mártir que se entrega voluntariamente ao seu perseguidor.
Resta por explicar a singular anteposição do Prólogo I ao incipit.
Podemos encará-la como uma forma adoptada pelo autor para intensificar a
força persuasiva do primeiro paratexto, destacando-o visualmente dos outros
dois, ou propor uma outra interpretação. Considerando a severa acusação
aos “maldizentes”, apontados num tom de hostilidade que distingue este
prólogo dos restantes, e a menção clara à alta protecção de que goza o autor,
não poderíamos imaginar este prólogo como uma reacção directa e firme à
recepção prévia de um manuscrito antecedente? O manuscrito sobrevivente
é contemporâneo do autor (que vem a morrer entre 1485 e 1490). Poderia ele
ter escrito o Prólogo I para integrar pela primeira vez esta cópia, entregando-
-o ao copista juntamente com o manuscrito anterior, que serviria de
exemplar? Se assim fosse, o escriba poderia, depois de iniciar o novo manus -
crito com a cópia do novo prólogo, ter levado a sua fidelidade ao ponto de
reproduzir a rubrica de incipit no preciso lugar onde a encontrou no exemplar.
A situação de codex unicus do testemunho não nos permite aferir a hipótese
mas a sua consideração permite explicar coerentemente a posição material
do Prólogo I no códice e a singularidade do seu conteúdo.
Paratexto
20
22
Álvares, Trautado, pp. 38, 61, 73 ; p. 49.
23
Álvares, Trautado, p. 26.
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Paratexto
22
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Cristina Sobral 23
Prólogo I (Álvares 1-2)
Paratexto
24
Exordium sententia
Narratio causa
compositionis
Refutatio
Propositio obedientia
materia
Conclusio petitio
Como o mereçimento dos evanjelistas nom per venha aaqueles
que escondem o testemunho da verdade ou o manifestam per
contrairas e nom verdadeiras razõões com temor ou reçeeo dos
que murmuram ou prasmam os feitos alheos, toman do ao reves
ou pello contrairo antre petando as tençõões dos outros
credibilitas, captatio benevolentiae
porende eu, frey Joham Alvarez, cavaleiro da Ordem d.Avis e da
casa do Senhor Ifante dom Anrique, que fuy criado e secretaryo
do muyto vertuoso Senhor Ifante dom Fernando, que Deus tem
em sua gloria, e porque me criou de hidade de x anos em sua
camara e o seguy e o servy senpre em maneira e carego muy
sengular ataa o seu cativeiro e em ele ata sua morte, e ficando
depois em cativo çinque anos e mais, e por eu seer ao presente a
mais çerta e chegada testemunha de sua vida e de seus feitos,
humilitas
posto que minha mãão abranjer nom possa a poher.se sobre as
bocas dos susoditos nem seja sofiçiente pera, com tenperada
redea, moderar e refrear as lingoas dos maldizentes, nom por eu
desejar tanto o louvor desta obra que muito mais nom devese
reçear de me apoer aos contrairos sofismadores e dar.me por
autor de tam grandes cousas,
enpero todo me nom enbargando, poendo eu por iso as
espadoas no riyo esteo e soficando.me no firme fundamento e
animaçom do dito Senhor Ifante dom Henrique,
veritas
me atrevy d.abrir minha boca nom em fingidas patranhas nem
em ouçiosas fabulas, que seguem empos dos ventos e careçem de
toda verdade, mais [em] cousas çertas e manifestas e em todo
vereficadas, as quaaes propus de falar açerqua do meu
proposito. E tomo por testemunha Noso Senhor Deus, que he
caminho, verdade e vida, pelo qual quem quer que andar achará
folgança e repouso. Este sabe que nom mento e que todo o
contheudo no seguinte trautado eu o vy e ouvy e assy o afirmo e
do contrario me sento por pelegrim e estranho,
supplicatio
avendo iso meesmo respecto aas muitas grandes vertudes do
christianysimo dom Afonso, Rey e Senhor noso, sob reverença
do qual e por cujo serviço reçebo favor e tanta ousança pera hir
adiante com minha obra, nom çesando dela nem tornando
atras, ataa seer acabada
com ajuda do todo poderoso Deus, que aos seus prometeu de
dar boca e lingoa, a que seus adversarios nom podesem
contradizer.
Cristina Sobral 25
Prólogo II (Álvares 3-4)
Exordium sententia
confirmatio
Narratio causa
compositionis
Propositio obedientia
materia
confirmatio
Conclusio petitio
Quanto som dignos de perpetua memoria aqueles que neste
mun do viverom e obrarom vertuosamente a razom no.lo
demostra
e ainda claramente o achamos per muitas santas autoridades,
antre as quaaes diz Sam Gregorio: «Justa cousa he de seer em
conthinuada memoria antre os homens o que mereçeo de seer
alojado e conpanhom com os angios».
credibilitas, captatio benevolentiae
Açerqua desta nenbrança estando eu ocupado, ja esperto das
temerosas visõões em outro tenpo conseguidas sob poderio dos
mouros, roubado da conversaçom daquele Senhor vertuoso, em
cuja conpanha, sem alheo costrangimento, me somety ao
pesado jugo do infiel cativeiro, e dey aa memoria aquelas cousas
que muyto contristom a minha aalma
Mas porque o mui alto e muy poderoso prinçepe ho Senhor
Ifante dom Anrique me mandou que, ante da minha partida
pera fora destes reignos, leixasse em escripto o que sabia da vida
e feitos de seu irmãão o Ifante dom Fernando, o qual antre os
mouros, neestes dias, por eixalçamento da santa ffe catolica fez
seu acabamento,
credibilitas
e por eu seer ao presente a mais prinçipal e achegada testymunha
destes feitos, e p[e]ra conprir mandado do dicto Senhor, me
despus ao seguinte trabalho
humilitas, supplicatio
E, avedo conhecimento de minha fraqueza e boto entender pera
dar obra a semelhante obra, ao todo poderoso Deus peço ajuda
e favor, e graça aaquela Senhora Virgem sua madre, que meu
fraquo entender queiram afortelezar e adelguaçem meu rudo
engenho, segundo pera tal auto perteeçe.
Paratexto
26
Prólogo III (Álvares 4-5)
Exordium sententia
amplificat.
Narratio causa
composit.
Propositio materia
modus
agendi
Conclusio petitio
A memoria das cousas pasadas dá conheçimento das que som por våår.
E asy os notavees feitos dos antigos se põõem em escripturas pera suas
obras vertuosas seerem em nenbrança, por ensinança e doutrina de nós
outros e por seus autores pera senpre viverem no mundo per bõõa fama,
e ainda por tal que aqueles que os semelhar quyserem, seguyndo suas
peegadas, sejam mereçedores de perpetua memoria e de nome gloryoso
e imortal, e porquanto os que desfazem ou encobrem a fama ou no -
meada d.outrem encorem em nome e pena de roubadores e omeçi das,
ca verda deira justiça nom consente que alghúú do seu seja roubado.
