ArticlePDF Available

A Segunda Guerra Mundial: Causas, Estrutura, Consequências

Authors:
1
A
A
S
SE
EG
GU
UN
ND
DA
A
G
GU
UE
ER
RR
RA
A
M
MU
UN
ND
DI
IA
AL
L
Causas, Estrutura, Consequências
Osvaldo Coggiola
2
INTRODUÇÃO, 3
1. UM MASSACRE SEM PRECEDENTES, 5
2. ANTECEDENTES E CAUSAS, 11
3. HITLER E O NAZISMO, 27
4. A GUERRA E O STALINISMO, 44
5. ENTRE EUROPA, ORIENTE E AMÉRICA, 56
6. A FASE INICIAL DA GUERRA NA EUROPA, 62
7. CENÁRIO ASIÁTICO E CENÁRIO MUNDIAL, 71
8. ECONOMIA DE GUERRA, 78
9. HOLOCAUSTO: PREPARAÇÃO, 88
10. HOLOCAUSTO: EXECUÇÃO, 98
11. A URSS EM GUERRA, 108
12. O COMEÇO DA DERROTA DO EIXO, 123
13. O FIM DA GUERRA MUNDIAL, 141
14. REVOLUÇÃO E CONTRARREVOLUÇÃO NA EUROPA, 154
15. DA ECONOMIA BÉLICA À “NOVA ORDEM ECONÔMICA”, 177
16. REVOLTA COLONIAL: ORIENTE MÉDIO, SUDESTE ASIÁTICO, AMÉRICA
LATINA, 193
17. REVOLUÇÃO COLONIAL: ÍNDIA E CHINA, 206
18. A CONTRARREVOLUÇÃO METROPOLITANA, 216
19. AS CONSEQUÊNCIAS DE LONGO PRAZO DA GUERRA, 233
CRONOLOGIA, 244
DOCUMENTO 1: A LUTA CONTRA O IMPERIALISMO E CONTRA A GUERRA,
249
DOCUMENTO 2: A GUERRA IMPERIALISTA E A REVOLUÇÃO PROLETÁRIA
MUNDIAL, 252
BIBLIOGRAFIA, 273
3
INTRODUÇÃO
Não seguimos, no texto que segue, uma sequência cronológica (existem inúmeras obras sobre a
Segunda Guerra Mundial que assim o fazem, várias incluídas na bibliografia ao final deste
trabalho), mas uma sequência de problemas históricos e historiográficos levantados pelo maior
conflito bélico de todos os tempos. Diversos autores postularam a hipótese de que o mundo
padeceu, no século XX, uma “Segunda Guerra dos Trinta Anos”, entre 1914 e 1945: “Foram 31
anos, de agosto de 1914 a agosto de 1945. Ainda lhes chamamos, tradicionalmente, Primeira
Guerra Mundial (1914-1918) e Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mas os futuros historiadores
irão fundir os dois conflitos num só... A Guerra dos Trinta Anos do século XX, tal como a do século
XVII na Alemanha, não desfrutou de grandes intervalos de paz”.
1
Eric J. Hobsbawm chamou de
“era da catastrofe”, e de “guerra de 31 anos”, o período histórico compreendido entre 1914 e
1945, cuja nota dominante teria sido a crise da sociedade liberal/imperial precedente.
2
Nessa interpretação, a Segunda Guerra Mundial teria sido, essencialmente, a continuidade da
Primeira, envolvendo principalmente as potências europeias, com motivos e protagonistas
basicamente semelhantes (inclusive nas suas alianças internacionais, exeção feita da Itália), com
uma breve trégua entre ambas, uma espécie de “paz armada” no entre guerras, pontuada pela
“grande depressão” econômica da década de 1930. Tratou-se, porém, para além dos elementos
de continuidade, de conflitos de caráter diverso, qualitativamente diferentes, diferença
caracterizada, justamente, pela depressão econômica mundial que precedeu a Segunda Guerra
Mundial, e pela existência (sobrevivência) da URSS, incluído seu fortalecimento econômico e
militar na década de 1930. A Segunda Guerra Mundial não decorreu “naturalmente” da Primeira:
foi, ao contrário, perfeitamente evitável. A prática de massacres em massa, elemento mais visível
de continuidade entre ambos conflitos, foi, na Segunda Guerra Mundial, dirigida principalmente
contra a população civil (o que não foi o caso na Primeira), em especial na Europa.
Segundo Trotsky, em texto de meados de 1940: “A guerra mundial é a continuação da última
guerra. Mas continuação não significa repetição. Como regra geral, uma continuação significa um
desenvolvimento, um aprofundamento, uma acentuação”. Na Enciclopedia Storica de Massimo
Salvadori aponta-se o caráter mais “ideológico” (democracia vs. fascismo) da Segunda Guerra
Mundial em relação à Primeira. Quanto ao caráter da guerra, afirma-se: “Bombardeios maciços,
frequentemente de natureza terrorista, foram realizados sobre um grande número de cidades,
muitas das quais foram totalmente arrasadas, causando imensos estragos, provocando
sofrimentos desumanos e destruindo para sempre grande parte da herança histórica [da
humanidade]” (grifos nossos).
3
Não se poderia descrever melhor, sinteticamente, a barbárie em
ação. A Segunda Guerra Mundial foi, antes do mais, um retrocesso histórico da humanidade em
seu conjunto. Há outra diferença importante entre os dois conflitos mundiais. A Revolução de
Outubro de 1917 foi o acontecimento mais importante da Primeira Guerra Mundial, e o principal
fator que precipitou seu fim.
1
Charles Van Doren. Uma Breve História do Conhecimento. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2012, p. 331. Henri
Michel negou que a Segunda Guerra Mundial fosse a “revanche” (uma espécie de segundo turno) ou a
continuidade da Primeira, mas limitou as diferenças entre ambas à “extensão” (geográfica) da guerra, e à
“totalidade” dos recursos postos em jogo: os principais países envolvidos dedicaram toda sua capacidade
econômica, industrial e científica a serviço dos esforços de guerra, deixando de lado a distinção entre recursos
civis e militares (La Seconda Guerra Mondiale. Roma, Newton & Compton, 1995).
2
Eric J. Hobsbawm. Era dos Extremos. O breve século XX 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
3
Massimo Salvadori (ed). Seconda Guerra Mondiale. Enciclopedia Storica. Bolonha, Zanichelli, 2000, p. 1071.
4
Países em guerra 1939-1945
No caso da Segunda Guerra Mundial, a revolução social a precedeu, na Espanha e na França, mas
ela fracassou: se tivesse sido vitoriosa em um desses países, ou nos dois, todo o panorama
político europeu e, até certo ponto, mundial, teria mudado por completo. Tentamos apresentar,
nas páginas que seguem, uma visão da guerra, e da crise que a precedeu, incluindo não apenas
suas realidades, mas também as virtualidades que aquelas abriram, dentro de um trabalho de
síntese-resumo.
5
1. UM MASSACRE SEM PRECEDENTES
Na Segunda Guerra Mundial houve sessenta milhões de homens em armas, entre 45 e 50 milhões
de mortes (pela primeira vez num conflito bélico, a maioria delas na população civil) como
resultado direto dos combates, ou entre setenta e oitenta milhões de pessoas - só existem
estimativas variáveis -, se forem contadas também as vítimas que morreram por fome, epidemias
e doenças como resultado indireto da guerra - oito vezes mais vítimas do que na Primeira Guerra
Mundial:
4
ao todo, aproximadamente entre 4% e 5% da população mundial da época, e tudo em
escassos seis anos. A história não conheceu jamais um morticínio semelhante. As cifras citadas
não incluem as baixas nas guerras civis na Coreia e na Grécia, ou nas guerras nacionais nas
colônias inglesas ou francesas, que foram decorrência mais ou menos imediata da conflagração
mundial.
A Segunda Guerra Mundial foi, em primeiro lugar, o conflito militar mais sangrento do todos os
tempos. Em 1939, no seu início formal (com as declarações mútuas de guerra entre as grandes
potências europeias), vários países beligerantes já estavam em guerra, como Etiópia e Itália na
segunda guerra ítalo-etíope,
5
e China e Japão na segunda guerra sino-japonesa. A guerra civil
espanhola (1936-1939), por sua vez, envolveu diretamente Itália e Alemanha no apoio ao golpe
militar de Franco contra a República; seu desfecho (vitorioso para o lado apoiado pelas potências
nazi-fascistas) foi o prólogo imediato da guerra mundial.
6
O conflito mundial envolveu as mais longínquas regiões do planeta, nos mares e na terra, na neve
e no sol escaldante do deserto. O adiamento da resolução dos conflitos que levaram à Primeira
Guerra Mundial, e da revolução socialista que nela se originou, no primeiro pós-guerra, foi pago
com um preço inédito em vidas humanas, especialmente forte nos países que estiveram no
centro desses problemas: entre vinte e trinta milhões de mortos na União Soviética,
7
treze
milhões na Alemanha, entre dez e quinze milhões na China (na guerra sino-japonesa, 1937-1945),
sem contar a “qualidade” das mortes, que incluíram cenários de degradação humana nunca vistos
4
Ernest Mandel. O Significado da Segunda Guerra Mundial. São Paulo, Ática, 1982.
5
A guerra ítalo-etíope foi uma típica guerra colonial, que começou em outubro de 1935 e terminou em maio de
1936. A guerra foi travada entre o Reino da Itália e o Império Etíope (também conhecido como Abissínia). A guerra
resultou na ocupação militar da Etiópia e na sua anexação à recém criada colônia da África Oriental Italiana; além
disso, expôs a inadequação da Liga das Nações para a manutenção da paz. A Liga afirmava que trataria todos seus
membros como iguais, no entanto, garantiu às grandes potências maioria no seu Conselho. Tanto a Itália quanto a
Etiópia eram países membros da organização, mas a Liga nada fez quando a guerra claramente violou o seu
décimo artigo, afundando logo depois. Edward H. Carr criticou a suposta “ordem internacional” da Liga (que Lênin
chamou simplesmente de “covil de bandidos”, quando da sua criação no primero pós-guerra) dizendo que era
uma ilusão pensar que nações fracas e desarmadas pudessem deter algum poder na arena mundial. Na Liga, as
decisões eram tomadas e o poder era exercido pelas grandes potências, em detrimento da suposta “igualdade
jurídica” existente entre as nações. As nações menores seguiam ou sofriam pressão para seguir as maiores. Isto
aconteceu quando a Inglaterra (1931) e mais tarde a França (1936) deixaram o padrão ouro, ou quando a
Alemanha ultrapassou a França no seu poderio militar: nesse momento, muitos países menores declararam
neutralidade ou mesmo passaram para o lado da Alemanha devido a essa situação (Vinte Anos de Crise 1919-
1939. Brasília, UnB, 2001). Carr era um diplomata liberal inglês que simpatizou com a revolução soviética,
transformando-se num de seus principais historiadores.
6
Anthony P. Adamthwaite. The Making of the Second World War. Nova York, Routledge, 1992.
7
As estimativas oscilam entre essas cifras imprecisas. Hoje se calcula que a União Soviética perdeu cerca de 27
milhões de pessoas durante a guerra, incluídas as vítimas de seus “efeitos colaterais”, quase metade das mortes
derivadas do confronto bélico no mundo todo. Um em cada quatro cidadãos soviéticos de sexo masculino foi
morto ou ferido. Em 1959, na URSS havia ainda só quatro homens para cada sete mulheres (Pierre Broué. União
Soviética. Da revolução ao colapso. Porto Alegre, UFRGS, 1996).
6
na história, nos campos de concentração nazistas, nas câmaras de gás, nas políticas de
“extermínio total” de judeus, ciganos, homossexuais, deficientes mentais e outros, nos massacres
em massa na Europa oriental, nos bombardeios de muitas cidades europeias, no ataque nuclear
contra duas cidades japonesas.
O “projeto geral” (Generalplan Ost) do nazismo para Europa oriental e a URSS, formulado várias
vezes entre 1940 e 1942 (inclusive durante a vigência do pacto Alemanha-URSS) previa as mortes
de dezenas de milhões de membros das “raças inferiores” (eslavos, principalmente; sem falar do
total extermínio dos judeus, que eram uma - numerosa - minoria no Leste europeu), pela via da
fome, para transformar esses imensos territórios em zonas de colonização alemã (isto é, pela
“raça ariana”): “Os alemães deportariam, matariam, assimilariam ou escravizariam as populações
nativas, levando ordem e prosperidade para uma fronteira humilhada. Entre 31 e 45 milhões de
pessoas, a maioria eslavas, deveriam desaparecer... entre 80% e 85% dos poloneses, 65% dos
ucranianos ocidentais, 75% dos bielorrussos e 50% dos tchecos deveriam ser eliminados”.
8
Esses
objetivos seriam realizados, entre outros meios, por um “Plano da Fome” que mataria por
inanição 30 milhões de pessoas em apenas alguns meses: esses planos só foram realizados
parcialmente na experiência piloto da zona coberta pelo “Governo Geral” nazista na zona
polonesa de ocupação, para onde foram inicialmente deportadas populações judias e de outras
“raças inferiores”. Em 1941, “Himmler se referiu a um número de mortos estimado em 30
milhões de pessoas entre as populações de Europa oriental. Sua declaração refletiu o ânimo
assassino que predominava entre os quadros superiores de comando da SS nos dias e semanas
que precederam o ataque à União Soviética. Eles tinham plena consciência de que estavam
prestes a iniciar uma campanha de extermínio historicamente sem precedentes e racialmente
motivada”.
9
Sem chegar a esse número, na Europa oriental, os deslocamentos de pessoas entre
1939 e 1943 afetaram trinta milhões de pessoas, com um elevado percentagem de vítimas
mortais.
A execução dos planos de extermínio massivo dos nazistas (que se revelaram impossíveis,
inclusive durante a ocupação, devido, em parte, à sua enorme escala, e também à resistência das
populações afetadas)
10
teria provocado um morticínio ainda maior do que aquele, enorme, que de
fato aconteceu: Entre 1939 e 1942 dezenas de milhões de homens, mulheres e crianças foram
tirados de suas casas; à deportação para o extermínio e para o trabalho deve-se acrescentar a
deportação para reassentamento”.
11
Entre dois e três milhões de prisioneiros de guerra
soviéticos, cerca de 57%, morreram de fome, maus tratos ou execuções entre junho de 1941 e
maio de 1945, a maioria durante seu primeiro ano de cativeiro. De acordo com outras
estimativas, cerca de 2,8 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morreram em oito meses,
entre 1941 e 1942, e um total de 3,5 milhões até meados de 1944. O Museu Yad Vashem de Israel
estima que 3,3 milhões dos 5,7 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morreram sob
custódia alemã, em comparação com 8.300 dos 231 mil prisioneiros britânicos e norte-
americanos. O racismo e o anticomunismo também deixaram sua marca nas estatísticas da
guerra.
8
Timothy Snyder. Terras de Sangue. A Europa entre Hitler e Stalin. Rio de Janeiro, Record, 2012, p. 203.
9
Robert Gertwarth. O Carrasco de Hitler. A vida de Reinhardt Heydrich. São Paulo, Cultrix, 2013, p. 222.
10
“A implementação de um programa tão vasto de extermínio dirigdo contra toda a população nativa de Europa
oriental (era) absolutamente utópico em 1941. Era simplesmente impossível reduzir grandes cidades russas a
cinzas, alvejar 30 milhões de pessoas ou cortar seu suprimento de comida e deixá-las morrer de fome sem correr
o risco de provocar séria agitação nas áreas afetadas” (Idem, p. 229).
11
R. A. C. Parker. Struggle for Survival. The history of the Second World War. Nova York, Oxford University Press,
1989, p. 295.
7
As taxas de mortalidade dos prisioneiros russos (eslavos em geral) diminuíram à medida que os
prisioneiros dessa origem (ou de outras) foram necessários para trabalhar como escravos no
esforço de guerra alemão; em 1943, meio milhão deles foram “exportados” como trabalhadores
forçados para a Alemanha. Muitos deles salvaram assim suas vidas, mas foram considerados e
julgados como “traidores” na sua volta à URSS, com o fim da guerra. Centenas de milhares de
homens e mulheres morreram também nos morticínios em massa nas “limpezas étnicas”
promovidas, durante e imediatamente depois da guerra, nos redesenhados países da Europa
oriental; esses Estados, pela primeira vez na era moderna, tenderam a se transformar em Estados
“etnicamente homogêneos”, inclusive em regiões que haviam sido, até então, verdadeiros
carrefours étnicos, linguísticos, nacionais e culturais, em especial os países bálticos e partes
importantes da Polônia e da Ucrânia. Eis uma estimativa moderada e arredondada das mortes nos
principais países europeus envolvidos na Segunda Guerra Mundial:
País
Militares
Civis
Total
França
350.000
350.000
700.000
Inglaterra
326.000
62.000
388000
EUA
300.000
350.000
300.000
URSS
6.500.000
10.000.000
16.500.000*
Polônia
-
5.000.000
700.000
Iugoslávia
-
1.000.000
700.000
Alemanha
3.500.000
700.000
4.200.000
Itália
330.000
80.000
410.000
(*) As baixas totais da URSS apresentam variações entre 20 e 30 milhões; as autoridades soviéticas
computaram geralmente apenas as baixas militares, entre seis e sete milhões de mortos, e as baixas civis
diretamente vinculadas a episódios bélicos.
As estimativas diferem bastante, não existindo acordo sobre elas até hoje; as diferenças são
devidas, muitas vezes, a diversos critérios de classificação (o que deve ser considerado, ou não,
morte devida à guerra, por exemplo). As novas “fronteiras étnicas” dos Estados leste-europeus
foram traçadas sobre montanhas de cadáveres insepultos e com base em políticas objetivamente
(quando não subjetivamente, como no caso dos judeus) exterminadoras, que conseguiram, em
medida enorme, apagar os motivos e mecanismos históricos e políticos dos enfrentamentos
prévios entre os países beligerantes, e da própria guerra. A maioria dos cenários, inicialmente
bélicos, da Europa, se transformaram, no decorrer e no desfecho da guerra, em cenários de luta
sem limites de qualquer espécie pela simples sobrevivência física de soldados e civis: “Quase tudo
que os povos civilizados consideram garantido em tempos de paz foi posto de lado, especialmente
a expectativa de receber proteção contra a violência... Na sitiada Leningrado, pessoas famintas
comiam umas às outras... A explosão da prostituição foi um trágico fenômeno global, que merece
seu próprio livro [até hoje não escrito]... Era fundamental que somente um número ínfimo de
líderes e comandantes nacionais soubesse o que se passava além de seu campo de visão (na que)
foi a maior e mais terrível das experiências humanas.
12
Os grandes massacres, porém, precederam à guerra propriamente dita, em especial na “terra de
sangue (que) se estende do centro da Polônia até o Oeste da Rússia, passando pela Ucrânia,
Bielorrússia e os Estados bálticos. Durante a consolidação do nacional-socialismo e do stalinismo
(1933-1938), a ocupação conjunta da Polônia pelas forças alemãs e soviéticas (1939-1941) e, em
seguida, durante a guerra entre a Alemanha e a União Soviética (1941-1945), a violência em
12
Max Hastings. Inferno. O mundo em guerra 1939-1945. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2012.
8
massa de um modo jamais visto na história se abateu sobre essa região. As vítimas foram
basicamente judeus, bielorrussos, ucranianos, poloneses, russos e bálticos, os povos nativos
dessas terras. Catorze milhões foram mortos em um período de somente doze anos, entre 1933 e
1945, enquanto Hitler e Stalin estavam no poder. Embora suas pátrias tenham sido palco de
batalhas durante metade desse período, essas pessoas foram vítimas de uma política assassina,
não de contingências de guerra. A Segunda Guerra Mundial foi o conflito mais letal da história,
aproximadamente metade dos soldados que morreram em todos os campos de batalha de todo o
mundo pereceu nessa região, nessas terras de sangue. Ainda assim, nos catorze milhões de
pessoas assassinadas, não havia um soldado sequer na ativa. A maioria era composta de
mulheres, crianças e idosos; nenhuma carregava armas; muitas foram despojadas de seus bens,
incluindo as roupas”.
13
Eis uma estimativa mais realista das vítimas totais da guerra:
Mortes em decorrência direta da guerra, civis e militares, por país
Os números das vítimas refletem a dimensão inédita e enorme dos massacres de população civil,
inclusive os reconhecidamente desnecessários do ponto de vista militar, levados adiante por
todos os protagonistas principais da guerra, inclusive pelos aliados, como o bombardeio e
destruição da cidade alemã de Dresden (quando a derrota da Alemanha era praticamente coisa
certa),
14
ou as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, com suas centenas de
13
Timothy Snyder. Op. Cit., p. 10.
