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O cuidado como atribuição feminina: contribuições para um debate ético

Authors:

Abstract

This article addresses, through the analysis of gender and ethical reflection, the attribution to women, of the act of caring in bourgeois sociability. It focuses on the concern with the way it is presented, in a daily basis in women’s life, the inclusion of activities related to the care of other human beings in the process of growth or those who depend on the care of others to ensure the right to life. It shows that this incorporation is related to adherence to moral values and assignment of differentiated functions for men and women in this social state. It stresses the need for a critical analysis of this adherence enabling, this way, a tracking through free choices that beyond the web of causalities posed by material conditions of existence, may establish new values. It also signals to the importance of this debate in the construction of public policies aimed at the expansion of women empowerment.
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Ocuidadocomoatribuiçãofeminina:contribuiçõesparaum
debateético
Thecautionasfemaleassignment:contributionstoanethicaldebate
OlegnadeSouzaGuedes
MichelliAparecidaDaros
∗∗
RESUMO:
O presente artigo aborda, através da análise de gênero e de uma reflexão ética, a
atribuição do ato de cuidar às mulheres na sociabilidade burguesa.Centrase na
preocupação com a forma como se apresenta, no cotidiano das mulheres, a
incorporaçãodeatividadesrelacionadas aos cuidados de outros seres humanos em
processodecrescimentoouquedependemdoscuidadosdosoutrosparagarantiro
direito à vida. Mostra que esta incorporação relacionase com a adesão a valores
morais e atribuições de funções diferenciadas para homens e mulheres nessa
socialibilidade. Insiste na necessária análise crítica desta adesão para que se possa
trilhar por escolhas livres que, para além da teia de causalidades postas por
condições materiais de existência, possam fundar novos valores. Sinaliza, também,
paraaimportânciadessedebatenaconstruçãodepolíticaspúblicasvoltadasparaa
ampliaçãodaautonomiadasmulheres.
PALAVRASCHAVE:Valoresmorais;Atribuiçãodepapéis;Atodecuidar.
Abstract:
This article addresses, through the a nalysis of gender and ethical reflection, the
attribution to women,of the actofcaring in bourgeoissociability.It focuses onthe
concernwiththewayitispresented,inadailybasisinwomen’slife,theinclusionof
activitiesrelatedtothecareofother
humanbeingsintheprocessofgrowthorthos e
who depend on the care of others to ensure the right to life. It shows that this
incorporation is related to adherence to moral values and assignment of
differentiatedfunctionsformenandwomeninthissocialstate.Itstressesthe
need
for a critical analysis of this adherence enabling, this way, a tracking through free
choicesthatbeyondthewebofcausalitiesposedbymaterialconditionsofexistence,
may establish new values. It also signals to the importance of this debate in the
constructionofpublicpoliciesaimedattheexpansion
ofwomenempowerment.
Keywords:Moralvalues;Roles;actofcaring.
OlegnadeSouzaGuedes,doutoraemServiçoSocial,docentedoCursodeGraduaçãoemServiçoSociale
do Mestrado em Serviço Social e Política Social da Universidade Estadual de Londrina. Email:
mailto:olegnasg@gmail.com
.
∗∗
Michelli Aparecida Daros, graduada em Serviço Social; membro desde o ano de 2007 do grupo de
pesquisa “Ética e direitos Humanos: princípios norteadores em campos de atuação profissional do
assistentesocial”edesenvolveuprojetosdeiniciaçãocientíficasobrearelaçãoentreéticaegênero.
OlegnadeSouzaGuedes;MichelliAparecidaDaros
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Introdução
Nosensomoralconstruídonasociabilidadeburguesa,asatividadesquederivamdo
atodecuidartendemaseratribuídas àsmulheresenaturalizadasdeforma aaparecerem
como exclusivas e constitutivas da condição feminina. Ancorado neste senso moral,
valorescomoaltruísmoeatribuiçõescomoamaternagem
1
presentificam‐senocotidiano
dasmulheres,sobreaformadeduplajornadadetrabalho.
Àsmulheres, aindaque exerçamatividades profissionaisnão vinculadas ao ato de
cuidar,impõemsearesponsabilidadepelocuidadodeseusfamiliaresouporqueestesse
encontramemdesenvolvimento(criançaseadolescentes)ouporque,emdecorrênciade
avançados processos de envelhecimento ou adoecimento, necessitam de cuidados
intensivos. As mulheres têm, portanto, na construção da sociabilidade burguesa,
ampliada ateia demediações queconcorrem parao processo dealienação que coíbea
possibilidade de realização de projetos livres. Cuidar dos familiares, dos companheiros,
em concomitância com as atividades sócioocupacionais, para cumprir normas
historicamente criadas e interpretadas como inerentes à natureza feminina, tornamse
aspectos de uma realidade que tende a desprenderse de seus sujeitos e apresentarse
comoeterna.
Inegável as conquistas do movimento feminista
2
, entre outros aspectos, no
questionamento desse processo de naturalização e no empenho em trazer à tona a
possibilidade e necessidade da igualdade de oportunidades e de participação política,
para além do sexo masculino e feminino. Um exemplo deste processo é a garantia
direitos políticos, civis e sociais amulheres ehomens postos naConstituição Federalde
1988.Amoralidadehistórica,contudo,continuaaregerasaçõesdosindivíduossociaise
1
Importanteestabelecer,apoiadosemBadinter(1985),adiferençaentrematernagemematernidade.Por
maternagem compreendese a capacidade de cuidar de uma criança, educála moralmente para que
possaviveremsociedade,estacapacidadeestáligadaaocuidadogeraldesempenhadopelamulher,uma
vezqueelapodeexercer esta capacidadesocialmente
apreendidaemoutrasesferasdesuavida,como
por exemplo cuidar de familiares em momentos de doença, por exemplo. A maternagem é uma
construção sóciohistórica, pode ser exercida por homens e mulheres, embora o estigma continue no
campo feminino.A maternidade é a capacidade de parir uma criança, condição que
as mulheres
possuem.
