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Aspectos ecológicos e abundância dos Martim-pescadores no Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS

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Os martim-pescadores, pertencentes à família Alcedinidae, possuem ampla distribuição geográfica, sendo que a maioria das espécies ocorrem em zonas tropicais e subtropicais, próximos a ambientes aquáticos. Este estudo foi realizado junto às margens do rio dos Sinos, no município de São Leopoldo – RS, no período de abril a agosto de 2004. O objetivo foi estimar a composição, abundância e comportamento de três espécies de Martim-pescadores: Ceryle torquatus (Linnaeus, 1766), Chloroceryle amazona (Latham, 1790) e Chloroceryle americana (Gmelin, 1788). Foram realizadas observações quinzenais, percorrendo-se 10 km ao longo do rio, subdivididos em quatro áreas de 2,5 km cada, com distintos níveis de impacto antrópico. Registrou-se um total de 67 indivíduos, sendo que C. amazona foi a espécie mais abundante, com 49,3 % do total, seguida de C. torquatus com 38,8 % e C. americana com 11,9 %. A área classificada como a mais conservada apresentou maior abundância de martim-pescadores.
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Neotropical Biology and Conservation
1(1):42-47 may - august 2006
© by Unisinos
Luciane Baretta1
Maria Virginia Petry1
vpetry@unisinos.br
Martin Sander1
Ecological aspects and abundance of king shers in the Sinos River, São
Leopoldo, RS
The King sher, of the Alcedinidae family, has a wide geographical distribution. Most spe-
cies occur in tropical and subtropical zones near aquatic environments. This study was
realized on the margins of the Sinos River in São Leopoldo city – RS, from April to August
2004. The objective was to estimate the composition, abundance and behavior of the three
King sher species: Ceryle torquatus, Chloroceryle amazona and Chloroceryle americana.
Therefore, eld trips were did biweekly in four areas measuring 2,5 km, with different levels
of anthropical impact, along 10 km of the river. A total of 67 individuals were recorded. C.
amazona was the most abundant species with 49,3 % of the total, C. torquatus the second
with 38,8% and C. americana the less representative with 11,9%. The area with a higher
degree of conservation had the highest abundance of King sher.
Key words: Alcedinidae, substratum, behaviour, anthropical in uence.
Abstract
Os martim-pescadores, pertencentes à família Alcedinidae, possuem ampla distribuição
geográ ca, sendo que a maioria das espécies ocorrem em zonas tropicais e subtropic-
ais, próximos a ambientes aquáticos. Este estudo foi realizado junto às margens do rio
dos Sinos, no município de São Leopoldo – RS, no período de abril a agosto de 2004.
O objetivo foi estimar a composição, abundância e comportamento de três espécies de
martim-pescadores: Ceryle torquatus (Linnaeus, 1766), Chloroceryle amazona (Latham,
1790) e Chloroceryle americana (Gmelin, 1788). Foram realizadas observações quinzen-
ais, percorrendo-se 10 km ao longo do rio, subdivididos em quatro áreas de 2,5 km cada,
com distintos níveis de impacto antrópico. Registrou-se um total de 67 indivíduos, sendo
que C. amazona foi a espécie mais abundante, com 49,3 % do total, seguida de C. torqua-
tus com 38,8 % e C. americana com 11,9 %. A área classi cada como a mais conservada
apresentou maior abundância de martim-pescadores.
Palavras-chave: Alcedinidae, substrato, comportamento, in uência antrópica.
Resumo
Aspectos ecológicos e abundância dos martim-pescadores
no rio dos Sinos, São Leopoldo, RS
1 Laboratório de Ornitologia e Animais Mar-
inhos, Ciências da Saúde, Universidade do
Vale do Rio dos Sinos. Av. Unisinos, 950,
93022-000, São Leopoldo, RS, Brasil.
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Neotropical Biology and Conservation
Aspectos ecológicos e abundância dos martim-pescadores no rio dos Sinos, São Leopoldo, RS
Introdução
Os martim-pescadores pertencem à
família Alcedinidae, composta por 87
espécies (Fry et al., 1996). Possuem
ampla distribuição geográfica, sendo
que a maioria das espécies ocorre em
zonas tropicais e subtropicais, próximo
a ambientes aquáticos (Sick, 1997).
