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Paradise Lost: ordenação episódica e o problema do livre-arbítrio

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Abstract

A fama internacional de John Milton (1608-74) se deve a seu épico Paradise Lost (1667; 2.ed.1674), cujo explícito objetivo é “justificar aos homens os proce- dimentos de Deus” (01.26), ou seja: promover uma justificativa da queda, responsabilizando a humani- dade por sua ruína, isentando a divina providência e lhe confirmando a misericórdia. O artigo propõe que se pense Paradise Lost como um experimento mental centrado no conceito de livre-arbítrio: a estratégia de Milton consistiria em manipular ou inserir episódios nas possíveis lacunas do básico enredo bíblico que lhe serve de base, que preenchessem as condições necessárias para se dizer que as personagens agem de modo consciente e suficientemente racional para que sejam responsabilizadas por suas infelizes escolhas. Milton ofereceria, assim, uma solução narrativa a um problema filosófico. John Milton’s (1608-74) international fame is due to his epic poem, Paradise Lost (1667; 2nd.ed.1674). The poem’s explicit goal is to “justify the ways of God to men” (01.26), that is: to promote a justification of the Fall, which would hold humanity responsible for its own demise while redeeming Divine Providence and confirming its mercy. This article proposes that Paradise Lost be conceived as a thought experiment: Milton’s strategy would be to manipulate or insert episodes in the possible gaps found in its underlying biblical narrative, so that they would fulfil the necessary conditions for the characters to be shown as conscious and satisfactorily rational agents, who could be held accountable for their unhappy choices. Milton would have thus offered a narrative solution for a philosophical problem.
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 548
Resumo
A fama internacional de John Milton (1608-74) se
deve a seu épico Paradise Lost (1667; 2.ed.1674), cujo
explícito objetivo é “justicar aos homens os proce-
dimentos de Deus” (01.26), ou seja: promover uma
justicativa da queda, responsabilizando a humani-
dade por sua ruína, isentando a divina providência e
lhe conrmando a misericórdia. O artigo propõe que
se pense Paradise Lost como um experimento mental
centrado no conceito de livre-arbítrio: a estratégia de
Milton consistiria em manipular ou inserir episódios
nas possíveis lacunas do básico enredo bíblico que
lhe serve de base, que preenchessem as condições
necessárias para se dizer que as personagens agem de
modo consciente e sucientemente racional para que
sejam responsabilizadas por suas infelizes escolhas.
Milton ofereceria, assim, uma solução narrativa a
um problema losóco.
Palavras-Chave: John Milton; Paradise Lost;
livre-arbítrio; presciência divina.
a Universidade Federal do Ceará, fbnfnds@gmail.com
Paradise Lost: ordenação episódica
e o problema do livre-arbítrio
Fabiano Seixas Fernandesa
Recebido em 10 de junho de 2015
Aceito em 09 de julho de 2015
Paradise Lost
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 549
A Inglaterra do século XVII conheceu um vivo debate
acerca das relações entre religião institucional e Estado, fo-
mentado por inúmeras questões doutrinárias, despertadas
tanto por problemas políticos quanto estritamente teológicos.
Por um lado, a implantação do Anglicanismo parece destoar
do modo como o protestantismo – especialmente o de vertente
calvinista – surgiu em outros países da Europa; se Henrique
VIII livrou a Inglaterra do jugo da Prostituta da Babilônia e do
emissário de Satã (tal era a concepção dos calvinistas acerca
da Igreja Católica e o Papa), manteve grande parte de sua es-
trutura ritualística e administrativa, o que parecia fazer com
que seu calvinismo estivesse pela metade – especialmente
se levada em conta a postura intransigente de arcebispos da
Cantuária, como William Laud. Os descontentes com tal estado
de coisas – cujo grau de descontentamento era variado, e cujas
opiniões nem sempre eram uniformes – acabaram conhecidos
como puritanos.
1
A necessidade de se gerar uma doutrina verdadeira,
consistente, perfeitamente unicada e uniformemente aplicada
entrava, na Inglaterra panetária do século XVII, em pleno
desacordo com a ampla variedade de doutrinas e problemas
doutrinários então existentes (POOLE, 2000, p. 02). Com o
advento da Guerra Civil, o colapso dos mecanismos estatais
de censura trouxe um número ainda maior de doutrinas e
prossões particularmente radicais (COMO, 2008, p. 252). O
caminho da liberdade religiosa se faz, na Inglaterra, pela cres-
cente impossibilidade de se encontrar caminhos doutrinários
uniformes.
Este é o contexto em meio ao qual surge a obra-prima do
poeta e panetário inglês John Milton. Paradise Lost não pode
ser dissociado deste contexto beligerante, uma vez que, a meu
ver, une a ampla capacidade poética de seu autor à sua ampla
e anterior atuação como polemista. Paradise Lost preenche a
narrativa dos dois capítulos iniciais do Gênesis não somente
com dados e fatos que lhe conferem maior verossimilhança e
riqueza, mas também com explicações e doutrinas que com-
batem outras – desde a ousada doutrina de que Pai e Filho
não são a mesma pessoa, ou seja, uma recusa da doutrina da
Trindade,
2
até o tratamento de questões como a nudez, as re-
1 Para um breve histó-
rico dos termos empre-
gados para se referir a
esse grupo heterogêneo,
ver Collinson (2008, p.
19-33); para um ques-
tionamento de seu uso
contemporâneo, ver Po-
ole (2000, pp. 03-4).
2 Mesmo a uma leitura
recreativa, desinteres-
sada ou desinforma-
da acerca de questões
doutrinárias, o texto
de Paradise Lost revela
Deus e o Filho como
personagens claramen-
te distintas. Também,
o Filho é claramente
criado e investido de
poder sobre os anjos
(05.60 0-15, p. 316-7),
estando adjacente ao
Trono do Pai (06.678b-
-84a, p. 339) e sendo
executor de seus desíg-
nios (como na Criação
do mundo: 07.163-75, p.
350), mas nunca tratado
como o próprio Deus.
A negação da unidade
entre Pai e Filho é ex-
plícita no capítulo 05
de De Doctrina Christina
(trad. para o inglês dis-
ponível em HUGHES,
1957/2003, pp. 932-64).
(Todas as citações de
Paradise Lost são feitas a
partir de edição de Hu-
ghes, 1957/2003; incial-
mente, cita-se o número
do livro ou capítulo, se-
guido pelo número dos
versos e pelo nú mero da
página correspondente
à edição de Hughes.)
