[Aesthetics in Maxillofacial Prosthetics]

Research (PDF Available) · March 2016with 854 Reads
DOI: 10.13140/RG.2.1.4872.8729
Abstract
Philosophical discussion of aesthetics on facial prosthetics, using case reports where quality of life was restablished.
Revista APCD de Estética 2015;03(1):42-52
42
Salazar-Gamarra R; Oliveira JAP; Dib LL
Autor para correspondência:
Rodrigo Salazar Gamarra
Rua Afonso Braz, 525 - Cj. 81
Vila Nova Conceição - São Paulo/SP
Brasil
04511-011
rodrigo_eb@hotmail.com
43
Revista APCD de Estética 2015;03(1):42-52
Relato de caso clínico
Aesthetics in maxilofacial rehabilitation
A estética se transformou na Odontologia
como um dos temas mais importantes,
concentrando importante presença na prática clínica, pesqui-
sa, atividades institucionais e tornou-se uma especialidade
muito requerida pelos pacientes. A importância da estética
muitas vezes transcende aos parâmetros meramente clínicos,
tornando-se uma determinante da qualidade de vida do pa-
ciente. Alterações estéticas significativas são muitas vezes
responsáveis por distúrbios psicológicos, dificuldades profis-
sionais e de convivência social. É assim que existem algumas
condições menos divulgadas, mas que podem mudar com-
pletamente os parâmetros estéticos. Nos casos onde existem
defeitos maxilofaciais causados por câncer, traumatismos, in-
feções severas, alterações congênitas ou adquiridas, as con-
siderações estéticas mudam por completo e são agravadas a
níveis muito complexos. Nessas situações, o sentido e o con-
ceito de estética mudam completamente. No presente artigo,
vamos discutir sobre a perspectiva da estética num paciente
mutilado e sua reabilitação social por meio de uma prótese.
Descritores: Estética, prótese maxilofacial, qualidade
de vida.
Aesthetics has become one of the
most important topics in dentistry,
focusing significant presence in the clinical practice, re-
search, institutional activities and it’s a very required to-
pic by patients. The importance of aesthetics sometimes
transcends more than purely clinical parameters, be-
cause it could determine the quality of life of the patient.
Significant aesthetic changes are often responsible for
psychological disorders, working difficulties and social
life adversities. That is how there are some conditions
that can completely change the aesthetic parameters. In
cases where there are maxillofacial defects caused by
cancer, trauma, severe infections, congenital or acquired
changes, aesthetic considerations change completely
and are exacerbated up to very complex levels and the
meaning and concept of aesthetic change completely.
In the present article we are going to discuss about the
perspective of aesthetics in mutilated patients and the
social rehabilitation by a prostheses.
Descriptors: Aesthetics, maxilofacial prostheses, quality
of life.
RESUMO ABSTRACT
A estética em reabilitação
bucomaxilofacial
Rodrigo Salazar-Gamarraa    Joaquim Augusto Piras de Oliveirab    Luciano Lauria Dibc
A - DDS, Mestrando, Programa de pós-graduação, Faculdade de Odontologia da Universidade Paulista - Unip
B - DDS, MDS, Universidade Federal de São Paulo - Unifesp
C - DDS, PHD, Programa de pós-graduação, Faculdade de Odontologia da Universidade Paulista - Unip
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Salazar-Gamarra R; Oliveira JAP; Dib LL
INTRODUÇÃO
A estética é a ciência que trata do belo em geral e
do sentimento que isso desperta em cada um.1 A pala-
vra estética tem origem no termo grego “aisthetiké”, que
significa o estudo do belo e de tudo que pode ser per-
cebido pelos sentidos.1 O conceito utilizado atualmente
foi introduzido por Gottlieb Baumgarten no ano 1750 des-
crevendo aquilo que naquele momento se chamava de
“crítica do gosto”. Atualmente nas definições no dicionário
da língua portuguesa é descrita como a filosofia da arte,
ou estudo do que é belo nas manifestações artísticas e
naturais, abordando o sentimento que alguma coisa bela
desperta dentro de cada um de nós. O conceito de estéti-
ca para o ser humano é extremamente subjetivo e está re-