credibilitas, captatio benevolentiae
Porende eu, que fuy dos chamados e escolhidos pera o convite postu -
meiro, onde em lugar de pam se comeu amargura e o bever com
lagremas foy mesturado, de que se escrepve que, como ho Senhor muito
amase os seus, na fim os amou muito mais e, feita a çeea e eu avondado
de tam tristes manjares, sobre o regaço do Senhor me acostey, onde me
muytos sagredos forom revelados,
polo que nom som ousado d.encobrir tanta claridade e lume de
mereçimento que em nossos dias o piadoso Deus fez esclareçer do
linhajem reall dos portugueses, o que eu, calando, de seer mereçedor de
muitas penas me nom poderia escusar. Mais enpero como fameliar
criado e obediente servidor que som daquele muy vertuoso Senhor e
que desejo comer das migalhas dos sobre avondantes mereçi mentos que
cããe da sua mesa, a vós, muy alto prinçepe e muito poderoso Senhor,
apresento este trautado, primeiramente do que me foy contado e depois
do que vy,
humilitas, supplicatio
com reverença da vossa exçilente Senhoria e sob coreiçom e enmenda
da vossa muy nobre e vertuosa descripçom, no qual, se achardes cousa
de bem e a vós prazível, seja dada honra e gloria a Deus e louvor aaquele
Senhor de que reçeby qualquer bõõa doutrina se em my ha, cuja merçee
e feitura me confesso. E o que vos pareçer digno de reprensom ou de
core gimento seja posto aa minha inorançia e sinpreza e nom a outro
maleçioso engano, julgando a obra segundo minha bõõa e direita tææçom,
exemplum
per enxenpro daquela molher prove e devota veuva, de que faz mææçom
o evanjelho, que deitou húa mealha no gazofilaçio do tenplo, a qual
Noso Senhor Jhesu Christo diz que lançou mais que todos que muito
mayor cantidade derom, porque de vontade bõõa ofereçeu quanto tiinha,
humilitas, supplicatio
ca o vosso bõõ animo, de todo mal isento, que senpre foy e he apare lha -
do pera todo bem fazer, me dá atrivimento pera com toda bõõa afeiçom
reçeb[er]des as cousas daquele Senhor, vosso verdadeiro amigo e irmãão,
a que vós senpre tanto amor e afeiçom mostrastes. E porque eu tenho
visto que suas cousas vos forom e som senpre muito prazivees, e que nom
com menos vontade galardoastes e fezestes merçees aos seus como aos
pro prios vosos, espero que, pelo seu, este tractado vos seja mais apto e
graçioso.
O que dizem «licenças».
Ecos da fama da Clavis Prophetarum
1
Isabel Almeida
Universidade de Lisboa
1. a leitura como problema
A leitura das licenças – do Santo Ofício, do Ordinário e do Paço – dos
Sermoens do Padre António Vieira pode dar a medida do peso atribuído, entre
finais do século XVII e o começo do século XVIII, a um conceito de autor
2
.
Valia a «reputação»
3
de Vieira – «um tão insigne Sujeito»
4
– como marca
individual: «todos os Sermões são grandes: porque todos são seus»
5
; «O
nome do seu Autor, que trazem na primeira página, basta para o maior elogio
desta obra»
6
. E porque se julgava reconhecível, i.e. singular, quanto Vieira
produzira, ressaltavam fortes expectativas: «As suas Obras são em tudo tão
iguais, que o mesmo juízo que se fez de úas, se deve fazer de todas»
7
.
Supérfluo enfatizar: sobre uma geral euforia, ergue-se especialmente
nestas aprovações o louvor da parenética; a atenção (que despertou no Jesuíta
Românica 18, 2009
1
Uma vez que são utilizadas várias edições de textos parenéticos de Vieira, a sua distinção, nas
indicações abreviadas em nota-de-rodapé, far-se-á pela data de publicação. No que toca à
epistolografia, o tomo III da edição setecentista será identificado também pela data (1746), a
qual se dispensa na citação das Cartas organizadas por João Lúcio de Azevedo. Na transcrição de
edições antigas, procede-se a uma actualização das grafias, mantendo apenas aquelas que
representam uma realidade fonética própria. São introduzidos ajustamentos na pontuação.
2
Trata-se de um fenómeno amplo, a uma escala europeia, e dele fornecem testemunho muitos
paratextos (ver Anne Cayuela, Le paratexte au siècle d’or).
3
«Censura do Illustrissimo, & R. D. Fr. Timotheo do Sacraméto […]», in Xavier Dormindo, e Xavier
Acordado […]. Oitava Parte, 1694.
4
«Censura do M.R.P.M. o Doutor Fr. Manoel da Graça […]», in Sermoens […]. Terceira Parte, 1683.
5
«Censura do M.R.P.M. Frey Joseph de Jesus Maria […]», in Sermoens […]. Quarta Parte, 1685.
6
«Censura do P.M. Manoel de Sousa […]», in Sermoens […]. Quinta Parte, 1689.
7
«Approvaçam do M.R.P.M. Fr. Ioam da Madre de Deos […]», in Sermoens […]. Segunda Parte,
1682.
uma retórica modéstia
8
…) incide no prestígio do pregador apostólico,
«grande Mestre»
9
, «Oráculo de todos os Pregadores»
10
, «o Salamão da
Prédica Portuguesa»
11
, «Rei de todos os engenhos»
12
. Por regra, não chegam
a ser referidos outros títulos nem outros géneros. Duas excepções, porém,
destacam mais vasta matéria e por isso mais importam: as licenças devidas,
na «undécima» e na «duodécima» partes dos Sermoens (publicadas em 1696
e 1699, respectivamente
13
), a D. Diogo da Anunciação Justiniano, Arcebispo
de Cranganor.
De que fala D. Diogo Justiniano? O teor das suas «qualificações» é tão
panegírico como o que adoptam seus pares; todavia, à habitual aclama ção da
oratória de Vieira, o Arcebispo associa a exaltação da Clavis Prophetarum. Em
1696, escreve:
Praza a Deus, que dos Sermões do Padre Vieira vejamos nós o seu
último Benjamin, com que satisfaz a sua promessa no duodécimo
tomo, que nos falta; e então confessaremos, que este será o seu
duodécimo, e ditoso Filius dexterae; quando depois de sair à luz
deixe ainda vivo ao pai, para nos poder comunicar no seu célebre
Clavis Prophetarum, aquele monstruoso parto com que a sua ciência
tem suspensa a nossa expectação. Onde concluo, que Vossa
Majestade não só deve conceder a licença que se lhe pede, mas
ordenar ao Autor, que por crédito da nossa nação se anime a não
deixar enterrado em o pó do esquecimento ainda aqueles fragmen -
tos que tem apontado o seu incansável estudo, pois em cada um
deles se perderá um tesouro.
14
Paratexto
28
8
Ao Marquês de Gouveia, declarava: «Sobre a aprovação do quarto, em que vejo tão demasiada -
mente encarecida a pobreza do meu engenho, não sei que diga a V. Ex.ª. A frase com que no
Brasil se declara que os engenhos não moem é dizer que pejaram; e eu verdadeiramente tenho
pejo de que se diga no frontespício do livro o que se não há-de achar nele. Já estava contente com
que, tendo-se passado o nosso Arcebispo a este outro mundo, não haveria nesse quem tanto me
envergonhasse; mas V. Ex.ª, pelo excesso da mercê com que sempre me honrou, não achando
sobre a terra quem o fizesse, o foi desencovar nas serras da Arrábida.» (Cartas, III, p. 504 – Baía,
5 de Agosto de 1684).
9
«Censura do M.R.P.M. Fr. João do Espirito Santo […]», in Sermoens […]. Sexta Parte, 1690.
10
«Approvaçam do M.R.P.M. Fr. Ioam da Madre de Deos […]», in Sermoens […]. Segunda Parte,
1682.
11
«Censura do P. Mestre Domingos Leitão […]», in Sermoens […]. Septima Parte, 1692.
12
«Censura do Illustrissimo Senhor Dom Diogo da Annunciação […]», in Sermoens […]. Undecima
Parte, 1696.
13
As datas das censuras são 14-3-1696 e 5-9-1698.
14
«Censura do Illustrissimo Senhor Dom Diogo da Annunciação […]», in Sermoens […]. Undecima
Parte, 1696.
Argumentação similar, desenvolvê-la-ia, insistente, dois anos depois:
Se na sua Clavis Prophetarum falta algúa guarda para poder abrir em
algum Capítulo dos Profetas; do Padre António Vieira não há chave,
que não seja mestra, para poder abrir a fechadura de toda a dificul -
dade: e se ao último Tomo desta célebre obra, segundo me disseram,
faltam só duas disputas, melhor é que duas disputas nos faltem do
que pela falta de duas disputas ficarmos perdendo a dous Tomos,
que forçosamente devem ficar sem a última mão, porque só a lima
do Padre António Vieira pode aperfeiçoar condignamente a guarda
da sua chave.