Fabiano Seixas Fernandes
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lações sexuais e mesmo talvez a excreção no Éden pré-queda.
3
Sem ser propriamente um compêndio teológico tal como
volume De Doctrina Christiana, satisfatoriamente aceito como
sendo de John Milton , Paradise Lost não se esquiva ao debate,
e portanto me parece indissociável da atividade de Milton
como panetista.
De todos os problemas teológicos possíveis, interessa-
-me, por razões que exporei mais adiante, a questão da relação
entre onisciência divina e livre-arbítrio, especialmente em sua
vertente teológica. Escolho-o, porque minha leitura particular
de Paradise Lost me leva a crer que se trata não apenas de um
problema abordado por Milton em seu épico; parece-me o pro-
blema central, e esta centralidade tem, a meu ver, implicações
para a estrutura narrativa do poema. O épico é estruturado
como narrativa de forma a abordar, a cada passo, o problema
da liberdade moral humana.
A exposição tomará a seguinte forma: inicialmente,
descrevo em termos breves o problema losóco-teológico
da onisciência e suas implicações para a liberdade humana; a
seguir, derivo desta explicação o que me parece ser a estrutura
argumentativa elementar de Paradise Lost, que está presente na
montagem de seu enredo; nalmente, descemos ao enredo e
buscamos conrmação dessa estrutura ao nos determos nele.
4
1. Onisciência, presciência e livre-arbítrio5
1.1. Problemas epistêmicos da onisciência e da presciência
Onisciência é a capacidade (não necessariamente divina)
de se ter conhecimento de todas as coisas existentes. Quando
se diz que seu conhecimento abarca todas as coisas, quer-se com
isso usualmente dizer que Deus (ou outro sujeito cognoscente
onisciente, doravante sco) apresenta conhecimento completo
de tudo quanto pode ser proposicionalmente conhecido. Co-
nhecimento proposicional é o tipo de conhecimento que pode ser
formalizado por meio de linguagem. Se Auguste Rodin sabe
esculpir, sua habilidade pode ser formalizada na proposição
Auguste Rodin sabe esculpir”; em sendo isso verdade, Deus
infalivelmente sabe que Rodin sabe esculpir. Isso talvez não
queira dizer que Deus, como Rodin, saiba esculpir: sendo in-
3 Os temas da nudez
e das relações sexuais
são explicit amente abor-
dados no quarto livro.
Quanto ao primeiro, a
naked Majesty [nua Ma-
jestade] (04.290, p. 285)
ou a naked beauty [nua
beleza] (04.713, p. 294)
de Adão e Eva são exal-
tados, a ponto de haver
menção eufemistica-
mente explícita de que
os órgãos sexuais esta-
vam à mostra (04. 312-20,
p. 285-6); a perfeição
de sua constituição e
sua ausência de malícia
darão ares de andrajos
reais e cortejo solene à
nudez de Adão, quando
vai ao encontro do anjo
Rafael (05.350-7, p. 310);
finalmente, as roupas
são descritas como um
empecilho (04.739b-40
p. 295) — outro recurso
que desvela a superio-
ridade da nudez edêni-
ca, não encoberta pela
malícia e consequente
vergonha. Quanto ao
segundo, o tratamento
vai desde a ind ireta ine-
vitavelmente c ontida em
qualquer menção ao lei-
to nupcia l (por exemplo,
04.690 e 710-1, p. 294) até
a menção explícita da
opinião de que h avia en-
tre os primos pais con-
luio car nal, redundando
em uma defesa do amor
esponsal (04.741b-75, p.
295-6). Finalmente, a
identicação dos tempe-
rate vapors bland [suaves
vapores] (05.05, p. 302)
exalados por Adão e Eva
como “a discreet an swer
to the perennial answer
of Edenic excretion”
[uma discreta respos-
ta ao perene problema
da excreção edênica]
é explicita apenas na
edição de Teskey (2005,
p. 106, nota); por va-
pors, Hughes entende “a
definite medical term
meaning exhalations of
digestion” [termo m édi-
co denotando exalações
digestivas] (1957/2003,
p. 302, nota); Kerrigan,
Rumlic h & Fallon (2007)
relacionam esses vapo-
res ao sono: “Sleep, it
was believed, was cau-
sed by vapors arising
Paradise Lost
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corpóreo, Deus não tem braços para segurar o cinzel e o impor
ao mármore. Poder-se-ia responder que Deus seria capaz de
criar uma escultura do nada, exatamente igual à de Rodin, ou
muito superior, se o desejasse. Ocorre que saber gerar a mes-
ma escultura de Rodin seria ainda assim diferente de saber
esculpir uma escultura qualquer: a incorporeidade divina lhe
vetaria fazer o que Rodin faz exatamente como Rodin o faz; o
Senhor também não saberia, neste sentido físico-cognitivo de
conhecimento, andar de bicicleta, pular corda ou deitar-se; do
mesmo modo, o Senhor pode saber o que é sentir fome ou sono,
mas não os sente: não os conhece como experiência direta e
intransferível. Este parece ser um dos problemas da onisciên-
cia: nem todos os tipos de conhecimento parecem adequados
a outros traços da divina estrutura.
Outro sentido da expressão todas as coisas, mais interes-
sante para o que estamos investigando, é o temporal. Onis-
ciência, em sentido estrito, poderia se limitar ao conhecimento
de todas as verdades eternas; Deus seria pouco mais que um
perfeito matemático ou um lógico plenamente tautológico – o
que parece pouco para quem deveria saber, mais que muito,
tudo. Seguramente, Deus possui conhecimento fatual: conhe-
ce não só as leis do universo, mas também de que modo se
atualizaram em coisas e eventos, e de como estes eventos se
concatenam em sequências temporais; assim, conhece todo o
passado e todo o presente; a muitos, pareceria simplesmente
arbitrário excluir deste conhecimento o futuro: conheceria,
portanto, o todo da história universal, da fundação ao m
dos tempos.
O conhecimento futuro pode ser problemático, ainda
mais se aliado à infalibilidade. Quando se diz que o conhecimen-
to divino é infalível, quer-se com isso dizer não só que Deus não
tem crenças falsas, mas que lhe seria absolutamente impossível
ter crenças falsas de qualquer espécie: pois toda proposição, se
Deus a conhece, é (necessariamente) verdadeira.