lacionado à beleza, a harmonia e condicionado a diversos
fatores que a influenciam. Fatores sociais, psicológicos,
culturais, educativos, época e idade podem variar o con-
ceito de estética de indivíduo para indivíduo.2,3,4
Nos últimos anos, a estética se transformou na Odonto-
logia como um dos temas mais importantes, concentrando
importante presença em pesquisa clínicas, atividades em
congressos e tornou-se uma especialidade muito requeri-
da no mercado trabalho, com destacada influência no mar-
keting dos profissionais. A abordagem dos aspectos esté-
ticos de um determinado tratamento odontológico é hoje
uma importante ferramenta para conquista de pacientes,
motivando-os a realizar procedimentos inovadores que vi-
sem resultados relacionados à beleza, independentemente
de sua real necessidade funcional. Esse aspecto em nada
denigre a atuação profissional, apenas ressalta como a
busca do belo é e sempre será uma constante ansiedade
para o ser humano. Entretanto a importância da estética
muitas vezes transcende aos parâmetros meramente clíni-
cos, tornando-se uma determinante da qualidade de vida
do paciente. Alterações estéticas significativas são muitas
vezes responsáveis por distúrbios psicológicos, dificulda-
des profissionais e de convivência social.2-4
A Odontologia atual busca a perfeição do sorriso. Os
pacientes procuram tratamento para recuperar a forma,
posição ou cor dos dentes e gengivas, motivados por in-
fluência marcante da sociedade e mídia, que estimula in-
tensamente essa ideal do belo. Sem dúvida ausências de
dentes ou desarmonia com a anatomia natural são fatores
que afetam muito a autoestima, especialmente quando os
padrões estéticos se tornam muito valorizados pela socie-
dade. A perda da autoconfiança decorrente de problemas
dentários pode acarretar em sérios transtornos, pois ativi-
dades simples do dia a dia como falar ou sorrir podem-
-se tornar muito difíceis, prejudicando a interação social,
levando o paciente à introversão.4-8
No entanto, existem algumas condições menos divulga-
das, mas que podem mudar completamente os parâmetros
estéticos. Nos casos onde existem defeitos maxilofaciais
causados por câncer, traumatismos, infeções severas, al-
terações congênitas ou adquiridas, as considerações esté-
ticas mudam por completo e são agravadas a níveis muito
complexos.9 Nessas situações, o sentido e o conceito de
estética mudam completamente.
Há uma diferença muito grande entre procurar a perfei-
ção na harmonia dental ou facial com correção de peque-
nos defeitos e procurar uma nova oportunidade de viver.
Pacientes com câncer é um exemplo muito claro do que
ocorre nesses casos. Num primeiro momento em que há o
tumor, eles aceitam qualquer alternativa para se livrarem
da doença, permitindo se submeter a cirurgias mutilantes,
agressivas, que promovem grandes deformidades, pois
nesse momento a única coisa que interessa é a possibili-
dade de cura. Entretanto, depois que a cura ocorre e eles
se deparam com a situação em que se encontram, com
extensas deformidades, suas vidas ficam muito restritas
e iniciam então uma busca, que por muitas vezes é um
calvário, na tentativa de se reabilitarem, de recuperarem a
sua anterior normalidade.
Para muitos pacientes a vida após extensas ressecções
é muito limitada, praticamente reclusa, pois estes não que-
rem expor seus defeitos a uma sociedade que definitiva-
mente não está preparada para aceitar as diferenças, es-
pecialmente aquelas que ferem o senso estético.
A reabilitação, ou melhor, a busca pela reabilitação, se
torna para esses pacientes a única esperança de reencon-
trar um motivo de viver. Vida é perspectiva e, para esses
pacientes, a perspectiva de um dia estarem reabilitados,
se torna a única vida. Nesse momento, aqueles pequenos
detalhes estéticos que anteriormente eram tão importantes,
modificam-se completamente, passando a importar ape-
nas o macro, a possibilidade de reintegrar-se à sociedade,
a possibilidade de conviver com amigos, cônjuges, filhos,
netos, sem causar espanto e horror.
