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David Hume sobre imaginação e impossibilidade: uma análise de exemplos literários (David Hume on imagination and impossibility: an analysis of literary examples)

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Abstract

RESUMO: O presente artigo se propõe a verificar, através da literatura, a pertinência da opinião do filósofo escocês David Hume acerca da relação entre impossibilidade e imaginação; segundo Hume, o absolutamente inconcebível também é absolutamente impossível. Algumas construções poéticas compostas pela conjunção de idéias contrárias ou opostas foram analisadas, com o objetivo de verificar até que ponto é possível formar delas representação mental visual e/ou lingüística. A fim de empreender a análise, uma tipologia das estratégias literárias de conjunção entre idéias contrárias ou opostas foi esboçada. ABSTRACT: The present article undertakes (with the help of literary examples) an examination of Scottish philosopher David Hume's opinion concerning the relation between impossibility and imagination; according to Hume, that which is absolutely inconceivable must be also absolutely impossible. Some poetic constructions conjoining contradictory or opposing ideas were analysed, with the intent to verify to what extent they would yield visual and/or linguistic mental representations. A typology of the literary strategies for conjoining contradictory or opposing ideas was sketched as support for our analysis.
Fabiano Seixas Fernandes (UFC)
DAVID HUME SOBRE IMAGINAÇÃO E IMPOSSIBILIDADE: UMA ANÁLISE DE EXEMPLOS LITERÁRIOS
Estação Literária
Londrina, Vagão-volume 8 parte B, p. 166-180, dez. 2011
ISSN 1983-1048 - http://www.uel.br/pos/letras/EL
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DAVID HUME SOBRE IMAGINAÇÃO E IMPOSSIBILIDADE:
UMA ANÁLISE DE EXEMPLOS LITERÁRIOS
DAVID HUME ON IMAGINATION AND IMPOSSIBILITY:
AN ANALYSIS OF LITERARY EXAMPLES
Fabiano Seixas Fernandes (UFC)
1
RESUMO: O presente artigo se propõe a verificar, através da literatura, a pertinência da
opinião do filósofo escocês David Hume acerca da relação entre impossibilidade e
imaginação; segundo Hume, o absolutamente inconcebível também é absolutamente
impossível. Algumas construções poéticas compostas pela conjunção de idéias
contrárias ou opostas foram analisadas, com o objetivo de verificar até que ponto é
possível formar delas representação mental visual e/ou lingüística. A fim de empreender
a análise, uma tipologia das estratégias literárias de conjunção entre idéias contrárias ou
opostas foi esboçada.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura; Imaginação; Impossibilidade; David Hume.
ABSTRACT: The present article undertakes (with the help of literary examples) an
examination of Scottish philosopher David Hume’s opinion concerning the relation
between impossibility and imagination; according to Hume, that which is absolutely
inconceivable must be also absolutely impossible. Some poetic constructions conjoining
contradictory or opposing ideas were analyzed, with the intent to verify to what extent
they would yield visual and/or linguistic mental representations. A typology of the
literary strategies for conjoining contradictory or opposing ideas was sketched as
support for our analysis.
KEYWORDS: Literature; Imagination; Impossibility; David Hume.
Antes de mais nada, gostaria de solicitar que a reflexão a seguir fosse encarada
como algo experimental. Gostaria de pôr à prova uma antiga intuição minha,
combinando-a a uma antiga certeza filosófica alheia. A primeira diz respeito ao efeito da
literatura (ou, ao menos, de dados procedimentos costumeiramente computados como
literários) em nossa capacidade de compreensão do mundo; a segunda diz respeito a
uma limitação dessa capacidade. Gostaria de investigar até que ponto certa declaração
do filósofo escocês David Hume acerca da relação entre imaginação e impossibilidade
pode ser desafiada pelo que intuo como uma expansão em nossa faculdade imaginativa,
proporcionada por determinados procedimentos literários relacionados à combinação de
idéias contrárias ou opostas.
Portanto, nosso trajeto a cumprir será o seguinte: gostaria de analisar alguns
exemplos poéticos da combinação de idéias contrárias ou opostas. Antes, porém, será
necessário definir imaginação; como subitem dessa definição, explanarei a opinião de
David Hume acerca do conceito, com ênfase na relação que estabeleceu entre o
imaginável e o possível; a seguir, será necessário estabelecer alguns parâmetros de
análise; passaremos, então, ao comentário de três exemplos poéticos do uso de idéias
1
Professor Adjunto da Universidade Federal do Ceará. Doutor em Literatura pela Universidade
Federal de Santa Catarina (2004). E-mail: fbnfnds@gmail.com.
Fabiano Seixas Fernandes (UFC)
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contrárias ou opostas.
1. O que é imaginação?
Brevemente, a imaginação pode ser definida como a capacidade mental de
receber, vislumbrar e manipular imagens. Uma imagem seria como o “retrato mental”
feito a partir de nossa experiência do mundo: o que vemos ou ouvimos grava-se em
nossa memória
2
, de modo que podemos não só reconhecer as pessoas, mas invocar
mentalmente sua aparência e sua voz quando não estão presentes. Quando simplesmente
evocamos uma imagem (por exemplo, o retrato mental que temos de nosso quarto ou de
alguém conhecido), acreditamos que corresponde a algo real, externo a nós, e que
exprime, portanto, alguma verdade acerca do mundo que conhecemos. Nesse caso, as
imagens estão relacionadas à memória. Quando, porém, manipulamos diferentes retratos
mentais (por exemplo, quando discorrem em nossa mente cenas que nunca ocorreram
ou “criamos” pessoas que nunca existiram, tal como ocorre em sonhos), estamos
exercendo o que propriamente conhecemos como imaginação: uma faculdade criativa a
partir de imagens. Como ocorre no caso da memória, percebemos mentalmente objetos
que não estão fisicamente presentes; ao contrário do que ocorre no caso da memória,
não acreditamos nas imagens criadas desse modo quer dizer, sabemos que não estão
realmente presentes, e que tampouco correspondem a alguma realidade externa pontual
e definida.