O problema ético central de tal estrutura cognitiva reside
em sua relação com o universo criado e com agência humana
dentro dele. A potencial existência de qualquer sco, mesmo
mortal e humano, e mesmo que a onisciência estivesse restrita
ao conhecimento proposicional, imporia restrições à liberdade
in the stomach” [acre-
ditava-se que o sono
era causado por vapore s
originários do estôma-
go]; finalmente, Ricks
se lim ita a explicitar que
um which ambíguo em
05.06 se refere ao sono
(espantado por far falhar
suave das folhas), e não
aos vapores (1968/1989,
p. 107, nota).
4 Uma importante res-
salva: consulta preli-
minar à fortuna crítica
que aborda, na obra de
Milton, o problema do
livre-arbítrio, levou-
-me a concluir que inú-
meros críticos impor-
tantes (constantes das
referências do artigo),
até então, abordaram
o problema como se
Milton oferecesse uma
solução losóca ao pro-
blema, e se propuseram
a defender a defesa que
Milton faz de seu Deus,
ou justicá-la. Uma vez
que as teses aqui de-
fendidas seguem em
rumo contrário, e que a
análise aqui empreen-
dida é essencialmente
narrativa, a divergência
de posições e o neces-
sário detalhamento da
análise de um texto tão
longo levaram-me à op-
ção metodológic a de ini-
cial mente desenvolver a
análise, deixando para
um segundo momento
seu contra ste com as po-
sições defendidas pelos
miltonistas. Detalhar
minha posição e defen-
dê-la adequadamente
perante os críticos da
obra de Milton excede-
ria em muito os limites
de um artigo.
5 O resumo que segue
do problema est á basea-
do em Danielson (1982),
Fischer (1982), Mavro-
des (1997), Swartz (2004)
e Zagsbesky (1997; 2011).
Fabiano Seixas Fernandes
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humana de ação. Em sua mais simples formulação, o problema
pode ser posto como segue:
6
(1) se sco sabe que x, então x
sco sabe que x
logo, x
Trata-se de um silogismo do tipo modus ponens, sucien-
temente estabelecido como forma inferencial válida. Poderia,
porém, ser enriquecido com componentes oriundos de modelos
de lógica modal. Da lógica alética, pode emprestar saber como
um operador modal, sendo portanto extraído do interior da
expressão:
(2) se sco sabe que x, então x
sco sabe que x
logo, x
da lógica deôntica, pode emprestar o fator necessidade:
(3) se sco sabe que x, então é necessariamente o caso que x
sco sabe que x
logo, é necessariamente o caso que x
nalmente, da lógica temporal, pode emprestar a sensibilidade
à circunstâncias temporais:
(4) se sco soube que x, então será o caso que x
sco soube que x
logo, será o caso que x
(5) se sco sempre soube que x, então sempre será o caso que x
sco sempre soube que x
logo, sempre será o caso que x
Assim, se um sco sabia que em 1603 – ano anterior ao
nascimento de John Milton – que, em 1667, o poeta ainda ine-
xistente nalizaria a primeira versão de Paradise Lost, Milton
assim o faria necessariamente. O épico passou por posterior
revisão, e teve seu número de livros aumentado de dez a doze,
sendo uma sua segunda edição publicada em 1674; antes disso,
seu sucesso gerara a encomenda de outro poema de teor se-
melhante, donde surge Paradise Regained (1671), cujo tempo de
6 Leia-se os símbolos
contidos nas formas ló-
gicas como segue: s =
proposição “sc o sabe
que x”; x = uma pro-
posição qualquer; =
operador da implicação
material (se… então…);
= logo (apresenta a
conclusão do argumen-
to); K = operador epis-
têmico (saber que…);
c = sujeito do conheci-
mento ao qual se refere
o operador epistêmico
(neste caso, o sco); =
operador deôntico de
necessidade (é necessa-
riamente o caso que…);
P = operador temporal
fraco do passado (uma
vez foi o caso que…);
F = operador temporal
fraco do futuro (uma
vez será o caso que…);
H = operador temporal
forte do passado (sem-
pre foi o caso que…); G =
operador temporal forte
do futuro (sempr e será o
caso que…).
Paradise Lost
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planejamento e execução são consideravelmente menores que
a longa gestação de seu irmão maior. O sco ubicado em 1603 já
sabia de tudo isso; perante seu conhecimento, que escolha teria
realmente o gênio poético de Milton ao deixar Paradise Lost em
dez livros? Que escolha teria de não compor Paradise Regained?
As respostas dadas ao problema variam muito conforme
sua apresentação em forma lógica, e enfrentar modelos mais
sosticados não me parece destruir a dependência destes de
um mais simples e, por isso, muito menos ambíguo e bem
mais forte.
7
Assim, apesar de o componente temporal fazer
parte de algumas importantes respostas ao problema, não me
parece descabido propô-lo sob forma não modalizada, como
o apresentei em primeiro lugar.
1.2. Problemas teológicos da onisciência e da presciência
Se o sco em questão é, de fato, Deus – o Criador do uni-
verso e da humanidade –, o problema assume proporções
teológicas. O Deus cristão pune e premia, condena e absolve;
se o faz, é porque cada ser humano teria perante Si o dever de
endossar conscientemente a moral divina. Para que possa haver
endosso consciente, é necessária, mais que consciência, uma
vontade racional que venha a concluir pelo endosso. A criatura
humana é dita livre para agir, dotada de livre-arbítrio – a fa-
culdade de ser a sede das próprias decisões, sem determinação
externa. A ausência de determinação que pressupõe o livre-
-arbítrio é dupla: por um lado, é pretérita, vetando que fatores
de qualquer ordem (cio-históricos, cognitivos, espirituais
etc.) se imponham de tal maneira que seja impossível a um ser
humano qualquer agir (ou escolher agir) senão de tal modo
em tal situação; deve haver um campo de indeterminação, no
qual o próprio ser humano possa vir a atuar. Por outro lado,
é futura, abrindo frente ao ser humano um leque de possibili-
dades previamente não realizadas. Mas perante um Deus que
conhece prévia e infalivelmente todo e qualquer ato de toda e
qualquer vida humana, não parece haver espaço para escolha:
tudo deve ocorrer exatamente como Deus sabe que ocorrerá.
