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COMPARTILHAMENTOS ENTRE TEXTO E ARTE: SOBRE LER, PERCEBER E SENTIR.

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Abstract

RESUMO Este artigo se apresenta como desdobramento da dissertação de mestrado intitulada O “Poema do Poema do Poema – anotações sobre texto na arte contemporânea”, de Tiago Gomes, sob orientação de Hugo Fortes . O trabalho trata das relações entre palavra e imagem na arte contemporânea. É apresentado um panorama histórico sobre a presença da palavra na arte, estudando-se as relações entre espaço, tempo, matéria e texto na constituição de obras artísticas. PALAVRAS-CHAVE Texto; arte contemporânea; material; poema. ABSTRACT This paper is a development of the master degree dissertation entitled “The Poem of the Poem of the Poem - Notes on Text in Contemporary Art”, by Tiago Gomes, under Hugo Fortes’ tutoring. The work deals with the relationships between word and image in contemporary art. A historical overview on the presence of word in art, focusing on the relationships between space, time, matter and poetry in the creation of artistic works. KEYWORDS Text; contemporary art; material; poem.
COMPARTILHAMENTOS ENTRE TEXTO E ARTE:
SOBRE LER, PERCEBER E SENTIR.
Tiago Cardoso Gomes / Escola de Comunicações e Artes - USP
Hugo Fernando Salinas Fortesnior / Escola de Comunicações e Artes USP
RESUMO
Este artigo se apresenta como desdobramento da dissertação de mestrado
intitulada O “Poema do Poema do Poema – anotações sobre texto na arte
contemporânea”, de Tiago Gomes, sob orientação de Hugo Fortes . O trabalho trata
das relações entre palavra e imagem na arte contemporânea. É apresentado um
panorama histórico sobre a presença da palavra na arte, estudando-se
as relações entre espaço, tempo, matéria e texto na constituição de obras
artísticas.
PALAVRAS-CHAVE
Texto; arte contemporânea; material; poema.
ABSTRACT
This paper is a development of the master degree dissertation entitled The Poem of the
Poem of the Poem - Notes on Text in Contemporary Art, by Tiago Gomes, under Hugo
Fortes tutoring. The work deals with the relationships between word and image in
contemporary art. A historical overview on the presence of word in art, focusing on the
relationships between space, time, matter and poetry in the creation of artistic works.
KEYWORDS
Text; contemporary art; material; poem.
Este artigo se apresenta como desdobramento da dissertação de mestrado intitulada
“O Poema do Poema do Poema – anotações sobre texto na arte contemporânea”, de
Tiago Cardoso Gomes, sob orientação de Hugo Fortes. O trabalho trata das relações
entre palavra e imagem na arte contemporânea, destacando especialmente a
utilização de textos de caráter poético em instalações e trabalhos gráficos.
Apresentamos aqui um panorama histórico a respeito da utilização de textos como
material para elaboração de obras artísticas.
Na história das artes gráficas é bastante frequente a relação de palavra e imagem
em cartazes e anúncios, porém essa relação tem normalmente um caráter
preponderantemente funcional, e apesar de às vezes ter valor artístico, seu objetivo
principal nem sempre é se apresentar como obra de arte. Principalmente a partir do
século XX, o uso de texto começa a ser revisto quando frases, palavras ou letras são
inseridos não como informação objetiva, mas como parte integrante do contexto da
obra enquanto elemento visual e verbal, e assim fazendo parte de suas possíveis
leituras.
Um dos destaques está no movimento Dadá, em que a palavra e a poesia se
misturam com outros elementos em um um processo artístico que vai além das
regras gramaticais. Artistas como Hannah Höch fazem uso de colagem, grafismos e
pintura simultaneamente e podem ser vistos como exemplo da relação entre palavra
e imagem. Em seu trabalho “Meine Haussprüche”, de 1922, Hannah Höch faz uso de
recortes e colagens de fotografias e impressos, bem como de uma série de
anotações sobre colagens e inserções de desenhos, produzindo uma obra híbrida
em torno do texto e das imagens. Hannah Höch esteve muito fortemente ligada ao
Dadá desde seu começo através da figura de Raoul Hausmann, que conheceu em
1916, e ainda antes da fundação do Dadá em Berlim desenvolvera trabalhos que
mostram suas fortes influências.
