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Formas de tratamento em português: entre léxico e discurso», in Matraga. Vol. 18, nº 28, Rio de Janeiro, UERJ, 2011, pp. 84-101.

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Abstract

O ponto de partida para esta reflexão é a dificuldade, para um estrangeiro que aprende o português mas também para muitos locutores que o falam enquanto língua materna, de utilizar adequadamente as formas de tratamento em português, dada a sua complexidade, como variadas vezes mostraram os trabalhos de Maria Helena Carreira (1997, 2001, 2002, 2004, 2007). A partir de um corpus de ficção, veremos as vantagens, para chegarmos a uma abordagem didáctica eficaz, de cruzar o olhar da linguística (quer do ponto de vista do léxico quer do discurso) disciplina que descreve essas formas, com o da literatura, uma vez que a ficção narrativa as usa por vezes de modo muito eficaz. Com base no original português e na tradução francesa do romance de José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), reflectiremos sobre o modo como foram traduzidas as formas de tratamento, para daí tirarmos algumas conclusões.
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FORMAS DE TRATAMENTO EM PORTUGUÊS:
ENTRE LÉXICO E DISCURSO
Isabel Margarida Duarte
(Faculdade de Letras da Universidade do Porto)
(Centro de Linguística da Universidade do Porto)
RESUMO
O ponto de partida para esta reflexão é a dificuldade, para um
estrangeiro que aprende o português mas também para mui-
tos locutores que o falam enquanto língua materna, de utili-
zar adequadamente as formas de tratamento em português,
dada a sua complexidade, como variadas vezes mostraram os
trabalhos de Maria Helena Carreira (1997, 2001, 2002, 2004,
2007). A partir de um corpus de ficção, veremos as vantagens,
para chegarmos a uma abordagem didáctica eficaz, de cruzar
o olhar da linguística (quer do ponto de vista do léxico quer
do discurso) disciplina que descreve essas formas, com o da
literatura, uma vez que a ficção narrativa as usa por vezes de
modo muito eficaz. Com base no original português e na tra-
dução francesa do romance de José Saramago, O Ano da Mor-
te de Ricardo Reis (1984), reflectiremos sobre o modo como
foram traduzidas as formas de tratamento, para daí tirarmos
algumas conclusões.
PALAVRAS-CHAVE: linguística, literatura, léxico, discurso,
formas de tratamento, português europeu.
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1. Complexidade das formas de tratamento em
Português Europeu: três aspectos
A complexidade do uso das formas de tratamento em português
origina múltiplas dificuldades e de diverso teor. A maior parte delas é
de tipo pragmático e decorre de o locutor não saber adequar a forma
própria ao destinatário que com ele se relaciona social e linguisticamente.
Mas, para que o locutor saiba empregar a forma adequada por meio da
qual se deve dirigir ao alocutário, tem de possuir, no seu acervo lexical,
um conjunto rico e variado de alternativas pelas quais possa optar, de-
pois de avaliar devidamente a situação enunciativa, o estatuto e a relação
entre os interlocutores entre os quais decorre a troca comunicativa.
A referida complexidade do emprego das formas de tratamento
em português foi já salientada por muitos investigadores, nomeada-
mente estrangeiros ou que ensinam português a estrangeiros (entre ou-
tros, ver CINTRA,1972; CARREIRA, 1997, 2001, 2002, 2004, 2007;
HAMMERMUELLER, 2004). A complexidade aumenta pelo facto de as varie-
dades brasileira e europeia do português não coincidirem neste ponto.
Mas às dificuldades próprias da não coincidência de usos em PE e PB
não vamos dedicar-nos agora, embora saibamos o quanto elas confun-
dem estudantes estrangeiros que podem ter contacto com professores
falantes das duas variedades. Os problemas de adequação no uso das
formas de tratamento coloca-se para os estrangeiros que aprendem por-
tuguês mas também, e cada vez mais, para os falantes de português
como língua materna (DUARTE, 2010), sobretudo para aquele vasto gru-
po que não fala, em casa, a variedade padrão que é a variedade utiliza-
da na escola, onde um uso inadequado das formas de tratamento, justa-
mente, pode ser muito penalizador para o aluno. Por outro lado, as
formas de tratamento configuram um lugar de permanente disfunção no
que concerne à tradução, porque nem sempre a língua de chegada do
texto a traduzir possui forma equivalente à portuguesa, nem sempre o
tradutor compreende as finíssimas especificidades que o emprego de
uma ou outra forma acarreta (DUARTE, 2008a e 2008b). Por isso irei tam-
bém comentar alguns exemplos da tradução francesa de um romance de
José Saramago, sempre com o intuito de salientar os problemas gerados
pela complexidade do sistema de tratamento português.
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No domínio das formas de tratamento, colocam-se, sobretudo,
três tipos de dificuldades.
a. O uso das formas de tratamento de tipo nominal é muito co-
dificado em português
1
já que elas variam, sobretudo mas não unicamente,
de acordo com a relação social existente entre o locutor e o destinatá-
rio do discurso, o que faz com que, como CINTRA (1972) e CARREIRA (1997,
2001) demonstraram, nos possamos dirigir a um locutor do sexo femi-
nino utilizando, por exemplo, Senhora Maria, Dona Maria, Senhora
Dona Maria, consoante a interlocutora estiver situada num nível mais
ou menos elevado da escala social. Como refere António Lobo Antunes,
a propósito da adequação sociolinguística da linguagem «falada» pelas
suas personagens, numa entrevista concedida a Maria Luisa Blanco
(BLANCO, 2002, p. 100):
As regras entre as classes são muito complicadas. Se damos um
tratamento excessivo à mulher que ajuda na limpeza ela pode ficar
incomodada, mas se o damos por baixo também, porque pensa que
estamos a humilhá-la. Quem adquiriu o estatuto de dona, fica furiosa
se é tratada por senhora, mas se é tratada por senhora dona tam-
bém fica furiosa…
Por outro lado, podemos chamar Menino ou Menina mesmo a
interlocutores que já não sejam crianças nem tão pouco adolescentes,
se o locutor estiver numa posição interactiva baixa em relação ao des-
tinatário, como no caso de Os Maias, em que Carlos adulto continua a
merecer esse tratamento do seu criado de quarto Baptista, o que já não
acontece na tradução francesa de Paul Teyssier:
De modo que havia já cinco semanas que o menino não escrevia a
madame Rughel…
– É necessário escrever amanhã… – disse Carlos (cap. V).
De sorte que voilà déjà cinq semaines que Monsieur n’avait pas écrit
à Madame
Rughel.
- Il faut écrire demain, dit Carlos.
Veremos, um pouco abaixo, por que razão esta também é uma
questão de léxico.
b. Para marcar a deferência em relação ao alocutário, o locutor
dirige-se-lhe, quer utilize uma forma nominal ou não, enquanto sujeito
de um verbo na 3ª
pessoa do singular (como em espanhol ou italiano) e
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não na 2ª pessoa do plural (5ª), como em francês.
c. A 3ª pessoa gramatical é a forma de tratamento mais frequente
em português (contrariamente ao tuteio, mais frequente em espanhol e
italiano). Como escrevia Alice Vieira numa crónica
2
dedicada ao mau
uso das formas de tratamento,
cada país (cada língua, cada cultura) tem a sua maneira específica
de se dirigir às pessoas. Mal passamos Vilar Formoso, logo toda a
gente se trata por tu, que os espanhóis não são de etiquetas nem de
salamaleques. Mas nós não somos espanhóis.