2
Éapartirdécadade80queoMovimentoFeministanoBrasiltravalutasimportantesemtodasasesferas
sociais, o que ocasiona a visibilidade da questão de gênero e a construção de algumas políticas que
supramessademanda.
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aestamparaincongruênciaentreleierealidade.Esteartigocentrase,então,naanálise
deumdosaspectosdestamoralidade:aatribuição,prioritária,aogênerofemininodoato
decuidar deoutrosseres humanosemsituação de fragilidadeou quenecessitammaior
níveldeproteção.
Asmulhereseoatodecuidar
Dados de uma pesquisa exploratória
3
realizada durante o desenvolvimento do
ProjetodeExtensão“Desvelandoeconstruindooprocessodoacompanharedocuidarde
pacientes com doenças crônicodegenerativas” mostram que os cuidadores de doentes
crônicos e que estão em tratamento no Hospital Universitário de Londrina, são em sua
maioria(88%),dosexofeminino.Amaioriadestepercentual(70%)écompostaporfilhas
ouporesposasde pacientesinternadosnestehospital.Oacessoaestesdadosaliadoàs
reflexões sobre valores morais desenvolvidas no grupo de pesquisa “Ética e Direitos
Humanos:princípiosnorteadoresemcamposdeatuaçãoprofissionaldoassistentesocial”
nosmotivouarefletirsobreaatribuiçãodoatodecuidaràsmulheres.
Observase no senso comum afirmações em que a naturalização da mulher como
cuidadora vinculase a diferentes lugares atribuídos a ela na família: esposa ou
companheira; filha, mãe, tia, avó. De qualquer lugar, desde que seja mulher, cuidar do
membro da família que está adoecido e requer atenção constante ou ainda, cuidar dos
familiaresparaqueatravessemumafasedefragilidadeafimdepreservarodireitoàvida
,tornaseprioritáriosobreosprópriosprojetos
4
.Aoidentificarsecomoatodecuidar,a
mulher, muitas vezes, distanciase da possibilidade de outras escolhas, ou distanciase
3
A pesquisa, que é parte das atividades do Projeto de Extensão Projeto “Desvelando e construindo o
Processo do Acompanhar e do Cuidar de Pacientes com Doenças CrônicoDegenerativas” foi realizada
entre 2006 e 2007. Foram entrevistados 387 cuidadores de pacientes hospitalizados nas unidades,
masculinaefeminina,edeMoléstiasInfecciosas
doreferidohospital.Talpesquisa, foi coordenadapela
Profa.LúciaHelenaMachadodoCarmoeteveseusdadosexpostosno“SalãodeExtensão”realizadona
Universidade Estadual de Londrina em 2008. A referida pesquisa, conforme apresentação nesse Salão,
permitiulevantardadosbásicoscomo:identificaçãopessoalefamiliar;oprocessodadoença,
focalizando
ascondiçõesdesaúdedocuidador;questõesreferentesàscondiçõesobjetivasparaoatodocuidar.
4
Dentre as pesquisas que tivemos acesso e que corroboram para a veracidade da afirmação que ora
fazemos está a de Zagabria(2002).A autora, na análise da trajetóriade sete mulheres que cuidamdos
idosos de suas famílias, mostra que estas até reclamam do que fazem, mas assumem o papel
de
cuidadoras como algo do qual não podem desvencilharse porque são mulheres e elas são delegadas,
aindaquedeformatácita,pelafamíliaaresponsabilidadepelodesenvolvimentodestepapel.
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dosprópriosprojetos.Cuidardooutrotornaseoseucotidiano.Deformaanalógica,pela
metáforadarelaçãoentreagalinhaeovo,dizLispector:
Ovoé coisa pra se tomar cuidado. Por isso a galinhaéodisfarce do ovo. Para
queoovoatravesseostemposàgalinhaexiste.Mãeéparaisso[...]Oovoéo
grandesacrifíciodagalinha.Oovoéacruzqueagalinhacarreganavida.O
ovo
éosonhoinatingíveldagalinha.Agalinhaamaoovo[...]Sesoubessequetem
emsimesmao ovo,perderiaoestado degalinha.Sergalinhaéisso.A galinha
temoarconstrangido.(LISPECTOR,1975,p.58).
São os vetores sociais que vinculam os cuidados dos familiares às mulheres, mas
estes aparecem como se fossem biológicos à semelhança do processo que une o ovo à
galinha, na metáfora de Lispector. Nesta, ovo é função da galinha, antes mesmo de ela
seragalinha.Ascuidadoras,comoseobservanasconclusõesdoProjetodeExtensãoque
mencionamos, cuidam de seus filhos, irmãos, companheiros ainda que estes, muitas
vezes,representemgrandes sacrifícioseexijamrenuncia àsprópriasescolhas.Antesde
serem, cuidam.Adiam seus projetos, tal qual a galinha paralisa suas asas sobre o ovo a
serchocado.
A construção do papel de cuidar e sua limitação ao âmbito doméstico são
identificadas como inerente à esfera privada, como se a sociabilidade humana fosse
cindida em esferas colidentes: uma restrita à intimidade e outra, à esfera a pública,
identificada, entre outros fatores, como a destinada à participação política.Sob este
aspecto Arendt
(1989) analisa aspectos históricos do delineamento destas esferas e
mostra que a esfera privada, na Grécia antiga, era interpretada como reino para o
suprimento das necessidades básicas e, por isto, como o espaço da nãoliberdade; o
espaçoprépolítico;oespaçodolaborsema“testemunhadeoutros”.Vejamosoquediz
aautora:
O que distinguia a esfera familiar era que nela os homens viviam juntos por
seremaissocompelidosporsuasnecessidadesecarências.Aforçacompulsiva
eraaprópriavida[...]eavida,parasuamanutençãoindividualesobrevivência
como vida da espécie, requer a companhia dos outros. O fato
de que a
manutenção individual fosse a tarefa do homem e a sobrevivência da espécie
fosseatarefadamulhereratidocomoóbvio;eambasestasfunçõesnaturais,o
labor do homem no suprimento de alimentos e o labor da mulher no parto,
eramsujeitasàmesmapremênciada
vida.Portanto,acomunidadenaturaldo
lar decorria da necessidade: era a necessidade que reinava sobre todas as
atividades exercidas no lar. [...] A esfera polis, ao contrário, era a esfera da
liberdade, e se havia uma relação entre essas duas esferas era que a vitória
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sobre as necessidades da vida em família constituía a condição natural para a
liberdadenapolis(ARENDT,1995,p.40).