Até aqui, apresentei uma visão bastante elementar do conceito (baseada em
Thomas 2004: online); ao longo da história da filosofia, maior ou menor ênfase foi dada
a esse ou àquele seu aspecto, mais ou menos funções lhe foram delegadas, mas essa
definição permanecerá a base de quanto disseram filósofos subseqüentes a seu respeito.
Nossos interesses, contudo, compelem-nos a visitar um segundo momento da história da
filosofia, para examinarmos o que disse David Hume acerca da imaginação. Hume
começa por distinguir entre memória e imaginação; segundo crê, tanto uma quanto
outra dependem das idéias (que, em Hume como em outros filósofos, parece ser termo
sinônimo ou substituto de imagem) que são geradas através de nossa experiência
sensível. Enquanto, porém, a memória se restringe a reproduzir as seqüências e
combinações de idéias tais quais as recebemos, a imaginação as pode reorganizar e
transformar. Para Hume, porém, ambas as faculdades podem se confundir é possível
não estarmos certos se vivenciamos algo ou meramente o imaginamos, e crermos
piamente na realidade dos sonhos enquanto sonhamos , pois a diferença entre
imaginação e memória deriva de um maior grau de vivacidade na segunda. Assim, para
Hume, a inculcação pode intensificar a vivacidade de uma idéia por nós gerada,
fazendo-a passar por memória; também pode ocorrer que, conforme nos distanciamos
do que lembramos, a memória perca vivacidade, tornando-se indistinguível da
imaginação (Hume 1978: 84-6).
Embora não esteja seguro quanto ao critério apontado por Hume para distinguir
entre uma faculdade e outra
3
, é importante ressaltar que o problema é real. Reflexões e
2
Devemos ter em mente que expressões como “retrato mental” e “imagem” não excluem os
dados recolhidos pelos demais sentidos: temos um “retrato mental” não da rosa, mas também de seu
perfume ao qual reconhecemos, ou seja, do qual temos memória. Para nossos interesses, contudo, seu
sentido literal visual será bem mais importante.
3
Thomas D. Senor, em seu verbete para a Stanford Encyclopedia of Philosophy acerca dos
problemas epistemológicos do estudo da memória, aponta que a diferença entre memória e imaginação
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pesquisas mais recentes acerca da memória nos levam a concluir, por exemplo, que esta
não necessariamente funciona como um depósito onde armazenamos imagens distintas e
imutáves às quais podemos recorrer à vontade
4
. Em primeiro lugar, o problema do
que constituiria uma imagem. Por exemplo: o retrato mental que faço de meu cachorro
incluirá um retrato mental de sua cabeça; quantos retratos mentais seriam necessários
para retratar toda a cabeça de meu cachorro? Como estariam conectados? Estariam
armazenados junto às demais imagens que compõem meu cachorro, ou às demais
cabeças de que me lembro? Também, de onde viria nosso retrato mental que
corresponde ao conceito de cabeça? Possuímos mesmo representações imagéticas
“abstratas” de conceitos que têm um forte componente sensível? Essa é uma conhecida
disputa entre os empiristas. Finalmente e não obstante a vivacidade que Hume atribui
à memória , pense-se em como são apagadas e imprecisas as representações visuais
que somos capazes de trazer à mente (Russell s/d: 661-2). Certamente, reconhecemos
muitos mais traços e detalhes em nossos amigos quando os vemos do que somos
capazes de recuperar quando deles nos lembramos.
Pergunto-me de que modos essa deficiência em nossa recuperação de imagens
poderia ter relação com nossa capacidade de armazenamento lingüístico de
informações. Tanto nossa categorização quanto nossa retenção de traços sensíveis
poderiam ser afetadas pela proeminência cognitiva da linguagem articulada
5
. Não é
necessário que me lembre de cada detalhe de meu cachorro: sei o que são cachorros (sei
reconhecê-los, desenhá-los, ainda que mal, e descrevê-los), sei quais partes os
compõem; talvez esse conhecimento (prévio à nossa adoção de um cachorro como
animal de estimação), por assim dizer, abrevie a precisão de nossas representações
visuais mentais. Esse jogo se torna ainda mais complexo se percebermos que uma
mesma “imagem” pode ser (e normalmente é) categorizada variamente: o
conceito/imagem a cabeça de meu cachorro pode pertencer a diversos conjuntos que
nem sempre permitirão ser representados visualmente : o das cabeças de outros
cachorros, o de cabeças humanas em geral, o de cabeças de outras formas de vida, etc.
Como se vê, o conceito de memória como armazenamento parece não lidar
muito bem com a possibilidade da multi-categorização de nossas idéias, nem com o fato
de que não é simples a tarefa de encontrar unidades conceituais/visuais mínimas,
indivisíveis. Em conseqüência das ressalvas feitas, alguns filósofos trabalham com
modelos que minoram ou dinamizam os “traços de memória” que supostamente
armazenamos (ver SUTTON: 2010, online, em especial a seção 3.3.). Lembrar não é
feita por Hume com base na “vivacidade” é confusa. Contrasta-a ao conceito de memória proposto por
Bertrand Russell, para quem a memória é uma percepção mental acrescida da crença de que se trata de
uma lembrança (Russel 1921 apud Senor 2009: online).
4
Acerca da crítica ao conceito tradicional de memória como armazenamento passivo de
“imagens” ou “traços” discretos, ver Sutton 2010: online, em especial as seções 2.1, 3.1 e 3.3.
