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Algumas Vantagens do Uso da Cal em Pasta em Revestimentos

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O avanço das tecnologias fez perder saberes ancestrais e, deixaram de estar disponíveis materiais de construção utilizados durante séculos. O uso da cal aérea foi sendo excluído das construções, sobretudo pelo aparecimento do cimento. Hoje procura-se retomar a aplicação da cal na recuperação de edifícios antigos, mas os construtores, de uma maneira geral, rejeitam esta opção dado que o processo de endurecimento é muito diferente quando comparado com o dos ligantes hidráulicos, obrigando a tempos de espera bastante alar-gados entre as várias camadas de aplicação dos revestimentos. Por outro lado, sabe-se que a cal em pasta foi a forma preferencial de utilização deste ligante até o desenvolvimento tecnológico permitir apresentar este produto sob a forma de pó e ensacado. Um dos riscos de quem usa a cal aérea em pó deve-se ao facto de este ligante entrar facilmente em processo de carbonatação quando não se encontra devidamente armazenado. Na presente comunicação, pretende-se apresentar alguns resultados experimentais, nomeadamente aplicações em obra e ensaios laboratoriais de uma investigação a decorrer, sobre o uso da cal em pasta. Este estudo está a ser elaborado no âmbito de uma tese de doutoramento que conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e se insere num projecto, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, sobre a influência das técnicas de preparação da cal no desempenho dos revestimentos.
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ALGUMAS VANTAGENS DO USO DA CAL EM
PASTA EM REVESTIMENTOS
Maria Goreti Margalha*
Correio electrónico:
mgoreti@netvisao.pt
Maria do Rosário Veiga
Correio electrónico:
rveiga@lnec.pt
Jorge de Brito
Correio electrónico:
jb@civil.ist.utl.pt
Resumo
O avanço das tecnologias fez perder saberes ancestrais e, deixaram de es-
tar disponíveis materiais de construção utilizados durante séculos. O uso da
cal aérea foi sendo excluído das construções, sobretudo pelo aparecimento do
cimento. Hoje procura-se retomar a aplicação da cal na recuperação de edifí-
cios antigos, mas os construtores, de uma maneira geral, rejeitam esta opção
dado que o processo de endurecimento é muito diferente quando comparado
com o dos ligantes hidráulicos, obrigando a tempos de espera bastante alar-
gados entre as várias camadas de aplicação dos revestimentos.
Por outro lado, sabe-se que a cal em pasta foi a forma preferencial de uti-
lização deste ligante até o desenvolvimento tecnológico permitir apresentar
este produto sob a forma de pó e ensacado. Um dos riscos de quem usa a cal
aérea em pó deve-se ao facto de este ligante entrar facilmente em processo de
carbonatação quando não se encontra devidamente armazenado.
Na presente comunicação, pretende-se apresentar alguns resultados expe-
rimentais, nomeadamente aplicações em obra e ensaios laboratoriais de uma
investigação a decorrer, sobre o uso da cal em pasta. Este estudo está a ser
elaborado no âmbito de uma tese de doutoramento que conta com o apoio da
Fundação Calouste Gulbenkian e se insere num projecto, financiado pela
Fundação para a Ciência e a Tecnologia, sobre a influência das técnicas de
preparação da cal no desempenho dos revestimentos.
Palavras-chave: Argamassa, Cal em pasta, Maturação da cal.
* Engenheira Civil, Câmara Municipal de Beja
Engenheira Civil, Laboratório Nacional de Engenharia Civil
Engenheiro Civil, Instituto Superior Técnico
1 Considerações iniciais
Até ser descoberto o cimento no século XIX, a cal terá sido o ligante preferen-
cial, tendo desempenhado um papel importantíssimo e ainda visível em muitas
construções antigas. É importante ter presente que o cimento tem qualidades indis-
cutíveis mas que, em argamassas destinadas à recuperação de alvenarias antigas
não é aconselhável, dadas as características que lhes confere e que as tornam in-
compatíveis com os materiais antigos, como a insuficiente permeabilidade ao vapor
de água, o elevado módulo de elasticidade e a presença de hidróxidos alcalinos que
podem reagir com as soluções salinas que penetram por capilaridade, originando
sais solúveis.