Faria & Nobre (1997), na esteira dessa análise de Arendt, afirmam que com a
consolidação do capitalismo, cristalizase a divisão entre as esferas pública e privada e
que esta última é considerada como o lugar próprio das mulheres, do doméstico, da
subjetividade, do cuidado; enquanto a esfera pública é considerada como o espaço dos
homens, dos iguais, da liberdade, do direito. Prescrevese, então, às mulheres, a
maternidade e os cuidados que dela derivam com relação à preservação da casa e dos
filhosbem como atarefadeguardiã doafetoeda moraldafamília.Embora prescritos,
esses papéis são assumidos e revelamse como mediações que concorrem para os
diversos níveis de alienação. Naturalizado, rotineiro, repetitivo, o cuidado do outro
atribuído às mulheres se distancia de qualquer teleologia e aparece como uma
causalidadequeseimpõesobreaformadeumatolerânciaavessaàpráxishumana,como
traduzametáforadeLispector
Osovosestalamnafrigideira,emergulhadanosonhopreparoocafédamanhã.
Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias
camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa
gritadoeridoecomido,claraegema,alegriaentrebrigas,diaque
éonossosal
enóssomososaldodia,viveréextremamentetolerável,viverocupaedistrai,
viverfazrir(LISPECTOR,1975,p.64).
Esta causalidade está regulamentada, muitas vezes de forma implícita, na divisão
social do trabalho e nas relações sociais de sexo que são relações antagônicas e
estruturantes para o conjunto do campo social; transversais à totalidade desse campo
social e coexistente em qualquer meio social (Kergoat,1996).Na definição dessas
relações, Kergoat (1996)
reflete sobre a necessária ruptura radical com as explicações
biologizantessobre asdiferençasentreaspráticassociais masculinas efemininas; o que
implica na ruptura com modelos supostos como universais. A autora afirma que as
diferençasentreossexossãoconstruídassocialmente;têmumabasematerialerevelam
secomorelaçõesdepoder.Asrelaçõessociaisdesexoeadivisãodotrabalho,conclui a
autora, são duas proposições indissociáveis que formam um sistema. É, portanto, a
análiseemtermosdedivisãosexualdotrabalhoquetornapossíveldemonstrarqueexiste
uma relação social específica entre os grupos de sexo. A relação entre os sexos não se
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esgotanarelaçãoconjugal,maséativaemtodososníveissociaisemsuasconfigurações
históricosociais.
Aspectosdamoralidadeedasatribuiçõesdegêneropresentesnopapelde
cuidadoratribuídoàmulher:dimensõesaseremconsideradasnaspolíticas
públicasdestinadasàsmulheres
A moral, na perspectiva materialista histórica, pode ser traduzida como um
conjuntoderegrasdestinadasaregularasrelaçõesentreosindivíduosnumacomunidade
social em um determinadocontexto sóciohistórico. Importante ressaltarque na análise
histórica estabelecida por Vásquez (2000), um dos autores que se filiam a esta
perspectiva, a função, validade, e o significado da moral são vinculados ao
desenvolvimento histórico no bojo do qual se erigem diferentes modos de produção e
que trazem a exigência de valores que fundam novas formas de deverser consoantes
comestesmodosdeprodução.
Para Vazquez (2000), vinculada ao modo de produção, a moral é histórica
precisamenteporqueéummododecomportarsedohomem,queéumserhistóricopor
natureza, ou seja, um ser que se autoreproduz, constantemente, no plano de sua
existênciamaterial,práticaeespiritual.Oquesequerressaltaréapossibilidadedapráxis
humana.Odeverserestávinculadoàscondiçõesmateriaisdeexistênciaquesedelineiam
emconformidade comumdeterminadomododeprodução;masestascondiçõesnãosão
antinômicasàteleologia.
A moral tem sua gênese na superação humana da natureza instintiva e no
afastamento,aindaembrionário(nasociedadeprimitiva)dasbarreirasnaturais
emse
oprocesso deconstruçãodo sersocial;istoé,quando ohomemsedistancia, aindaque
primariamente,doslimitesnaturaisedescobresecapazdeviveremcoletividadeparao
que se torna necessário, e estabelece formas de ser nesta coletividade. A moral exige,
portanto,nãoapenasqueohomemestejaemrelaçãocomosdemais,mastambémque
tenhaconsciênciadestarelaçãoparaquepossacomportarsedeacordocomasnormase
prescriçõesqueogovernam.
Como uma das esferas constitutivas da substância de sociedade, a moral não é
avessaàaçãohumana,aocontrário,ela
apresentasecomo:
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“(...) sistema de exigências e costume que permite ao homem converter em
necessidade interior em necessidade moral a elevação acima das
necessidades imediatas (...) de modoque a particularidade se identifique com
as exigências, aspirações e ações sociais que existem para além das
causalidades da própria pessoa, elevandose
realmente até essa altura”
(HELLER,1972,p.05).
No cotidiano, palco das ações rotineiras e repetitivas, esta conversão da
particularidade em exigências postas pela teia de causalidades coíbe a necessária
criticidadecomrelaçãoaosvaloresqueantecedemeorientamasescolhasdoshomense
as mulheres. Reiterase, dessa forma, a ausência de alternativas e possibilidades de
escolhas efetivamente livres. Este fato não elimina, entretanto, a possibilidade da
teleologia constitutiva do processo de autoconstrução do ser social e da construção da
liberdade. Dentre as mediações necessárias para apreensão de elementos constitutivos
desse processo, no que tange valores que permeiam as escolhas humanas na
sociabilidade burguesa, estão as delegações de responsabilidades sociais em
conformidadecomogêneromasculinooufeminino.