A 3ª pessoa gramatical combina-se, no discurso, (i) com as dife-
rentes «formas de tratamento», formas nominais de nos dirigirmos ao
outro, que são sujeito do verbo na 3ª pessoa, (ii) com o pronome « você »
e, sobretudo, (iii) com o pronome nulo Ø que permite evitar os
malentendidos decorrentes de um uso inapropriado de você
(HAMMERMUELLER, 2004). Com efeito, o pronome «você», generalizado ou
quase no Brasil, onde a sua utilização não levanta qualquer dificuldade,
coloca muitos problemas na variedade europeia do português, porque,
no singular, só é aceitável em certas regiões e em certas variedades
diastráticas, sendo o seu uso na variedade padrão muito específico de
certas relações absolutamente simétricas e amistosas e inaceitável na
maior parte dos casos, sobretudo sempre que exista dissimetria social
ou de idade entre os interlocutores. Nas variedades mais próximas da
norma, o «você» é quase inadmissível, geralmente sentido como gros-
seiro ou, pelo menos, pouco cortês.
O tratamento assimétrico dependente da idade é exemplificável
pelo seguinte excerto do conto “Farrusco”, de Bichos, de Miguel Torga,
em que a rapariga casadoira trata a alcoviteira, mais velha, em 3ª pes-
soa, mas esta a trata por “tu”:
Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que
a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada:
– Ora ? Que lhe dizia eu?
A Isaura nem queria acreditar:
– Ouvirias mal... (p. 144)
Obviamente que as formas de tratamento, como sabemos, são uma
zona sensível de mudança linguística por estarem muito dependentes
de variáveis sociais em plena evolução. Assim, quer no caso do PE quer
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do PB, há investigadores que assinalam uma progressiva e por vezes
acelerada alteração das formas de tratamento, no sentido de um maior
igualitarismo e reciprocidade de tratamento entre interlocutores (cf.
para o PE, GOUVEIA, 2008 e para o PB, SILVA, 2008). Neste sentido, na
mesma crónica de Alice Vieira já referida
3
, é possível considerar que só
o tratamento «senhora dona» é hoje cortês em PE, enquanto que outros
autores podem defender vários patamares nominais de tratamento para
as mulheres, consoante o respectivo estatuto social, como vimos no
exemplo de Lobo Antunes atrás transcrito:
[…] e as mulheres, depois de passarem por aqueles brevíssimos se-
gundos em que são tratadas por «Menina», passam de imediato –
sejam casadas, solteiras, viúvas ou amigadas, sejam velhas ou no-
vas, gordas ou magras, feias ou bonitas, ricas ou pobres – à catego-
ria de «Senhora Dona».
Insisto que me refiro unicamente ao PE, uma vez que, no PB, as
questões se colocam de modo muito diferente, sendo o uso de «você» o
preferido. Em PE, os problemas de inadequação do uso de «você» só se
põem no singular. Na 3ª pessoa do plural, «vocês» é perfeitamente acei-
tável quando o locutor se dirige a vários destinatários. Em contrapartida,
o emprego do pronome de 2ª pessoa do plural, «vós» está hoje relativa-
mente confinado quer geograficamente quer do ponto de vista dos ti-
pos de discurso em que é aceitável, enquanto forma de o locutor se
dirigir a vários interlocutores. Na verdade, no discurso da Igreja, é
perfeitamente normal que o sacerdote se dirija publicamente aos fiéis
tratando-os na 2ª pessoa do plural, mas essa forma está confinada, hoje,
a usos muito particulares e marcados.
É por ser tão complexo dirigirmo-nos a outro interlocutor em PE
que as formas de tratamento se tornam um problema de aprendizagem
para os estudantes de português língua estrangeira e foi da constatação
dessa dificuldade que partiram as pesquisas de CARREIRA (1997, 2001,
2004, 2007).
2. Linguística, literatura e aprendizagem da língua
A nosso ver, toda a aprendizagem da língua, seja ela materna,
segunda ou estrangeira, deve também passar, a um dado momento, pela
leitura de textos literários. Apoiamos esta opinião nos estudos de FON-
SECA (2002) que defendeu, em Portugal, a importância do cruzamento
do olhar da literatura e do da linguística para melhor compreender não
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apenas os textos e os fenómenos literários em geral e estilísticos em
particular, mas também a língua e os problemas linguísticos e gramati-
cais, e, mais especificamente, discursivos ou de uso.
Fonseca não está isolada, bem entendido, na sua luta em prol de
uma aproximação interdisciplinar entre os estudos linguísticos e lite-
rários, como atestam, por exemplo, alguns escritos recentes de Aguiar e
Silva (2005, 2008) e o número da revista Semen, 24 (Novembro 2007),
intitulado «Linguistique et poésie: le poème et ses réseaux», bem como os
escritos de outros investigadores, de que citarei apenas Jean-Michel Adam:
(...) la littérature n’est certes qu’une pratique discursive parmi d’autres,
mais une pratique particulièrement intéressante. Entre l’analyse du
discours dit “ordinaire” et celle du discours littéraire, il me paraît
indispensable d’instaurer un mouvement de va-et-vient, l’étude de
l’un donnant souvent à connaître quelque chose du fonctionnement
de l’autre (A
DAM, 1991, p. 5).
No que diz respeito ao estudo das línguas estrangeiras e sem sair
da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, poderei também citar
Bizarro (2007), que estudou os benefícios da leitura de textos literários
para a aprendizagem do francês como língua estrangeira. Henri Besse
tinha já adiantado, em 1989, uma posição idêntica:
Parce qu’en lui [texte littéraire] la langue travaille et est travaillée
plus que dans tout autre texte, parce que sa facture lui assure une
relative autonomie par rapport à ses conditions de production et de
réception, parce qu’il est l’un des lieux où s’élaborent et se
transmettent les mythes et les rites dans lesquels une société se
reconnaît et se distingue des autres, le texte littéraire nous paraît
particulièrement approprié à la classe de français langue étrangère
(B
ESSE, 1989, p. 7).
O convívio com a complexidade da linguagem literária é tão im-
portante para o aprofundamento da aprendizagem das línguas como o
contacto com documentos linguísticos reais, do quotidiano, não ficcionais.
Porque, embora essa discussão não possa ser feita nem agora nem aqui,
os textos literários são tão reais como quaisquer outros textos.
3. Exemplificação num romance de José Saramago
Passarei imediatamente à análise de algumas «formas de trata-
mento» recolhidas numa obra de ficção narrativa portuguesa, de modo
a melhor fazer compreender não só o que anteriormente escrevi sobre a
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complexidade das formas de tratamento, sobre a sua tradução e sobre a sua
aprendizagem, mas também sobre as vantagens da leitura de narrativas
literárias, no quadro dessa aprendizagem. Utilizarei exemplos de O Ano da
Morte de Ricardo Reis de José Saramago (1984)
4
, para ilustrar brevemente
o obstáculo que as formas de tratamento em português constituem não só
para a tradução mas também para a aprendizagem da língua.
Neste romance, o escritor português imagina que um dos
heterónimos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, autoexilado no Brasil,
regressa a Lisboa em 1935 (o ano da morte de Pessoa). Saramago mos-
tra-se muito atento, como habitualmente na sua obra, às diferenças so-
ciais e linguísticas que existiam na época em que se passa o enredo do
romance, sete anos depois do início da ditadura de 48 anos, terminada
em 1974. O texto e os seus diálogos mais ou menos canónicos não são
utilizados, aqui, para fornecer meros exemplos ou testemunhos de for-
mas de tratamento do português falado, até porque os diálogos de fic-
ção não são, obviamente, documentos orais, mas também para ilustrar o
estilo de Saramago, revelador das suas muito particulares intuições sobre
a língua tal qual se fala, do seu modo muito pessoal de restitutir, na sua
obra, ou de imitar, com extrema verossimilhança, as trocas orais reais.
