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Abstract

Este trabalho analisa a maneira como os assuntos relativos a infância são apresentados nos meios de comunicação impressos do país. A análise foi feita aos diários Notícias e Diário de Moçambique, durante os meses de Dezembro de 2007, Janeiro e Fevereiro de 2008, sendo o Diário de Moçambique o órgão principal da análise e o Notícias servindo para consolidar o estudo e perceber as tendências da cobertura dos jornais sobre temas referentes à infância. A partir de vários trabalhos e estudos existentes sobre a representação da infância nos media, reflectiu-se na maneira como os jornais analisados abordam questões relacionadas com crianças nas suas edições. Partindo da ideia de que as crianças são actores sociais competentes na formulação de interpretações sobre os seus mundos de vida e reveladores das realidades sociais onde se inserem e que têm o direito de expressar as suas opiniões sobre os assuntos que lhes dizem respeito, incluímos na pesquisa um grupo de discussão com crianças da escola Primária Completa Dom Bosco de Infulene, com o objectivo de perceber como elas recebem e interpretam notícias relacionadas com elas próprias.
P O I É S I S –
REVISTA DO PROGRAMA DE PÓS
UNISUL, Tubarão, v. 4, n. 8, p. 313 – 341, Jul
./
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
A Representação da Infância nos media Moçambicanos
RESUMO:
Este trabalho analisa a maneira como os assuntos relativos a infância são apresentados nos meios de
comunicação impressos do país. A análise foi feita aos diários
durante os meses de Dezembro de 2007, Janeiro e Fevereiro de 2008, sendo o
o órgão principal da análise e o
da cobertura dos jornais sobre temas referentes à infânci
existentes sobre a representação da infância nos media, reflectiu
analisados abordam questões relacionadas com crianças nas suas edições. Partindo da ideia de que
as crianças são actor
es sociais competentes na formulação de interpretações sobre os seus mundos
de vida e reveladores das realidades sociais onde se inserem e que têm o direito de expressar as suas
opiniões sobre os assuntos que lhes dizem respeito, incluímos na pesquisa um g
com crianças da escola Primária Completa Dom Bosco de Infulene, com o objectivo de perceber
como elas recebem e interpretam notícias relacionadas com elas próprias.
Palavras-chave:
Infância, Media e Jornalismo.
The Children
presenta
ABSTARCT:
This study examines how issues relating to children are presented in the printed media in
Mozambique. The analysis was done on the Mozambican daily newspapers, during the months of
December 2007, January and
analysis and "Notícias" serving to strengthen the study and help to understand the trends in
coverage on issues concerning children. The study has reflected on the way the newspapers
analyz
ed issues related to children, from several existing studies on the representation of childhood
in the media. Starting from the idea that children are competent social actors in formulating
interpretations of their worlds and reveal the social realities in
right to express their views on matters that concern them, we included a focus group discussion with
school children of Dom Bosco Primary School in Infulene, with the aim of realizing how they receive
and interpret new
s related to themselves.
Keywords:
Children, Media and Journalism.
1
L
icenciado em Jornalismo pela Universid
Arte da mesma universidade.
Media and Communication Officer na ong Via Campesina, Movimento
Internacional de Camponeses. E-
mail:
REVISTA DO PROGRAMA DE PÓS
-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – MESTRADO – UNI
VERSIDADE DO SUL DE
./
Dez. 2011.
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
A Representação da Infância nos media Moçambicanos
Boaventura Eugénio Monjane
Este trabalho analisa a maneira como os assuntos relativos a infância são apresentados nos meios de
comunicação impressos do país. A análise foi feita aos diários
Notícias e
Diário de Moçambique
durante os meses de Dezembro de 2007, Janeiro e Fevereiro de 2008, sendo o
Diário de Moçambique
o órgão principal da análise e o
Notícias servindo
para consolidar o estudo e perceber as tendências
da cobertura dos jornais sobre temas referentes à infânci
a. A partir de vários trabalhos e estudos
existentes sobre a representação da infância nos media, reflectiu
-
se na maneira como os jornais
analisados abordam questões relacionadas com crianças nas suas edições. Partindo da ideia de que
es sociais competentes na formulação de interpretações sobre os seus mundos
de vida e reveladores das realidades sociais onde se inserem e que têm o direito de expressar as suas
opiniões sobre os assuntos que lhes dizem respeito, incluímos na pesquisa um g
com crianças da escola Primária Completa Dom Bosco de Infulene, com o objectivo de perceber
como elas recebem e interpretam notícias relacionadas com elas próprias.
Infância, Media e Jornalismo.
presenta
tion
in the printed media in Mozambique
This study examines how issues relating to children are presented in the printed media in
Mozambique. The analysis was done on the Mozambican daily newspapers, during the months of
February 2008, being the "Diário de Moçambique" the main body of
analysis and "Notícias" serving to strengthen the study and help to understand the trends in
coverage on issues concerning children. The study has reflected on the way the newspapers
ed issues related to children, from several existing studies on the representation of childhood
in the media. Starting from the idea that children are competent social actors in formulating
interpretations of their worlds and reveal the social realities in
which they operate and they have the
right to express their views on matters that concern them, we included a focus group discussion with
school children of Dom Bosco Primary School in Infulene, with the aim of realizing how they receive
s related to themselves.
