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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul

Authors:

Abstract and Figures

Patrimônio Arqueológico
de Caxias do Sul
Rafael Corteletti
Porto Alegre, Edição 2008
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© Rafael Corteletti, 2008
Capa: Vitor Hugo Turuga
Ilustração capa: Piter Fontana
Projeto gráfico e editoração: Solo Editoração e Design Gráfico
Revisão: Pedro Ignácio Schmitz e Marivone Cechett Sirtoli
Impressão e acabamento: Gráfica e Editora Nova Prova
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Bibliotecária Responsável: Paula Pêgas de Lima – CRB 10/1229
C827p Corteletti, Rafael
Patrimônio arqueológico de Caxias do Sul / Rafael
Corteletti. – Porto Alegre: Nova Prova, 2008.
200 p.; 16 x 23 cm.
Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-89344-45-6
1. Arqueologia – Rio Grande do Sul. 2. Parques
arqueológicos – Rio Grande do Sul. 3. Sítios arqueológicos –
Rio Grande do Sul. 4. População Jê – Rio Grande do Sul. I.
Título.
CDU: 902.2(816.5)
Todos os direitos desta obra estão
reservados ao autor.
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Agradecimentos
A realização pesquisa que levou a redação da dissertação de Mestrado que
culminou neste livro que está em suas mãos aconteceu graças a colaboração de
uma série de pessoas e instituições.
Sou grato a toda a minha família pelo apoio incondicional e incomensurável.
Agradeço a todo o pessoal do IAP, onde realizei meus estudos, em especial a
Pedro Ignácio Schmitz, Jairo Henrique Rogge, Marcus Vínicius Beber, Fúlvio
Arnt e Ivone Verardi.
Agradeço a Professora Dra. Marisa Coutinho Afonso (MAE-USP), que ao
participar da avaliação de minha dissertação enriqueceu a discussão com suas
indagações e proposições.
Sou profundamente grato aos proprietários das áreas que foram visitadas e
possibilitaram o resgate dos dados que construíram este livro.
Agradeço a todos os amigos que foram importantes nessa construção, em
especial a Leandro A. Anton, Marlon B. Pestana, Alessandro Bracht, Marcelo Vettori,
e Claudia Pante.
Agradeço ao pessoal da Secretaria da Cultura de Caxias do Sul, em especial a
Ana Maria Feuerharmel, que sempre resolveu todos os problemas durante os
trâmites para a seleção do Projeto no FUNDOPROCULTURA e, principalmente
após a aprovação, com muita paciência e atenção.
Sou grato ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico) que entre os anos de 1999 e 2000 financiou parte da pesquisa.
E, finalmente, agradeço à Prefeitura Municipal de Caxias do Sul, que com a
manutenção da realização do FUNDOPROCULTURA (Fundo Municipal de Apoio
à Produção Artística e Cultural de Caxias do Sul) possibilita, com o financiamento
público, que obras como essas cheguem à população e façam valer pesquisas sobre
a comunidade caxiense.
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Sumário
Prefácio .............................................................................................................. 7
Introdução ............................................................................................................ 9
Incursões pela arqueologia do planalto.............................................................. 17
1. A Zona de Estudos ................................................................................... 17
2. Descrição e Atualização dos Dados Arqueológicos .................................. 2 6
2.1. Microrregião Ana Rech .................................................................... 2 6
2.1.1. Ana Rech ................................................................................. 29
2.1.2. Santa Bárbara ........................................................................... 37
2.1.3. Bairro São Ciro ........................................................................ 38
2.1.4. São Gotardo ............................................................................. 42
2.1.5. São Valentin de Flores da Cunha ............................................ 46
2.1.6. Travessão Cremona .................................................................. 4 7
2.1.7. Fazenda Souza.......................................................................... 48
2.1.8. Bairro Cruzeiro ........................................................................ 48
2.1.9. Morro Cristal ........................................................................... 49
2.2. Microrregião Santa Lúcia................................................................. 50
2.2.1. Água Azul ................................................................................ 5 2
2.2.2. Santo Antônio.......................................................................... 83
2.2.3. Vila Oliva................................................................................. 83
2.3. Microrregião Vila Seca ..................................................................... 8 5
2.3.1. Apanhador, São Francisco de Paula ......................................... 8 6
2.3.2. Vila Seca................................................................................... 92
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2.4. Microrregião Criúva ......................................................................... 9 6
2.4.1. São Jorge da Mulada................................................................ 98
2.4.2. Boqueirão ............................................................................... 101
2.4.3. Palanquinho ........................................................................... 111
2.4.4. Fundo Quente ....................................................................... 113
A colonização e a conservação dos sítios .......................................................... 115
1. A Conservação dos Sítios ........................................................................130
Onde, como e quando? ....................................................................................139
1. A Distribuição e Implantação dos Sítios Arqueológicos........................145
1.1. O Fator Altitude ............................................................................151
1.2. O Fator Ambiente ..........................................................................155
1.3. O Fator Área e a Quantidade de Estruturas por Sítio .................. 160
1.4. O Fator Água..................................................................................161
1.5. O Fator Dimensão das Estruturas.................................................163
1.6. O Fator Cronologia ........................................................................166
2. O Padrão de Assentamento .................................................................... 170
Conclusão .........................................................................................................173
Referências Bibliográficas ................................................................................. 177
Glossário ..........................................................................................................183
Anexos ..........................................................................................................189
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Prefácio
Desde o final da década de 1990 as pesquisas arqueológicas no planalto do
Rio Grande do Sul tomaram um novo fôlego e vêm trazendo contribuições
importantes e inovadoras para o conhecimento das populações indígenas pré-
coloniais que ocuparam esta região do Estado, especialmente com relação ao que
os arqueólogos chamam de Tradição Taquara. A pesquisa realizada por Rafael
Corteletti, apresentada agora nesta obra, faz parte e é peça importante dessa
retomada. Mas também é mais do que isso.
Além do objetivo de compreender a ocupação de um espaço por aquelas
populações, o autor preocupa-se com uma questão fundamental: a proteção e
conservação do próprio objeto de estudo. É nesse ponto que seu trabalho possui
grande destaque já que tal preocupação, embora sempre presente entre os
arqueólogos, raramente é posta em prática. Nesse sentido, a retomada que o autor
faz dos sítios arqueológicos, revisitando-os e avaliando os impactos naturais e
antrópicos por eles sofridos ao longo de quase 40 anos, desde as primeiras pesquisas
feitas, é exemplar, resultando em uma “história dos sítios arqueológicos” da região
de Caxias do Sul, incluindo aí um dos sítios mais importantes (e o primeiro a ser
mais intensamente pesquisado no Brasil, ainda no final da década de 1960)
relacionado à ocupação pré-colonial do planalto, na localidade de Água Azul.
Se este livro nasceu como fruto de intenso trabalho acadêmico ele agora,
devidamente adaptado, passa a ser uma obra de caráter popular, que pode ser lida
e compreendida por qualquer cidadão caxiense e que diz respeito a uma parte de
sua própria história. Possibilitando a conscientização a respeito da importância do
patrimônio cultural representado pelos sítios arqueológicos de Caxias do Sul, esta
obra certamente se tornará fundamental para que as pessoas possam, como escreve
o autor, deixar de ser os agentes da depredação e passar a ser os agentes da
preservação do patrimônio arqueológico. Além disto esta obra é, também, um
alerta à administração pública, no sentido de que as informações que o autor nos
traz são de extrema importância para o fomento e a elaboração de políticas públicas
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locais de preservação e conservação do patrimônio arqueológico e, conse-
qüentemente, ambiental.
Com o livro “Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul”, de Rafael Corteletti,
a arqueologia sul-rio-grandense dá um grande e importante salto qualitativo. Mas,
acima de tudo, a comunidade caxiense tem a sua disposição um importante
instrumento de conhecimento e educação patrimonial. Um livro que é, ao mesmo
tempo, um belíssimo inventário da riqueza arqueológica regional, mas, também,
um pungente grito de socorro, para que ela não desapareça.
São Leopoldo, 16 de janeiro de 2008.
Prof. Dr. Jairo Henrique Rogge
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Introdução
O texto que vem pela frente tem dois grandes objetivos.
O primeiro é o de avançar na elaboração do conhecimento das populações
ameríndias de origem Jê que habitaram as terras altas do sul do Brasil e construíram
assentamentos com as chamadas “casas subterrâneas”. O passado dos “engenheiros
da terra”1 será tratado aqui a partir da análise de caso de uma área piloto nos
municípios gaúchos de Caxias do Sul, Flores da Cunha e São Francisco de Paula.
Foi ali, na segunda metade dos anos 60, que os primeiros sítios arqueológicos
destas populações foram registrados e escavados.
A visita a estes assentamentos e a atualização dos dados produzidos é outro
ponto do texto, que nos liga diretamente ao segundo objetivo, que é o de alertar
para um dos problemas mais sérios que o patrimônio arqueológico nacional vem
sofrendo: a degradação dos sítios. Os ataques a estes sítios não são nenhuma
novidade; a marcha destrutiva e silenciosa que ocorre dia-a-dia sobre este patrimônio
cultural e instrumento de trabalho de arqueólogos, antropólogos, historiadores,
biólogos, etc., na maior parte das vezes ocorre sem o conhecimento do poder
público e da sociedade civil, e o pior é que, em alguns casos, o próprio agente da
degradação, por falta de conhecimento, não sabe o que está fazendo. E é exatamente
por não conhecer este patrimônio que ele não o valoriza e o relega a destruição.
Porém, são esses vestígios que podem nos levar a conhecer mais o nosso próprio
modo de ser enquanto espécie; podem nos ajudar a revelar a história da ocupação
do continente sul-americano e em especial do Brasil; e podem a partir de políticas
públicas de preservação estimular mais pesquisas que, inclusive, ampliarão e gerarão
empregos em diversos setores.
A expansão de empreendimentos como hidrelétricas, indústrias, loteamentos,
lavouras, etc., sobre áreas com vestígios de cultura material de povos ancestrais faz
com que a criação de parques arqueológicos e a revitalização de museus sejam cada
1Corteletti, (1999: 24)
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
vez mais necessárias. A criação de roteiros turísticos que envolvam o patrimônio
cultural também é urgente, juntamente com o desenvolvimento de toda uma
atividade econômica paralela, como “hotéis, restaurantes, empresas de transporte,
casas de entretenimento, e os empregos a eles correspondentes, por óbvio, vem a
se beneficiar da política de proteção ao patrimônio em questão”2. A inserção deste
conhecimento de maneira mais ampla nos currículos do ensino fundamental e
médio é vital para criarmos crianças conhecedoras da “história antes da história” e
engajadas na necessidade de pesquisá-la para preservá-la.
A luta pela preservação do patrimônio cultural deve utilizar as comunidades
locais para serem os principais agentes desta conservação e os principais beneficiados
desta prática. Não há como cobrar a preservação de um sítio arqueológico se a
pessoa que deveria fazê-lo não tem a menor noção do significado daquele vestígio.
E é exatamente a realização de mais pesquisas que pode dar subsídios às comunidades
para que a prática preservacionista surja e se consolide. Muitos proprietários de
terras tomam para si a responsabilidade de preservar. É nítido o orgulho de alguns
deles quando percebem que em suas propriedades está registrado a partir de vestígios
arqueológicos, o estilo de vida de um povo antigo. Casar a carência de atenção
governamental que muitas das comunidades do interior sofrem com o respeito
que elas têm pelas instituições – como a universidade – no sentido de buscar, de
criar e ampliar essa consciência preservacionista é um dos grandes objetivos que a
Arqueologia Brasileira tem pelas décadas que virão.
Um caminho que pode ser traçado é o mesmo trilhado pelo preservacionismo
ambiental. Uma série de empresas tem preocupação com a preservação do meio
ambiente natural e, ao estarem comprometidas com tal valor, livram o consumidor
de qualquer cumplicidade com a degradação ao adquirir um produto ou serviço.
Expandir para o meio ambiente cultural a mesma preocupação passaria a ser uma
estratégia de concorrência das empresas, já que estariam sendo atestados a
conformidade ambiental, as tecnologias e os sistemas de gestão.3
Aproximar estes bens culturais das pessoas, disseminar o conhecimento
científico, para assim ampliá-lo e reproduzi-lo ainda mais. Valorizar os bens
culturais que nos cercam, em detrimento dos modelos culturais importados e
2Camargo (2004:188)
3Camargo (2004:187)
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Introdução
impostos, diminuirá não só a pobreza econômica, mas também a cultural. Estes
são desafios não apenas das Ciências Humanas, mas da sociedade brasileira.
Desafios e objetivos à parte, os deste livro estão em querer, no capítulo
intitulado “Incursões pela Arqueologia do Planalto”, resgatar um fragmento da
história da arqueologia na porção nordeste do Rio Grande do Sul. A vistoria a 44
sítios catalogados entre 12 de Janeiro e 15 de Agosto de 1966, por equipes lideradas
por Pedro Ignácio Schmitz e por Fernando La Salvia4, identificou as mudanças a
que a paisagem do entorno dos assentamentos foi submetida durante os anos que
se passaram desde o primeiro mapeamento. Durante essa inspeção tivemos a
oportunidade de registrar outros 4 “novos” sítios5, chegando ao total de 48 sítios
em estudo. O objetivo, pois, era trazer à luz estes vestígios, atualizar os dados de
conservação, de descrição, de posicionamento, enfim, criar um novo catálogo.
Acredito que esta tarefa foi realizada. A duras penas, é bem verdade. A partir
dos dados colhidos nas “Fichas de Registro dos Sítios Arqueológicos do Rio Grande
do Sul, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Leopoldo”, armazenadas
na Biblioteca do Instituto Anchietano de Pesquisas (IAP), foi delimitada uma
Zona de Estudos e fomos a campo. Uma jornada nos verões de 1999 e de 2000,
outra no verão e outono de 2006. Muitos quilômetros rodados em estradas de
terra, de barro, de cascalho e asfalto. Horas no meio do mato, procurando vestígios
arqueológicos, descendo ribanceiras atrás de grutas, se enroscando em cipós,
espinhos e teias de aranha, ouvindo as gralhas, os bugios e o vento nas árvores,
tomando chuva e sol, catando pinhão e bebendo água de fontes cristalinas. A idéia
sempre foi encontrar os sítios anteriormente mapeados e atualizar os dados cadastrais
das fichas de registro. Alguns não foram encontrados, outros já haviam desaparecido
e outros, em contrapartida, foram “descobertos”.
Realizado o levantamento de campo, passamos para a etapa de análise do
banco de dados construído. Os dois capítulos seguintes deste texto têm a função
de tratar de algumas polêmicas, não com o objetivo de encerrá-las, mas sim de
alimentá-las, de contribuir para a construção de um conhecimento maior em torno
destes homens e mulheres que habitaram o planalto.
4Schmitz e La Salvia foram auxiliados nestes mapeamentos por Rainer Bührmann, Elton Krause, Enio Modena
e Régis Berti.
5Fui auxiliado no levantamento de campo por Jacson Maurílio Corteletti, Leandro Arthur Anton, Marlon
Borges Pestana, André Osorio Rosa, Jairo Henrique Rogge e Nilo Corteletti.
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
No capítulo “A Colonização e a Conservação dos Sítios”, após um relato
histórico da região em questão analisaremos as condições gerais em que os sítios
foram encontrados após os 40 anos de seu registro. Tentaremos tecer relações entre
as situações históricas que os mantiveram preservados ou, na pior das hipóteses os
destruíram. Pensando nisso observaram-se os traços econômicos e culturais
implantados na região pelos colonizadores que aportam ali a partir do século XVII.
Observa-se, portanto, a distinção entre a ocupação de origem lusitana e a de origem
italiana e os resultados delas no que tange às alterações na paisagem e à preservação
dos sítios arqueológicos. Essas interpretações e constatações passaram pela criação
de um quadro analítico com diferentes tipos de danos gerados aos sítios, que tem
como finalidade, estipular o grau de preservação dos assentamentos. É dos resultados
destas elucubrações que devem surgir, quem sabe, políticas mais eficazes de
preservação do patrimônio.
No capítulo “Onde, Como e Quando?”, poderemos verificar as características
de distribuição e implantação dos sítios arqueológicos em questão na paisagem que
os cerca. A partir da análise das características dos assentamentos e dos tipos de
inserção dos sítios na paisagem de uma pequena região, julga-se possível criar condições
para um entendimento maior do estilo de vida destas populações. Analisamos variáveis
como a altitude, a área dos sítios, as fontes de água utilizadas e as distâncias médias
a que os assentamentos estavam destas fontes, o tipo de relevo em que eles estão
postados, a quantidade de estruturas subterrâneas por sítio e as dimensões que estas
estruturas têm, tanto no diâmetro como na profundidade e a cronologia dos
assentamentos. Nesse capítulo busca-se a confrontação dos dados criados para a
Zona de Estudos com outros produzidos por compilações de dados para a Região
Sul do Brasil, como também por pesquisas específicas como as de Miller (1971),
Mentz-Ribeiro & Ribeiro (1985), Kern, Souza & Seffner (1989) no vale do Rio
Pelotas ou as do IAP, nos Projetos Vacaria e São Marcos.
A nomenclatura para os vestígios encontrados nos sítios arqueológicos das
terras altas sul brasileiras sempre foi muito debatida. Desde que os primeiros
sítios começaram a ser mapeados e registrados foi buscada pelos pesquisadores
uma forma clara de traduzir o que era encontrado em campo. Os termos “buraco
de bugre” ou “toca de bugre”, utilizado popularmente, a principio não agradou os
cientistas, que criaram nomenclaturas próprias que expressavam a sua visão em
torno de tais vestígios.