“Meine Haussprüche” foi uma das primeiras colagens desta artista. De acordo com
Krieger (1980), seu trabalho “torna sensível que por detrás de todo o dinamismo e
turbulência e da aparente aleatoriedade, existe uma ordem secreta e uma
articulação do material”. Sobre a colagem, podem-se ver algumas palavras e frases
inteiras escritas à mão nas cores preta, vermelha, grafite e branca. Em preto -se
no canto superior esquerdo a frase “Meine Haussprüche” (Meus provérbios de casa
ou frase próximas de mim em livre tradução), com a assinatura da artista logo
embaixo. Em toda a obra citações de artistas e pensadores como Benedict
Friedlaende, Richard Huelsenbeck, Hans Arp e Johannes Baader. Imagem e texto se
integram na composição, produzindo sentido tanto do texto à imagem como da
imagem ao texto e formando uma composição única a ser lida e vista ao mesmo
tempo. A semiose do trabalho se pela junção entre texto e imagem, não se
direcionando para um sentido isotópico, mas sim através de um contraste entre as
informações verbais e visuais, causando estranhamento e uma certa confusão
perceptiva proposital.
Meine Haussprüche - Hannah Höch1922
Imagem disponível em : http://www.focus.de/fotos/meine-haussprueche-1922-collage-tuschfeder-
deckweiss-kreide-blei-und_mid_189547.html
Seguindo um processo semelhante, artistas ligados ao movimento surrealista, como
Renè Magritte, irão introduzir textos em suas obras, dando a suas pinturas um
caráter conceitual sobre o papel dos processos de significação das palavras e das
imagens produzidas. A pintura “La trahison des images”, de Magritte, é um exemplo
desse novo posicionamento em relação à imagem, à palavra e ao conceito. De
acordo com o próprio artista, “num quadro, as palavras são da mesma substância
que as imagens. Vê-se de outro modo as imagens e as palavras num quadro”
(MAGRITTE apud FOCAULT, 1967). Nessa obra o artista provoca questionamentos
sobre os processos de significação na arte ao reproduzir a imagem de um cachimbo
e logo abaixo escrever a frase “Isto não é um cachimbo” (Ceci n’est pas une pipe),
propondo assim a pintura do cachimbo como algo que representa um cachimbo, que
parece um cachimbo, mas não é um cachimbo. Essa diferença de representação se
forma através da justaposição da linguagem verbal, desenvolvida através de
palavras e frases, e da linguagem visual, desenvolvida por meio de imagens. São
duas formas de representação da mesma coisa, dois significantes que fazem
referência ao mesmo objeto, o cachimbo, porém de forma contraditória. , portanto,
uma ruptura da isotopia semântica da mensagem. Pintar um cachimbo e escrever
que aquilo não é um cachimbo significa negar que a representação visual do objeto
seja o próprio objeto, mas, por outro lado, admite a possibilidade de semelhança e
de aproximação entre a representação visual e o objeto em si. Representar algo,
seja através de imagem (linguagem visual), seja através de palavras (linguagem
verbal) é fazer uso da linguagem. No caso de Magritte, podemos ver o processo da
obra e suas leituras como uma tautologia problemática, em que a informação se
repete no mínimo três vezes, afirmando (mostrando a imagem do cachimbo),
negando (através da frase que diz que não é um cachimbo), e reafirmando o objeto
(existindo a necessidade de se afirmar que a imagem não é um cachimbo, reafirma-
se a ideia de que essa imagem pode ser vista ou entendida como um cachimbo).
No cubismo podemos encontrar diversas referências verbais, tanto nos títulos
quanto na presença de textos como elementos gráficos, principalmente em colagens
como na obra “Guitarra” de Picasso. Nesta colagem, o artista faz uso de páginas de
jornal, tornando o texto do jornal um elemento gráfico e verbal. Neste caso, é mais
importante a imagem do jornal impresso e sua materialidade do que o que está
escrito nele. Ao trazer o jornal para a tela, Picasso insere um pedaço do mundo real
no espaço do quadro, procurando estabelecer relações que vão além da
representação pictórica, incluindo o jornal como uma presença em si.