Ressaltase que modelo de família nuclear cristalizado no âmbito dessa
sociabilidadeburguesa
5
,asresponsabilidadesquerecaemsobreamulhersãoinculcadas
desdequeestasaindasãocrianças,nosprimórdiosdaeducaçãofamiliar.
As crianças são levadas a se identificarem com modelos do que é feminino e
masculino para melhor desempenharem os papéis correspondentes e as
atribuições femininas nãosão apenasdiferentes, mas tambémdesvalorizadas,
onde a mulhervive emcondições de inferioridadee subordinação em relação
aos homens. As desigualdades entre homens e
mulheres são construídas pela
sociedade e não pela diferença biológica entre os sexos. (FARIA; NOBRE,1997,
p.10.apud.PINTO,2008)
Para estudar este processo de identificação e naturalização de papéis que
conformam a situação desigual entre os diferentes gêneros feminino e masculino, se
desenvolvemosestudosqueconvergemparaaconstruçãodogênero
6
.Nestesestudos,
refletese que cabe as mulheres, entre outros papéis, os que se referem aos cuidados,
5
Dentreoutrosautores,Szymasnki(1997,p.24)esclarecequedentreosmodeloseteoriassobrefamílias
está o que se refere à família nuclear burguesa, composta por mãe, pai e filhos. “Fora desse contexto as
famíliassãoconsideradasincompletasedesestruturadas”.
6
SobreoconceitodeGênero,Costa(2005)afirmaquesetratadeumconceitoaindaemconstrução,mas
fundamentalparaestudar,cientificamente,asrelaçõesestabelecidasentremulheresehomens;ospapéis
quecadaumassumenasociedadeeasrelaçõesdepoderestabelecidasentreeles.
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sobretudo, com os filhos e familiares.A incorporação destes papéis e das atribuições
rotineiras que dele derivam são singularizadas de forma a aparecerem como escolhas
estoicamenteprazerosas.Vejamos,novamenteametáforadeLispector:
[...] quanto ao prazer dos agentes, eles também recebem sem orgulho.
Austeramentevivemtodososprazeres:inclusiveéonossosacrifícioparaqueo
ovosefaça.nosfoiimposta,inclusive,umanaturezatodaadequadaamuito
prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer. (LISPECTOR,
1975,
p.63).
Emoutromomento:
[...]agalinhanãofoisequerchamada.Agalinhaédiretamenteumaescolhida.
A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o susto da
galinhaéporqueestãosempreinterrompendooseudevaneio.Agalinhaéum
grandesonoAgalinhasofredeummal
desconhecido.Omaldesconhecidoda
galinhaéoovo.(LISPECTOR,1975,p.60).
Muitas vezes desconhecidos, os papéis femininos são assimilados como inerentes
ao gênero que é, segundo Scott (1994), um elemento constitutivo de relações sociais
fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos; um primeiro modo de dar
significadoàsrelaçõesdepoder.
No âmbito dessas relações de poder figurase um modelopadrão de família,
mononuclear, isto é, constituído por mãe, pai e filhos, ainda que a realidade mostre
configurações de outros arranjos familiares
7
. Este modeloinstituição é base para o
desenvolvimentodaidentidadedegênero,énesteambientequeascriançasaprendema
“ser homens” e “ser mulheres”. Espaço para construção de aspectos identidários, a
famíliadeveseroambientedeafeto,emqueseagarantiaoequilíbriopsicológicode
seusmembros.Asmulheressãoconsideradasasresponsáveisporestasupostaharmonia.
(Faria & Nobre, 1997) e pelo suprimento das necessidades afetivas dos membros da
família;umdosaspectosvinculadosaoatodecuidar.
Nesta perspectiva, Izquierdo (1990) aponta que quando se pensa em mulher,
supõese um sexo, mas também muitas outras faces identidárias tais como: donade
casa, passividade, maternidade, afetividade.Enquanto ao homem, atribuemse
característicascomoinvestigador,profissional,agressivo,racionalista,poucodetalhista.
7
Bilac (2005), em “Família: algumas inquietações”, faz referência a alterações importantes nos padrões
familiares e questiona: “Em que medida estas mudanças significam a renovação do(s) modelo (s)
existentesouaemergênciadenovosmodelos?”(BILAC,2005,p.35a38).
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Estespapéisdesempenhadospelosdiferentessexos,naperspectivahistóricaposta
pelacategoriagênero,osãoimutáveis;masaocontrário,associadosaosensomorale
àsnecessidadesmercantis;podem,portantoseapresentarnovasroupagensparaatender
a novas requisições; mas podem também ser ultrapassados sobre uma perspectiva
igualitária de ampliação do gênero humano. Ainda que uma nova moral que tenha na
igualdade seu aspecto basilar não seja possível na sociabilidade burguesa
8
; fazse
necessário construir as bases de um novo dever ser, no qual, homens e mulheres não
tenham seus papéis prescritos pela desigualdade e não sejam destituídos de sua
capacidadeteleológica.
Heller (1972) considera que tudo que contribui para o enriquecimento dos
componentes da essência humana‐o trabalho, a sociabilidade, a universalidade, a
consciência e aliberdade‐são valorese estes, dentre os quais estãoos valores morais,
nãosãoautônomos;masinscrevesenaconexãodaparticularidadecomauniversalidade
humana,presentenaescolhaslivres.
Entenderasescolhas,semareflexãoda liberdadecomoconstitutivadoprocessual
idade do ser social que se nessa conexão, é esvaziálas do seu significado; significa
limitálasàresignaçãoestóica.Maisumavez,aanalogiadeLispectoréesclarecedora:
Agalinhanãoqueriasacrificarasuavida. Aqueoptouporquererser“feliz”.A
que não percebia que, se passassea vida desenhando dentro desicomo uma
iluminuraoovo,elaestariaservindo.Aquenãosabiaperderasimesma.Aque
pensouquetinhapenasde
galinhaparasecobrirporpossuirpelepreciosa,sem
entender que as penas eram exclusivamente para suavizar a travessia ao
carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que
pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se
distraísse
totalmenteovôosefaria[...]Aquepensouque“eu”significaterum
si‐mesmo(LISPECTOR,1975,p.61).