Posso afirmar a Vossa Majestade pela notícia, que deu em
Roma, quem teve a fortuna de ver esta grande obra, e pelas confe rên -
cias que tive na mesma Corte sobre a matéria do seu argumen to, que
enquanto não aparecerem estes dous livros, ainda está no mundo
por saber quem é o Padre António Vieira […].
15
Os elogios proferidos radicam na fama do autor e na convicção de que
sempre será sem preço qualquer obra sua. Não é alegado nenhum contacto
directo com a Clavis, e torna-se óbvio que, ao instar à sua divulgação, D.
Diogo Justiniano apela ao resgate de uma ilustre desconhecida em risco de
«naufrágio»
16
: «outro naufrágio foi o juízo que muitos fizeram desta
empresa, sem saberem, nem o que ela é, nem o que ela contém. E para Vossa
Majestade evitar segundo furto, e impor perpétuo silêncio a quem fala sem
saber o que diz, deve logo mandar publicar esta obra […]»
17
.
Se a história do livro ensina a não prescindir dos aparatos paratextuais,
a história da literatura prova a vantagem de articular paratextos, textos e
contextos, fazendo do cruzamento de informações e hipóteses um caminho
de compreensão. Processos de formação de perspectivas – seja de quem cria,
seja de quem lê –, há que indagá-los, nas suas bases, nas suas implicações, nas
suas consequências. Na verdade, o zelo de D. Diogo Justiniano em nada é
despiciendo, quase vinte anos após o comentário que, à entrada do tomo
inaugural dos Sermoens (1679), Vieira gravara no preâmbulo ao «Leitor»,
Isabel Almeida 29
15
«Censura do Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor Dom Diogo Justiniano […]», in Sermoens
[…]. Parte Duodecima, 1699.
16
Ver Serafim Leite, S.I., «O P. António Vieira e as Ciências Sacras no Brasil. A famosa Clavis
Prophetarum e seus satélites».
17
«Censura do Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor Dom Diogo Justiniano […]», in Sermoens
[…]. Parte Duodecima, 1699.
lamentando que o tempo ameaçasse devorar «peças meio forjadas» da sua
«oficina de Vulcano»: «Só sentirei que este me falte para pôr a última mão
aos quatro Livros Latinos de Regno Christi in terris consummato, por outro
nome, Clavis Prophetarum, em que se abre nova estrada à fácil inteligência dos
Profetas, e tem sido o maior emprego de meus estudos»
18
. Fixemos os
trechos citados: entre o público desabafo que recenseia a «peça» inacabada,
e os entusiásticos alvitres do Arcebispo de Cranganor, cabem nexos que urge
explorar.
Surpreenderá assim, por um lado, o comportamento de Vieira, que, ao
arrepio de expectações e anúncios, nunca – nem em sua «extrema velhice»
19
– pôs fim à Clavis; por outro lado, perceberemos o dinamismo do fenómeno
da recepção. Sem dúvida, Vieira muda, mas muda igualmente o quadro que
o rodeia, tanto que será lícito interrogar: no teatro do mundo, até que ponto
certa imagem do autor (filtro construído, desde logo pelo próprio) logrou
condicionar quanto se viu ou supôs existir na Clavis, e vice-versa?
2. a Clavis sonhada
Recapitulemos: dirigindo-se ao «leitor», no primeiro volume dos
Sermoens (ultimado em 1677, saído do prelo em 1679), Vieira aplicou-se a
mencionar os «livros latinos» da Clavis Prophetarum como sombra viva no
palco iluminado pela edição da parenética. Significava isso que não deixava
esquecer aquele trabalho empreendido ao cabo de duras penas: longe do que
sucede com um livro «ideado», «Pregador e ouvinte cristão»
20
, a Clavis surge,
apesar das escusas, dotada de contornos e mais prometida do que preterida
em face dos Sermoens – «Mas porque estes vulgares são mais universais, o
desejo de servir a todos, lhes dá por agora a preferência»
21
.
Saliente-se o justificativo da escolha do objecto a estampar («porque
estes vulgares são mais universais»); perscrute-se o carácter circunstancial
dessa opção (flexível, a cláusula «por agora»); note-se o encarecimento da
dupla obediência – de súbdito e de religioso – como móbil da iniciativa
Paratexto
30
18
Padre António Vieira, Sermões, I, 2008, p. 8.
19
Cartas, III, p. 675 (à Rainha D. Catarina de Inglaterra – Baía, 25 de Setembro de 1695).
20
«Se chegar a receber a última forma um Livro, que tenho ideado com título de Pregador, e Ouvinte
Cristão, nele verás as regras, não sei se da arte, se do génio, que me guiaram por este novo
caminho.» (Padre António Vieira, Sermões, I, 2008, p. 6).
21
Padre António Vieira, Sermões, I, 2008, p. 8.
(à «obrigação» de «vassalo» de D. Pedro somava-se a grata vénia ao «Reve -
ren díssimo P. João Paulo Oliva, Prepósito Geral» da Companhia de Jesus
22
).
Pontificam, é nítido, critérios de impacto, questões de princípio.
Como quem teme, magoado, ou como quem, antecipando o mal, ambi -
ciona esconjurá-lo, Vieira não calava a insinuação de que, no concer nente ao
Príncipe, débil se adivinhava o eco do seu empenho: «Mas porque os afectos
se não herdam com os Impérios»
23
… E imenso terá sido o dano desse
desencontro: porque não foi terminada a Clavis Prophetarum, cuja língua
era o universal latim? Quando, na década de 90, a rainha D. Maria Sofia
de Neubourg e o novo Geral da Companhia pressionaram Vieira para que
concluís se a obra profética
24
, não teria o Jesuíta modo de compatibilizar
estas solicitações com a obediência a D. Pedro e a fidelidade à memória de
Giovanni Paolo Oliva
25
? Que motivos o levaram a não agarrar a ocasião
propor cionada e a obstinar-se na editio dos Sermoens, procrastinando o
remate da Clavis que tão amiúde e superiormente lhe foi então requerido?
Isabel Almeida 31
22
Padre António Vieira, Sermões, I, 2008, p. 5.
23
Padre António Vieira, Sermões, I, 2008, p. 3. São palavras da dedicatória a D. Pedro, datada de 21
de Julho de 1677. Vieira reiterá-las-ia treze anos mais tarde, numa carta ao cónego Francisco
Barreto, ao afirmar «que os filhos com as coroas não herdam os ânimos dos pais» (Cartas, III, p.
595).
24
Quer através do seu confessor, o P.
e
Leopold Fuess (S.I.), quer «por sua própria mão» redigindo
algumas linhas, datadas de 28 de Fevereiro de 1695, D. Maria Sofia fizera saber a Vieira do
agrado com que recebera Xavier Dormindo e Xavier Acordado (Cartas, 1746, pp. 421-423). A 28 de
Janeiro de 1696, era a vez de o P.e Tyrso González responder nestes termos ao pedido que lhe
endereçara a soberana: «ainda que eu e a Companhia não fôssemos tão interessados no crédito
que nos granjea um Varão tão douto e admirável pelos seus escritos, bastava o desejo de Vossa
Majestade para me obrigar a fazer todo o empenho para que esta obra, que justamente é a
expectação de toda Europa, saia à luz. A todos os particulares que Vossa Majestade me ordena,
dou inteiro e devido cumprimento. Ao mesmo Padre Vieira escrevo e encomendo muito
satisfaça ao gosto de Vossa Majestade; e para o mesmo fim lhe concedo permanentes quantos
Religiosos lhe forem necessários e ele pedir para seu alívio. No caso também, em que Deus o
chame a melhor vida, e fique o livro imperfeito, ordeno ao Provincial do Brasil, com preceito
grave de obediência, execute o que Vossa Majestade deseja e manda.» (pp. 433-434).