As consequências, se são sombrias para a liberdade hu-
mana e, portanto, para sua responsabilidade moral, também
causam problemas com outros atributos divinos. Se não é
7 Montagens formais
do problema podem ser
encontradas em Swartz
(2004) e Zagsbesky;
Zagsbesky monta ini-
cialmente o problema
em uma sequência de
oito argumentos (1997),
aprimorando-a em uma
versão com dez (2011);
Danielson (1982) apre-
senta uma descrição
não forma l do problema
em sua versão teológica
pertinente ao contexto
do século XVII.
Fabiano Seixas Fernandes
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possível responsabilizar a humanidade (cujos férreos atos são
determinados desde a eternidade pelo adamantino conheci-
mento divino), sua punição resulta injusta; mais que isso: suas
faltaso, na verdade, falta do Deus que a criou: podendo havê-
-la criado diversamente, criou-a falível para que errasse, sabia
que iria errar e ainda assim a responsabiliza. A onipotência
divina, sua justiça e sua bondade parecem incompatíveis com
usa onisciência.
Dentro do contexto específico do século XVII, estes
problemas tomam a forma de uma discussão sobre os limites
teóricos do calvinismo. As cinco teses centrais do calvinismo
são as seguintes: (01) Depravação total: o ser humano é afetado
pelo pecado em todos os seus componentes: corpo, mente e
alma. (02) Eleição incondicional: o ser humano de modo algum
merece a salvação; a graça que Deus estende aos homens é
fruto completo e absoluto de sua misericórdia e livre escolha.
(03) Expiação limitada: o sacrifício de Cristo na cruz não expia
os pecados da inteira humanidade, mas apenas daqueles já
predestinados à salvação. (04) Graça irresistível: quando Deus
estende sua graça a um indivíduo qualquer, não é possível a
este indivíduo recusá-la. (05) Perseverança dos santos: um vez
que o indivíduo é agraciado (uma vez que haja sido justicado),
não é possível que torne a perder a graça concedida.
O óbvio problema dessas teses é o de que, para salva-
guardar o mais alto grau de perfeição divina – gerando uma
descrição de Deus na qual Ele é absoluto responsável por todas
as suas decisões, sem ser inuenciado pela mínima ação ou
volição humana, e na qual suas ações são ecazes em nível
máximo –, os princípios centrais do calvinismo retiram do ser
humano toda e qualquer possibilidade de ação, e correm o risco
de tornar Deus o responsável absoluto por todo o pecado do
mundo; a doutrina da depravação total o impede de parecer
demasiado injusto (a humanidade é má e merece punição,
sendo toda e qualquer prova de favor um ato de generosidade
divina), mas não impede que se lhe impute o pecado.
Os problemas práticos gerados por uma semelhante
descrição (se não é possível atingir salvação pelas obras, que
tipo de vida levar? Deve-se seguir a Lei? Há como saber se
fomos justicados? etc.) dão vazão a inúmeras heresias, as
principais sendo o arminianismo e o antinomianismo. O primei-
ro prevê maior grau de cooperação divina: a predestinação é
Paradise Lost
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condicionada à divina presciência da fé que terão os futuros
seres humanos; a graça que lhes é oferecida pode ser recusa-
da, devendo ser escolhida e aceita; pode também ser retirada
ou perdida; apesar da depravação total, Deus concede sua
graça preventiva, permitindo que parte dos efeitos do pecado
seja suspensa, para que o indivíduo possa buscar a salvação;
o arredondamento disso tudo é que o arminianismo parece
pender para uma doutrina da salvação pelas obras, inaceitável
aos calvinistas. O antinomianismo, pelo contrário, é o princí-
pio da salvação pela fé levado aos extremos: os predestinados
estariam escusados de seguir a lei, uma vez que sua graça já
lhes foi concedida e ecazmente garantida. Bremer (2008, p. 44)
comenta que, em seu desejo de se saberem salvos, os puritanos,
em seus escritos, corriam sempre o risco de pender tanto para
uma quanto para outra doutrina.
Alguns críticos de Milton (DANIELSON, 1982, em parti-
cular) parecem seguros de que o poeta e panetista inglês se
aproximou do arminianismo,
8
cujas doutrinas parecem ree-
tidas tanto em De Doctrina Christiana quanto em Paradise Lost.
Para nossos propósitos, este é o quadro referencial que guia a
discussão do livre-arbítrio miltoniana: garantir a justiça divina
da punição à humanidade depravada; garantir a misericórdia
divina que oferece sua graça imerecida a todos em grau su-
ciente, e mesmo predestina certas pessoas (aquelas cuja fé é
prevista de antemão) à salvação; garantir a onisciência divina
e, ao mesmo tempo, responsabilizar os homens por sua escolha
em se afastar dos mandamentos de Deus.
2. A defesa do livre-arbítrio e a ordenação dos episódios
de Paradise Lost
2.1. Estrutura argumentativa elementar
Passemos a uma descrição mais esquemática do quadro
losóco que embasa Paradise Lost. O objetivo central do poema
é claramente estipulado na invocação de abertura às musas;
Milton deseja justicar os procedimentos de Deus” ao homem.
Isso signica reconciliar certos traços das constituições divina
(sinalizados abaixo por dX) e humana (sinalizados abaixo por
hX) aparentemente mutuamente mal-acomodados:
8 Para uma discussão
das posições tomadas
pelos críticos acerca do
quão arminianas se-
riam a s ideias de Mi lton,
ver, por exemplo, Fallon
(1999) e Myers (2006).
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Deus apresenta simultaneamente os traços: (d1) onipo-
tência, (d2) onisciência, (d3) justiça e (d4) bondade.
A humanidade apresenta simultaneamente os traços:
(h1) falibilidade, (h2) liberdade e (h3) responsabilidade
moral.
9
Ajustá-los exige resposta às seguintes perguntas:
Se Deus é (d1) onipotente, por que a humanidade é
(h1) falível?
Se Deus é (d2) onisciente, como pode a humanidade
ser (h2) livre?
Assumindo-se a incompatibilidade entre (d2) e (h2),
tem-se:
Se a humanidade (¬h2) não é livre, como pode ser
(h3) moralmente responsável por seus atos? Ou seja:
se Deus é (d3) justo e (d4) bondoso, como pode punir
(¬h3) inocentes?
Assim, justicar os procedimentos de Deus, signicaria
provar o seguinte:
A (d1) onipotência e a (d2) onisciência são compatíveis
com a (h1) falibilidade.
A (d2) onisciência é compatível com a (h2) liberdade
(ou seja, com o livre-arbítrio).
A (d3) justiça e a (d4) bondade são compatíveis com a
(h3) responsabilidade moral da humanidade.