Limitei-me a escolher três aspectos da complexidade do emprego
das formas de tratamento em PE dos quais já falei anteriormente :
(a) A dificuladade em encontrar a forma adequada seja ao
interlocutor, seja às intenções do locutor e à situação de enunciação;
(b) as assimetrias entre as diversas formas usadas, de acordo com o
lugar social ocupado pelos interlocutores e, finalmente, (c) um certo
emprego de «você».
a. o primeiro exemplo ilustra a dificuldade de encontrar a forma
de tratamento adequada que respeite o código social e linguístico regu-
lador dos seus usos discursivos. Este excerto revela as hesitações de
Ricardo Reis que tem de escolher uma forma de tratamento para escre-
ver a uma mulher, Marcenda
5
. Sublinho os problemas que essa escolha
coloca ao locutor, sobretudo porque, embora tratando-se de uma carta,
todas as opções sobre as quais ele hesita são formas de tratamento
alocutivo. O estudo desta passagem e a ampliação do leque de possibi-
lidade de escolhas pelos estudantes de português, sobretudo como lín-
gua estrangeira e segunda, mas também como língua materna, poderão
ser feitos no âmbito do alargamento do respectivo acervo lexical, pois
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sem a ferramenta lexical necessária, não é possível sequer avançar para
considerações do âmbito da pragmática ou do discurso.
As formas utilizadas por Reis vão da mais cerimoniosa distância
até à proximidade mais afectiva. Cito Détrie (DÉTRIE, 2006, p. 155) uma
vez que as formas de tratamento, tal como a apóstrofe, são reguladoras
da interacção, não apenas do ponto de vista social, mas também emotivo:
«Étant sans conteste un dispositif modal, l’apostrophe travaille
l’intersynchronisation: elle participe donc très fortement à la fois à la
régulation sociale et à celle des affects, les deux étant souvent combinées».
(1) Hesitou muito Ricardo Reis sobre o vocativo que deveria empre-
gar, uma carta, afinal, é um acto melindrosíssimo, a fórmula escrita
não admite médios termos, distância ou proximidade afectivas ten-
dem para uma determinação radical que, num caso e no outro, vai
acentuar o carácter, cerimonioso ou cúmplice, da relação que a dita
carta estabelecerá […]. Claro que Ricardo Reis não admitiu, sequer, a
hipótese de tratar Marcenda por excelentíssima senhora dona, ou
prezada senhora, a tanto não lhe chegaram os escrúpulos de etique-
ta, mas, tendo eliminado esta fácil impessoalidade, achou-se sem
léxico que não fosse perigosamente familiar, íntimo, minha querida
Marcenda, porquê sua, porquê querida, é certo que também poderia
escrever menina Marcenda ou cara Marcenda, e tentou-o, mas meni-
na pareceu-lhe ridículo, cara ainda mais, depois de algumas folhas
rasgadas achou-se com o simples nome […]
6
(p. 197).
Ricardo Reis hésita longuement sur le vocatif qu’il devait employer,
une lettre est un acte des plus délicats, la formule écrite n’admet pas
les moyens termes, l’éloignement ou le rapprochement affectif tendent
vers une détermination radicale qui, dans un cas comme dans l’autre,
accentue le caractère policé ou complice du lien que cette lettre établit
[…]. Ricardo Reis n’a évidemment pas retenu l’hypothèse d’appeler
Marcenda Très chère ou Très honorée madame, il n’a pas poussé le
respect de l’étiquette aussi loin, mais cette facile impersonnalité une
fois bannie, il ne put trouver de terme qui ne fût dangereusement
familier, intime, Ma chère Marcenda, par exemple, ou Marcenda chérie,
pourquoi sienne, pourquoi chérie, il pouvait écrire Mademoiselle
Marcenda, ou Chère Marcenda, et il s’y essaya, mais Mademoiselle
lui parut ridicule, chère encore davantage, et après avoir déchiré
plusieurs feuilles il se trouva avec le nom seul […] (p. 196).
A tradução francesa não consegue dar conta das subtilezas das
«formas de tratamento» portuguesas. Com efeito, a língua francesa não
dispõe de uma escala tão completa de possibilidades como o português.
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Essa diferença aparece claramente na tradução de excelentíssima se-
nhora Dona Marcenda, no exemplo (1), em que, em PE, temos três títu-
los antes do nome, estando o primeiro sempre no superlativo sintético.
No que concerne ao segundo exemplo, mostra a facilidade de
escolha do tratamento quando os interlocutores pertencem à mesma
classe social. Entre homens, nas relações mais ou menos formais, é nor-
mal empregar o título profissional (Reis é médico, Sampaio homem de
leis) seguido do nome de família, como acontece no exemplo (2) («tra-
tavam-se com deferência»):
(2) Tratavam-se com deferência, Doutor Reis, Doutor Sampaio, há
esta feliz igualdade entre eles, de título, e assim estiveram até ao fim
do intervalo, […] (p. 108).
Se traitant avec la déférence qu’autorise l’égalité des titres, docteur
Reis, docteur Sampaio
7
, et ils ont poursuivi de la sorte jusqu’à la fin
de l’entracte (p. 109).
Neste exemplo se configura mais uma especificidade das formas
de tratamento em PE. Se, para um homem, é possível usar o título da
profissão e o nome de família, sendo esta, até, a forma mais vulgar de
tratamento distanciado, o mesmo não acontece com as mulheres. Jamais
seria possível dirigirmo-nos a uma médica chamando-lhe Doutora Cu-
nha, sendo necessário usar, para as mulheres, o nome próprio. Assim,
dever-se-ia dizer Doutora Sandra, por exemplo.
b. A distância social entre os interlocutores determina, de modo
bastante rígido, em PE, o emprego das formas de tratamento. No exem-
plo (3), Pimenta, que trabalha no hotel onde está alojado Ricardo Reis,
dirige-se-lhe através da fórmula sujeito o + senhor + doutor + 3ª pessoa
do verbo. Reis, pelo contrário, dirige-se ao criado usando unicamente o
respectivo nome de família, Pimenta. Mas, com um outro empregado do
hotel, situado um pouco abaixo na escala social, porque é galego e este
povo forneceu durante décadas, pelo menos até à primeira metade do
séc. XX, emigrantes pobres que se ocupavam dos trabalhos mais duros
em Portugal, Ricardo Reis utiliza apenas o nome próprio Ramón
8
en-
quanto forma nominal de tratamento (4). A assimetria social dos
interlocutores aparece assim nos exemplos seguintes :
(3) O senhor doutor vai sair, Vou, vou dar por aí uma volta, e
começou a descer a escada, o Pimenta seguiu-o até ao patamar,
Quando o senhor doutor chegar, toque duas campainhadas, uma
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curta, outra comprida, assim já sei quem é, Vai ficar acordado, Pas-
sada a meia-noite deito-me, mas por mim o senhor doutor não se
prenda, venha à hora que quiser, Feliz ano novo, Pimenta, Um ano
novo muito próspero, senhor doutor, […] (p. 75)
Vous sortez, monsieur le docteur. Oui, je vais faire un tour et il a
commencé à descendre l’escalier, Pimenta l’a accompagné jusqu’au
palier, Quand vous reviendrez, monsieur le docteur, appuyez deux
fois sur la sonnette, un coup bref et un long, je saurai que c’est vous.