Relações como as de temporalidade e localização podem ser percebidas através do
jornal colado. Temporalidade de forma dupla: por um lado, pela datação do jornal e
por sua manchete, que podem determinar a época e o período histórico escolhido
pelo artista ao selecionar esse jornal, e, por outro lado, pela idade da obra facilmente
identificada pela cor amarelada do papel de jornal. Esse amarelamento gera em si
outra escolha estética e conceitual do artista, uma vez que rapidamente o trabalho
ganharia um aspecto ligado à mudança de forma gerada pela diferença de qualidade
do material. Contudo, esses detalhes acabam ficando de lado e a presença do texto
nessa obra se destaca mais para contextualizar a obra junto a vida cotidiana através
do processo cubista, incluindo o espaço da vida e do cotidiano a partir de um
contexto local e histórico.
A ampliação conceitual que havia sido iniciada no princípio dos movimentos
modernos vai grande relevância principalmente a partir da segunda metade do
século XX, em que as operações conceituais vão muitas vezes suplantar as
operações puramente formais. A partir dos anos 1960, o uso de palavras e textos
como elementos integrantes de obras de arte torna-se uma prática regular. Vídeos,
performances, instalações, pinturas, esculturas, desenhos e trabalhos que fogem
dos meios tradicionais usam a palavra e o texto como elementos da obra, quer
sejam como elementos gráficos. Seja por influência dos processos conceituais em
torno da Minimal Art, seja pelas questões propostas sobre o desenvolvimento da
cultura, tão bem exploradas pela Pop Art no final dos anos 1950 e início dos anos
1960, o fato é que em diversos momentos o uso de textos se integra a uma
diversidade de concepções, tanto relacionadas aos seus significados como elemento
textual como enquanto elemento formal.
Em algumas obras, o texto além de ampliar as possibilidades de interpretação
através de seu conteúdo semântico, também é explorado de maneira pictórica, como
grafismo gestual ou formalizado através da tipografia gráfica. Um exemplo é a obra
Fool´s House, de Jasper Johns: a vassoura, a caneca, a toalha, a moldura e a
marcação do texto escrito na obra, todos os elementos fazem parte de se processo
de significação. Em Fool´s House, o título da obra faz parte da pintura e está dividido
em duas partes. Ele se inicia no meio da parte superior da obra e termina na parte
superior esquerda, onde deveria ser seu início, quebrando assim o sentido de leitura
convencional. Além deste texto, também outros textos escritos a mão
identificando alguns dos objetos da tela. Não uma lógica sintática para a leitura
destes textos e o observador é obrigado a tomá-los como imagens, que eles não
produzem uma frase com um sentido claro. Todos os elementos da obra, ou seja, a
vassoura, a tela pintada, as letras que compõem o texto e os outros objetos que
estão agregados ao quadro formam uma composição única, em que representação e
presença se alternam, formando uma mensagem plurisígnica cujo objetivo primordial
é ampliar as possibilidades expressivas da arte como linguagem.
Fool’s House1962Jasper Johns
Imagem disponível em : TASSINARI, Alberto. O espaço moderno. 2001 p.23
A consolidação da cultura de massa, no século XX, fez com que se tornassem
presentes na vida de todos imagens, textos, objetos e materiais que por fim serão
apropriados pelos processos artísticos da contemporaneidade.
Em alguns artistas, as próprias letras enquanto grafismos tornam-se o ponto central
do trabalho, não tendo que necessariamente se articular em textos. Mira Schendel,
por exemplo, usa esse recurso em seus “Objetos Gráficos”, utilizando letras para
compor poeticamente suas imagens. Em outros trabalhos, a artista opta pelo uso de
palavras ou pequenos textos poéticos compreensíveis, impressos de forma a
dialogar com o espaço branco do papel, sugerindo significados filosóficos ou líricos,
que são potencializados pela materialidade da gravura ou pela grafia livre com que
escreve seus textos. O ato de escrever também é tratado por Schendel através do
gesto gráfico e das questões em torno da caligrafia vistas em algumas de suas
obras.
Assim, em suas obras, ora as palavras e letras aparecem como elementos gráficos
sem significado verbal, ora como elemento verbal que pode ser lido e interpretado.
Em todos os casos, as letras, palavras ou frases sempre emprestam sentido à obra,
seja como elemento visual, seja como elemento verbal. Tais questões abordam tanto
a visualidade gestual da escrita como seu significado enquanto linguagem verbal.
Sem título da série objetos gráficos1967-68Mira Schendel
Imagem disponível em:
PÉREZ-ORAMAS, Luis. León Ferrari e Mira Schendel: O alfabeto enfurecido, 2010, p.120.