A mesma Odontologia que se dedica tanto ao detalhe,
ao micro, é fundamental como especialidade para promo-
ver essa reabilitação. A especialidade de Prótese bucoma-
xilofacial é centenária, ou talvez até milenar, com relatos
desde os tempos antigos, de próteses para recuperar post-
-mortem a face de faraós.9,10
Existem registros históricos da restituição protésica na
cultura egípcia pelo ano 2613-2496 aC., onde escavações
das tumbas nesse período encontraram próteses oculares,
nasais orbitais e auriculares10, além de registros em cultu-
ras peruanas, gregas, chinesas, italianas entre outros. Na
época da 1ª e 2ª guerras mundiais, muitos soldados foram
feridos e mutilados, gerando muitos estudos nas técnicas
cirúrgicas e protéticas, permitindo o desenvolvimento do
conhecimento e melhorias das técnicas que desenvolve-
ram tendências atuais de planejamento.9
No último século, especialmente no final dos anos 90,
o conceito da osseointegração revolucionou o uso dessas
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FIGURA 1|Paciente sem prótese: observar que os olhos não fitam a câmera,
característica típica de pacientes que perdem sua identidade após grandes deformidades
FIGURA 2|Detalhe do Bilhete Único com fotografia 3x4 do paciente que exibe
uma expressão feliz, provavelmente satisfeito com sua reinserção social
próteses, promovendo uma ancoragem confiável e resis-
tente para extensas próteses faciais ou maxilares. Próteses
que antes eram presas com tiaras, fitas, óculos e adesi-
vos, atualmente são retidas em implantes osseointegrados,
dando ao paciente uma confiança muito superior para a
utilizarem em lugares públicos ou em situações como ativi-
dades esportivas e aquáticas.11
A proposta do presente artigo é apresentar alguns ca-
sos de pacientes com deformidades maxilofaciais e as
modalidades de prótese que foram empregadas. Não se
pretende mostrar o “estado da arte” com esses casos, mas
sim sensibilizar os profissionais sobre a importância da es-
pecialidade e acima de tudo a importância de se preve-
nir mutilações como as apresentadas. Excetuando-se os
casos de malformações congênitas, todas as outras cau-
sas podem ser prevenidas ou pelo menos apresentarem
consequências menores se o diagnóstico for feito precoce-
mente. É função da classe odontológica, atuar na preven-
ção do câncer bucal e de face, além de agir rapidamente
quando da identificação de sinais da doença. Conhecendo
a especialidade, os profissionais podem se engajar na luta
por recuperação da autoestima desses pacientes.
RELATO DE CASOS CLÍNICOS
A reabilitação bucomaxilofacial é uma reabilitação
social: casos clínicos
Caso 1: Paciente de 65 anos de idade, sexo masculino,
sofreu uma ressecção do nariz e da maxila por um carci-
noma basocelular de origem cutânea. Permaneceu afas-
tado das atividades sociais durante mais de quatro anos,
pois após a ressecção nenhum procedimento reabilitador
foi proposto ao paciente. Utilizava uma máscara para co-
brir o defeito todo o tempo, inclusive dentro de sua própria
casa. Após esse período, quando foi submetido à fixação
de implantes extraorais no osso zigomático, foi possível à
fabricação de uma prótese de face media em silicone, que
proporcionou uma melhora estética e a possiblidade de
convívio social que foi documentada sorrindo para a foto-
grafia utilizada para obtenção da carteira do Bilhete Único
para transitar gratuitamente nos meios de transporte públi-
co em São Paulo (Figuras 1 e 2).