25
Em 22 de Julho de 1695, depois de contar uma queda que o teria deixado fisicamente muito
maltratado – «com uma ferida na cabeça e ambas as mãos estropeadas» (Cartas, III, p. 670) -,
Vieira escreve ao Padre Baltasar Duarte: «Mas nesta falta de forças de mim mesmo (em quem
propriamente se verifica Omnia fert aetas, animum quoque) me vejo de novo obrigado com duas
obediências, uma Real e outra da religião, a prosseguir e acabar a Clavis Prophetica, a que depois
de partida a frota me aplicarei do modo que for possível, entendendo que é vontade de Deus que
a morte me ache com esta obra de tanto serviço seu, ao menos no pensamento e na voz, já que
não pode ser nas mãos.» (Cartas, III, p. 671).
O gesto de Vieira, destemido a apregoar, em 1679 (época promissora,
por contas bandarristas: «já se cerram os setenta»
26
…), uma Clavis em
estaleiro, exige análise: lançada de Lisboa urbi et orbi, aquela declaração soa
como uma desforra, extravasando o limite discreto da confidência epistolar a
D. Rodrigo de Meneses, em 1672, sobre «um livro latino», «em grande
altura», «intitulado o Quinto Império, ou Império consumado de Cristo, que
vem a ser a Clavis Prophetarum». «Ninguém o lê sem admiração, e sem o
julgar por importantíssimo à inteligência das escrituras proféticas»
27
,
asseve rava o Jesuíta nestas notícias enviadas de Roma, onde permaneceu de
1669 a 1675. Entende-se o seu orgulho: é que pela Clavis – ainda que tão-só
esboçada, arquitectada – respondera nos quatro amargos anos de interro -
gatórios do Santo Ofício, entre 1663 e 1667.
Reconstituamos essa história. Cedo, no segundo «Exame» (25-9-1663),
intimado a depor sobre «papéis» em preparação, Vieira arrolou: um livro
latino, «que determina intitular Clavis Prophetarum cujo principal assunto,
e ma téria é, mostrar por algumas proposições, com lugares da Escritura, e
Santos, que na Igreja de Deus há de haver um novo estado diferente do que
até agora tem havido, em que todas as nações do Mundo hão de crer em Cristo
Senhor nosso, e abraçar nossa Santa Fé Católica […]»
28
. Até ao desfecho do
processo movido pela Inquisição, impressiona a resistência do réu, que, an sio-
so por advogar – contra mil admoestações – a inocência dos seus inten tos
29
,
compôs no cárcere, numa dolorosa penúria de meios, a Representação perante
o Santo Ofício (1666), ali explanando, além de outros, «o assunto do livro que
t[e]ve pensamento escrever», «Clavis Prophetica» ou «De Regno Christi»
30
.
Ora, nesse arrazoado, ziguezagueante entre juras de humildade pessoal e
Paratexto
32
26
Cartas a Duarte Ribeiro de Macedo contêm repetidas evocações das trovas de Bandarra, base de
uma renovada esperança que Vieira projectava no remate da década de 70 (ver Cartas, III, p. 271,
p. 346, p. 395; 10-5-1678, 23-1 e 5-6 de 1679), ajustando assim conjecturas anteriores sobre os
«anos da era de sessenta» (Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 66).
27
Cartas, II, p. 516 (Roma, 22 de Outubro de 1672).
28
Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 77.
29
Repare-se no título dado, no processo de Vieira, à sessão de interrogatório de 3 de Dezembro de
1666: «18º Exame, e intermédio, acerca de acabar por uma vez com tantos protestos, obséquios,
e submissões verbais somente, como o Réu faz, e obrigá-lo a que declare lisamente se quer estar
pelas censuras, e admoestações, e desistir da defesa, e mais razões, e filosofias.» (Adma Muhana,
Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 191).
30
Padre António Vieira, Representação perante o Tribunal do Santo Ofício, II, pp. 468, 469. Corro -
bora esta afirmação o teor da denúncia do Padre Fr. Jorge de Carvalho, com data de 5 de Abril de
1663 (ver Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 352; infra, nota 70).
protestos de aflição pelo «crédito» jesuíta, era a sua fama que por fim
avultava. Receando um vexame que infligiria à Companhia um revés «tanto
maior quanto as resoluções deste sagrado tribunal são mais justificadas e
respeitadas do mundo», Vieira acrescentava, pressuroso: «do mundo, em
todo o qual eu sou conhecido»
31
. Com esta tendência para a hipertrofia do
EU («se em mim não houvera mais que eu»
32
…) condizia o que a Inquisição
classificava como «vaidade»
33
: a desenfreada lide bíblica, infractora de
decretos tridentinos
34
, a reivindicação bandarrista do estatuto de «alto
engenho»
35
, o deleite na caracterização do êxito surtido pelos planos de
urdidura da Clavis, quando relatados a «pessoas doutas»
36
. Não custa, pois,
de acordo com Adma Muhana
37
, descobrir na redacção, em plena e pródiga
Cidade Eterna, da obra (ou parte dela) designada Clavis Prophetarum, um
voto de defesa e uma tentativa de cura da honra ferida.
Vieira partira de Portugal, em 1669, proibido de «mais não tratar das
proposições conteúdas em sua sentença»
38
. Diferente foi o retorno de Itália,
em 1675: conseguiu regressar protegido pelo generoso e digno Breve que o
Papa Clemente X lhe outorgou, e, imune a qualquer jurisdição inquisitorial
Isabel Almeida 33
31
Padre António Vieira, Representação perante o Tribunal do Santo Ofício, II, p. 472.
32
Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 309.
33
Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 324.
34
Leia-se o «6º Exame acerca de usar mal da Sagrada Escritura […]» ou a «Sentença» final (ver
Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, pp. 94-97, 310-332).
35
Na «Sentença» de Vieira, não é esquecido este pormenor (sinal do escândalo que terá
provocado): «E que em outra ocasião falando-se em Bandarra, dissera que tanto era certo ser
verdadeiro profeta, e por tal tido de muitas pessoas das mais autorizadas, que vendo algumas ao
Réu caído de certa privança e valimento, e com outras desconsolações, o animavam com lhe
dizerem, que necessariamente havia de melhorar de fortuna, pois o mesmo Bandarra assim o
havia profetizado em uns versos que dizem: Vejo um alto engenho em uma Roda triunfante;
entendendo pela Roda, a da dita fortuna, e pelo alto engenho, a ele Réu, a quem posto que então
estava abatido, tornaria ainda a levantar a própria Roda.» (Adma Muhana, Os Autos do Processo
de Vieira na Inquisição, p. 322).
36
Na «Petição ao Conselho Geral», Vieira dispõe-se a provar a bondade das suas intenções
invocando, entre outros meios, o testemunho de «pessoas doutas»: «E algum houve que
considerando a grandeza e importância de muitas das ditas matérias e a utilidade que do conhe -
cimento delas se pode seguir à universal Igreja e à conversão de muitas almas de Ateus, Gentios,
Judeus, e de todo o outro género de infiéis, e hereges, julgou e disse que eram merecedoras as
ditas matérias, de que na Igreja se fizesse um Concílio para maior qualificação delas.» (Adma
Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 126).
37
Ver Adma Muhana, «O processo de Vieira na Inquisição»; «Introdução», in Os Autos do Processo
de Vieira na Inquisição, pp. 26-27.
38
Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 333.
que não fosse a romana, absolvido de quaisquer condenações prévias,
conquistou uma sólida margem de liberdade. De «pensamento de livro»
39
, a
Clavis ganhara entretanto corpo e aguardava – garantia o autor, provocatório
ou anelando estímulo
40
– «a última mão». Que aconteceu, porém?
Presumivelmente a par do que a Parte I dos Sermoens ia, no seu preâm -
bulo, trazer a lume, ou alerta mercê de pistas fornecidas por Vieira, com
quem, sobretudo desde 1672, manteria uma estreita cumplicidade na espe -
cula ção sobre «comentos e profecias»
41
, Duarte Ribeiro de Macedo terá
aflorado a Clavis, em cartas da Primavera de 1679
42
, mas do que foi um
ágil comércio epistolar, só as missivas do Jesuíta estão hoje disponíveis.