À exceção da onipotência assunto do qual não creio
que Paradise Lost se ocupe senão lateralmente –, as demais
características são devidamente justicadas por uma defesa
do livre-arbítrio humano. O livre-arbítrio torna a humanidade
responsável por seus erros e, portanto, passível de arcar com
suas consequências; a justiça divina fará com que arque com
elas, ao passo que a bondade suavizará a pena de algum modo.
2.2. Estratégias narrativas e atitudes
Se onipotência, bondade e justiça não são incompatí-
veis com o livre-arbítrio e com a responsabilização moral da
humanidade – pelo contrário, esta parece mesmo solicitar ao
menos as duas últimas , a onisciência parece mais fortemente
9 Não incluo aqui a
raciona lidade; apesar de
sem dúvida necessária
para a teod iceia, não pa-
rece entrar em desacor-
do com os traços d ivinos
de nosso interesse.
Paradise Lost
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incompatível com semelhante descrição da agência humana e
de suas implicações éticas. Por esta razão, armo que Paradise
Lost toma a defesa do livre-arbítrio como sua tarefa central, e
que seu detalhamento ccional do mito da criação disposto nos
dois primeiros capítulos do Gênesis é feito de tal modo que
ocasione oportunidades de demonstrar – ou melhor, visualizar
a bondade divina e a culpabilidade racional de anjos e homens.
Como ccionista, Milton o pode provar suas teses pelas
vias estritas do argumento formal, e creio mesmo que não o
faz. A narrativa de Paradise Lost não prova que a humanidade
é livre; mostra-a como se o fosse. Seu esforço não é o de um
argumento que prova dada tese, mas a de um experimento mental
que a pressupõe, provando-lhe a validade através da consis-
tência e da não incompatibilidade de um modelo de mundo
na qual os traços humanos e divinos supracitados coexistam.
Note-se que não incompatibilidade é, em princípio, diferente de
coexistência, contingente ou necessária. Não creio que Paradise
Lost chegue a provar que os traços divinos necessariamente
coexistem juntamente aos humanos, mas apenas que podemos
conceber um modelo de mundo no qual não sejam mutuamente
excludentes.
Daí a relação entre a ordenação da narrativa em episódios
e livre-arbítrio. O enredo de Paradise Lost será constituído de
modo a gerar cenas que nos permitam ver simulações de um
mundo possível no qual: (01) As criaturas estão plenamente ap-
tas a fazer escolhas racionais – tanto internamente, em termos de
faculdades físicas e mentais, quando externamente, em termos
de acesso a dados analisáveis que lhes permitam raciocinar
adequadamente (ainda que possam induzir ao erro, como se
verá). Isso as torna moralmente responsáveis por seus atos. (02)
As criaturas, portanto, quando confrontadas com impasses,
escolhem racionalmente suas ações. (03) Deus estipula uma pena
justa para o desvio, e mesmo assim a minora. (04) Deus dá
provas de sua generosidade (que, indiretamente, atuam como
provas de sua onipotência): solicita muito mais do que exige,
e oferece muito mais ainda em troca.
As estratégias narrativas recorrentes para nos mostrar
tais situações estão principalmente ligadas às formas como
as personagens se expressam ao longo do texto, e ao tipo de
atitude que então assumem. Diviso três formas de expressão:
discursos, monólogos e diálogos. O que chamo discurso é uma
Fabiano Seixas Fernandes
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 558
fala pública que não necessariamente exige resposta por parte
dos interlocutores (mesmo que haja tal resposta); o que chamo
monólogo é uma forma de discurso, seja interior ou exterior,
que não tem interlocutores, sequer meramente fáticos; o que
chamo diálogo não abrange toda e qualquer conversa entre as
personagens, mas está restrito apenas àquelas nas quais há
diferença de opiniões e, portanto, debate argumentativo. Es-
ses tipos de expressão verbal podem, por sua vez, dar vazão
a três tipos de atitudes: exposição explícita de ideias, avisos e
posicionamentos. Nas exposições, as personagens diretamente
armam as teses centrais do poema; através de avisos recebidos,
têm acesso verbal a dados analisáveis que as capacitariam à
tomada racional de decisões; uma vez plenamente cientes dos
caminhos possíveis – submissão ou desobediência –, tomam
um posicionamento, escolhendo o que racionalmente lhes parece
mais verdadeiro.
2.3. Instanciações das estratégias narrativas e atitudes
ao longo de Paradise Lost
Passo agora a arrolar os momentos nos quais as estraté-
gias acima descritas dão vazão às atitudes. A exposição abaixo
selecionará os momentos-chave dos primeiros nove livros – ou
seja, até o livro no qual a ocorre a tentação de Eva, sua queda
e sua tentação de Adão. Penso que esta forma de exposição
tonará mais evidente a recorrência das estratégias e atitudes
descritas e, portanto, sua centralidade na organização narrativa
do épico de Milton.
2.3.1. Livro Um: diálogos compreendendo
avisos e posicionamentos
Na abertura de Paradise Lost, logo após a invocação à
Musa, encontramos os anjos caídos tentando se reerguer de
uma torrente de fogo. Em seu diálogo com Satã (01.143-55, p.
215), Belzebu pergunta ao líder sobre a validade de se rebelar
contra os castigos divinos; e se o contra-ataque dos rebeldes
houver sido previsto por Deus, que não só conta com ele como
o usará para gerar algum tipo de bem maior? Já no livro pri-
meiro somos informados disso (01.210b-20, p. 216-7): a fala de
Paradise Lost
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 559
Belzebu, portanto, contém um aviso a Satã sobre a futilidade
de tentar frustrar os desígnios divinos. Este o ignora, e tem
sua primeira tomada consciente de posição:
The mind is its own place, and in itself
Can make a Heav’n of Hell, a Hell of Heav’n.
What matter here, if I be still the same,
And what I should be, all but less than hee
Whom Thunder hath made greater? Here at least
We shall be free; []
To reign is worth ambition though in Hell:
Better to reign in Hell, than serve in Heav’n. (01.254-
9a, 262-3, p. 217-8.)
[A mente em si mesma habita, e em si pode fazer do
Céu um Inferno e do Inferno um Céu. Que impor-
ta onde esteja, se ainda sou o mesmo? O que serei
senão nada inferior àquele cuja grandeza deriva
do trovão? Aqui ao menos seremos livres. Reinar
é bastante ambição, mesmo que sobre o Inferno:
melhor reinar no Inferno que servir no Céu.