Caso 2: Paciente de 52 anos de idade, sexo masculi-
no, apresentando ampla deformidade facial decorrente de
ressecção cirúrgica para tratamento de carcinoma espino-
celular, gerando a perda parcial do osso frontal, da órbita e
maxila. Recebeu tratamento quimio e radioterápico e con-
viveu aproximadamente 5 anos com essa grave sequela
, que praticamente impedia um convívio social. O plane-
jamento reabilitador com implantes não foi convencional,
pois havia muito pouco suporte ósseo remanescente. Por
meio de planejamento virtual com tomografias computado-
rizadas, foi possível instalar 5 implantes, distribuídos no os-
sos frontal, parietal e zigomático. Os implantes permitiram
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a construção de uma armação acrílica com magnetos que
proporcionaram a retenção de uma prótese facial em silico-
ne. A associação entre o adequado tratamento oncológico
e a posterior reabilitação, permitiram que um paciente por-
tador de uma grave doença, com pouca chance de cura,
pudesse recuperar uma condição de convivência social
bastante satisfatória (Figuras 3 e 4).12
Caso 3: Paciente de 21 anos de idade, sexo feminino,
apresentou uma neoplasia maligna orbitária para a qual
foi submetida à ressecção oculopalpebral e radioterapia
pós-operatória. Três meses após a radioterapia, apresen-
tava sinais de necrose óssea na crista orbitária superior,
motivo pelo qual foi submetida à fixação de implantes ex-
traorais na crista orbitária inferior. O procedimento de re-
abilitação orbitaria foi proposto e realizado precocemente
em função da infelicidade que a paciente exibia pela sua
mutilação. Em se tratando de uma jovem, o impacto psi-
cológico da deformidade foi muito grande, por isso houve
o esforço da equipe reabilitadora em devolver uma con-
dição estética o mais rapidamente possível. Mesmo numa
área recém-irradiada, houve adequada osseointegração
dos implantes, permitindo a fixação e retenção de uma
prótese oculopalpebral em silicone, gerando uma intensa
satisfação à paciente (Figuras 5 e 6).
Caso 4: Paciente de 40 anos de idade, sexo masculi-
no, sofreu uma extensa ressecção cirúrgica que envolveu
toda a cavidade orbitária e parte do nariz, em decorrência
de neoplasia maligna de anexos cutâneos. Foi ainda sub-
metido à radioterapia e quimioterapia complementares. No
ato cirúrgico inicial, o defeito cirúrgico foi recoberto com
enxerto miocutâneo, que embora tenha recoberto a cavi-
dade, não recupera esteticamente a face do paciente. O
paciente viveu mais de três anos utilizando uma bandagem
sobre a área ressecada, com severas restrições de conví-
vio social, além de intenso desconforto psicológico. Após
três anos, quando o tumor foi considerado controlado, foi
liberado para procedimentos reabilitadores. Mesmo numa
área irradiada, foram fixados três implantes extraorais na
crista orbitaria inferior, associados a enxerto com plasma
rico em plaquetas para estimular a osseointegração. Os
implantes permitiram a construção de uma armação metá-
lica com magnetos que proporcionaram a retenção de uma
prótese facial em silicone. A recuperação estética com a
prótese foi satisfatória, entretanto como as margens do de-
feito eram em áreas muito visíveis, a utilização de óculos e
de um boné, auxiliaram a camuflagem da prótese, tornan-
do o uso mais natural. Este paciente apresentou uma gran-
de elevação da autoestima após a adaptação da prótese,
retornando ao trabalho e cumprindo as atividades sociais
com muita desenvoltura (Figuras 7, 8, 9 e 10).
FIGURA 3|Detalhe dos implantes extraorais com magnetos instalados para a
retenção da prótese facial
FIGURA 4|Prótese de face média e órbita em silicone recobrindo o defeito e
devolvendo a identidade à paciente
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DISCUSSÃO
A estética está intimamente relacionada à necessidade
do paciente e é regida pela forma e função, mas quando
temos pacientes mutilados, o panorama modifica-se por
completo e o desejo de reabilitação transcenderá apenas
o aspecto estético, se tornando uma necessidade para que
a dignidade humana seja restabelecida.
A estética bucal dentro da prática odontológica conven-
cional é muito importante, porque as pessoas mostram os
dentes quando falam ou sorriem e a sociedade atual exi-
ge um sorriso bonito e atrativo como forma de aceitação.
Na era midiática que vivemos, poucos conseguem uma
adequada exposição na sociedade se não apresentarem
um sorriso agradável e atraente. Entretanto, sabemos que
ainda existe uma grande parcela da população desden-
tada, ou com dentes mal posicionados ou mal cuidados.