Vous allez rester éveillé. Passé minuit, je me couche, mais ne vous
en faites pas pour moi, monsieur le docteur, rentrez quand vous
voudrez. Bonne année, Pimenta. Que la nouvelle année vous apporte
la prospérité, monsieur le docteur, […] (p.75)
(4) […], o criado sorriu com bonomia familiar e disse, Dia de Reis
paga o senhor doutor, Fica combinado, Ramón, era este o nome, […]
(p. 73)
[…], le serveur lui sourit avec sa bonhomie coutumière, et dit, Le jour
des rois, ce sera votre tour de payer, monsieur le docteur. D’accord,
Ramon […] (p.73)
Em vez de vous + 2ª pessoa do plural seguida do vocativo (3, 4),
como na tradução francesa, o original português utiliza a forma o +
senhor + doutor como sujeito do verbo na 3ª pessoa do singular, sem
vocativo, modo mais frequente de nos dirigirmos a um alocutário com
o qual temos uma relação de deferência em PE, mas forma desconhecida
de tratamento em PB. Uma vez que se dirige a um interlocutor social-
mente superior, Pimenta utiliza a expressão nominal «o senhor doutor»,
(sujeito, nas três primeiras ocorrências de (3) e em (4)), mas, quando a
interlocução se faz no outro sentido, Reis utiliza apenas o nome de
família «Pimenta» ou mesmo o nome próprio «Ramón» enquanto forma
de alocução (ver (3) e (4)) + o verbo na 3ª pessoa, ou então o verbo só
sem qualquer sujeito (com sujeito Ø): «vai ficar acordado».
A distância linguística é muito bem compreendida pelas perso-
nagens que ocupam uma posição inferior na escala social (em (5), subli-
nhamos a distância social entre Lídia, criada de quarto, e Reis, médico
e cliente do hotel) e pode conduzir (em (6)) a que o superior se dirija ao
inferior na 2ª pessoa, o que seria revelador, não da proximidade entre
os interlocutores, como é habitualmente o caso quando a relação social
é simétrica, mas, pelo contrário, do poder, coisa que Cintra já tinha
notado (cf. CINTRA, 1972, p. 68). Salvador é o gerente do hotel e dirige-
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se à criada na 2ª pessoa, porque é seu superior hierárquico (6):
(5) O pequeno-almoço do senhor doutor, foi ensinada a dizer assim,
e, embora mulher nascida do povo, tão inteligente é que não esque-
ceu até hoje (p. 57).
Le petit déjeuner, monsieur le docteur, c’est ainsi qu’on lui a appris à
s’exprimer, et bien que femme du peuple, elle est suffisamment
intelligente pour ne pas avoir oublié la leçon (p.56).
(6) Como se chama, e ela respondeu, Lídia, senhor doutor, e acres-
centou, às ordens do senhor doutor, poderia ter dito doutra maneira,
por exemplo, e bem mais alto, Eis-me aqui, a este extremo autoriza-
da pela recomendação do gerente, Olha lá, ó Lídia, dá tu atenção ao
hóspede do duzentos e um, ao doutor Reis […] (p. 48).
Comment vous appelez-vous, Lidia, monsieur le docteur et elle a
ajouté, A votre service, monsieur le docteur. Elle aurait pu parler plus
fort et dire autre chose, par exemple, Je suis à vos ordres, formule
autorisée et même recommandée par le gérant, Écoute, Lidia, prends
bien soin du client du deux cent un, le docteur Reis, […] (pp. 47-48).
No exemplo (5) e numa das ocorrências de (6), não existe vocativo
em português, como acontece na tradução. Uma tradução mais literal
seria «le petit déjeuner de monsieur le docteur» (5) e «je suis aux ordres
de monsieur le docteur» (6). No exemplo (6), o original português re-
produz, com mais eficácia, o registo familiar, o modo marcado como
Salvador fala à criada. O acto injuntivo é eficaz porque o locutor trata
a criada por «tu» (mas ela nunca poderia devolver-lhe igual tratamento)
e a injunção é reforçada pelo uso da partícula modal «lá», pelo empre-
go da interjeição de chamamento «ó» antes do nome próprio (vocativo)
e pela inversão oralizante das posições de sujeito e predicado («dá tu»).
Nos seus estudos clássicos sobre as «formas de tratamento», Cintra
(1972) diz que elas praticamente não evoluíram desde a primeira meta-
de do século XIX até à primeira metade do século XX. Lembremos que
a acção do romance de Saramago se desenrola em 1935. Eis a razão
pela qual aceitamos perfeitamente, na boca das personagens, formas de
tratamento que quase desapareceram nos dias de hoje. No exemplo (7),
o agente de polícia não conhece Reis mas julga-o pelo aspecto, pelo seu
ethos, e dirige-se-lhe através da forma muito cerimoniosa e hoje quase
desaparecida de «Vossa Senhoria» (forma de origem italiana da qual
Cintra traçou a história, desde o século XV, quando era apenas usada
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para quem se dirigia ao rei, até ao seu progressivo alargamento a ou-
tros destinatários de posição social menos elevada). Ricardo Reis, por
seu turno, dirige-se ao seu interlocutor através da forma nominal «se-
nhor guarda» (vocativo), quer dizer, «senhor» + profissão; este respon-
de-lhe «com deferência»:
(7) Que ajuntamento é este, senhor guarda, e o agente de autoridade
responde com deferência, vê-se logo que o perguntador está aqui por
um acaso, É o bodo do Século, Mas é uma multidão, Saiba vossa
senhoria que se calculam em mais de mil os contemplados, […],
Muito obrigado pelas suas informações, senhor guarda, Às ordens de
vossa senhoria, passe vossa senhoria por aqui, […] (p. 69).
Cet attroupement, qu’est-ce donc, monsieur l’agent, et le représentant
de l’autorité répond avec déférence, il est évident que l’homme qui
l’interroge est ici par hasard, Ce sont les bonnes œuvres du Seculo.
Quelle foule. Diable, vous savez, on estime qu’il y a plus de mille
personnes ici. […] (p.68) Merci beaucoup pour ces informations,
monsieur l’agent. Je vous en prie, monsieur, tenez, passez par là,
[…] (p. 69).
O problema da tradução de «Vossa Senhoria» é de tal modo com-
plexo que o tradutor escolhe pura e simplesmente ignorar e não tradu-
zir essa «forma de tratamento», que no entanto é repetida três vezes
enquanto sujeito do verbo, pelo agente da polícia que se dirige a Ricardo
Reis. «Diable» é uma alternativa um pouco estranha para substituir, na
tradução francesa, o original «Vossa Senhoria», não só porque não exis-
te no texto português, mas também porque é demasiado informal, so-
bretudo na boca do polícia, cujo discurso era, de forma bastante veros-
símil, algo cerimonioso.