No Brasil ocorrem cinco espécies
(Sick, 1997) e, destas, três foram
registradas para o Rio Grande do
Sul: Ceryle torquatus, Chloroceryle
amazona e Chloroceryle americana
(CBRO, 2005).
A notável variação de tamanho
dentre as três espécies citadas
sugere uma separação trófica mais
ou menos acentuada, resultando em
particularidades ecológicas (Sick,
1997). As espécies grandes (C.
torquatus e C. amazona) habitam a
margem de maiores volumes dÊágua,
como grandes rios, lagos e lagunas.
Pousam sobre árvores altas e de
médio porte, troncos e galhos à beira
dÊágua, que utilizam para pesca (Sick,
1997). C. torquatus ocorre também na
orla marinha e em centros urbanos,
enquanto C. americana não se afasta
da vegetação ribeirinha (Rosário,
1996; Sick, 1997).
Diversos autores trazem informações
gerais relacionadas à distribuição
geográfica destas aves (Antas et al.,
1988; Mähler et al., 1996; Rosário,
1996; Sick, 1997; Belton, 2000;
Naka e Rodrigues, 2000; Accordi
et al., 2001; Azpiroz, 2001). As três
espécies citadas para o Rio Grande
do Sul também foram registradas para
a região do rio dos Sinos e banhados
adjacentes (Voss, 1977; Grillo e
Bencke, 1990; Grillo, 1995; Grillo e
Bencke, 1995; Voss, 1995; Sander et
al., 2002).
As aves têm grande importância
para a biologia da conservação por
se encontrarem no topo das cadeias
alimentares, sendo freqüentemente
utilizadas como indicadoras da qualidade
do ambiente (Primack e Rodrigues,
2002). Além da destruição do hábitat,
que é a mais séria ameaça para a maioria
das espécies de aves (Stotz et al., 1996;
Fontana et al., 2003), a poluição dos
cursos d´água destrói fontes de alimento,
tais como peixes, principal alimento das
espécies em estudo (Nuorteva, 1971;
Andrade e Dani, 1996).
Este trabalho teve como objetivo
comparar a distribuição, abundância
e o comportamento das três espécies
de martim-pescadores em quatro
trechos do rio dos Sinos com distintos
níveis de impacto antrópico. A partir
das informações obtidas pretendeu-
se contribuir para o conhecimento da
ecologia das espécies de Alcedinidae
na região, uma vez que esta ave é
adotada como espécie-símbolo em
projetos de conservação realizados
na bacia, o que torna relevante o seu
maior conhecimento na região.
Material e Métodos
A área de estudo está inserida
na Depressão Central, mais
especificadamente no município de
São Leopoldo, entre as coordenadas
(29°45Ê36.08‰ S, 51°08Ê04.70‰ W) e
(29°47Ê03.28‰ S, 51°11Ê24.12‰ W). O
Rio dos Sinos, cuja nascente localiza-
se no município de Caraá, próximo
a Santo Antônio da patrulha, possui
extensão de 185 km e tem sua foz no
município de canoas. Este trabalho foi
realizado junto às margens na parte
baixa da bacia hidrográfica do rio dos
Sinos no município de São Leopoldo,
onde ocorre uma extensa planície,
constituída por banhados e áreas
inundáveis (Teixeira, 2002).
O clima da região é subtropical úmido,
com temperatura média anual de
19,7°C. A precipitação pluviométrica
média anual é de 1.538,0 mm. O
período de seca ocorre entre os meses
de fevereiro a maio, e de novembro
a dezembro. Os picos de chuva
ocorrem entre os meses de junho a
setembro. Nesta região são freqüentes
as formações de névoa úmida e de
nevoeiro matinal (Teixeira, 2002).
Segundo Teixeira et al. (1986) a
vegetação desta região é denominada
Formações Pioneiras de Influência
Fluvial. Trata-se de uma vegetação
típica das primeiras fases de ocupação
de novas terras (Quaternário).
Os dados foram levantados em um
transecto de 10 km subdividido em
quatro áreas de 2,5 km cada, com
distintos níveis de modificações
antrópicas. O período de coleta
foi de março a agosto de 2004 com
saídas quinzenais sempre no período
Figura 1. Área de estudo: (A) Área urbanizada com edifícios; (B) Área urbanizada com
casas; (C) Área ocupada por população ribeirinha; (D) Área preservada com vegetação
ciliar.