14
Frederick Taylor. Dresden. Terça-feira, 13 de fevereiro de 1945. Rio de Janeiro, Record, 2011. Embora Dresden
fosse a única conexão ferroviária Norte-Sul de um Reich muito encolhido, foi reduzida a pó-de-traque pelo ar
pois, segundo um comandante militar inglês, ela “não valia os ossos de um único soldado britânico”. A 8 de maio
de 1945, depois de destruída, ela foi pacificamente ocupada pelo Exército Vermelho: “Durante os 45 anos entre o
fim da guerra e a queda do Muro de Berlim, Dresden ficou isolada. Já terrivelmente traumatizada pelos
acontecimentos de fevereiro de 1945, a população da cidade mergulhou na construção de moradias para
substituir as dezenas de milhares perdidas e na criação de alguma aparência de cultura reavivada. Mas, sob a
superfície da feliz e reluzente nova cidade socialista, supurava uma dor velada; boatos e fantasias se reproduziam
9
milhares de mortos civis e seus efeitos prolongados ainda décadas depois. No dia em que o
mundo conheceu o cogumelo atômico, “quem transitava por Hiroshima se sentia no próprio
inferno. Toda a cidade tinha se transformado numa imensa fogueira. E a chuva negra batia forte
no chão, trazendo com ela material fortemente radiativo... O delta do rio Ota estava coalhado de
corpos, muitos deles de suicidas que fugiram dos sofrimentos insuportáveis. Quando a noite caiu,
a situação agravou-se. A cidade estava completamente às escuras. Todo o sistema elétrico fora
destruído... Os depoimentos dos sobreviventes revelam um quadro de horrores impensável aos
mais notáveis poetas e escritores do gênero. Dante se sentiria diminuído na sua imaginação se
testemunhasse Hiroshima a 6 de agosto de 1945”.
15
Dresden, 13 de fevereiro de 1945
Segundo Winston Churchill, seria um erro supor que o destino do Japão foi decidido pela bomba
atômica. A derrota do Celeste Império já estava assegurada antes de ser lançada a primeira
bomba:
16
Se a primeira bomba, pelo seu efeito de terror, podia ter o objetivo de desalentar os
japoneses e evitar aos Estados Unidos a lenta reconquista e o meio milhão de homens que talvez
teria custado, a segunda teve um caráter de experimento científico às custas de cem mil vidas.
na escuridão apertada da memória coletiva de Dresden” (p. 458). Kurt Vonnegut, romancista e ex soldado norte-
americano de origem alemã, capturado pelas tropas do Reich, deixou um testemunho literário da espantosa
destruição desssa cidade, na qual se encontrava como prisioneiro (Matadouro 5. Porto Alegre, L&PM, 2005). A
obra conta a tentativa de um ex-soldado americano que assistiu ao bombardeio de Dresden de escrever sobre a
experiência da guerra. O personagem, Billy Pilgrim, é um americano bem de vida e interiorano que viaja no tempo
para outros planetas, e revisita diversos momentos da sua própria vida sendo o ponto crucial o episódio em que
foi feito prisioneiro durante a Segunda Guerra, quando viveu o bombardeio da cidade alemã em que morreram
135 mil pessoas em um só dia, mais mortes do que as causadas pelas bombas atômicas sobre Hiroshima e
Nagasaki, em separado.
15
Heitor B. Caulliraux. Hiroshima 45. O grande golpe. Rio de Janeiro, Lucerna, 2005, p. 511.
16
Apud Guilherme Olympio. União Soviética & USA. Rio de Janeiro, Prado, 1955, p. 107.
10
Não acredito que a bomba atômica tenha justificativas (...) a eleição do Japão para o lançamento
da bomba me parece racista: em circunstâncias semelhantes às existentes no Japão, os norte-
americanos não teriam ousado lançá-la sobre uma cidade alemã.
17
O racismo não foi patrimônio exclusivo dos nazistas, assim como não o foram as experiências
científicas” do Dr. Mengele em Auschwitz (ou de seu equivalente japonês, a Unidade 731 do
Norte da China). Os Estados Unidos reconheceram ter submetido a provas nucleares a mais de
600 pessoas no seu próprio território durante a Segunda Guerra, incluindo 18 norte-americanos
que morreram depois de ter recebido injeções de plutônio. O racismo e a barbárie foram multi-
direcionais. O assassinato em massa de civis foi política sistemática, em graus diversos, da parte
de todas as potências envolvidas.
Hiroshima, 6 de agosto de 1945
Uma guerra dessas características era qualitativamente diferente das anteriores. Para explicar
suas causas (e seu desfecho) não bastaria referir-se aos objetivos estratégicos (nacionais) dos
países ou blocos envolvidos: A guerra não é um domínio das artes ou das ciências, mas um
elemento do tecido social. Constitui um conflito de grandes interesses solucionado de maneira
sangrenta, o que a diferencia de todos os outros conflitos. Antes de comparar a guerra com uma
arte qualquer, caberia fazê-lo com o comércio, que é também um conflito de atividades e
interesses humanos, e inclusive se assemelha muito à política, que por sua vez pode ser
considerada como uma espécie de comércio em grande escala. A política é a matriz em que se
desenvolve a guerra.
18
Vejamos, pois, essa matriz, no caso da Segunda Guerra Mundial, levando
em conta não só a política externa dos diversos Estados, mas também a política interna, os
conflitos de classe e de regime social envolvidos no caminho à guerra e na própria guerra.
17
Jean Lacotoure (entrevista). In: José Pernau. História Mundial desde 1939. Barcelona, Salvat, 1973, p. 10.
18
Karl Von Clausewitz. De la Guerra. Barcelona, Labor, 1984, p. 17.
11
2. ANTECEDENTES E CAUSAS
Do ponto de vista dos interesses estratégicos em jogo, foram caracterizadas, já em 1940, as
causas da Segunda Guerra Mundial como sendo a rivalidade entre os impérios coloniais velhos e
ricos: a Grã-Bretanha e a França, e os bandidos imperialistas atrasados: Alemanha e Itália (...) A
contradição econômica mais forte que conduziu à guerra de 1914-1918 foi a rivalidade entre a
Grã-Bretanha e a Alemanha. A participação dos Estados Unidos na guerra foi uma medida
preventiva. Os EUA, lembremos, entraram nessa “primeira guerra mundial” na sua fase final, o
que não seria o caso na segunda. Era, portanto, uma mentira a palavra de ordem de uma guerra
da democracia contra o fascismo. Como se os operários tivessem esquecido que foi o governo
britânico que ajudou Hitler e seu bando de carrascos a se apropriar do poder! As democracias
imperialistas são na realidade as maiores aristocracias da história. A Inglaterra, a França, a
Holanda, a Bélgica, repousam sobre a submissão dos povos coloniais. A democracia americana
repousa sobre o domínio das riquezas enormes de todo um continente.
19
Para Abraham Leon,
“enquanto a Primeira Guerra Mundial sucedeu a uma época relativamente próspera em que o
capitalismo concluiu a partilha do mundo, a segunda guerra imperialista concluiu uma época de
crises formidáveis para as quais ela foi a única saída. A guerrra, sua preparação e o ‘conserto’ de
suas destruições resumem a fase atual do capitalismo, que poderia legitimamente se chamar de
‘fase de sua putrefação’”.
20
As causas da guerra eram estruturais ao sistema internacional existente; se manifestaram
inicialmente na derrubada da precária ordem mundial pós-Primeira Guerra. Logo após o
abandono da Liga das Nações (da qual não faziam parte os Estados Unidos) pelo Japão, foi a vez
da Alemanha retirar-se.
21
Anunciando a saída da representação germânica, Hitler declarou que o
não desarmamento das outras nações obrigava a Alemanha àquela forma de protesto. O Führer
teve, porém, o cuidado de reiterar os propósitos pacifistas de seu governo: nos anos seguintes,
Hitler proclamou diversas vezes suas intenções internacionais conciliatórias.
Entretanto, o nazismo no poder fortalecia-se na Alemanha, passando também por diversas crises
internas. Hitler precisava do apoio da Reichswehr para realizar o rearmamento alemão, mas a
maioria dos generais mantivera-se até então numa atitude de expectativa em relação ao novo
governo. A pretensão das tropas SA, as tropas de assalto nazistas de “camisa parda”, manifestada
por seus chefes, de se transformarem em exército nacional, horrorizava os militares profissionais.
Hitler inclinava-se a dar razão aos generais de carreira, o que vinha contra a opinião dos SA mais
radicais. Em alguns círculos da milícia nazista se falava na necessidade de uma segunda
revolução que restituísse ao Partido Nazista (NSDAP) seu ímpeto inicial.
Para resolver o problema, as execuções sumárias levadas a cabo na noite de 29 para 30 de junho
de 1934, realizadas por ordem expressa do Führer, passaram à história como a noite das facas
longas. Quase todos os lideres das SA, a começar por seu chefe, o capitão Ernst Röhm, foram
passados pelas armas, juntamente com alguns políticos oposicionistas e o com o general Kurt von
19
La guerre impérialiste et la révolution prolétarienne mondiale. In: Les Congrès de la Quatrième Internationale.
Paris, La Brèche, 1978, pp. 337-377.
20
Abraham Leon. Les Tâches de la 4ème Internationale en Europe. Bélgica, 1942.
21
em 1926, escrevia o peruano José Carlos Mariátegui: “A Inglaterra declara oficialmente que o Conselho (da
Liga) deve estar composto exclusivamente pelas grandes potências. O humor da diplomacia europeia se mostra
adverso a conceder a um distante país da América ou da Ásia, ou a um pequeno país da própria Europa, o direito
de intervir em questões decisivas para o destino do Ocidente. Se seu Conselho Supremo é convertido em uma
conferência de embaixadores das grandes potências, como é o desejo dos conservadores britânicos, o que
sobrará da Sociedade das Nações?”.
12
Schleicher, o maior opositor a Hitler no seio da Reichswehr. Com essas execuções, o Führer atingiu
um duplo objetivo: extinguiu os elementos da rebelião entre os SA, reduzidos doravante a um
papel decorativo, e deu aos generais uma sangrenta garantia de que pretendia conservá-los na
direção da Reichswehr. O expurgo foi levado a cabo pelas SS, tropas de elite do partido nazista,
ligadas a Hitler por um juramento especial. Esse corpo de homens selecionados, uma verdadeira
guarda pretoriana do regime, iniciou naquele dia a ascensão que iria levá-lo, sob a chefia de
Heinrich Himmler, ao controle total da vida alemã, em nome de Hitler. Em 1945, na Alemanha,
quase um milhão de homens tinha envergado o uniforme negro com a insígnia da caveira,
partindo de um núcleo inicial que em 1929 contava com apenas 280 elementos.
A noite das facas longas fez a Reichswehr cerrar fileiras em torno de Hitler, que, reforçado
politicamente, pode então se dedicar a seus planos expansionistas, que não implicavam,
automaticamente, numa guerra mundial. A primeira tentativa expansionista do Terceiro Reich, no
entanto, fracassou. Desde sua ascensão ao poder, Hitler vinha incentivando o desenvolvimento de
um partido nazista austríaco, como base para uma posterior anexação da Áustria à Alemanha.
Nessa época, os austríacos estavam sob o governo ditatorial do chanceler católico Engelbert
Dollfuss, extremamente reacionário mas defensor da independência de seu país. Em 27 de julho
de 1934, Dollfuss foi assassinado em Viena por um grupo de nazistas sublevados. Mussolini,
temendo que os alemães ocupassem a Áustria, enviou tropas para a fronteira, enquanto a Europa
era sacudida pela indignação contra a Alemanha. Hitler recuou, negando qualquer conivência com
os golpistas austríacos. Quatro anos depois, porém, eles atingiram seu objetivo, sendo Hitler
recebido em Viena, onde passeou de carro aberto, com coros de vitória puxados pelos nazistas do
país natal do Führer, incorporado em 1938 ao Terceiro Reich.
Paris, junho 1936: a greve geral
Na França, a Frente Popular (composta pelos partidos de esquerda - socialistas e comunistas -
junto a partidos burgueses liberais e de centro-esquerda”, os radicais republicanos), com o
lema "Pelo pão, pela paz, pela liberdade", ganhou as eleições, em 1936. Isso coincidiu (suscitou) a
maior greve geral de sua história. A função política conciliadora e contrarrevolucionária da Frente
Popular se manifestou em toda a sua envergadura, aparecendo como um recurso de última
instância da política burguesa para impedir a revolução proletária. O governo de esquerda tinha
uma lúcida política de salvação do regime capitalista, como o premier Léon Blum confessou anos
13
mais tarde: “A política social (de Blum) foi imposta pelo programa da Frente Popular, pelas greves
de maio-junho, e pela sua necessidade de não despertar a hostilidade da CGT. (Blum) a aceitou
porque a considerou justa, necessária e possível à luz da experiência de Roosevelt (nos EUA). Sua
política econômica foi concebida como executável dentro do regime capitalista. Ele era
absolutamente contrário à socialização, nem sequer um partidário das nacionalizações, tais como
foram sugeridas pela CGT”.
22
Exercendo o poder dentro do enquadramento legal-constitucional do Estado, não disposto a
questionar a dominação dos patrões, o governo da Frente Popular jogou todo o seu peso político
na balança para frear e castrar politicamente a greve geral, concedendo alguns benefícios sociais
(férias anuais pagas - les quatre semaines de congés payés -, e outras remunerações), aquém das
demandas do movimento grevista. Por ocasião do processo contra ele movido em 1942 pelo
governo fascista de Vichy, na França derrotada pelas tropas hitlerianas, Léon Blum, voltando a
essa época, declarou: “Naquele momento, entre a burguesia e particularmente no mundo
patronal, me consideravam, me aguardavam, me esperavam como um salvador. As circunstâncias
eram tão angustiantes, estava-se tão perto de alguma coisa que parecia uma guerra civil, que
não se tinha esperança senão numa espécie de intervenção providencial; quero dizer, a chegada
ao poder de um homem ao qual se atribuía ter suficiente poder de persuasão sobre a classe
operária para levá-la a decidir não abusar de suas forças. Nós não hesitamos. Nós fizemos
respeitar o direito de propriedade”.
23
Certamente; um ano depois da ascensão da Frente Popular ao governo, o comunista alemão
exilado August Thalheimer traçava um balanço: “A reivindicação da semana de 40 horas foi
sistematicamente postergada e sabotada e hoje, aproximadamente doze meses depois de ter se
tornado lei, não está ainda posta em pratica, no geral. O aumento dos salários foi neutralizado de
um golpe pela desvalorização do franco e por um inaudito aumento dos preços. Uma
compensação ao trabalhador pela desvalorização do franco, através de uma escala móvel de
salários, foi recusada. Outra desvalorização do franco está a caminho. O Partido Comunista
Francês e o Partido Socialista Francês [SFIO, Section Française de l’Internationale Ouvrière] foram
ambos favoráveis à desvalorização do franco, sob pressão do Partido Radical. Tomando o caminho
da greve, os operários fluíram em massa para os sindicatos. A CGT inchou para cinco milhões de
membros. Enquanto isso, no entanto, os patrões demitiam diariamente muitos operários, por
causa da sua filiação ao sindicato. Deliberadamente começaram a construir sindicatos amarelos,
através de elementos fascistas nas fabricas. E os delegados de fabrica eram diariamente demitidos
e substituídos por fascistas. Quando, depois do banho de sangue de Clichy, os operários de muitas
empresas quiseram expulsar os fascistas, os patrões replicaram com uma série de demissões. Os
sindicatos, indignados, recusaram qualquer responsabilidade por esses atos de autodefesa por
parte dos operários. Os patrões seguidamente burlavam as novas leis sociais.
E se perguntava: Como foi possível esse processo? Muito simplesmente. O governo da Frente
Popular, os sindicatos, o Partido Comunista e o Partido Socialista trabalharam juntos afavelmente
e se puseram de acordo no sentido de impedir, primeiro, a ocupação das fabricas e, depois, de
maneira mais especial, as greves "no interesse da reconstrução econômica". Em larga medida,
22
Georges Lefranc. Le Front Populaire. Paris, PUF, 1979.
23
Deve-se acrescentar que os dirigentes do PCF, com todas as suas forças, ajudaram o governo a manter a ordem;
seu secretário-geral Maurice Thorez começou uma longa e brilhante carreira de desmontador de greves, lançando
a palavra-de-ordem “É preciso saber acabar uma greve” em plena expansão da greve geral. Como “prêmio” pelo
seu zelo, em 1939, iniciada a Segunda Guerra Mundial, o governo da Frente Popular francesa jogou o PCF na
ilegalidade. Thorez acabou fugindo para Moscou, onde permaneceu até o final da Segunda Guerra Mundial.
14
eles foram bem sucedidos. A imprensa social-democrata e comunista chega até a jactar-se de que
a França atual é o país em que existe menor inquietação social. O fator principal neste caso foi a
exigência feita de que os operários deveriam levar em consideração a Exposição Universal, alem
da insistência de que Hitler poderia explorar a inquietação social na França para um ataque de
surpresa. Os operários devem ter apreciado esses argumentos. Em todos os acontecimentos, toda
a gigantesca organização sindical e partidária da Frente Popular cooperou sobre essa base e
conseguiu a "paz" exigida pela burguesia. Em compensação, entretanto, enquanto a ação de
massa se tornava incapacitada, os patrões puderam levar a cabo sua própria política e privar os
operários dos ganhos obtidos na ação de massa de junho. O próximo passo foi a "pausa" na
política social, anunciada pelo governo Blum. Tratava-se, sobretudo, da aposentadoria e de
regulamentos sobre assistência ao desemprego. Foram ambos adiados. Com o objetivo de levar a
cabo enormes créditos de guerra, o governo transmitiu poderes para um comitê formado por
pessoas de confiança das altas finanças. Os financistas, dessa maneira, tomaram formalmente a
supervisão suprema e o controle do governo da Frente Popular. Os próprios créditos de guerra
garantiam ao debenturista tanto lucro quanto nenhum governo burguês anteriormente garantiu.
Para completar: Os partidos operários, mesmo o PC, concordaram com esses créditos de guerra.
A política externa do governo Blum é caracterizada pela "não intervenção", isto é, pelo bloqueio à
Espanha Republicana. A expressão não é nossa é comum na imprensa comunista francesa e
expressa os fatos. No começo da guerra civil na Espanha, os operários exigiam exaltados "aviões e
armas para a Espanha". Atualmente, não se ouve mais a exigência. Os partidos da Frente Popular
reduziram-na ao silêncio. A política espanhola do governo Blum é obviamente a política da
burguesia francesa, que defende na Espanha centenas de milhões de pesos contra o "perigo
vermelho". Os socialistas radicais levaram a cabo essa política no governo sob a ameaça de se
retirarem. Veio então o banho de sangue de Clichy. A policia atirou durante horas contra
trabalhadores que faziam uma demonstração contra um comício fascista. Os socialistas radicais
cuidaram para que os oficiais responsáveis não fossem punidos. O primeiro-ministro Blum pôde
anunciar no Parlamento para a burguesia regozijante que aquela era a primeira vez na história
moderna da França que um governo cujos agentes atiraram contra operários não foi por eles
responsabilizado. Clichy mostrou que a policia e a guarda móvel estavam permeadas de fascistas.
Nada foi feito para colocar um fim nisso.
24
Place de la Nation, 14 de julho de 1936: Léon Blum e os representantes da Frente Popular saúdam a manifestação na
festa nacional francesa
24
August Thalheimer. Doze meses da Frente Popular (9 de junho de 1937), in
www.marxists.org/portugues/thalheimer/1937/06/09.
15
Durante, e logo depois, da greve geral, os sindicatos franceses aumentaram sua influência, mas
havia passado o momento em que o poder estava ao alcance das mãos da classe trabalhadora. Em
julho de 1936, explodiu o golpe de Franco contra a República Espanhola. A França tinha a sua
principal fronteira com a Espanha, seus governos tinham a mesma orientação política e havia um
poderoso sentimento entre as massas para ajudar a República. Inicialmente, alguns aviões foram
enviados à Espanha. O governo inglês, capitaneado por Churchill, disse numa carta ao primeiro-
ministro socialista francês Léon Blum, em 31 de julho de 1936, dias depois do golpe franquista,
que “estou certo que se a França enviar aviões ao atual governo de Madri e se os alemães e
italianos intervierem no outro sentido, será com a Alemanha e a Itália que estarão de acordo com
as forças dirigentes daqui e será da França que elas se distanciarão”. Blum queria tudo menos
romper com seus aliados ingleses. Por isso optou, com estes, pela política de não intervenção,
pela qual não seriam entregues armas a nenhum dos dois lados.