Um outro exemplo (8) dá conta de uma forma nominal semelhante
mas ainda utilizada nos nossos dias, «Vossa Excelência». Esta forma con-
tinua a existir na escrita e também na oralidade formal, em contextos
específicos, nomeadamente, no tribunal, no discurso parlamentar, nas
academias ou na diplomacia. Emprega-se obviamente hoje menos do que
em 1935 e também menos do que na época em que Cintra (1972) se lhe
referiu. O exemplo (8) ilustra o seu emprego normal entre pessoas cultas
e de um extracto social elevado que não tenham, no entanto, uma relação
de proximidade entre elas, como acontecia no século XIX:
(8) Ricardo Reis sai da sala de jantar, aproxima-se da porta dos
monogramas, aí tem de trocar vénias com o homem gordo que
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também ia saindo, Vossa excelência primeiro, Ora essa, por quem é,
saiu o gordo, Muito obrigado a vossa excelência […]. (p. 27)
Ricardo Reis sort de la salle à manger, s’approche de la porte aux
monogrammes, il lui faut échanger des politesses avec le gros homme
qui sort au même instant, Vous d’abord. Je vous en prie. Non, c’est
à vous. Le gros homme est sorti. Merci beaucoup, monsieur. (p. 29)
O pronome francês «vous» e o nome «monsieur» são muito mais
neutros, igualitários e menos marcados do que a fórmula cerimoniosa
«Vossa excelência» com a 3ª pessoa. A forma era ainda banal no século
XIX, em situações formais, em determinados ambientes da classe alta,
como o atesta o exemplo de Os Maias, de Eça de Queirós, traduzido por
Paul Teyssier, em que Alencar, dirigindo-se a Carlos da Maia, passa, de
forma aliás cómica, de um tipo de tratamento formal para outro mais
informal. Os matizes da variação, sensíveis em português, perdem-se,
em parte, na tradução francesa:
(9) – Vossa Excelência, já que as etiquetas sociais querem que eu lhe
dê excelência, mal sabe a quem apertou agora a mão…[…]
– E deixemo-nos já de excelências!, que eu vi-te nascer, meu rapaz!,
trouxe-te muito ao colo!, sujaste-me muita calça! Cos diabos, dá cá
outro abraço! (Os Maias, cap. VI)
– Monsieur – puisque l’étiquette veut que je vous dise «monsieur» –
vous ne savez pas à qui vous venez de serrer la main? […]
– Au diable les cérémonies! Je t’ai vu naître, mon garçon! Je t’ai
souvent porté dans mes bras! Tu m’as sali plus d’un pantalon!...
Que diable, embrasse-moi encore! (Les Maia, p. 188).
c. Carreira (2004, 2007) analisou com perspicácia o emprego de
«você» em PE. Em certas situações discursivas, o seu uso é sentido como
pouco polido, sobretudo se nos estivermos a dirigir a alguém de posi-
ção social superior ou que desconhecemos. Mas é possível usar o pro-
nome de igual para igual, e ele pode até ter, por vezes, uma tonalidade
afectuosa, como no exemplo (10), em que Ricardo Reis e Fernando
Pessoa falam entre si usando a 3ª pessoa, uma vez que a 2ª, demasiado
informal, não é adequada para a relação de afecto íntimo existente en-
tre os dois. Essa 3ª pessoa pode ser combinada com o pronome «você»,
utilizada sem pronome (ou com pronome Ø), ou ser combinada com os
nomes Reis e Pessoa usados enquanto vocativos e mesmo, quando os
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interlocutores se despedem, num momento de intimidade mais próxi-
ma, com os nomes próprios Fernando e Ricardo:
(10) Então como tem passado, um deles fez a pergunta, ou ambos,
não importa averiguar, considerando a insignificância da frase. (p.
79) […] é Fernando Pessoa quem primeiro fala, Soube que me foi
visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo
Reis respondeu assim, Pensei que estivesse (p. 80) –> ausência de
pronome ou pronome Æ + 3ª pessoa.
[…] Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções […]. Você
continua monárquico, Continuo, Sem rei, Pode-se ser monárquico e
não querer um rei. […]. Creio que vim por você ter morrido, é como
se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, […]
(p. 81). Então até breve, Fernando, gostei de o ver, E eu a si, Ricardo,
[…] (p. 82). –> «você» + 3ª pessoa.
Alors, que devenez-vous, l’un d’eux a posé la question, ou les deux
à la fois, qu’importe, la phrase est tellement banale. (p. 80) […] et
Fernando Pessoa parle le premier, J’ai su que vous m’aviez rendu
visite, je n’étais pas là, on me l’a dit après mon retour, et Ricardo
Reis répond, Je pensais que vous étiez là (p. 80).
Mon cher Reis, vous êtes destiné à fuir les révolutions […]. Êtes-vous
toujours monarchiste. Toujours. Sans roi. On peut être monarchiste
et ne pas vouloir d’un roi. (p. 81) […], je crois que je suis revenu parce
que vous étiez mort, et qu’après votre mort, j’étais le seul à pouvoir
remplir l’espace que vous occupiez. (pp. 80-01). […]. Alors à bientôt,
Fernando, j’ai été heureux de vous voir. Et moi aussi, Ricardo (p. 83).
4. Conclusão: complexidade e aprendizagem de
línguas
As línguas são mecanismos complexos e fascinantes. Numa dada
fase da respectiva aprendizagem, é absolutamente indispensável que
aquele que aprende uma língua seja confrontado com a sua complexi-
dade. A riqueza e a variedade dos inputs linguísticos são fundamentais
e não poderiam ver-se confinadas ao convívio com os discursos quoti-
dianos, como um certo comunicativismo excessivo propôs há uns anos.
Numa etapa mais avançada da aprendizagem, uma das formas mais úteis
de o aprendente se familiarizar com a complexidade inelutável da língua
é ler e analisar textos literários. O confronto reflectido de traduções pare-
ce-nos, neste âmbito, de grande rendimento pedagógico. O emprego das
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formas de tratamento faz parte das normas que regem a interacção
discursiva, tendo uma primordial importância na interlocução, porque
mostram «l’intersubjectivité coénonciative en la soulignant, en la mettant
au premier plan» (DÉTRIE, 2006, p. 194). No que diz respeito às formas de
tratamento em PE, aspecto particularmente complexo da aprendizagem
do português, sobretudo como língua estrangeira (HAMMERMUELLER, 2004)
produziu, a este respeito, considerações muito interessantes), é necessá-
rio um trabalho lexical explícito, que tenha por objectivo alargar e
aprofundar os conhecimentos do estudante quanto à área lexical em cau-
sa, eventualmente com recurso à história da língua. Este investimento no
alargamento da competência lexical do sujeito visa muni-lo dos instru-
mentos indispensáveis para que possa efectuar as escolhas discursivas
adequadas. Dá-nos razão Saramago quando diz, de Ricardo Reis, incapaz
de se decidir por uma fórmula para se dirigir a Marcenda: «achou-se sem
léxico que não fosse perigosamente familiar, íntimo». Para que os estu-
dantes de português se não achem nunca «sem léxico» para poderem
escolher a forma de tratamento mais ajustada a cada situação enunciativa,
é necessário dotá-los de um reportório lexical vasto.
Neste contexto, o contributo da leitura de romances de qualidade
literária inquestionável é muito útil e desafiadora, como espero ter de-
monstrado, porque os grandes escritores manipulam a língua com mes-
tria, de maneira subtil e criativa, tornando-a mais opaca e portanto
mais palpável e visível na sua materialidade e plasticidade, o que nos
permite entrever a complexidade dos sentidos.
ABSTRACT
The starting point of this work is the difficulty faced by
foreigners who learn Portuguese as well as by those who speak
it as a mother tongue whenever they have to use proper forms
of address. Forms of address in Portuguese are very complex,
as the work of Maria Helena Carreira (1997, 2001, 2002, 2004,
2007) has repeatedly demonstrated. By analyzing a corpus of
fiction, we will see the benefits that arise from combining
linguistic description (both lexical and discursive) with a
literary point of view to reach an efficient pedagogical
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approach, since fiction narratives use terms of address in very
realistic ways. Departing from the original version in
Portuguese and the French translation of the novel O Ano da
Morte de Ricardo Reis (1984), by José Saramago, we try to
understand how the terms of address have been translated.