As obras de arte que incluem textos em sua confecção geram processos de
apreensão e fruição específicos, que dependem da comunhão de um mesmo idioma
entre o artista e o fruidor da obra. Quando o observador não compreende o idioma
que está escrito na obra, sua atenção pode-se voltar para os aspectos formais da
caligrafia ou tipografia utilizada. Um exemplo disso seria a apreensão ocidental do
trabalho dos artistas Gu Wenda e Leung Mee-ping, intituladoUnited Nations Series
- China Monument: Temple of Heaven”, exposto no PS1 Contemporary Art Center na
cidade de Nova York, em 1998, e no Museu de Hong Kong, em 2006. O trabalho é
uma instalação que forma um “templo” pseudo-chinês feito por fios de cabelo
colados sobre um determinado suporte. Nesse trabalho todas as significações
verbais serão perpassadas por diferentes significados textuais. O uso de uma escrita
chinesa nesse trabalho gera a dúvida sobre o que está escrito, colocando em pauta
o questionamento sobre o papel da significação do texto na obra. Como o texto e
sua grafia são os elementos que apresentam a obra, sua significação e seus
processos de linguagem ficam atrelados ao conhecimento prévio do idioma a ser
tratado.
United Nations Series - China Monument: Temple of Heaven1998Gu Wenda e Leung Mee-Ping
Imagem disponível em : http://www.wendagu.com/installation/united_nations/un_china01.html
O texto em uma obra artística deve ser compreendido ao mesmo tempo como signo
verbal e visual, relacionando-se com os outros signos presentes na obra através de
sua materialidade e configuração formal.
“Qualquer objeto material, propriedade de tal objeto, ou evento
material transforma-se em signo quando, no processo de
comunicação, serve, dentro da estrutura da linguagem adotada pelas
pessoas que se comunicam, ao propósito de transmitir certos
pensamentos acerca de realidade, isto é, acerca do mundo exterior,
ou acerca de experiências interiores (emocionais, estéticas, volitivas,
etc.) .(SCHAF, APUD EPSTEIN, 1991 p.19).
Signo é algo que, de certa forma, representa alguma coisa a alguém e que para a
semiologia européia é dividido em duas unidades: significado e significante.
Significado é o sentido ou valor diferencial do signo junto ao processo de
comunicação. Significante é como se manifesta tal sentido ou valor. O signo existe
em si na linguagem e como elemento de comunicação. Linguagem não é língua
(idioma). Linguagem é todo o conjunto de meios e formas de pensamento, ação e
existência que de alguma forma geram uma interlocução entre dois entes. A forma
mais comum dessa interlocução é através dos processos de comunicação. A obra
de arte que não faz uso de palavras tem seus signos formados através apenas a
partir de suas formas, materiais e meios expressivos. A obra de arte que faz uso das
palavras tem seus signos formados pelos seus aspectos formais e materiais, mas
também pelos textos verbais inseridos na obra. A percepção significativa desses
textos acaba se condicionando muitas vezes ao conhecimento prévio do idioma e/ou
dos formatos dos caracteres de cada idioma. A língua como idioma é um dos
grandes referenciais para a compreensão dos processos da obra de arte que faz uso
de texto.
Os estudos de semiótica ao longo do século XX forma decisivos para o surgimento
da arte conceitual, que investiga as possibilidades de discussão de linguagem a
partir do questionamento dos elementos sígnicos da obra, atuando muitas vezes de
forma metalinguística e auto-referencial. Na arte conceitual, a ideia passa a ser a
obra de arte em si, que deixa de se constituir exclusivamente a partir um objeto
material, passando a ser uma proposição para se compreender ou se perceber algo.
Se “toda arte (depois de Duchamp) é conceitual (por natureza), porque a arte
existe conceitualmente” (KOSUTH,1969 p.217), a existência conceitual da arte se
apenas por intermédio de um processo de linguagem como modo de percepção e
compreensão das coisas em seus contextos e significados.
A arte conceitual, se vista como uma proposta de percepção dos processos
intrínsecos da arte, precisa de no mínimo um contexto de compreensão simbólica,
ou seja, a obra de arte só vai acontecer conceitualmente se todos os objetos,
formas, gestos e/ou meios dessa obra de arte forem percebidos em meio a um
processo de significação, ou seja, de uma semiose. Se vista como um modo de
fruição poética, a arte conceitual novamente irá depender de uma compreensão de
linguagem, pois para a obra de arte acontecer conceitualmente ela precisa de algum
modo ser decodificada e ressignificada por seu fruidor.