Redarguindo a Macedo, Vieira conta o acesso à obra do P. Tenorio,
Compendium Ideae et totius operis elaborati ab A. R. P. Fr. Gundisalvo Tenorio
Peruano, Ordinis S. Francisci, et filio conventus Limae, dignioreque P. Provinciae
duodecim Apostolorum, cujo «assunto» – frisa – «simboliza em parte com o da
minha Clavis Prophetarum»
43
. Ainda com o amigo, embaixador em Madrid,
partilha colóquios reservados: de «um frade franciscano português» teria
ouvido que Tenorio «falava muito no império universal, e que cria constan -
temente havia de ser em Portugal, de que é mui apaixonado»
44
. Sempre a
Ribeiro de Macedo, confia conjecturas e pedidos: «Se Deus quer fazer aqui
[Lisboa] o teatro de suas maravilhas, a disposição não pode ser mais universal
[…]. Espero com curiosidade o que V. S.ª colhe da conferência do P. Tenorio;
posto que as suas esperanças se não podem fundar em mais fortes e sólidos
Paratexto
34
39
Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 279.
40
Sublinhe-se que na carta enviada a D. Rodrigo de Meneses, em 22 de Outubro de 1672, Vieira
expressava a vontade de «acabar» e «imprimir os [seus] livros, assim latinos como portugueses»
(Cartas, II, p. 515); a 3 de Janeiro de 1679, insinuaria, a Duarte Ribeiro de Macedo: «Farei tudo
o que puder na fraqueza em que me acho, e, se Deus der vida e forças, não serão só sermões.»
(Cartas, III, p. 339).
41
Cartas, II, p. 577 (7 de Março de 1673). Embora balançando entre o optimismo e o desânimo, ou
entre a convicção e a reticência («vaidades», «disparates», assim são designadas as menções de
profecias, nas cartas de 4-4 ou de 21-3-1673), Vieira toma Duarte Ribeiro de Macedo como
confidente dos seus sonhos bandarristas: «Muito me consola e anima dizer-me V. S.ª que de
todos os movimentos presentes tira V. S.ª consequências úteis e gloriosas para a nossa Pátria.
Também vejo que pode ser preocupação do amor, ou que a dor busque alívio na consideração de
bens futuros, e estima ter tão bom companheiro, ou tão grande exemplar para desculpa dos
meus que outros chamam delírios.» (Cartas, II, p. 451 – 31 de Maio de 1672).
42
Só a 15 de Setembro a Parte I dos Sermoens teve licença para correr.
43
Cartas, III, p. 360 (Lisboa, 6 de Março de 1679).
44
Cartas, III, p. 370 (Lisboa, 28 de Março de 1679).
documentos que os que nós temos, salvo se fala por revelação»
45
. Não
obstante as recomendações de prudência do interlocutor («Enfim, como
V. S.ª diz, estas matérias são mais para a presença que para cartas»), expande-
-se em alusões ao «livro manuscrito» em que o Padre Fernão Queirós exalçava
«o Império Universal» – «que também espera e pretende provar há-de ser em
Portuga
46
. E, galante sobre inclinações femininas
47
, saúda: «estimo muito
aprove [a senhora D. Maria] os discursos e esperanças do Padre Tenorio,
como tão conformes às das minhas culpas»
48
.
Se Vieira começou por destrinçar, da sua Clavis, o Compendium Ideae et
totius operis elaborati ab A. R. P. Fr. Gundisalvo Tenorio (só «em parte» aparen -
tados
49
…), depressa acomodou e converteu ao lusocentrismo a Ideia do
religioso peruano: promovia, assim, «esperanças de Portugal», aproximando
ao máximo o seu trabalho (reprovado) da obra do P.
e
Tenorio, que, decerto
por confusas informações, contrárias às suas perspicazes reticências
Isabel Almeida 35
45
Cartas, III, p. 377 (Lisboa, 17 de Abril de 1679).
46
Cartas, III, p. 381 (Lisboa, 1 de Maio de 1679). Mais discreto, já em 12-1-1672, a Duarte Ribeiro
de Macedo, Vieira aludia a «outras cousas que também predisse, de muito maior expectação e
glória de Portugal e da Igreja» (Cartas, II, p. 407). A obra de Fernão Queirós – Historia da Vida
do Veneravel Irmaõ Pedro de Basto – saiu, após um compasso de espera de «nove anos», em 1689.
No seu Livro IV, cap. XIV (fls. 445-450), «Prova-se que este quinto Império terá por cabeça o
Reino de Portugal». Na «Dedicatória ao Sereníssimo Princepe Dom Pedro II. Rei de Portugal»,
prometia-se: «Nela achará V.R.M. as melhoras da Índia profetizadas, e o que mais é, os acrecen -
tamentos de Portugal, de Reino, a Império, sendo este o último do mundo, no último Ocidente,
depois dos cinco que nele houve, principiados os quatro no Oriente; e com particular rezão
Império de Cristo, pela conversão universal das nações do mundo, que se reduzem a Gentios,
Maometanos e Hebreus; e tão manifesto o patrocínio de Deus sobre o Reino de Portugal como
se deixa ver do cuidado com que nas multiplicadas revelações do V. Irmão Pedro de Basto lhe
assiste; e no favor que em suas repetidas visões achou sempre do Céu o felicíssimo Senhor Rei
Dom João IV, Pai de V. R. M.».
47
É admissível que Vieira aludisse assim à filha bastarda de D. João IV, D. Maria, que o honraria
com o seu interesse (ver Cartas, III, p. 336 – a Duarte Ribeiro de Macedo, 20-12-1678). A
confirmar-se esta hipótese, ressalta a curiosidade pela literatura profética, difundida também no
convento carmelita de Carnide. Avizinhando a Idea, bem recebida, e a sua Clavis, condenada,
Vieira denunciava a disparidade de critérios na avaliação de cada uma das obras – e sugeria que
um lugar ao sol era afinal merecido pelo seu trabalho.
48
Cartas, III, p. 401 (Lisboa, 13 de Junho de 1679).
49
Afirma Luisa Trias Folch, considerando a História do Futuro e o Livro Ante-primeiro da História do
Futuro de Vieira: «O jesuíta português profetizará a vinda do Quinto Império e oferecerá o poder
temporal do Império Universal ao rei de Portugal; o franciscano peruano oferecê-lo-á ao rei de
Espanha, mas, como crioulo que era, e dadas as circunstâncias de decadência do Império
espanhol, concede às Índias um papel primordial.» («O Quinto Império do mundo…», p. 382).
iniciais
50
, acabou por crer bafejado por sorte próspera. Recearia um dese qui -
líbrio injusto, capaz de o secundarizar? Inconsolável, deplorava que a bitola
da Inquisição de Espanha e de Roma não norteasse a portuguesa: «houve cá
quem me condenasse por muito menos do que aí se não reprovou e em Roma
se deu licença para que se imprimisse»
51
. E, obsidiante na com paração, ao
registar uma dívida para com o tribunal espanhol, que deferira, benévolo,
requerimentos relativos à estampa de Sermões, afirmava – «Ao senhor Inqui -
sidor Geral, que parece já me conhecia por cúmplice em parte nos delitos do
Padre Tenorio, estou obrigadíssimo»
52
.
Portugal não era propício a tais «delitos», que contemplavam o destino
da gente de nação. Continuava efervescente a querela sobre os procedi men -
tos do Santo Ofício, com manobras diplomáticas e interferências de grupos
cristãos-novos e judaicos a espicaçar um duro braço-de-ferro entre o poder
da Inquisição lusa e a autoridade do Vaticano
53
. Escancarar interesse por
anatema tizadas proposições de Vieira havia de redundar, entre 1670 e 1680,
em insensatez, e o aceno lavrado no prólogo dos Sermoens não obteve de
imediato réplicas públicas nem granjeou o amparo de D. Pedro – porventura
o mais pretendido pelo Jesuíta, que durante anos não voltou a falar da Clavis
Prophetarum.