A recusa dos padrões morais e da rigidez dos papéis atribuídos aos homens e às
mulheres e o necessário reconhecimento destes como sujeitos sociais traz à tona a
8
Umanovamoral,verdadeiramentehumana,implicaránumamudançadeatitudediantedotrabalho,num
desenvolvimento do espírito coletivista, na eliminação do espírito de posse, do individualismo, do
racismo e do chauvinismo; trará também uma mudança radical na atitude para com a mulher e a
estabilizaçãodasrelaçõesfamiliares. Emsuma,
significaráarealização efetivadoprincípiokantianoque
convidaaconsiderarsempreohomemcomoumfimenãocomoummeio.Umamoraldestetipopode
existirsomentenumasociedade,naqual,depoisdasupressãodaexploraçãodohomem,asrelaçõesdos
homenscomosseusprodutosedosindivíduos
entresisetornemtransparentes,istoé,percamocaráter
mistificado,alienantequetiveramatéaqui.”(VÁZQUEZ,2002,p.53).
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emancipaçãosocial feminina. Talé a perspectiva que deveiluminar as políticaspúblicas
que trilham o caminho da eqüidade entre os gêneros e que se insere, ainda que nos
limites da ordem burguesa, no debate da perspectiva democrática de direitos, em que
cidadãos independentes de etnia e gênero têm direitos sociais assegurados. Neste
sentido, cabe ressaltar que a luta das mulheres pela igualdade de gênero não está
relacionada apenas aos seus interesses imediatos, mas aos interesses gerais da
humanidade.Assiménecessáriopensaraspolíticaspúblicassobreaperspectivagêneroe
refletirsobreolugardasmulheresnessaspolíticas.
GodinhoeSilveira(apud CARLOTO 2004),naanálise dessas políticasdestinadasàs
mulheres, destacam que estas devem possibilitar a ampliação das condições de
autonomia e autosustentação das mulheres de forma a romper com os círculos de
dependência e subordinação; promover a capacitação profissional; ampliar o acesso à
escolaridade; possibilitar a revisão das funções do cuidado familiar e da divisão do
trabalho doméstico; combater a violência sexual e doméstica; garantir o exercício dos
direitosreprodutivosesexuais;combaterapobrezadasmulheres;fortalecerespaçosde
democraciacomoocontrolesocial.
As políticas públicas não são neutras; ao contrário, são construídas de forma a
beneficiardeterminadosinteressesetendemaobedeceràlógicatradicionaloEstado,no
que tange à fragmentação das ações (SILVEIRA, 2003).Desta maneira, para que a
igualdadedasrelaçõessexuaisestejanapautadessaspolíticas, éprecisoqueelas,emsua
totalidade, tenham, no emaranhado de suas redes, a perspectiva de
gênero. Silveira
(2003)consideraquecaminharparapolíticas integradasdegêneroé umaaspiraçãoainda
distante para a maioria dos organismos de políticas para mulheres na administração
públicabrasileirae,ressalta:
Para que as desigualdades de gênero sejam combatidas no contexto do
conjunto das desigualdades sociais, pressupõemse práticas decidadaniaativa
paraqueajustiçadegêneroseconcretize,sobretudopelaresponsabilidadedo
Estado de redistribuir riqueza, poder, entre regiões, classes, raças e etnias,
entremulheresehomensetc.(SILVEIRA,2003,
p.02).
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AautorailustraessareflexãocomaspropostasdoMinistériodaEducação(MEC)
9
,
em2003,nasquaissedestacavaacriaçãodeumabolsaparaque asmãescuidassemdos
filhos,deatétrêsanosdeidade,foradacreche.Váriasquestõessãoquestionáveisnessa
proposta,dizaautora,sobretudo,areafirmaçãodamulhercomocuidadora,restringindo
aaopapeldemãe.Interpretase,nestaspropostas,quecabeàmulherreceberumabolsa
para cuidar, como se ela fosse à substituta da ausência desse equipamento social. Uma
substituição que recebe o nome de benefício e que atribui a mulher o nome de
beneficiáriadeumrecursoquevisaincluirsuascrianças.Poreste
prisma,Carloto(2004)
considera que a principal estratégia das políticas centradas na família, e que têm como
tônica a entrega direta de bens ou atividades de capacitação, reforçam as habilidades
consideradasadequadasàsdonasdecasaemãesnãotrabalhadoras.
Não são, entretanto, apenas estratégias ou diretrizes circuncidadas nas políticas
públicas
que fomentarão a emancipação feminina. Fazse necessário empenhar para
construção social, sedimentada de valores críticos para que os padrões estéticos (na
metáforadeLispector,as“belaspenasdaGalinha”)tenhamseurealvalor.Paraqueisto
ocorradevesepleitear:areconstruçãodevalores;nãoescravismoàaparênciaveiculada
pela mídia como se as mulheres fossem feitas em séries e responsáveis pelos cuidados
que as mantém nestes padrões estéticos. Referimonos à necessária reflexão e
construção de valores que contemplem a diversidade das formas e que não se estejam
restritos a regras de condutas com raios de ação prédefinidos. Referimonos à
possibilidadedeescolhaslivresequeconcorrampararealizaçãodogênerohumano.