Figure 1. Study sites: (A) Urbanized area with buildings; (B) Urbanized areas with
houses; (C) Area occupied by human population in the ood plain; (D) Preserved area
with riparian vegetation.
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Luciane Baretta, Maria Virginia Petry & Martin Sander
da manhã totalizando 12 saídas a
campo com 32 horas de observação.
Para a caracterização dos trechos
foram realizadas observações em
campo com auxílio de fotos aéreas e
carta geográfica do exército de 1980
na escala 1:50.000; carta de Novo
Hamburgo da Folha SH.22-V-D-VI-2
MI-2970/2 e carta de São Leopoldo da
folha SH.22-V-D-VI-4 MI-2970/4.
A partir das fotos aéreas e observações
em campo foram caracterizadas
as seguintes áreas: área de intensa
ocupação urbana (predominância de
edifícios) e com escassez de mata ciliar
(A); área de média urbanização (zona de
casas e edifícios) (B); área ocupada por
população ribeirinha, mas com densa
vegetação (C); área mais preservada,
com vegetação densa e baixa densidade
populacional (D) (Figura 1).
Realizou-se a coleta e posterior
identificação da vegetação
predominante na área, principalmente
aquela utilizada como poleiro pelos
martim-pescadores. A identificação
foi feita com auxílio de bibliografias e
comparação de exsicatas do Herbário
do Instituto Anchietano de Pesquisa
(PACA) na Universidade do Vale do
Rio dos Sinos.
A metodologia utilizada para o
levantamento das aves foi por transecto
seguindo Bibby et al. (1992). As áreas
foram percorridas com barco a motor
por 30 minutos. O comportamento
e abundância das três espécies de
martim-pescador ao longo do percurso
foram anotados em planilha de campo.
Os substratos foram classificados
como: tronco (toda vegetação morta,
flutuante, fixa ou pendente na água)
e árvore (espécies vegetais vivas).
Os comportamentos foram definidos
como „pouso‰, „vôo‰ e „forrageio‰
(observação e captura de alimento).
Para a observação das espécies foi
utilizado binóculo e na identificação e
distinção entre machos e fêmeas guia
de campo (Narosky e Yzurieta, 2003).
Para análise da influência da área na
abundância das espécies de „martins‰
utilizou-se ANOVA com Tukey a
posteriori. Analisou-se a interação
de área com a estação do ano (outono
e inverno) a partir da ANOVA
fatorial. Como não foram possíveis
réplicas espaciais, utilizamos réplicas
temporais. O substrato de pouso
(árvore ou tronco) foi avaliado a partir
do teste t. O nível dinâmico (variação
do nível da água no rio), a altura de
pouso (altura do substrato onde se
encontravam) e o comportamento
(pouso, vôo e forrageio) foram
avaliados a partir do Kruskal-Wallis.
Resultados
Nas quatro áreas analisadas foram
encontradas três espécies de martim-
pescadores: C. torquatus, C. amazona
e C. americana, porém com diferenças
na abundância de indivíduos conforme a
característica do estado de preservação
de cada hábitat ( Figura 1 e Tabela 1).
No período de março a agosto de 2004
foram registrados 67 indivíduos. C.
amazona foi a espécie mais abundante,
com 49,25 % do total de espécies
observadas, seguida de C. torquatus 38,8
% e C. americana, a menos representativa,
com 11,9 %. Entre as quatro áreas,
C. torquatus teve maior número de
Espécies ABCD
Total/1 TA
N%N%N%N%
Ceryle torquatus 2 7,7 4 15,4 5 19,2 15 57,7 26 38,8
Chloroceryle amazona 10 30,3 5 15,1 6 18,2 12 36,3 33 49,3
Chloroceryle americana 1 12,5 0 0,0 3 37,5 4 50,0 8 11,9
Total/2 13 9 14 31 67 100
Tabela 1. Abundância (N) e porcentagem (%) das três espécies de martim-pescadores nas quatro áreas, no período de abril à
agosto de 2004. Total/1 = n° de indivíduos de cada espécie na soma das áreas. Total/2 = n° de indivíduos; TA= porcentagem total.
Table 1. Abundance (N) and percentage (%) from the three species of king- shers in the four areas, during April and August 2004.