5
David Pitt reserva uma seção de seu verbete acerca de representações mentais para a Standord
Encyclopedia of Philosophy às relações entre pensamento e linguagem (2008: online). Também
demonstra que os filósofos que admitem a existência de representação mental dividem-na normalmente
entre conceptual (representável proposicionalmente pelas línguas naturais) e imagética. Aponta ainda que
alguns crêem haver representações híbridas, compostas por “imagens” e conceitos. Certamente, perceber
que a capa de um livro é azul implica conhecer os conceitos de livro e azul e relacioná-los um ao outro e à
experiência sensível de ver um livro azul, de modo que parece mesmo haver interferência ou
complementaridade entre esses dois tipos de representação. Meu questionamento diz respeito ao grau de
interferência de um relação ao outroou seja, até que ponto não precisamos de uma capacidade
imagética mais precisa por podermos codificar informação conceptualmente. Pitt não entra nessa questão.
Fabiano Seixas Fernandes (UFC)
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simplesmente resgatar, mas, em certa medida, reorganizar o que pode, sim, induzir ao
exagero e ao erro. Hume, portanto, parece intuir corretamente uma certa zona de
indefinição entre lembrar e criar.
Mesmo assim, não podemos negar que, apesar da real importância de nossa
compreensão lingüística do mundo, as imagens parecem ter papel cognitivo
fundamental. Quando estudamos determinados conceitos abstratos, é comum
recorrermos a tabelas, gráficos ou esquemas de cores; essa recorrência nos mostra tanto
a fraqueza de nossa capacidade imagética (não conheço ninguém capaz de visualizar
mental e precisamente um gráfico) quanto nossa necessidade de “concretizar” o abstrato
de compreendê-lo através de algum tipo de analogia plástica.
Para o que nos interessa aqui, essas ressalvas mostram que, para tentarmos
compreender a interpretação de recursos literários, é necessário balancear o que pode
ser compreendido plasticamente e o que faz sentido conceptual. Assim, no que segue,
conceberei imaginação no sentido mais amplo de “alteração e ordenação consciente de
idéias, sejam representadas plástica ou conceptualmente”. Tentarei, porém, na medida
do possível, buscar uma interpretação visual, plástica, para metáforas literárias que
façam apelo ao sentido da visão.
1.1. Imaginação e impossibilidade
Ao tratar dos conceitos de espaço e tempo, David Hume nega sua
indivisibilidade infinita. Para tanto, serve-se de argumentos que acabam definindo mais
precisamente as características da imaginação. Ei-los abaixo:
Wherever ideas are adequate representations of objects, the relations,
contradictions, and agreements of the ideas are all applicable to the
objects; […] The plain consequence is, that whatever appears impossible
and contradictory upon the comparison of these ideas, must be really
impossible and contradictory, without any farther excuse or evasion.
Sempre que idéias representarem adequadamente objetos, as relações,
contradições e concordâncias dessas idéias serão inteiramente aplicáveis
aos objetos; […] A evidente conseqüência é que, quanto pareça
impossível e contraditório ao ser comparado a essas idéias será realmente
impossível ou contraditório, sem desculpa ou evasiva. (Hume 1978: 29)
6
’Tis as established maxim in metaphysics, That whatever the mind
clearly conceives includes the idea of possible existence, or in other
words, that nothing we imagine is absolutely impossible. We can form
the idea of a golden mountain, and from thence conclude that such a
mountain may actually exist. We can form no idea of a mountain without
a valley, and therefore regard it as impossible.
É uma máxima estabelecida da metafísica a que afirma que quanto a
mente conceba claramente inclui também a idéia de sua possível
6
Todas as traduções minhas, exceto quando indicado.
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existência, ou, em outras palavras, que nada do que possamos imaginar é
absolutamente impossível. Podemos conceber a idéia de uma montanha
de ouro, e daí concluir que tal montanha poderia de fato existir. Não
podemos conceber a idéia de uma montanha sem vale, e portanto
julgamos que isso seja impossível. (Hume 1978: 32)
Cada uma das passagens acima mostra que, para Hume, a capacidade de
manipulação imagética é um critério para determinar “impossibilidades e contradições”.
Uma representação mental conforme a seu objeto evidenciará todas as falhas e
contradições deste; se a falha é de tal maneira crucial que torna a existência desse objeto
inviável, como parece ser o caso de construtos mentais como uma montanha sem vale
ou água seca, então o objeto seria, além de inexistente, inimaginável. Podemos
expressá-lo lingüisticamente, mas a mente não conseguiria, segundo Hume, tecer-lhe
representação.
Nigel Thomas, em seu verbete sobre imaginação para o Dictionary of
Philosophy of Mind, propõe algumas objeções:
Hume’s maxim is very questionable, however. Although examples that
seem to favor it can be multiplied, it is also not hard to come up with
apparent counter-examples. It seems to me that I am incapable of
imagining curved space-time, but I am reliably informed that it is not
only possible but actual. Conversely, countless science fiction buffs have
imagined traveling faster than light, which is supposedly impossible.
Perhaps some version of the maxim can be saved by sufficiently
ingenious maneuvers, probably including the restriction of its scope to
some or other subspecies of possibility (perhaps it applies to logical,
conceptual, or metaphysical, but not to physical possibility).
A máxima de Hume [correspondente a nossa 2a citação] é, contudo,
bastante questionável. Ainda que abundem exemplos favoráveis,
tampouco é difícil elencar aparentes contra-exemplos. Parece-me que sou
incapaz de imaginar um contínuo espaço-tempo curvo, mas sei de fontes
fidedignas que isso é não só possível, mas real. Entretanto, inúmeros
volumes de ficção científica imaginaram viagens cursadas acima da
velocidade da luz, o que supostamente seria impossível. Talvez alguma
versão da máxima possa ser salva por argüidores suficientemente
engenhosos, provavelmente através da inclusão de restrições de escopo a
uma ou mais subespécies de possibilidade (talvez seja aplicável somente
a possibilidades lógicas, conceituais ou metafísicas, mas não físicas).
(Thomas 2004: online)
A meu ver, Thomas parece se precipitar em seus contra-exemplos. Em primeiro
lugar, a máxima humeana afirma que é impossível o que não pode ser imaginado, mas
daí não se segue que tudo quanto é possível possa ser imaginado; Hume não se
manifesta sobre o possível ser inconcebível o que torna o exemplo acerca do espaço-
tempo inadequado (quanto ao segundo exemplo, trataremos dele mais adiante).