“A língua descreve os objetos como coisas autônomas. Ela concede
essa mesma autonomia a partes dos objetos, de modo que mão, pele
e sangue passam a parecer entidades autônomas, assim como o
corpo inteiro. A língua até mesmo transforma atributos e ações em
coisas e os separa daqueles que os possuem e os realizam.”
(ARNHEIM,1989 p.97).
Essa diferente maneira de tratar a informação característica da linguagem verbal
torna possível, em arte, toda uma ressignificação das obras através dos textos
contidos nelas. A ideia de os significados dos textos contidos nas obras serem
partes do significado geral da obra faz com que a obra de arte em si se torne um
elemento gerador de diferentes fruições e significados autônomos. Kosuth, de certa
forma, aborda essa ideia em seu trabalho em “Uma e três cadeiras”, em que o artista
justapõe três significações para o conceito cadeira: uma definição de dicionário de
cadeira, uma fotografia ampliada de uma cadeira e uma cadeira em si. Tais
elementos de fruição em uma obra tornam o elemento verbal como parte do texto da
obra, ou seja, o que está escrito na obra sobre a obra faz parte da obra em si. A
autonomia de fruição e significado será feita pela possibilidade de se ver no mínimo
três obras diferentes: a obra em si com a leitura e a compreensão do texto inserido,
a obra sem a leitura ou compreensão do texto, e o texto em si como elemento
autônomo. Na obra de Kosuth fica clara a ideia de que os elementos sígnicos estão
presentes não apenas no texto ou na imagem, mas na sua interrelação e em sua
materialidade, relacionando-se com o contexto.
A materialidade através da qual o texto aparece na obra artísticas, bem como o
contexto espacial e temporal em que se apresenta são fundamentais para a
compreensão da obra. Como exemplo disso podemos citar os trabalhos dos artistas
contemporâneos brasileiros Arthur Barrio e Nuno Ramos.
No caso de Artur Barrio, a relação entre a fragilidade de material, seu significado e
seus conceitos ficam claros em obras como "Transportável" e "Livro de carne".
Arthur Barrio irá demonstrar por várias vezes em sua obra a importância da relação
dos materiais no processo artístico como um todo, produzindo obras de arte cujos
materiais formam elementos bastante contundentes. A matéria acaba se reunindo ao
texto e seus significados em si formam as possibilidades da obra. Em
"Transportável", a palavra que nome ao trabalho é pintada em tinta vermelha
sobre um saco amarrado a um grifo, com uma visualidade semelhante a suas
famosas "trouxas" ensanguentadas. O trabalho apresenta uma certa agressividade
ameaçadora que remete à tortura da ditadura militar. Sua materialidade tosca
associado à forma simples com a qual o texto se apresenta contribuem para a
formação de sentido na obra. A importância do material junto ao texto torna a obra
objeto da percepção do tempo e das noções de finitude e efemeridade.
As obras “Solidão Palavra”, "Vidro Texto1" e "Vidro Texto 2", de Nuno Ramos, tanto
pela presença do texto como pelo uso de materiais efêmeros, se aproximam da
poética de Arthur Barrio. Em "Solidão Palavra", o uso de areia prensada e de um
molde gigantesco para formar o texto formam uma ideia de robustez que quase nega
a fragilidade do material deixado. Em “Vidro Texto 1” e “Vidro Texto 2” o uso de
vaselina como elemento de escrita e a fragilidade dos vidros usados na obra geram
uma sensação de fragilidade extrema nas obras e o sentido de efemeridade ao lidar
com a sensação de que aquela obra poderia se desfazer a qualquer momento ou a
qualquer toque ou mudança no ambiente.
Quando o texto se torna matéria ou forma, ele mesmo tem seu sentido alterado e os
processos semióticos devem ser compreendidos de forma integrada. Assim, a
presença do texto em uma obra de arte não pode ser isolada de suas qualidades
formais, assim como suas formas e figuras ganham novas significações através de
sua justaposição com as palavras. Este artigo não pretende esgotar todas as
possibilidades expressivas obtidas através da inserção de textos em obras de artes
visuais, porém podemos afirmar seguramente que, quando a palavra se junta às
imagens, as possibilidades poéticas são potencializadas e a obra se abre para uma
miríade de significados, sensibilizando o observador através de um expressivo
envolvimento sensorial e poético.