Total/1 = number of individuals obtained through the sum of the areas. Total/2 = number of individuals; TA = total percentage.
registros na áreaD‰ com 57,69 % do
total de indivíduos. C. amazona foi mais
abundante nas áreas „D‰ e „A‰, com
36,3 % e 30,3 % do total de indivíduos
respectivamente. Já C. americana teve
maior número de indivíduos nas áreas
„D‰ e „C‰ com 50 % e 37,5 % do total de
indivíduos (Tabela 1).
A abundância de C. torquatus, C.
amazona e C. americana não variou
quando avaliada a interação entre as
áreas e as estações do ano (F=0.845;
gl=24,3; P=0.483), (F=0,844; gl=24,3;
P=0,483), (F=0,462; gl=24,3; P=0,712)
respectivamente (Figura 2). Considerando
a abundância das três espécies entre as
áreas, estas diferiram significativamente
entre si (F=4.000; gl=24,3; P=0,019).
A área „D‰ foi a de maior abundância,
diferindo da área „A‰ (P= 0,021) e
marginalmente da „B‰ (P= 0,05).
O substrato utilizado para pouso por C.
torquatus foi preferencialmente árvore
(t=2.500; gl=14; P=0.025), enquanto
C. amazona não teve preferência
quanto ao substrato de pouso (t=0.209;
gl=14; P=0.838). Para C. americana
os dados foram insuficientes para a
análise, devido aos poucos registros
(Tabela 1, Figura 3).
A abundância de C. torquatus
(H=12.112; gl=7; P=0.097) e C.
amazona (H=12.33; gl=7; P=0.096)
não diferiu significativamente em
relação ao nível dinâmico do rio. A
abundância de C. americana reduziu
com a variação da dinâmica hídrica
do rio, não sendo registrado nenhum
indivíduo a partir de 1,10 m da altura
da água (H=8.705; gl=7; P=0.0275)
(Figura 4).
Quanto à altura de pouso no substrato,
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Aspectos ecológicos e abundância dos martim-pescadores no rio dos Sinos, São Leopoldo, RS
Figura 2. Abundância das três espécies de martim-pescadores em relação à área e es-
tações do ano, no Rio dos Sinos, São Leopoldo / RS. I = Inverno; O = Outono; A,B,C,D =
Áreas de estudo.
Figure 2. Abundance of the three king- shers species in relation to the área and sea-
sons, in the Sinos River, São Leopoldo / RS. I= Winter; O = Autumn; A,B,C,D = Studysites.
Figura 3. Substrato de pouso das três espécies de martin-pescadores, no Rio dos
Sinos, São Leopoldo / RS.
Figure 3. Resting-place substratum of the three species of king- shers, in Rio dos
Sinos, São Leopoldo / RS.
C. torquatus preferiu substratos
acima de 10 m de altura (H=9,532;
gl=4; P=0,049), enquanto C.
amazona e C. americana preferiram
substratos abaixo de 2 m de altura
(H=28,038; gl=4; P<0,0001),
(H= 12,632; gl=4; P=0,013)
respectivamente (Figura 5). Quanto
ao comportamento, os resultados
se mostraram significativos para C.
torquatus (H=9,701; gl=2; P=0,008)
e para C. amazona (H=10,431; gl=2;
P= 0,005). O primeiro demonstra
comportamento de „vôo‰ como
mais presente, enquanto que o
segundo demonstrou ter preferência
pelo comportamento de „pouso‰.
C. americana não demonstrou
ter atividade comportamental
preferencial (H=1,099; gl=2;
P=0,5777), (Figura 6).
Discussão
O martim-pescador-verde (C.
amazona) é a espécie mais abundante,
mesmo em áreas degradadas, seguido
por C. torquatus e C. americana. Dos
trabalhos realizados nesta mesma
região, somente Grillo e Bencke
(1995) trouxeram informações
sobre a freqüência com que estas
três espécies aparecem no Campus
da UNISINOS. Neste estudo, C.
amazona foi a mais freqüente, seguida
pelo C. torquatus e C. americana.
Já para o Delta do Jacuí, as três
espécies foram observadas em todos
os levantamentos realizados (Accordi
et al., 2001). Para Santa Catarina em
Florianópolis, C. torquatus foi a mais
abundante, enquanto C. amazona foi
rara e C. americana foi escassa (Naka
e Rodrigues, 2000). Para o Brasil C.
americana foi apontada como sendo a
espécie mais abundante (Sick, 1997).