Concordo, porém, com o fato de que ressalvas seriam necessárias à máxima. Do modo
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como entendo que Hume a formulou, imaginar estaria restrito a imagens, e as
impossibilidades a impossibilidades conceituais. Portanto, seria impossível formar
representação visual de água seca, pois a água é precisamente o que deixa as coisas
molhadas. Ainda assim, outras ressalvas de Thomas parecem apropriadas:
It is, however, worth mentioning that the maxim has very little purchase
if imagination is interpreted after the fashion of those who would deny its
essential connection with imagery. Clearly we can pretend or mistakenly
believe that impossible things are possible, and we suppose impossibility
every time we set up a sound reductio ad absurdum proof.
É, contudo, digno de menção o fato de a máxima ser de pouca monta se a
imaginação for interpretada à maneira dos que lhe negam conexão
essencial com imagens. Claramente, podemos fingir ou erroneamente
acreditar que coisas impossíveis são possíveis, e supor impossibilidades
sempre que elaboramos uma bem-montada prova do tipo reductio ad
absurdum.
(Thomas 2004: online)
Essa ressalva vem ao encontro do que disse anteriormente, e foi levada em
consideração quando expus o conceito de imaginação com o qual trabalharei abaixo.
Porém, ainda que nem todas as criações imaginárias sejam essencialmente visuais, o
problema de como compreendemos certos enunciados que implicam impossibilidade
física ou lógica permanece sem solução. Mesmo que não possamos visualizar água seca
ou um sol negro, o que de fato compreendemos ao nos depararmos com expressões
semelhantes em poemas, contos ou romances? É realmente verdade que as
compreendemos? Caso negativo, o que acontece quando nos deparamos com elas,
digamos, em um poema?
2. Literatura, contradição e impossibilidade
Passemos à segunda parte de nossa investigação. Segundo Hume, a
impossibilidade de que se imagine algo implica na impossibilidade de que exista
(HUME: 1978, p.29); destarte, testaremos a compreensibilidade de alguns exemplos
literários do impossível, a fim de verificar se são de fato incompreensíveis, e, caso
afirmativo, se isso implicaria impossibilidade de os traduzir para algum outro tipo de
representação, visual ou lingüística. O método empregado será, por questões práticas e
devido ao estado ainda inicial dessa reflexão, o da auto-auscultação: ao refletir sobre os
exemplos abaixo, vejo em mim que esforços faço para resolvê-los, levando inicialmente
em conta seu sentido literal
7
.
7
Pode talvez causar certa estranheza que um crítico literário se ocupe primordialmente com o
sentido literal de uma imagem poética, quando uma de suas principais funções seria justamente a de
comentar ou explanar seus possíveis sentidos extra-literais (alegórico, metafórico, político etc.). Porém,
no caso específico da investigação sendo levada a termo, é apenas no sentido literal que a conjunção de
idéias contrárias ou opostas poderia ser cognitivamente impossível; qualquer sentido extra-literal que
inferíssemos de uma imagem poética absurda seria justamente uma tentativa de resolver essa
impossibilidade.
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Antes, porém, de testá-los, seria pertinente traçar alguns parâmetros de análise. A
compreensibilidade de uma imagem literária, segundo nosso conceito de imaginação,
poderia ser verificada de dois modos:
Imagético. Modo restrito. O enunciado permite ao leitor parafraseá-lo
(mentalmente) por meio de imagens.
Lingüístico, conceitual ou semântico
8
. Modo amplo. O enunciado permite ao
leitor parafraseá-lo (mentalmente) por meio de palavras.
Por sua vez, a concorrência de idéias contrárias ou opostas poderia ocorrer em
três níveis:
Antítese ou contraste. Nível mais fraco. Aproximação de conceitos contrários ou
opostos sem que um altere o outro. Passível de paráfrase visual e/ou lingüística.
Oximoro ou contradição. Nível intermediário. Interferência (mormente unilateral)
entre conceitos contrários ou opostos, porém não mutuamente excludentes.
Passível de resolução, e portanto de paráfrase visual e/ou lingüística.
Impossibilidade. Nível absoluto. Interferência (mormente unilateral) entre
conceitos opostos ou contrários mutuamente excludentes. Não admitiria, segundo
Hume, resolução nem paráfrase visual e/ou lingüística.
A compreensão conceitual foi descrita como “modo amplo”, pois é mais
abrangente que a imagética: em tese, qualquer enunciado compreendido imageticamente
poderia também ser compreendido por conceitos expressos lingüisticamente havendo
alguns casos, inclusive, nos quais a possibilidade de compreensão imagética, embora
exista, é irrelevante. Nosso objetivo é investigar se, de fato, a literatura é capaz de
produzir locuções do terceiro nível (ou seja, conceitualmente impossíveis), a fim de
verificar se isso impediria a compreensão de qualquer modo.
2.1. Exemplo 1
[Hippolyte :] Vous voyez devant vous un prince déplorable,
Além disso, acredito que a leitura literária é uma leitura que soma sentidos: o texto
literário, semanticamente potencializado pelo uso de recursos tidos como literários e pela leitura que dele
se faz como texto literário, agrega níveis distintos de significado a uma mesma proposição ou enunciado.
O primeiro desses níveis é o literal. Cito um exemplo fornecido pelo escritor argentino Jorge Luis Borges:
Esa naturaleza plural es propia de todos los símbolos. Las alegorías, por ejemplo,
proponen al lector una doble o triple intuición, no unas figuras que se pueden canjear
por nombres sustantivos abstractos. […] La hambrienta y flaca loba del primer canto de
la Divina Comedia no es un emblema o letra de la avaricia: es un loba y es también la
avaricia, como en los sueños.