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Introdução
A idéia de que estes buracos encontrados em meio aos pinheirais ou mais
raramente em campo aberto eram moradias foi logo aceita pela comunidade
científica e, a partir daí convencionou-se usar o termo “casa”. Pelo fato de estas
moradias estarem abaixo do nível da superfície passou-se a usar os conceitos de
“subterrânea” para as mais profundas e de “semi-subterrânea” para as mais rasas.
Dessa composição surgiram então as expressões “casas subterrâneas” e “casas semi-
subterrâneas” ou ainda “habitação subterrânea” e “habitação semi-subterrânea”.
O debate, tal como as pesquisas, prosseguiu. Anos mais tarde ficou claro de
que nem todas estas depressões cavadas pelas populações Jê no planalto têm a
função de moradia. Depressões com diâmetro menor que dois metros, por exemplo,
não poderiam ter a função, propriamente dita, de casa. Então os pesquisadores
passaram a utilizar a expressão “estrutura”, para designar toda e qualquer depressão,
ou buraco, que fosse encontrado e definisse um sítio arqueológico deste tipo. O
diálogo em torno da questão de serem elas “subterrâneas” ou “semi-subterrâneas
ainda continua.
Cenário hipotético de casas subterrâneas. Desenho de Piter Fontana
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
O fato é que a discussão em torno do nome como tal vestígio é tratado parece
ser menos importante perante a situação de perigo em que eles se encontram
devido ao crescimento urbano e aos empreendimentos agrícolas e de infra-estrutura.
A pesquisa arqueológica conseguiu atrelar este tipo de solução arquitetônica
as necessidades que os “engenheiros da terra” tinham. É sabido que a população Jê
também habitava os vales de rios próximos aos pinheirais e as áreas litorâneas, pelo
menos nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nestas regiões,
mais baixas e mais quentes, a ocorrência destas estruturas arquitetônicas é rara.
Imaginada como moradia pelos pesquisadores, tal estrutura passou a ser encarada
como uma adaptação aos rigores climáticos da região planáltica.
Fernando La Salvia foi um dos arqueólogos que mais se preocupou em defender
estas teses. Desde a necessidade de percebermos se eram “subterrâneas” ou “semi-
subterrâneas”, passando pela questão da adaptabilidade ao meio e chegando as
questões propriamente ditas arquitetônicas. Dentre as perguntas ligadas ao sistema
construtivo, que La Salvia tentou responder, mas que passados 20 anos da publicação
de suas idéias, ainda não foram completamente respondidas, estavam a compreensão
de como se dava a ventilação, de como era construído o telhado, ou de como se
dava o acesso à parte interior da construção. Questões como, por exemplo, os
aterros que circundavam a estrutura, ou os montículos a elas associadas, em parte
já tiveram um esclarecimento e tentaremos expor as novas tendências de pensamento
ao longo deste texto.
Perguntas que seguem em aberto sobre a estrutura em si ficam em torno das
funções que elas poderiam ter. Funções estas que vão muito além da moradia. A
partir da realização de mais escavações, poderíamos definir relações precisas entre
forma, profundidade, diâmetro e vestígios encontrados para, quem sabe, inferir
diferentes tipos de funções para os diferentes tipos de estruturas encontradas nestes
sítios arqueológicos. Mas é certo que a teorização de apenas um padrão construtivo
que tente explicar todo o planalto sul brasileiro, num espaço de tempo que vai
aproximadamente do século II ao século XVIII é praticamente inviável, visto que
a mobilidade destas populações e os contatos provenientes dela podem ter alterado
tanto no espaço como no tempo alguns dos significados que determinadas práticas
arquitetônicas tinham.
No presente texto não nos preocupamos com os buracos em si. Se são casas,
ou silos, ou grandes fogões. Preocupamo-nos com a preservação dos sítios
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Introdução
arqueológicos. Com a preservação destes traços históricos. Sejam eles “buracos de
bugres”, “casas subterrâneas” ou “estruturas subterrâneas” temos de ter em mente
que são, antes de qualquer coisa, patrimônio cultural. E sendo assim devemos
primar pela sua preservação.
Bem, seja bem vindo a esta jornada. Leia, absorva, reflita, divulgue. Esteja à
vontade para tomar vinho ou chimarrão, comer pinhão ou fumar palheiros. O que
menos desejo é este inventário distante das pessoas. Pessoas que podem deixar de
ser os agentes da depredação e passar a ser os agentes da preservação do patrimônio
arqueológico. Pessoas que podem ampliar ainda mais o número de sítios
arqueológicos identificados e dessa forma auxiliar na construção e consolidação
das teorias sobre o povoamento pré-colonial do Planalto Sul Brasileiro. São os
desafios.
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Incursões pela arqueologia do planalto
Agora precisamos nos concentrar em estruturar a investigação. Primeiro
definiremos a área a ser pesquisada. Ela será chamada de Zona de Estudos. E tudo
o que vier será escrito a partir dos dados colhidos nas atividades de campo realizadas
nos anos de 1999, 2000 e 2006. Depois descreveremos as características
arqueológicas e ambientais da Zona de Estudos, criando dessa forma o novo catálogo
de registro dos sítios, que há mais de quarenta anos fazem parte da história da
arqueologia brasileira.
1. A Zona de Estudos
O estabelecimento da Zona de Estudos partiu da análise de critérios
arqueológicos, geográficos, humanos e, inclusive, logísticos. Foi selecionada uma
área-piloto em que havia um mínimo de conhecimento arqueológico, tal como
quantidade razoável de sítios prospectados e/ou escavados; escavações com dados
estratigráficos e cronológicos; e sítios em que as coleções cerâmicas e líticas já
tenham sido analisadas quantitativa e tipologicamente. Também se levou em
consideração a necessidade de que tal zona concentrasse uma variedade de paisagens
naturais que permitisse estudar diversos cenários simultaneamente e que, dentro
do possível, conservasse esta paisagem com o menor número de impactos possível.
A Zona de Estudos, com aproximadamente 840km2, situa-se na porção
nordeste do Rio Grande do Sul, entre os Rios Caí e das Antas, abrangendo 765km2
do município de Caxias do Sul, 3km2 do município de Flores da Cunha e 72 km2
do município de São Francisco de Paula (Mapa 01). Essa região corresponde à
unidade geomorfológica do Planalto e Chapadas da Bacia do Paraná6. Nela aparecem
espessas seqüências de rochas vulcânicas associadas a depósitos sedimentares,
6Ross (1996:53)
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
conhecida por Formação Serra Geral. As áreas mais conservadas da Serra Geral
correspondem aos topos regionais nominados regionalmente como Campos de
Cima da Serra. Eles pertencem a restos de superfícies de aplanamento em que
geralmente ocorrem rochas efusivas ácidas, como o riolito. Nos Campos de Cima
da Serra o modelado de colinas com pequena amplitude altimétrica e vertentes
longas, que acompanha os eixos da drenagem, cria uma paisagem de suave a forte
ondulação associada a calhas fluviais pouco aprofundadas, onde ocorrem também
rochas efusivas básicas, como o basalto. É comum a ocorrência de dales, que
constituem pequenas depressões rasas de formas variadas, que retém água durante
longos períodos e funcionam, muitas vezes, como nascentes de rios ou banhados.
Por outro lado, nas regiões de menores altitudes, conhecidas como Patamares da
Serra Geral ou Encosta Superior do Nordeste, o desgaste é maior, sendo muito
importante observar a variação da altimetria em função do aprofundamento da
drenagem dos rios principais. Alguns rios apresentam seus vales encaixados em
vários trechos com desníveis entre as partes interfluviais e o fundo do vale acentuados
em função da potência e do gradiente do rio. No Rio Piaí em Caxias do Sul, por
exemplo, esse desnível ultrapassa 400m. Esse tipo de rede hidrográfica tem curso
sinuoso, evidenciado pela retilinização de segmentos dos rios, pelas inflexões bruscas
e pela ocorrência generalizada de lajedos, corredeiras, saltos, quedas e ilhas.7
A variação fitogeográfica na Zona de Estudos revela distinção de três ambientes,
em decorrência de fatores geomorfológicos, tais como qualidade do solo e inclinação
de vertentes; e climáticos como a variação das médias térmicas em função da altitude,
já que as médias pluviométricas são praticamente as mesmas, tanto para as áreas
de fundo de vale como para as do topo do planalto. São, portanto, dois ambientes
florestais – Mata de Araucária e Floresta Subtropical da Encosta – e um não-
florestal – os Campos de Cima da Serra.
7Compilação de informações obtidas em Geografia do Brasil, (1990: 57, 65, 66, 71, 72)
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Incursões pela arqueologia do planalto
A Mata de Araucária (Flo-
resta Ombrófila Higrófita Mis-
ta), que compreende os bosques
de araucária (Araucaria angus-
tifolia) nos vales superiores e nas
cabeceiras dos rios aparecendo
em densas sociedades ou como
grupos isolados nos capões dis-
seminados por todo o planalto
está adaptada aos rigores do
clima Cfb, como médias tér-
micas anuais inferiores a 15ºC,
ocorrências de geada e neve
além de médias pluviométricas
anuais superiores a 1700mm
para toda a região. A Floresta
Subtropical da Encosta (Flo-
resta Estacional Higroxerófita
Decidual), que ocupa a borda
Sul do Planalto da Bacia do Pa-
raná, povoando com espécies
latifoliadas e caducifólias os vales encaixados dos rios Caí e Antas, entre outros,
num prolongamento empobrecido da Floresta Tropical (Floresta Estacional
Semidecidual da Bacia do Paraná), adapta-se a temperaturas mais amenas com
médias térmicas maiores que 20ºC. Os Campos de Cima da Serra (Savana Estacional
Xeromorfa), com vegetação gramíneo-lenhosa, ocupa terrenos secos, úmidos e
pedregosos das porções mais elevadas do planalto onde é registrado um longo
período frio durante o ano associada a alta pluviosidade, e em que são mapeados
muitos capões e bosques, com a presença da Araucaria angustifolia, denotando um
lento processo de invasão das florestas nas áreas de campo8. A alta umidade relativa
(superior a 80%), mesmo nos meses de inverno explica a queda de neve.
Foto 01: Visão do vale do Rio das Antas tomado pela
névoa, na Criúva. Foto: Rafael Corteletti
Foto 02: Visão dos Campos de Cima da Serra, entre o
Apanhador e Vila Oliva. Foto: Jacson M. Corteletti
8Compilação de dados obtidos em Inventário Florestal Nacional, (1983: 65, 69, 71) e Geografia do Brasil,
(1990: 116, 122, 123, 128, 136)
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1919
20
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Nesse ambiente em que muitas das espécies da flora são oriundas da região
atlântica, percebemos a ocorrência de variedade de animais provenientes de áreas
circundantes, principalmente os grandes predadores alados ou terrestres9, e muitos
que poderiam fazer parte da dieta das populações humanas que ali circulavam
como o bugio e o papagaio, entre outros.
A partir dos dados obtidos optou-se por subdividir a Zona de Estudos em
quatro microrregiões – Ana Rech, Santa Lúcia, Vila Seca e Criúva. A definição das
microrregiões partiu de critérios arqueológicos como distribuição, concentração e
proximidade dos sítios, e ecológicos, como a distinção entre os ambientes de campo
ou mata ou ainda o ambiente urbanizado. Nas tabelas que seguem, de apresentação
das microrregiões, o símbolo (*) representa sítios que foram visitados e catalogados
em diferentes épocas, pelos arqueólogos Pedro Ignácio Schmitz e Fernando La
Salvia, e mais recentemente pela equipe do IAP, no caso especifico de RS 79/A49.
A coluna reservada para “Estruturas Identificadas” revela o número de estruturas
encontradas preservadas na última inspeção. O símbolo (®) indica o proprietário
da área do sítio arqueológico na época do registro. Alguns dos sítios com este
símbolo não puderam, por um motivo ou outro, ser visitados pelo pesquisador, o
que trouxe a conseqüência de não poder ser realizada, portanto, a atualização destes
dados. A alteração de proprietário nos demais sítios pode ter ocorrido através da
venda simples ou da divisão por herança das glebas de terra.
São elas (veja os Mapas 02 e 03):
9Rizzini, C. T.; Coimbra Filho, A. F. Houaiss, A., (1988: 78, 79)
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1920
21
Incursões pela arqueologia do planalto
Microrregião Ana Rech: com 22 sítios, agregando espaços rurais e urbanos
onde a interferência antrópica é bastante acentuada;
Tabela 01: Situação e Proprietários dos Sítios da Microrregião Ana Rech
Microrregião Santa Lúcia: com 09 sítios, na transição entre os campos e as
matas dos vales do Rio Caí e seus tributários, trazendo consigo uma enorme bagagem
de pesquisas e publicações em função dos trabalhos realizados em Água Azul;
Tabela 02: Situação e Proprietários dos Sítios da Microrregião Santa Lúcia
MICRORREGIÃO SANTA LÚCIA
Local Sítio Proprietário atual Estruturas
catalogadas
Estruturas
identificadas
RS 34/125* Aldo Francisco Andreazza 03 Nenhuma
RS 38/126* Ambrósio Andreazza e Tarcísio Vergani 03 03
Água Azul RS 37/127* Alcides Vergani,Vitor Cálgaro e Tarcísio
Vergani
36 40
RS 39 Alfredo Rossi Gruta com Sepultamento
RS 128 Ari Andreazza 06 02
RS 130 Geraldo Scopel 14 15
Santo Antônio RS 36 Santo Pfeifer Sítio Superficial
Vila Oliva RS 32/123* Jaime Pereira
®
06 ?
RS 35 Dolvino Buffon
®
Sítio Superficial
MICRORREGIÃO ANA RECH
Local Sítio Proprietário atual Estruturas
catalogadas
Estruturas
identificadas
RS 66/104* Sabino V icenzi 02 Nenhuma
RS 103 Silvestre Andreollo, Servicarga Ltda. 01 Nenhuma
RS 133 Marcopolo S.A. 01 Nenhuma
Ana Rech RS 64/101/102* Colégio Murialdo e
Angelin Rech
®
08 05
Anete Anete Brugger Nenhuma 14
RS 108 Lôlo
®
02 Não localizado
RS 70 Nadir Camassola/ Alceu Camassola 03 03
RS 65/132* Alcides Sachet e Francisco Andreollo 09 04
Santa Bárbara RS 121 Espedito Cosme 01 01
RS 105 Miguel Pezzoli
®
01 Não localizado
São Ciro RS 106 Oswaldo Vicenzi
®
e Casa das Irmãs Discípulas
do Divino Mestre
05 Nenhuma
Das Flechas Vila Telli Nenhuma 02
RS 67 Genésio Molin Gruta com Sepultamento
São Gotardo RS 69/119* José Brugger 08 Nenhuma
RS 68/120* Nestor Giacometti 03 Nenhuma
Travessão
Cremona
RS 122 Antônio Fioravante Argenta
®
Sítio Superficial
São RS 71/116* Reinaldo Novello 03 Nenhuma
Valentin RS 72/115* Claudino Dall'Alba 01 01
Fazenda RS 131 Guilherme Andreolla
®
Sítio Superficial
Souza RS 134 Verino Andreolo
®
Sítio Superficial
Cruzeiro RS 107 Nair Eberle
®
07 Nenhuma
Morro Cristal RS 129 Alcides Braghini
®
Sepultamento Tupiguarani
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1921
22
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Microrregião Vila Seca: com 07 sítios, situada na região de campo com capões
de Araucária, no divisor entre tributários do Rio das Antas e do Caí;
Tabela 03: Situação e Proprietários dos Sítios da Microrregião Vila Seca
Microrregião Criúva: com 10 sítios, colocada na transição dos Campos de
Cima e dos vales encaixados do Rio das Antas e seus afluentes.
Tabela 04: Situação e Proprietários dos Sítios da Microrregião Criúva
Na Zona de Estudos estão catalogados, portanto, 48 sítios arqueológicos,
sendo 45 da Tradição Taquara, 02 da Tradição Tupiguarani e 01 da Tradição Umbu
e Taquara. Deste total, 44 foram catalogados, no ano de 1966, pelos arqueólogos
Pedro Ignácio Schmitz e Fernando La Salvia e suas equipes e 04 deles nas prospecções
de 2006. Dos 45 sítios da Tradição Taquara, 37 apresentam “casas subterrâneas”,
5 são grutas com sepultamento e 3 são sítios superficiais. Nos 37 sítios Taquara
com “casas subterrâneas” foram registradas 190 destas estruturas. É importante
ressaltar que 35 delas foram identificadas pela primeira vez no ano de 2006, nos
sítios já registrados ou nos “novos” e de que atualmente 136 encontram-se
preservadas e 54 foram destruídas. (Gráfico 01)
MICRORREGIÃO VILA SECA
Local Sítio Proprietário atual Estruturas
catalogadas
Estruturas
identificadas
RS 33 Carlos Lahm 02 02
Apanhador RS 62 Cemitério do Apanhador 01 01
RS 63 Lívia Santini 02 04
Da Rosa Onei Manoel da Rosa Nenhuma 01
RS 40 Vera Janete de Oliveira Dias 02 ?