Obviamente essa não é uma situação aceitável e a clas-
se odontológica tem se especializado cada vez mais para
oferecer a todos, até com baixos custos, oportunidades de
restabelecimento de uma boa condição dental.
O professor P.I. Branemark costumava dizer que a perda
de um único dente já deveria ser considerada como uma
mutilação, entretanto, quando abordamos as deformidades
da face, a mutilação acarreta problemas muito maiores.
Muitas mutilações faciais são difíceis de serem ocultadas
e alteram não só a forma como as outras pessoas enxer-
gam o paciente, mas também a forma como ele mesmo se
identifica. O desequilíbrio da autoimagem do paciente gera
consequências psicológicas muito grandes, além de ou-
tras deficiências que frequentemente ocorrem simultanea-
mente a essas mutilações, como deficiências em funções
essenciais como visão, audição, equilíbrio, mastigação,
deglutição, respiração e fonação.9
O impacto psicológico da perda de identidade é algo
difícil de ser mensurado. Há estudos abordando o tema
“qualidade de vida” em pacientes mutilados faciais.
Qualidade de vida (QV) pode ser entendida como a ca-
pacidade dos indivíduos de exercerem suas funções de
forma semelhante à que exerciam antes de um determi-
nado procedimento.11 Todos os estudos são concordes
em constatar que a perda de estruturas faciais é um fato
de alta significância na QV, sendo que os pacientes re-
ferem que apenas se sentem reintegrados à sociedade
após a instalação de próteses faciais. A importância que
a sociedade dedica à aparência facial é muito grande,
o que faz com que seja muito difícil, para um paciente
mutilado, conviver em ambiente com muitas pessoas e
especialmente se são estranhas a ele.
Os relatos dos pacientes são frequentemente reche-
ados de expressões como “desfigurados, monstruosos,
inúteis”, quando se referem a si mesmo. É comum que
relatem medo de se olhar no espelho e também de se
FIGURA 5|Detalhe da órbita da paciente com implantes extraorais na crista
orbitaria inferior onde magnetos foram instalados
FIGURA 6|Prótese oculopalpebral recuperando a expressão facial e a alegria
da paciente. O uso de óculos auxilia a mascarar as áreas de contorno protético,
conferindo um aspecto ainda mais natural
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expor em ambientes por medo do rechaço social. Por isso
são descritos sentimentos de inferioridade e reações de
isolamento, unidos a vivências de inutilidade, desmotiva-
ção para continuar trabalhando, o que gera a sensação
de fracasso pessoal, depressão, ansiedade, alterações
do sono, apetite, instabilidade emocional e deteriorização
da capacidade de concentração.11
Se durante o tratamento oncológico o paciente aceita-
va qualquer sacrifício para se curar, após a cura obtida,
ele se depara com a deformidade e constata que não é
mais a mesma pessoa. Nesse momento sua preocupação
deixa de ser o câncer original, e a simples possibilida-
de da reabilitação dá a ele uma esperança e perspectiva
para seguir em frente, sendo que a prótese reabilitado-
ra se converte em uma necessidade estética e funcional
para melhorar seu estado físico e psíquico.
FIGURA 7|Detalhe do defeito orbitário do paciente com os implantes extraorais na crista orbitária inferior e os magnetos fixados na estrutura metálica para a retenção da
prótese facial
FIGURA 8|Detalhe da adaptação da prótese, onde se notam as margens visíveis
em decorrência da localização do defeito
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FIGURA 9|O uso de óculos auxilia a dissimulação da prótese tornando-a mais natural
FIGURA 10|Na vida diária, o paciente fazia uso de um boné, que disfarçava
muito o defeito, deixando-o muito satisfeito e autoconfiante
Nesse momento, o conceito e os padrões de estética
ficam diferentes. Tanto o paciente como o profissional pas-
sam a aceitar que os resultados nem sempre serão per-
feitos. Existem estruturas anatômicas que não poderão ter
mobilidade novamente, cores ou posições que não pode-
rão ser reproduzidos sempre com a mesma precisão. No
entanto, o que deve unir paciente e profissional é o senti-
mento de que o objetivo é lutar para tentar chegar o mais
próximo possível da normalidade. A busca do ideal estéti-
co é uma tarefa contínua e talvez inatingível, porém ela é
que motiva o constante desenvolvimento de novas técnicas
e materiais que fazem a especialidade seguir adiante e ser
considerada uma das mais humanísticas da medicina. É
muito comum ouvir histórias muito semelhantes entre pa-
cientes e profissionais em diferentes cidades e países. O
sentimento que une a especialidade é o de inconformismo
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Plast Surg 2015;31:3-9.