A de França não foi uma política isolada. Com a ascensão internacional dos fascistas, a
Internacional Socialista reanudou os contatos com a Komintern. A 15 de outubro de 1934, doze
anos depois de um encontro em Berlim, teve lugar uma entrevista em Bruxelas entre Friedrich
Adler e Emile Vandervelde, pelos socialistas, e Maurice Thorez e Marcel Cachin, pela Internacional
Comunista. A mútua desconfiança foi insuperável: os partidos dos países latinos e da Áustria
minoria na Internacional Socialista se declararam em favor de uma tática de “Frente Única ou de
Frente Popular”. Adler escreveu que “na questão da ação conjunta, a Internacional não conseguiu
passar de um vulgar anti-bolchevismo burguês”. Depois de 1934 se aguçaram as tensões internas
da Internacional Socialista, com a vitória nazista na Alemanha. Mas a perspectiva de uma ação
conjunta internacional contra o fascismo diluiu-se pela negativa do Labour Party em aceitar as
determinações da Internacional Socialista como vinculantes.
O PCF tentava justificar assim sua política: “É preciso entender o que seria de nosso país se as
bandas fascistas a serviço do capital conseguissem provocar também entre nós a desordem e a
guerra civil, ainda mais em um momento em que às imperiosas necessidades de ordem exterior
se somam às razões interiores, que exigem calma e tranquilidade. Todos compreendem que uma
França debilitada pela guerra civil seria logo presa de Hitler”. “Nestas linhas” - disse Fernando
Claudín - “está contida a motivação profunda da política da direção do PCF frente à situação pré-
revolucionária criada na França em maio e junho (1936). Política que não é decidida naturalmente
só pelos comunistas franceses: é a política da Internacional Comunista, a política de Stalin. E
acrescentou: “O PCF fez tudo para ajudar o combate do proletariado espanhol, menos aquilo que
poderia inclinar decisivamente a balança a favor da revolução espanhola: uma política
revolucionária na França”.
25
A burguesia francesa aproveitou-se da trégua conseguida com o final
da greve geral e, com seu poderio intacto, partiu para o contra-ataque, desconhecendo as
conquistas da greve. O governo capitulou totalmente à burguesia e, em setembro, desvalorizou
em 37% o franco, anulando boa parte dos ganhos conseguidos na greve de junho. A classe
operária reagiu com novas greves e ocupações, mas, agora, os patrões estavam preparados e o
governo e os partidos reformistas - em especial o PCF, pelo seu imenso peso dentro das maiores
fábricas - se jogaram conscientemente contra elas, com slogans como a greve é a arma dos
trotskistas”, “produzir primeiro”. As greves com ocupação de fábrica ou local de trabalho
começaram a ser reprimidas pela tropa de choque. Apesar da inflação já ter devorado os ganhos
salariais de junho, o governo pediu, no início de 1937, uma trégua na luta entre preços e salários,
e nomeou uma comissão de arbitragem para os pedidos de reajuste salarial. O resultado foi que a
25
Fernando Claudin. A Crise do Movimento Comunista. São Paulo, Expressão Popular, 2013.
16
comissão negou-se a aceitar a reposição integral das perdas salariais, levando os salários a um
valor real menor que antes de junho.
Com consciência da traição aos próprios compromissos eleitorais do governo, o
descontentamento acumulou-se entre os trabalhadores. Em fevereiro de 1937, ocorreu o
primeiro choque direto do proletariado contra o governo de esquerda. Os fascistas, que tinham se
escondido depois da greve de junho, levantaram a cabeça e resolveram realizar um ato em Clichy,
subúrbio de Paris. As organizações operárias locais decidiram impedir o ato com uma
contramanifestação, mas não tiveram autorização do governo. Mesmo assim, realizaram a
manifestação e foram violentamente reprimidos pela polícia, com um saldo de vários mortos. No
dia seguinte, a Federação dos Sindicatos da região de Paris foi obrigada a decretar greve de meio
dia. No entanto, conseguiu manobrar e não colocou entre suas reivindicações a mais óbvia, que
fora gritada pelos manifestantes na noite anterior: a demissão do ministro do Interior. A
burguesia reconheceu que o perigo tinha passado, ou, como dizia a revista britânica The
Economist de 13 de março de 1937: “O perigo da revolução passou”.
A França, além disso, tinha se rearmado graças aos socialistas. Em 1936, o “pacifista” Léon Blum,
adepto do desarmamento, aumentou consideravelmente o orçamento militar do Estado. Os
generais pediram nove bilhões de francos, o governo da Frente Popular, generoso, lhes deu 14
bilhões. De 1937 a 1939, mais 67 bilhões foram destinados à defesa nacional. Mais uma vez
esqueceu-se a velha tradição socialista, a ponto de provocar o seguinte desabafo de um militante:
“Pertenço a um partido cujos deputados se abstêm ou votam contra os créditos militares, salvo
quando seus votos forem indispensáveis para aprová-los”. Essas ações do governo e o
consequente desencanto do proletariado, sem que tivesse se gerado uma alternativa
revolucionária, levaram a que, quando Blum renunciou, em junho de 1937, devido ao Senado não
lhe ter dado plenos poderes para dirigir a economia, as massas operárias não moveram um dedo
para defendê-lo, contrariando as previsões da própria burguesia. A situação se estabilizou, mas
com a crise mundial, em finais de novembro de 1938, a classe operária francesa tentou
novamente retomar a iniciativa, com uma nova greve geral, que foi esmagada.
Depois da fracassada greve geral de 1938, a desesperança passou a reinar no movimento
operário. Todas as tendências da CGT reconheceram a derrota. Chambelland, sindicalista
revolucionário, chamou o 30 de novembro “a quarta-feira negra”, comparando-a com o crack de
Wall Street, nove anos antes. Monmousseau, dirigente “unitário” da CGT, declarou: “O choque foi
rude, camaradas, vocês o sabem melhor do que ninguém”: “O recuo da CGT, anunciado em 1937,
acentuado em 1938, se precipitou de maneira impressionante depois do fracasso da greve geral
(de novembro de 1938). Algumas resistências esporádicas, muito isoladas, constituem os
combates de retaguarda para impedir as demissões. Essas tentativas não duraram mais de uma
semana. Depois delas, os militantes perderam as esperanças, e se refugiaram neles mesmos”.
26
Em 1939, a Federação dos metalúrgicos, que contava 800 mil membros em 1937, não
ultrapassava 30 mil aderentes. Depois da vitória do nazismo na Alemanha, o fracasso da revolução
na França foi um novo passo em direção da guerra mundial. Mas o passo decisivo foi dado além-
Pirineus.
A guerra civil espanhola explodiu em junho de 1936, com o pronunciamiento do general Francisco
Franco contra o governo republicano da Frente Popular espanhola, motorizado pelo partido
comunista (PCE) e o socialista (PSOE). Em inícios de 1937, os nacionalistas tentaram tomar Madri,
numa ofensiva das tropas de voluntários italianos fascistas. A resistência das Brigadas
Internacionais republicanas frustrou os planos das forças italianas e converteu o que se pretendia
26
Guy Bourdé. La Défaite du Front Populaire. Paris, François Maspéro, 1977.
17
inicialmente um golpe de estado numa guerra civil de longa duração, uma verdadeira guerra civil
europeia, em que voluntários italianos fascistas e tropas nazistas enfrentavam voluntários de
esquerda das mesmas nacionalidades, organizados nas Brigadas Internacionais. A substituição do
governo republicano de Largo Caballero pelo de Juan Negrín - que buscou apoiar-se,
internamente, no Partido Comunista, e, externamente, na aliança com a União Soviética - deu
conta do acirramento do conflito, mesmo no interior do campo republicano, levando aos
incidentes de maio em Barcelona, com o enfrentamento armado entre forças do governo contra
diversas milícias de esquerda - anarquistas, trotskistas e poumistas - seguidos por uma cruel
repressão policial. O governo Negrín tentou substituir as milícias por um exército republicano
regular, e lançou, em agosto, na frente de Aragão, uma ofensiva bélica contra os nacionalistas. A
ofensiva fracassou; o lado republicano tinha menos armas modernas (blindados e aviões) do que
o nacionalista, apoiado pelos países nazi-fascistas, e, ao invés de combinar ações defensivas com a
infiltração de guerrilheiros na retaguarda franquista (para o que teria que contar com as milícias)
preferia tentar vitórias convencionais com ganho propagandístico para os comandantes stalinistas
das unidades de elite do exército regular. Estas ofensivas, que não tinham um alvo estratégico
claro, soldaram-se sempre com enormes perdas de homens e equipamento, solapando o moral
das Brigadas Internacionais.
No verão de 1937 houve o avanço dos nacionalistas ao Norte, onde foi rompido o chamado
"Cinturão de Ferro" republicano: Bilbao, Santander e finalmente Gijón, em 20 de outubro, foram
ocupadas pelos franquistas; a Frente Norte republicana desapareceu, com os prisioneiros
republicanos sendo internados e mortos no campo de Miranda de Ebro. A República perdia,
assim, o apoio do nacionalismo basco, assim como uma das suas bases industriais mais
importantes. No Sul, depois da tomada de Málaga pelos franquistas em 8 de fevereiro, a frente
havia estabilizado-se na província de Almería. Em fins de 1937, os republicanos tomaram a
iniciativa com uma ofensiva na direção de Teruel, tomada em janeiro de 1938, apenas para ser
recuperada pelos franquistas em 20 de fevereiro. A contra-ofensiva franquista tomou Vinaroz em
15 de abril, atingindo o Mar Mediterrâneo; a zona republicana remanescente foi dividida em duas
partes, isolando a Catalunha.
Os republicanos contra-atacaram em 24 de julho na batalha do Ebro, e acabaram por retirar-se
em 16 de novembro após uma longa batalha de atrito, que permitiu aos franquistas abrir o
caminho para a tomada da Catalunha. A solidariedade militante internacional com a República
Espanhola foi imensa, milhares de voluntários de todos os países se engajaram no combate militar
na península. Foi a maior frustração da esquerda ocidental no século XX: a repressão stalinista
contra os revolucionários no campo republicano (apoiada pelos socialdemocratas) foi um aspecto
central da política contrarrevolucionária que levaria à vitória da direita clerical franquista na
guerra civil. No final desta, o medíocre governo republicano de Negrín, que substituiu o
“esquerdista” (do Partido Socialista Espanhol, PSOE) de Largo Caballero, foi produto de um
compromisso entre as duas principais tendências da reação triunfante: os stalinistas e os
socialistas de direita. Ambas as tendências, ainda que estivessem de acordo com os passos a
seguir, representavam blocos distintos: o primeiro, a contrarrevolução russa; o segundo, os
imperialismos “democráticos”. Os dois acreditavam poder manejar o novo governo, mas apenas o
stalinismo o conseguiu. Em suas primeiras declarações, Negrín insinuou sua política: negociar
uma “paz aceitável” com Franco. Mas, para isso, era necessário acabar com os últimos vestígios
da revolução. O governo de Negrín evoluiu até uma ditadura policial.
Milhares de revolucionários, e mesmo simples dissidentes do stalinismo, foram encarcerados e
muitos deles assassinados. A CNT anarquista, uma vez concluído seu trabalho de desmobilização e
comprovado que as massas já não a obedeciam, foi alijada do governo. A autonomia catalã foi
18
suprimida e as liberdades limitadas. A ofensiva reacionária contra a economia coletivizada se
realizou em nome da estatização e acabou com as últimas conquistas operárias. Os antigos
interventores governamentais se converteram em verdadeiros diretores das fábricas, enquanto os
comitês eram marginalizados. As coletividades agrícolas foram devolvidas aos seus antigos donos.
A contrarrevolução também se fez patente no terreno militar. As tropas franquistas, que
encontraram grandes dificuldades no primeiro período da guerra, avançaram rapidamente. A zona
republicana do Norte do país caiu quase sem luta. A burguesia basca, aliada da Grã-Bretanha, uma
vez tendo chegado a um acordo com Franco, já não tinha razão para seguir lutando, considerando
melhor buscar a reconciliação. O novo governo de Negrín buscava a capitulação negociada que lhe
permitisse conciliar seus interesses com os de Franco. Toda a tática militar do exército
republicano se baseou em obrigar Franco à negociação ou em resistir, à espera da explosão
iminente da guerra europeia. Os escassos êxitos republicanos nos campos de batalha foram em
vão, em face desta política. O programa dos “treze pontos para a paz”, de Negrín, era o
reconhecimento da capitulação.
27
Em 23 de setembro de 1938, o governo republicano ordenou a retirada total das Brigadas
Internacionais, numa tentativa (fracassada) de modificar a posição de não intervenção mantida
pelos governos francês e inglês. Em 23 de dezembro iniciou-se a batalha por Barcelona. As tropas
franquistas rebeldes ocuparam a fronteira com a França e cortaram a retirada dos republicanos. O
avanço das tropas franquistas foi rápido. Uma vez liquidada a revolução pela política de respeito à
grande propriedade levada adiante pela Frente Popular, os franquistas apenas enfrentaram
massas populares desmoralizadas pela eliminação das conquistas revolucionárias. Com os acordos
de Munique, em setembro de 1938, o bloco franco-britânico acreditava ter “apaziguado” Hitler e,
como gesto de boa vontade, rompeu relações diplomáticas com o governo de Negrín,
reconhecendo o governo de Franco. O general Hernández Saravia tentou organizar a defesa de
Barcelona, mas foi destituído imediatamente. Julián Zugagoitia, socialista, secretário geral do
Ministério de Defesa, declarou que “a cidade, em relação às outras, estava bem preparada para
repetir o gesto de Madri” (luta sem quartel contra as tropas franquistas). No entanto, a defesa de
Barcelona nunca foi feita. Nunca chegaram as armas, nem o material necessário para resistir.
Barcelona caiu a 26 de janeiro de 1939. Poucos dias depois toda a Catalunha estava em poder dos
franquistas.
As Cortes republicanas de Catalunha reuniram-se pela última vez no povoado de Figueiras para
ditar seu epitáfio. Em poucas semanas, as tropas franquistas chegavam até os Pirineus e mais de
meio milhão de pessoas cruzavam a fronteira para fugir da repressão. O governo que se
encontrava em Barcelona abandonou o país, com toda a cúpula do PCE e do PSUC (o partido
comunista da Catalunha). O presidente republicano Azaña apresentou sua demissão... na França.
O exército republicano, que ainda contava com mais de um milhão de homens, se desfez em
poucas horas, sem que nada pudesse evitá-lo. Franco exigiu a rendição incondicional.
28
Com o
rápido desmoronamento do exército republicano, frustraram-se os planos da Grã-Bretanha de
intermediar as negociações de paz. Também as negociações entre Stalin e Hitler, que culminariam
num célebre pacto, estavam sendo levadas a cabo, as armas soviéticas deixaram de ser enviadas
ao governo republicano. Em março de 1939 começou uma pequena guerra civil dentro do campo
27
Burnett Bolloten. El Gran Engaño. Las izquierdas y su lucha por el poder en la zona republicana, Barcelona,
Caralt, 1975; Pierre Broué. Staline et la Révolution. Le cas espagnol. Paris, Fayard, 1993, e La Revolución Española
(1931-1939). Barcelona, Península, 1977; Felix Morrow. Revolución y Contrarrevolución en España. Madri, Akal,
1978; Grandizo Muniz. Jalones de Derrota, Promesas de Victoria. Madri, Zero, 1977.
28
Émile Témime e Pierre Broué. La Rivoluzione e la Guerra di Spagna. Milano, Oscar Saggi Mondadori, 1980.
19
republicano, quando o coronel Casado, comandante do Exército do Centro, deu um golpe de
estado em Madri, apoiado pelos oficiais de carreira, golpe que tinha como objetivo a ruptura com
os comunistas, para facilitar negociações com os franquistas. Formou-se uma Junta, integrada por
todos os grupos republicanos, com exceção do PCE. O primeiro ministro Negrín também se
demitiu. A nova Junta de Governo pretendia negociar a capitulação, mas esta se deu sem
quaisquer condições. Com a queda de Valencia e Alicante em 30 de março, e de Murcia em 31, a
guerra chegou ao fim. O último episódio da revolução europeia da década de 1930 se fechava.
Apenas cinco meses separaram o fim da guerra civil espanhola, com a derrota da República, do
início da Segunda Guerra Mundial, numa escalada bélica quase sem solução de continuidade.
A tentativa de vencer o franquismo por meio de uma coalizão com a burguesia (ou com a sua
sombra), a Frente Popular, levou ao esmagamento da revolução socialista e da república
democrática. A URSS forneceu uma ajuda militar tímida, o envio de alguns militares, aviões e
armas (exportações que Stalin fez pagar com a reserva de ouro do Banco Central Espanhol).
29
Diferentemente da França e outros países, na Espanha a Frente Popular foi submetida ao exame
de uma guerra civil. Quando a Frente Popular espanhola fora “teorizada” pela Internacional
Comunista, Trotsky comentou: “Os teóricos da Frente Popular não vão, no fundo, além da
primeira regra da aritmética, a da adição: a soma dos comunistas, dos socialistas, dos anarquistas
e dos liberais é superior a cada um dos termos desta soma. No entanto, a aritmética não é
suficiente neste caso. É necessário utilizar, no mínimo, a mecânica: a lei do paralelogramo de
forças verifica-se inclusive na política. A resultante é, como se diz, tanto menor quanto mais as
forças divergem entre si. Quando os aliados políticos puxam em direções opostas a resultante é
igual a zero. O bloco dos diferentes agrupamentos políticos da classe operária é absolutamente
necessário para resolver as tarefas comuns. Em determinadas circunstâncias, onde um bloco
como este é capaz de arrastar para si as massas pequeno-burguesas oprimidas cujos interesses
são próximos dos do proletariado, a força comum de tal bloco pode mostrar-se muito maior que a
resultante das forças que o constituem.
Morte de soldado legalista, de Robert Capa, a mais conhecida fotografia da guerra civil espanhola
Trotsky completava: “A aliança do proletariado com a burguesia, cujos interesses, no momento
atual, nas questões fundamentais, formam um ângulo de 180 graus, não pode, via de regra, mais
que paralisar a força revolucionária do proletariado. A guerra civil, onde a força da violência
29
Stalin disse no Politburo do PCUS que "os espanhóis terão tanta chance de ver este ouro de novo quanto de
contemplarem suas próprias orelhas" (Vadim Z. Rogovin. 1937. The year of Stalin's terror. Oak Park, Mehring
Books, 1998, p. 339).
20
apenas tem pouca ação, exige dos seus participantes um devotamento supremo. Os operários e
os camponeses são capazes de assegurar a vitória quando eles travam a luta pela sua própria
emancipação. Submetê-los nestas condições à direção da burguesia, é assegurar antecipadamente
sua derrota na guerra civil... A história moderna das sociedades burguesas está repleta de frentes
populares de todos os tipos, quer dizer, de combinações políticas as mais diversas para enganar os
trabalhadores. A experiência espanhola é um novo elo trágico”.
30
A defesa da legalidade do governo republicano e sua consolidação foram as prerrogativas
fundamentais para que as democracias imperialistas viessem em socorro da Espanha
democrática. Mas, com o pacto de não intervenção, essas mesmas democracias sabotaram a
República, que permaneceu isolada internacionalmente. A recusa da República Espanhola, por
outro lado, em conceder a independência ao Marrocos, transformou o povo marroquino em
sustentáculo do franquismo: a independência não seria bem vista pelas “democracias europeias”,
que ainda mantinham colônias na África. O compromisso com a burguesia dos partidos políticos
da esquerda espanhola, em especial do PSOE, fez recuar a revolução. Uma nova guerra mundial
amanhecia. O fascismo parecia tomar conta da Europa. Cavando o túmulo da revolução, as
Internacionais Socialista e Comunista cavavam também o seu próprio túmulo. Na crítica situação
de 1938, os partidos socialistas não estavam de acordo nem sobre a questão de manter o
princípio da segurança coletiva (e pronunciar-se, em consequência, pelo armamento e a
resistência ativa”) ou se deviam defender a ideia pacifista. A maioria do Parti Socialiste (SFIO) da
França se declarou pacifista e disposta a fazer o necessário para conseguir um entendimento com
a Alemanha nazista.