Vila Seca RS 41 Dr. Karan
®
Gruta com Sepultamento
Scain Alcides Scain Nenhuma 02
MICRORREGIÃO CRIÚVA
Local Sítio Proprietário atual Estruturas
catalogadas
Estruturas
identificadas
RS 73/117* Adenor Brito Ramos 02 Nenhuma
São Jorge da
Mulada
RS 74 Casa de Férias dos Irmãos Lassalistas Colégio do
Carmo
03 03
RS 75 José Corso 01 01
RS 76 Jaime Berteli, Luis Poletto 06 06
Boqueirão RS 77 Adão Machado e Artur Balardin 03 04
RS 78 Adão Reginini Fidélis Gomes 09 12
RS 79/A49* Adão Reginini Fidélis Gomes Gruta com Sepultamento
RS 80 Serafim Quissini 01 01
Palanquinho RS 124 Nery Vacchi Gruta com Sepultamento
Fundo Quente RS 118 José do Gastão Sítio Superficial
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23
Incursões pela arqueologia do planalto
29 S
O
51 W
O
RST 453
RST 453
RS 437
BR 470
RS 122
BR 116
RS 240
BR 290
BR 116
BR 290
BR 287
BR 386
BR 116
BR 101
RS 020
Flores da
Cunha
Caxias
do Sul São Francisco
de Paula
OCEANO
ATLÂNTICO
LAGO
GUAÍBA
LAGUNA DOS PAT O S
012km
N
Zona de Estudos
Mancha Urbana
Limite Municipal
Rodovia Principal
Digitalizado por R. Corteletti
Gráfico 01: Relação entre preservação e destruição das Estruturas Subterrâneas
Mapa 01: Localização da Zona de Estudos. Fonte: Adaptado de Magnoli, e outros (2001:61).
América do Sul
Brasil
Rio Grande
do Sul
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1923
24
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
N
29 S
O
51 W
O
Vacaria
Caxias
do Sul
Flores da Cunha
São Marcos
Antônio Prado
Monte Alegre
dos Campos
Rio
Caí
A. Pinhal
Rio Piaí
A. Nicolao
A. Mamangava
A. Cervo
A. Cavalhada
A. Da Mulada
Rio
Lajeado
Grande
A. Pereira
A. Ranchinho
Rio
São
Marcos
A. Das Marrecas
Faxinal
A.
A. Tegas
A. Maestra
A. Da Linha 80
Rio
Das
Antas
Rio
Quebra
Dentes
Rio
Refugiado
LEGENDA
Drenagens
Zonas Urbanas
Sítios do Projeto São Marcos
Sítios da Zona de Estudos
Sítios do Projeto Vacaria
018km
Organizado por R. Corteletti
35
32/123
36
130
128
37/127
38/126
39
34/125
129
107
Das Flechas
106
122
131
134
72/115
71/116
66/104
103 - 133
Anete
65/132
69/119
68/120
64/101/102
70
121
67
41
40
Scain
Da Rosa
63
62
33
77
80
78
79/A-49
76
75
74
73/117
124
118
Mapa 02: A distribuição dos sítios na Zona de Estudos. Também estão indicados os sítios
pesquisados nos Projetos Vacaria e São Marcos.
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1924
25
Incursões pela arqueologia do planalto
29 S
O
51 W
O
Faxinal
A.
A. Das Marrecas
Rio
São
Marcos
A. Ranchinho
A. Pereira
A. Da Mulada
Rio
Lajeado
Grande
A. Da Linha 80
A. Maestra
A. Tegas
Rio
das
Antas
A. Pinhal
Rio
Rio Piaí
A. Nicolao
A. Mamangava
A. Cervo
Caí
A. Cavalhada
N
Organizado por R. Corteletti
018km
LEGENDA
Zonas Urbanas
Localidades
Drenagens
Microrregião Criúva
Microrregião Vila Seca
Microrregião Santa Lúcia
Microrregião Ana Rech
Santa Lúcia
Vila Oliva
Fazenda Souza
Ana Rech
Apanhador
Caxias do Sul
Flores da Cunha
São Marcos
Criúva
São Jorge
Vila Seca
Mapa 03: Localização das Microrregiões na Zona de Estudos
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1925
26
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
2. Descrição e Atualização dos Dados Arqueológicos
Nesta seção observaremos cada uma das microrregiões, relatando as
peculiaridades gerais da área e de cada um dos sítios que a compõem. Por enquanto
nos deteremos em apresentar os dados obtidos no momento do registro original
dos sítios e os dados colhidos nas inspeções desta jornada de pesquisas. A comparação
entre os dados recolhidos, e as constatações sobre a conservação em que os sítios
foram encontrados serão abordados nos próximos capítulos.
2.1. Microrregião Ana Rech
A Microrregião Ana Rech é composta por 22 sítios arqueológicos. Ela abrange
desde o setor Sudeste da zona urbana de Caxias do Sul no Morro Cristal, passando
pelo setor Leste no Bairro Cruzeiro e Bairro São Ciro, chegando ao setor Nordeste
em Ana Rech e arredores e até o quadrante Sudeste do Município de Flores da
Cunha, na capela de São Valentin. Dois dos vinte e dois sítios foram mapeados
pela primeira vez. Os sítios desta área têm em comum a distribuição por terrenos
de inúmeros pequenos vales, que tem suas águas desembocando tanto na calha de
afluentes do Rio Caí como na de afluentes do Rio das Antas. As altitudes variam
de 688m a 890m acima do nível do mar, sendo que a maior parte dos sítios (50
%) encontra-se entre as altitudes de 800m e 850m. Toda a região apresenta intensa
ocupação humana, seja primeiramente pela origem agrícola das potencialidades
econômicas locais, seja atualmente pela expansão do tecido urbano de Caxias do
Sul e das atividades da indústria e comércio concomitantemente. Em função dessa
intensa ocupação, a Microrregião Ana Rech projeta-se como aquela em que os
sítios têm sua preservação mais ameaçada. É fato que 18 dos 22 sítios ali mapeados
apresentam algum tipo de dano percebido, sendo que 14 deles já não existem
mais. Das 55 estruturas subterrâneas inicialmente mapeadas por Schmitz ou La
Salvia restam apenas catorze. O alento é que o sítio Anete foi catalogado com 14
novas estruturas, fazendo com que a região hoje apresente 30 estruturas preservadas
em 06 sítios, além de uma gruta com sepultamento, três sítios superficiais (um da
Tradição Taquara, um da Tradição Tupiguarani e um da Tradição Umbu e Taquara)
e um sítio sepultamento da Tradição Tupiguarani.
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27
Incursões pela arqueologia do planalto
Tabela 05: Localização dos Sítios da Microrregião Ana Rech
Figura 01: Imagem de Satélite da
Microrregião Ana Rech.
Fonte: Adaptado de INPE - CBERS, cena completa de
02/09/2007.
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1927
28
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
ANA RECH
RIO
SÃO
MARCOS
Arroio
Faxinal
BR116
RST 453
51 7’ W
o
29 3’ S
o
600
700
800
800
800
700
700
800
800
700
800
800
800
700
600
800
800
700
700
600
600
600
500
700
800
700
600
800
700
900
900
900
900
105
106
133
66/104 103
70
65/132
Anete
64/101/102
121
122
68/120
69/119
71/116
72/115
Das Flechas
LEGENDA
N
02km
Capões de Mata
Drenagens
Rodovias
Sítios Arqueológicos
Mancha Urbana
Altimetria
Isoípsas com eqüidistância de 100m
Mapa 04: Sítios próximos da vila de Ana Rech. Fonte: Modificado da Folha SH 22-V-D III-2 – MI-2953/2.
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1928
29
Incursões pela arqueologia do planalto
2.1.1. Ana Rech
Os Sítios RS 66/104 CXS, RS 103 CXS e RS 133 CXS
Andando pela Avenida Rio Branco, em direção a Ana Rech, logo após sair da
BR 116, chegamos ao complexo industrial da Marcopolo S.A. É próximo aos
fundos desta fábrica que encontramos o local que abrigava um aglomerado de três
sítios. Em 08/02/1966, Schmitz identificou um dos sítios, o chamando de RS 66
CXS. Meses depois, em 01/05/1966, La Salvia inspecionou a mesma zona
identificando dois sítios e os registrando como RS 103 CXS e 104 CXS e, em 15/
08/1966, outro sítio então nomeado RS 133 CXS.
A inspeção agora realizada concluiu que os sítios RS 66 CXS e RS 104 CXS
eram o mesmo e então passamos a considerá-lo como RS 66/104 CXS. Os dados
das duas primeiras inspeções não conferem de todo, já que Schmitz afirma haver
duas estruturas, uma com 5m de diâmetro e 2,5m de profundidade e outra, não
medida, em processo de entulhamento. La Salvia por sua vez, também visualiza
duas estruturas, uma delas totalmente entulhada e outra com as dimensões de
3,8m de diâmetro e 1,75m de profundidade. O antigo proprietário, Júlio Vicenzi,
é falecido. Seu filho, Sabino Vicenzi, é o atual proprietário. Das duas estruturas
anteriormente mapeadas, Sabino só conhecia uma que já não existe mais. A área é
usada como horta familiar.
La Salvia informa ainda que “está a uns 500m de RS 103 para oeste10,
quando na verdade está a aproximadamente 75m. Para RS 103 CXS, é descrita
uma estrutura subterrânea de aproximadamente 11,50m de diâmetro na superfície,
9,15m na base e 4,9m de profundidade. Em sua porção Sudoeste havia uma
cavidade na parede com 1,40m de profundidade, com altura variando de 1,10m
na boca até 0,80m no fundo e largura não informada. Não foram feitas mais
considerações significativas “devido a capoeira”, sinal de que o entorno ambiental
já poderia, naquela época, estar alterado.11 O antigo proprietário, Silvestre
Andreollo, é falecido. Atualmente o terreno é propriedade de Servicarga Transportes
S.A.
10 Ficha de Registro dos Sítios Arqueológicos do Rio Grande do Sul (FRSA) – RS 104 CXS.
11 FRSA – RS 103 CXS
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1929
30
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Na visita de 05/02/1999 foi constatado que o sítio havia sido destruído dois
dias antes. Segundo informações do gerente da Servicarga Transportes S.A., atual
proprietária da área, o local estava sendo terraplanado para a construção de
estacionamento. Toda a região encontra-se em processo de urbanização. Resta ainda
uma pequena área daquilo que pode ser considerado mata nativa.
Em 15/08/1966, La Salvia retornou ao local e registrou uma grande estrutura
subterrânea – com 6,50m de diâmetro e 2,70 de profundidade – em meio a um
parreiral, distante uns 800m da Avenida Rio Branco e bem próximo da casa de
João Dalla Santa12. Segundo Sabino Vicenzi, a propriedade de Dalla Santa era
vizinha à sua e estava localizada onde hoje funciona a Marcopolo S.A. O parreiral
chegava próximo à divisa das propriedades. A construção dos prédios para a
instalação da fábrica levou à alteração de toda a paisagem da área e, por conseqüência,
à destruição da estrutura. Mesmo que os três sítios estejam destruídos, nos foi
informada pelos moradores a localização aproximada das estruturas.
Pela proximidade dos sítios RS 66/104 CXS, RS 103 CXS e RS 133 CXS
pode ser assinalada a possibilidade de eles serem parte de apenas um assentamento,
sendo encarados não mais como três sítios, mas mais coerentemente como um só
(Mapa 05).
Mapa 05: Acesso a Ana Rech, com a localização dos Sítios RS 66/104 CXS, RS 103 CXS e RS 133 CXS.
12 FRSA – RS 133 CXS
BR 116
Av
Rio
Branco
BR 116
133
66/104 103
N
300m
Digitalizado por Rafael Corteletti
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31
Incursões pela arqueologia do planalto
O Sítio RS 64/101/102 CXS
As inspeções realizadas por Schmitz, em 08/02/1966, e La Salvia em 21/04/
1966, relatam as mesmas estruturas subterrâneas para RS 64 CXS e RS 101 CXS,
no terreno do Colégio Murialdo, na vila de Ana Rech. O sítio fica a uns 500m da
entrada do colégio, atrás de antigos aviários, que por sinal não existiam quando do
registro do sítio. As três estruturas de RS 64 CXS provavelmente correspondem às
de números 2, 3 e 4 do sítio RS 101 CXS, mesmo que suas dimensões e entorno
não coincidam. La Salvia contabilizou oito, num raio inferior a 150m, sendo que
seis estruturas foram identificadas e duas tiveram localização aproximada.13
Atualmente encontram-se preservadas cinco estruturas (de 1 a 5). A paisagem
do sítio ainda é muito semelhante à descrita pelos dois pesquisadores, tanto que a
identificação das estruturas foi feita a partir do croqui de La Salvia (Figura 02).
13 FRSA – RS 64 CXS e RS 101 CXS
Figura 02: Croqui de La Salvia para RS 101 CXS. Fonte: FRSA RS 101 CXS.
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32
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
As estruturas 1 e 2 encontram-se fora de capão. São pequenas e rasas. A
estrutura 3 forma, por sua concavidade, um pequeno capão não muito maior que
o seu diâmetro. As estruturas 4 e 5 encontram-se dentro de um grande capão. A
número quatro, cortada por cano de uma adutora de água contém em seu interior
muito lixo. A número cinco mais limpa, como todas as outras está muito bem
conservada. O presente local é utilizado para a criação de gado. Todas as estruturas
localizadas na área de cultivos do colégio acabaram por desaparecer (as de números
6, 7 e 8). O sítio RS 102 CXS, mapeado por La Salvia, localizava-se 500m a SE de
RS 101 CXS. Mesmo parecendo, “não foi considerada como uma evidência positiva
de casa subterrânea”14. A estrutura não foi localizada por falta de dados. Em função
da proximidade o sítio foi considerado parte deste conjunto.
Foto 03: Estrutura Número 4, cortada pela adutora d’água e sendo entulhada
com lixo em RS 64/101/102 CXS. Foto de Rafael Corteletti.
14 FRSA – RS 102 CXS
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33
Incursões pela arqueologia do planalto
O Sítio Anete
A localização do sítio foi informada por Jacson Maurílio Corteletti. Segundo
ele, “passando a entrada lateral do Colégio Murialdo, entre no primeiro acesso a
esquerda (SE) e ande pelo estreito caminho de chão batido, por aproximadamente
1,5km, até o fim dele”. O caminho leva à casa da fazenda de Anete Brugger,
proprietária da área do sítio. A primeira inspeção foi realizada em 18 de Julho de
2005. Neste dia foi constatada a existência de quatro estruturas de piso rebaixado.
Nenhum material foi coletado. Nova visita foi realizada em 06 de Janeiro de 2006,
sendo desta vez mapeadas 11 estruturas, sendo duas delas montículos. Em 10 de
Fevereiro de 2006, noutra inspeção ao sítio foram realizadas as medições das
estruturas. Nesta visita surgiu a dúvida em relação à existência de pelo menos mais
cinco montículos, além de outras depressões de pequeno diâmetro e profundidade
na mesma colina mais ao Sul.
Foto 04: Estrutura de número 3, no Sítio Anete. Foto de Leandro A. Anton.
Noutra inspeção, em Maio de 2006, foi constatada a existência de mais sete
estruturas (não dimensionadas) cerca de 200m ao Norte deste aglomerado, num
capão de propriedade do Senhor Rota. O “Conjunto Rota” e as estruturas do Sítio
Anete devem ser compreendidos como um só sítio.
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1933
34
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
O Sítio RS 108 CXS
Este sítio, inspecionado por La Salvia em 22/05/1966, na “Zona Nova para
Veraneio”, encontrava-se já naquela época, em processo de destruição. O pesqui-
sador nos informa que nele havia “duas casas, sendo uma destruída pois serviu
para poço negro e outra em vias de destruição”15 e que qualquer atitude em relação
ao sítio seria ineficiente. A região de Ana Rech foi loteada por Lôlo. Encontrar tais
estruturas foi até o momento impossível, já que o referido senhor faleceu e as
informações contidas na ficha são insuficientes.
O Sítio RS 70 CXS
Saindo de Ana Rech em direção a Santa Bárbara via Horto Municipal aparece
outro sítio. No final de acentuado declive (que inicia logo após o horto) há uma
curva para a direita. Nesta curva, à esquerda da estrada, está a propriedade dos
Camassola. A primeira casa é de Alceu, filho de Nadir Camassola, que tem sua
casa uns 60m mais atrás. Em 09/02/1966, Schmitz registrou “no flanco de elevação,
logo acima do parreiral” três estruturas16. Segundo os proprietários eram encon-
trados próximo das estruturas muitos cacos de cerâmica, que há tempos já não o
são mais. Na visita de 1999, constatamos que as estruturas estão no interior de
um mato a meio caminho do topo de colina, na ladeira Norte. Duas delas
encontram-se bem conservadas – com 9,25m de diâmetro e 2,00m de profundidade
a maior, e 4,30m de diâmetro e 0,90m de profundidade a menor – e a terceira
pouco visível – com 1,80m de diâmetro e menos de 0,20m de profundidade.
Uma nascente perene d’água fica a aproximadamente 100m do local das estruturas.
A água é usada pela família há longos anos.
O Sítio RS 65/132 CXS
Indo de Ana Rech em direção a Fazenda Souza, na estrada que passa ao lado
do Bela Vista Parque Hotel, ande 2,4 km até encontrar um cruzamento. Nele
15 FRSA – RS 108 CXS
16 FRSA – RS 70 CXS
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35
Incursões pela arqueologia do planalto
dobre à direita (Sul), ande mais 800m, quando na margem direita da estrada
aparecerá a propriedade Alcides Sachet. O local do sítio fica no interior desta
propriedade, subindo por 800m numa íngreme ladeira.
O sítio foi visitado em 08/02/1966 por Schmitz e em 14/08/1966 por La
Salvia. Daí os dois números de catálogo. Schmitz assinala, sem medir, oito estruturas
localizadas numa “pequena plataforma, a meia altura do morro17, alertando para
a provável destruição devido aos contínuos cultivos. No mesmo patamar, “que está
num dos pontos mais elevados desta região”18, La Salvia mapeou nove estruturas,
bastante entulhadas por resíduos da plantação de trigo. A diferença se dá pelo fato
de La Salvia interpretar uma das estruturas como geminada, enquanto Schmitz a
vê com uma só.
Figura 03: Croqui de La Salvia para RS 65/132 CXS. Fonte: Modificado de FRSA RS 132 CXS.