Conclusão
Superar a atribuição do papel de cuidador de seres humanos em situação de
fragilidade às mulheres é uma perspectiva ética a ser construída. Sabese que
reconstrução de valores, não se por saídas e descobertas individuais, mas, como diz
Heller, através da possibilidade de entender que o Eu é também um nós. Escolhas e
valores cotidianos são carregados de sociabilidade e, entender este caráter é
fundamental para construção de uma causalidade que não se imponha como
9
AnotíciaseencontranosarquivosdoJornalFolhadeSãoPaulo(29/06/2003,C9)
OlegnadeSouzaGuedes;MichelliAparecidaDaros
SERV.SOC.REV.,LONDRINA,V.12,N.1,P.122134,JUL/DEZ.2009
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determinista, mas traga, em seu cerne, a possibilidade de valores que concorram para
umasociabilidadefundadanaigualdadedogênerohumano.
Aconstrução destanovafaceta dahistórianão cabeapenasàsmulheres,masaos
sujeitos sociais, de ambos os sexos, que podem questionar valores e construir novas
possibilidades históricosociais. Se causalidade e teleologia não são antinômicas, o
cuidado pode ser atribuição de todos os indivíduos sociais, na construção de escolhas
livres.Èapartirdesteprismaqueocuidadopodeserumexercíciodealteridadeenãoa
negaçãodasprópriasescolhasouodesconhecimentodapossibilidadedessasescolhas.
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... Quanto ao gênero, Mattei e Heinen (2020) afirmam que é a ausência de fronteiras do tempo e espaço entre as funções que torna ainda mais perturbadora para quem responde pelas demandas familiares. Tornando o home office, provavelmente mais prejudicial as mulheres, sobretudo para aquelas com crianças pequenas, mães solteiras e aquelas que possuem função de cuidadoras (COSTA, 2007;GUEDES;DAROS, 2009;ARAÚJO;LUA, 2021;FEIJÓ et al., 2017). ...
... Quanto ao gênero, Mattei e Heinen (2020) afirmam que é a ausência de fronteiras do tempo e espaço entre as funções que torna ainda mais perturbadora para quem responde pelas demandas familiares. Tornando o home office, provavelmente mais prejudicial as mulheres, sobretudo para aquelas com crianças pequenas, mães solteiras e aquelas que possuem função de cuidadoras (COSTA, 2007;GUEDES;DAROS, 2009;ARAÚJO;LUA, 2021;FEIJÓ et al., 2017). ...
... As mulheres, em todo o mundo, são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico, o que já dificultava sua inserção no ambiente de trabalho e gerenciamento de conflitos entre essas duas funções. Somando isso, aos efeitos adversos da pandemia como: ausência de rede de apoios devido ao isolamento social compulsório, fechamento de escolas e creches, suspensão das atividades das cuidadoras profissionais (diaristas, trabalhadoras domésticas e babás) e não profissionais como vizinhos, amigos e parentes (LEMOS; BARBOSA; MONZATO, 2020; ARAÚJO; LUA, 2021) é de se esperar devido a toda a construção histórica, que todo esse trabalho extra, produzido pela pandemia, tenha recaído sobre as mulheres, exacerbando as desigualdades de gênero na divisão do trabalho doméstico familiar (GUEDES; DAROS, 2009;FEIJÓ et al., 2017). ...
Article
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Compreendendo que a adoção do home office no contexto da pandemia produziu e/ou intensificou efeitos na relação entre trabalho e família, em especial para trabalhadoras, o presente estudo buscou compreender como o trabalho home office refletiu na vida pessoal e profissional das mulheres durante a pandemia de covid19. Para alcançar este objetivo, foram entrevistadas 110 profissionais mulheres com diferentes constituições familiares. A maior parte das entrevistadas relataram sobrecarga de trabalho devido aos novos arranjos de trabalho que foram consequência da adesão compulsória do modelo de trabalho home office durante a pandemia. Cabe ressaltar, que mesmo com o aumento da carga de trabalho vivido pelas trabalhadoras entrevistas, não foi atribuído ao modelo de trabalho home office o impacto direto na vida familiar causando conflitos. O aumento significativo de horas trabalhadas, somadas as dificuldades de gestão de tempo e o fato de não possuir recursos necessários para execução do trabalho foram apontados como fatores contribuintes para a existência ou agravamento desse conflito o que nos permite contribuir para ampliar o debate sobre a temática conflito trabalho e família e dos fatores que podem levar a existência ou então ao agravamento dele.
... O principal achado deste estudo mostra, nestes 80 casos acompanhados de avaliações por demandas de hospitalização psiquiátrica compulsória, que mulheres predominam como personagens a quem se atribuem as tarefas de cuidado nas cenas familiares. Em suas falas, isso parece naturalizado como uma capacidade específica, ou até exclusiva, da mulher, mas se trata, na verdade, de uma construção sócio-histórica atrelada à moralidade que rege ações de indivíduos na sociedade 30 . Quem geralmente assume essa responsabilidade são filhas, esposas, noras, irmãs, ou outras mulheres 31 . ...
Article
Full-text available
Objective Care roles in family groups have historically been assigned to women. This paper addresses gender specificities in patient care in the context of assessments due to compulsory psychiatric hospitalizations, in order to verify whether, in this context, care tasks are still predominantly assigned to women. Methods This is an observational, descriptive, multiple-case study that followed 80 family visits in evaluations in compulsory psychiatric hospitalization processes from June 2020 to February 2022, in the city of Alvorada-RS. Results Women were directly involved, as applicants, in 78% of cases. In only 18 consultations there were no women present as companions, but 14 of these cases did not have any family or social network identified. The predominant participation of women can not be associated with family income or characteristics of patients or their clinical condition. In the analysis of follow-up interviews with family members, it is reiterated that the act of caring remains attributed to women. The accumulation of roles to be performed was also evidenced. Conclusions the delegation of care generates overload in women, generating feelings such as fear, apprehension and insecurity. Training and sensitization of teams for a systemic and gender perspective, actively proposing the inclusion of other family members and the redistribution of tasks, seems to be part of a possible caregivers caring strategy also in this context. KEYWORDS Gender; women; mental health; compulsory admission; families
... In this context, it is emphasized that the experience of physical and psychological illness involves the care exercised by a person, usually a woman, as the act of caring is naturalized as exclusive to the female condition (Guedes & Daros, 2009). Black women have greater tasks associated with the care directed to family members, third parties, and the home or in homes outside the family scope, as well as performing work of a laborious nature of extreme physical and psychological stress (Góis, 2008). ...