KEYWORDS: linguistics, literature, didactic, terms of address,
Portuguese.
NOTAS
1
Quando usarmos português, neste texto, estaremos a tratar exclusivamente
do Português Europeu.
2
Ver Vieira, Alice, “Senhoras donas, por favor!”, in Jornal de Notícias, 28/09/
2008.
3
Ver nota 2.
4
Utilizo a tradução de Claude Fages, L’année de la mort de Ricardo Reis, Paris,
Éditions du Seuil, 1988, coll. Points.
5
Os nomes próprios são muito motivados em Saramago. Marcenda, que não
existe em português, tem um significado evidente se pensarmos no latim: a
personagem, como o nome próprio anuncia, destrói-se lentamente.
6
Sublinhados meus em todos os exemplos.
7
Em francês, o título para um advogado é «maître». «Docteur» só se emprega
para os médicos.
8
Senhor + nome próprio usa-se para um interlocutor que está socialmente
situado abaixo de um outro interlocutor para o qual se use senhor + apelido ou
nome de família.
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Recebido em: 30/03/20011
Aprovado em: 30/06/2011
... Not only does this pronoun explain the advancement of the third person and other nominal forms in the EP address system but it also demonstrates that the latter is indeed the locus of "linguistic struggle" (WATTS, 2003) over the meaning of forms of address and how (and to whom) they should be used. In fact, the form você is often described as "offensive", especially when used towards an elderly person or someone of a higher social status, an opinion shared by Braun (1988, p. 95: "Addressing someone with nonreciprocal você mostly means regarding the addressee as inferior"); Cunha and Cintra, 1998;Carreira, 2003;Duarte, 2011;Oliveira (1994Oliveira ( , 2009Oliveira ( , 2013, for example. In our view, the potentially offensive meaning attributed to você means that some EP speakers might feel a sense of discomfort when addressed by this form because they perceive it as incompatible with the view they have taken of their own public persona therefore, incompatible with their face wants. ...
... Furthermore, the significant presence of insults and slurs in this corpus (relevantly coupled with the use of 2p.sg.) also means that aggression crosses over to full-fledged impolitenessit is difficult to conceive that the particular vocatives displayed infigure 4were not driven by a sense of spite. It is also difficult to conceive that such insults and slurs do not bear the potential to cause negative emotions on addressees, emotion being an important part of the effects of impoliteness noted by a number of scholars(BLITVICH, 2010b;KIENPOINTNER, 2008;2011;HARDAKER, 2017). Furthermore, the nature of CMC means that it is unlikely that the participants in the YTC corpus know each other personally, thus eliminating the possibility of resorting to insults and slurs for banter, or for usages "by in-group members to express affection for or approval of another"(ARCHER, 2015, p. 82). ...
Article
Full-text available
This article examines forms of address in European Portuguese online and their potential to convey, or facilitate, verbal aggression. Departing from an incident at Bairro da Jamaica in the outskirts of Lisbon, in January 2019, where police were filmed attacking residents, two corpora are constituted based on comments left on YouTube and online Portuguese broadsheets. The analysis of the data shows that forms of address are important devices to facilitate verbal aggression and impoliteness; that online platforms cannot be seen homogeneously but rather as specific contexts imposing specific discursive constraints; and that issues of identity and cognition are fundamental aspects to be developed in future research attempts into forms of address. Keywords: Forms of address. European Portuguese. (Im)politeness. Verbal aggression.
... Dessa forma, estaremos atentos, na análise dos textos de tomada de posse, a todas as marcas indicadoras desses paradigmas, procurando problematizar as ocorrências na discussão que apresentaremos à frente. Além da consciência empírica como nativos de português (europeu), baseamos a afirmação de que está em curso uma mudança linguística em autores como Silva Dias (1916) que aponta a produção meridional de você em vez de vós; Cintra (1972), que fala já num vós como "pronome perdido"; Carreira (2004), que atesta a presença única de vós no português medieval para a posição de segunda pessoa do plural; Duarte (2011), que acrescenta que "na 3ª pessoa do plural, «vocês» é perfeitamente aceitável quando o locutor se dirige a vários destinatários" e que "o emprego do pronome de segunda pessoa do plural, «vós» está hoje relativamente confinado quer geograficamente quer do ponto de vista dos tipos de discurso em que é aceitável, enquanto forma de o locutor se dirigir a vários interlocutores" (DUARTE, 2011, p. 88); Aguiar e Paiva (2017) na reflexão sobre a oposição vós/vocês na fala bracarense e também Monteiro (2018), que sobre vós predica "a pessoa desaparecida". ...
Article
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O uso de vós, em PE, tem vindo a ser substituído pelo uso de vocês. Contudo, esta mudança na língua não é total nem está concluída, já que alguns falantes, em situações mais ou menos específicas, continuam a produzir elementos do paradigma da segunda pessoa do plural ou a optar por construções omissivas ou nominais. Neste contexto, apresentamos algumas considerações sobre os conceitos de Linguística Histórica e Pragmática Histórica, com o intuito de os relacionarmos posteriormente com a discussão em redor da necessidade de uma inclusão mais forte das formas de tratamento no Ensino. Para problematização dessas considerações, procuramos ocorrências da temática referida num corpus constituído por discursos de tomada de posse e refletimos sobre observações de falantes recolhidas através de inquérito.
... , Faria 2009, Aldina Marques 2010, Duarte 2010, 2011. Em segundo lugar, é incluída a metodologia do estudo e a descrição do perfil sociolinguístico da amostra selecionada e, em seguida, são expostos os resultados da investigação realizada, que está baseada nos dados de 48 inquéritos aplicados nas localidades de Viana do Castelo, Braga, Vila Real, Valença, Montalegre, Chaves, Vinhais e Boticas. ...
Conference Paper
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No português europeu (PE), o pronome você representa uma forma intermediária entre o pronome tu e formas nominais como o senhor, o doutor, o senhor engenheiro, etc., mas atualmente o seu uso e interpretação levam alguns problemas. Com efeito, nem todos os investigadores concordam quanto aos usos pragmáticos deste pronome, uma vez que a sua utilização varia entre as distintas áreas de Portugal e que, como afirma Gouveia (2008: 94), não é fácil chegar a um consenso sobre a sua definição e a descrição dos contextos dos seus usos e as variáveis sociais associadas. Nesse enquadramento, esta comunicação mostra a distribuição de uso do pronome você no norte de Portugal, levando em conta distintas variáveis, como as diferenças na sua utilização entre as vilas e as cidades, o sexo e a idade dos falantes, além do seu nível socioeconómico. Para isso, primeiro, apresenta-se uma descrição deste pronome nas principais gramáticas (Cunha e Cintra 2014 [1985], Vilela 1995, Mira Mateus et al. 2004, Paiva Raposo et al. 2020) e estudos sociolinguísticos e pragmáticos do PE (Cintra 1972 [1986], Faria 2009, Aldina Marques 2010, Duarte 2010, 2011). Em segundo lugar, é incluída a metodologia do estudo e a descrição do perfil sociolinguístico da amostra selecionada e, em seguida, são expostos os resultados da investigação realizada, que está baseada nos dados de 48 inquéritos aplicados nas localidades de Viana do Castelo, Braga, Vila Real, Valença, Montalegre, Chaves, Vinhais e Boticas. Finalmente, apresentam-se umas conclusões, com o objetivo de tratar de descrever os padrões de uso desta forma de tratamento na área escolhida.