17 FRSA – RS 65 CXS
18 FRSA – RS 132 CXS
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36
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Figura 04: Gravura mostrando a implantação do Sítio RS 65/132 praticamente no topo da colina e o
seu campo de observação do Norte a Leste. Desenho de Piter Fontana
Nos registros de 1966, por se tratar de uma área de divisa de propriedades,
os donos foram invertidos. Em Janeiro de 2000 foi verificado que a propriedade
de Andreollo fica a Oeste contendo as quatro estruturas (6, 7, 8 e 9) preservadas
dentro de um capão de mato muito fechado. O proprietário atual do terreno Leste
não é mais Faustino Dall’Piaz, mas sim Alcides Sachet que com o cultivo de feijão,
pêssego e pêra acabou, há vários anos, por destruir completamente as cinco
estruturas (1, 2, 3, 4 e 5) existentes em sua propriedade. (Figura 03)
O assentamento está localizado na ladeira norte da colina com ampla visão
do lago da barragem do Faxinal, e da zona em que estavam os Sítios RS 68/120
CXS e 69/119 CXS (Figura 04). La Salvia assinalou a existência de grande
quantidade de palmitos, que podem ter sido confundidos com gerivás (Syagrus
rommanzofiana), atualmente registrados. Neste sítio junto às estruturas existentes
no capão é encontrada também grande quantidade de taquaras.
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37
Incursões pela arqueologia do planalto
2.1.2. Santa Bárbara
O Sítio RS 121 CXS
Na mesma estrada que nos leva a RS 70 CXS (de Ana Rech até Santa Bárbara,
via Horto Municipal), andamos mais uns 2km até encontrar, no lado direito da
estrada, uma casa de madeira azul com aberturas na cor laranja. Esta era a casa de
Avelino Cosme, antigo proprietário da área em que localizava-se o sítio RS 121
CXS. O atual proprietário da fração de terra é Espedito Cosme, sobrinho do finado
Avelino.
O Sítio foi visitado em 19/06/1966 por La Salvia. Nele foi verificada uma
grande estrutura subterrânea. Na época
encontrada dentro de “mato natural
fechado”, a estrutura “em ótimas condi-
ções” tinha um diâmetro de aproximada-
mente 11,00m e uma profundidade de
3,00m. La Salvia também registrou que
a parede, em “tabatinga avermelhada
coberta de limo” ainda era visível.19
A inspeção de Janeiro de 2000
constatou que a estrutura continua preser-
vada tal como foi informada por La Salvia,
com as paredes visíveis e com dimensões
muito semelhantes e exatamente na borda
interior da mata. Ela fica no limite entre
o capão e um pomar de pêssegos. Neste
capão há grande quantidade de taquaras
e várias araucárias, que parecem muito
antigas. Uma delas com aproximadamente
6m de circunferência. Há muitos anos,
segundo Espedito, não é encontrado nenhum tipo de material cerâmico ou lítico.
19 FRSA – RS 121 CXS
Foto 05: Parede da estrutura do Sítio
RS 121 CXS. Foto de Rafael Corteletti.
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38
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
2.1.3 Bairro São Ciro
Os Sítios RS 105 CXS e RS 106 CXS
Segundo La Salvia, em 20/05/1966, foi registrado o Sítio RS 105 CXS,
localizado no Bairro São Ciro, na margem da BR116, na propriedade de Miguel
Pezzoli. Nele havia uma estrutura com galeria, com diâmetro de 3,60m e
profundidade de 0,70m. A dita galeria tinha 1,55m de profundidade e 0,30 de
diâmetro na abertura e na superfície, acima dela, era observado um afundamento
no solo (como que uma canaleta) com 5,00m de extensão e 0,70 de largura. Na
época do mapeamento o proprietário não foi simpático à pesquisa20. Os dados
contidos na ficha de registro pouco ajudaram para a localização deste sítio, apesar
de podermos estabelecer uma posição aproximada.
No mesmo dia, foi registrado o Sítio RS 106 CXS, nas propriedades da Casa
das Irmãs Discípulas do Divino Mestre e de Oswaldo Vicenzi em que eram
encontradas cinco estruturas “totalmente entulhadas”, tornando difícil a sua locali-
zação. Três delas na propriedade de Vicenzi, as outras duas na propriedade ecumê-
nica. Também foi recolhida por La Salvia uma “mão-de-pilão bem feita, com 40
20 FRSA – RS 105 CXS
Foto 06: Detalhe do entroncamento da BR116 e RST453, onde estava situado
o Sítio RS 106 CXS. Foto: de Rafael Corteletti.
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39
Incursões pela arqueologia do planalto
centímetros de comprimento, apresentando uma secção trapezóide”.21 Hoje essas
propriedades ficam na margem Leste da rodovia BR116, km 145, no entron-
camento com a rodovia RST453. Das 05 estruturas outrora registradas, atualmente
nenhuma resta. A construção do viaduto e acessos do entroncamento das rodovias
destruiu uma das estruturas. As outras foram destruídas pelos proprietários dos
terrenos onde elas estavam assentadas.
O espaço destes sítios apresentou profundas mudanças em sua paisagem nos
últimos anos. Atualmente a região encontra-se em adiantado estágio de urbanização.
(Foto 06)
O Sítio Das Flechas
O sítio, localizado no final da Rua Amabile Telli, no Bairro São Ciro, numa
área de propriedade da família Telli, foi visitado pela primeira vez em maio de
2006. Nesta inspeção estavam presentes além deste narrador, Sebastião Teixeira
Correa, Fiscal da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Caxias do Sul
(SEMMA), Felipe Faccioni, Geólogo da SEMMA, Jacson Maurílio Corteletti,
Consultor Ambiental e Lindomar Bazzi, o tutor do sítio. Durante anos Bazzi
tentou trazer pesquisadores para analisar o material que aflorava numa área de
plantação próxima de sua residência. O contato entre Jacson M. Corteletti e a
SEMMA possibilitou nossa chegada ao sítio.
Lá encontramos uma coleção de pontas de projétil, raspadores, furadores,
pré-formas, talhadores, percutores, além de uma infinidade de lascas (trabalhadas
ou não) da Tradição Umbu. Encontramos também talhadores e percutores de
maior dimensão, provavelmente da Tradição Taquara, já que foram identificadas
duas estruturas semilunares (não dimensionadas), além de outras pequenas
depressões na encosta da colina, que precisam de uma averiguação mais minuciosa,
tal como a realização de sondagem estratigráfica, para serem confirmadas como
sendo vestígio arqueológico. A primeira impressão é de que o sítio é realmente
raro. A quantidade e a diversidade de material coletado e de matérias-primas
utilizadas para seu fabrico atestam a necessidade de um aprofundamento da
21 FRSA – RS 106 CXS
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:1939
40
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
pesquisa, tanto no que se refere à expansão das áreas de circulação de grupos
caçadores-coletores, que tradicionalmente são citados como habitantes das campinas
nas terras baixas, como da possível sobreposição de tradições encontradas no sítio.
Foram anotadas peças em tipos de quartzo, como o hialino e o leitoso; em calcedônia
de diversas colorações, como marrom, vermelha, branca, amarelada, “aquecida”;
em sílex, nas cores preta, vermelha e chocolate; em basalto, ágata, arenito silicificado,
argilito, etc. Algumas das rochas ali registradas, é bom frisar, têm jazidas a mais de
20km do local do assentamento, como é caso do arenito silicificado que só é
encontrado nas margens do Rio Caí.
O sítio fica próximo à rodovia federal BR116, numa zona de intensa
urbanização. A rodovia corre na parte mais alta da colina em que as possíveis
estruturas subterrâneas e aterros estão locados. Na vertente média da colina brota
uma nascente que cruza o sítio e cria na porção mais baixa um banhado. Um
pouco antes desse banhado, foi construída uma pequena barragem para criar peixes
e suprir de água a plantação nos momentos de estiagem. E é exatamente ao lado
deste pequeno açude que foi encontrada, pelo Senhor Bazzi, a maior parte do
material que hoje faz parte de sua coleção. Segundo ele, as pontas de projétil e
lascas aparecem numa concentração na porção norte deste açude e numa
profundidade de menos de 0,15m. Os utensílios maiores foram encontrados na
área do banhado, bem no sopé da colina, onde se abre um pequeno vale que é
intensivamente usado para a produção agrícola. A água desta nascente ruma para
o Arroio Espelho, afluente da margem direita do Rio Piaí. O campo de visão deste
pequeno vale não é muito abrangente e se abre para o Sul. (Foto 07)
Foram contabilizadas mais de 200 peças até o momento. O Senhor Bazzi as
cedeu ao Instituto Anchietano de Pesquisas - UNISINOS, para que uma análise
mais detalhada fosse realizada. Há projeto para realização de intervenção
arqueológica em desenvolvimento. A riqueza de informações que o sítio pode
fornecer auxiliaria em muito na compreensão da ocupação do planalto. No ano de
Foto 07: Panorâmica do Sítio das Flechas. Fotos: Rafael Corteletti
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41
Incursões pela arqueologia do planalto
2007 foi proposta ao poder público municipal a criação de um parque arqueológico
na área. Poderia ser o primeiro parque arqueológico do Rio Grande do Sul, mas ao
que tudo indica as negociações ainda vão longe e devem envolver além da prefeitura
municipal, o IPHAN e entidades locais como universidades e escolas.
Foto 08: Pontas de Projétil do Sítio das Flechas: superior esquerdo, em quartzo e sílex; superior
direito, em calcedônia; inferior esquerdo, em basalto, quartzo hialino, sílex e calcedônia; inferior
direito, em basalto. Fotos de Jairo H. Rogge.
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42
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
2.1.4. São Gotardo
O Sítio RS 67 CXS
Foi na conhecida Cascata de São Gotardo que, em 09/02/1966, Schmitz
registrou o sítio RS 67 CXS. Trata-se de um abrigo sob rocha colocado por trás da
cascata. Na ocasião do registro foram feitos trabalhos de “busca sistemática de
material arqueológico, buracos testes nos lugares onde a camada de terra permitia”,
além da inspeção e medição. O pesquisador informa que, segundo os moradores
mais antigos, muitos ossos foram encontrados, mesmo que a investigação não
conseguisse achar nenhum vestígio significativo de ocupação humana.22
Constituída de rochas eruptivas, a gruta e cascata deste afluente do Rio São
Marcos é ponto turístico, procurado por muitos banhistas nos quentes dias de
verão. O local, de fácil acesso, foi visitado diversas vezes pelo pesquisador, mas em
nenhuma ocasião foram encontrados vestígios de sepultamentos ou de ocupação
indígena.
Foto 09: Sítio das Flechas. Na esquerda, biface em arenito silicificado; no centro, pontas de projétil
em argilito; na direita, pontas em arenito silicificado. Foto de Jairo H. Rogge.
22 FRSA – RS 67 CXS
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43
Incursões pela arqueologia do planalto
Os Sítios RS 68/120 CXS e RS 69/119 CXS
Andando na estrada que passa sobre a Barragem do Faxinal na direção Leste
chegamos a zona de mais dois sítios que não resistiram ao tempo. Schmitz passou
por ali em 09/02/1966 e os catalogou como sendo RS 68 CXS e RS 69 CXS.
Depois, em 19/06/1966, foi a vez de La Salvia percorrer esses caminhos e anotar
os sítios que ele nomeou como RS 119 CXS e RS 120 CXS. Na conferência atual
dos dados concluímos que os sítios RS 68 e RS 120 eram o mesmo e, portanto, o
nomeamos RS 68/120 CXS. O mesmo raciocínio serve para o agora conhecido
sítio RS 69/119 CXS.
No mapeamento do sítio RS 68/120 CXS, Schmitz constatou três estruturas
de porte médio. As dimensões relatadas por La Salvia foram praticamente idênticas
(Figura 05).
Foto 10: Detalhe da gruta com sepultamento, Sítio RS 67 CXS. Foto de Rafael Corteletti.
Figura 05: Croqui de La Salvia
para o Sítio RS 120. Fonte: FRSA RS
120 CXS.
Livro Patrimônio Arqueológico.pmd 19/3/2008, 13:2043
44
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Na maior das três estruturas, Schmitz abriu um poço teste que revelou quatro
camadas arqueológicas distintas. A primeira, até 0,40m, caracterizada pela
ocorrência de “húmus recente”; a segunda, entre 0,40m e 0,55m, contendo resíduos
nós de pinho queimado e carvão; a terceira, dos 0,55m até 1,05m de profundidade,
registrando “tabatinga clara e compacta, contendo pedras em decomposição”; e a
quarta, de 1,05m até 1,15m, onde foi encontrada “uma camada de cor cinza escu-
ro, contendo grandes grânulos de carvão”23, do qual foram recolhidas amostras
para análise radiocarbônica. A datação obtida para esta camada é “620±90 A.P.
(SI-608)”24. O poço-teste não foi mais aprofundado, pois a partir deste nível
“começou a brotar água como uma fonte25.
Segundo o Senhor Domingos Lorandi, antigo proprietário da área, foram
encontrados numerosos cacos de cerâmica com impressão de unha, quando da
derrubada da mata, em anos anteriores à inspeção de 1966. Esta cerâmica estava
próxima às estruturas e foi perdida26. La Salvia, em sua visita concluiu que além do
registrado por Schmitz, “nada mais de importante foi encontrado ou notado”.27 O
proprietário atual é Nestor Giacometti, que produz maçãs no local onde estavam
localizadas as estruturas. O terraceamento realizado para o cultivo desta fruta
destruiu as estruturas.
A mais ou menos 1,5km dali, no mapeamento do sítio RS 69/119 CXS
Schmitz constatou sete estruturas, já La Salvia mapeou oito, mesmo que em seu
croqui apareçam onze estruturas. Todas elas estavam no interior de um pomar de
pêssegos. Os dois pesquisadores mesmo sem ter encontrado cerâmica ou outro
tipo de material (o que de certa forma aparece como uma constante), ficaram
impressionados com as dimensões das estruturas encontradas neste sítio28, girando
em torno de 11m de diâmetro e 02m de profundidade.
23 FRSA – RS 68 CXS
24 Schmitz e outros, 1988: 9-10. A datação calibrada nos leva para o ano 1373 d.C.
25 FRSA – RS 68 CXS
26 FRSA – RS 68 CXS
27 FRSA – RS 120 CXS
28 FRSA – RS 69 CXS e RS 119 CXS0
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45
Incursões pela arqueologia do planalto
No final da década de 1980 este sítio foi riscado do mapa. Nas administrações
dos Prefeitos Victório Trez e Mansueto de Castro Serafini Filho, entre 1987 e
1992, a Barragem do Faxinal foi construída. No decorrer das obras, a necessidade
de argila para a compactação do solo da barragem fez com que, ao que parece sem
estudos prévios de impacto ambiental29, fossem retiradas camadas de solo de
qualquer local. Entre esses locais estava o sítio e suas estruturas. Ali, a raspagem
levou uma camada com espessura entre 03 e 05m, onde todas as estruturas deste
sítio estavam localizadas. O local em que o solo foi retirado ainda sofre a ação do
tempo, não tendo recuperado em nada o seu caráter natural. Ali é percebida a
tentativa, infrutífera, de reflorestamento com Pinus ellioti, que fica a aproxima-
damente 1km da barragem.
Figura 06: Croqui de La Salvia para o Sítio RS 119
29 Entre os estudos do Relatório de Impacto Ambiental, está o levantamento arqueológico. Em 1996, na gestão
de Mario David Vanin, a zona da Barragem do Faxinal passou a ser considerada uma Área de Proteção
Ambiental (APA) do município, preservando dessa forma uma área de aproximadamente 7000 ha da biosfera
da Mata Atlântica circundante do lago. Existem, em curso no momento, projetos de reflorestamento das
margens do lago.
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46
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
2.1.5. São Valentin de Flores da Cunha
Os Sítios RS 71/116 FOC e RS 72/115 FOC
Schmitz, em 09/02/1966, e La Salvia, em 05/06/1996, mapearam a região
próxima da capela de São Valentim, no município de Flores da Cunha. (Mapa 04)
No registro de Schmitz para o sítio RS 71/116 FOC foram mapeadas, duas
estruturas (uma com 6,80m de diâmetro e 1,50m de profundidade, e outra pouco
visível) e informada a existência de outra, não sendo conferida a sua existência e
estado de preservação. Todas encontravam-se na propriedade de Reinaldo Novello.
As visíveis em meio à roça e a não
conferida, perto destas, em meio ao
vassoural30. Na sua passagem pelo
sítio La Salvia relatou apenas a
ocorrência da maior estrutura junto
à estrada31. Novello informou ter
encontrado vários cacos de
cerâmica, duas mãos-de-pilão, além
de lâminas de machado polidas que
se perderam. Em coleta superficial,
então realizada nos arredores das
estruturas, Schmitz recolheu um
caco de cerâmica, que classificou
como do tipo ungulado –
Taquara.32 Na inspeção de 2000,
foi verificado que as três estruturas
estão desaparecidas e o terreno é
utilizado para o cultivo de batata-
doce.
30 FRSA – RS 71 FOC
31 FRSA – RS 116 FOC
32 FRSA – RS 71 FOC
Foto 11: Parede da estrutura em RS 72/115 FOC. Os
sulcos inclinados provavelmente são marcas
produzidas durante a execução da escavação, na
construção da estrutura. Foto: de Rafael Corteletti.