«Tanto se mudam as cousas!»
54
Num novo contexto («Toda a minha
desgraça esteve no tempo» – vincara já Vieira em 1672
55
), terá sido a asso cia -
ção, à Clavis ou, melhor, à sua fama, de um fino e empolgante alcance polí -
tico, o factor decisivo da génese de manifestações análogas às de D. Diogo
Paratexto
36
50
Na primeira carta em que refere o Padre Gonzalo Tenorio, Vieira assevera a Duarte Ribeiro de
Macedo ter notícia de que os dezasseis tomos da obra do peruano esperavam por licença para
sair, e congemina: «Também me disseram que, estando estes livros reprovados pela Inquisição
de Espanha, o autor fora a Roma e de lá trouxera licença para os estampar, o que de nenhum
modo me parece verosímil, porque sem dúvida o dissera o mesmo autor, e a impressão desta Idea
não seria ao que parece furtiva.» (Cartas, III, p. 361 – Lisboa, 6 de Março de 1679).
51
Cartas, III, p. 380 (Lisboa, 1 de Maio de 1679).
52
Lembrando o «frade franciscano português» que lhe teria oferecido a leitura da obra do P.e
Tenorio, Vieira narra a Duarte Ribeiro de Macedo: «Disse-me mais o frade que, lendo no Porto
o extracto do Padre Tenório ao Bispo, irmão do nosso Secretário, ele fora com as mãos à cabeça
e tapara os ouvidos, dizendo que aquelas mesmas proposições eram as minhas, e que se não
havia de dar licença para que tais livros se lessem em Portugal. Em tudo procede coerentemente
a nossa singular ciência.» (Cartas, III, p. 371 – Lisboa, 28 de Março de 1679).
53
Ver Francisco Bethencourt, «A Inquisição», pp. 109-110; J. Lúcio de Azevedo, História de António
Vieira, vol. II, pp. 87-192.
54
Cartas, III, p. 408 (a Duarte Ribeiro de Macedo, Lisboa, 10 de Julho de 1679).
55
Cartas, II, p. 516 (a D. Rodrigo de Meneses, Roma, 22 de Outubro de 1672).
Justiniano. Observem-se, por exemplo, as cartas que Sebastião de Matos e
Sousa, sacerdote e secretário do Duque de Cadaval, trocou com o Padre
António Vieira. Em 1688, ao rogar ao Jesuíta que acelerasse o ritmo de im -
pres são da sua obra, Matos e Sousa glosava-o, e contentava-se com decal car:
«Essa Clavis, que sabemos, que está forjada, quem lhe há-de pôr a última
lima?»
56
Diversamente, em 1690, deduzia no tom de quem domina os mean -
dros do jogo: «eu não sabia, que Vossa Paternidade era Profeta, e que de tão
longe, e tão antecipadamente via as nossas felicidades. […] Ora já que Vossa
Paternidade sabe prognosticar tanto ao certo, deve de ter a Clavis das profe -
cias bem limada»
57
. A viragem, que identifica a Clavis com a arte de prognos -
ticar «as nossas felicidades», e por isso reclama a sua divulgação, não é fruto
do acaso, antes dependerá da perícia estrategicamente exibida por Vieira no
«pequeno volume mas grande livro»
58
baptizado Palavra de Deos
59
.
Alardeando o objectivo de desvendar arcanos divinos, no afã de celebrar
a dinastia robustecida pelo casamento fecundo de D. Pedro II com D. Maria
Sofia de Neubourg (Agosto de 1687), agregavam-se, na Palavra de Deos
(1690), além de dois sermões (a prédica de exéquias de D. Maria Francisca de
Sabóia e a de acção de graças pelo nascimento do primogénito do segundo
matrimónio do rei), um discurso oferecido «secretamente» a D. Maria Sofia
como consolação da perda desse primeiro filho, que expirara com escassos
dias de idade. Entre este texto e o «papel» de 1659 («Esperanças de Portugal.
Quinto Império do Mundo. Primeira, e segunda vida del-Rei Dom João
Quarto. Escritas por Gonçaliannes Bandarra»
60
) – escrito que tão graves
dissabores acarretara para Vieira
61
–, a afinidade era indesmentível, e disso
Isabel Almeida 37
56
Cartas, 1746, p. 340 (Lisboa, 3 de Março de 1688).
57
Cartas, 1746, p. 344 (Lisboa, 5 de Março de 1690).
58
[Licença do P. Mestre Fr. Thomé da Conceição], in Palavra de Deos […], 1690.
59
O volume terá começado a circular em Março de 1690, pois é do início do mês (dias 6 e 4,
respectivamente) a licença para correr e a atribuição de taxa. No entanto, Sebastião de Matos e
Sousa teve notícia da obra ainda em 1689. Vieira escreveu-lhe, dando conta da sua extraor -
dinária empresa («me atrevi a querer penetrar os arcanos da Providência divina») e insinuando:
«Se o Duque meu amo e senhor, tiver destes mistérios alguma revelação, ela chegará aos olhos
de V. M.
, que estou muito certo lhe os porá com toda a benignidade.» (Cartas, III, pp. 576, 577
– 11 de Julho de 1689, Bahia).
60
Ve r Cartas, I, pp. 488-547 (Camutá, 29 de Abril de 1659); Adma Muhana incluiu também a
edição deste texto em Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, pp. 39-70.
61
Apesar de existirem na Inquisição denúncias apresentadas já na década de 40, foi a Carta
endereçada em 1659 ao Bispo eleito do Japão, P.
e
André Fernandes, o grande pretexto do Santo
Ofício para mover a Vieira um processo.
tinha o Jesuíta consciência. Escutamo-lo declarar, com desembaraço (pois a
salvo do Santo Ofício português): «Não foi meu intento ressuscitar mortos,
mas só consolar os vivos»
62
. Flagrante, não menos, era a recuperação lusocên -
trica do conceito de Quinto Império: longe das afectadas concessões da carta
de desagravo remetida, em 1686, ao Padre Provincial Jácome Iquazafigo
63
, ou
da privada comunicação com o amigo Diogo Marchão Temudo
64
, Palavra de
Deos acendia, sem tergiversar, alentos pretéritos, recentrando em Portugal e
na casa brigantina a missão de reger uma perfeita harmonia ecuménica.
Escudado na mítica profecia de Cristo a D. Afonso Henriques, em Ouri -
que, Vieira desdobrava-se em elucubrações esfusiantes: «Que disse Cristo por
sua sagrada boca a el-rei D. Afonso? Volo in te, et in semine tuo imperium mihi
stabilire: quero em ti e na tua descendência fundar e estabelecer um império
para mim. Primeiramente já não fala de reino, senão de império, imperium; e
esse império em quem, e para quem? Em ti, e para mim, in te, mihi. Venham
agora todos os doutores do mundo e todos os intérpretes, mais sábios, mais
agudos, e mais escrupulosos, e casem-me este te, com este mihi, e este mihi
com este te. Hei-de fundar um império, diz Cristo, em ti, in te; mas para mim,
mihi: e que quer dizer em ti, e para mim? Quer dizer, que será império de
Cristo e do rei de Portugal juntamente»
65
. Assim rezava o «Sermão de Acção
de Graças». No «Discurso» – «a mais sistemática fundamentação do luso -
centrismo Quinto Imperial»
66
–, revisitando o logos bíblico para enlaçar num
Paratexto
38
62
Cartas, III, pp. 576-577 (a Sebastião de Matos e Sousa – Baía, 11 de Julho de 1689). Ao Duque
de Cadaval, numa epístola de 14 de Julho de 1690, diria: «Dizem, por me condenar duas vezes,
que será este papel como o de El-rei; e eu, por me consolar de uma vez, imagino que pode ser o
de El-rei como este» (Cartas, III, p. 586). Note-se que em outras cartas, nomeadamente as que
endereça, a 15 de Julho de 1690, ao Cónego Francisco Barreto e a Diogo Marchão Temudo,
respectivamente, Vieira inclui afirmações similares (ver Cartas, III, pp. 596, 600).