com a restrição da qualidade de vida e a luta pela reinte-
gração social é uma força que transpõe inúmeras barreiras
em todos os centros de tratamento.
A associação dos especialistas em prótese bucomaxilo-
facial com outras especialidades médicas e odontológicas
é uma necessidade fundamental para o sucesso do tra-
tamento. A cirurgia plástica reconstrutora consegue resul-
tados notáveis com técnicas microcirúrgicas de enxertos
vascularizados, entretanto muitas vezes ocorre apenas re-
cobrimento de áreas com defeitos, sem a adequada repa-
ração estética. É muito importante que todos os profissio-
nais envolvidos na reabilitação estejam unidos e conheçam
suas possibilidades e limitações, bem como as possibilida-
des e limitações das outras especialidades. Somente com
conhecimento e respeito mútuos, associados à humildade
profissional e senso de equipe, que se vai conseguir somar
as qualificações profissionais e otimizar os resultados para
os pacientes. Os profissionais devem ter em mente que a
vaidade pessoal deve ser deixada de lado, em prol de ob-
tenção de um resultado melhor para os pacientes.
Ao término de trabalhos de prótese, é comum que os
profissionais não fiquem 100% satisfeitos com o resulta-
do estético e sempre existirão detalhes que poderiam ser
melhorados no futuro ou em outro caso. Curiosamente, é
comum que nessas situações a melhor resposta venha do
paciente, que ao invés de tecer críticas às pequenas im-
perfeições notadas, vai sim enaltecer o esforço profissional
e expressar a alegria de poder voltar à sociedade com uma
condição mais digna. Nesses momentos a lição aprendi-
da é enorme e a motivação advinda dessa grande aula de
aceitação e esperança fazem com que nunca acabe a for-
ça para seguir à frente em novos casos desafiadores.
Cada um dos casos apresentados no presente artigo
é muito mais do que uma prótese, um defeito, implan-
tes ou uma reabilitação. Cada um desses pacientes e de
centenas de outros que sofrem com os mesmos proble-
mas, é uma vida, uma família, uma história. É essa his-
tória que se busca reabilitar quando se inicia ou conclui
uma prótese bucomaxilofacial.
CONCLUSÃO
O objetivo desse artigo foi abordar a questão filosófica dos
Cirurgiões-Dentistas para que compreendam a importância
global da sua profissão. A importância da estética dental é
muito grande e todos devem se esforçar para obter os me-
lhores resultados, mas algumas vezes, poderemos enxergar
o belo em coisas que não são tão belas. E nesse momento,
teremos aprendido um pouco mais sobre a essência da vida,
deixando de olhar apenas para a sua superficialidade.
Sabemos que os pacientes com próteses oculopalpebrais
não poderão enxergar a sociedade com essas próteses, por
mais bonitas que estejam, entretanto, podemos admitir que
a sociedade vá enxergar esses pacientes com outros olhos
depois que estejam reabilitados. Esse “novo olhar” é a porta
aberta para a reintegração social. A reintegração social é a
recuperação da qualidade de vida. E esta expressão, qua-
lidade de vida, deve ser entendida pelos profissionais de
outra forma: Qualidade Devida! Isto mesmo, DEVIDA, qua-
lidade que se deve a esses pacientes, fazer tudo da melhor
forma para que possam ser felizes novamente.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem a colaboração intensa de uma
grande equipe de profissionais, médicos, Cirurgiões-Den-
tistas, técnicos em prótese dental, que nos últimos 20 anos,
têm colaborado intensamente para que esse projeto siga
em frente, na Unifesp, Unip e Natal - RN, e que são efetiva-
mente coautores desse trabalho.