Essa natureza plural é própria de todos os símbolos. As alegorias, por exemplo,
propõem ao leitor uma dupla ou tripla intuição, não umas figuras que podem ser
substituídas por substantivos abstratos. […] A faminta e fraca loba do primeiro canto da
Divina Comédia não é um emblema ou letra da avareza: é uma loba e é também a
avareza, como nos sonhos. (Borges 1996: 275)
8
Como conceitos são compostos por traços semânticos e formalizados por meio de palavras, não
me parece que venha ao caso distinguir rigorosamente entre os termos conceitual, semântico e lingüístico;
por hora, prefiro empregá-los conjuntamente para designar esse modo de compreensão.
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D’un téméraire orgueil exemple mémorable.
Moi qui, contre l’amour fièrement révolté,
Aux fers de ses captifs ai longtemps insulté ;
[…] Par quel trouble [a] me vois-je emporté loin de moi ?
[b] Un moment a vaincu mon audace imprudente :
Cette âme si superbe est enfin dépendante.
[b] Depuis près de six mois, honteux, désespéré,
Portant partout le trait dont je suis déchiré,
Contre vous, contre moi, vainement je m’éprouve :
[c] Présente je vous fuis, absente je vous trouve ;
[…] [d] Maintenant je me cherche, et ne me trouve plus.
[Hipólito:] Vedes à vossa frente um lastimoso príncipe,
De um temeroso orgulho exemplo memorável.
Eu que, contra o amor soberbamente oposto,
De seus cativos insultei as correntes;
[…] Com que emoção [a] me vejo apartado de mim!
[b] Um momento venceu minha audácia imprudente:
Esta alma arrogante está enfim submissa.
Em desespero, envergonhado, [b] há seis meses,
Levando a toda parte o dardo que me fere,
Contra vós, contra mim, inutilmente eu luto:
[c] Presente, eu vos evito, ausente, eu vos encontro;
[…] [d] Agora eu me procuro e não me encontro mais.
(Racine 2007: 398-401, grifos meus)
Em nosso primeiro exemplo, podemos ver um modo simples de manipulação de
idéias contrárias ou opostas: em [b], as locuções um momento/seis meses pertencem
a enunciados diferentes. Essas locuções, por assim dizer, não se tocam: uma não é
predicado da outra, uma não redefine ou explica a outra. Entretanto, expressando ambas
certa duração e opondo-se quanto ao traço [+singular]/[+plural], sua justaposição gera
antítese. O momento singular em que Hipólito se apaixona é discretamente comparado à
pluralidade temporal do sofrimento que disso resultou. Segundo o método aqui
empregado, parece-me que seria mais fácil visualizar um momento (ou seja: uma cena)
que seis meses. Não obstante, o contraste é semântico, e sua base visual, caso a
admitamos, é praticamente irrelevante para a compreensão.
Também [c] apresenta antítese semântica. Os elementos de cada par de conceitos
presente/ausente, evitar(fugir)/encontrar encontram-se em enunciados distintos e
não se interferem; o paralelismo sintático entre os enunciados parece reforçar que os
comparemos e sintamos sua contrariedade. Mesmo assim, de se convir que nada
de incoerente no verso: é plausível fugir de alguém que se encontra presente, e
reencontrá-lo após haver estado ausente (apesar de, aqui, Hipólito provavelmente querer
dizer que reencontra a todo instante a lembrança de sua amada Arícia, e não a própria).
Os exemplos [b] e [c] foram aqui incluídos pela necessidade de se estabelecer
algo como uma “tipologia da contrariedade”: nem todo uso de conceitos
semanticamente opostos ou contrários é incoerente, ou beira à ininteligibilidade. Por sua
vez, os exemplos [a] e [d] apresentam construção mais complexa, sendo candidatos
adequados à verificação do postulado de Hume acerca da imaginação.
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Em [d], ocorre contraste semântico no par procurar/não encontrar. Porém, o
tratamento de ambos os verbos como reflexivos (procurar a si mesmo/não encontrar a si
mesmo) gera problemas em seu sentido literal. Não se pode procurar aquilo de cujo
paradeiro estamos cientes (procurar implica desconhecimento), muito menos se
estiver conosco (procurar implica a [aparente] ausência do procurado); como estamos
sempre conosco mesmos, em sentido literal, procurar e encontrar não atuariam como
verbos reflexivos. Podemos, contudo, visualizar alguém procurando algo; podemos
mesmo nos visualizar buscando algo como nosso duplo ou nosso gêmeo idêntico ou
seja, ao afrouxarmos o conceito de identidade (de “unicidade” para “semelhança
extrema sica ou funcional”), as proposições se tornam compreensíveis. Temos aqui,
portanto, um tipo cognitivamente menos radical de impossibilidade, que nossos
parâmetros iniciais não haviam previsto: a impossibilidade imagética analogicamente
compreendida. Emprestando algo de algum outro conceito ou imagem, um enunciado
impossível gera aparência de compreensão. (esse seria o caso do segundo exemplo de
Thomas: imaginar viagens mais rápidas que a velocidade da luz. Essas viagens são
concebidas analogicamente, a partir de nosso conhecimento quotidiano da velocidade, e
não de nosso conhecimento da velocidade da luz que, além de pouco preciso na
maioria dos casos, é por demais abstrato e muito afastado de nossa experiência do que
seja velocidade. Desse modo, a impossibilidade física dessas viagens não interfere em
nossa imaginação delas. Se válido, contudo, esse raciocínio estaria de acordo com a
descrição de que a velocidade da luz é inimaginável).
Em nível supra-literal, o problema tem solução ainda mais simples: Hipólito
fala, na verdade, de não se reconhecer mais: de estranhar suas ações e infelicidade
atuais, incompatíveis com o que anteriormente fazia e sentia. Assim, outro componente
de nosso processo de fazer sentido de enunciados impossíveis está na leitura do
impossível como expressão enfática ou dramática do possível como metáfora, alegoria
etc. Em [a], o mesmo tipo de expansão semântica ocorre com apartar: a rigor,
ninguém pode se apartar de si mesmo exceto quando, em nível literal, operamos uma
“trapaça cognitiva” e, em nível supra-literal, partimos para interpretações de outra
ordem (por exemplo, abandonar uma parte fundamental de si mesmo).