O Labour Party britânico foi contrário a essa política, enquanto os partidos dos países
escandinavos, da Bélgica e da Suíça, acompanharam a neutralidade de seus governos. O executivo
da Internacional Operária e Socialista se encontrou em um beco sem saída. A 14 de maio de 1939,
seu presidente, Louis de Broucke, e seu secretário, Friedrich Adler, se demitiram. Quando os
partidos socialistas se viram obrigados a escolher entre os interesses nacionais (da burguesia) e a
política internacional do socialismo, sacrificaram novamente a Internacional. Contrariando seus
próprios estatutos («em caso de conflito entre nações, a Internacional Operária e Socialista será
reconhecida pelos partidos pertencentes a ela como a autoridade suprema») a Internacional
Socialista experimentou o mesmo destino, em maio de 1940, que sua predecessora: deixou de
existir. Com a explosão da Segunda Guerra Mundial, assim como já acontecera na Primeira, a
Internacional Socialista deixou de funcionar em 1940.
A derrota republicana na guerra civil espanhola selou a vitória da contrarrevolução na Europa.
era possível uma nova guerra mundial, para redividir o mundo entre as potencias imperialistas, e
acabar com a URSS, sem o temor a uma sublevação revolucionária no continente ou fora dele.
Nunca, em toda a história contemporânea, nem sequer na revolução soviética de 1917, o
proletariado tinha se mobilizado de maneira tão unificada e revolucionária, como na Espanha de
1936. A ausência de uma direção política revolucionária, papel que não preencheram nem
socialdemocratas, nem comunistas, nem anarquistas, nem socialistas de esquerda, as principais
tendências presentes no campo republicano, nunca se mostrou tão trágica e decisiva. Espanha foi
quase destruída na guerra civil, com a morte de mais da metade do gado, a queima de campos e
milhões de moradias destruídas. A economia espanhola demorou quase 30 anos para voltar aos
níveis precedentes. Durante o período do franquismo (compreendidas a guerra civil e seu governo
de pouco mais de trinta e cinco anos), houve centenas de milhares de pessoas mortas pelo
“regime”. Espanha pagou o preço de quatro décadas de ditadura cristã-oscurantista, que a levaria
30
Leon Trotsky. La Revolución Española (1930-1936). Barcelona, Fontanella, 1975.
21
a um retrocesso social e cultural sem precedentes. O melhor da cultura espanhola, Federico
Garcia Lorca, Andreu Nin, Antonio Machado, Nicolás Sánchez Albornoz, encontrou a morte na
guerra ou no exílio. Centenas de milhares de espanhóis foram obrigados a viver e morrer no
estrangeiro. Gabriel Celaya (Episodios Nacionales) o resumiu como ninguém: Porque vivimos a
golpes / Porque apenas si nos dejan / Decir que somos quien somos / Nuestros cantares no pueden
/ Ser sin pecado un adorno / Estamos tocando el fondo. A derrota da revolução espanhola foi a
derrota da grande esperança da humanidade trabalhadora diante da ascensão nazifascista.
Somente a revolução, recomeçando na Espanha ou na França, poderia ter impedido uma nova
guerra na Europa, pois, na ausência daquela, a guerra estava inscrita nas relações entre as
potências econômicas e militares. A rivalidade entre os impérios coloniais antigos e bem
aquinhoados (Inglaterra e França) e os imperialismos que chegaram atrasados à partilha do
mundo (Alemanha, Itália, Japão) levava a uma nova partilha. Frente à agressividade do
imperialismo alemão, as “democracias”, primeiro a Inglaterra e depois a França, tinham julgado
poder conjurar os perigos cedendo a cada exigência de Mussolini ou de Hitler. Desde 1935,
Mussolini empreendeu a conquista da Etiópia, sob a indiferença das democracias europeias. A
experiência colonial italiana compreendeu a ocupação de Eritreia, Líbia, Etiópia e Somália, ao
longo de 60 anos, abrangendo o período liberal (1882-1921) e o período fascista (1922-1943),
dissolvendo-se, junto com o colapso da ditadura fascista, pouco antes do fim da Segunda Guerra
Mundial.
A “Grande Itália” (1940)
No período prévio à guerra, a ambiguidade com relação às tentativas alemãs de revisar a Paz de
Versalhes e, em geral, com relação à toda política do Eixo nazi-fascista, tinha sido marcante da
parte das potências “democráticas” da Europa. A política de “apaziguamento” remontava à
tolerância com a invasão japonesa da Manchúria em 1931, passou pela vista grossa à invasão
italiana da Etiópia em 1935, atingiu a vergonha com a política de “não intervenção” na guerra civil
22
espanhola de 1936-1939 (quando a ajuda nazi-fascista ao campo franquista foi fundamental para
o desfecho do conflito), continuou quando Alemanha anexou a Áustria em 1938, provocando
poucas reações das outras potências europeias, e teve seu ponto culminante com a Conferência
de Munique de 1938 (Alemanha, Itália, Grã-Bretanha, França) e sua consequência imediata, o
desmembramento da Checoslováquia pela Alemanha (com a invasão dos Sudetos, uma área da
Checoslováquia com uma população predominantemente alemã).
A Alemanha, que já se preparava para um conflito maior, não tinha matérias primas suficientes
para sustentar uma guerra de peso. Daí sua necessidade de invadir e conquistar regiões ricas em
recursos naturais, como os Países Baixos, com suas fontes de minerais nobres, como o tungstênio,
ou o Norte da África e as planícies do Cáucaso, regiões ricas em petróleo. As ações alemãs
inicialmente vitoriosas na Europa, por outro lado, foram resultado da ameaça resultante da
reconstrução de seu exército, em contravenção ao Tratado de Versalhes. Alemanha e Itália
forçaram a Checoslováquia a ceder territórios adicionais à Hungria e Polônia. Alemanha era
influente na Turquia, e em maior medida ainda na Pérsia: Turquia, Pérsia e o Afeganistão
construíram uma frente única contra a URSS mediante o pacto de Sadabad, em 1937. Em março
de 1939, Alemanha invadiu o restante da Checoslováquia e, posteriormente, dividiu-a entre o
Protetorado de Boêmia e Morávia e um Estado fantoche pró-alemão, a República Eslovaca.
Espantados, e com Hitler fazendo exigências adicionais sobre o Corredor de Danzig, situado na
Polônia, a França e o Reino Unido, em reação diplomática, garantiram seu apoio à independência
polonesa; quando Itália conquistou a Albânia, em abril de 1939, a mesma garantia foi estendida à
Romênia e Grécia. Logo após o compromisso franco-britânico com a Polônia, Alemanha e Itália
formalizaram sua aliança, o Pacto de Aço.
A política de apaziguamento do nazi-fascismo foi analisada e explicada como manifestação de
“cegueira” dos governos democráticos acerca das verdadeiras intenções do Terceiro Reich. Sua
raiz, porém, estava na própria natureza do conflito mundial. O fato novo era que na sua tentativa
de revisão da Paz de Versalhes, a Alemanha de Hitler se beneficiava indiretamente da existência
da União Soviética; os governos imperialistas ocidentais consideraram sempre seriamente a
possibilidade de desviar em direção à União Soviética o expansionismo alemão, em benefício de
todos eles, o que explica uma política aparentemente incompreensível.
Nas suas memórias, o chanceler britânico desse período lembrou que, inclusive depois do ataque
alemão à Polônia (setembro de 1939), que deu início formal ao conflito mundial, “Hitler, [que]
nessa época possuía o sentido da oportunidade, combinou convenientemente propostas de paz e
planos de agressão. A 6 de outubro se dirigiu ao Reichstag na opera Kroll, descrevendo com
entusiasmo delirante a vitória conquistada na Polônia [que] constituiria uma revisão definitiva do
Tratado de Versalhes... Falou igualmente das colônias [alemãs anteriores à Primeira Guerra
Mundial], pondo sua restituição no primeiro plano de suas exigências, deixando entender que
suas demandas não se limitariam apenas aos territórios anteriormente postos sob autoridade
alemã”.
31
As velhas potências imperialistas ainda especulavam sobre o preço que estariam
dispostas a pagar para desviar o expansionismo alemão na direção “conveniente”. Elas sabiam
que, quando Churchill “declarava, opondo seu pensamento hierárquico ao pensamento
vagamente humanitário de Roosevelt, que não assumira o poder para liquidar o Império Britânico,
a ideia suscitava a simpatia do Führer, que também desejava conservar esse império. Noutros
momentos, este desejava deixar à Inglaterra KO, mas só para se aliar melhor com ela”.
32
31
Anthony Eden. L’Épreuve de Force. Février 1938-Août 1945. Paris, Plon, 1965, p. 77.
32
Alfred Fabre-Luce. La Révolution Européene 1919-1945. Paris, Domat, 1954, p. 224.
23
A Segunda Guerra Mundial que resultou, em parte, dessa política, constituiu, por esse motivo, a
continuidade tanto da Primeira Guerra quanto da tentativa dos imperialismos coligados de
destruir a revolução socialista nos países europeus, destruindo militarmente a Revolução Russa
pela intervenção armada através da guerra civil e da intervenção externa em 1918-1921. Já
iniciada a guerra contra a Alemanha (em 1939) a fúria anticomunista da burguesia “democrática”
ocidental continuava a se sobrepor à luta (já transformada em guerra) contra a agressão nazista:
“Mesmo depois de setembro de 1939, com a guerra declarada, a tendência anti-soviética da
imprensa francesa (foi visível) no início do conflito, sobretudo durante a guerra entre a Rússia e a
Finlândia... Mesmo os ingleses se supreendiam com isso e, durante a campanha da Noruega,
lembravam discretamente aos franceses que a guerra fora declarada contra a Alemanha, não
contra a URSS” (URSS e Alemanha estavam unidos por um pacto de não-agressão mútua, mas não
por uma aliança militar).
33
Desse modo, a Segunda Guerra Mundial foi simultaneamente um conflito interimperialista e
contrarrevolucionário,
34
em que a destruição da União Soviética visava interromper de vez o
processo revolucionário iniciado em 1917, já abalado pelo isolamento da revolução soviética (e
sua principal consequência, a emergência do stalinismo) e pela vitória do nazismo na Alemanha,
com a consequente derrota histórica do mais importante proletariado ocidental. Os “democratas”
ocidentais não se caracterizaram, certamente, pela lucidez com relação ao nazismo (não poucos
deles se referiram a Hitler e Mussolini como “grandes estadistas”, antes da guerra), mas estavam
dispostos a dele se servir, sem o menor preconceito ideológico, contra a União Soviética (isto é,
contra as bases econômicas e sociais remanescentes da revolução proletária na Rússia) e contra o
movimento operário do Leste e do Oeste.
Num discurso de abril de 1936, o premier francês Léon Blum fez uma autocrítica retroativa: teria
sido preciso pedir a intervenção da SDN (Liga das Nações); uma ação desta contra Mussolini teria
também dissuadido Hitler de desenvolver sua política expansionista: “Um entendimento entre a
Grã-Bretanha, a URSS e a França teria reunido todos os países em torno dos princípios da
segurança coletiva. A primeira aplicação da lei internacional, ministrada ao agressor italiano por
uma SDN unida e enérgica, teria feito recuar o ditador alemão (...) Uma convenção geral de
redução progressiva dos armamentos, de controles, de proibição das fabricações de guerra
privadas, teria englobado, de boa ou má-vontade, a Alemanha hitlerista”.
A SFIO, atolada no parlamentarismo e no exercício do poder, não podia assumir uma posição
internacionalista diante da ameaça de guerra, que ganhava contornos mais precisos e que era
reforçada a cada retrocesso dos movimentos operários. Os socialdemocratas depositavam todas
suas esperanças pacifistas na Liga das Nações para arbitrar e impedir os conflitos. Em setembro de
1938 Itália transformara a Etiópia em colônia, tinha pretensões sobre a Albânia, que foi invadida e
anexada em abril; o Japão acabava de invadir a China, em julho de 1937, e estava ocupando
Pequim; a Alemanha, com o Anschluss de março de 1938, riscou Áustria do mapa da Europa e
voltava-se para a Checoslováquia, que foi despedaçada uma primeira vez em outubro de 1938 e
novamente em março de 1939.
O Estado tchecoslovaco assinara pactos de assistência militar com a França e com a Inglaterra.
Mas os governos desses países fizeram saber, pela voz do premier inglês Neville Chamberlain e do
primeiro ministro radical-socialista Daladier - novo presidente do Conselho de Ministros da
França, sucessor de Léon Blum - que não poderiam dar nenhuma ajuda ao governo de Praga.
Depois, Hitler, Mussolini, Chamberlain e Daladier se reuniram em Munique e assinaram acordos
33
Marc Ferro. História da Segunda Guerra Mundial. São Paulo, Ática, 1995, p. 57.
34
A Primeira Guerra Mundial só poderia ser caracterizada como interimperialista.
24
que davam satisfação à Alemanha e amputavam o território da Checoslováquia, sem consultar a
URSS, que também estava ligada às “democracias” por acordos de assistência. Essa nova
capitulação aos apetites expansionistas de Hitler não resolvia nada e reforçava as atitudes
agressivas do ditador fascista, mas Neville Chamberlain, primeiro-ministro inglês, gabou-se na
Câmara dos Comuns: “Não me envergonho de nada”.
Depois dos acordos de Munique entre as potências fascistas e os países “democráticos”,
Chamberlain anunciou ao mundo inteiro “uma nova era de paz”. Menos de um ano mais tarde, a
Europa e depois o mundo inteiro entravam no mais terrível derramamento de sangue. Mas, esta é
uma diferença relevante em comparação a 1914, o atraso e derrota da revolução deixava os
governos fascistas e as “democracias” de mãos livres para, mais uma vez, acorrentar o
proletariado à sorte das armas. Depois da onda revolucionária de 1917, os operários russos
tinham conquistado o poder. Na Hungria, na Alemanha, por falta de uma direção, a revolução
fracassara. A nova ascensão das massas operárias e camponesas em 1936 rompera-se, na
Espanha e na França. Na Alemanha e na Itália, o fracasso dos movimentos revolucionários levara
ao estabelecimento de Estados fascistas, primeira amostra da barbárie generalizada. Clara Zetkin,
a dirigente comunista alemã, dizia calmamente que o movimento operário tinha que pagar por
seu atraso na realização da revolução mundial.
Durante a crise espanhola, Léon Blum havia declarado: “Eu sou judeu e socialista, mas para salvar
a paz, se um dia for possível que o chanceler Hitler atravesse metade da ponte Kehl (que
atravessa o Reno em Estrasburgo, entre a França e a Alemanha), eu espontaneamente andarei a
outra metade”... Ele escrevia no Populaire, o jornal da SFIO, em de outubro de 1938:
“Nenhuma mulher e nenhum homem na França recusarão a Neville Chamberlain e Edouard
Daladier sua parcela no tributo de gratidão. A guerra está descartada. O flagelo se afasta, o
caminho voltou ao normal. Pode-se retomar o trabalho e recuperar o sono, pode-se gozar da
beleza do sol de outono. Como poderia eu deixar de compreender este sentimento de libertação,
que eu mesmo sinto?”.
A 2 de setembro de 1939, reminiscência do 2 de agosto de 1914, a Câmara da Frente Popular
votou, por unanimidade, os 75 bilhões de créditos de guerra pedidos pelo primeiro ministro
Daladier. Do dia 3 de setembro de 1939, data da declaração de guerra, até 22 de junho de 1940,
assinatura da rendição da França, no período que foi chamado de drôle de guerre (a guerra
esquisita), os dirigentes socialistas, divididos em várias tendências, acentuaram o abandono de
toda referência operária. Uns passaram a promover um pacifismo integral que os levaria
rapidamente à colaboração, outros se deixaram arrastar pela ladeira da decomposição das
instituições da Terceira República, e durante todo o restante da guerra o Partido Socialista não
cumpriu mais papel nenhum.
Com a guerra em andamento, no Populaire de 9 de setembro de 1939, Léon Blum reivindicou
“uma guerra humana” e, em janeiro de 1940, quando a Finlândia enfrentava os exércitos
soviéticos, Amédée Dunois pontificava: Na Finlândia democrática e socialista, Stalin e Molotov
acharam alguém para enfrentá-los. As democracias não são tão podres como julgam as ditaduras.
A isto chamarei de a lição de Helsinque”. Quando as tropas da URSS invadiram a Polônia, após o
pacto Hitler-Stalin de 23 de agosto de 1939, o governo da Frente Popular, que interditara os
jornais do PCF, dissolveu esse partido. Essa medida atingia o conjunto do movimento operário e
representava mais um passo rumo a um regime autoritário. Prova disso foram, desde julho de
1939, as detenções de militantes do PSOP (Partido Socialista Operário e Camponês), criado em
1938 depois de expulsa da SFIO a Gauche Révolutionnaire. O jornal La Jeune Garde, órgão da
juventude do PSOP, foi apreendido e proibido por divulgar propaganda antimilitarista.
25
Nesse período aconteceu um episódio pouco glorioso para a “democracia francesa”: a
implantação de campos “de internação” para os refugiados expulsos da Áustria, Alemanha, Itália e
Espanha, pelos regimes fascistas. Só recentemente começou-se a jogar luz sobre milhares de
tragédias, vividas pelos banidos do fascismo, transformados em indesejáveis da “democracia
republicana” francesa. Em 23 de fevereiro de 1939, o jornal Le Matin anunciava a seus leitores a
criação do “primeiro campo de concentração francês”, no Departamento de Lozère. Os refugiados
espanhóis após a queda de Barcelona foram os primeiros a serem acolhidos, nesta França “terra
de asilo”, atrás das cercas de arame farpado dos campos. Republicanos, antifascistas, anarquistas,
socialistas, comunistas, membros das Brigadas Internacionais, homens, mulheres, crianças, sadios,
inválidos, logo somaram mais de 250 mil prisioneiros, em condições terríveis e humilhados pela
polícia de um governo que ascendera graças a um vasto movimento popular.
França: campo de concentração “republicano” em St. Cyprien, 1940
A França inteira ficou coberta de prisões e campos de concentração, os partidos de direita
desencadearam uma intensa campanha xenófoba. O escritor polonês Joseph Roth (o autor da
Marcha de Radetzky, um dos maiores romances antibélicos) escrevia a Stefan Zweig: “O que vai
acontecer conosco? A ideia de que as democracias podem nos entregar a um simples apito, me
deixa louco”. Ele morreu em maio de 1939, minado pelo desespero; os exilados alemães que
compareceram ao seu funeral em Paris foram presos e banidos poucos meses depois. O
intelectual marxista Walter Benjamin, obrigado a deixar a Alemanha em 1933 devido à
perseguição (nenhuma revista, nenhuma editora, queria mais publicar um autor de origem
judaica), tentava, em Paris, participar da vida cultural francesa. Mas, no começo de setembro de
1939, foi internado no estádio de Colombes, e depois num campo no interior. A intervenção de
intelectuais franceses conseguiu sua libertação, mas só por pouco tempo, pois logo foi novamente
internado no campo de Milles. A pressão de intelectuais como Max Horkheimer conseguiu fazê-lo
obter um visto de entrada nos Estados Unidos. Mas a França recusou-lhe o visto de saída. Ele se
dirigiu então, clandestinamente, para a Espanha. Preso na fronteira, ele se suicidou na noite de 26
para 27 de agosto de 1940, para que a polícia francesa não o entregasse à Gestapo (Geheime
26
Staatspolizei, polícia política do Estado nazista). Infelizmente, o caso de Walter Benjamin não foi o
único.
Fora da Europa, a segunda guerra sino-japonesa pavimentou também o caminho da guerra
mundial, à qual se integrou. Em 1931, o “incidente de Mukden” entre tropas chinesas e japonesas
propiciou o pretexto para a invasão da Manchúria pelo Japão. Os combates que se seguiram
terminaram cinco meses depois com a instalação do Estado fantoche japonês de Manchukuo na
região, com o último imperador chinês sendo entronizado à frente do governo. Sem condições de
enfrentar o Japão em confronto direto, a China apelou à Liga das Nações, que condenou e
expulsou os japoneses da organização. Escaramuças armadas posteriores durante a década
desembocaram no “incidente da Ponte Marco Polo, em 7 de julho de 1937, considerado o início
da guerra aberta ente China e Japão.
Após essa batalha, o Japão invadiu o território chinês, bombardeando e ocupando Xangai,
Nanquim e a região sudoeste da China, com mais de 350 mil soldados contra uma força superior
em número, mas inferior em armamento, da China, dando início a um conflito em larga escala
entre os dois países sem que houvesse uma declaração de guerra formal. Os massacres contra a
população civil chinesa em Nanquim, após a queda da cidade em dezembro de 1937 - mais de 300
mil civis mortos - levaram diversos oficiais japoneses à forca por crimes de guerra ao fim da guerra
mundial.