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47
Incursões pela arqueologia do planalto
Próximo dali, a aproximadamente 200m da residência de Claudino Dall’Alba,
fica a estrutura do sítio RS 72/115 FOC que, segundo Schmitz, tem paredes bem
verticais com dimensões de 5,00m de diâmetro e 3,00m de profundidade33. La
Salvia, por sua vez, relata que o diâmetro é de 3,65m e a profundidade é de
3,00m; e que em seu interior há uma abertura na parede NE com 0,40m de
altura e 3,00 de profundidade. Atualmente essa é uma das poucas estruturas
preservadas da região. Nas suas paredes ainda são visíveis os sulcos resultantes do
trabalho de escavação (Foto 11). No seu interior crescem grandes xaxins e o acúmulo
de matéria orgânica diminuiu sua profundidade, deixando-a com a mínima de
2,70m e máxima de 2,90m. Como foi relatado por La Salvia há em seu interior
uma pequena galeria, vestígio já relatado em outros sítios34. Não foi realizada
nenhuma inspeção na dita galeria, já que o entulhamento em seu interior está
bastante avançado. Schmitz, em seu registro, informou que o sítio estava em meio
a um reflorestamento de acácias. A inspeção de Janeiro de 2000 notifica a existência
de regeneração desta planta ao lado da mencionada estrutura.
2.1.6. Travessão Cremona
O Sítio RS 122 CXS
Sítio Superficial mapeado por La Salvia em 19/06/66, onde foram encontrados
e recolhidos “mãos de pilão e machados”, na antiga propriedade de Antônio Fiora-
vante Argenta35. La Salvia já manifestava a possibilidade de destruição do sítio. Por
aproximação definimos o local deste sítio, mesmo sem tê-lo de fato conhecido.
33 FRSA – RS 72 FOC
34 Tais como o RS 77 CXS, em Criúva e o RS 105 CXS no Bairro São Ciro. Apesar da especulação em torno da
possibilidade de existirem conexões subterrâneas entre as estruturas, nada ainda foi comprovado. Ao que tudo
indica tais galerias são produto da erosão pluvial.
35 FRSA – RS 122 CXS
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48
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
2.1.7. Fazenda Souza
Os Sítios RS 131 CXS e RS 134 CXS
São dois sítios superficiais mapeados por La Salvia, e que apesar dos esforços
não conseguimos localizar. As informações contidas nas fichas de registro foram
insuficientes para superar os 40 anos de distancia entre o registro e a nossa
investigação. O Sítio RS 131 CXS foi mapeado em 30/07/1966, na propriedade
de Guilherme Andreolla. Lá foram recolhidos “três pedaços de mãos de pilão”,
encontrados “a algum tempo na roça”. Na ficha de registro as informações eram
escassas, fato que corroborou para não encontrarmos o local exato do sítio36. Em
15/08/1966, na propriedade de Verino Andreolo, o sítio RS 134 CXS foi registrado
como um dos poucos, senão raro, sítio superficial da Tradição Tupiguarani em
terras altas do nordeste gaúcho. “Entre o arroio Cará e o Rio Piaí, foi encontrada
numa roça de milho um vaso, cuja forma lembra o tipo guarani. Junto a uma
árvore, emborcado, no meio de grande quantidade de cacos de cerâmica”. Segundo
La Salvia o local “parece bastante curioso”, pois fica num “ponto muito baixo, sem
visibilidade alguma” – “cercado por morros”, na vertente do Rio Piaí a aproxima-
damente 3km dele e a 7km de RS 131 CXS37. Apesar dos detalhes descritos nas
fichas de registro só conseguimos estabelecer uma localização aproximada destes
dois sítios.
2.1.8. Bairro Cruzeiro
O Sítio RS 107 CXS
Este é mais um sítio que foi engolido pelo crescimento da cidade. Em 21/
05/1966 La Salvia catalogou sete estruturas subterrâneas e quatro montículos, de
forma elíptica, na antiga Chácara Eberle. Na época do registro foi assinalado o
projeto de construção de um loteamento. O sítio atualmente encontra-se encravado
36 FRSA – RS 131 CXS
37 FRSA – RS 134 CXS
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49
Incursões pela arqueologia do planalto
em meio à zona urbana da cidade, no Bairro Cruzeiro. Infelizmente as obras de
loteamento da área destruíram todas as estruturas e todos os montículos. Pelas
referências de localização apontadas por La Salvia em seu registro inferimos um
local aproximado para onde estariam os vestígios. (Mapa 06)
Um dos montículos foi prospectado revelando, num corte de 1,20m por
0,80m até a profundidade de 0,70m38, as seguintes camadas: os primeiros
centímetros eram compostos de sedimentos soltos com pequenos seixos; depois
apareceram fragmentos de ba-
salto em decomposição de
diversos tamanhos39, primeiro
maiores, após menores; na ter-
ceira camada, em terra parda, a
sedimentação novamente apre-
senta-se descompactada, estan-
do bem diferente da base por
sua coloração (mais averme-
lhada) e por sua compactação
(bem maior). Não foi encon-
trado nenhum tipo de vestígio
material ou ósseo.40
2.1.9. Morro Cristal, Caxias do Sul, RS
RS 129 CXS
La Salvia registrou, em 19/07/1966, a descoberta de Alcides Braghini,
proprietário das terras na época, no Morro Cristal. Segundo a ficha de registro,
Braghini “(...) encontrou urna funerária, guarani, com o esqueleto de uma criança
de 7 a 10 anos de idade. Ao retirar do local partiu o fundo e a tampa (da urna),
38 Pelo fato de o montículo ter 0,40m de altura acima da superfície, a altura final da escavação chegou a 1,10m.
39 Variando de 0,15m a 0,10m.
40 FRSA – RS 107 CXS
Mapa 06: Implantação do Sítio RS 107 CXS em meio ao
tecido urbano do Bairro Cruzeiro,
na Zona Leste de Caxias do Sul.
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50
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
transformando em cacos muito pequenos, difícil de reconstruir (...)”. O sítio foi
destruído e somente esta peça foi encontrada.41
O Morro Cristal fica na Terceira Légua, próximo da vertente do vale do Rio
Caí. Provavelmente, a criança encontrada tenha falecido numa incursão de
reconhecimento de terreno dos grupos Tupiguarani. O sítio é um dos mais
meridionais da Zona de Estudo, o que o coloca na faixa de transição territorial
entre os grupos que habitavam as terras altas e os grupos que habitavam as terras
baixas dos vales, como o do Rio Caí.
2.2. Microrregião Santa Lúcia
A Microrregião Santa Lúcia compreende sítios que estão localizados na Bacia
hidrográfica do Rio Caí, com acidente geográfico limitador a Leste o Arroio
Cavalhada, a Oeste o Rio Piaí e para o Sul o Rio Caí. A área compreende uma zona
de transição dos patamares da Serra Geral postados mais ao Sul, com os seus vales
encaixados cobertos pela Floresta Subtropical, para uma área de relevo menos
acidentada colocada mais ao Norte, com muitas colinas cobertas por campos e
salpicadas com mata ciliar e capões de Araucária, desenhando o interflúvio entre
as bacias do Caí e Antas.
41 FRSA – RS 129 CXS
Local Sítio Latitude Longitude Altitude
(m)
Estruturas
catalogadas
Estruturas
identificadas
RS
34/125
29º12’36,98”S 51º00’43,09”W 753 03 Nenhuma
RS
38/126
29º12’17,78”S 50º59’51,22”W 793 03 03
Água
Azul
RS
37/127
29º12’25,2”S 50º59’42,4”W 805 36 40
RS 39 29º11’26,78”S 51º00’17,92”W 700 Gruta com Sepultamento
RS 128 29º12’34,19”S 51º00’26,56”W 782 07 02
RS 130 29º13’9”S 50º59’56,9”W 812 14 15
Santo
Antônio
RS 36 29º15’39,692”S 51º1’53,09”W 725 Sítio Superficial
Vila
Oliva
RS
32/123
29º08’39”S 50º52’49”W 876 06 ?
RS 35 29º15’22”S 50º56’11 ”W 750 Sítio Superficial
Tabela 06: Localização dos Sítios da Microrregião Santa Lúcia
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51
Incursões pela arqueologia do planalto
A região de Água Azul, no distrito caxiense de Santa Lúcia do Piai, é a que,
dentro da zona proposta para estudo, mais recebeu atenção dos pesquisadores ao
longo do tempo. Também pudera. A área de Água Azul, nas nascentes dos Arroios
Nicolao, Mamangava e Cervo, têm, num raio de aproximadamente 1,5 km, seis
sítios catalogados onde já foi registrada a ocorrência de 71 estruturas de piso
rebaixado, além de montículos e uma gruta com sepultamentos. A estes sítios são
atrelados ainda dois sítios superficiais, ambos postados próximos das íngremes
vertentes do vale do Rio Caí; e mais um sítio colocado mais a Nordeste com 06
estruturas em meio a um vasto capão de araucárias. As altitudes da Microrregião
Santa Lúcia oscilam entre 700m e 876m. Em Água Azul, onde as altitudes
particularmente giram em torno dos 800m, é registrada a menor altitude da
Microrregião, na gruta com sepultamento RS 39 CXS.
Nestes nove sítios encontramos preservadas 69 das 77 estruturas inicialmente
mapeadas, o que revela um grau satisfatório se comparado às áreas próximas da
cidade. À exceção do sítio RS 130 CXS e RS 32/123 CXS, todos sofreram algum
tipo de degradação que causou dano irreparável na sua composição. A venda de
Figura 08: Imagem de Satélite da Microrregião Santa Lúcia.
Fonte: Adaptado de INPE - CBERS, cena completa de 02/09/2007.
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
terras e/ou divisão por herança das antigas colônias e o conseqüente aumento da
densidade demográfica somada a expansão dos cultivos agrícolas, além de construções
de acessos ou nivelamentos de terreno, são os principais motivos que levam à
perda do patrimônio arqueológico nessa zona.
2.2.1. Água Azul
O Sítio RS 34/125 CXS
Localizado na margem leste da estrada que liga Santa Lúcia a Água Azul, logo
depois do cruzamento da estrada que vem de Camaldolli (a Oeste), e ruma para
Vila Oliva (a Leste), o sítio foi inspecionado por Schmitz em 14/01/1966 e por La
Salvia em 11/07/1966. As três estruturas de dimensões relativamente avantajadas
ficavam próximas da casa de Aldo Francisco Andreazza, podendo ser visualizadas
da estrada. Hoje as estruturas são identificadas como manchas associadas a pequenas
depressões em meio ao campo de uma colina que anteriormente era coberta por
mata.
Já em 1966 foi registrada a grande probabilidade de destruição das três
estruturas, por estarem localizadas em área de cultivo. A dita colina havia sido
desmatada aproximadamente sete anos antes do registro. Durante os sucessivos
cultivos os proprietários encontraram vários objetos, como na ocasião em que, de
uma só vez, surgiram da terra três lâminas de machado e quatro mãos-de-pilão,
todas polidas42. Hoje, confirmada a destruição, nada é plantado na área e a colina
perdeu quase toda a cobertura original de mata, sendo utilizada sistematicamente
para o cultivo de diferentes culturas.
Na maior das três estruturas (A) foram abertos dois poços-teste; um deles,
próximo à extremidade menos aprofundado; o outro mais central e mais profundo.
No primeiro não foi identificada nenhuma camada arqueológica significativa até
que nos 0,40m de profundidade foi encontrada “terra vermelha consistente” e, a
escavação partiu para o segundo poço-teste. Neste, com 2,00m de comprimento e
42 FRSA – RS 34 CXS. Em FRSA – RS 125 CXS há a informação que eles teriam sido recolhidos por La Salvia.
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Incursões pela arqueologia do planalto
1,00 de largura, nos primeiros 0,50m foi registrada a ocorrência de húmus, quando
surgiu “um nível de carvão com restos de cascas de pinheiro, indicando ter sido o
nível em que foi queimado o mato”, seguindo daí até a profundidade final, de
1,00m, com “lentes de carvão bem acentuadas em meio a terra vermelho-cinza”.
No nível de 0,85m a 0,90m foram encontrados seis cacos de cerâmica ponteada,
próximos a “uma terra queimada com cinza, que identificamos como fogão”.43
43 FRSA – RS 34 CXS
Foto 12: Estruturas em processo de entulhamento no Sítio RS 34/125 CXS. Foto: Jacson M. Corteletti.
Figura 08: Croqui de Schmitz, com perfil das estruturas de RS 34/125 CXS. Fonte: FRSA RS 34 CXS.
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
RS 39 CXS
RS 128 CXS
RS 34/125 CXS
RS 38/126 CXS
RS 37/127 CXS
RS 130 CXS
800
800
800
800
800
800
800
700
700
700
800
700
700
800
800
800
800
800
800
800
800
800
800
800
800
800
800
800
700
700
700
Arroio Mamangava
Arroio Nicolao
Arroio Cervo
29 10’S
o
50 58’W
o
N
01km
Curvas de Nível
(eqüidistância de 20m)
Sítios Arqueológicos
Cursos Fluviais
Rodovias
LEGENDA
Organizado por R. Corteletti
Mapa 07: Os sítios em Água Azul. Fonte: Modificado das Folhas SH 22-V-D III-2 MI-2952/2 e SH 22-X-C-1 MI-2954/1.
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55
Incursões pela arqueologia do planalto
O Sítio RS 37/127 CXS
Andando pela estrada da Linha Raposo, logo após o acesso da Granja Scopel
(onde fica o sítio RS 130 CXS), aparecerá na margem Norte da via a entrada para
este sítio, que na Zona de Estudos foi o mais pesquisado. Na primeira visita,
datada de 15/01/1966, foram mapeadas nove estruturas “no capão de mato junto
a casa do Sr. Antônio Vergani”44. La Salvia, ao catalogar novamente o sítio em 11/
07/1966, confirma os dados de Schmitz. Em publicações posteriores45 foi relatada
a existência de 36 estruturas e, também, de 39 “cômoros artificiais” ou montículos,
que num primeiro momento fizeram os pesquisadores acreditar serem sepulturas.
Nas visitas de 1998 e 2000 foram visualizadas 13 estruturas, sendo ainda verificada
a destruição de outras três, em função da construção de uma estrada de acesso à
propriedade. Em Fevereiro, Março e Maio de 2006 o extenso capão de mato em
que foram localizados tais vestígios foi minuciosamente inspecionado, podendo
ser verificada a ocorrência de 40 estruturas de piso rebaixado e de 08 dos ditos
cômoros artificiais (dois deles escavados).46 Nas visitas, nossos guias, mesmo
morando a mais de 40 anos no local, não sabiam da existência de tantos vestígios,
muito menos sua localização aproximada. Por vezes ficaram impressionados com o
encontro de uma ou outra estrutura no interior da mata. Essa constatação demonstra
um distanciamento grande entre o que é produzido pelos cientistas e o conheci-
mento que chega às comunidades, que afinal de contas é a responsável direta pela
preservação ou não destes sítios.
Em Março de 2006, o senhor Alcides Vergani (filho do antigo proprietário,
Antônio Vergani), informou que parte do capão em que as estruturas estão inseridas
pertence atualmente ao senhor Vítor Calgaro. Alcides herdou esta porção da
propriedade de seu pai, e a vendeu para seu irmão, Tarcísio Vergani, que
posteriormente a repassou para Calgaro que preserva a mata e utiliza a área de
campo para a produção de tomates.
44 FRSA – RS 37 CXS
45 Schmitz e outros, (1988); Schmitz & Becker, (1991, registro de “40 túmulos”, página 69) e outras.
46 Auxiliaram nestas inspeções Jacson Maurílio Corteletti, Leandro Arthur Anton, Marlon Borges Pestana e Nilo
Corteletti.
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Figura 09: Croqui de RS 37/127 CXS
BanhadoBanhado
Açude
Banhado
Organizado por R. Corteletti
N
0 30m
?
04m
1
2
3
4
11
9
M5
8
10
7
6
5
M4
M6 M7
12
13
15
14
16
17
18
19
M8
20
21
22
23
M9
24 M2
M3
25
26
27
28
29
30
31
32
33 34
35
36
37
38
39
40
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Incursões pela arqueologia do planalto
O senhor Alcides Vergani informou, ainda, que todas as terras de Água Azul
eram originalmente de propriedade da Família Soares. Estes apenas criavam gado.
Os Soares venderam as terras para a Família Andreazza, que por sua vez vendeu a
terra para seu pai, Antônio Vergani. A partir deste relato nota-se a fragmentação
da propriedade rural, que intensifica o uso dos recursos naturais. Outrora a
disponibilidade de solo era maior e o uso intensivo era menor. Segundo Alcides,
em tempos pretéritos a mata era derrubada para a implantação da chamada “roça
de mato”, que é mais produtiva devido ao maior número de nutrientes e matéria
orgânica encontrado nesse solo. As plantações realizadas no campo nunca foram
muito produtivas em função da má qualidade do solo47. A consolidação da legislação
ambiental fez com que várias posturas fossem mudadas, impedindo que novas
áreas fossem desmatadas. Essa dupla ação, a fragmentação da propriedade seguida
de uma legislação preservacionista, fez com que os cultivos passassem a ser realizados
em áreas de campo, onde o solo precisa ser constantemente fertilizado. Com essa
nova roupagem de produção, os investimentos do produtor precisam ser maiores.
Como muitas propriedades já são demasiado pequenas e sua produção também,
não são todos que conseguem produzir para o mercado. Isso tudo pode criar um
processo inverso, o de concentração de terra, voltada para a produção de
hortifrutigranjeiros em monocultura (morango, maçã, tomate, uva, milho,
beterraba, cebola), além da criação de animais.