A sermos rigorosos com o postulado de Hume, [a] e [d] são literalmente
impossíveis; nossa capacidade interpretativa nos leva a buscar caminhos que os
resolvam, portanto não os sentimos como tal. O que imaginamos não é derivado
diretamente do que lemos, mas de algum desvio interpretativo. Por enquanto,
permanece válido que o impossível seja inimaginável.
2.2. Exemplo 2
Sou [e] o escravo que libertou o amo,
[f] o discípulo que ensinou o mestre.
Sou [g] a alma que ontem nasceu no mundo
e [g] no mesmo instante criou este mundo vetusto.
(Rumi 1996: 79, grifos meus)
Temos aqui a estrofe inicial de um poema sufi. Em linhas gerais, a literatura
mística busca um meio de aproximação não-racional da Divindade: a razão é
considerada limitada ou inadequada, sendo a experiência direta do Divino uma melhor
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forma de conhecimento. Uma das estratégias do discurso místico, portanto, é o uso de
figuras de linguagem contraditórias que, ao desafiar os limites da racionalidade e da
linguagem, abririam as vias para a iluminação.
Há, no caso de [e] e [f], como no de [a] e [d], inconsistências semânticas. Os
predicados usualmente atribuídos a amo e mestre (libertar e ensinar, respectivamente)
foram atribuídos a seus papéis complementares. No caso de [f], temos um oximoro
conceitual: apesar de ensinar ser o atributo principal do mestre e aprender o do
discípulo, nada impede que o contrário ocorra de vez em quando
9
; nada de
particularmente inconcebível no ato descrito, apesar de sua quebra de expectativas.
Além disso, como em [b], a compreensão deve ser vista antes como conceitual, pois o
fato de admitirmos algum tipo de cena mental relacionada a [f] seria de pouca monta
para sua compreensão: poderíamos, certamente, imaginar mestre e aluno sentados
conversando, mas, a rigor, nada haveria nessa representação visual em si que
evidenciasse se alguém está aprendendo algo, ou quem.
O caso de [e] é aparentemente mais complexo. Diferentemente da relação entre o
traço [+ensinar] e os conceitos de mestre e discípulo (preferencialidade para o primeiro),
o traço [+libertar] tem relação de exclusividade com o de amo (ou proprietário de
escravos): quem possui outra pessoa pode libertá-la. Conseqüentemente, se o
enunciado for tomado em sentido literal, temos uma impossibilidade conceitual. Como
em [d], porém, há também aqui uma aparência de compreensão: em nível supra-literal, é
possível imaginar que a liberdade concedida pelo escravo não é do mesmo tipo que a
liberdade que lhe concederia um amo: não se trataria de alforria, mas de liberação
espiritual. Também [e] nos apresenta um caso de impossibilidade semântica
analogicamente compreendida.
O caso de [g] não difere do de [e]. A alma é gerada dentro daquilo que ela
própria gera; é causa e conseqüência de um mesmo fenômeno, sendo a conseqüência
anterior à causa. São feridos aqui dois princípios fundamentais da causalidade: sua
unilateralidade e sua seqüência temporal. Segundo Hume, esse seria um exemplo claro
de impossibilidadealgo que não pode ser concebido, e que portanto não existe.
Porém, também [g] pode ser compreendido analogicamente; surpreendentemente, nossa
cognição plástica teria grande importância para isso. No caso da unilateralidade causal,
podemos, para compreender o enunciado, imaginar (visual e/ou lingüisticamente)
processos recíprocos; sua mais simples e abstrata tradução plástica seria representá-los
como duas setas formando juntas um círculo, sendo que uma aponta para a parte traseira
da outra, conforme a figura abaixo:
Outras imagens úteis seriam, por exemplo, a de duas pessoas se alimentando uma à
outra ou trocando presentes. Certamente, trata-se de uma transferência inválida do ponto
de vista estritamente semântico (o causal não pode ser recíproco nem simultâneo), mas
9
Estejamos, contudo, cientes de que essa é uma interpretação contemporânea. Não é impossível
que, quando o poema foi escrito, [f] funcionasse exatamente como [e].
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que no entanto nos auxiliaria a ter a sensação de que a proposição é compreensível
10
.
Também o problema da seqüência temporal é analogicamente resolvível. Sendo
o tempo concebido metaforicamente a partir do espaço
11
, e podendo o espaço ser
representado graficamente, nada nos impede de inverter a direção do tempo
mentalmente ou em um pedaço de papel, representando-o mediante linhas e setas. Outro
modo de compreendermos o aspecto temporal de [g] seria através da aplicação da
reversibilidade de certos atos que se processam no tempo ao próprio tempo: ir e vir,
enrolar e desenrolar, clicar os botões de “refazere “desfazer” de um processador de
textos etc. Em ambas as soluções, trata-se de um esforço de compreensão que
desvirtuaria o sentido estrito do conceito de causalidade, mas que seria eficaz em nos
auxiliar a sentir que compreendemos.
Ao final das contas, conseguimos compreender os enunciados do poema de
Rumi, e mesmo representá-los plasticamente. A sermos, porém, rigorosos com o que
disse Hume, ainda não estou seguro de que [g] seria concebível: analisamos como [g]
foi montada, mas isso não garante que consigamos formar dela correlato lingüístico ou
visual literal. Hume ainda parece ter razão.
2.3. Exemplo 3
Yes and No
Across a continent imaginary
Because it cannot be discovered now
Upon this fully apprehended planet
No more applicants considered,
Alas, alas
Ran an animal unzoological,
Without a fate, without a fact,
Its private history intact
Against the travesty
Of an anatomy.
Not visible not invisible,
Removed by dayless night,
Did it ever fly its ground
Out of fancy into light,
Into space to replace
Its unwritable decease?