Soldados aponeses executam com baionetas soldados chineses capturados, durante a guerra sino-japonesa
27
3. HITLER E O NAZISMO
Para Ernst Nolte, o segundo conflito mundial esteve determinado pela perspectiva mais
adequada na qual o bolchevismo e a União Soviética e o nacional-socialismo e o Terceiro Reich
devem ser considerados, que é a de uma guerra civil europeia ”.
35
O autor foi acusado de legitimar
historicamente o nazismo: o que ele fez foi pôr a culpa no bolchevismo pelo nascimento daquele.
O bolchevismo (Rússia) seria o “mal”, não o nazismo (Alemanha). A procura das causas da
Segunda Guerra Mundial não apenas nos conflitos inter-estatais, mas também no processo
internacional de revolução-contrarrevolução, se esvai ao considerar apenas a Europa como
cenário da guerra civil”, excluindo, por exemplo, o Extremo-Oriente, desde o início da revolução
chinesa de 1919 protagonista central tanto do conflito de classe (a revolução chinesa) quanto do
conflito internacional (guerra China-Japão); e também sem considerar as mudanças da política
externa da URSS entre o período da Revolução de Outubro, e aquele dominado pelo messianismo
nacionalista da direção stalinista.
A crise de 1929, na Alemanha, agravou os resultados da hiper-inflação de 1923: segundo
Hobsbawm, esta arruinara à pequena burguesia de modo a torná-la apta para apoiar a
emergência do nazismo. Nas condições sociais criadas pela crise econômica mundial, que
determinaram um novo papel para o Estado na estabilidade da ordem capitalista, o nazismo
adquiriu características peculiares e insuspeitas, inclusive num movimento de extrema reação
política, bem que inicialmente inspiradas no “Estado corporativo” de Mussolini. Houve sem
dúvida um vínculo entre a crise econômica mundial e a ascensão dos fascismos na Europa. Se,
entre 1918 e 1933, a Alemanha foi o ponto crítico da estabilidade econômica e política no velho
continente, a partir da última data ela virou o centro da contrarrevolução anti-bolchevique e o
motor da Segunda Guerra Mundial. As forças políticas mundiais se realinharam em função do
nazismo. O NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou simplesmente
Partido Nazista) fora fundado em Munique, em janeiro de 1919. Seu sétimo aderente, Adolf
Hitler, pintor de construção austríaco, estava imbuído de nacionalismo racista, antissemita, e,
sobretudo, de ódio pelo comunismo. O NSDAP adquiriu logo uma fisionomia peculiar dentro dos
grupelhos nacionalistas alemães devido à sua insistência em temas “sociais”, e à personalidade de
seus dirigentes, não só Hitler, mas também Goebbels, seu futuro mestre da propaganda, e outros.
Depois de breve trajetória, o nazismo beneficiou-se de apoios no mundo dos negócios e no
exército, neste através de Ludendorff, até adquirir estatura nacional depois dos acontecimentos
de 1923 (tentativa de putsch militar na Baviera encabezada por Kapp, derrotada por uma greve
geral operária). Sua doutrina era simples, e tinha seu eixo na oposição entre a Alemanha e seus
“inimigos internos e externos”. O discurso nazista era simples: 1) O povo alemão, ariano,
36
trabalhador e generoso, mas que fora “traído” durante a guerra; 2) Pelo judeu, inspirador das
35
Ernst Nolte. Nazionalsocialismo e Bolscevismo. La guerra civile europea 1917-1945. Firenze, Sansoni, 1988.
36
As teorias racistas baseadas na superioridade ariana ou assemelhada não eram novas nem especificamente
nazistas: Renan, um liberal do século XIX, considerava que "as raças semi-selvagens" estavam destinadas a ser
subjugadas ou exterminadas pela "grande família ariano-semítica". O racista francês conde de Gobineau celebrava
os arianos em primeiro lugar por causa das suas "tradições liberais" e individualistas. Para o primeiro-ministro
inglês Benjamin Disraeli (um judeu!) eram as "raças nórdicas e ocidentais" as que teriam assimilado o "princípio
semítico", e por isso "encarnavam a civilização". Também Herbert Spencer se destacou na difusão da
superioridade ariana, defendendo a proibição legal da miscigenação na Inglaterra: "Na raiz não existe apenas uma
questão de filosofia social; na raiz existe uma questão de biologia" (Domenico Losurdo. Contra-História do
Liberalismo. São Paulo, Ideias & Letras, 2006). Nenhum destes autores propunha o extermínio das “raças
inferiores, embora proclamassem a superioridade ariana ou “ariano-semítica” (Disraeli). O racismo estava
amplamente disseminado na sociedade europeia.
28
ideologias marxistas, democráticas, e das relações universais, que apodreceram o Estado desde
dentro; 3) É necessário restaurar a Alemanha eterna, seu Lebensraum (espaço vital), regenerar
seu povo para torná-lo “senhor” do mundo; 4) Insistência nos temas da “comunidade nacional”,
do “sangue puro”, da “pureza de raça”, da “ordem”, das virtudes guerreiras, do esmagamento dos
inimigos, da extensão territorial às custas da URSS bolchevique e da decadente França.
O NSDAP era dirigido por medíocres ex-combatentes que se sentiam “traídos” na derrota nacional
de 1918, e por pequeno-burgueses espantados pelo “nivelamento social”: Ernest Röhm,
provocador que mantinha vínculos com os militares e ajudou a formar uma milícia particular dos
nazistas, conhecida como “camisas pardas”; Hermann Göering, herói da aviação imperial, brutal e
ambicioso, chefe das SA (Sturmableitungen, tropas de assalto); Rudolf Hess (secretário de Hitler),
Heinrich Himmler, Martin Bormann, homens sem escrúpulos; o báltico Alfred Rosenberg, filósofo
amador, teórico da “raça” ignorante e pretensioso; demagogos antissemitas como Julius Streicher
e Gregor Strasser... Comandados pelo Führer, constituíam no início uma verdadeira quadrilha.
Com o desenvolvimento do partido, foram criadas as SS (Schutzstafel, destacamento da guarda,
na verdade guarda de elite particular de Hitler, apelidada de “camisas pretas”) que atraíram “um
grande número de jovens de direita com diploma universitário, gente sem emprego e com poucas
esperanças de encontrar trabalho durante a Grande Depresão (e) ex-oficiais dos Freikorps, muitos
deles pequenos aristocratas procurando um abrigo político depois da criação da República de
Weimar”.
37
Uma mistura de lumpenismo pequeno burguês, militarismo nacionalista frustrado e
conservadorsimo aristocrático assustado com a ascensão “das massas”.
Leon Trotsky foi o primeiro líder político mundial (de qualquer ideologia) a alertar o mundo dos
dois perigos representados pela ascensão do nazismo na Alemanha: uma nova guerra mundial e o
extermínio físico dos judeus. Em junho de 1933, Trotsky escrevia que “O prazo que nos separa de
uma nova catástrofe europeia está determinado pelo tempo necessário para o rearmamento
alemão. Não se trata de meses mas tampouco de anos. Se Hitler não for detido a tempo pelas
forças internas da Alemanha, alguns anos bastarão para que a Europa se encontre novamente
lançada a uma guerra”. A mudança de atitude dos chefes nazistas, que nesse momento faziam
declarações pacifistas, só podia “assombrar os mais bobos”. Os nazistas recorreriam à guerra
como única forma de responsabilizar os inimigos externos pelos desastres internos. Na análise de
Trotsky, Hitler, em toda sua mediocridade, não criou política ou teoria próprias. A sua
metodologia política foi emprestada de Mussolini, que conhecia a teoria da luta de classes de
Marx suficientemente bem para utilizá-la contra a classe trabalhadora. A sua teoria de raça devia
muito às ideias de racismo do diplomata e escritor francês, conde de Gobineau. A habilidade
política de Hitler consistiu em traduzir a “ideologia do fascismo ao idioma do misticismo alemão”
e assim mobilizar, como fez Mussolini na Itália, as classes intermediárias contra o proletariado (a
única classe que poderia ter barrado o avanço nazista).
Antes de tornar poder de Estado, o nacional-socialismo praticamente não tinha acesso à classe
operária. Também a grande burguesia, mesmo aquela que apoiava o nacional-socialismo com o
seu dinheiro, não via aquele partido como sendo o seu. A base social sobre a qual o nazismo se
apoiou para a sua ascensão foi a pequena-burguesia, arrasada e pauperizada pela crise. Em um
breve texto acerca da vitória do nazismo em 1933, León Trotsky procurou desentranhar a
dinâmica histórica e de classe que permitira esse fato, comparando-a com a vitória, uma década
anterior, do fascismo italiano. Trotsky passou rapidamente pela figura de Hitler, não por não
considerá-la importante, mas por considerá-la simplória e sem mistérios. Para analisar as
consequências políticas da nova época, marcada pela guerra mundial e pela crise do capitalismo,
37
Robert Gertwarth. Op. Cit., p. 80.
29
Trotsky desenvolveu sua teoria sobre o desenvolvimento desigual do capitalismo, confrontando-
se novamente com o próprio Marx que, segundo Trotsky, “imaginara de maneira
demasiadamente unilateral o processo de liquidação das classes intermediárias, como uma
proletarização no atacado dos artesãos, do campesinato e dos pequenos industriais”. A crise, na
época monopolista, tivera consequências imprevistas: “O capitalismo arruinou a pequena
burguesia a uma velocidade maior do que a proletarizou. Por outro lado, o Estado burguês agiu
conscientemente durante muito tempo com vistas à manutenção artificial da camada pequeno-
burguesa. As decorrências políticas eram enormes: “Se o proletariado, por qualquer razão,
demonstrara incapacidade para derrocar a ordem burguesa sobrevivente, o capital financeiro, na
luta para manter a instável dominação, poderia transformar a pequena burguesia, arruinada e
desmoralizada por aquele, no exército pogromista do fascismo. A degeneração burguesa da
socialdemocracia e a degeneração fascista da democracia burguesa estão unidas como causa e
efeito”.
38
Socialdemocracia e nazismo não eram, porém, “irmãos gêmeos”, ideia que serviu à Internacional
Comunista, como base para a teoria do “socialfascismo”. O Partido Comunista alemão chegou a
colaborar em diversas ocasiões com os nazistas, contra os socialdemocratas. Vejamos um
exemplo, relatado por um ex militante comunista alemão: “Na primavera de 1931, a União
Socialista de Operários do Transporte convocara uma conferência de delegados de operários de
navios e estivadores dos principais portos da Alemanha, na Casa do Trabalho de Bremen, com um
caráter público. Todos os operários do setor foram convocados. O partido comunista enviou um
correio à sede do partido nazista, solicitando sua colaboração para dissover a conferência. Os
hitleristas aceitaram, como sempre. No início da conferência, os corredores estavam ocupados
por 200-300 comunistas e nazistas.... Fizemos um barulho de loucos, destruímos os móveis,
batemos nos delegados, a sala foi transformada em um matadouro. Findo nosso trabalho, fomos
à rua e nos dispersamos antes da chegada das ambulâncias e da polícia. No dia seguinte, nossos
jornais e os jornais nazistas publicaram em primera página a invenção de que os operários
socialistas, indignados pela traição de seus seus próprios líderes, lhes haviam infringido um
terrível castigo proletário”...
39
Enquanto os partidos comunistas stalinizados consideravam a vitória nazista como um “mal
menor”, Trotsky advertia sobre a originalidade do novo tipo de contrarrevolução: “O fascismo põe
em aquelas classes imediatamente acima do proletariado, e que vivem com receio de serem
obrigadas a cair em suas fileiras; organiza-as e militariza-as às custas do capital financeiro, com a
cobertura do governo oficial (...). O fascismo não é apenas um sistema de represálias, de força
brutal, de terror policial. O fascismo é um determinado sistema governamental baseado na
erradicação de todos os elementos da democracia proletária dentro da sociedade burguesa”. O
exilado do stalinismo, “isolado numa ilha turca, escreveu, a certa distância dos acontecimentos,
38
Leon Trotsky. A 90 años del Manifiesto Comunista (1937). Escritos, Bogotá, Pluma, 1974: “A guerra explodiu,
seguida pelo seu cortejo de violentas convulsões, crises, catástrofes, epidemias e retornos à barbárie. A vida
econômica encontrou-se num beco sem saída. Os antagonismos de classe agravaram-se e apareceram a nu. Um
após outro, viram-se explodir os mecanismos de segurança da democracia. As regras elementares da moral
revelaram-se ainda mais frágeis do que as instituições democráticas e as ilusões do reformismo. A mentira, a
calúnia, a corrupção, a venalidade, a violência, a coerção, o assassinato, assumiram proporções nunca vistas. Os
espíritos simples, confundidos, acharam que se tratava de consequências momentâneas da guerra. Na realidade,
esta manifestação era, e continua sendo, a manifestação do declínio do imperialismo. A decadência do
capitalismo traz consigo a da sociedade moderna, com suas leis e sua moral” (Moral e Revolução. Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1978).
39
Jan Valtin. La Noche Quedó Atrás. Buenos Aires, Claridad, 1988, p. 241.
30
uma sequência de textos sobre a ascensão do nazismo na Alemanha que, como estudos concretos
de uma conjuntura política, são de uma qualidade sem par no conjunto do materialismo histórico.
Neste campo, o próprio Lênin nunca produziu qualquer trabalho de profundidade e complexidade
comparáveis. Com efeito, os escritos de Trotsky sobre o fascismo alemão constituem a primeira
análise marxista real de um Estado capitalista do século XX - o estabelecimento da ditadura
nazista”.
40
Trotsky não experimentou nenhuma confusão ou fascínio com o espalhafatoso aparelho de
símbolos e cerimônias que rodeava a mitificação da figura do Führer: “No início de sua carreira
política, Hitler destacou-se somente por seu temperamento explosivo, sua voz mais alta que as
outras e uma mediocridade intelectual mais autossuficiente. Ele não trouxe para o movimento
qualquer programa preparado de antemão, se deixarmos de lado a sede de vingança do soldado
insultado (...) Havia no país muita gente arruinada ou a caminho da ruína, portadora de cicatrizes
e feridas recentes. Todos queriam bater com os punhos na mesa. E isto Hitler podia fazer melhor
do que os outros. É certo que ele não sabia como curar o mal. Mas suas arengas ressoavam, ora
como ordens de comando, ora como preces dirigidas ao destino inexorável. As classes
condenadas, ou as fatalmente enfermas não se cansam nunca de fazer variações em torno de
suas queixas, nem de ouvir palavras de consolo. Os discursos de Hitler eram todos afinados nessa
clave. Forma desleixada, sentimental, ausência de um pensamento disciplinado, ignorância
paralela à erudição alambicada, todos esses defeitos transformados em qualidades. (...) O
fascismo abriu as entranhas da sociedade para a política. Hoje, não apenas nos lares camponeses
mas também nos arranha-céus das cidades convivem o século XX com o X e o XIII”.
41
Em última instância, a contrarrevolução capitalista e a contrarrevolução no “Estado Operário” (a
URSS stalinista) respondiam a um padrão totalitário: “O fascismo, nascido da bancarrota da
democracia diante das tarefas da época do imperialismo, é uma ‘síntese’ dos piores males desta
época. Traços de democracia conservam-se apenas nas aristocracias capitalistas mais ricas: para
cada ‘democrata’ inglês, francês, holandês, belga, trabalha um certo número de escravos
coloniais; ‘sessenta famílias’ governam a democracia nos Estados Unidos, etc. Elementos de
fascismo crescem rapidamente em todas as democracias. O stalinismo é, por sua vez, o produto
da pressão do imperialismo sobre o Estado operário, atrasado e isolado, e constitui, de certo
modo, o complemento simétrico do fascismo”:
42
“Se os caminhos do inferno estão cheios de boas
intenções, os do III Reich estão cheios de símbolos”, pois “se todo pequeno-burguês encardido
não pode virar um Hitler, uma parte deste se acha em todo pequeno-burguês encardido”.
43
Ian Kershaw também descreveu Hitler como um medíocre ignorante que, no entanto, “encarnou,
representou, ativou e legitimou as forças sociais e políticas que desencadearam o nazismo”, que
teria, de qualquer forma, existido sem ele (a tese de Kershaw foi qualificada de “funcionalista” ou
“estruturalista”, por privilegiar o papel das estruturas em relação ao dos indivíduos), mas, “se
fosse outro o líder, os principais desdobramentos teriam tomado caminhos diferentes, ou não
teriam ocorrido”: “As ideias cruciais para que ele chegasse ao poder não eram exclusivas de Hitler,
mas ele as apresentava de uma forma particular”.
44
O antissemitismo doentio de Hitler, que teve
peso decisivo no genocídio ulterior, parece ter sido, embora sincero (“sinceridade” que é, no caso,
não uma virtude, mas um crime) “funcional” a um traço inicial, indicado pelo próprio Hitler, que
40
Perry Anderson. Considerações sobre o Marxismo Ocidental. Lisboa, Afrontamento, 1978, p. 127.
41
Leon Trotsky. Revolução e Contrarrevolução na Alemanha. São Paulo, Ciências Humanas, 1979.
42
Leon Trotsky. Moral e Revolução, ed. cit.
43
Leon Trotsky. Qué es el nacional-socialismo? (junho 1933). El Fascismo. Buenos Aires, Cepe, 1973, pp. 70 e 83.
44
Ian Kershaw. Hitler. Nova York, W.W. Norton, 1998-2000, assim como as citações sucessivas.
31
situou seu nascimento (em Mein Kampf) na sua adolescência e juventude vienense. O
antissemitismo de Hitler nessa época de sua vida e nessa cidade, segundo Ian Kershaw, era
incidental e não superior ao do seu “meio ambiente” (que era muito grande, claro; Viena foi a
primeira grande cidade capital europeia a escolher um prefeito declaradamente antissemita):
“Quase certamente era antissemita àquela época, mas provavelmente não num grau diferente
ao de outros moradores da cidade. Ninguém que o conheceu antes de 1919 cita o antissemitismo
como traço fundamental de sua personalidade”.
Hitler, na sua juventude, vendia quadros e tinha relações amistosas com comerciantes judeus, e
dedicou uma de suas “obras de arte” ao médico (judeu) de sua mãe. O ódio essencial de Hitler,
nessa etapa formativa (desempregada, pobre e frustrante) de sua vida parece ter se dirigido,
sobretudo, contra o “igualitarismo socialista”, no qual ele via o vértice oposto de sua
megalomania individualista (sonhava, sem fundamento nenhum, poder chegar a ser um grande
artista plástico ou arquiteto). O antissemitismo hitleriano parece ter nascido como apêndice desse
ódio social (Hitler o elaborou politicamente, como ataque ao “judeu-marxismo” ou “judeu-
bolchevismo”). Na Alemanha, os judeus eram uma escassa minoria, 0,76% da população, em
1933.
Um medíocre, uma “não pessoa”, segundo Kershaw (pois Hitler quase carecia por completo de
vida pessoal, inclusive sexual: o autor nos fala de uma “sexualidade perturbada”, quase
inexistente, já desde a adolescência) poderia merecer enormes biografias? Hitler era, além disso,
ignorante e provinciano: “Hitler não sabia quase nada sobre outros países e continentes, salvo o
que lera quando jovem nas novelas de aventuras de Karl May, que ambientava suas intrigas em
lugares exóticos e distantes. Eram histórias idealizadas, como as do índio Winnetou. Hitler
conheceu apenas a Itália, em viagem oficial. Esteve uma única vez em Paris, na manhã seguinte à
derrota francesa. E tinha somente uma vaga ideia do que fossem os Estados Unidos, do seu
tamanho e de sua força. Seus horizontes terminavam nas fronteiras do antigo Reich alemão”.
Kershaw denunciou a elite nacionalista e conservadora alemã da época, que catapultou Hitler do
fundo do poço para a chancelaria.
Nas variadas biografias de Hitler, o centro de atenção de seu período de formação é sempre a
figura do fracassado pintor, arquiteto e soldado, dotado aparentemente de uma forte
personalidade e de um caráter irascível, capaz, no entanto, de se transformar no líder de um
partido e da nação mais poderosa da Europa continental e de deflagrar, voluntariamente e/ou a
contragosto, uma conflagração bélica mundial. É óbvio que a época histórica capaz de produzir
semelhante “milagre às avessas” (quase um joão-ninguém, que apenas chegara ao posto de cabo
na Primeira Guerra Mundial, conseguir sentar-se, quinze anos depois, na cadeira de Bismarck, o
construtor da nação alemã) seria a merecedora de uma verdadeira biografia (empresa contra a
qual conspira o fascínio mórbido que a figura de Hitler inspira, alimentado às vezes por uma
historiografia que raia no puro sensacionalismo). O principal traço pessoal de Hitler parece ter
sido uma volúpia ímpar pelo poder político (isto é, o poder sobre outras pessoas), aparentemente
em resposta a frustrações e processos doentios de sua infância e adolescência, que Kershaw
declara incognoscíveis e impossíveis de esclarecer devidamente (“Sentia ser, desde cedo, alguém
realmente especial. Qual a psicologia por trás disso não está claro”).