Acontece que muitos construtores são desfavoráveis à utilização da cal porque
já não dominam a forma de preparar e aplicar este material que tem um processo de
endurecimento muito diferente dos ligantes hidráulicos. Este processo de carbona-
tação lento das argamassas de cal hidratada não convida à sua aplicação em rebo-
cos e acabamentos, onde apesar de tudo na última década recomeçaram a ser usa-
das de uma forma tímida em obras de recuperação, e muito menos em argamassas
de assentamento e em injecções para consolidação de alvenarias, onde o contacto
com o ar é praticamente inexistente e portanto o endurecimento é ainda mais lento.
Também alguns processos tradicionais de execução de argamassas deixaram de
ser praticados. As argamassas são actualmente preparadas no dia em que vão ser
aplicadas e, quando se utilizam ligantes hidráulicos, é fundamental que assim acon-
teça. No entanto, os ligantes aéreos, desde que se mantenham convenientemente
humedecidos, poderão ser preparados antecipadamente em relação à data de apli-
cação em obra. Nos inquéritos efectuados a pedreiros em trabalhos anteriores [1],
foi indicado por estes que era frequente deixar as massas, em traço, com pouca
água, um dia ou mais antes de serem aplicadas. Há referências a que o traço ficava
a aguardar quinze dias, um mês ou mais antes de ser aplicado. [1, 2, 3, 4].
Também na cal em pasta, dado que a presença em excesso da água não permite
o seu contacto directo com o ar, não há o risco da carbonatação do material, pelo
que, quando é utilizado, toda a cal funciona como ligante, o que nem sempre acon-
tece com a cal hidratada em pó.
2 Materiais seleccionados
No trabalho laboratorial desenvolvido procurou-se conhecer a influência do
processo de preparação da argamassa na qualidade da mesma e simultaneamente a
influência do tempo de maturação da cal. Por outro lado, procurou-se estudar ar-
gamassas executadas em obra preparadas com cal em pó e em pasta, com diferentes
tempos de extinção. Para o efeito, foram estudadas argamassas em pasta e na fase
endurecida, analisando tempos de secagem distintos.
Para os ensaios, foram seleccionados os seguintes materiais:
AREIAS E MISTURAS:
A1 - areia de areeiro de Santa Margarida - fina;
A2 - areia de areeiro de Santa Margarida - grossa;
A3 - mistura de areias de areeiro de Santa Margarida - 1/3 fina + 2/3 grossa;
CAIS:
Ca 1 - Cal hidratada da Lusical em pó;
Ca 2 - Cal em pasta - União de Gessos - extinção prolongada - 5 anos (2000);
Ca 3 - Cal em pasta - zona de Trigaches - extinção recente - (2005);
Ca 4 - Cal em pedra - União de Gessos.
2.1 Influência do processo de extinção da cal
Em trabalhos anteriores [1], na análise mineralógica de amostras de cal branca
e de cal preta, verificou-se que a percentagem de cal carbonatada é elevada quando
o produto é armazenado em condições deficientes, chegando a atingir o valor de
25% (Tabela 1). Tabela 1: Análise mineralógica de algumas cais
Local
CaCO
3
CaMg(CO
3
)
2
Ca(OH)
2
Mg(OH)
2
CaO
MgO
Alcanede
23.0
--
74.0
--
--
--
Montes Claros
(branca)
25.0
--
70.0
--
--
--
Montes Claros
(preta - fornecedor)
22.8
vestígios
42.8
17.6
--
--
Montes Claros
(preta - obra)
9.0
--
51.0
37.0
1.0
1.0
De facto repare-se que a cal preta, quando extinta pelo fornecedor, acusou va-
lores mais elevados de cal carbonatada do que a cal extinta em obra. O tempo que
medeia desde a altura em que a cal é extinta e a sua utilização em obra, bem como
o cuidado no processo de armazenamento do material são fundamentais para que
esta mantenha as suas características. O facto de os pedreiros, quando inquiridos,
referirem que as cais actuais já não têm as características das cais antigas pode es-
tar fortemente relacionado com os processos de execução da argamassa, porque
eram os próprios que faziam a extinção da cal em obra e a utilizavam após ser tra-
çada com a areia. Com estes procedimentos, evitava-se que a cal estivesse em
por períodos prolongados e, naturalmente, evitava-se a sua combinação com o dió-
xido de carbono da atmosfera antes de ser utilizada.