10
]
Esta é a primeira de muitas instâncias em que Satã pa-
recerá optar pela via do mal, descartando evidências e argu-
mentos que o poderiam haver levado a agir diferentemente.
Como a humanidade, Satã é responsável por sua própria e
perdida escolha.
2.3.2. Livro Dois: diálogos compreendendo
avisos e posicionamentos
No livro segundo, os demônios em concílio tentam pen-
sar em estratégias para se vingar do Soberano dos Céus. Mo-
loch propõe que se declare guerra aos poderes celestiais (02.51,
p. 233); sua proposta é refutada por Belial (02.119-225, p. 235-7).
Sua fala é bastante ponderada: reconhece a justiça da punição,
a impossibilidade de se obter vitória contra Deus e a tolice de
se aniquilar tentando; propõe que construam sua sociedade, e
muito provavelmente tem razão em dizer que, se não atacarem
a Deus, este nada mais de mal lhes fará;
11
sinaliza, portanto, a
bondade divina, e, como antes a de Belzebu, serve como aviso:
10 Todas as traduções em
prosa dos excertos de
Paradise Lost são mi nhas.
11 É importante, porém,
notar que Milton des-
qualica explicitamen-
te a fala de Belial, ta-
chando seus propósitos
como “ignoble ease, and
peaceful sloth” [ignóbil
conforto e pacíca pre-
guiça] (02.227, p. 237).
No entanto, trata-se da
mais ponde rada fala in-
ferna l do livro segundo,
e mais próxima de uma
defesa da justiça divina
feita no in ferno. Se hou-
vesse sido ouvido, não
haveria pecado original;
ademais, aponta para a
justiça divina (a puni-
ção foi justa) e para sua
misericórdia (a puni-
ção não será agravada).
Talvez Milton sentisse
que deveria desquali-
car Belial, justamente
porque sua fala não
lhe garantiria evidente
lugar no inferno; seus
motivos têm de ter algo
errado, já que sua fala (à
exceção do fato de que
não argumenta em fa-
vor de se pedir perdão)
não tem.
Fabiano Seixas Fernandes
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 560
Satã estava ciente de que havia a opção de não incorrer na ira
divina uma segunda vez e a ignorou.
A fala de Belial parece encontrar eco na de Mamon
(02.229-83, p. 237-8), que também refuta a proposta de se de-
clarar guerra e aconselha a construção de um reino infernal,
onde pudessem viver em paz e tentar construir alegria a partir
da própria dor; cita ainda a repulsa que sentem em novamente
sujeitar-se ao serviço do Senhor; para isso, menciona a possibi-
lidade de pedirem (e receberem) perdão. Sua fala tem o mesmo
caráter de aviso, portanto, acrescida da importante menção
explícita ao pedido de perdão – que retornará mais adiante.
2.3.3. Livro Três: monólogo compreendendo exposição e aviso
Este livro tem a importância de trazer o monólogo de
Deus, no qual a doutrina do livre-arbítrio adotada em Paradise
Lost é apresentada, compreendendo a armação da onisciência,
da presciência e da bondade divinas (03.78, 92-6, p. 260); no caso
desta, a fala busca expor não só que as exigências divinas em
relação à humanidade são simples e fáceis, mas também que
à humanidade foram dadas liberdade e faculdades mentais
sucientes para cumpri-la, ou seja, a bondade divina aqui
aparece como parte da doutrina da graça suciente (03.98-9
p. 260). Deus arma que humanos e anjos caem por escolha
própria (03.102, p. 260), que a misericórdia divina será esten-
dida àqueles, pois, sem ela, não poderiam buscar a salvação
– ou seja, a graças preventiva e suciente (03.198-90, p. 262) são
armadas –; a graça divina, segundo o Deus que se manifesta
em Paradise Lost, poderia ser rejeitada, já que apenas os que a
aceitarem encontrarão perdão (03.191-202, p. 262-3). Conforme
exposto em De Doctrina Christiana, a graça divina é condicional.
Apesar de, a meu ver, a fala de Deus ser predominan-
temente expositiva, levanta alguns contra-argumentos a pos-
síveis objeções. A liberdade humana é defendida: se não são
livres os humanos, o culto e os agradecimentos que rendem a
Deus são necessariamente determinados pela estrutura causal
dos cosmos; seriam, portanto, insinceros ou inválidos. Deus
deseja o racional reconhecimento de sua bondade por parte
de suas criaturas – o que só poderá acontecer ser forem livres
para render-lhe ou não graças (03.103-11a, p. 260). Para o Deus
Paradise Lost
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de Milton, é a Liberdade quem dá sentido e função à Vontade
e à Razão (03.108-9, p. 260).
O Deus de Milton também argumenta contra a relação
necessária entre presciência e determinismo; sua resposta
simples, mas, convenhamos, não incorreta – é dissociá-los:
conhecimento prévio de algo não implica pré-determinação,
e o ato previsto aconteceria mesmo que ninguém o previsse
(03.114-9, p. 261).
12
Assim, o fato de Deus saber que a huma-
nidade sucumbirá à tentação não faria d’Ele autor da queda.
2.3.4. Livros Quatro e Nove: monólogos
compreendendo posicionamentos
No livro quarto, deparamo-nos com três dos cinco
monólogos de Satã (04.32-113, 04.358-92, 04.504-35, 09.99-179,
09.473-93; respectivamente p. 278-80, 287, 290, 381-3, 389-90).
Interessa-nos, no livro quarto, o primeiro; nele, Satã expressa
a amargura de sua atual condição, quando comparada à beleza
do novo mundo criado. Demonstra consciência de que Deus é
um criador bom e justo, que não merecia insubordinação por
paga; pergunta-se, ainda, se não poderia se arrepender e pedir
perdão (a possibilidade de arrependimento já fora aventada no
livro segundo). Sua resolução em não se reconciliar com Deus
é, então, mostrada como escolha racional e consciente, fruto
de um pesar de prós e contras.
O mesmo tipo de hesitação ocorrerá nos monólogos do
livro nono: no primeiro, novamente a beleza do universo faz
com que Satã abrande seus sentimentos; no segundo, a beleza
de Eva fará com que tenha de “voltar a si” antes de abordá-
-la. Assim, os monólogos satânicos parecem nos mostrar que,
inúmeras vezes, Satã demonstrou duvidar de seus próprios
propósitos, titubeou empaticamente perante suas vítimas e
mesmo reconhecer a justiça e a bondade divinas; não obstante,
obstinou-se na rebeldia.