Depois da crise de 1929, a ascensão do nazismo (assim como a consolidação do governo fascista
na Itália) expressou a instabilidade social e política, que logo se tornou aguda. Aos partidos
políticos seria exigida maior audácia e capacidade para enfrentar a catástrofe social. Na Rússia, no
meio da catástrofe provocada pela guerra, o bolchevismo, tendo assumido a liderança da classe
operária em 1917, arrastou também, nos momentos decisivos, a grande massa hesitante e
dispersa dos camponeses, e parte da pequena burguesia urbana. Da mesma forma, a classe
32
trabalhadora alemã ainda poderia atrair as multidões das classes médias inferiores, se estas lhe
sentissem a força e determinação de vencer, isto é, se às políticas socialista e comunista não
faltasse direção e objetividade. As ambições do Kleinbürger (o pequeno burguês alemão) e a força
do nazismo nasciam da fraqueza da classe operária. O pequeno proprietário tendia à ordem,
enquanto seus negócios marchavam bem e enquanto tinha a esperança de que marchassem ainda
melhor. Quando perdeu essa esperança, foi facilmente atacado pela raiva e se dispôs a
abandonar-se a medidas mais extremas. Como foi derrotado o Estado democrático, até o ponto
de conduzir o fascismo ao poder na Itália e na Alemanha?
Os pequenos burgueses desesperados pela crise viam no nazismo, antes de tudo, uma força que
combatia o grande capital, e acreditavam que, diferentemente dos partidos operários, que
trabalhavam com a palavra, o nazismo utilizaria os punhos para impor mais "justiça". A sua
maneira, o camponês e o artesão eram realistas: compreendiam que não poderiam prescindir da
violência. Mas a pequena burguesia podia também encontrar seu chefe no proletariado. Assim o
demonstrara na Rússia, em 1917, e, parcialmente, na Espanha a partir de 1930. Tendeu a isso na
Itália, na Alemanha e na Áustria. Mas os partidos do proletariado, nesses países, não estiveram à
altura de sua tarefa. Com a crise econômica, as camadas sociais médias de renda variável viram
seus proventos e seu nível de vida despencar vertiginosamente.
Os setores do proletariado melhor posicionados no mercado de trabalho sofreram menos com a
crise, até porque reivindicaram (e muitos conseguiram) receber uma parte de seu salário
diretamente em bens de consumo (alimentares e de primeira necessidade). Os bonzos sindicais e
políticos da socialemocracia (assim eram chamados na Alemanha esses dirigentes), por sua vez,
possuíam um nível de vida superior ao da classe operária, e também ao da pequena burguesia
arruinada. O nazismo soube atrair a classe média alemã usando uma demagogia social contra
esses burocratas originados na “aristocracia operária” amalgamados ao “judaísmo
internacional” –, demagogia fantasiada de “anticapitalismo”. A burocracia socialdemocrata e
sindical, que acreditava ter resolvido seu “problema social” com a posição conquistada na
sociedade, contribuiu assim para despertar e desenvolver a besta que a enterrou.
Na Áustria, a socialdemocracia, mais do que em qualquer outro país, concidia com a própria classe
operária. A capital do país (Viena) estava nas mãos da socialdemocracia austriaca, que tinha no
parlamento federal, entretanto, menos da metade das cadeiras, 43%. O equilíhrio político instável
se mantinha em virtude da política conciliadora da socialdemocracia, o que facilitava a posição do
“austro-marxismo” que a dirigia. Aos olhos dos operários, aquilo que ela fazia na municipalidadc
de Viena bastava para distingui-lo dos partidos burgueses. E aquilo que não fazia podia ser
imputado aos últimos. Denunciando a burguesia nos artigos da imprensa e nos discursos, o
austro-marxismo tirava proveito da dependência internacional da Áustria, a fim de impedir que os
operários se levantassem contra os seus inimigos de classe. Tudo isso lhe permitiu exercer o papel
de ala "esquerda" da Internacional Socialista e reforçar todas as suas posições “nacionais” contra
o Partido Comunista, que, além do mais, acumulava todos os erros possíveis, em nome da teoria
do “social-fascismo”, encampada pela Internacional Comunista a partir de 1929.
A socialdemocracia austríaca ajudou à Entente a liquidar a revolução húngara de 1919, ajudou a
burguesia a sair da crise de pós-guerra, e preparou um refúgio “democrático” para a propriedade
privada abalada. Foi, assim, em todo o período de pós-guerra, o principal instrumento de
dominação da burguesia sobre a classe operária. Mas esse instrumento era, ao mesmo tempo,
uma organização política soberana, possuindo uma burocracia numerosa e uma aristocracia
operária independente, que tinha seus interesses e suas reivindicações. Essa burocracia apoiava-
se sobre uma classe operária real e achava-se sob a ameaça continua do descontentamento
desta. Essa circunstância era a fonte principal de atritos e conflitos que se produziam entre a
33
burguesia e a socialdemocracia. Por outro lado, independentemente de que a socialdemocracia
austríaca tivesse envolvido a classe operária numa rede de organizações políticas, sindicais,
municipais, culturais e esportivas, os métodos pacífico-reformistas não davam à decadente
burguesia austriaca todas as garantias necessárias para a sua sobrevivência.
Abria-se caminho para o fascismo austríaco. As camadas inferiores do fascismo eram alimentadas
pela situação sem saída da pequena burguesia e dos elementos socialmente desclassificados. As
camadas superiores faziam entrever uma saída ao desespero pequeno burguês na perspectiva de
um golpe de Estado, que liberasse os negócios dos entraves "marxistas". O golpe aconteceu,
finalmente, em 1938, na forma de uma invasão-anexação pela Alemanha nazista (Anschlüss):
“Temos, assim, na Áustria, a refutação clássica da teoria professada pelos filisteus, que afirmam
que o fascismo é engendrado pelo bolchevismo revolucionário. O fascismo começa a exercer no
país um papel tanto maior quanto mais nítida, mais gritante e mais insuportável se torna a
contradição entre a política da socialdemocracia (partido de massas) e as necessidades urgentes
do desenvolvimento histórico. Na Áustria, como por toda parte, o fascismo é o complemento
necessário da socialdemocracia. Alimenta-se dela e, com o seu concurso, chega ao poder. O
fascismo é o filho legítimo da democracia formal da época da decadência”, concluiu Trotsky,
criticando por antecipado as teorias dos revisionistas alemães, como Ernest Nolte,
45
que
responsabilizaram o bolchevismo, e sua linguagem de “guerra civil europeia”, pelo nascimento do
nazi-fascimo.
Na Alemanha, os líderes socialdemocratas buscaram o apoio das classes médias, inferior e
superior, primeiro agindo, na República de Weimar, como gerentes do Estado burguês, em
seguida sujeitando-se ao regime de Brühning e defendendo sempre o statu quo social e político.
Mas foi precisamente contra a República de Weimar e sua sequência, o governo de Brühning, que
as classes médias inferiores se revoltaram. A política socialdemocrata, portanto, contribuiu
decisivamente para o perigoso estremecimento entre a classe operária organizada e a pequena
burguesia, estremecimento de que se aproveitaram os nazistas. Os socialdemocratas continuaram
pregando a moderação e a prudência, quando estas já estavam aniquiladas, e continuaram a
defender o statu quo que já se tornara a tal ponto insuportável que as massas preferiam qualquer
outra coisa, até mesmo o abismo em que Hitler as mergulhava.
A crise de 1929, na Alemanha, agravou os resultados da hiper-inflação de 1923, depois de uma
“prosperidade” relativamente breve. Dentro da burguesia, só os grandes industriais e banqueiros
sobreviveram: a média e pequena burguesia, arruinada pela inflação e deflação alternantes,
acabou sub-proletarizada. Os camponeses, menos atingidos pela crise, eram uma minoria nesse
país industrializado. Os trabalhadores industriais sofriam, com o desemprego de massa, uma
miséria densa, na qual a procura de um emprego parecia interminável. A juventude carecia de
qualquer perspectiva de trabalho, ou de vida “normal”: milhões de jovens viraram nômades sem
rumo, muitos enchiam os “campos de trabalho”. Fenômenos de decomposição social se
desenvolveram em grande escala (droga, alcoolismo, prostituição...). O desespero e a cólera se
voltavam contra o governo, frequentemente ocupado pelos socialistas (SPD). Toda esperança,
todo “bode expiatório”, eram aceitos: o nazismo, em escala maior que o fascismo italiano, foi
45
Para Ernest Nolte, o nazi-fascismo foi uma reação ao “extremismo” comunista (portanto, historicamente
legítima, embora lamentável). Na medida em que o comunismo precedeu o nazi-fascismo - ele foi a “origem do
mal”, na definição de Paul Mourousy - o segundo acaba sendo legitimado perante a história: trilha-se o caminho
que leva da justificação do “terror branco” à “compreensão” do nazismo. O historiador norte-americano Richard
Pipes, posto a optar entre Lênin, Mussolini e Hitler, não vacilou: “Mussolini”. Marc Ferro, dos Annales, afirmou,
em entrevista a Le Monde, que na Itália os “excessos” da Alemanha e da URSS “foram contidos pela sobrevivência
da monarquia e pela presença do papado”...
34
capaz de mobilizar a pequena burguesia desesperada (explorando seu medo da “proletarização”),
esse grupo social que Antonio Gramsci chamara “o povo dos macacos”...
Nascido nas margens do exército, dos freikorps, o NSDAP (Partido Nacional Socialista dos
Operários Alemães, ou simplesmente “partido nazista”) fora timidamente financiado, no início,
por setores burgueses menores: o editor Bruckham, o fabricante de pianos Bechstein, entre
outros. Com a crise de 1929, o caixa nazista recebeu o apoio dos konzern, ou conglomerados
(Kirdorf, do carvão; Vorgler e Thyssen, do aço; IG Farben; o banqueiro Schroeder, etc.). As suas
possibilidades de agitação e propaganda, a sua autoconfiança e, sobretudo, a sua capacidade de
subornar funcionários públicos (policias, juizes, militares) cresceram geometricamente. Às classes
médias desesperadas, os nazistas propunham remédios contra a angústia social: xenofobia,
racismo, nacionalismo exacerbado, acompanhados de uma demagogia anti-capitalista que
apontava aos judeus (desde o século XIX designados como “encarnação do capital”: o fundador do
Partido Socialdemocrata, August Bebel, chamara o antissemitismo de socialismo dos
imbecis”).
46
Também eram denunciados o “imperialismo” (o diktat de Versalhes) e os
mencionados “bonzos” (os dirigentes sindicais acusados de colaboração com os judeus): os
nazistas chegaram a apoiar as “greves selvagens”, realizadas à margem dos sindicatos. E,
sobretudo, o NSDAP usava a violência e o terror contra seus “inimigos”, para demonstrar ao seu
“público” sua determinação em atingir seus objetivos.
Os símbolos nazistas (a cruz suástica, tirada dos símbolos dos povos germânicos da Idade Média,
mas também as grandes paradas militares) exprimiam seu conteúdo, com o qual formavam uma
unidade. O racket (chantagem “protetora”) era usado em larga escala para encher o caixa do
NSDAP. E, sobretudo, o nazismo oferecia uma saída imediata para a juventude desempregada: o
emprego nas suas fileiras, fardado, nas milícias armadas, nas SA (tropas de assalto) e, depois, nas
SS. O emprego, o salário, a farda, devolviam aos jovens o que eles julgavam ser uma existência
que a sociedade lhes negava. A militância nazista passou de 176 mil membros em finais de 1928
para 800 mil em finais de 1931 (e para mais de um milhão de aderentes, no ano seguinte).
Adolf Hitler na década de 1920, envergando o uniforme da SA (tropas de assalto)
46
É verdade que Jean Jaurès, o histórico dirigente socialista francês, chegara a afirmar no início do século XX que,
na Argélia, crescia um “espírito anticapitalista”, embora “sob a forma estreita do antissemitismo...”.
35
Mas comunistas e socialistas também cresciam: nas eleições gerais de 1928, os dois partidos de
esquerda somados obtiveram 12.418.000 votos; em 1930, 13.160.000 (os nazistas 6,4
milhões); em julho de 1932, na antevéspera da vitória nazista, os partidos operários obtinham
ainda 13.300.000 votos (mas os nazistas obtinham 13.779.000). Em novembro desse ano, SPD
(socialistas) e KPD (Partido Comunista da Alemanha) reunidos obtinham 13.230.000 votos; o
NSDAP, 11.737.000: foi quando se desenhava um declínio político do nazismo no cenário de
forças, que o presidente Hindenburg (eleito em 1925, com apoio do Partido Socialista) chamou o
chefe nazista Hitler, para ocupar a chancelaria do Reich. O fator decisivo, porém, foi a recusa dos
partidos de esquerda a realizar uma Frente Única contra os nazistas. O SPD contava com um
milhão de membros, cinco milhões de filiados sindicais, centenas de milhares na organização de
autodefesa Reichsbanner: em setembro de 1930, em plena crise econômica, ainda obtinha 8,5
milhões de votos (143 deputados) contra 6,4 milhões (107 deputados) do NSDAP. Mas o SPD
buscava uma “via intermediária” entre o nazismo e o “bolchevismo”: sua política era a “defesa da
República (de Weimar)”, reclamava leis repressivas contra o nazismo, a ação da polícia e dos
tribunais. Finalmente, apoiaram a política deflacionista do chanceler Brühning (geradora de
miséria), a suspensão do Reichstag, o governo por decretos-lei, e chamaram a votar o marechal
Hindenburg para a presidência da República.
As eleições da Alemanha de setembro de 1930 foram apresentadas pela Internacional Comunista
como uma prodigiosa vitória do comunismo, que situaria na ordem do dia a palavra de ordem da
"Alemanha soviética". Os burocratas otimistas recusavam refletir sobre o significado da relação de
forças revelada pelas estatísticas eleitorais. Examinavam o incremento de votos comunistas
independentemente das tarefas revolucionárias criadas pela situação e dos obstáculos postos. O
Partido Comunista (KPD) recebera 4.600.000 votos, face aos 3.300.000 em 1928. Do ponto de
vista dos mecanismos "normais" do palamentarismo, o ganho de 1.300.000 votos era
considerável, mesmo levando em conta o aumento no número total de votantes.
Mas o ganho do KPD ficava pequeno se comparado com o progresso do nazismo, que passara de
800.000 a 6.400.000 votos. De não menor importância para a avaliação era o fato da social
democracia, apesar das perdas substanciais, conservar os seus baluartes principais, e ainda
receber um maior número de votos [8.600.000] que o Partido Comunista. O crescimento
gigantesco do nacional socialismo era a expressão de dois fatores: uma profunda crise social, que
desestabilizava o equilíbrio das massas pequeno burguesas, e a carência de um partido
revolucionário que aparecesse ante as massas populares como reconhecido dirigente
revolucionário. Se o Partido Comunista era o partido da esperança revolucionária, o nazismo era,
como movimento de massas, o partido da desesperança contrarrevolucionária.
Os votos do SPD, por sua vez, caíram para 7,96 milhões em julho de 1932, e para 7,25 milhões em
novembro desse ano. Os partidários da “Frente Única Operária” no SPD foram excluídos: eles
constituíram o SAP (Partido Socialista Operário), com dezenas de milhares de membros, partido
que em 1933 (depois da ascensão de Hitler) assinou, junto aos partidários de Trotsky (a Liga
Comunista Internacionalista) e a dois partidos de esquerda holandeses, RSP e OSP, uma
declaração em favor da IV Internacional. O KPD progredia: 3,27 milhões de votos em 1928; 4,59
milhões em 1930; 5,37 milhões em julho de 1932; 5,98 milhões em novembro desse ano. Junto ao
SPD, teria tido todas as chances de barrar os nazistas, mas a sua política divisionista (denúncia do
SPD como “social-fascista”) foi tal que levou um historiador contemporâneo aos fatos a constatar:
“É impossível ler a literatura comunista da época sem sentir calafrios diante do desastre a que
leva um grupo de homens inteligentes à recusa de usar a inteligência de modo independente”.
47
O
47
R. T. Clark. The Fall of the German Republic. Londres, Allen & Unwin, 1935, p. 475.
36
KPD insistia na procura de temas comuns com os nazistas (contra o Tratado de Versalhes, pela
independência nacional, contra os bonzos socialdemocratas e sindicais) até usar uma terminologia
semelhante (“revolução popular”). Chegou a afirmar que antes de combater o “fascismo”, era
preciso combater o “social-fascismo” (o SPD), propondo então a frente única pela base” aos
operários socialdemocratas. No conjunto, a sua política era definida pelo dirigente da
Internacional Comunista, Manuilski: “O nazismo será o último estágio do capitalismo antes da
revolução social”...
Trotsky se distanciou dos chefes do KPD, os que - ainda em tempos do governo de Hermann
Müller (SPD; 1928-1930) - declaravam que na Alemanha era o fascismo que mandava no país.
Trotsky advertiu como nenhum outro homem político acerca dos perigos do nacional-socialismo.
Vislumbrou que o NSDAP professaria a Constituição somente até chegar ao poder. Desde
setembro de 1930 lutou incansavelmente por uma frente única entre o SPD e o KPD contra o
nazismo. Em abril de 1931, o KPD chamou, junto ao NSDAP, a votar contra o SPD para derrubar o
governo socialista da Prússia, no “plebiscito vermelho” (que os nazistas chamaram de “plebiscito
negro”). Em novembro de 1932, aliou-se aos nazistas contra os “bonzos” socialdemocratas na
greve dos transportes de Berlim. Em consequência desses posicionamentos aconteceram as crises
políticas que derrubaram sucessivamente o governo centrista de Brühning, o gabinete Von Papen
em novembro de 1932, e depois o governo do general Von Schleicher, até o chamado a Hitler
para se transformar em chanceler, a 30 de janeiro de 1933.
Os socialdemocratas foram fiéis ao seu caráter. Os dirigentes dos partidos socialistas da Alemanha
e da Áustria tinham chamado os trabalhadores a "exigir" aos governos Brühning e Dollfuss o
desarmamento dos grupos nazistas. Diante dessa falência política, tanto maior era a
responsabilidade do Partido Comunista. Não obstante, seus líderes não tinham consciência da
magnitude e natureza do perigo. Com um ultra-radicalismo de fachada, recusaram-se a
estabelecer qualquer distinção entre o fascismo e democracia burguesa. Afirmavam que, na
medida em que ao capitalismo monopolista interessava tornar fascista a democracia burguesa,
todos os partidos dos países capitalistas estavam fadados a sofrer esse processo. Todos os gatos
eram igualmente pardos: Hitler era fascista (até então, o nazismo era chamado de “fascismo
alemão”, uma simplificação que logo se revelaria, mais que enganadora, trágica), mas também
eram “fascistas” os líderes dos tradicionais partidos burgueses, da direita e do centro, inclusive
Brühning, que já governava por decretos, e ate mesmo os socialdemocratas, que formavam, para
os líderes comunistas, a "ala esquerda do fascismo".
A orientação política e a estratégia “comunista” se revelaram trágicas para o movimento operário.
Depois de 1930, repetidamente, os propagandistas do KPD afirmavam que “Alemanha já está
vivendo sob o domínio fascista”, e que "Hitler não poderia agravar a situação mais do que
Brühning, o Chanceler da Fome". Mas ao proclamar que o fascismo vencera, na verdade,
declaravam a batalha perdida antes mesmo que tivesse começado. Ao dizer às massas que Hitler
não seria pior do que Brühning, as desarmavam perante Hitler. Era loucura, para um partido da
classe trabalhadora, negar ou tornar pouco clara a distinção entre o fascismo e a democracia
burguesa. É verdade que ambos eram formas e métodos diferentes do domínio capitalista, mas,
naquelas circunstâncias, a diferença de forma e método era de grande importância. Numa
democracia parlamentar, a burguesia mantinha seu domínio por meio de amplo compromisso
com a classe trabalhadora, que exigia negociações constantes e pressupunha a existência de
organizações proletárias autônomas, partidos políticos e sindicatos.
Tais organizações formavam "ilhas de democracia proletária dentro da democracia burguesa",
fortalezas e bastiões dos quais os trabalhadores podiam lutar contra o domínio burguês em geral.