O sítio RS 37/127 CXS ocupa uma área de aproximadamente 160.000m2
num terreno de relevo levemente ondulado em que nas depressões surgem banhados
e/ou nascentes e em que nas vertentes e topos das colinas aparece a mata de araucária
cercada por campos. Na vertente Sudeste da colina Leste do sítio estão posicionadas
18 estruturas e 4 montículos; exatamente no seu divisor de águas (sentido Sudoeste-
Nordeste) aparecem 13 estruturas e 3 dos montículos; e na sua vertente Noroeste
estão 8 estruturas e 3 montículos. Na vertente Sudeste da colina Oeste aparece
isolada uma estrutura (Figura 09). As dimensões das estruturas são das mais
diferenciadas, com diâmetros entre 1,60m e 11,00m; e profundidades variando
de 0,15m até 4,30m. O destaque vai para a Estrutura 1, que tem as maiores
47 Segundo Streck e outros, (2002: 40, 41), em Caxias do Sul ocorre o “Neossolo Litólico Distrófico típico”. “Os
Neossolos Litólicos, devido a sua pequena espessura, e por ocorrerem em regiões de relevo fortemente ondulado e
montanhoso, em geral com pedregosidade e afloramentos de rocha, e por terem baixas tolerâncias de perdas de solo
por erosão hídrica, apresentam fortes restrições para culturas anuais.
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58
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
dimensões e foi palco de um grande trabalho de intervenção arqueológica, onde o
carvão recolhido e datado pelo método de 14C nos leva para 1480 ±70 anos A.P.
A numeração utilizada aqui para identificar as estruturas e os montículos deste
sítio tem o objetivo de padronizar a nomenclatura dos vestígios. Schmitz, em Janeiro
de 1966, nomeou 8 estruturas catalogadas da letra “A” até “I”. Nas campanhas de
escavação que se realizaram posteriormente essa nomenclatura caiu em desuso e
passou-se a utilizar os termos “Casa A”, “Casa B”, “Casa 4” e “Casa 9” para as
estruturas. Agora, como foram mapeadas 40 estruturas a nomeação delas segue em
ordem crescente de 1 até 40. Portanto, a Estrutura 1 corresponde à antiga estrutura
A” ou “Casa A”; a Estrutura 2 é a antiga estrutura “B”; a Estrutura 3 corresponde a
antiga estrutura “C”; a Estrutura 4 é a antiga estrutura “G” ou “Casa 9”; a Estrutura
26 é a antiga estrutura “H” ou “Casa B”; e, infelizmente, a antiga “Casa 4”, escavada
em 1968 e 1970 por Schmitz e Lazarotto não foi identificada, sendo portanto uma
das três destruídas pela construção de uma via de acesso da propriedade. Para os
Montículos foi preservada a nomenclatura adotada quando foram escavados: o
Montículo 1 (M1, não foi identificado), o Montículo 2 (M2) e o Montículo 3
(M3); acrescendo nesta jornada os Montículos M4, M5, M6, M7, M8 e M9.
Na porção mais baixa da vertente Sudeste, a Estrutura 11 surge bastante
peculiar. É, na verdade, uma “estrutura geminada interseccionada48. A maior das
duas crateras que compõe esta estrutura tem paredes muito verticais na face Norte
(a mais alta) e a circularidade impressiona pela perfeição. Na menor das crateras
tanto o aterro externo como a profundidade são menores dando a idéia de que esse
“compartimento” fosse uma ante-sala, um hall de entrada, para a porção maior da
estrutura (Figura 10). Na vertente inversa aparecem as Estruturas 20 e 21 que
compartilham o mesmo aterro para nivelação do terreno. A impressão que se tem
é a de que a Estrutura 20, que é menor, tanto no diâmetro como na profundidade
foi construída no aterro da outra, tal como as Estruturas 2 e 3 que estão situadas
no aterro da Estrutura 149. Salientamos o conceito de “estrutura geminada tangen-
ciada” para estas, e que elas parecem ser, apesar da proximidade, independentes.
48 Reis (1980: 146) denomina como Estrutura Geminada as que apresentam duas formas básicas: as
“Tangenciadas: onde a distância entre as bordas das concavidades, é no máximo, de 0,50m dando a impressão que
a borda é espaço comum as duas estruturas”; e as “Interseccionadas: em que ocorre uma parte comum dos diâmetros
compartilhada pelas estruturas entre si”.
49 Na camada mais profunda da Estrutura 2 foi encontrada, durante as germinais escavações, uma vasilha
Tupiguarani.
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59
Incursões pela arqueologia do planalto
Perceber que estas menores foram escavadas nos aterros das maiores possibilita a
afirmação de que elas teriam uma função diferenciada das demais, tendo sido até,
quem sabe, construídas num momento posterior.
Os aterros aparecem como um elemento construtivo já que as estruturas são
preferencialmente cavadas em terrenos inclinados. A nivelação do terreno com a própria
terra revolvida na construção da cova economiza energia dos construtores, tanto na
tarefa de cavar, como na de levar esse sedimento para outro local mais distante da
“obra”. A escolha de terrenos inclinados pode
obedecer a esse critério de facilidades na
construção além das questões relativas ao
escoamento de águas superficiais na época de
abundância de chuvas (já que a possibilidade
de alagamento é sempre maior em terrenos
planos), e até a circulação dos ventos (já que
na vertente a “casa” estaria mais protegida de
fortes ventanias). Mas mesmo assim aparecem
estruturas em áreas planas com aterros, como
as duas do sítio RS 33 SFP.
O sedimento que restava da
construção dos aterros das estruturas pode
em alguns casos criar outro dos vestígios característicos destes sítios: os montículos.
O fato de que apenas 8 dos 39 montículos registrados foram identificados nesta
inspeção advém da dificuldade de identificá-los em meio a mata, quando de
diâmetro ou altura muito pequenos. O critério utilizado para estabelecimento do
que é o montículo é necessariamente o visual: um amontoado de terra, de no
mínimo 0,40m de altura, geralmente circular, mas podendo ser elipsóide, ou até
quase retangular; muitas das vezes circundado por uma pequena canaleta, o que
nos leva a crer que em alguns casos a sua construção era efetuada pelo amontoamento
da terra da periferia para o centro. Porém, levando adiante a idéia de como era o
cenário de um sítio qualquer durante a construção de uma estrutura, buscamos
subsídios nas escavações realizadas em Vacaria, onde é estabelecido outro papel
que não somente a histórica função de sepulturas50 para tais vestígios. No sítio RS
Figura 10: Planta Baixa e perfil da Estrutura 11.
50 Schmitz e outros, (1988: 23), Schmitz & Becker, (1991: 69,71)
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60
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Figura 11: Gravura da paisagem de Água Azul. Vale do Arroio Mamangava e o Morro Grande ao fundo.
Desenho: Piter Fontana
A-27 foi verificado, a partir de análises estratigráficas e registros de datação por
14C, obtidas através de amostras de carvão coletadas, que tais montículos são resultado
do acúmulo da sobra de terra oriundo da escavação de uma estrutura e da construção
de seu aterro de nivelamento51. Nas análises dos dados destas escavações constatou-
se que a data da camada mais superficial da estrutura é semelhante a da camada
mais profunda do montículo e que a data da camada mais profunda da casa combina
com a da camada superficial do montículo, além da possibilidade de verificar
visualmente a ordem invertida das camadas estratigráficas da estrutura em relação
ao respectivo montículo. Quanto maior e mais profunda a estrutura, provavelmente,
maior e mais alto será o montículo correspondente.
Em Água Azul, três dos montículos foram escavados e as datas obtidas no
Montículo 1 e na Estrutura 26 sinalizam a mesma correspondência encontrada
em RS A-27. O Montículo 1 (não localizado nesta jornada) estava situado, segundo
relato de Schmitz, a uns 40 metros da Estrutura 26. A datação para o montículo
é de 630 ± 70 AP, na camada mais superficial, enquanto que a Estrutura 26, numa
camada mais profunda apresenta a data de 840 ± 60 AP, o que nos leva a acreditar
numa relativa contemporaneidade. Nas camadas mais profundas o montículo
aparece com a data de 1140 ± 40 AP, enquanto que a estrutura apresenta a datação
de 1330 ± 100 AP na camada mais superficial.
51 Schmitz e outros, (2002: 24)
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61
Incursões pela arqueologia do planalto
Um dado curioso verificado no ambiente do sítio é existência de clareiras
gramadas no interior do capão junto do conjunto de Estruturas 32 a 40, das
Estruturas 25 e 26 e da Estrutura 27. A impressão que se tem é a de que este
gramado seja constantemente aparado. Já que ele ocorre naturalmente, podemos
aventar a possibilidade, se em outros sítios isso também aparecer, de que esse tipo
de formação poderia ser mais um dos fatores atrativos para o estabelecimento de
um assentamento. Uma área gramada, com sombra, mas com poucas árvores, para
ser utilizada como espaço de convivência para o grupo humano. Uma escavação
nestas áreas poderia dar mais elementos para alimentar esta proposição, ou descartá-
la. Do gramado ao lado da Estrutura 27, por sinal, podemos avistar a bela paisagem
da região de campos e coxilhões, como o Morro Grande, entremeados por vales de
córregos como o Arroio Mamangava (Figura 11). O campo de visão deste ponto é
bastante amplo, sendo que a linha do horizonte está a mais de 3 km de distância
na direção Nordeste. Desta mesma estrutura, caminhando em torno de 250m em
direção ao Norte, no topo de outra colina, separada desta por um banhado, são
encontradas as 3 estruturas do sítio RS 38/126 CXS.
O pioneiro trabalho de escavação
Nos anos de 1967, 1968 e 1970, foram realizadas, neste sítio arqueológico,
quatro campanhas de escavação, somando em torno de 45 dias de trabalho. Em
toda esta atividade foram escavados três dos tais cômoros e cinco das estruturas,
com o objetivo de destacar tanto as evidências arquitetônicas como a estratigrafia.
Das estruturas escolhidas, duas eram bem profundas (Estrutura 1 e Estrutura 26)
e três bem rasas (Estrutura 2; Estrutura 4 e a destruída Casa 4), tendo sido por tal
motivo selecionadas.52 Os vestígios dos Montículos 2 e 3 foram localizados próximos
da Estrutura 26, já o vestígio do Montículo 1, que também ficava por ali não foi
encontrado. Nas páginas seguintes estão sintetizadas informações sobre a escavação
de cada uma destas estruturas e dos montículos.
52 Schmitz e outros, (1988: 23)
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62
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
53 FRSA – RS 37 CXS
A Estrutura 1 –”A” ou “Casa A”
A “Casa A” era a mais profunda de um aglomerado de seis estruturas localizado
próximo à casa do proprietário. Das seis estruturas mapeadas neste conjunto restam
três atualmente. As outras três foram destruídas em meados dos anos noventa,
quando da construção de uma estrada no interior da propriedade rural. A partir
das informações do croqui da FRSA (Figura 12), pudemos inferir de que as
Estruturas “d”, “e” e “f” estão no traçado atual da via e, portanto, foram destruídas.
Na construção da Estrutura 1, com o objetivo de nivelar o terreno, foi aterrado
todo o perímetro Norte, originando neste ponto uma borda de, aproximadamente
1,70m de altura com 5,00m de largura. Neste aterro foram construídas outras
duas: a Estrutura 2 – “B” (com 4,00m de diâmetro e 1,50 de profundidade, a
Noroeste), e a Estrutura 3 – “C” (com 3,00m de diâmetro e 1,20m de profundi-
dade, a Norte). O croqui do registro de RS 37 CXS (Figura 12) ilustra essa situação
e também registra, no aterro, a ocorrência de uma “árvore grande” de nome popular
Carrapicho. Muitas dessas árvores são identificadas nos capões da região. A árvore
existente ao lado deste pequeno aglomerado de estruturas caiu faz alguns anos,
restando apenas sinais de seu tronco.53
Figura 12: Croqui de RS 37 CXS. Fonte: FRSA RS 37 CXS.
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63
Incursões pela arqueologia do planalto
Esta grande estrutura foi pes-
quisada em quatro oportunidades.
Em 1966 Schmitz efetuou um
corte estratigráfico de um metro
quadrado com um metro de pro-
fundidade. Nele foram identificadas
três camadas arqueológicas em que
os primeiros 0,40m constituíam-se
principalmente de húmus; depois
entre 0,40m e 0,55m foi encon-
trado um nível com bastante carvão,
cinzas e fragmentos de rocha; e,
finalmente, de 0,55m até 1,00m os
sedimentos encontrados eram mais
claros e mais compactos, onde foi
encontrado um caco de cerâmica.54
Foto 13: Vista geral da Estrutura 1 – Casa A antes da escavação de Abril/Maio/1967.
Foto Pedro I. Schmitz.
54 FRSA – RS 37 CXS
Figura 13: Planta baixa da escavação na Estrutura 1 –
Casa A. Fonte: Schmitz e outros, (1988: 32).
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64
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
55 Schmitz e outros, (1988: 28-29)
Figura 14: Perfis estratigráficos da Estrutura 1: A-B (cima) e C-D (baixo).
Fonte: Schmitz e outros, (1988: 33).
Em 1967, 68 e 70 Schmitz, La Salvia, Rohr, Mentz-Ribeiro, Naue, Becker e
outros realizaram a escavação de toda a estrutura. As dimensões iniciais registradas
para esta eram de “10,40m de diâmetro sobre a linha A-B e 10,10m sobre a linha
C-D, por 3,36m de profundidade sem o entulho recente”. Depois de retirada
uma camada de até 1,25m de entulho superficial do interior da estrutura, ela foi
dividida em setores, quadrículas e prolongamentos. Em seu espaço exterior, sobre
a borda, foram escavadas quatro trincheiras. As dimensões desta estrutura, após
todo o desenrolar das escavações, chegaram a 11,08m de diâmetro na linha A-B e
11,00m na linha C-D, com profundidade máxima de 4,84m.55
Na escavação do interior da estrutura foi encontrada inicialmente uma
sedimentação homogênea e resultante “da decomposição de basalto e restos
orgânicos, escuros e soltos na parte central, mais amarelados e compactos em direção
às paredes”. Entre os 0,35m e os 0,80m de profundidade surge um sedimento
mais escuro e solto e a partir deste ponto aparece – como no poço teste – um nível
de ocupação bem evidente, composto por rochas de basalto em decomposição
bem compactadas, numa espessura de até 0,15m. No centro da estrutura, por
volta dos 0,35m, inicia uma mancha mais escura aproximadamente circular,
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65
Incursões pela arqueologia do planalto
composta por grânulos de carvão em meio a sedimentos compactos, que se estende
até a profundidade final de 1,48m. A mancha foi entendida como um fogão, pois
nela foram descobertos “fragmentos de rocha, com artefatos de basalto, quartzo e
um fragmento de mão-de-pilão de secção triangular e grande quantidade de carvão”,
associados ainda a nós de pinho, pinhões carbonizados e pequenos fragmentos de
cerâmica. Deste fogão foi recolhida uma amostra de carvão que indicou uma “data
de C-14 de 1480 ± 70 anos A.P.”, que calibrada indica o ano de 628 d.C. (SI-
603), para o nível entre 0,80m e 1,00m de profundidade. É também nesse nível
e no próximo que os sedimentos de uma forma geral começam a parecer mais
finos, soltos ou compactados, com uma coloração variando do vermelho ao laranja
ou ao quase preto. No último nível, a sedimentação encontrada torna-se mais
escura e compactada, porém “o fogão contínua com as mesmas características.”56
Feita a escavação do interior da casa percebia-se que o piso inicial da habitação
era suavemente inclinado da periferia para o centro, com um desnível de
uns 15cm e era constituído, em sua maior parte, de rocha pouco alterada
(...). A parede da casa é inclinada, mais nos setores onde é composta de
rocha decomposta (D) e nos locais onde é formada por aterro (A); quase
vertical nos setores onde é constituída por rocha pouco alterada. 57 (Figura
14)
A escavação revelou que a fogueira manteve sempre a mesma posição durante
as ocupações, no setor B-C, chegando a 0,92m de altura com 1,30m por 0,90m
de diâmetros (Figura 13). Em todos os níveis havia outras evidências de fogo, de
espessuras e intensidades diferentes. Para os pesquisadores, se a grande fogueira
parece indicar uma extensa longevidade da ocupação, estes outros indícios de carvão
denotam ocupações também intensas em alguns momentos, aliadas a outros
períodos em que, com camadas mais finas de carvão, a ocupação tenha sido mais
esparsa.58 Podem ter ocorrido, em função de um número maior de moradores,
várias fogueiras simultâneas no interior da estrutura.
56 Schmitz e outros, (1988: 29-30)
57 Schmitz e outros, (1988: 30-31)
58 Schmitz e outros, (1988: 31)
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66
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Figura 15: Perfil da Trincheira 4 e da Estrutura 2, com o vaso Tupiguarani emborcado.
Fonte: Schmitz e outros, (1988:32).
Visando obter a localização de esteios, fogueiras e outros vestígios associados
ou pertencentes à habitação, foram escavadas no exterior da casa, quatro trincheiras
de dimensões e posicionamentos distintos, que revelaram um solo com coloração
variando de um pardo avermelhado ao marrom, ora compactado ora não. Em
determinados locais puderam ser definidas fogueiras em função do alto teor de
cinza e maior compactação, e “(...) em outros havia pequenos aglomerados de
fragmentos de rocha interpretados como suportes ou firmadores, de esteio de
telhado”. Também foram encontrados “(...) artefatos de quartzo, outros de basalto,
um seixo lascado, um fragmento de mão-de-pilão e um caco de cerâmica”.59
Na trincheira 4 (tangente ao ponto D), no fundo de uma depressão que se
assemelhava a uma casa pouco profunda60, foi recuperado um vasilhame
inteiro com decoração ungulada e contorno composto, típico da Tradição
Tupi-guarani; estava emborcado, aproximadamente no centro da depressão,
numa profundidade de 65cm. 61 (Figura 15)
Em síntese, a duração da ocupação pode ter sido muito longa, já que uma
das primeiras camadas arqueológicas nesta estrutura data do início do século VII.