Nos ensaios efectuados em laboratório para avaliação do processo de extinção
da cal, a cal em pedra, CaO, foi partida em pequenas porções, sendo depois incor-
porada na mistura das areias A1 e A2 que foram utilizadas secas (Figura 1). O traço
de 1 (ligante em pedra) : 3 (agregado), foi medido em volume adicionando um
balde de cal em pedra a dois baldes de areia grossa e um balde de areia fina, procu-
rando traduzir a forma de utilização destes materiais em obra. À mistura foi, poste-
riormente, adicionada água em pequenas quantidades para garantir que toda a cal
hidratava, com a transformação do óxido de cálcio em hidróxido de cálcio:
CaO + H2O → Ca (OH)2
Figura 1: Várias fases da preparação da mistura de areia com cal viva
A massa foi preparada num dia e os provetes foram moldados em duas fases,
após um dia - argamassa 12 B - e após sete dias da sua preparação - argamassa 12
B1. A pasta foi mantida num recipiente que foi tapado para evitar a evaporação da
água, mantendo húmida a argamassa e não permitindo a sua carbonatação.
As argamassas, antes de serem moldadas, foram introduzidas na misturadora
onde foi adicionada alguma água até as pastas ganharem uma adequada consistên-
cia. Na Tabela 2, são fornecidas as quantidades de materiais adicionados.
Tabela 2: Materiais utilizados e massas volúmicas
Água
Ca 4
A2
A1
Massa volúmica (kg/m3)
1000
333.85*
1 485.4
1 452.4
Quantidade de material
11 l
5 341.0 g
18 140.8 g
7 957.9 g
* Considerando que a cal em pedra aumenta de volume 2.0 vezes quando é hidratada, facto
este baseado em ensaios preliminares que se fizeram
O processo utilizado originou a introdução de uma grande percentagem de li-
gante. Introduzindo, posteriormente para cálculo, as massas volúmicas dos materi-
ais, concluiu-se que o traço volumétrico usado foi de 1 (ligante em pó) : 1.11
(agregado).
Na Tabela 3, são apresentados os resultados dos ensaios efectuados com as ar-
gamassas em pasta com o traço em volume calculado.
Tabela 3: Resultados dos ensaios das argamassas em pasta preparadas para o estudo de ma-
turação da cal
Identificação da argamassa
12-B
(1dia)
12-B1
(7 dias)
Quantidade de água (ml)
250
80
Espalhamento (mm)
142
148
Massa volúmica em pasta (kg/m
3
)
1 863.4
1 920.6
Pôde-se apurar, durante a execução dos provetes, que após sete dias de repou-
so, os materiais areia e cal estavam mais ligados entre si, tendo-se registado um va-
lor superior da massa volúmica, para além de ter sido necessário adicionar uma
quantidade muito menor de água para obter uma trabalhabilidade suficiente para a
argamassa ser aplicada. Note-se que o valor do espalhamento obtido para a arga-
massa 12-B1 é um pouco superior ao da argamassa 12-B, apesar da quantidade de
água inferior. As argamassas aplicadas em tijolos furados mostraram um grau ele-
vado de fissuração, sendo esta também menos generalizada na argamassa 12-B1.
A Tabela 4 contém os resultados dos ensaios das argamassas endurecidas.