... Uma possível explicação para a preferência de formas de tratamento singulares "você" e "tu" seria a de que uma amálgama de alocutários despersonalizados poderia não incorrer numa proximidade tão eficaz quanto aquela que é efetuada de modo individualizado, permitindo uma maior identificação. Além de que, como referido anteriormente, a escolha de "você"/"vocês", enquanto formas de tratamento, impõem uma maior proximidade interpessoal, do que "vós" ou "senhor(es)" e "senhora(s)", o que se repercute na dêixis social, por requerer uma relação interpessoal amistosa ou simétrica (Duarte, 2011), embora não veiculem o mesmo nível de proximidade interpessoal como a realizada por "tu", no PE (Pina, 2004). ...
Thesis
A prática discursiva, designada pelo empréstimo fake news, caracteriza-se pela disseminação intencional de informação falsa, duvidosa ou (des)informação. Além de ser uma ameaça para as democracias e para o jornalismo, pode também consistir num risco para a saúde pública. O objetivo desta investigação consiste em realizar uma análise pragmática de deíticos, em corpora de notícias, e dos respetivos anúncios publicitários, de conteúdo (pseudo)científico e (pseudo)medicinal, extraídos de dois sites . Estes sites têm sido considerados veiculadores de fake news ou notícias falsas pela imprensa diária portuguesa, nomeadamente pelo Diário de Notícias e pelo Jornal de Notícias. Recorre-se à metodologia quantitativa da Linguística de Corpus e ao programa de concordâncias WordSmith Tools, versão 7, para extrair listas de frequência, listas de palavras por ordem alfabética, clusters e linhas de concordância das ocorrências. Efetua-se uma análise discursiva de deíticos no plano enunciativo, no enquadramento teórico da proximização. Definida como uma estratégia pragmático-cognitiva de redução da distância, permite manipular ou ampliar a proximidade espacial, temporal, pessoal, emocional, epistémica ou axiológica. Ao forçar uma representação proximal de determinadas perspetivações conceptuais, persuade, consequentemente, o alocutário a aderir ou a identificar-se mais facilmente com o conteúdo veiculado (cf. Cap, 2006, 2008, 2010a-b, 2013a-b, 2014a-c, 2015, 2017; Chilton, 2004, 2005, 2010, 2014; Kopytowska, 2013, 2014a-b, 2015a- -b). Nos corpora em estudo, constata-se que se investe sobretudo nos tipos de proximização emocional, pessoal e temporal, o que pode contribuir, em combinação com outras características, para a identificação de notícias falsas. Os resultados indicam que futuras investigações podem centrar-se na análise de deíticos, tais como pronomes pessoais e possessivos, de primeira e de segunda pessoas, bem como a pessoa verbal, o Imperativo, o infinitivo, o aspeto progressivo, além de tempos verbais no Presente. Pragmática; Dêixis; Linguística de corpus; Notícias falsas; Proximização; Representações do discurso (pseudo)cientifico e (pseudo)medicinal. The discursive practice, called fake news, is characterized by the intentional dissemination of false or dubious content, or (mis)information. Besides being a threat to democracies and journalism, it can also be a risk for public health. The objective of this investigation is to undertake a pragmatic analysis of deictic items in news corpora and their corresponding advertisements of (pseudo)scientific and ites have been considered to spread fake news by the Portuguese daily press, namely Diário de Notícias and Jornal de Notícias. The quantitative methodology of Corpus Linguistics, as well as WordSmith Tools concordance, version 7, are used to extract frequency lists, alphabetical word lists, clusters, and concordance lines of the occurrences. A discursive analysis of deictic items is undertaken, in the theoretical framework of -cognitive strategy of distance reduction, it allows to manipulate or improve the spatial, temporal, personal, emotional, epistemic or axiological proximity. By forcing a proximal representation of certain construals, it consequently persuades the hearer to adhere to or identify more easily with the content conveyed (cf. Cap, 2006, 2008, 2010a-b, 2013a-b, 2014a-c, 2015, 2017; Chilton, 2004, 2005, 2010, 2014; Kopytowska, 2013, 2014a-b, 2015a-c, 2018; Kopytowska, Grabowski -b). In the corpora under study, there is an investment on emotional, personal and temporal proximization types, which can contribute, in combination with other characteristics, to the identification of fake news. The results indicate that future investigations can focus on the analysis of deictic items, such as personal and possessive pronouns of first and second person, as well as, grammatical person, the imperative, the infinitive, the progressive aspect, in addition to present verb tenses. Pragmatics; Deixis; Corpus Linguistics; Fake news; Proximization; Representations of (pseudo)scientific and (pseudo)medical discourse.
... Mas, mais ainda, no caso do Português Europeu, o sistema é particularmente complexo. Da investigação realizada neste domínio, elencamos, entre outros, e para além do texto inicial de Lindley Cintra (1972), Carreira,1997Carreira, , 2002Carreira, e 2004Duarte, 2010Duarte, , 2011Gouveia, 2008;Hammermueller, 2004;Marques, 2010Marques, , 2014, 2017a e 2017b, Oliveira, 1993. 1 Dadas as mudanças sociais em curso, e embora a relação não seja especular, as formas de tratamento dão conta de grande instabilidade, amplificada por questões diafásicas e idiossincráticas 2 . Há a acrescentar, ainda, uma relativa variação diatópica no que a elas diz respeito. ...
Article
Full-text available
The forms of address constitute a complex system that regulates the interpersonal relations created in the situation of communication. It is a pragmatic category with direct impact on the relations established by each social and linguistic community. As we have already mentioned in a previous unpublished communication, some forms of pronominal address, the forms Tu, Vós, Você and Vocês are a current social concern, which speakers refer to on social networks but also in more traditional public discourses, such as political discourse and media discourse or academic discourse. We aim to analyse and systematize the way in which speakers represent, in explicit comments, but also implicitly, the functions and values of these forms of address in the construction of a (im)polite speech. Within a discursive-pragmatic approach, the present analysis combines interpersonal relations and the politeness theory, in particular the pragmatic concept of face. Data for analysis were collected from web sites, namely blogs and Facebook.
Thesis
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A existência da variação na língua portuguesa é a inspiração para muitos estudos da Linguística Contrastiva a respeito das diferenças entre as variedades nacionais do português europeu (PE) e do português brasileiro (PB). No entanto, raros têm sido os estudos que abordem os seus contrastes sob a ótica da Tradução. Neste sentido, esta investigação tem por objetivo localizar a adaptação linguística (AL) nos estudos da Tradução, identificar os principais estudos existentes entre o PE e o PB sobre a AL e sobre Linguística Contrastiva e analisar certos aspectos morfossintáticos e semânticos dessas duas variedades. De forma a contextualizar a investigação, são apresentadas uma breve história da lingua portuguesa e as noções de variação linguística. Para alcançar os objetivos, este projeto traz, a partir da triangulação de dados, três instrumentos. O primeiro é a revisão de literatura acerca da AL e dos estudos contrastivos entre o PE e o PB. O segundo é um inquérito destinado a tradutores que executam o serviço de AL. O terceiro instrumento é uma observação sistemática dos aspectos morfossintáticos e semânticos contrastivos entre o PE e o PB, que deu origem ao produto final deste trabalho, uma tabela com 28 aspectos da variação entre o PE e o PB que podem contribuir para a prática da AL. Além desses resultados, este trabalho aponta lacunas nos estudos contrastivos entre estas duas variedades do português que podem ser preenchidas a partir de trabalhos futuros.