Book
This book addresses the lifelong effects of racism, covering its social, psychological, family, community and health impacts. The studies brought together in this contributed volume discuss experiences of discrimination, prejudice and exclusion experienced by children, young people, adults, older adults and their families; the processes of socialization, emotional regulation and construction of ethnic-racial identities; and stress-producing events associated with racism. This volume intends to contribute to a growing international effort to develop an antiracist agenda in developmental psychology by showcasing studies developed mainly in Brazil, the country with the largest black population in the world outside of Africa. Racism as an ideology that structures social relations and attributes superiority to one race over the others have developed in different ways in different countries. As a response to the 2020 social and health crisis, some North American developmental psychologists have started promoting initiatives to openly challenge racism. This book intends to contribute to this movement by bringing together studies conducted mainly in Brazil, but also in Germany and Norway, that adopt a racially informed approach to different topics in developmental psychology. Racism and Human Development intends to be an inspiration to students, scholars and practitioners who are seeking tools and examples of studies of race and racism from a developmental perspective. The establishment of an antiracist agenda in developmental psychology will never be possible without a commitment to the study of race as an indispensable social marker of human ontogeny in any society. This book is another step towards racial equity and towards a developmental science that leaves no one behind.
... In this context, it is emphasized that the experience of physical and psychological illness involves the care exercised by a person, usually a woman, as the act of caring is naturalized as exclusive to the female condition (Guedes & Daros, 2009). Black women have greater tasks associated with the care directed to family members, third parties, and the home or in homes outside the family scope, as well as performing work of a laborious nature of extreme physical and psychological stress (Góis, 2008). ...
Chapter
We present the book Racism and Human Development from its genesis, purpose, contributions, limitations, and aspirations. Our goals with this book have scientific and political implications. We place this work as another step toward racial equity and toward a developmental science that leaves no one behind. We consider the urgency of producing academic material in the field of developmental psychology that is capable of reflecting the social reality and the incipience of works that address the effects of racism throughout life, covering its social, psychological, family, community, and health impacts. We present our conceptualization of racism from the Brazilian experience, as well as the contexts of development and their relationship to racism. We hope this book serves as an inspiration to students, scholars, and practitioners who are seeking tools and examples of studies of race and racism from a developmental perspective.
... Ainda hoje em nossa sociedade a mulher é a principal responsável pelas atividades domésticas e cuidados com a família, possuindo maior proximidade com os filhos e participando ativamente de sua criação. (19) Tal fato explica o protagonismo feminino ligado à atividade de contação de histórias no espaço da família. No contexto escolar, principalmente no da educação infantil, também se observa maior quantitativo de mulheres entre os educadores, justificando a menção às professoras. ...
Article
O filme “Suprema” conta a história da advogada norte-americana Ruth Ginsburg, iniciante na faculdade de Direito de Harvard em 1956, e sua luta contra a desigualdade de gênero vigente à época. Observa-se que, nas relações sociais e vivência cotidiana, a sociedade internaliza práticas e discursos socializadores e condicionantes do que compete ao homem e à mulher. Os discursos estereotipados sobre o papel da mulher na família transcendem o âmbito privado, determinando a dinâmica e as práticas da esfera pública. Neste sentido, percebe-se que o Direito foi legitimado como um instrumento normativo masculino que pode contribuir para ampliar a dominação masculina sobre a mulher e/ou para a construção e perpetuação de papéis e práticas sociais estereotipadas.
Article
O humano não consome apenas o alimento que encontra na natureza, ele o prepara e/ou produz: a comida é também cultura e tecnologia. Mais ainda, o humano escolhe o que ingerir e a ingestão é (com)partilhada, o que denota os valores simbólicos e sociais de que a comida se reveste. Por isso, a fome ou a saciedade não são resultantes apenas do desequilíbrio ou equilíbrio proteico-calórico e de hidratação, mas também de memórias: imagens, cheiros, sons, histórias e desejos. A alimentação é, então, função orgânica que será sobredeterminada simbolicamente, se entrelaçará com um outro funcionamento humano, a linguagem, numa operação iniciada na interação mãe-bebê e encenada a partir da amamentação. Este artigo de pesquisa, a partir de uma casuística de 30 mães com bebês recém-nascidos, analisa a construção da posição materna em cenas alimentares com seus bebês, delineando suas características interacionais, suas consequências para a relação mãe-bebê, para o desenvolvimento da criança e para subjetividade dessas mulheres, inclusive em função de orientações técnicas, entre outras, de pediatras e de fonoaudiólogos sobre a alimentação de seus filhos. Os dados mostram que a amamentação é, na grande maioria dos casos, um desejo das mulheres, o que põe em realce o vigor e o valor da posição de alimentadora da mãe e, mais ainda, dela ser fonte do alimento do bebê. Observou-se, por fim, que a orientação especializada para as mulheres (do estudo) sobre a amamentação é feita, sobretudo, em período pós-natal, privilegiando sua importância quanto aos aspectos nutricionais da criança. Contudo, foi possível verificar, em muitas respostas das mães, que a amamentação constitui, principalmente, momento de prazer relacional, encenado pela intensa busca de interação com a criança, que reage com mudanças visíveis de comportamento corporal e porque olha para a mãe como resposta às suas palavras e carinhos, o que faz com que ela já reconheça aí intenção e comunicação.
Article
O papel de cuidadora, histórico-cultural atribuído a mulher, ancoradoprincipalmente na figura materna, muitas vezes a impõe a responsabilidade de cuidar dafamília, do cônjuge, dos filhos e de familiares adoecidos (GUEDES, DAROS, 2009).Ainda lidam com a dupla, por vezes, tripla jornada diária, o que pode comprometer asaúde pelo cansaço físico e mental, pela diminuição do tempo para cuidar de si.