Tabela 4 : Resultados dos ensaios das argamassas endurecidas preparadas para o estudo de
maturação da cal viva apagada com areia
Identificação da argamassa
12-B
(1dia)
12-B1
(7 dias)
Módulo de elasticidade aos 28 dias (MPa)
4183.0
5147.0
Módulo de elasticidade aos 90 dias (MPa)
4813.0
4647.0
Resistência à flexão aos 28 dias (MPa)
0.30
0.47
Resistência à flexão aos 90 dias (MPa)
0.43
0.60
Resistência à compressão aos 28 dias (MPa)
0.57
0.58
Resistência à compressão aos 90 dias (MPa)
0.97
1.08
Relação flexão/ compressão aos 28 dias
0.53
0.81
Relação flexão/ compressão aos 90 dias
0.44
0.56
Coeficiente de capilaridade aos 28 dias (kg/m2.min½)
1.53
1.33
Coeficiente de capilaridade aos 90 dias (kg/m2.min½)
1.65
1.48
Quanto ao comportamento mecânico das argamassas, verifica-se que cumprem
os requisitos mínimos para serem aplicadas, enquanto que, nos parâmetros avalia-
dos de comportamento à água, os valores do coeficiente de capilaridade são eleva-
dos [5].
O tempo de maturação de sete dias teve influência positiva no comportamento
da argamassa endurecida. Nomeadamente, registaram-se valores superiores de re-
sistências mecânicas, também das relações flexão / compressão e uma redução do
coeficiente de capilaridade. Por outro lado, aos 28 dias, o módulo de elasticidade
aumentou, o que é desfavorável, mas os valores aproximaram-se aos 90 dias, sendo
todos os valores moderados.
As argamassas foram observadas numa lupa binocular, com uma ampliação de
7.5 a 30 vezes onde pôde ser observada a microfissuração, não se assinalando
grandes diferenças, neste aspecto, entre a argamassa moldada com 1 ou 7 dias (Fi-
gura 2). Esta ocorrência pode não ter permitido obter melhores resistências mecâ-
nicas e ter criado caminhos fáceis à penetração de água em ambas as argamassas.
Figura 2: Observação à lupa binocular das argamassas 12-B (à esquerda) e 12-B1 (à direita)
As argamassas com grande dosagem de ligante foram utilizadas no passado [2,
6]. De qualquer forma, a sua aplicação tem que ser muito cuidada, nomeadamente
ao nível da espessura das camadas e no tempo de espera de aplicação de cada uma
delas. Como o processo de carbonatação é lento, as resistências das argamassas
com grandes percentagens de cal, nos primeiros dias, são mais baixas [7].
2.2 Aplicações em obra
Um dos problemas que se encontra no estudo das argamassas vem da dificul-
dade em se reproduzir as condições naturais em que estas vão ser aplicadas, nome-
adamente a porosidade do paramento e as trocas de vapor de água que ocorrem en-
tre o interior e o exterior dos edifícios, entre outras características. Por outro lado,
as argamassas em laboratório são testadas em moldes que não favorecem o proces-
so de carbonatação quando o ligante único é a cal aérea. No entanto, os testes labo-
ratoriais são válidos e preciosos porque permitem estabelecer diversas compara-
ções de resultados e confrontá-los também com pesquisas de outros investigadores.
A aplicação de argamassas em obra é um complemento fundamental aos testes la-
boratoriais para conhecer as suas características de durabilidade face aos agentes
exteriores e de compatibilidade com as alvenarias. Assim, foram aplicadas algumas
argamassas em obra nas datas de 15 e 16 de Julho de 2005, com o objectivo de tes-
tar, entre outros, os seguintes factores:
comparação de comportamento de argamassas preparadas com cal em pasta re-
lativamente à cal em pó;
diferença de comportamento de argamassas preparadas com uma cal em pasta
de extinção recente (2005) e com outra de período de maturação longo (2000);
O edifício escolhido para a aplicação das argamassas é uma construção antiga
localizada numa das praças mais emblemáticas da cidade de Beja, a Praça da Re-
blica. Na Tabela 5 são apresentadas as características das argamassas executa-
das.