As áreas „A‰ e „B‰ apresentaram
menor abundância de martim-
pescadores, e se caracterizam por ter
uma vegetação bastante degradada,
com forte influência antrópica, devido
a malha urbana ocupar até as margens
do Rio dos Sinos, restando pouco da
vegetação original. O que se mantém
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Figura 4. Abundância das três espécies de martim-pescadores em relação à variação
do nível dinâmico do Rio dos Sinos.
Figure 4. Abundance of the three species of king- shers in relation to Sinos River
dynamic level variation, São Leopoldo / RS.
Figura 5. Altura de pouso das três espécies de martim-pescadores, no Rio dos
Sinos,m São Leopoldo, RS.
Figure 5. Height of nesting from the three species of king- shers, in Sinos River, São
Leopoldo / RS.
é um estreito corredor de mata ciliar
com influência das cheias, formando
pequenos banhados e fragmentos com
vegetação pioneira. Na área „A‰ as
construções encontram-se à 10 metros
da margem do rio; na área „B‰ ocorre
redução das construções urbanas, mas
existe influência de algumas empresas
que descartam dejetos industriais e
domésticos e de dragas, que realizam
extração de areia provocando turbidez
da água e assoreamento das margens.
Estes fatores podem ser alguns dos
motivos que explicam a redução na
abundância das espécies estudadas.
Segundo Sick (1997), os cursos dÊágua
poluídos são abandonados pelos
Alcedinidae, pois a íntima relação das
aves com o hábitat as coloca em risco.
Os martim-pescadores sofrem maior
impacto pela destruição de seu hábitat
do que pelos ataques diretos à sua
segurança física (Larousse, 1993).
As áreas com maior abundância das
espécies („C‰ e „D‰) são caracterizadas
por apresentar uma vegetação
relativamente preservada, com árvores
e arbustos mais desenvolvidos. O
corredor de mata densa sofre influência
de uma população ribeirinha residual,
que ocasiona desmatamento e
constante atividade de pesca, banho e
circulação com pequenos barcos.
A área „D‰ apresentou uma vegetação
menos degradada, sendo que, nesta
área, o corredor de mata se encontra
menos fragmentado e com fluxo
antrópico reduzido. Neste trecho, o
rio é mais estreito, provavelmente por
não ocorrer extração de areia pelas
dragas. Arbustos e árvores são mais
desenvolvidos, com a predominância
de salgueiro (Salix humboldtiana),
sarandi (Sebastiana klotzschiana),
maricá (Mimosa bimucronata) e
ingá (Inga uruguaiensis), espécies
freqüentemente utilizadas como
poleiro pelos martim-pescadores.
A preferência de C. torquatus em
pousar em árvores com alturas acima
de 10 m pode estar relacionada ao
fato de não haver troncos disponíveis
com esta altura no local de estudo.
Segundo Rosário (1996) e Sick
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Aspectos ecológicos e abundância dos martim-pescadores no rio dos Sinos, São Leopoldo, RS
Figura 6. Comportamento das três espécies de martim-pescadores, no Rio dos Sinos,
São Leopoldo / RS
Figure 6. Behavior of the three species of king- shers, in the Sinos River, São
Leopoldo / RS.
(1997), esta espécie utiliza árvores
altas para o pouso. C. amazona pousou
tanto em troncos como em árvores,
não demonstrando preferência ao
substrato, devido à altura que pousa
(inferior a 2 m), sendo que o arbusto
mais utilizado é o maricá – Mimosa
bimucronata. Por outro lado, os
poucos indivíduos visualizados
de C. americana demonstraram
utilizar mais o tronco, sendo estes
relativamente baixos, próximos da
superfície da água e em emaranhados
de raízes junto à margem, numa altura
geralmente inferior a 2 m sendo este
comportamento também verificado
por Rosário (1996).
O fato dos martim-pescadores
desaparecerem no período de cheias,
em que a água ultrapassa 1,10 m (C.
americana) e 1,65 m (C. torquatus e
C. amazona), está relacionado com a
perda de substrato, ou seja, os troncos
encontram-se cobertos pela água.