Esta estrutura foi construída em terreno inclinado, composto em parte por basalto
pouco alterado e em parte por basalto em decomposição. O desnível do terreno foi
compensado com o aterro na parede Norte. Com a forma lembrando um tronco
de cone, tinha em média 11,00m de diâmetro na superfície e 6,35m na base.
59 Schmitz e outros, (1988: 31)
60 Depois confirmada por Schmitz como sendo a Estrutura B da FRSA 37, hoje considerada Estrutura 2.
61 Schmitz e outros, (1988:31)
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67
Incursões pela arqueologia do planalto
Foram encontrados materiais típicos da fase Taquara, tais como cerâmica, mãos-
de-pilão, raspadores, lascas e núcleos de quartzo e de outras rochas, locais ou não.
Os poucos vestígios alimentícios resumiam-se a cascas de pinhão calcinadas. Mesmo
com todos os dados colhidos sobre a disposição externa dos esteios, foi difícil
sugerir um modelo para a cobertura, ventilação e acessos da estrutura.62
O recipiente Tupiguarani
encontrado na Estrutura 2 (Fi-
gura 15) e outros fragmentos de
cerâmica Tupiguarani associados
a fragmentos de cerâmica da
Tradição Taquara e a estruturas de
piso rebaixado encontrados em
RS 38/126 CXS63; além dos
fragmentos encontrados no sítio
RS 134 CXS, em Fazenda Souza
(aproximadamente a 6,5km
deste), e do sepultamento Tupi-
guarani no sítio RS 129 CXS
(aproximadamente 17,8km des-
te), no Morro Cristal, sugerem
algum tipo de contato entre estes
dois grupos ceramistas.
A Estrutura 26 – “H” ou
“Casa B”
Quando do registro do sítio
RS 37 CXS esta estrutura foi
chamada, por Schmitz, de “H”.
Na campanha de escavação pas-
sou a ser nomeada de “Casa B”. Agora, com o objetivo de padronizar o mapeamento
62 Schmitz e outros, (1988: 31, 35)
63 Schmitz e outros, (1988: 35)
Foto 14: Fernando La Salvia e Guilherme Naue no
desenvolvimento da escavação da Estrutura 1 – Casa A.
Abril/Maio/1967. Foto: Pedro I. Schmitz.
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68
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Foto 15: Escavação
na Estrutura 26 –
Casa B ou H. Visão da
trincheira Oeste,
com as escoras de
pedras de um dos
esteios no centro.
Abril/ Maio de 1967.
Foto: Pedro I. Schmitz.
do sítio, será conhecida
como Estrutura 26. Ela está
localizada no divisor d’águas
no interior de capão de mato,
160m ao Norte-Noroeste da
Estrutura 1 (“A” ou “Casa
A”). A depressão tinha forma
concoidal e paredes pratica-
mente verticais com 5,20m
de diâmetro e 2,10m de
profundidade iniciais. Após
ser retirada uma camada de
0,80m de entulho, prove-
niente tanto da decompo-
sição de matéria orgânica,
como do desmoronamento
de parte das paredes, foi
escavada uma trincheira em
“L”, inspecionando a borda
superior e o interior da estru-
tura. A trincheira evidenciou:
que a estrutura havia sido
cavada em rocha basáltica, em
parte já decomposta; que os
níveis arqueológicos eram
menos espessos no centro da
estrutura; que a coloração das
camadas, inicialmente marrom, tornava-se mais avermelhada na medida em que a
escavação avançava e; que o piso era praticamente todo rochoso.64
A partir destas informações a estrutura foi subdividida em quatro setores e escavada
em níveis artificiais de 0,20m, chegando à profundidade final aproximada de 0,60m,
em que pôde ser constatada a existência de três camadas arqueológicas. A primeira,
64 Schmitz e outros, (1988: 24)
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69
Incursões pela arqueologia do planalto
mais profunda, correspondia ao
terceiro e parte do segundo nível,
atingindo uma espessura de até
0,40m; é composta de “sedimento
vermelho, medianamente compac-
tado, sem pedrinhas e com algum
carvão”. Entre o piso rochoso e esta
camada há uma fina lente de car-
vão, que corresponderia à primeira
ocupação. Nela estão: o fogão, o
poste central, um tronco carbo-
nizado, além de cerâmica e lítico.
Do tronco carbonizado foi colhi-
da amostra que indicou a data de
1330 ± 100 A.P. (SI-605), que
depois de calibrada nos leva para
o ano 799 d.C. Na segunda
camada, composta de um sedimento marrom mais avermelhado, a espessura variava
de 0,17m no centro da estrutura, a 0,50m junto à parede. Trata-se de uma ocupação
mais recente que a da camada anterior. “A maior parte da camada podia originar-
se de um teto de barro abaixo do qual se encontrariam os troncos queimados em
posição radial, como se fossem barrotes de sustentação”. A deposição de pedras
que divide esta camada daquela mais profunda pode ser um piso artificial. A grande
quantidade de grânulos de carvão encontrados (chegando em alguns pontos a
uma espessura de 0,05m) possibilitou a coleta de amostra que foi datada de 840
±60 A.P. (SI- 606), que ao ser calibrada sinaliza o ano de 1227 d.C. A terceira
camada, a mais recente, “(...) deve ser posterior à ocupação indígena, quando a
casa já estava caída e definitivamente abandonada”.65 (Figura 17)
Na parte externa da estrutura foram escavadas outras trincheiras “objetivando
constatar a presença e a disposição de eventuais suportes de telhado, da possível
entrada e dos dispositivos de arejamento”. Elas revelaram “nove evidências de postes,
dispostas em distâncias regulares de aproximadamente 150cm, exceto duas,
65 Schmitz e outros, (1988: 24-25)
Figura 16: Planta baixa da escavação da Estrutura 26 –
Casa B ou H. Fonte: Schmitz e outros, (1988: 26).
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70
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
66 Schmitz e outros, (1988: 24)
67 Schmitz e outros, (1988: 28)
separadas de apenas 80cm”, constituídas de amontoados de pedra de diversos
tamanhos, compactadas com terra, “ao redor de um pequeno espaço central vazio,
que seria ocupado pelo poste.”66 (Figura 16 e Foto 15)
Ao fim da escavação pôde ser constatado ainda: que pelo menos em uma das
ocupações a entrada da estrutura seria pelo lado Leste, já que neste flanco foram
encontradas as evidências dos esteios mais próximos; que “na parede correspondente
existem embutidos (...), à maneira de degraus, três pedras aplanadas, dispostas
em distâncias de 30 a 40cm”; que a estrutura foi cavada em declive e que o lado
mais baixo foi nivelado com o material retirado do interior da própria escavação; e
que as duas datas obtidas indicariam que a estrutura, em épocas bem distantes
(séculos VIII e XIII), teria sido ocupada por longos períodos. 67
A “CASA 4”
A “Casa 4” fazia parte do conjunto de seis estruturas das quais a numero 1 é a
maior, e acabou sendo destruída junto com outras duas estruturas quando da
construção de uma via interna da propriedade. Ela foi escavada em duas etapas
(1968 e 1970) por Schmitz e Lazarotto, que tinham como objetivo conhecer melhor
as estruturas das paredes. Para tanto a estrutura “foi atravessada por uma trincheira
Figura 17: Perfil C – D da Estrutura 26 (“H” ou “Casa B”), com indicação dos níveis de onde foi retirado
o carvão para as datações. Fonte: Adaptado de: Schmitz e outros, (1988: 27).
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71
Incursões pela arqueologia do planalto
de 4,80m de comprimento no eixo A-B” (Figura 18). Após isto a estrutura foi
escavada em direção ao ponto A, determinando uma profundidade, ao fim dos
trabalhos, de 2,00m e um diâmetro de aproximadamente 3,30m, incluindo as
banquetas.68
A visão que se tinha desta estrutura antes da escavação era a de uma “depressão
aproximadamente circular, com a parte central mais aprofundada e a parede
interrompida por uma banqueta”, que dá a ela a forma de uma calota, em que “a
parede, o piso e a superfície da banqueta (...) não são retas, mas curvas”. Após o
término dos trabalhos foi visualizado que a estrutura é “cercada por uma banqueta
alta, que poderia servir para dar acesso a casa e ser usado como acento.” Foram
também encontrados, na parte central e sobre a banqueta, blocos de rochas que
poderiam ser utilizados como suporte de esteios e, próximos a estes outros organizados
como fogão. A escavação registrou no interior da estrutura cinco camadas arqueológicas
que acompanham a forma concóide da estrutura. A primeira e a segunda (chegando
somadas a até 0,40m), com muita matéria orgânica e raízes e de consistência frouxa,
certamente posteriores ao abandono da estrutura; a terceira, “uma lente de carvão,
com espessura máxima de 12cm, decrescendo em direção a periferia (...), certamente
representa um período de ocupação”; a quarta, de sedimentos amarelados,
68 Schmitz e outros, (1988: 35)
Figura 18: Perfil estratigráfico da Casa 4. Fonte: Schmitz e outros, (1988: 37).
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72
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
69 Schmitz e outros, (1988: 36)
70 Schmitz e outros, (1988: 38)
compactados, com espessuras variando de 0,26m na borda até 0,45m no centro da
estrutura, onde foram encontrados “seis fragmentos de rocha, que são firmadores do
esteio central da habitação”; e a quinta camada, com sedimento de coloração cinza,
soltos, misturados a carvão, com espessura média de 0,20m, “(...) é a camada que
preenche a depressão inicial e representa a primeira ocupação”. 69
Estrutura 4 – “G” ou “CASA 9”
Localizada a aproximadamente 30m a Leste-Nordeste da Estrutura 1, tinha
as seguintes dimensões antes de ser escavada: 5,62m de diâmetro na linha A-B e
5,06m na linha C-D; e 2,10m de profundidade máxima. Após retirado o entulho
superficial, o espaço interno foi dividido em quatro setores, dos quais três foram
escavados em níveis artificiais de 0,20m e um em camadas naturais. Tangencial-
mente à borda foram escavadas quatro trincheiras, além de outra perpendicular às
de número 1 e 2, totalizando cinco.70 (Figura 19)
Somando as informações conseguidas a partir do método empregado nesta
escavação, pode-se dizer que a base da estrutura formava, como na “Casa 4”, “uma
depressão concoidal com banqueta alta ao redor da borda”; que “no centro (...)
Figura 19: Planta baixa da escavação na
Estrutura 4 (G ou Casa 9). Fonte: Schmitz e
outros, (1988: 41).
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73
Incursões pela arqueologia do planalto
parece ter havido um esteio do telhado”; e que “a pequena casa parece ter sido
ocupada em diversas oportunidades, como as outras, permitindo o crescimento de
um fogão central com 74cm de altura e ao menos dois pisos de chão”.71
As trincheiras externas revelaram apenas duas camadas distintas: uma, de
“solo escuro, com muito húmus e solto (...); depois solo amarelo-ocre compactado,
com alguns elementos rochosos altamente meteorizados.” Nos locais em que há
“fragmentos rochosos com carvão”, geralmente o solo se apresenta mais escuro e
descompactado. A ocorrência destes fragmentos concentrados com carvão supõe a
existência de fogueiras, “mas, por sua distribuição regular na periferia da casa,
parece tratar-se antes de bases de esteios do telhado”, levando os pesquisadores a
imaginar um “telhado cônico, um pouco levantado do chão e com a parede do
lado de fora da borda da casa”.72
Em 2005 foi analisada uma amostra de carvão retirada da base desta estrutura
e a data de 14C aferida foi 960±60 A.P. (Beta 153841), que calibrada corresponde
ao ano 1108 d.C. Mais uma vez é provada a continuidade da ocupação dessa área,
desde o século VI até o século XIV.
71 Schmitz e outros, (1988: 39), grifo meu
72 Schmitz e outros, (1988: 40)
Foto 16: Imagem da esca-
vação da Estrutura 4 (G ou
Casa 9). Foto: Pedro I. Schmitz.
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74
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Figura 20: Perfil estratigráfico da escavação do Montículo 1.
Fonte: Adaptado de Schmitz e outros, (1988: 43).
O Montículo 1 – M1
Segundo os registros ficava próximo aos outros dois escavados e da Estrutura
26, porém, seu vestígio não foi localizado na recente inspeção. Foi João Alfredo
Rohr que, em 1967, o escavou. Sua forma lembrava uma elipse, com 6m por 5m
de diâmetros e 1,32m de altura. Era composto somente por terra e em parte de
seu perímetro ainda podia ser visualizada uma vala rasa. Na prospecção foram
encontradas quatro camadas, sendo uma delas, a inferior, de solo estéril. No interior
do montículo foram registrados vários alvéolos de formato circular; que para Rohr
poderiam ser vasos cerâmicos não cozidos e para Schmitz simplesmente vestígios
de tatus. Na terceira e quarta camadas foi recolhida amostra de carvão para datação.
A amostra do nível de 55cm revelou 630 ± 70 A.P. (SI-604), que ao ser calibrada
nos leva para 1362 d.C; por sua vez, a amostra do nível de 80-100cm caiu em
1140±40 ou 810 d.C. (SI- 602), que calibrada evidencia o ano de 954 d.C.
(Figura 20). Tais dados são coerentes com as outras datações do sítio e reforçam a
idéia de continuidade de ocupação. Para os pesquisadores, mesmo que não tenham
sido encontrados ossos, tal montículo pode realmente ser uma sepultura, já que a
renovação destas “é comum entre os grupos Kaingáng”.73
73 Schmitz e outros, (1988: 42,44)
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75
Incursões pela arqueologia do planalto
O “Montículo 2” – M2
Segundo os regis-
tros estava colocado
próximo do Montículo
1 e da Estrutura 26.
Antes da escavação ti-
nha, da mesma maneira
que M1, a forma elip-
sóide medindo 4,50m
de comprimento, 2,05
de largura, por 1,40m
de altura máxima. A
escavação revelou duas camadas. A primeira é formada praticamente “pelo acúmulo
formado por blocos de rocha de tamanhos variados, entremeados de terra e pequenas
pedras em decomposição, que dão à terra uma cor avermelhada. O acúmulo (...)
termina na rocha original” (Foto 17). A segunda camada, mais profunda, “é
constituída por terra marrom, com raízes de diversos tamanhos e pequenas pedras
esparsas”. Na base da escavação foram encontrados dois “nichos montados com
pedras justapostas e que formam em espaço cheio de terra solta e poderiam indicar
lugares de deposição de mortos, ou de cinzas dos mesmos.”74
Em Maio de 2006 identificamos a cova resultante da escavação realizada.
Nas extremidades da área escavada percebemos uma forma ligeiramente quadrada
e uma profundidade que gira atualmente em torno dos 40 cm, apesar dos
desmoronamentos provocados por processos erosivos; já no interior, onde é obtida
a profundidade máxima de 82 cm, a forma do poço é ligeiramente circular. Na
porção Oeste aparece um pequeno platô onde foi depositada a terra removida com
o processo de escavação. Na sua superfície estão colocados, numa área de
aproximadamente 7m2 na porção central, os diversos blocos de basalto dos mais
variados tamanhos e formas que foram sendo retirados durante o desmanche do
montículo. (Foto 18)
74 Schmitz e outros, (1988: 46)
Foto 17: Imagem do desenvolvimento da escavação no Montículo 2.
Foto: Pedro I. Schmitz.
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76
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
O “Montículo 3” – M3
Pelos registros estava situado perto do Montículo 2, “num declive mais
acentuado em direção à nascente; um pouco acima do mesmo há um terraço de
pedras que parece pré-histórico75, formando um degrau no declive acentuado.” Tem
diâmetro de 4,00m e altura de 1,40m. Em uma das metades foram escavadas duas
quadrículas, estando entre elas uma berma para controle estratigráfico. A escavação
revelou como nos outros dois casos “duas camadas superpostas e na inferior uma
regular quantidade de carvão que parece ter sido produzido aí mesmo”.76
75 Este “terraço de pedras” num “declive acentuado” descrito como referencial para encontrar o Montículo 3 em
Schmitz e outros, (1988: 47) e Schmitz & Becker, (1991: 71), pode ser a Estrutura 24, que fica no mesmo
plano e numa porção mais a Sudoeste de M2 e M3. A dica referencial “um pouco mais acima” é imprecisa, pois
esbarra no fato de que M2 e M3 já estão num dos pontos mais altos da colina.
76 Schmitz e outros, (1988: 47)
Foto 18: No primeiro plano a visão do poço de M2. Foto: Rafael Corteletti.
Figura 21: Perfil estratigráfico
do Montículo 3. Fonte: Schmitz
e outros, (1988:48).
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77
Incursões pela arqueologia do planalto
Em Maio de 2006 identificamos o vestígio da escavação do Montículo 3 a
poucos metros da Estrutura 26 e do Montículo 2. Da mesma forma que no
Montículo 2 realizamos uma “limpeza” em seu perímetro para a realização de
medições e fotografias. A observação do perfil estratigráfico do Montículo 3 (Figura
21), desenhado durante a escavação, da fotografia realizada durante a escavação
(Foto 19), e da fotografia retirada atualmente (Foto 20) revela a pequena alteração
na silhueta da parede, apesar do desmoronamento da berma. Atualmente as
quadrículas abertas formam apenas um poço com uma largura de 1,80m e um
comprimento de 3,80m.
74 Schmitz e outros, (1988: 46)
Foto 19: Desenvolvimento da escavação no Montículo 3. Foto: Pedro I. Schmitz.
Foto 20: Os senhores Nilo
Corteletti e Vitor Calgaro atrás
do Montículo 3. Foto: Rafael
Corteletti.