Tabela 5: Tipos de cais e traços empregues
Identificação
14 C
14C1
15 C
15C1
16 C
16C1
Tipo de cal
Cal em pasta re-
cente
Cal em pasta
antiga
Cal hidratada
em pó
Tipo de agregados
A3
A1
A3
A1
A3
A1
Massa volúmica das cais (kg/m3)
801.2*
801.2*
667.7
Traço em volume
(obra)
1 ligante: 3 agre-
gado
1 ligante: 3 agre-
gado
1 ligante: 3
agregado
Traço em volume
(corrigido com as massas volú-
micas do ligante)
1 ligante: 3.75
agregado
1 ligante: 3.75
agregado
1 ligante: 3
agregado
* Considerando que a cal em pasta tem 20% de água na sua constituição
As condições de aplicação não foram as ideais devido ao forte calor que se sen-
tia na cidade em Julho, com temperaturas perto dos 40 ºC. Houve o cuidado de mo-
lhar os paramentos e, após aplicação das argamassas, não permitir a sua secagem
rápida, molhando-as frequentemente. As argamassas escolhidas foram aplicadas
numa zona baixa do edifício onde foi picada a última camada de reboco e a camada
de acabamento que se mostrava deteriorada devido à existência de argamassas com
cimento. As camadas de reboco originais permaneceram no edifício.
Verificou-se que as argamassas preparadas com cal em pasta de extinção antiga
foram mais fáceis de misturar, o que foi conseguido sem a adição de qualquer
quantidade de água, ganhando-se uma pasta perfeitamente homogénea (Figura 3).
Para o pedreiro foi mais simples a aplicação das argamassas de cal em pasta do que
a de cal em pó, que se apresentava menos coesa. A argamassa mais difícil de pre-
parar foi a de cal em pasta de extinção recente porque se apresentava muito densa e
não foi possível eliminar todos os grãos de cal existentes na mistura manual efectu-
ada, o que obrigou a uma maior junção de água (Figura 4).
Figura 3: Aspecto da argamassa preparada
com cal em pasta antiga
Figura 4: Preparação da argamassa com cal
em pasta recente
As argamassas foram aplicadas em duas camadas, a primeira com uma mistura de
areia grossa e areia fina de Santa Margarida na proporção em volume de 2/3 e 1/3,
respectivamente, e a camada final apenas com areia fina de Santa Margarida. A
primeira camada foi aplicada com uma espessura de, aproximadamente, 10 mm e a
de acabamento com uma espessura de cerca de 2 a 3 mm. A camada de acabamento
foi afagada com uma talocha de madeira, mantendo o reboco com uma ligeira ru-
gosidade (Figuras 5 e 6). Os traços mantiveram-se da primeira para a segunda ca-
mada de acabamento, em cada um dos painéis realizados. A técnica usada foi de
camada fresca sobre camada fresca. Esta forma de aplicar os revestimentos deve-se
à pequena espessura do acabamento tendo-se considerado, neste caso em particular,
que seria aconselhável privilegiar a aderência entre as duas camadas.
Figura 5: Aspecto das argamassas aplicadas
em obra - camada
Figura 6: Aspecto das argamassas aplicadas
em obra - camada de acabamento
No painel moldado com a cal em pasta recente, foram visíveis pequenas fissu-
ras uma semana após a aplicação das argamassas. Uma das razões possíveis para
tal é a adição de água ter sido superior para que a argamassa ganhasse a plasticida-
de necessária para ser aplicada. No painel moldado com cal em pasta antiga não se
registou qualquer dano. No painel moldado com a cal em pó verificaram-se algu-
mas fissuras, principalmente junto a uma zona que se encontrava bastante deterio-
rada e onde se aplicou uma espessura de argamassa superior à dos restantes locais.