Chapter
The black population in all its heterogeneity is more exposed to stressful events, which is intensified according to the intersectionality between gender, social class, territory, and sexual orientation. Greater investment is needed in studies on black populations’ aging in view of their economic, social, historical, political, and environmental conditions. This chapter is a theoretical study about cumulative stress-producing events associated with racism affecting the aging and old age of the black population: (1) illness and care and (2) violence, mourning, and death. Broadening the debate on these aspects may base the development of public policies to promote racial justice, as well as strengthen public policies that already exist toward black population aging with better living conditions.
Article
Gênero, Gram. Categoria que indica por meio de desinência uma divisão dos nomes baseada em critérios tais como sexo e associações psicológicas. Há gêneros masculino, feminino e neutro. Novo Dicionário da Língua Portuguesa (Aurélio B. de Hollanda Ferreira). Aqueles que se propõem a codificar os sentidos das palavras lutam por uma causa perdida, porque as palavras, como as idéias e as coisas que elas significam, têm uma história. Nem os professores de Oxford, nem a Academia Francesa foram inteiramente capazes de controlar a maré, de captar e fixar os sentidos livres do jogo da invenção e da imaginação humana. Mary Wortley Montagu acrescentava a ironia à sua denúncia do "belo sexo" ("meu único consolo em pertencer a este gênero é ter certeza de que nunca vou me casar com uma delas") fazendo uso, deliberadamente errado, da referência gramatical. Ao longo dos séculos, as pessoas utilizaram de forma figurada os termos gramaticais para evocar traços de caráter ou traços sexuais. Por exemplo, a utilização proposta pelo Dicionário da Língua Francesa de 1879 era: "Não se sabe qual é o seu gênero, se é macho ou fêmea, fala-se de um homem muito retraído, cujos sentimentos são desconhecidos". E Gladstone fazia esta distinção em 1878: "Atenas não tinha nada do sexo a não ser o gênero, nada de mulher a não ser a fama". Mais recentemente – recentemente demais para encontrar seu caminho nos dicionários ou na enciclopédia das ciências sociais – as feministas começaram a utilizar a palavra "gênero" mais seriamente, no sentido mais literal, como uma maneira de referir-se à organização social da relação entre os sexos. A conexão com a gramática é ao mesmo tempo explícita e cheia de possibilidades inexploradas. Explícita, porque o uso gramatical implica em regras que decorrem da designação do masculino ou feminino; cheia de possibilidades inexploradas, porque em vários idiomas indo-europeus existe uma terceira categoria – o sexo indefinido ou neutro. Na gramática, gênero é compreendido como um meio de classificar fenômenos, um sistema de distinções socialmente acordado mais do que uma descrição objetiva de traços inerentes. Além disso, as classificações sugerem uma relação entre categorias que permite distinções ou agrupamentos separados. No seu uso mais recente, o "gênero" parece ter aparecido primeiro entre as feministas americanas que queriam insistir na qualidade fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como "sexo" ou "diferença sexual". O "gênero" sublinhava também o aspecto relacional das definições normativas de feminilidade. As que estavam mais preocupadas com o fato de que a produção dos estudos femininos centrava-se sobre as mulheres de forma muito estreita e isolada, utilizaram o termo "gênero" para introduzir uma noção relacional no nosso vocabulário analítico. Segundo esta opinião, as mulheres e os homens eram definidos em termos recíprocos e nenhuma compreensão de qualquer um poderia existir através de estudo inteiramente separado. Assim, Nathalie Davis dizia em 1975: "Eu acho que deveríamos nos interessar pela história tanto dos homens quanto das mulheres, e que não deveríamos trabalhar unicamente sobre o sexo oprimido, da mesma forma que um historiador das classes não pode fixar seu olhar unicamente sobre os camponeses. Nosso objetivo é entender a importância dos sexos, dos grupos de gêneros no passado histórico. Nosso objetivo é descobrir a amplitude dos papéis sexuais e do simbolismo sexual nas várias sociedades e épocas, achar qual o seu sentido e como funcionavam para manter a ordem social e para mudá-la".
Ruptura ou reforço da dominação: gênero em perspectiva
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CARLOTO, Cássia. Ruptura ou reforço da dominação: gênero em perspectiva. In: GODINHO, Tatau; SILVEIRA, Maria Lúcia da (Org.). Políticas públicas e igualdade de gênero. São Paulo: Coordenadoria Especial da Mulher, 2004, p.149-156.
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BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
Novas formas de discriminação sexista-uma perspectiva da psicologia social. Tese (Doutorado em Educação, Sociedade, Politica e Cultura) -Faculdade de Educação da Unicamp
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COSTA, E. C. I. Novas formas de discriminação sexista-uma perspectiva da psicologia social. Tese (Doutorado em Educação, Sociedade, Politica e Cultura) -Faculdade de Educação da Unicamp, Campinas, 2005.
Relações sociais de sexo e divisão sexual do trabalho
  • D Kergoat
  • M J M Lopes
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KERGOAT, D. Relações sociais de sexo e divisão sexual do trabalho. In: LOPES, M. J. M.; MEYER, D. E.; WALDOW, V. R. (Org.). Gênero e saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. p. 41-51.
Projeto desvelando e construindo o processo do acompanhar e do cuidar de pacientes com doenças crônico-degenerativas, comunicação oral. Londrina: UEL
  • M L Machado
MACHADO, M. L. et al. Projeto desvelando e construindo o processo do acompanhar e do cuidar de pacientes com doenças crônico-degenerativas, comunicação oral. Londrina: UEL, 2008. -Não citado no texto.
Teorias e "teorias" de famílias
  • H Szymansnki
SZYMANSNKI, H. Teorias e "teorias" de famílias. In: CARVALHO, M. C. B. A família contemporânea em debate. 2. ed. São Paulo: EDUC, 1997. p. 23-38.
O cotidiano de cuidadores de idosos dependentes: o limite entre o cuidado e os maus tratos. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) -Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
  • D B Zagabria
ZAGABRIA, D. B. O cotidiano de cuidadores de idosos dependentes: o limite entre o cuidado e os maus tratos. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) -Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2001. -