63
«Aora me holgara yo mucho saber de nuestro Escoto Patavino que es lo que le descontenta en un
Emperador christiano, que lo sea de todo el mundo? Si no lo quiere Portuguès, como dizen
muchos de los Autores citados; si le desagrada por ser Español, hagalo Escocès, como el se haze,
tomandose el nombre de Escoto; ò Italiano, como Patavino, de quien tomò el sobrenome, que
esto no es mas, que question de vocabulo: lo que ciertamente importa poco, mientras logre la
Iglesia un Imperio de todo el mundo, estabelecido en un Principe Catholico, y subdito del
Romano Pontifice.» (Cartas, III, p. 763 – 30 de Abril de 1686).
64
Numa carta de 8 de Agosto de 1684, Vieira declarava: «O triunfo total e destruição do império
otomano está reservada para rei português; e podemos crer que será o presente […]» (Cartas, III,
p. 510).
65
Padre António Vieira, Sermões, XV, 1959, p. 205.
66
Paulo Alexandre Esteves Borges, A Plenificação da História em Padre António Vieira, p. 256.
mesmo plano da Providência a morte do principezinho e um futuro de
portentos, o Jesuíta reiterava: «a vitória final do império do Turco e o uni -
versal de todo o Mundo está destinado por Deus para Portugal»
67
. D. Pedro
II seria chamado: «para substituir desde logo, e entrar à posse do primo -
génito morto, não é necessário esperar pelo irmão segundo, como sucessor,
senão recorrer ao pai como herdeiro do filho»
68
.
Por asserções sobre o Quinto Império, entre 1663 e 1667, os juízes inqui -
sitoriais haviam apodado Vieira de judaizante, «temerário, escan daloso, inju -
rioso, sacrílego, ofensivo piarum aurium, erróneo, e sapiente a heresia»
69
; em
1690, o próprio D. Veríssimo Lencastre (membro do Conselho Geral do
Santo Ofício, na época do processo
70
; Inquisidor-Geral, desde 1675) terá
contribuído para dar Palavra de Deos ao prelo
71
. E sem a demora que exas -
perara Vieira, quando da edição da Parte I dos Sermoens – vergado a suspirar
semanas pelo veredicto censório
72
–, num prazo brevíssimo (quatro dias),
cada revedor não só leu como acarinhou a obra: «Em cada um destes três
assuntos reluz a delicadeza do juízo deste Autor, e a universal notícia que na
continuação de seus estudos tem adquirido das histórias divinas, e humanas,
das quais tira fundamentos para vaticinar a Portugal futuras felicidades por
desempenho da palavra de Deus dada no Campo de Ourique ao primeiro
Isabel Almeida 39
67
Padre António Vieira, Sermões, XV, 1959, p. 72.
68
Padre António Vieira, Sermões, XV, 1959, p. 61.
69
Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, p. 191. Exactamente nestes anos, e
em Coimbra, pregadores como Fr. João de Deus (Qualificador do Santo Ofício) argumentavam
que era «conveniência de Deus ter Portugal sobre a terra o Império do Mundo» (João Francisco
Marques, A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração, p. 545). Omisso ficava
(diferença crucial, em relação à obra de Vieira) o destino dos hebreus.
70
Perante a denúncia do Padre Jorge de Carvalho, que relatou ter-lhe dito Vieira «que tinha com -
pos to na sua idéia um livro a que daria título de Clavis Prophetarum», «pareceu ao Inqui sidor
Dom Veríssimo de Lancastre que ao presente se não lhe oferece coisa que se houvesse de fazer
por parte do Santo Ofício visto que o Padre Antônio Vieira não determina imprimir aquele livro,
e que em caso que resolva a fazê-lo imprimir então se verá e conforme a matéria dele e suas
proposições se procederá.» (Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição, pp. 352
e 354, respectivamente).
71
Ve r Cartas, III, p. 585.
72
A 28 de Junho de 1678, Vieira desabafa com Duarte Ribeiro de Macedo: «O meu livro, com todas
as recomendações de S. A., ainda não saiu da Inquisição, havendo perto de seis semanas que lá
está. Já me contentarei com que me o restituam, e com este desengano me resolverei, como já
signifiquei a V. S.ª, onde me será melhor buscar a sepultura.» (Cartas, III, p. 289). A 19 de Julho,
já satisfeito com o «nulla obstat» do Santo Ofício, refere «o cumprimento» que o Inquisidor
Geral tivera «da tardança», indo «dar[-lhe] as graças» (Cartas, III, p. 296).
Afonso»
73
; «este pequeno volume, mas grande livro, consigo leva sua
imortalidade na engenhosa explicação das futuras felicidades dos
Portugueses vaticinadas por desempenho da palavra de Deus dada no Campo
de Ourique ao primeiro Rei de Portugal, sem ofensa da Fé Católica, nem
cousa que aos bons costumes faça dissonância»
74
.
Uma malha de altos apoios (afeiçoada por Vieira, destro a espalhar entre
personagens gradas – o Duque de Cadaval, o Padre confessor Leopold Fuess,
D. Veríssimo Lencastre, o Cónego Francisco Barreto, o Juiz Diogo Marchão
Temudo… – textos alegadamente sigilosos) favoreceu Palavra de Deos
75
. E,
numa reacção a este «tributo» sui generis
76
– autêntico marco crucial –,
acumularam-se, depois de 1690, incitamentos à publicação da Clavis. Foi a
partir daí que Sebastião de Matos e Sousa lembrou, assíduo, o assunto; foi
então que elementos de monta da hierarquia eclesiástica, como D. Diogo
Justiniano, ou do xadrez áulico, como o Duque de Cadaval, repercutiram essa
curiosidade. Por idêntico diapasão, Fr. Manoel Caetano de Sousa, na
«Oração Fúnebre nas Exéquias do Reverendíssimo Padre António Vieira» (17
de Dezembro de 1697) evocaria «aquele Pregador, que à imitação dos
Profetas antigos […] nos ajudava a estimar as felicidades presentes, que nos
animava a esperar as futuras, que nos consolava nas nossas perdas, que nos
fazia conhecidos e estimados das Nações estranhas»
77
. E Fr. José de Sousa,
qualificando a História do Futuro, em 1709, calculava: «Se com a impressão
deste faz divulgar a promessa, que ele contém, de se abrirem nos outros às
nossas esperanças as portas das profecias, que estão há tantos séculos
fechadas; já se obriga a entregar-nos em aqueles livros a chave dos Profetas,
para abrirmos as portas de nossas fortunas»
78
. Em suma: ao puxar para a
Paratexto
40
73
[Licença do P. Mestre Fr. Thomé da Conceição], in Palavra de Deos […], 1690.
74
[Licença do P. Mestre Fr. Francisco do Espírito Santo], in Palavra de Deos […], 1690.
75
Tentei dar conta destas ligações num trabalho anterior (ver Isabel Almeida, «Um pé na terra,
outro nas estrelas: a propósito de S. Francisco Xavier nos Sermoens de Vieira»).
76
Vieira apreciou a palavra «tributo» para se referir aos manuscritos de volumes de Sermoens que
remetia do Brasil para o Reino, praticamente numa cadência regular de um por ano. Em 11 de
Julho de 1689, porém, ao enviar o material estampado como Palavra de Deos, confidenciava a
Sebastião de Matos e Sousa uma saborosa excepção: «O de que mais me corro é que este ano
falto ao prelo com o costumado tributo, mas nem por isso estive ocioso.» (Cartas, III, p. 576).
77
«Oraçaõ Funebre […] disse-a o P. D. Manoel Caetano de Sousa», in Voz Sagrada, Politica,
Rhetorica, e Metrica […], 1748, p. 177.