A cor ganha pelo uso de uma cal em pasta branca com areias de cor clara origi-
nou painéis de coloração muito próxima do branco o que propiciou uma excelente
base para a aplicação da caiação que foi efectuada posteriormente com a cal mais
antiga. Esta camada veio colmatar toda a fissuração observada nos rebocos, não
existindo qualquer patologia a registar actualmente, passados quatro meses, nos re-
vestimentos aplicados.
As argamassas foram transportadas da obra, em Beja, para o LNEC, em Lisboa
onde os ensaios laboratoriais foram efectuados. A Tabela 6 contém alguns resulta-
dos desse trabalho utilizando os materiais e traços definidos na Tabela 5.
Tabela 6 : Resultados dos ensaios de laboratório
14 C
14C1
15 C
15C1
16 C
16C1
Tipo de cal
Cal em pasta
recente
Cal em pasta
antiga
Cal hidratada
em pó
Espalhamento (mm)
123.5
133.0
110.0
119.8
129.3
131.3
Resistência à flexão aos 90 dias
(MPa)
0.73
0.87
0.73
0.75
0.80
0.60
Resistência à compressão aos 90
dias (MPa)
1.50
1.53
1.65
1.35
1.63
1.32
Relação flexão/ compressão
0.49
0.57
0.44
0.56
0.49
0.45
Coeficiente de capilaridade aos
28 dias (kg/m
2
.min
½
)
2.04
1.86
1.69
1.60
1.64
1.38
Também nestas argamassas ensaiadas, os parâmetros avaliados do comporta-
mento mecânico cumprem os requisitos mínimos para serem aplicadas, enquanto
que o coeficiente de capilaridade é superior ao aconselhável, embora o ensaio, rea-
lizado aos 28 dias, não seja muito significativo [5].
As resistências à flexão e à compressão foram semelhantes para todas as arga-
massas.
Em obra os materiais foram misturados sem controlo de água, tendo o pedreiro
adicionado a água que considerou essencial para a pasta ser trabalhável. No entan-
to, nas argamassas de cal antiga, 15C e 15C1, não houve adição de água. Na gene-
ralidade, registou-se maior espalhamento nas argamassas executadas com as areias
finas, sendo o coeficiente de capilaridade mais baixo nestas argamassas. O valor do
coeficiente de capilaridade é um pouco superior para as argamassas com cal em
pasta recente, 14C e 14C1.
Em síntese, nos ensaios com argamassas feitas em obra, o se revelaram me-
lhorias significativas das argamassas preparadas com cal em pasta comparativa-
mente às argamassas preparadas com cal em pó. Note-se, no entanto, que o teor de
Ca(OH)2 das argamassas com cal em pasta é menor que o das argamassas com cal
em pó, devido à quantidade de água que a cal em pasta contém. É necessário, em
laboratório, despistar alguns desvios que se verificaram nos traços aplicados para
que se tornem mais comparáveis.
3 Considerações finais
A utilização de argamassas de cal aérea justifica-se por diversas razões: históri-
cas, de compatibilidade entre materiais e de imagem urbana. Acontece que este ma-
terial, face ao seu concorrente, o cimento, apresenta algumas desvantagens, nome-
adamente de endurecimento inicial, tornando-os muito susceptíveis a qualquer ac-
ção exterior. Assim, é importante que se adquiram adequadas características destas
argamassas, através de factores de qualidade dos próprios materiais que as consti-
tuem, a cal, o agregado ou a junção de elementos adicionais, bem como a utilização
de metodologias de preparação convenientes.
O estudo preliminar já realizado permitiu verificar que:
nas argamassas preparadas com cal viva extinta com areia (12-B e 12-B1), o
processo de maturação mais longo da cal tem uma influência positiva na plasti-
cidade das argamassas, evitando a junção de muita água durante a execução
das mesmas, o que contribui para melhorar as suas características mecânicas e
de capilaridade;
as aplicações em obra de argamassas de cal em pasta e de cal em pó e os ensai-
os laboratoriais dessas argamassas não mostraram diferenças significativas de
comportamento; contudo, a cal em pasta tem a grande vantagem de ser um li-
gante que não perde qualidades com o armazenamento, comparativamente com
a cal aérea em pó.