10
Como explicação provisória, poderíamos especular que, quando divergência irreconciliável
entre sujeito e predicado, tendemos a nos focar em um deles, substituindo inconscientemente o outro por
um equivalente adequado: em [g], ao que parece, ao inferirmos que o enunciado estabelecia uma relação
de causalidade, levamos em conta os atributos explicitados no texto (ou seja, os predicados atribuídos a
essa relação causal em particular) e os redirecionamos para outro tipo de processo ou relação mais
compatível.
11
Por exemplo: expressões como “se eu pudesse fazer o tempo voltar para trás” e “votem uma
vida toda pela frente” mostram nossa compreensão do passado e do futuro é calcada em nossa relação
com o espaço.
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Ah, the minutes twinkle in and out
And in and out come and go
One by one, none by none,
What we know, what we don’t know.
Sim e não
Cruza continente imaginário
(Pois à descoberta ’inda não apto
Sobre este planeta plenicapto
Sem mais vaga a novos pretendentes
Ai, ai)
Correndo animal azoológico
Sem fato, sem fado,
Seu secreto histórico intocado
Frente à impostura
De uma anatomia.
Nem invisível, nem visível,
Remoto por noite sem dia,
Percorreu já a via que conduz
Do devaneio à luz
E ao espaço para retraçar
Seu fim inescrevível?
Ah, cada minuto pisca e apaga,
E são e não são e vêm e vão,
Uma a um, nenhum a nenhum,
Quanto sabemos, quanto não. (Jackson s/d: online)
Finalmente, passaremos à análise de um poema inteiro, cujo título mesmo já
parece convidar à leitura contrastiva. Normalmente, espera-se que entre o sim e o não
haja possibilidade de escolha: ou sim, ou não. Mas não parece ser o caso. Aqui, a
conjunção aditiva obriga sim E não a co-existirem.
A primeira estrofe nos introduz a um continente, inicialmente descrito como
“imaginário”. Em princípio, e em conformidade com o conceito de imaginação tal como
acima proposto, imaginário estaria oposto a real, mas vemos em seguida que não parece
ser bem esse o caso: não é imaginário por não existir, mas por não podermos ter dele
experiência direta (ainda). Novamente, contudo, a razão pela qual não podemos ter dele
experiência se deve ao fato de que nosso planeta é fully apprehended (plenicapto): o
continente é imaginário, pois não há espaço mais no mundo para que seja real. Ou seja,
a cada nova linha, o adjetivo imaginário muda de sentido: de “imaginário como criação
da mente” (nosso sentido elementar) para “imaginário como especulação sobre o
possível” para “imaginário porque impossível (inviável)”. Ao final, o estatuto desse
continente pende para o irreal; não obstante, o advérbio ainda gera o pressuposto que
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talvez possa (vir a) existir. Falamos, portanto, de algo que está entre a fantasia e o
desconhecido.
Na segunda estrofe, descobrimos que a preposição across (que inicia a primeira),
é satélite do verbo ran. Quem run across (cruza correndo) o continente é um “animal
azoológico”: um animal que não é animal. Como nos primeiros exemplos, somos
convidados por outra impossibilidade conceitual a buscar sentidos supra-literais: em que
circunstâncias um animal não seria uma animal? Um animal morto não é mais um
animal; um animal ainda no ovo ou no útero não é ainda um animal; um animal
imaginário não é bem um animal. De que modo nosso animal em particular escaparia à
sua classe? O restante da estrofe nos ensinará mais a seu respeito: fato, fado e histórico
os três atributos que lhe são relacionados, sendo dois negados e um pressuposto
poderiam representar as três instâncias temporais: fado é o que nos caberá em sorte no
futuro; fatos acerca de algo ou alguém, se verdadeiros, pertencem ao presente (ao eterno
presente); histórico é claramente relacionado ao passado. Esse animal não tem presente
nem futuro, e seu passado está intacto intocado, ou seja, ainda não descoberto ou
vasculhado.
Como parte de um continente aquém da apreensão humana, esse animal também
não pode (ainda?) ser apreendido. Sua história não pode ser estudada; de que modo a
história de um animal é estudada? No contexto da leitura de um poema calcado na
biologia, se imaginássemos volumes científicos com títulos como História dos
elefantes, parece-me que o mais natural seria falarmos em história como sinônimo de
evolução; portanto, o animal em questão seria não um indivíduo, mas uma classe, e sua
história seria as transformações adaptativas de sua anatomia, que o levariam, por
exemplo, de peixe a anfíbio, réptil, ave ou mamífero. O animal, portanto, não é
zoológico na medida em que não pode ser estudado. Como não sabemos se existe ou
não, todos os dados a seu respeito ficam em suspenso, impedindo sua apreensão (tanto
no sentido de conhecimento, para que ingresse na Zoologia, quanto no de captura, para
que ingresse em um zoológico). A terceira estrofe confirma a suspensão pelo novo par
opositor visível/invisível (cuja justaposição, para efeitos de nossa análise anterior, segue
o padrão da impossibilidade conceitual): não é invisível, pois não é um atributo até
então encontrado em animais, mas não é visível, pois está aquém de nossos olhos. Está
envolto na treva de nossa ignorância.
O cerne da terceira estrofe é uma pergunta: esse animal teria cruzado a barreira
entre a imaginação (a especulação) e a luz (o conhecimento)? Teria chegado a habitar o
espaço? Teria nos dado a possibilidade de especular acerca de seu fim? Retornamos aqui
a um ponto abordado na primeira estrofe: não sabemos se o animal está disponível ou
não ou seja, se existe em nós como hipótese ou ficção.