78
«Censura do M.R.P.M. Fr. Joseph de Sousa, Qualificador do S. Officio», in Antonio Vieira,
Historia do Futuro, 1718.
ribalta a Clavis Prophetarum, pronto a incensar um «Gigante» guiado pela
«honra da Pátria», «desejando de Reino, mudá-la em Império»
79
, o
Arcebispo de Cranganor era partícipe de um coro bem colocado
80
e seguia na
esteira da propagação – aceite sem prurido, na década de 90
81
– de uma ideia
lusocêntrica do «Império de Cristo».
Sem terem manuseado a Clavis, D. Diogo Justiniano ou Sebastião de
Matos e Sousa deviam concebê-la como uma assombrosa corroboração das
teses esgrimidas na Palavra de Deos i.e., veiculando doutrina das Esperanças
de Portugal ou ousando rasgos como os que animam o Livro anteprimeiro da
História do Futuro. A vizinhança de títulos, junto com o leitmotiv «Quinto
império», concorreria para alimentar tais especulações
82
, e nesses vários
textos Vieira gizara um rumo de que nem as suas cartas discrepavam: além
das referências à Clavis que a irmanam de obras defensoras de um Império
«em Portugal», nas epístolas proliferam – qual espelho de um sonho cons -
tante – vestígios das trovas de Bandarra.
Isabel Almeida 41
79
«Censura do Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor Dom Diogo Justiniano […]», in Sermoens
[…]. Parte Duodecima, 1699.
80
Afirmações contidas na licença de 1699 revelam que Sebastião de Matos e Sousa partilharia com
D. Diogo Justiniano as cartas que recebia de Vieira: o Bispo de Cranganor pede que os religiosos
da Companhia, «assim como nos comunicaram as notícias das choupanas, assim nos dem o
incomparável gosto de podermos admirar as ideias dos Palácios de um Arquitecto, que não teve
igual». Uma rede de contactos e relações devia concorrer, pois, para atiçar o interesse pela Clavis.
81
Saiu em 1689, dedicada a D. Pedro II, a Historia da Vida do Veneravel Irmaõ Pedro de Basto,
propalando convicções idênticas às que Vieira sustenta.
82
Lembremos que a carta ao Bispo eleito do Japão era intitulada no processo de Vieira como
«Esperanças de Portugal. Quinto Império do Mundo. Primeira, e segunda vida del-Rei Dom João
Quarto. Escritas por Gonçaliannes Bandarra». O Livro Anteprimeiro da História do Futuro, que
terá sido divulgado na corte, por influência de figuras como D. Rodrigo de Meneses ou D. João
da Silva, ainda em 1665, além de ter por título geral Historia do Futuro, Esperança de Portugal e
Quinto Império do Mundo, incluiria – ou assim faz pensar um manuscrito – uma remissão para a
Clavis: «Estes são os livros e questões de que consta o livro intitulado Clavis Prophetarum» (José
Van den Besselaar, «Introdução», in António Vieira, História do Futuro (Livro Anteprimeiro), p.
21). No próprio processo, aliás, Vieira associou as duas obras, afirmando, a 14 de Novembro de
1665, decerto para se defender de acusações que a Inquisição pudesse dirigir-lhe ao ser
conhecida a divulgação do Livro anteprimeiro da História do Futuro: «ele suplicante […] inventou
o título da História do Futuro, ou Quinto Império, para debaixo desse disfarce poder responder
por mão alheia aos pontos de sua causa sem violar o juramento de segredo que se lhe havia
posto, como com efeito se guardou.» (Adma Muhana, Os Autos do Processo de Vieira na
Inquisição, p. 137). Enfim, não esqueçamos que ao afirmar a «grande altura» da Clavis, em
Roma, Vieira fala, a D. Rodrigo de Meneses, de um livro «intitulado o Quinto Império, ou Império
consumado de Cristo, que vem a ser a Clavis Prophetarum» (Cartas, II, p. 516).
Há, pois, que considerar um ethos, densamente cultivado em diacronia e
no exercício de múltiplas possibilidades discursivas. Na sua persistência, o
Autor foi gerando uma imagem à qual os seus receptores o suporiam fiel e
que nem a tomada de posições demolidoras sobre o estado de Portugal fazia
desmoronar. Provam-no a atitude de D. Nuno Álvares Pereira de Melo, Duque
de Cadaval, e de D. Maria Sofia de Neubourg perante Xavier Dormindo, e Xavier
Acordado (1694) – quinze sermões encadeados, glorificando «o após tolo do
Oriente», sim, mas implacáveis na denúncia do declínio do Império luso.
Ao comentar um dos textos mais acutilantes do conjunto – texto de uma
mordacidade que mergulha na lição de Tácito para excepcionalmente a
perfilhar –, o Duque preferiu termos de conotação bandarrista. Eis como
augura melhoras da mão doente de Vieira (abalado por uma queda):
[…] quisera que esta fosse incansável para encher o mundo com os
seus escritos, como espero que continue, publicando esses tesou ros
antigos, ainda que os latinos não sejam tanto da minha profissão,
como os vulgares, nos quais sei muito bem construir o sermão
último da protecção do Santo Xavier, em que Vossa Pater nidade
mudou de ofício, e tomando outro mecânico soube talhar e coser,
como se tivera tomado as medidas.
83
Na constelação metafórica do trabalho «mecânico», une-se o rasto do
sapateiro de Trancoso
84
e o perfil de um Vieira que, sagacíssimo no diagnós -
tico dos achaques do país, deslumbra enquanto voz de uma verdade solar.
Era este, para D. Nuno Álvares Pereira de Melo, o retrato do Jesuíta. Por isso
opinava, numa carta anterior, a respeito de queixas de Vieira sobre a situação
da Índia e do Brasil: nos «gemidos» das terras da América, «leio uma
invectiva contra os felices prognósticos, e admiráveis aumentos, que o seu
amor promete à Pátria»
85
. Por isso conciliava – e com vigor aforístico – estes
pólos antagónicos: «Se os grandes apertos são vésperas de grandes fortunas,
não só infiro os do tempo próximo futuro, mas estou para louvar os que
ajudam o estado presente»
86
.
Paratexto
42
83
Cartas, 1746, p. 407 (Lisboa, 10 de Fevereiro de 1695).
84
Na carta ao Bispo eleito do Japão, Vieira cita estes versos de Bandarra, sobejamente conhecidos:
«Sem medida sei talhar,/Em que vos assim pareça» (Adma Muhana, Os Autos do Processo de
Vieira na Inquisição, p. 70).
85
Cartas, 1746, p. 402 (Lisboa, 6 de Janeiro de 1693).
86
Cartas, 1746, p. 402 (Lisboa, 6 de Janeiro de 1693).
O raciocínio aqui expendido, casando, numa solução anfibológica,
«grandes apertos» e «grandes fortunas», não se circunscreve às epístolas do
Duque: parte de uma forma mentis, é parte da cultura barroca, fascinada pelas
alianças de opostos, o embate de contrários. O lema aduzido por D. Nuno de
Melo atravessa textos de Vieira: «A maior fúria da tempestade é o mais certo
sinal que os marinheiros têm de se querer mudar o vento»
87
. Que verifica -
mos? Equacionado o problema por este ângulo, nunca o lugar das esperanças
se extingue, e por esse viés não espanta que o gosto da rainha pela obra
profética de Vieira se agudizasse após 1694, i.e., após a oferta de Xavier
Dormindo, e Xavier Acordado.
Nos textos desta série, traçados num período de gritante decepção pela
surdez de D. Pedro aos vaticínios da Palavra de Deos, mas também numa
atmosfera de angústia pela decadência da Monarquia portuguesa e pelas
transformações do Padroado, o Jesuíta valoriza uma ordem universal tute -
lada por Roma e pelo Papa. Não há quinto império lusocêntrico, em Xavier
Dormindo, e Xavier Acordado