This research hasn't been cited in any other publications.
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  • Article
    Full-text available
    Purpose: The pink esthetic score (PES) and white esthetic score (WES) are tools utilized to objectively evaluate single-tooth implant restorations (STIR) in the esthetic zone.1 A questionnaire study was developed to address two objectives: (1) establish a total PES/WES score that is clinically acceptable based on layperson perception and (2) report outcomes in laypeople's perceptions of pink and white deficiencies. Materials and methods: A presentation book of 27 color-calibrated photographs of a STIR in the esthetic zone (canine to canine) surrounded by virgin teeth and one photograph without a STIR (control) was presented to three prosthodontists (evaluators) to conduct a PES/WES evaluation. The same 27 photographs were presented to 101 laypeople. The laypeople were instructed to identify which tooth was the STIR. The laypeople were also instructed to record, based on pink or white esthetics, what factors influenced their decision on the selection of the STIR. Results: For the evaluator's scores of the 27 cases, the mean PES score was 5.7 (range, 3 to 10). The mean WES score was 6.2 (range, 3 to 10). The mean total PES/WES score was 11.9 (range, 6 to 20). The mean percentage of laypeople unable to correctly identify the STIR was 59.1% (range, 13.9% to 89.2%). When the evaluator's PES/WES score was greater than 12, 79% of the layperson population was not able to identify a STIR (ρ = -0.86). In addition, when the PES score was 6, 90% of the laypeople were not able to perceive a pink deficiency (ρ = -0.65), and when the WES score was 6, 83% of the laypeople were not able to perceive a white deficiency (ρ = -0.57). Conclusion: Within the limitations of this study, in single-tooth implant restorations, a total PES/WES score greater than 12 would provide a STIR that would be clinically acceptable in the majority of situations. This study also concluded that laypeople identify white esthetic deficiencies more easily than pink esthetic deficiencies.
  • Article
    Reconstruction of craniofacial defects following cancer surgery may be performed using several techniques and materials. This case report describes surgery for a large tumor, as well as the rehabilitation process which involved a craniofacial prosthesis covering the whole defect of the anterior brain, orbit, mid-face and hard palate. The results suggest that a craniofacial prosthesis anchored on titanium implants is a viable alternative as a retention system, and also a good alternative to other reconstructive surgeries.
  • Article
    Full-text available
    This article, through presentation of case studies, defines differences and suggests separate definitions for the terms cosmetic dentistry and esthetic dentistry. Dentistry strives to emulate harmonious form and function for therapy, and modification of appearance is an integral part of dental treatment. Cosmetic dentistry suggests a certain accommodation and is a compromise of current technology. Cosmetic dentistry is commonly selected as an interim procedure that does not necessarily function ideally and does not always emulate the pristine state of a natural dentition. Esthetic dentistry requires less accommodation, incorporates acceptable biologic technology for long-term survival, functions suitably, and mimics the pristine state of the natural dentition. Cosmetic and esthetic dentistry are different in definition, concept, and execution.
  • Considerations in Esthetic Crown Lengthening
    • E Bakeman
    • J Kois
    Bakeman E, Kois J. Considerations in Esthetic Crown Lengthening. Journal of Cosmetic Dentistry. 2014;30(2):54-62
  • Reconstruction of pink esthetics: The periodontal way Contemporary Clinical Dentistry
    • K Balasurbramanian
    • L Mohamed
    • B Dhatheri
    Balasurbramanian K, Mohamed L, Dhatheri B. Reconstruction of pink esthetics: The periodontal way Contemporary Clinical Dentistry. 2015;6(1): 84-7
  • Procederes básicos de laboratorio en prótesis bucomaxilofacial 2da ed
    • A Álvarez
    Álvarez A, et al. Procederes básicos de laboratorio en prótesis bucomaxilofacial 2da ed. La Habana; Editorial CIMEQ; 2008.