A estrofe final, aparentemente uma digressão que interrompe a ponderação
acerca do incógnito animal, retoma a estrutura de justaposição de pares opositores do
título, encerrando-se com o par que, segundo me parece, é o cerne temático do poema:
What we know, what we don’t know (quanto sabemos/quanto não [sabemos]). O poema
insistentemente nos convida a conceber o verdadeiramente inconcebível: o
desconhecido. Só podemos conceber aquilo que já conhecemos (como uma galinha), ou
de que temos indício (como um dinossauro); ao vislumbrarmos um animal qualquer
em nossa mente, deparamo-nos ou com a representação mental de um animal existente
ou um animal puramente imaginário. O animal de Sim e não” não é nenhuma dessas
coisas a bem da verdade, talvez seja uma delas, mas não sabemos qual. O animal de
“Sim e não”, sem ser puramente ficcional, tampouco é puramente especulativo.
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Se nos deixarmos verdadeiramente levar pelo mistério e pelas indagações do
poema, a mim parece difícil crer que esse animal, que nada tem de necessariamente
contraditório
12
, seja imaginável. Porém, através de nossa incapacidade imagética, Laura
Riding nos convida a uma experiência conhecida: “Sim e não”, mais que um poema
acerca de um animal duvidoso, é um poema acerca de nossas dúvidas. Através da
expansão de uma impossibilidade contingente (alguns enunciados no poema, como
vimos, implicam impossibilidades semânticas, porém resolvíveis em nível supra-literal),
“Sim e não” nos convida não ao conhecimento formal de um ser, mas ao conhecimento
como vivência direta de uma condição humana: a ignorância.
3. Conclusões
Chegamos ao final de nosso exercício. Para encerrar, devo dizer em primeiro
lugar que me sinto ainda inclinado a concordar com David Hume, quando afirma que o
impossível não pode ser imaginado: quando analisados, nossos exemplos não
retornaram impossibilidades conceituais que pudessem ser resolvidas plástica ou
semanticamente em nível literal.
Vimos, também, através de minha tentativa de interpretação literal e supra-literal
dos enunciados poéticos elencados, que a criatividade interpretativa humana busca
desvios e mesmo ligeiras trapaças para alcançar a compreensão do incompreensível.
Não se trata, porém, de um postura cognitivamente anti-ética, mas de um procedimento
de leitura usual e, em se tratando de literatura, mesmo desejável. Não tomamos as
impossibilidades literárias como impossíveis, mas como enigmas, ou convites ao
estranhamento do possível e do conhecido.
Finalmente, nosso último exemplo pareceu render algo verdadeiramente
inimaginável, mas não impossível. Analisando-o, vimos ainda que a literatura pode se
servir dessa impossibilidade mesma para suscitar outros tipos de experiência epistêmica.
Mesmo que a literatura não pareça ter força para concordar com Thomas e julgar
questionável o julgamento de Hume, é certamente forte o bastante para transformar a
impossibilidade em potência, e criar a partir dela.
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Uma vez que as contradições em sentido literal são resolvidas no ato da leitura.
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Artigo recebido em 11 de setembro de 2011 e aprovado em 15 de novembro de
2011.
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Aux fers de ses captifs ai longtemps insulté ; […] Par quel trouble [a] me vois-je emporté loin de moi ? [b
  • Moi Qui
  • Fièrement Révolté
Moi qui, contre l'amour fièrement révolté, Aux fers de ses captifs ai longtemps insulté ; […] Par quel trouble [a] me vois-je emporté loin de moi ? [b] Un moment a vaincu mon audace imprudente : Cette âme si superbe est enfin dépendante.
De seus cativos insultei as correntes; […] Com que emoção [a] me vejo apartado de mim! [b] Um momento venceu minha audácia imprudente
  • Eu Que, Contra O Amor Soberbamente Oposto
Eu que, contra o amor soberbamente oposto, De seus cativos insultei as correntes; […] Com que emoção [a] me vejo apartado de mim! [b] Um momento venceu minha audácia imprudente: Esta alma arrogante está enfim submissa.
[b] há seis meses, Levando a toda parte o dardo que me fere, Contra vós, contra mim, inutilmente eu luto: [c] Presente, eu vos evito, ausente, eu vos encontro
  • Em
Em desespero, envergonhado, [b] há seis meses, Levando a toda parte o dardo que me fere, Contra vós, contra mim, inutilmente eu luto: [c] Presente, eu vos evito, ausente, eu vos encontro; […] [d] Agora eu me procuro e não me encontro mais. (Racine 2007: 398-401, grifos meus)
Hipólito e Fedra: três tragédias. Estudo, trad. e notas: Joaquim Brasil Fontes. São Paulo: Iluminuras
  • Jean Fedra
  • Eurípedes ; Sêneca ; Racine
RACINE, Jean. Fedra. In: EURÍPEDES; SÊNECA; RACINE, Jean. Hipólito e Fedra: três tragédias. Estudo, trad. e notas: Joaquim Brasil Fontes. São Paulo: Iluminuras, 2007. pp. 353-489.
In: Poemas místicos: divan de Shams de Tabriz. Seleção, trad. e intro
  • Jalad Ud-Din
  • O Escravo Que Reina
RUMI, Jalad ud-Din. O escravo que reina. In: Poemas místicos: divan de Shams de Tabriz. Seleção, trad. e intro.: José Jorge de Carvalho. São Paulo: Attar, 1996. p. 79.
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  • Bertrand Hume
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Dictionary of Philosophy of Mind
  • Nigel J T Thomas
THOMAS, Nigel J. T. Imagination. In: ELIASMITH, C. (Ed.) Dictionary of Philosophy of Mind. <http://philosophy.uwaterloo.ca/MindDict/imagination.html>. Última modificação 11/maio/2004. Último acesso 27/nov/2011.
Moi qui, contre l'amour fièrement révolté, Aux fers de ses captifs ai longtemps insulté
  • D 'un Téméraire Orgueil Exemple Mémorable
D'un téméraire orgueil exemple mémorable. Moi qui, contre l'amour fièrement révolté, Aux fers de ses captifs ai longtemps insulté ;
Wells y las parábolas
  • Jorge Borges
  • Luis
BORGES, Jorge Luis. H. G. Wells y las parábolas. In: ________. Obras Completas I: 1923-1949, 5.ed. Barcelona: Emecé, 1996. pp. 275-6.