Além disto, a água neste período
torna-se turva, dificultando a captura
do alimento. Sick (1997) cita que
neste período essas aves procuram
ocupar os banhados próximos ao
rio, onde as águas são mais rasas e
os poleiros estão presentes. Seria
interessante aprofundar estudos com
estas espécies nessas áreas próximas
ao rio, para constatar se existe
realmente deslocamentos dessas aves
neste período.
O comportamento de C. torquatus,
observado maior número de vezes
voando, pode estar relacionado com
o fato de ser uma espécie pouco
tolerante à presença humana. Essa
espécie, ao observar a presença do
barco, abandona o substrato e procura
entrar na vegetação ribeirinha, ou
segue vôo sobre o rio. C. amazona
foi registrada na maioria das vezes
apresentando comportamento de
pouso. Esta espécie não apresentou
alteração de comportamento com a
presença e o movimento do barco. Em
uma das saídas a campo foi possível
registrar um comportamento de
forrageio completo de C. amazona,
num período de 5 minutos. Ele bateu
com a presa no tronco antes de engolir.
Este mesmo comportamento é descrito
por Larousse (1993). C. americana
não altera seu comportamento com a
presença do barco, sendo registrado
também abaixo de galhos com muitas
folhas, quase que camuflado entre
elas.
As alterações produzidas pelo
homem no meio ambiente estão in-
fluenciando de maneira significativa
a distribuição de várias espécies de
aves. Algumas espécies, as generalis-
tas, tendem a aumentar sua abundân-
cia, enquanto que as especialistas
tendem a desaparecer (Azpiroz,
2001). Neste estudo verificamos que
a abundância dos martim-pescado-
res varia de acordo a perturbação an-
trópica do ambiente principalmente
pela falta de locais de pouso, seja
pela reduzida mata ciliar ou pela re-
tirada dos troncos nos trechos onde
ocorre a extração da areia no leito do
rio. No entanto, apenas seis meses
do ano foram avaliados, podendo a
distribuição dos indivíduos ser dis-
tinta durante o período reprodutivo
na primavera e verão.
Agradecimentos
Agradecemos à Secretaria Municipal
do Meio Ambiente de São Leopoldo
pelo apoio e estrutura fornecida para
realizar este trabalho e aos colegas do
Laboratório de Ornitologia e Animais
Marinhos da Universidade do Vale do
Rio dos Sinos.
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Submetido em: 11/11/2005
Aceito em: 08/5/2006
10_ART08_Baretta.indd 4810_ART08_Baretta.indd 48 17/8/2006 17:43:1117/8/2006 17:43:11
... As espécies de pequeno porte (C. aenea, C. americana e C. inda) são observadas em áreas de mata ripária ribeirinha, não ocorrendo em áreas antrópicas e centros urbanos, com exceção de C. americana(SICK, 1997;BARETTA et al., 2006;SIGRIST, 2008). Área de estudo O Campus da Universidade Federal do Amapá (S 00 0 00' 22,62"; O 51 0 04' 57,54"), localizado na cidade de Macapá -AP, possui uma área de 906.722,45 m 2 . ...
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Este trabalho tem como objetivo estudar a biologia reprodutiva de Megaceryle torquata no fragmento de floresta do Campus Marco Zero da Universidade Federal do Amapá. Foram monitorados 24 ninhos entre março de 2004 e fevereiro de 2005, observados em intervalos de 2-4 dias. As observações foram realizadas a partir pontos fixos, no solo, situado em frente aos ninhos. A época reprodutiva de M. torquata coincidiu com o início do período chuvoso que se estende de dezembro a julho. A construção de ninhos foi iniciada no mês de dezembro. A observação de cópula foi registrada uma única vez em uma embaúba (Cecropia sp.), a quatro metros de altura, com o macho posicionado em cima da fêmea, esta com as retrizes levantadas e o macho com as retrizes abaixadas, não demorando mais que 7 segundos. Na análise biométrica dos ninhegos, utilizamos três fêmeas que já se encontravam em um estágio bem avançado de desenvolvimento, com penas cobrindo cerca de mais 85 % do corpo. A alimentação dos ninhegos consistiu essencialmente de peixes (Hoplias malabaricus e Geophagus brasiliensis), capturados longe das áreas de nidificação. A alimentação dos ninhegos é efetuada pelo casal, com maior frequência pelos machos. O maior período de atividade na área de nidificação ocorreu das 07:00 as 11:00 horas, período também, de maior atividade de vocalização dos ninhegos. Palavras-chave: Nidificação, Martim-pescador-grande, Aves, Neotrópico. DOI: http://dx.doi.org/10.18561/2179-5746/biotaamazonia.v1n2p1-7
... Ceryle torquatus é normalmente visto utilizando substratos situados a mais de cinco metros de altura, como pontos de observação durante suas atividades de captura de alimentos (MOREIRA, 2005;BARETTA et al., 2006) evidenciando a importância da vegetação ciliar mais desenvolvida e preservada. Neste sentido, as três espécies de Alcedinidae encontradas no rio dos Sinos têm maior abundância na área D, que é a mais preservada. ...