Article
O objetivo do artigo Formas de tratamento nominais. Algumas observações de caráter contrastivo português europeu – polaco é apontar algumas peculiaridades do sistema das formas de tratamento nominais no PE. Simultaneamente, tentar-se-á mostrar alguns problemas que surgem neste contexto nas aulas de PLE e na tradução para o polaco.
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O objectivo principal do presente trabalho é analisar o modo como o complexo sistema de formas de tratamento (e seu uso) é apresentado aos aprendentes de Português como língua estrangeira. Após uma breve consideração, de cariz mais teórico, sobre a delicadeza em Linguística, a dêixis social e a sua relação com as formas de tratamento, apresenta-se esse sistema em Português (europeu e brasileiro), como ponto de partida para a análise da descrição que as gramáticas e materiais didácticos para estrangeiros têm feito do emprego das várias formas de tratamento. Refere-se ainda o modo de aquisição desse sistema e conclui-se com algumas sugestões para minorar as dificuldades que o ensino/aprendizagem do uso correcto das formas de tratamento em Língua Portuguesa acarreta.
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This paper examines how non-standard British English is translated into European Portuguese with a view to understand the social attitudes and ideologies embedded in standard and non-standard European Portuguese. It focuses on a small corpus of literary works which resort to non-standard language as a fundamental linguistic trait of characters’ identity or plot in order to establish whether there were any successful attempts to maintain the deviation from standard in the target language. The paper fnds that the task of translating non-standard is ideologically charged insofar as it is mediation between normalised and non-normalised realities, very often requiring the specifc indexing of linguistic markers to particular social groups. The sensitivity involved in this process may explain why most translations examined, although able to render non-standard features in the target language to some extent, kept a closer proximity to standard language than the source texts. In view of this, most translations examined are imbued with an ideological thrust in favour of standard language.
Conference Paper
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En nuestra sociedad, marcadamente oscilante entre lo digital, y lo presencial hay que enseñar español teniendo en cuenta modelos de enseñanza y aprendizaje holísticos con usos panhispánicos (Anadón Pérez, 2003). De hecho, nos parece pertinente trabajar las variedades lingüísticas y culturales del español latinoamericano en la clase de español como lengua extranjera (Moreno Fernández, 2000), teniendo en cuenta una pedagogía de los discursos que involucra interactivamente a los sujetos en el análisis y producción de textos (Fonseca, 1992). Entre los fenómenos del español latinoamericano que podrían tratarse encontramos uno de los rasgos morfosintácticos menos trabajado en los manuales y más generalizado por su extensión en el territorio hispanoamericano: el voseo. En este artículo se pretende presentar un estudio de caso relacionado con propuestas didácticas que plasman una intervención didáctica relacionada con el voseo a través de recursos hipermedia. De hecho, en el trabajo con alumnos universitarios lusohablantes, con nivel de español A2/B1, tuvimos en cuenta las similitudes y diferencias respecto a las formas de tratamiento a la hora de presentar el fenómeno a los alumnos. Los trabajos desarrollados y los cuestionarios de autoevaluación que los alumnos resolvieron muestran el nivel de desarrollo de los conocimientos con relación a esta variación morfosintáctica.
Chapter
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O conhecer precede e condiciona o agir Fernanda Irene Fonseca 0. Introdução As formas de tratamento são, em português, um item de reconhecida dificuldade, não só no que concerne à sua tradução para outras línguas, mas também no que diz respeito ao ensino da língua, quer enquanto língua estrangeira quer enquanto língua materna.
Article
Sans ancrage syntaxique manifeste, à la croisée d'approches divergentes – rhétorique, énonciative, pragmatique –, et victime de son flou définitionnel, l'apostrophe nominale a jusqu'à présent trop peu retenu l'attention des linguistes. La profusion des désignations (vocatif, terme / nom d'adresse, apostrophe) témoigne de la diversité des domaines concernés, et souligne la difficulté de penser le nom support de l'interpellation comme un objet de recherche à part entière. Cet ouvrage vient défricher ce terrain : établissant le comportement syntaxique tout à fait singulier de l'apostrophe nominale, questionnant son rôle énonciatif et textuel, il montre que l'apostrophe nominale est un rouage essentiel de la machinerie argumentative au regard de la totalité textuelle, et met en relief son rôle dans la structuration de la textualité elle-même. Au-delà, c'est la sphère interpersonnelle, sa régulation, et la relation de sujet à sujet qui est ici interrogée. Les corpus, variés (discours ordinaires et littéraires, discours institutionnels préparés et spontanés, chansons) sont analysés dans leur dimension syntaxique, textuelle et énonciative.
Creio que vim por você ter morrido, é como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava
  • Reis Você
  • Das
Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções […]. Você continua monárquico, Continuo, Sem rei, Pode-se ser monárquico e não querer um rei. […]. Creio que vim por você ter morrido, é como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, […] (p. 81). Então até breve, Fernando, gostei de o ver, E eu a si, Ricardo, […] (p. 82). -> «você» + 3ª pessoa.
…] et Fernando Pessoa parle le premier, J'ai su que vous m'aviez rendu visite, je n'étais pas là, on me l'a dit après mon retour
  • Alors
Alors, que devenez-vous, l'un d'eux a posé la question, ou les deux à la fois, qu'importe, la phrase est tellement banale. (p. 80) […] et Fernando Pessoa parle le premier, J'ai su que vous m'aviez rendu visite, je n'étais pas là, on me l'a dit après mon retour, et Ricardo Reis répond, Je pensais que vous étiez là (p. 80).
La designation de l'autre en portugais européen: instabilités linguistiques et variations discursives
______. Semântica e discurso, estudos de Linguística Portuguesa e Comparativa (Português/Francês). Porto: Porto Editora, 2001. ______. La designation de l'autre en portugais européen: instabilités linguistiques et variations discursives. Instabilités linguistiques dans les langues romanes. Travaux et Documents, n. 16, p. 173-184, 2002. ______. Les formes d'allocution du portugais européen: valeurs et fonctionnements discursifs. Franco-British Studies, p. 35-45, 2004. Disponível em: http://cvc.cervantes.es/obref/coloquio_paris/ponencias/pdf/cvc_araujo.pdf Acesso em: 02 /02/2008).
Livros do Brasil, s/d (1888
  • Eça Os Queiroz
  • Maias
QUEIROZ, Eça. Os Maias, Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1888 1ª ed.).
Lisboa: Editorial Caminho
  • José Ano Da Morte De
  • Ricardo Reis
SARAMAGO, José. O Ano da Morte de Ricardo Reis. Lisboa: Editorial Caminho, 1984. SARAMAGO, José. L'année de la mort de Ricardo Reis, tradução Claude Fages. Paris: Éditions du Seuil, coll. Points, 1988.
Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei
  • Fernando Pessoa
[…] é Fernando Pessoa quem primeiro fala, Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo Reis respondeu assim, Pensei que estivesse (p. 80) -> ausência de pronome ou pronome AE + 3ª pessoa.
Sobre o regresso à Filologia
  • Vitor Aguiar E Silva
  • Manuel
AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel. Sobre o regresso à Filologia. In: Gonçalves, Miguel et al. Gramática e Humanismo, Actas do Colóquio de Homenagem a 100 100