2.3.5. Livro Cinco: diálogos compreendendo avisos e
posicionamentos; exposição
O cuidado da construção narrativa de Paradise Lost pode
ser visto em momentos como o diálogo de Adão e Eva presente
12 De fato, não é uma
resposta incorreta, mas
ainda assim insucien-
te. O argumento parece
satisfatório se pensar-
mos em um sco não di-
vino, não onipotente:
somos muitas vezes ca-
pazes de prever o com-
portamento de pessoas
a quem conhecemos
intimamente, sem que
nosso conhecimento
tenha qualquer peso
em sua decisão (pense-
-se, por exemplo, em
uma situação na qual
não temos modo a lgum,
direto ou indireto, de
entrarmos em contato
com elas e lhes dizer o
que pensa mos). Para um
sco onipotente e criador
absoluto do cosmos e
das leis que as gover-
nam, porém, a relação
entre saber e determi-
nar parece bem menos
acidental.
Fabiano Seixas Fernandes
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 562
no livro quinto; nele, Eva relata a Adão um sonho estranho que
tivera – induzido por Satã, que se lhe aproximara do ouvido
sob a forma de sapo (04.799b-800, p. 297) –; o esposo aproveita o
ensejo para lhe explicar algo sobre o funcionamento da mente
e a origem dos sonhos:
But know that in the Soul
Are many lesser Faculties that serve
Reason as chief; among these Fancy next
Her ofce holds; of all external things,
Which the ve watchful Senses represent,
She forms Imaginations, Aery shapes,
Which Reason joining or disjoining, frames
All what we afrm or what deny, and call
Our knowledge or opinion; then retires
Into her private Cell when Nature rests.
Oft in her absence mimic Fancy wakes
To imitate her; but misjoining shapes,
Wild work produces oft, and most in dreams,
Ill matching words and deeds long past or late.
(05.100b-13, p. 304)
[Saiba que a Alma contém inúmeras faculdades me-
nores, que servem à Razão como soberana; dentre
elas, a Imaginação é subalterna imediata inferior
da Razão. De todas as coisas externas representa-
das pelos cinco vigilantes sentidos, a Imaginação
forma imagens, formas aéreas, com que a Razão,
compondo e descompondo, elabora quanto arma-
mos e negamos, e a que chamamos conhecimento ou
opinião. Então, quando é hora do repouso, a Razão
se recolhe a sua cela privada; em sua ausência,
amiúde desperta a mimética Imaginação e a imita,
mas, mal-juntando as formas, produz obras estra-
nhas, mormente pela via dos sonhos, combinando
erroneamente ocorridos longínquos ou recentes.]
A explicação pode soar desprovida de interesse direto, mas
sua importância é notória se comparada ao que dirá Adão no
livro nono, quando Adão e Eva têm sua primeira desavença pré-
-queda (09.205-405, p. 383-8). Uma explicação do funcionamento
da mente mostra como a razão pode, se levada por dados falsos
Paradise Lost
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(e apesar de ter condições de discernir entre dados verdadeiros
e falsos), descarrilhar em erro. Por esta razão, este diálogo apa-
rentemente acessório acaba assumindo papel de aviso.
2.3.6. Livros Cinco, Seis, Sete e Oito: o aviso de Rafael,
compreendendo o diálogo entre Satã e Abdiel
Também no livro quinto, Deus enviará o anjo Rafael à
Terra, com o propósito de avisar o casal humano do perigo que
corre, para que estejam cientes das intenções de Satã e possam
se defender (05.229-45, p. 307-8). As ideias expostas no livro
terceiro serão aqui repetidas (05.519-43, p. 314-5). A narrativa
de Rafael e seu diálogo posterior com Adão ocuparão aproxi-
madamente um quarto de Paradise Lost – ou seja, a parte central
do épico dá à recontagem dos fatos anteriores do tradicional
início in media res um caráter de aviso.
Ainda no livro quinto, Rafael reconta o diálogo entre Satã
e Abdiel (05.772-907, p. 320-3). Abdiel servia sob as ordens de
Lúcifer, sendo um dos anjos convocados por este sob o falso
pretexto de se reunirem. Lúcifer alicia suas tropas à rebeldia
contra a primazia do Filho (recentemente proclamada por
Deus); dentre todos, apenas Abdiel se nega a se rebelar, e, em
sua discussão com Lúcifer, além de lhe refutar as ideias, dá-lhe
explícito aviso acerca das consequências de sua insurreição:
soon expect to feel
His Thunder on thy head, devouring re.
Then who created thee lamenting learn,
When who can uncreate thee thou shalt know.
(05.892b-5, p. 323)
[Logo espere sentir o trovão de Deus sobre sua ca-
beça como um fogo devorador. Então, lamentando
descubra quem o fez, ao descobrir quem o pode
desfazer.]
É importante ressaltar que a resistência do anjo Abdiel
teria ainda uma segunda função – esta apontada já por Daniel-
son (1982, p. 109-19) –: servir como exemplo de criatura livre
que não caiu perante a tentação de Satã. Abdiel nos mostraria
que a queda não é inevitável.
Fabiano Seixas Fernandes
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 564
No livro sétimo, a pedido de Adão, Rafael reconta a cria-
ção do mundo – que talvez possa ser visto como outra prova
indireta da enorme bondade divina –; no oitavo, antes de se
despedir, repete claramente seus avisos ao primeiro casal:
Be strong, live happy and love, but rst of all
Him whom to love is to obey, and keep
His great command; take heed lest Passion sway
Thy judgement to do aught, which else free Will
Would not admit; thine and all thy Sons
The weal or woe in thee is plac’t; beware.
I in thy preserving shall rejoice,
And all the Blest: stand fast; to stand or fall
Free in thine own Arbitrement it lies.
Perfet [sic] within, no outward aid require;
And all temptation to transgress repel. (08.633-43,
p. 377)
[Sejam fortes e felizes, e amem; acima de tudo, amem
aquele a quem amar é obedecer, e guardem seu sole-
ne comando. Cuidem para que paixão não os persua-
da a fazer o que o livre-arbítrio não admitiria. Aqui
se encontra toda felicidade ou desgraça, sua e de seus
lhos. Estejam atentos. Ficarei feliz pela preservação
tanto sua quanto de todos os santos. Fiquem rmes:
resistir ou cair depende de seu julgamento – que,
perfeito em si mesmo, não requer auxílio externo.