A continuação do estudo com ensaios em maior número e a mais longo prazo e
com a correcção de alguns factores que dificultam a comparação de resultados,
como o teor real de hidróxido de cálcio e a quantidade de água, permitirão, espera-
se, fundamentar conclusões mais claras sobre as vantagens e desvantagens dos vá-
rios métodos de preparação das argamassas de cal.
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... The use of these materials has been carried out mainly by incorporating them in quicklime hydration process. However, this hydration could be prepared according to the following two different methods [9]: ...
... • By hydration simultaneously with the soil or clayey sand, i.e., quicklime and oils or fats were added to the soil with the appropriate amount of water for hydration of lime. This process is designated as "hot" hydration [9]. Historically, the hydration of lime with oils was already mentioned by Vitruvius having been used in clay pipes joints for water passage and on the placement of floor tiles [10]. ...
Article
Full-text available
A substantial part of the world building heritage has been performed by earthen building. The durability of this existing heritage and mainly of the new buildings built with earth is particularly conditioned by the erosion caused by water action, especially in countries with high levels of rainfall. This research aims to contribute to the increase of knowledge about the ancient building techniques that provide enhanced durability. It is possible to analyse the ancestral practices used to protect the earth material from the water action in order to understand how the old earthen buildings were preserved over the centuries, resisting to harsh weather conditions. Among these techniques are: the incorporation of biopolymers (such as oils or fats from animal or vegetable origin); the addition of some minerals; and the earth stabilization with lime. However, this knowledge seems to be forgotten, probably due to the prejudice related to earthen constructions, which several times are associated with a poor building. This research also focuses on the study of new methods of earth stabilization with lime and biopolymers, adapting the ancient knowledge to improve the durability related to the water action. Therefore, alternative solutions can be obtained to improve the performance of earthen buildings, mainly the resistance of the material in the presence of water, reducing its permeability to water. In addition, with the proposed solutions it is possible to obtain good levels of water vapour permeability, one of the major advantages of the construction with earth.
... A pasta de cal hidratada oferece maiores garantias de uma total hidratação do oxido de cálcio, o pode ser facilmente conseguido com o simples aumento do período de estágio. Pode ainda ser facilmente armazenada por longos períodos, protegida apenas por uma fina camada de água que evitará o inicio do seu processo de carbonatação em contacto com o dióxido de carbono da atmosfera, garantindo assim que toda a cal realizará a função de ligante quando utilizada na preparação de uma argamassa [3]. ...
Chapter
Full-text available
Esta comunicação aborda a composição das argamassas tradicionais de cal aérea e a influência de cada um dos seus constituintes na determinação das características finais da argamassa. Pretende ser um contribuindo para o entendimento do comportamento destas argamassas tradicionais e para o estudo do seu desempenho integrado nas dinâmicas de funcionamento dos sistemas construtivos tradicionais, nos quais estas argamassas podem assegurar correctamente, e a longo prazo, as funções de revestimento e protecção dos paramentos, permitindo intervenções de reabilitação mais adequadas a estes contextos.
... The on-site application of mortars is a fundamental complement to the laboratory tests in order to understand performance characteristics, such as their durability in relation to external agents and their compatibility with masonry. Some different mortars were thus applied on-site in July 2005 with the aim of comparing the performance of lime putty of recent slaking (2005) and lime putty with a long period of maturation (2000) [3]. The building chosen to apply these mortars was an historical construction in one of the prettiest squares in the city of Beja in the south of Portugal. ...