O fascismo significava um fim do compromisso social e das negociações entre as classes: não tinha
37
nenhuma utilidade para os canais através dos quais as negociações se processavam até então e
não poderia tolerar a existência de nenhuma organização autônoma da classe trabalhadora. Essa
era a lição da vitória do fascismo italiano. Durante todo o ano de 1931 (e na primeira metade de
1932) esses diagnósticos e prognósticos figuraram diariamente no Rote Fahne (jornal do KPD) e
eram apoiados pela autoridade da Internacional Comunista.
48
Mas a socialdemocracia alemã
também não desenvolvia uma política de frente única operária contra o fascismo e, com outros
argumentos, punha suas divergências com o KPD por diante da necessária unidade operária
contra a “besta parda”. A política dos stalinistas na Alemanha ("o social-fascismo é o inimigo
principal", a cisão dos sindicatos, o flerte com o nacionalismo, o putchismo) conduziu fatalmente
ao isolamento da vanguarda proletária e a seu desmoronamento.
Na Alemanha, os governos Brühning, von Papen, von Schleicher, preencheram o intervalo entre a
República de Weimar e Hitler. O bonapartismo alemão entrou em cena quando os partidos
democráticos se uniram, enquanto os nazistas cresciam com força prodigiosa. Os três governos
"bonapartistas" da Alemanha, devido à fraqueza de suas bases políticas, equilibravam-se numa
corda estendida sobre o abismo, entre dois campos hostis: o proletariado e o fascismo. Esses três
governos caíram rapidamente. O campo do proletariado estava dividido entre socialdemocratas e
comunistas, incapazes de uma ação comum, não estava preparado para a luta, desorientado e
traído por seus chefes. Depois de inúmeras “demonstrações de força”, os nazistas puderam tomar
o poder quase sem luta.
Hjalmar Schacht, o pai do “novo marco” que tirou a economia alemã da hiperinflação em 1923, o
político por excelência do grande capital alemão, em janeiro de 1931 se entrevistou pela primeira
vez com Hitler e se comprometieu a criar um fundo fiduciário para o partido nacional-socialista.
Schacht comprometeu Albert Voegler (magnata do aço), Gustav e Alfred Krupp (do setor
siderúrgico e de fabricação de armas), para obter o concurso para o fundo de outros industriais,
como Fritz Thyssen, Emile Kirdorf, Carl Bechstein e Hugo Bruckmann. Em novembro de 1932,
Schacht redigiu uma carta, firmada pelos maiores patrões de indústria alemães, urgindo o
presidente Hindenburg para que nomeasse Adolf Hitler chanceler da Alemanha. Diante da crise
política e da manifestação patronal, Hindenburg cedeu. Hitler assumiu a chefia do governo em 30
de janeiro de 1933, iniciando de imediato uma forte repressão, que o levou a edificar em poucos
meses o Estado corporativo que Mussolini tinha demorado quatro anos para edificar.
A 20 de fevereiro desse ano, Schacht organizou uma reunião da Associação dos Industriais
Alemães, na qual foram coletados três milhões de marcos para o NSDAP, o partido nazista, com
vistas a sustentar a candidatura de Hitler nas eleições de março, nas quais comunistas e socialistas
somados obtiveram 201 escanhos, e o partido nazista 288, maioria absoluta. Condicionada pela
forte represssão, foi a única eleição pluri-partidária em que o nazismo obteve maioria, embora
relativa. Rapidamente, os novos donos do poder passaram a organizar um regime novo, não sem
antes montar uma provocação contra o KPD depois do nunca esclarecido incêndio do Reichstag, o
parlamento alemão (a 27 de fevereiro de 1933). A culpa foi jogada nos comunistas, que foram
48
Trotsky, advertindo em novembro de 1931 contra o perigo de uma vitória nazista, escrevia: “A vitória do
fascismo na Alemanha determinará inevitavelmente uma guerra contra a URSS... Nenhum dos governos
burgueses normalmente parlamentares pode por enquanto correr o risco de empenhar-se numa guerra contra a
URSS; semelhante empreendimento acarretaria incalculáveis complicações internas... Numa empresa dessas, o
governo de Hitler não seria senão o órgão executivo de todo o capitalismo mundial. Clemenceau, Millerand, Lloyd
George, Wilson, não puderam fazer abertamente a guerra contra a República dos Sovietes, mas puderam, durante
três anos, sustentar os exércitos de Denikin, de Koltchak, de Wrangel. Hitler, no caso de ser vitorioso, tornar-se-á
um super-Wrangel da burguesia mundial (contra a URSS)” (Revolução e Contrarrevolução na Alemanha, ed. cit.).
38
cassados do parlamento, tendo vários de seus líderes presos (incluído o dirigente da Internacional
Comunista, Georges Dimitrov).
Com o dinheiro fornecido pelo grande capital, mais o terror das SA, os nazistas tinham crescido,
nas eleições de março de 1933, de 33% para 44% dos votos. A 23 de março, o Reichstag votou os
plenos poderes para Hitler, contra o voto da bancada do SPD (com o KPD já na ilegalidade, e seus
deputados cassados), mas com o voto favorável do Zentrum católico, e de conservadores e
nacionalistas. No “Dia do Boicote”, a 1º de abril de 1933, em frente de cada comércio/loja
judaico, de cada consultório de médico judeu, de cada escritório de advogado judeu, foi posto um
piquete do partido nazista, que barrava o acesso.
A 2 de maio, depois de um de maio transformado em parada nazista (mas onde participaram
ainda o SPD e a principal central sindical), os sindicatos alemães foram dissolvidos, e seus bens
confiscados. Goebbels escrevera em seu jornal: “Quando os sindicatos estiverem nas nossas
mãos, os outros partidos ou organizações não aguentarão muito tempo... Em um ano, a Alemanha
inteira terá caído em nossas mãos”. O 1º de maio foi proclamado feriado nacional; o 2 de maio foi
o dobre de finados para as esperanças ainda acalentadas pelos dirigentes do movimento sindical
alemão, ligados ao Partido Socialdemocrata, de serem poupados pelo governo nazista. Os
dirigentes sindicais foram presos, espancados e jogados em campos de concentração. E sobre os
escombros do mais poderoso movimento operário da Europa, Hitler criou a Frente do Trabalho
operário-patronal. Em 10 de maio, Göering deu ordem de ocupar todos os prédios do Partido
Socialdemocrata, seus fundos foram confiscados, sua imprensa proibida. O KPD, interditado desde
o incêndio do Reichstag, passou a ser perseguido.
Assinatura do pacto governo alemão/Igreja católica, com os hierarquas da Igreja e o ministro Von Papen: observe-se
ao fundo, à direita, o jovem futuro papa Paulo VI
A 14 de julho (aniversário da Revolução Francesa...) os partidos políticos foram dissolvidos, o
NSDAP foi proclamado “partido único”. O Diário Oficial alemão publicou a seguinte lei: “Artigo
nº 1 O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães é o único partido político
39
existente na Alemanha”. No mesmo mês, foi habilitado em Dachau o primeiro campo de
concentração, no qual foram internados comunistas, anarquistas, socialistas e outros opositores.
En janeiro de 1934, um ano depois do empossamento de Hitler, foi ditada a lei de regulação do
trabalho nacional, totalmente favorável às empresas privadas. Os patrões das grandes empresas
foram designados como "Führer". Hitler, foi, antes do mais, o homem do grande capital na
situação histórica criada pela crise capitalista mundial e pela emergência da classe operária. Em 20
de julho de 1933 foi firmado um acordo (“concordata”) entre o Papa Pio XI e o ministro de
Relações Externas alemão Von Papen, que estabelecia a não ingerência mútua entre Igreja e
governo. O partido católico, o Zentrum, se autodissolveu. Foi assim que a Igreja Católica aplainou
o caminho para se calar diante das atrocidades cometidas por Hitler.
No final da guerra, no entanto, uns 400 padres católicos foram resgatados em péssimo estado dos
campos de concentração nazistas, onde milhares de padres e pastores protestantes acharam a
morte, boa parte deles por ter participado ou dado cobertura a grupos ou atividades de oposição
contra a ditadura nazista. Em 1933, porém, Hitler chegou ao poder sem resistência operária e com
o apoio da burguesia, apoio intermediado pelo ex-ministro de finanças do governo centrista de
Stressemann, Hjalmar Schacht, cujo acordo com o NSDAP fora intermediado através do banqueiro
Schroeder, representante do grande capital financeiro do país. Uma vez chegado ao poder, Hitler
não foi imune à corrupção, generalizada no partido nazista (NSDAP): frequentemente usou fundos
estatais para fins particulares; o ícone reacionário era, também, um vulgar ladrão.
A 13a Plenária do Comitê Executivo da Internacional Comunista se reuniu em Moscou e avaliou os
resultados dos acontecimentos alemães. A conclusão foi, segundo Piatnitsky, secretário da
Komintern, que a política do Partido Comunista Alemão havia sido correta antes, durante e
depois da vitória de Hitler”. E concluía também que “a social-democracia continuava sendo o
principal esteio da burguesia”. Como organização internacional revolucionária, a Komintern
stalinista estava morto. A falência da Internacional Comunista dirigida por Stalin já era prevista
pela Oposição de Esquerda, a menos que a Oposição fosse bem sucedida em desviar a Komintern
do seu curso desastroso.
49
A cegueira dos PCs diante do desastre alemão era completa. Na França,
o jornal L’Humanité, do PC francês, de 31 de janeiro de 1933 (um dia depois da ascensão de
Hitler), incluía a notícia nas páginas internas, sob o título: “Resultados da política do mal menor:
Hitler chanceler”.
Nos dias posteriores, Gabriel Péri e Palmiro Togliatti, dirigentes comunistas na França e na Itália,
afirmavam que o acontecimento não era comparável à “Marcha sobre Roma” de Benito
Mussolini, e prognosticavam “uma nova ascensão das massas”. Nos Cahiers du Communisme
insistia-se em que “o movimento hitleriano é portador de contradições sociais insuperáveis”, e em
que o proletariado alemão não estava ainda derrotado. A Révolution Prolétarienne, sindicalista
revolucionária (ou “anarco-sindicalista”), demorou para noticiar a ascensão de Hitler, que se
recusava a comentar, porque isto seria “ridículo da parte daqueles que estão fora da ação (no
teatro dos acontecimentos)”. Leon Trotsky, ao contrário, redigiu rapidamente um artigo em que,
constatando a ausência de reação no Partido Comunista Alemão diante de sua catástrofe política,
chamou a formar um novo partido comunista na Alemanha, orientação que, no ano seguinte
(1934), diante da falência completa da Internacional Comunista (que comparou com a falência da
II Internacional em agosto de 1914), foi desenvolvida com o chamado a formar uma nova
internacional operária, a IV Internacional.
49
Charlie Van Gelderen. A falência da Internacional Comunista. Perspectiva Internacional n° 7, São Paulo,
novembro 1983.
40
Com a morte do presidente Hindenburg, Hitler passou a acumular as funções deste junto com a
chancelaria. Os plenos poderes, que o autorizavam a violar a Constituição, foram renovados em
1934 e 1937: o juramento de fidelidade ao Führer tornou-se obrigatório para todos os
funcionários públicos, inclusive os ministros. Logo foram suprimidos os Landstag (Assembleias) e
o Reichrat (Conselhos do Reich): a lei de Gleichhaltung uniformizou a legislação dos estados com a
do Reich. Os governos dos Länder (Estados ou províncias) foram substituídos pelos Staatshalter,
prefeitos designados pelo poder executivo; o mesmo aconteceu com os alcaides das cidades. O
NSDAP, como partido político, também possuía uma organização centralizada: 32 Gauen
(distritos), dirigidos por um Gauleiter, divididos em círculos, grupos, células e blocos.
Desenvolveram-se as organizações paralelas, como a Hitlerjügend (Juventude Hitlerista), as
corporações de estudantes, professores, juristas. As SA passaram para um segundo plano, depois
da “noite dos longos punhais” (junho de 1934), quando Hitler fez assassinar a sua direção,
incluindo seu chefe Ernst Röhm. Em troca, privilegiou-se a SS, dirigida por Himmler, no início
guarda pessoal de Hitler: ela já possuía 200 mil homens em 1936, com unidades “de missão
interna” (campos de concentração) e unidades militares de elite, as Waffen SS. Das SS surgiu um
corpo especial de polícia (SD), dirigido por Heydrich, que vigiava a própria polícia do Reich. ¾ dos
membros da polícia política da Alemanha nazista já haviam desempenhado funções policiais na
República de Weimar, 5% vieram de outras instituições do Estado (só 20% dos novos policiais
eram recrutas, em geral membros do NSDAP). A coluna vertebral do Estado Nazista provinha da
“república democratica”.
Hitler discursando no Reichstag em 1940
A polícia foi reorganizada: a contra-espionagem (Abwehr) com Canaris, a segurança, a polícia
criminal, e a polícia secreta do Estado (a Gestapo). Os campos de concentração nasceram e
cresceram rapidamente: eram “só” 50 sob o comando das SA, mas passaram para cem nas mãos
das SS, em 1939, com três campos célebres a partir de então: Dachau, Buchenwald e
Sachsenhausen. Reúniam um milhão de detidos (inicialmente opositores políticos, mas logo
também judeus, ciganos, homossexuais...) sob as ordens de Kapos. Fato capital: os campos
forneciam uma enorme mão de obra quase gratuita para a grande indústria privada (Krupp,
Mercedes Benz, Volkswagen, Thyssen): o trabalho de um homem custava 70 centavos por dia, e
41
produzia o equivalente a 6 marcos (a taxa média de lucro e a acumulação de capital cresceram
geometricamente). A justiça perdeu toda autonomia, em parte substituída pelos “tribunais do
povo”. O ministro da propaganda (Goebbels) controlava a imprensa, a edição de livros, o rádio, o
cinema, setores que conheceram “depurações” em massa. Os “criadores” e jornalistas receberam
instruções precisas: as bibliotecas sofreram razzias (20 mil volumes foram queimados a 10 de
maio de 1933). Na educação houve também um expurgo dantesco: baseada noracismo, foi feita a
revisão de manuais e textos escolares, e o enquadramento de estudantes e professores em
corporações. As organizações juvenis nazistas (para espanto das igrejas) passaram a enquadrar
crianças a partir de oito anos de idade, ao tempo que a lei passou a autorizar a esterilização de
certos indivíduos ou grupos “defeituosos”.
Os bens dos sindicatos passaram para a “Frente de Trabalho”, dirigida por Robert Ley: a filiação à
“Frente” era obrigatória para as organizações sindicais. Em janeiro de 1934 decretou-se a “lei de
organização de trabalho”: a “Frente” se dividiu em 22 grupos, os sindicatos deviam ser o
instrumento da política social do regime; nos locais de trabalho deviam-se eleger delegados a
partir de uma listagem apresentada pela direção. As greves foram proibidas: os “tribunais do
trabalho” passaram a aplicar sanções, organizou-se o “Serviço de Trabalho”, de um ano, para
ambos os sexos. O lazer também foi organizado, através da KDF (a “Força pela Alegria”...).
Em 1935 foram promulgadas as “Leis de Nüremberg”, que despiram os judeus dos seus direitos
civis, o começo da exclusão final dos judeus da vida econômica. Começou o capítulo de
arianização, em que milhares e milhares de pessoas, proprietárias de grandes negócios até os
menores empreendimentos individuais, precipitaram-se sobre a propriedade judaica, adquirindo
para si mesmos qualquer coisa que fosse possível pelo preço mais baixo e, por vezes, por nada. A
extorsão e o simples roubo eram a ordem do dia. Os judeus foram excluídos da função pública e
de uma longa lista de profissões liberais.
Hitlerjügend, Berlim, 1937
42
O homem do grande capital, Hjalmar Schacht, foi nomeado novamente ministro de finanças
(1934-1937: uma década antes tinha sido o responsável econômico da República de Weimar),
depois ministro sem carteira até 1943. Ele financiou a retomada da produção com o bloqueio dos
capitais estrangeiros, a “substituição de importações”, e uma política de crédito a curto prazo.
Desenvolveu-se também uma política de grandes trabalhos públicos, que absorveu em grande
medida o desemprego. Os salários, porém, foram bloqueados. A concentração do capital foi
amplamente favorecida, com o Estado assumindo os pouco rentáveis setores de base, sobretudo
para a indústria armamentista: aço, metalúrgicas (as Hermann Göering Werke). Brecou-se
também o êxodo rural com incentivos à produção agrária, assim como restabelecendo as multas e
os castigos corporais no campo, o salário em espécie, e o fornecimento de mão de obra (Serviço
do Trabalho).
A produção se restabeleceu rapidamente, passando de um índice 100 em 1932, para 225 em 1939
(uma duplicação em menos de sete anos), com uma inflação controlada. Para controlá-la
recorreu-se à demanda garantida da produção crescente de armamentos. Os monopólios se
fortaleceram: os lucros cresceram 250%, embora os preços só aumentassem em 25%. Os salários
reais chegaram a cair: a juventude, não mais desempregada, era submetida ao trabalho
obrigatório. Do programa “anticapitalista” original sobraram a expropriação dos capitalistas...
judeus (para favorecer outros capitalistas, “arianos”) e a nacionalização dos setores industriais
deficitários, mas indispensáveis para o rearmamento da Alemanha.
A verdadeira causa do sucesso de Hitler, segundo Trotsky, não fora a força de sua ideologia, mas a
falta de uma alternativa política: “Não nenhuma razão para ver a causa desses fracassos [das
Internacionais socialista e comunista] na potência da ideologia fascista. Mussolini jamais teve
ideologia alguma e a ideologia de Hitler nunca foi tomada a sério pelos operários. As camadas da
população que em um dado momento foram seduzidas pelo fascismo, isto é principalmente as
classes médias, já tiveram tempo de se desiludir. O fato da pequena oposição existente se limitar
aos meios clericais protestantes e católicos, não se explica pela potência das teorias semi-
delirantes, semi-charlatanescas da ‘raça’ e do ‘sangue’, mas pela quebra estrepitosa das
ideologias da democracia, da social-democracia e da Komintern”.
50
A consolidação internacional do nazismo manifestou-se em todas as áreas. Para continuar a fazer
negócios na Alemanha após a ascensão de Hitler ao poder, os estúdios de Hollywood
concordaram em não fazer filmes que atacassem os nazistas ou condenassem a perseguição aos
judeus na Alemanha, uma “colaboração” que envolveu personagens que iam de Joseph Goebbels,
chefe de propaganda do nazismo, até ícones de Hollywood, como o todo-poderoso Louis B.
Mayer, diretor-fundador do estúdio Metro-Goldwyn-Mayer (MGM). Hitler tinha obsessão por
filmes e reconhecia o poder desse veículo em moldar a opinião pública. Em dezembro de 1930,
seu partido promovera manifestações de rua contra a projeção em Berlim do filme pacifista Nada
de Novo no Front, baseeado no romance antimilitarista de Erich Maria Remarque, vencedor do
Prêmio Nobel de literatura. Todos os estúdios de Hollywood fizeram concessões ao governo
alemão e negociaram diretamente com seus representantes o conteúdo de seus filmes.
51
Nada
disto foi posto em questão pelo “Comitê de Atividades Anti-americanas” de Joseph McCarthy no
pós-guerra.
Os primeiros ocupantes dos campos de concentração nazistas foram milhares de quadros e
militantes operários e de esquerda. Apesar da inegável coragem demonstrada, na
clandestinidade, pelos poucos que escaparam à repressão, o essencial da vida política da
50
Leon Trotsky. Programa de Transição. Porto Alegre, Combate Socialista, s.d.p.
51
Bem Urwand. A Colaboração. O pacto entre Hollywood e o nazismo. São Paulo, Leya, 2014.
43
esquerda alemã, a partir da ascensão de Hitler, desenvolveu-se no exílio. E em condições nada
honrosas para as “democracias”. Na França, como vimos acima, a maioria dos exilados políticos
antifascistas alemães, que acreditavam ter encontrado abrigo num país livre e amigo, com a
aproximação da guerra foram internados em campos de concentração, onde se encontraram com
os republicanos espanhóis que tinham fugido do franquismo.
Entre 1925 e 1945, 7,2 milhões de alemães se filiaram (mais ou menos voluntariamente ou
forçadamente) ao partido nazista (o NSDAP), mais de 10% de sua população anterior à guerra, do
que caberia descontar as crianças e os muito velhos, o que faria mais do que duplicar o percentual
indicado. Em 1939, depois de derrotada toda resistência interna, e depois das concessões feitas à
Alemanha pelas antigas potências em relação à sua política expansionista europeia, o regime
nazista estava pronto para dar um novo salto em suas pretensões continentais e mundiais. Para
isso, faltava-lhe só neutralizar, ainda que fosse momentaneamente, o seu principal potencial
adversário a Leste, a União Soviética.