Rechacem toda vontade de transgredir.]
2.3.7. Livro Nove: diálogos e monólogos
compreendendo posicionamento
Assim como o livro terceiro contém a mais importante
exposição de ideias – aquela que explicita o quadro doutrinário
que norteia a visão de mundo de Paradise Lost –, o nono contém
o cerne da narrativa: a cena da tentação de Eva. Trata-se do
momento no qual o mais importante posicionamento é toma-
do: vemos Eva ouvir cuidadosamente os falsos argumentos da
serpente e repeti-los para si mesma em um monólogo (09.745-89,
p. 395-6), como se os repassasse antes de tomar sua decisão;
Paradise Lost
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 565
também ponderará com igual cuidado os prós e contras de ofe-
recer o fruto a Adão (09.795-833, p. 396-7). Eva é retratada como
ser racional, engajado em discussões e ponderações racionais,
que, no entanto, não a impedem de fazer a escolha errada.
O fato de haver sido enganada pela aparência de Satã
(disfarçado em serpente) não a isentaria de culpa? Não: Sa
a tenta quando atende solitária o jardim, sendo a solidão mo-
mentânea deliberada pela própria. Eva se separara de Adão
para trabalhar no jardim, pois, segundo ela, o trabalho a fazer é
grande demais, e estarem os dois sempre juntos não o tornaria
mais ecaz (09.205-14, p. 383); Adão discorda, relembrando-a
dos perigos que corriam devido a seu secreto inimigo (09.251-
69, p. 384-5); diz-lhe ainda que a razão pode incorrer em erro
quando falsamente guiada, e que, portanto, os dois deveriam
se dar apoio mútuo (09.341-7, p. 386). Como seus argumentos
ferissem o orgulho da esposa, esta insistiu e Adão – propa-
gandeando a liberdade que todos os personagens de Paradise
Lost acreditam ter –, diz-lhe que, se não deseja car ao lado
dele, não irá forçá-la (09.372, p. 387): Eva deveria permanecer
ao lado de Adão por compreender ser a coisa mais racional a
se fazer, e não por haver sido constrangida por uma ordem.
Como se vê, o aviso exposto no livro quinto se une ao diálogo
do nono para tornar Eva inteiramente responsável por seu erro
de julgamento: estava em condições de desconar da serpente
falante, e de lembrar dos avisos de Rafael e resistir à tentação.
3. Conclusão
Creio, até aqui, haver oferecido provas da tese central do
artigo: Milton organiza a narração de Paradise Lost de modo a
gerar um modelo de mundo no qual presciência, bondade e
justiça divinas não são incompatíveis com a liberdade, a fali-
bilidade e a responsabilidade humanas. Finalizo ressaltando
apenas que não objetivei expor posicionamento crítico acerca
das ideias defendidas em Paradise Lost, limitando-me a expor o
modo como geram soluções narrativas que respondem a pro-
blemas losócos. A tese defendida, contudo, deixa entrever
que Paradise Lost poderia, quando muito, oferecer uma defesa
fraca das ideias que lhe são basilares, justamente por causa de
sua aposta argumentativa – uma aposta, no mais, compatível
Fabiano Seixas Fernandes
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 566
com a tarefa de narração, e que em muito a complexica e
enriquece. O esquema de Milton não pode provar a verdade
da coexistência não contraditória entre os traços divinos e
humanos elencados em 2.1, pois a pressupõe; tampouco pode
demonstrar que presciência e liberdade são necessariamente
coexistentes; seu épico, ambicioso como seja, parece-me limi-
tado a provar que não são necessariamente excludentes – uma
asserção ainda assim questionável, embora não possa me es-
tender em questioná-la nos limites deste artigo.
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Fabiano Seixas Fernandes
Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 548-568, 2. sem. 2015 568
Abstract
Paradise Lost: Episodic Ordering and the Free
Will Controversy
John Milton’s (1608-74) international fame is due to
his epic poem, Paradise Lost (1667; 2nd.ed.1674).
The poem’s explicit goal is to “justify the ways of God
to men” (01.26), that is: to promote a justication of
the Fall, which would hold humanity responsible for
its own demise while redeeming Divine Providence
and conrming its mercy. This article proposes that
Paradise Lost be conceived as a thought experiment:
Milton’s strategy would be to manipulate or insert
episodes in the possible gaps found in its underlying
biblical narrative, so that they would fulll the ne-
cessary conditions for the characters to be shown
as conscious and satisfactorily rational agents, who
could be held accountable for their unhappy choices.
Milton would have thus oered a narrative solution
for a philosophical problem.
Keywords: John Milton; Paradise Lost; free will;
divine foreknowledge.
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Puritanism: A Very Short Introduction traces the development, triumph, and decline of the Puritan world and examines the Puritan legacy in American history. It charts the rise of Puritanism in the English Reformation, the struggle of the reformers to purge what they viewed as the corruptions of Roman Catholicism from the Elizabethan church, and the struggle with the Stuart monarchs that led to a brief Puritan triumph under Oliver Cromwell. It also explores puritan theology, views on family and community, beliefs about the proper relationship between religion and public life, the limits of toleration, and the balance between individual rights and one's obligation to others.
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Few writers have achieved the synthesis of art and idea that was attained by John Milton in Paradise Lost. In that work the poet addressed one of the most important questions in philosophy and religion: How could God, if he is omnipotent and wholly good, have made a world in which there is so much evil? In this book Professor Danielson examines Paradise Lost, focusing on Milton's treatment of creation, chaos, predestination, free will, God's foreknowledge, the Fall of Man and the nature of human existence before the Fall. The author thereby not only lays a systematic foundation for understanding Milton's defence of the creator's justice and goodness but also explores how the literary character of that defence gives it a unique human vitality, dramatic consistency and logical coherence. Milton's Good God is an interdisciplinary study, which will lead the student of literature to a deeper appreciation of Paradise Lost while drawing the student of ideas to a fuller awareness of the importance of Milton's work for the fields of philosophy, theology and intellectual history.
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In 85 new and updated essays, this comprehensive volume provides an authoritative guide to the philosophy of religion. Includes contributions from established philosophers and rising stars. 22 new entries have now been added, and all material from the previous edition has been updated and reorganized. Broad coverage spans the areas of world religions, theism, atheism, , the problem of evil, science and religion, and ethics.
Chapter
Arguments for Divine IncorporealityArguments Against Divine IncorporealityThe Immanence of GodWorks cited