Conference Paper
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Until the 19 th century, lime in construction renderings was used mostly as a paste. After the transformation of rock into lime, the latter was stored in such a way as to maintain its characteristics. For that purpose, tanks or big ditches were used to store lime, always covered by water to avoid its carbonation. Through this procedure, the quality of the material was guaranteed for many years. The evolution that occurred in the material's storing processes led to a change in this procedure, i.e. the binders being used today are in most cases powdery mixtures. Lime slaking is done at the factory, with the necessary care to avoid its contact with carbon dioxide from the atmosphere, which is not always achieved until its application in the work. In the present paper, the authors present some results concerning the mechanical behaviour of mortars made with lime putties with different maturation times. The authors also make an analysis of the microstructure of these limes putties and of each one of the mortars prepared with these materials, during the fresh phase and, later, in the hardening phase.
... The on-site application of mortars is a fundamental complement to the laboratory tests in order to understand performance characteristics, such as their durability in relation to external agents and their compatibility with masonry. Some different mortars were thus applied on-site in July 2005 with the aim of comparing the performance of lime putty of recent slaking (2005) and lime putty with a long period of maturation (2000) [3]. ...
Article
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Until the 19th century, lime in construction renderings was used mostly as a paste. After the transformation of rock into lime, the latter was stored in such a way as to maintain its characteristics. For that purpose, tanks or big ditches were used to store lime, always covered by water to avoid its carbonation. Through this procedure, the quality of the material was guaranteed for many years. The evolution that occurred in the material's storing processes led to a change in this procedure, i.e. the binders being used today are in most cases powdery mixtures. Lime slaking is done at the factory, with the necessary care to avoid its contact with carbon dioxide from the atmosphere, which is not always achieved until its application in the work. In the present paper, the authors present some results concerning the mechanical behaviour of mortars made with lime putties with different maturation times. The authors also make an analysis of the microstructure of these limes putties and of each one of the mortars prepared with these materials, during the fresh phase and, later, in the hardening phase.
Article
Lime mortars have been used for centuries in civil engineering construction. Considering ancient monuments and historical buildings it seems that these mortars have proved to be durable and reliable materials although they are of low strength in comparison with cement mortars. Nowadays, they are used for the repair of monuments and for the manufacture of renderings and plasters.In the present paper the role of aggregates on the structure and behaviour of lime mortars is examined by studying the influence of the aggregate content and the grain size on strength, porosity and volume stability of the mortars. Capillary porosity by suction was also measured as an indicator of resistance to weathering. It is shown that coarse aggregates contribute to the volume stability of lime mortars independent of strength enhancement when adequate compaction reduces the capillary pores. The highest strength values, and consequently, the low porosity, were attained by lime mortars of low binder/aggregate ratio which contained aggregates of maximum size 0–4 mm.
Historic mortars revived, Repair Mortars for Historic Masonry
  • E S Malinowski
Malinowski, E. S. Historic mortars revived, Repair Mortars for Historic Masonry, RILEM, Delft, Janeiro 2005.
Compressive and flexural strength testing of brick masonry panels constructed with two contrasting traditionally produced lime mortars
  • J Hughes
Hughes, J. et.al, Compressive and flexural strength testing of brick masonry panels constructed with two contrasting traditionally produced lime mortars, RILEM, Delft, Janeiro 2005.
Argamassas para revestimento de paredes de edifícios antigos. Características e campo de aplicação de algumas formulações correntes
  • Rosário Veiga
Veiga, Rosário, Argamassas para revestimento de paredes de edifícios antigos. Características e campo de aplicação de algumas formulações correntes, 3º Encore, LNEC, 2003.
Características de las argamasas antiguas desde la perspectiva de los revocos e su durabilidad
  • M P Luxán
Luxán, M.P., Características de las argamasas antiguas desde la perspectiva de los revocos e su durabilidad, Encontro Sobre Conservação e Reabilitação de Edifícios, Lisboa, Maio 2003.
Conservação e renovação de revestimentos de paredes de edifícios antigos
  • Rosário Veiga
Veiga, Rosário, et.al., Conservação e renovação de revestimentos de paredes de edifícios antigos, LNEC, Lisboa, 2004.