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As aves são importantes bioindicadores de ambientes, sendo que a riqueza e abundância de espécies de áreas úmidas estão correlacionadas com a heterogeneidade espacial. O presente trabalho, realizado entre janeiro e dezembro de 2004, avaliou a diversidade de aves e sua distribuição espacial e temporal em um trecho do Rio dos Sinos com diferentes níveis de antropização. O trecho foi divido em quatro áreas (A, B, C, D), partindo do local com maior grau de antropização para o menor grau de antropização. Através da metodologia de observação direta por pontos, encontrou-se 65 espécies, sendo que a área D apresentou maior riqueza (n=46), enquanto que a área C apresentou a menor riqueza (n=37). Ao longo das estações do ano, verificou-se diferença significativa da riqueza de aves na área de estudo (F=12,878; gl=3; P=0,001), sendo maior durante o outono. Em termos de riqueza, as áreas B, C e D diferem entre si. Ao se comparar a abundância de aves entre as quatro áreas, observou-se diferença significativa entre estas (F=18,5; gl=3; P=0,01), sendo que somente a área D difere significativamente das demais áreas (P<0,04). Verificou-se que 12 espécies influenciaram significativamente a diferença na distribuição entre as quatro áreas. Desta forma, é necessária que a vegetação ciliar ao longo de rios que passam pelos centros urbanos seja preservada, pois oferecem abrigo e alimento a uma grande diversidade de aves.
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O presente trabalho lista 210 espécies registradas entre os anos 1977 e 2000 no Parque Estadual Delta do Jacuí. arredores de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O hábitat mais utilizado por espécie foi anotado e as espécies pouco conhecidas no estado ou com áreas de distribuição expandidas são comentadas.
Comportamento das três espécies de martim-pescadores, no Rio dos Sinos Behavior of the three species of king-fi shers, in the Sinos River
  • Figura São Leopoldo
  • Rs Accordi
  • I A Vélez
Figura 6. Comportamento das três espécies de martim-pescadores, no Rio dos Sinos, São Leopoldo / RS Figure 6. Behavior of the three species of king-fi shers, in the Sinos River, São Leopoldo / RS. ACCORDI, I.A.; VÉLEZ, E. e ALBU- QUERQUE, E.P. 2001. Lista anotada das aves do Parque Estadual Delta do Jacuí, RS. Acta Biologica Leopoldensia, 23(1):69-81.
Ameaças às aves e práticas de conservação Aves do Rio Grande do Sul: distribuição e biologia
  • S U Antas
  • P De
  • T Z Cavalcanti
  • M C V Azpiroz
  • A B Belton
ANDRADE, M.A. e DANI, S.U. 1996. Ameaças às aves e práticas de conservação. Belo Horizonte, Fundação Acangaú, 32 p. ANTAS, P.de T.Z.; CAVALCANTI, R.B. e CRUZ, M.C.V. 1988 Aves comuns do Planalto Central. Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 238 p. AZPIROZ, A.B. 2001. Aves del Uruguay: Lista e introducción a su biologia y conservación. Montevideo, Grupo Uruguayo para el Estudio y Conservación de las Aves, 104 p. BELTON, W. 2000. Aves do Rio Grande do Sul: distribuição e biologia. São Leopoldo, Unisinos, 584 p. 10_ART08_Baretta.indd 47 10_ART08_Baretta.indd 47 17/8/2006 17:43:11 17/8/2006 17:43:11
Os banhados do rio dos Sinos
  • C Aveline
C. AVELINE, Os banhados do rio dos Sinos.