44
4. A GUERRA E O STALINISMO
A URSS, sob o governo de Stalin, virou um país industrial, com uma forte indústria pesada, mas
também com uma indústria de bens de consumo atrasada. Entre 1928 e 1932, o número de
operários industriais duplicou (de 11,5 milhões para quase 23 milhões). Enquanto nos EUA,
mergulhados na depressão econômica da década de 1930, a indústria experimentava um
retrocesso de 25%, na URSS o primeiro Plano Quinquenal (1929-1934) fixou um objetivo de
crescimento industrial de 250%, e chegou perto disso. A coletivização forçada do campo, do seu
lado, impôs um retrocesso da produção agrária (835 milhões de toneladas de cereias colhidas em
1930 um índice em retrocesso em relação aos anos precedentes -, apenas 700 milhões em
1931) que tornou os alimentos mais caros (inflação) e um forte retrocesso das condições
econômicas de vida da população, em especial da classe operária. Leon Trotsky, banido do país
pela ditadura stalinista, traçou uma prospectiva do futuro, baseada na contradição fundamental
do regime soviético: “O prognóstico político tem um caráter de alternativa: ou a burocracia,
tornando-se cada vez mais o órgão da burguesia mundial no Estado Operário, destrói as novas
formas de propriedade e lança o país no capitalismo; ou a classe operária esmaga a burocracia a
abre uma via para o socialismo”.
O abalo brutal da URSS na década de 1930 era o resultado do processo de burocratização da URSS
desenvolvido na década de 1920. O abandono da perspectiva da revolução internacional,
substituída pela tese da “construção do socialismo num país só” defendida por Stalin-Bukhárin ,
não foi apenas um processo ideológico: esse processo teve uma base social e histórica no
retrocesso e na burocratização do Estado emergente de revolução. Dois fatores foram claramente
decisivos para que isso acontecesse: 1) O fracasso da revolução internacional, devido à integração
histórica da social-democracia europeia à ordem vigente nos seus países, e à ordem internacional
agora encabeçada pelos EUA, e também à inexperiência dos jovens núcleos revolucionários
(apressadamente organizados na Internacional Comunista); 2) O esgotamento, desmoralização e
até dizimação da classe operária russa, após sete anos de sacrifícios, guerra civil e intervenções
estrangeiras. Em 1917, a classe operária russa contava com 3.000.000 de membros: em 1922 com
1.240.000. A burocracia surge historicamente, como camada dirigente, onde a luta pela existência
individual ocupa um lugar dominante nas energias da sociedade. Sua função é aliviar os conflitos
que esse luta origina, tirando privilégios dessa função. A burocracia tinha claramente como base
de sua autoridade a ausência de artigos de consumo, e a luta de todos contra todos que resultava
dessa ausência.
É contrário a qualquer analise histórica objetiva afirmar que a alienação dos trabalhadores e a
burocracia foram produtos da opção “ideológica” pela indústria pesada, em vez da indústria leve
de consumo: a burocratização da URSS e do partido comunista estavam mais do que
consumadas antes que se desse qualquer passo em direção à indústria pesada, o que
aconteceu na década de 1930. O socialismo nunca seria um fenômeno sem contradições que
pairaria acima da história: todo Estado surgido de uma revolução teria uma dupla natureza:
socialista na medida em que defendesse a propriedade coletiva dos meios de produção, burguesa
na medida em que a distribuição se operaria, ao menos inicialmente, de acordo com normas
capitalistas (“de cada qual segundo seu trabalho"). A fisionomia definitiva do Estado se definiria
pela relação oscilante entre essas duas tendências. Historicamente, o stalinismo expressou a
vitória da segunda sobre a primeira, vitória baseada na expropriação política dos trabalhadores e
suas organizações em favor de uma burocracia prvilegiada. Dizer que a contrarrevolução stalinista
estava inscrita no Que Fazer?, os Processos de Moscou na interdição das frações no interior do
partido, etc., é ignorar os fatores histórico que contribuíram para o isolamento da URSS: a
intervenção estrangeira contra a jovem república soviética, a aliança da social-democracia alemã
45
com o Estado-Maior do exército, o próprio sistema capitalista mundial responsável pela guerra
mundial e pelo atraso e contradição da sociedade russa. A burocracia stalinista surgiu da penúria
interna da URSS contra o pano de fundo do fracasso da revolução internacional. Ela se apossou do
poder através de um verdadeiro golpe de Estado, à margem e contra a legalidade do partido
bolchevique e da república soviética.
O historiador tcheco Michal Reiman constatou um aparente paradoxo: “As camadas governantes
dos estados industriais, que apenas meio ano antes se negaram a favorecer uma eventual vitória
da orientação moderada na URSS [refere-se à ‘Oposição de Direita’ de Bukhárin-Rykov-Tomski], se
mostraram dispostas -ironias do destino- a financiar o despotismo de Stálin. Os órgãos do
planejamento puderam contar com relações econômicas internacionais de maior amplidão”.
52
Nas condições criadas pela crise de 1929, importava mais para o establishment do capital
internacional a consolidação de uma orientação conservadora da URSS no plano internacional, do
que uma imediata restauração capitalista, ao preço de uma guerra externa e de uma guerra civil
na URSS, que poderia desestabilizar o precário cenário internacional. Por outro lado, todas as
medidas ditas “progressistas” adotadas pela burocracia como a expropriação da propriedade
privada agrária e a centralização das forças produtivas através do planejamento econômico,
foram realizadas em defesa do poder e dos privilégios da burocracia, o que significa que portavam
o germe da sua própria dissolução.
O primeiro Plano Quinquenal traçou objetivos mirabolantes: duplicar a produção de ferro,
quintuplicar a de eletricidade, elevar a produção industrial total em 250%. Nenhum país tinha
crescido antes nesse ritmo. Os enormes custos do plano seriam financiados pela inflação, a queda
do salário real, o saque do campesinato, e também pela diferenciação salarial em nome da
“emulação socialista” (movimento stakhanovista) e a severidade na disciplina do trabalho. Para os
bolcheviques da geração revolucionária, ao contrário, a primeira etapa do desenvolvimento
deveria ser lenta, para que aquele fosse equilibrado e harmonioso, a fim de assimilar de um modo
mais rico e racional o que a técnica e a cultura históricas haviam criado de melhor até o
momento. Isso permitiria que numa etapa futura houvesse um desenvolvimento vertiginoso. Ao
invés disso, o desenvolvimento econômico soviético foi um processo de crises, que se acentuaram
pela crescente diferenciação funcional e social. Paralelamente, iniciou-se a convergência profunda
da URSS com as grandes potências na “preservação da ordem mundial”: em 1933, a URSS foi
admitida como membro pleno da Sociedade das Nações (SDN).
O resultado duradouro da “superindustrialização soviética” foi a burocratização do aparelho
produtivo: empresas gigantes de dois tipos, combinados e trusts (em 1940, 640 trusts geriam
573.000 estabelecimentos), com cada ramo industrial sendo controlado por um ministério
especial, perfazendo 52 ministérios industriais no total. O comércio controlado pelo Estado
passou de 13% das lojas (1929) para 75% (1937). O lado negativo desta centralização verificou-se
ao se tornar evidente que a burocracia carecia não só de meios de controle democrático sobre
ela, mas também dentro dela. A expropriação do campesinato “abastado” foi realizada de
maneira tão brutal e burocrática, que a ruptura foi paga por uma burocratização na economia e
nas relações agrárias equivalente àquela existente na indústria: “Após dois anos de coletivização
existiam os kolkhozes (fazendas coletivas), mas não existiam os kolkozhianos. Nessas condições
era inevitável que o Comitê Central se orientasse para uma interpretação cada vez mais
autoritária da palavra de ordem do 'reforçamento econômico-organizativo dos kolkhozes'... A
coletivização desembocara numa estrada tal que seu curso futuro seria decidido quase que
exclusivamente pelas iniciativas adotadas pelo grupo dirigente do partido, e não pela evolução
52
Michal Reiman. El Nacimiento del Estalinismo. Barcelona, Grijalbo, 1982.
46
real do mundo kolkhoziano. Na contraditória fórmula de 'revolução pelo alto', o significado do
adjetivo ampliara-se irremediavelmente, até o ponto de esmagar e eliminar o do substantivo”.
53
A industrialização e coletivização forçadas impuseram um férreo controle social pela burocracia, já
“stalinista”, e a eliminação de qualquer resquício de vida política além das fronteiras dos círculos
dirigentes do país. As principais consequências desses fenômenos foram o rápido ritmo da
urbanização, o crescimento da burocracia estatal e partidária, a diferenciação salarial em nome da
“emulação socialista”, a severidade da disciplina do trabalho, que descaracterizaram totalmente o
regime como “socialista”, no significado histórico adquirido por esse termo. No plano
internacional, a política ultra-esquerdista do stalinismo, reflexo do temor burocrático de um
ataque externo à URSS pelas potências capitalistas, começou com a fracassada insurreição de
Cantão, na China, em 1927. Depois, a política do KPD (partido comunista) alemão (denúncia do
“social-fascismo”, ou seja, negativa à Frente Única dos partidos operários contra o fascismo) foi
levada adiante em todos os países: criaram-se “sindicatos vermelhos”, que organizavam só os
setores diretamente influenciados pelos partidos comunistas, anunciou-se o “afundamento
iminente do capitalismo”, impulsionou-se o aventureirismo em todas as suas formas. O balanço
foi dramático: as organizações de massas controladas pelos partidos comunistas afundaram
(CGTU na França, TUUL nos EUA, NMM na Inglaterra). Nos países balcânicos, os jovens partidos
comunistas foram quase exterminados. Na Europa ocidental, eles viraram uma espécie de seita:
assim foi na Bélgica, na Inglaterra, na Espanha (onde diversas outras organizações comunistas
eram mais fortes que o PC), na França (onde o PCF tinha 25 mil membros em 1933, um quarto do
seu efetivo na segunda metade da década de 1920).
Nos países periféricos”, o nacionalismo e os movimentos democratizantes (por exemplo, o APRA
peruano ou a UCR argentina) também foram qualificados de “fascistas”, o que levou os partidos
comunistas “coloniais” ao isolamento e ao enfraquecimento. A Internacional Comunista ficou
reduzida a 600 mil membros, excluído o PCUS: os seus partidos viraram “monolíticos”, como
Stalin pretendia, com dirigentes “incondicionais”, que aceitavam tudo o que vinha “de cima”,
inclusive as explicações mais inacreditáveis para as derrotas. “Monolíticos” e incapazes de
intervir, no conjunto, na crise do capitalismo na década de 1930: os dirigentes da URSS temiam
movimentos revolucionários no exterior, que poderiam desestabilizá-los. As correntes “de
esquerda” que surgiram na social-democracia ocidental e no nacionalismo “periférico” não
receberam, por isso, quase nenhuma influência dos partidos comunistas (em que pesem os
congressos mundiais “antiimperialistas”, como o celebrado em Frankfurt sob a presidência de
Willi Münzenberg, ou os congressos internacionais “contra o fascismo”).
Em contrapartida, o capitalismo mundial em crise parecia ter renunciado momentaneamente a
intervir diretamente contra a URSS (intervenção que tinha se desenhado depois da ruptura
diplomática anglo-russa de 1927) pelo menos até a consolidação da Alemanha nazista. Trotsky,
desde 1933, qualificou Hitler de super-Wrangel” (do nome do general russo, chefe do campo
“branco” da guerra civil de 1918-1921) e de “ponta-de-lança do imperialismo mundial”: os
dirigentes stalinistas qualificaram então Trotsky de “socialfascista”, belicista”, visivelmente
preocupados em buscar um status quo com o “novo regime” da Alemanha. Ao mesmo tempo,
uma série de “revoluções de palácio”, fracassadas, indicavam a ainda frágil posição de Stalin na
URSS: em 1931, o “caso” de Syrtsov e Lominadzé, acusados de formar um “bloco anti-partido” (os
dois dirigentes acusavam à direção do partido de “tratar operários e camponeses à maneira dos
barines”: foram excluídos do CC); em 1932, o “affaire Riutin”, do nome do dirigente que apregoou
53
Fabio Bettanin. A Coletivização da Terra na URSS. Stalin e a “revolução do alto” (1929-1933). Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1981.
47
a descoletivização agrária forçada, a reintegração dos excluídos do partido, e a destituição de
Stalin (descoberto, Riutin foi excluído do partido, assim como Zinoviev e Kamenev; houve também
numerosas detenções, mas o Politburô do PCUS recusou a solicitação de executar Riutin, como
Stalin queria); em 1933, o mal conhecido “affaire Smirnov”. Os expurgos de intelectuais atingiram
grandes proporções; a mulher de Stalin (Nadezja Allelluieva, filha de seu melhor amigo) se
suicidou...
A resistência à brutalidade de Stalin no próprio Comitê Central do PCUS fez crescer a figura de
Sergo Kirov, que fazia o papel de “conciliador”: os choques no aparelho do partido e do Estado
evidenciavam que a própria burocracia tomava consciência e temia o “espírito opositor” reinante
em amplas camadas da população. Isto era particularmente visível na juventude, que repudiava o
stakhanovismo que, em nome da “emulação”, resultava numa espécie de sistema de trabalho por
peças, ou por mínimos de produção. Mas os burocratas opositores a Stalin também temiam
derrubá-lo: uma parte deles seguramente pensava que, fazendo-o, abririam o caminho para a
direita e a contrarrevolução. O XVII Congresso do PCUS, no início de 1934, consagrou o estado de
espírito majoritário: aceitou uma autocrítica relativamente “digna” dos ex-opositores (Zinoviev,
Bukhárin, Lominadzé), outorgou um estatuto jurídico aos kolkhozianos, anistiou os kulaki
(camponeses “abastados”) perseguidos, a GPU foi reorganizada (transformou-se em NVKD) sob o
controle de um “comissariado (ministério) do interior”. No entanto, tratava-se da calmaria que
precedia à tempestade, isto é, ao grande conflito, que se desenhava no próprio Congresso: os
secretários regionais pediram a Kirov candidatar-se ao posto de secretário-geral (Kirov recusou);
270 delegados votaram contra Stalin, eleito ao CC em último lugar; segundo Roy Medvedev, se
agrupavam em torno de Kirov, aqueles que pensavam que era necessário executar o testamento
de Lenin (ou seja, tirar Stalin do secretariado geral e dos postos dirigentes): teria havido, durante
o Congresso, uma reunião dos secretários regionais do PCUS dedicada à questão da substituição
de Stalin: um grupo deles, que incluía Anastas Mikoyan, o georgiano Ordjonikidzé, Petrovsky,
Orachenlanchvili, foi encarregado de pressionar Kirov para que se candidatasse ao posto de
secretário-geral. Pela primeira, e única, vez na “era staliniana”, formou-se um semiconsenso
acerca da readmissão dos opositores a Stalin no partido, com exceção de Trotsky e os trotskistas,
assim como de Ivar Smirnov e seus amigos do “bloco das oposições”.
É à luz dessa situação que se deve apreciar o assassinato de Kirov, em dezembro de 1934, e os
próprios Processos de Moscou, onde Trotsky foi o principal acusado in absentia. Stalin, no meio
das dificuldades do Congresso do PCUS de 1934, conseguiu no entanto fazer nomear seus
“homens” (Kaganovitch, Ekhov e o jovem Malenkov) em postos-chave. Kirov fora claramente
designado como “número 2”, promovido a “secretário do partido”: esse foi o “compromisso” de
1934. Onze meses depois, a 1º de dezembro de 1934, Kirov foi assassinado por um jovem
comunista, Nikolaiev. Deflagrou-se então uma repressão em massa, rápida e espetacular, com leis
de exceção, milhares de deportados na Sibéria (remetidos nos chamados “trens de Kirov”), todos
“suspeitos” de complô para assassinar... Kirov: Nikolaiev, julgado a portas fechadas, foi executado.
A repressão em massa acabou com a “sociedade dos velhos bolcheviques”. Os trotskistas passam
a ser chamados de “assassinos”.
Trotsky indicou, na época, que o assassinato de Kirov fora “facilitado”, se não organizado, pela
NVKD. Ele foi o pretexto para os “Processos” em que foi liquidada toda a velha guarda
bolchevique. Mas paralelamente aos processos públicos (que foram apenas a ponta do iceberg)
aconteceram processos “a portas fechadas”, sem dúvida devido à impossibilidade de extorquir
confissões dos acusados: em junho de 1937, a condenação e execução da cúpula do Exército
Vermelho, como veremos mais adiante, e de seus chefes, o marechal Tukhachevsky e o general
Piotr Iakir; em julho de 1937, o processo, condenação e execução dos dirigentes do Partido
48
Comunista da Geórgia (Mdivani e Okudjava); em dezembro de 1937, a continuação do anterior,
com a condenação e execução de Enukidzé. Com os fuzilamentos em massa de oposicionistas de
esquerda na Sibéria, em 1938, a ekhovtchina (do nome do chefe da NVKD, Ekhov) stalinista estava
completa. Com o massacre da década de 1930, Stalin superou a crise política precedente.
No expurgo, além dos remanescentes da velha guarda bolchevique, foram eliminados 98 dos 117
membros do Comitê Central eleito em 1934, 1108 dos 1966 delegados ao XVII Congresso, quatro
membros do Birô Político, três dos cinco membros do Birô de Organização, segundo informou o
“Relatório Secreto” de Nikita Kruschev ao XX Congresso do PCUS, em 1956. Ironicamente, os
chefes do Exército Vermelho, que criticavam Stalin pela escassa preparação da URSS frente a uma
inevitável guerra com a Alemanha nazista, foram condenados como espiões alemães, em uma
falsificação de documentos da qual participaram os próprios nazistas. Os mecanismos da
falsificação foram postos à luz por Leopold Trepper, chefe da Orquestra Vermelha soviética no
ocidente que fora detido durante a guerra pela Gestapo. Seu captor, Hermann Göering, contou-
lhe como havia forjado a falsa acusação com Heydrich, comandante das SS. Para isso, contaram
com o apoio de um ex-general russo branco, Skoblin (quem, na época, trabalhava para a GPU-
NVKD) quem fez a denúncia de que Tukhachevsky preparava um complô. Rapidamente forjaram
provas falsas e fizeram com que o material chegasse a Stalin, através do governo da Frente
Popular tcheca, presidido por Edvard Beneš, que mantinha boas relações com Moscou.
Sublinhar o caráter contrarrevolucionário e genocida do segundo conflito mundial e dos
preparativos que levaram ao mesmo, não significa justificar a política stalinista para manter
afastada a URSS da guerra, mas apontar para o seu caráter ilusório e contrarrevolucionário, que
acabou custando milhões de mortos à União Soviética (o preço mais alto pago por qualquer um
dos beligerantes). Do pacto Laval-Stalin em 1935, que desarmou o proletariado francês para lutar
contra o militarismo imperialista galo, até o pacto União Soviética-Japão de 1941 (nas vésperas da
invasão da URSS pelo exército nazista), passando pelo pacto Hitler-Stalin, de 23 de agosto de 1939
(que deu o sinal verde para a invasão da Polônia pela Alemanha), a política externa da União
Soviética foi o complemento da política que, no plano interno, levou, nos “Processos de Moscou”
de 1936-1938, à aniquilação do que restava da “velha guarda” bolchevique e, em 1937, à
decapitação do Exército Vermelho. À qual cabe acrescentar a liquidação dos agentes de Stalin na
guerra civil espanhola (tais como o velho bolchevique Antonov-Ovssenko, que havia comandado
em 1917 a tomada do Palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo) quando do seu retorno à
URSS, de modo a impedir o questionamento de sua política espanhola. Na repressão contra os
revolucionários no campo republicano, foi treinado o comando que, sob direção de Leonid
Eitingon (general da NVKD) e de Pável Sudoplátov, foi encarregado do assassinato de Leon
Trotsky, no México, em 1940.
Os processos judiciais sobre o Exército Vermelho se abateram não na sua cúpula, mas até nos
comandos médios. Foram, como já dito, promovidos a partir de falsas acusações fabricadas pelos
serviços secretos nazistas. Uma vez realizados os expurgos Hitler teria proclamado neutralizamos
a Rússia por dez anos”, o que lhe permitiu preparar a conquista da Checoslováquia e a guerra na
frente ocidental. O expurgo militar colheu à URSS de surpresa, tanto quanto o expurgo político.
54
A decapitação do Exército Vermelho teve importância imediata para os destinos da URSS.
54
O massacre paralelo aos “Processos de Moscou