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78
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Passados 40 anos do início do processo de pesquisa arqueológica no planalto
sul-brasileiro e em específico das escavações neste sítio, observamos que a
problemática das “casas subterrâneas” continua necessitando de mais pesquisas e
debates. Tanto é verdade, que apesar das inúmeras conjecturas lançadas nos também
inúmeros trabalhos científicos realizados de lá para cá, permanece a sensação que
muito conhecimento há por ser produzido em torno destes vestígios culturais. A
campanha de escavação, que foi alvo desse breve relato, foi a primeira deste porte
no país e lançou uma série de hipóteses que muitas das vezes permanecem vivas e
tão fortes como no dia em que foram sugeridas. Uma delas é de que algumas das
estruturas poderiam ser construídas por uns e reocupadas por outros em momentos
cronológicos muito distintos. O entendimento que se tem de como a estrutura era
construída (em terreno inclinado, fazendo aterros, etc.), surge nessa escavação e
pouco muda no decorrer dos anos. Suposições de como seria a cobertura também
surgem ali e muitas delas ainda não foram refutadas. Perante tudo isso, o sítio RS
37/127 CXS talvez seja um dos mais importantes para a “Arqueologia das Casas
Subterrâneas”, e por que não dizer para a Arqueologia Brasileira.
O Sítio RS 38/ 126 CXS
Ele fica a menos de 100m do capão do sítio RS 37/127 CXS. O sítio foi
catalogado por Schmitz em 15/01/1966 e posteriormente por La Salvia em 11/
07/1966. Há divergência nos dados de registro já que Schmitz cita três estruturas
enquanto La Salvia apenas duas. Porém os dados de localização, em divisa de
propriedades, e os nomes dos proprietários (na época Guilherme Andreazza e
Antônio Vergani) nos levam a crer que seja o mesmo sítio.
Atualmente Ambrósio Andreazza (filho de Guilherme) e Tarcísio Vergani
(filho de Antônio) fazem a divisa. Todas as três estruturas tinham dimensões
avantajadas e encontram-se em processo de entulhamento. Por serem bem amplas
ainda vai demorar um tempo para que desapareçam, a não ser que se incentive a
idéia de preservá-las. Como registrado por Schmitz em 1966, duas estão exatamente
na divisa das propriedades (no lado de Andreazza) e outra em meio a uma plantação
(no lado de Vergani).
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79
Incursões pela arqueologia do planalto
Nos arredores das estruturas, a aproximadamente 200m delas, foram
encontradas e recolhidas, quando das primeiras inspeções, grande quantidade de
fragmentos de cerâmica da Tradição Taquara e da Tradição Tupiguarani e duas
mãos-de-pilão77. Nas recentes visitas não detectamos nenhum fragmento destes
tipos de material.
O Sítio RS 39 CXS
Schmitz apenas fez o registro deste sítio, não chegando a inspecioná-lo.
Segundo ele a “caverna nos paredões do Rio Piaí, (…) continha antigamente
numerosos esqueletos, dos quais restam (...) principalmente dentes”, já que “a
maior parte dos ossos vem sendo extraviada”.78
Quando visitamos este local não tínhamos idéia do que exatamente
encontraríamos. A caverna fica na
propriedade de Alfredo Rossi. Seu
filho, Nei, nos guiou até ela.
Chegando lá visualizamos o abrigo
com uma passagem para uma galeria
interna. Segundo os moradores, na
galeria é encontrada uma espécie de
giz, do qual recolhemos uma amostra,
identificada como concressão atrelada
ao basalto. O acesso a esta “sala dos
fundos” se dá através de uma passagem
com 2,00m de largura, 0,70m de
altura e 3 a 4m de comprimento.
A caverna fica nas paredes do vale,
a menos de 50m do Arroio Maman-
gava, afluente da margem esquerda do
77 A ocorrência da cerâmica Tupiguarani é citada em Schmitz e outros, (1988: 35), não sendo citada nem em
FRSA – RS 38 CXS, nem em FRSA – RS 126 CXS. As fichas de registro falam das mãos-de-pilão, uma delas
medindo 68,5cm, e “duas dúzias de cerâmica simples ou ponteada, ou beliscada, do tipo Osório.” A cerâmica foi
recolhida ao IAP e as mãos-de-pilão ficaram com a UCS, estando provavelmente no acervo do Leparq.
78 FRSA – RS 39 CXS
Figura 22: Croquis da gruta com sepultamento
RS 39 CXS
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80
Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
Piaí. O terreno desta tem acentuada inclinação e a mata é bem fechada. Foram
feitas fotos, mas a pouca luminosidade e a chuva comprometeram totalmente a
qualidade do registro. Nesta inspeção não foram encontrados vestígios de ocupação
humana pré-colonial. A indicação de Schmitz de que a gruta ficava nos paredões
do Piaí pode nos levar a duas conclusões. A primeira é a de que realmente estamos
diante do sítio registrado, mas não visitado por ele; e a segunda é a de que realmente
existe outra gruta exatamente nos paredões do Piaí, que ainda desconhecemos.
O Sítio RS 128 CXS
A área anteriormente mapeada por La Salvia, em 13/07/1966, como mata de
araucária, hoje, depois de desmatada, é utilizada para o cultivo de tomate. Foram
feitas três visitas a este sítio localizado na propriedade de Ari Andreazza na margem
Norte da estrada da Linha Raposo, durante a realização do levantamento de dados.
Na primeira e segunda visita (em 1999 e 2000) foram localizadas em campo
antrópico no topo de colina quatro estruturas. Três delas formando um conjunto
e a outra, isolada, a aproximadamente 150m das três primeiras. Distante 200m
deste pequeno conjunto, também em topo de colina, porém com mata preservada,
encontramos mais duas estruturas na direção Leste (Figura 23). Nesta inspeção foi
relatado pelo Senhor Ari a existência de outra estrutura79, próxima da cerca da
propriedade junto a estrada, que já foi entulhada por estar em área de cultivo.
Segundo Andreazza há pelo menos mais duas estruturas preservadas no interior da
mata em sua propriedade que, apesar das insistentes tentativas, não pudemos
conferir.
Na inspeção realizada em 12/03/2006 foi constatada a destruição de três das
seis estruturas mapeadas nos anos de 1999 e 2000. Estas três estavam em topo de
colina no campo antrópico onde hoje é cultivado tomate, uma das principais
culturas plantadas na região. O senhor Ari Andreazza vendeu a parte de campo de
sua propriedade e migrou para a cidade de Caxias do Sul, arrendando o restante
para Nelson dos Santos, seu sobrinho.
79 Para efeitos de registro a chamaremos de Estrutura 7. Sua existência foi citada na FRSA – RS 34. Segue o relato:
Outro buraco duvidoso encontra-se no terreno do vizinho, Ari Andreazza, no mato ao lado da estrada (uns 5m. da
estrada). Trata-se de buraco aproximadamente circular, com uns 3m. de diam. por 5 de profund.
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Incursões pela arqueologia do planalto
Enquanto fazíamos
tais inspeções em 1999 e
2000, foi registrado por
Jacson M. Corteletti a
ocorrência de uma lebre
(Lepus sp.), de uma perdiz
(Nothura maculosa), de
bugios (Alouata fusca) e de
falcões (Milvago chiman-
go). Algumas das espécies
vegetais identificadas por
ele na mata foram: Erva-
mate (Ilex paraguariensis),
Açoita-cavalo (Luehea divaricata), Embira-branca (Daphnopsis racemosa),
Guabirobeira (Campomanesia xanthocarpa), Araticum (Rollinia sp.), Cerejeira
(Eugenia involucrata), Camboatá vermelho (Cupania vernalis), Sucará (Dasyphylum
spp. e Xylosma spp.), Guaçatunga (Casearia decandra), Araçá (Psidium cattleianum),
Gerivá (Syagrus rommanzofiana), Branquilho (Sebastiania klotzschiana), Murta
(Blepharocalyx salicifolius), Canelas (Nectandra spp. e Ocotea spp.), Pitanga (Eugenia
uniflora) e Araucária (Araucaria angustifolia).
O Sítio RS 130 CXS
Foram localizadas
dentro de mata nativa 14
estruturas, conforme ma-
peamento realizado por La
Salvia em 21/07/1966. Na
inspeção de 10/02/2006
foi constatada a existência
de mais uma estrutura, so-
mando então 15 estrutu-
ras. Além disso foram feitas
Figura 23: Croqui desenhado no ano de 2000 para o
Sítio RS 128 CXS
Foto 21: Medição da estrutura de número 12, em 10/02/2006,
no Sítio RS 130 CXS. Foto: Leandro A. Anton.
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
80 Rios, (1970)
pequenas alterações em relação ao posicionamento que La Salvia deu às estruturas
quando de seu mapeamento. O antigo proprietário, Ernesto Scopel, é sogro do
atual, Geraldo Scopel. Este sítio fica na estrada da Linha Raposo (que leva de
Santa Lúcia a Vila Oliva via Tabela), onde também estão as entradas das propriedades
dos sítios RS 128, e RS 37/127. A entrada de RS 130 fica entre estes dois e é bem
vistosa. Uma grande porteira com uma placa com a inscrição “Granja Scopel”
sinaliza a entrada, que fica na margem sul da estrada.
Esse conjunto encontra-se
preservado por iniciativa do
proprietário. Scopel, nos úl-
timos vinte anos, vem reco-
lhendo materiais líticos e
cerâmicos, tendo atualmente
em torno de 30 peças, todas
recolhidas fora da mata que
abriga as estruturas. Entre as
peças identificamos mãos-de-
pilão, machados polidos, ta-
lhadores bifaciais e raspadores.
Segundo ele não há ocorrência de cerâmica. Na coleção da família há um exemplar
de Adelomelon brasiliana80, concha marinha, que é um indício da ocupação por
esse povo de um extenso território, que abarcava desde as altas terras dos pinheirais,
os vales das matas e dos rios, até as planícies costeiras com suas lagoas e o oceano.
Não falo necessariamente em migração das pessoas que habitaram este sítio, mas
falo da migração da concha pela mão de, quem sabe, dezenas de homens desde o
litoral até o sítio. (Foto 22)
É nítido o semicírculo que o conjunto de estruturas de número 12, 11, 10,
9, 13, 15 e 14 forma na borda Norte do matagal em que todas as estruturas deste
sítio estão inseridas. Deste ponto até a nascente (banhado) mais próxima caminha-
se em torno de 150m (Figura 24).
Foto 22: Peças da coleção de RS 130 CXS. A: Mão-de-pilão
em basalto sextavada; B: Mão-de-pilão em basalto com
extremidade em cunha; C: Adelomelon brasiliana.
Fotos: Jacson M. Corteletti.
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Incursões pela arqueologia do planalto
2.2.2. Santo Antônio
O Sítio RS 36 CXS
Já na inspeção feita por Schmitz em 13/01/1966, era apontada a iminente
destruição total do sítio localizado em frente da Igreja de Santo Antônio, a cerca
de 2 km ao Sul da sede do distrito de Santa Lúcia do Piaí. A estrutura que naquela
época, em função da agricultura, já não existia proporcionava uma área de coleta
superficial bem ampla. Atualmente, Santo Pfeifer, filho de Joaquim Pfeifer, o antigo
proprietário, diz não encontrar mais nem um tipo de material arqueológico como
era encontrado a quinze ou vinte anos atrás.
2.2.3. Vila Oliva
O Sítio RS 32/123 CXS
Catalogado por Schmitz em 12/01/1966 e em 26/06/1966 por La Salvia. A
Fazenda Casa Branca, propriedade da Família Pereira tem em seu vasto capão de
araucárias três estruturas, além de outras três em clareira do interior deste mato.
Figura 24: Croqui da inspeção de 2006 em RS 130 CXS
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
81 FRSA – RS 123 CXS
Figura 25: Croquis de La Salvia para o poço teste escavado em 1966,
em RS 32/123 CXS. Fonte: FRSA RS 123 CXS.
Em sua visita Schmitz só identificou as três primeiras. Depois La Salvia
complementou os dados, fazendo ainda um poço teste na maior de todas elas.
La Salvia as dividiu em dois grupos. As três primeiras, no interior do mato,
seriam pertencentes a um grupo que está distante aproximadamente 200m a
Sudoeste do outro grupo, em clareira. O poço teste aberto na estrutura número 1
alcançou a profundidade de 1,10m e evidenciou até a última camada muitas raízes
que contaminaram o carvão encontrado. “Na profundidade máxima” foram
encontradas “pedras dispostas em forma de fogão”. Esta estrutura possui um aterro
que no ponto máximo atinge 1,70m de altura. 81 (Figura 25)
Após vários quilômetros rodados, muitas conversas em beira de estrada, em
informações daqui e dali, a porteira da Fazenda Casa Branca foi encontrada na
margem Norte da Estrada da Tabela, a aproximadamente 4km para o Nordeste do
entroncamento desta com a estrada que liga Fazenda Souza a Vila Oliva. Não
entramos por que ninguém mora nela atualmente. O senhor Jaime Pereira faleceu
no ano de 2003, quando a fazenda foi arrendada por Paulo Girardi, morador de
Caxias do Sul, que é quem pode permitir ou não o acesso à propriedade. Apesar
dos contratempos e da impossibilidade de verificar a conservação das estruturas e
do sítio, a sua localização aproximada nos auxilia e muito numa análise geral da
distribuição dos sítios. (Mapa 02 e Figura 07)
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Incursões pela arqueologia do planalto
O Sítio RS 35 CXS
Sítio Superficial localizado junto a Escola do Bem Te Vi em Vila Oliva, na
propriedade de Dolvino Buffon, mapeado por Schmitz, que em 1966 já era relatado
como destruído. Nele foram coletadas duas mãos-de-pilão.
2.3. Microrregião Vila Seca
A Microrregião Vila Seca é composta de sete sítios. Um deles é uma gruta
com sepultamento, os outros 06 sítios são de casas subterrâneas onde foram
catalogadas 10 estruturas. Destas dez, cinco foram registradas pela primeira vez,
estando três nos dois novos sítios catalogados e duas no sítio RS 63 SFP. A região
apresenta a maior média e a menor oscilação de altitudes entre todas as microrregiões
estudadas, já que cinco sítios estão locados entre 940m e 959m. O ambiente é dos
Campos de Cima da Serra, e são ali encontradas as nascentes de inúmeros afluentes
do Rio das Antas como o Rio São Marcos, o Arroio das Marrecas, o Arroio
Figura 26: Imagem de Satélite da Microrregião Vila Seca.
Fonte: Adaptado de INPE - CBERS, cena completa de 02/09/2007.
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Patrimônio Arqueológico de Caxias do Sul
82 Schmitz & Becker, (1991: 68)
Local Sítio Latitude Longitude Altitude
(m)
Estruturas
Catalogadas
Estruturas
identificadas
RS 33 29º05’56”S 50º52’20,9”W 952 02 02
RS 62 29º05’18,48”S 50º52’22,76”W 950 01 01
Apanhador RS 63 29º05’2,8”S 50º51”39,3’’W 959 02 04
Da
Rosa
29º04’46,6”S 50º52’36,1”W 951 Nenhuma 01
RS 40 29º01’65,85’’S 50º56’49,56’’W 874 02 ?
Vila Seca RS 41 29º00’S 50º58’W Gruta com Sepultamento
Scain 28º59’02,8”S 50º51’39,3”W 940 Nenhuma 02
Ranchinho, o Arroio da Mulada, o Rio Lajeado Grande, e, também, inúmeros
afluentes do Rio Caí, como o Arroio Cavalhada e o Rio Piaí.
O Sítio Arqueológico seminal das pesquisas no Rio Grande do Sul está inserido
nesta área. O sítio RS 40 CXS foi visitado em 1960 por Alan Bryan, que aconselhou
sua escavação por ser “muito parecido com as casas subterrâneas dos Estados Unidos
e do Canadá” 82. A data da análise de 14C nos leva para 1520 ± 90 A.P. transformando
este sítio no mais antigo já datado para o município de Caxias do Sul e, por
conseqüência, da Zona de Estudos.
Tabela 07: Localização dos Sítios da Microrregião Vila Seca
2.3.1. Apanhador, São Francisco de Paula
O Sítio RS 33 SFP
Inspecionado por
Schmitz em 12/01/1966.
Este sítio localiza-se em
meio à zona dos campos de
cima da serra, na Fa-
zenda dos Lahm, de pro-
priedade de Carlos Lahm.
A aproximadamente 1,8km
da Vila do Apanhador na
margem Oeste da estrada
Foto 23: Inspeção realizada em 12 de Janeiro de 1966
em RS 33 SFP. Foto: Pedro I. Schmitz.
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Incursões pela arqueologia do planalto
que liga essa localidade a Vila Oliva e o Juá encontram-se duas estruturas no
“campo limpo”. Para Schmitz “as duas crateras estão ao abrigo de uma coxilha com
vertente íngreme, perto de um banhado e de uma sanga, havendo água próxima
em dois lados.83
Nas inspeções realizadas em 1999 e 2006, foram coletados dados gerais do
sítio. A dita sanga foi localizada em meio a mata ciliar no lado Leste da estrada
(que corta o sítio ao meio), a uns 90 metros, descendo outra colina de forte
inclinação; já o banhado, fica a aproximadamente 220m para o Oeste das estruturas,
em cima da dita coxilha. No plano desta tem-se ampla e bela visão das direções
Leste e Sul.
Atualmente a estrutura nú-
mero 1 encontra-se mais entulhada
que a de número 2. Em seu interior
crescem diversas espécies de pe-
quenos arbustos. Como o processo
erosivo (seja fluvial ou eólico) está
mais adiantado nesta estrutura,
suas paredes são bem inclinadas,
facilitando o acesso ao interior, o
que pode ser um facilitador da
degradação; tanto de animais que
por ventura adentrem nela, mas
principalmente por curiosos. De
maneira geral sua forma parece com
a de um cone invertido (com base
de diâmetro muito grande e altura
pequena). A Estrutura 2, por sua
vez, é protegida pelas quatro árvo-