Referências
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53202003000100010&lng=en&nrm=iso>. ISSN 1678-5320. http://dx.doi.org/10.1590/S1678-
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TASSINARI, Alberto. O espaço moderno. São Paulo:Cosac & Naify Edições, 2001.
WOOD, Paul. Arte Conceitual. São Paulo: Cosac Naify,2002.
Tiago Gomes
Artista visual, Poeta, Professor e Doutorando em Artes Visuais na Escola de Comunicações
e Artes de Universidade de São Paulo, sob orientação de Hugo Fortes. Mestre em Artes
Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2013),
Especialista em Arteterapia para educação e saúde pela Universidade Cândido Mendes e
Bacharel em gravura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005) .
Hugo Fortes
Artista visual, Professor e Curador. Doutor em Artes Visuais pela Universidade de São
Paulo (2006) com doutorado-sanduíche na Universität der Künste Berlin, Alemanha.
Professor Doutor na Escola de Comunicações e Artes da USP, atuando como orientador de
doutorado e mestrado em Artes Visuais e na graduação em Comunicação. Como artista já
expôs em mais de 15 países. Em 2009 concluiu pós-doutoramento na Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da USP.
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O Poema do Poema do Poema: Antações sobre texto na arte contemporânea
  • Tiago Gomes
  • Cardoso
GOMES, Tiago Cardoso. O Poema do Poema do Poema: Antações sobre texto na arte contemporânea. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013.
Professor e Doutorando em Artes Visuais na Escola de Comunicações e Artes de Universidade de São Paulo, sob orientação de Hugo Fortes
  • Tiago Gomes Artista Visual
  • Poeta
Tiago Gomes Artista visual, Poeta, Professor e Doutorando em Artes Visuais na Escola de Comunicações e Artes de Universidade de São Paulo, sob orientação de Hugo Fortes. Mestre em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2013), Especialista em Arteterapia para educação e saúde pela Universidade Cândido Mendes e Bacharel em gravura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005).
O alfabeto enfurecido-São Paulo: Cosac Naify
  • León Ferrari
  • Mira Schendel
León Ferrari e Mira Schendel: O alfabeto enfurecido-São Paulo: Cosac Naify, Nova York: Museu de Arte Moderna, 2010
Doutor em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo (2006) com doutorado-sanduíche na
  • Hugo Fortes
  • Artista Visual
  • Professor E Curador
Hugo Fortes Artista visual, Professor e Curador. Doutor em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo (2006) com doutorado-sanduíche na Universität der Künste Berlin, Alemanha.
  • Geraldo Souza
DIAS, Geraldo Souza. Contundência e delicadeza na obra de Mira Schendel, ARS (São Paulo) [online]. 2003, vol.1, n.1 [cited 2013-06-02], p. 117-138. Disponível em : <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678
São Paulo: Paço das Artes
  • Artur Barrio
  • Manifesto
BARRIO, Artur. Manifesto. In: BARRIO, Artur. Artur Barrio: a metáfora dos fluxos 2000/1968. São Paulo: Paço das Artes. São Paulo, 2000
Arte depois da filosofia
  • Joseph Kosuth
KOSUTH, Joseph. Arte depois da filosofia. In: Escritos de artistas anos 60/70. Tradução de Pedro Süssekind et al. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.PÉREZ-ORAMAS, Luis. León Ferrari e Mira Schendel: O alfabeto enfurecido-São Paulo: Cosac Naify, Nova York: Museu de Arte Moderna, 2010
Tiago Gomes Artista visual, Poeta, Professor e Doutorando em Artes Visuais na Escola de Comunicações e Artes de Universidade de São Paulo, sob orientação de Hugo Fortes
  • Alberto Tassinari
  • Espaço Moderno. São
  • Paulo
TASSINARI, Alberto. O espaço moderno. São Paulo:Cosac & Naify Edições, 2001. WOOD, Paul. Arte Conceitual. São Paulo: Cosac Naify,2002. Tiago Gomes Artista visual, Poeta, Professor e Doutorando em Artes Visuais na Escola de Comunicações e Artes de Universidade de São Paulo, sob orientação de Hugo Fortes. Mestre em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2013), Especialista em Arteterapia para educação e saúde pela Universidade Cândido Mendes e Bacharel em gravura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005).