Children, Media and Journalism.
icenciado em Jornalismo pela Universid
ade Eduardo Mondlane. I
nvestigador na Escola de Comunicaçã
Media and Communication Officer na ong Via Campesina, Movimento
mail:
boa.monjane@gmail.com
VERSIDADE DO SUL DE
SANTA CATARINA
By Zumblick
A Representação da Infância nos media Moçambicanos
Boaventura Eugénio Monjane
1
Este trabalho analisa a maneira como os assuntos relativos a infância são apresentados nos meios de
Diário de Moçambique
,
Diário de Moçambique
para consolidar o estudo e perceber as tendências
a. A partir de vários trabalhos e estudos
se na maneira como os jornais
analisados abordam questões relacionadas com crianças nas suas edições. Partindo da ideia de que
es sociais competentes na formulação de interpretações sobre os seus mundos
de vida e reveladores das realidades sociais onde se inserem e que têm o direito de expressar as suas
opiniões sobre os assuntos que lhes dizem respeito, incluímos na pesquisa um g
rupo de discussão
com crianças da escola Primária Completa Dom Bosco de Infulene, com o objectivo de perceber
in the printed media in Mozambique
This study examines how issues relating to children are presented in the printed media in
Mozambique. The analysis was done on the Mozambican daily newspapers, during the months of
February 2008, being the "Diário de Moçambique" the main body of
analysis and "Notícias" serving to strengthen the study and help to understand the trends in
coverage on issues concerning children. The study has reflected on the way the newspapers
ed issues related to children, from several existing studies on the representation of childhood
in the media. Starting from the idea that children are competent social actors in formulating
which they operate and they have the
right to express their views on matters that concern them, we included a focus group discussion with
school children of Dom Bosco Primary School in Infulene, with the aim of realizing how they receive
nvestigador na Escola de Comunicaçã
o e
Media and Communication Officer na ong Via Campesina, Movimento
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Poiésis, Tubarão, v. 4, n. 8, p. 313 – 341, Jul./Dez. 2011.
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Introdução
O presente artigo pretende analisar a abordagem que os media fazem da temática
referente às crianças, assim como a defesa e promoção dos direitos de infância em
Moçambique. Um estudo quantitativo e qualitativo foi efectuado, tomando como objecto
dois diários Moçambicanos, a saber: O Notícias (JN) de Maputo e o Diário de Moçambique
(DM) da Beira, nas suas publicações de Dezembro de 2007, Janeiro e Fevereiro de 2008.
Foram tomados como referencial para elaborar as análises, diversos estudos sobre a
construção da infância nos media, realizados nos campos do Jornalismo, das Ciências Sociais
e da Educação. Os jornais Notícias e Diário de Moçambique foram escolhidos como veículos
a serem analisados tanto por serem jornais que abrangem praticamente todo o país como
pela capacidade que têm de oferecer, duma forma geral, a realidade moçambicana.
As categorias de análise que se usaram no estudo estão baseadas principalmente no
trabalho de Ponte (2005) sobre a construção social da infância através do discurso
jornalístico. A análise da autora, focada em 30 anos de jornais portugueses, foi a que trouxe
a base teórica e metodológica mais sólida para a pesquisa.
A nível internacional, nas últimas duas décadas, as crianças e as problemáticas
associadas à infância têm estado a aparecer na ordem do dia das agendas política, mediática
e da investigação. Este interesse é demonstrado surgimento de novos estudos sociais da
infância que confirmam esta tendência que tem vindo a fazer ganhar a visibilidade do
fenómeno social da infância na dimensão internacional. Contudo, Graue e Walsh (2003),
indicam que a partir da relatividade do conceito de infância no tempo, no espaço e nos
diferentes contextos da vida, se torna necessário que os investigadores pensem nas crianças
em contextos específicos, com experiências específicas e em situações da vida quotidiana.
De acordo com os dados do último estudo realizado pelo UNICEF em 2006, existem
em Moçambique cerca de 10 milhões de crianças com menos de 18 anos. Estes dados
indicam claramente que a infância constitui a maioria da população moçambicana e para
além disso, é nessa categoria geracional que se encontra o maior índice de pobreza. Mostra-
se claramente contraditório que se fale pouco de uma camada geracional que representa a
maioria da população do país.
Nos últimos anos desenvolveram-se, em Moçambique, políticas e legislação de
acordo com as prioridades globais chave para as crianças, tais como a ratificação da
Convenção sobre os Direitos da Criança, em Abril de 1994, e a Lei contra a Violência Infantil,
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em 2008. Isto mostra a relevância que questões referentes aos direitos da criança têm nas
agendas do governo.
O artigo 12º da CDC preconiza que “Os Estados Partes assegurarão à criança que
estiver capacitada a formular seus próprios juízos o direito de expressar suas opiniões
livremente sobre todos os assuntos relacionados com a criança, levando-se em consideração
essas opiniões, (...)”. Sendo os media noticiosos espaços de visibilidade e de expressão de
ideias e opiniões, é pertinente a atenção à sua cobertura, não só para a identificação das
suas tendências e enquadramentos mas também para uma intervenção social alargada, para
ver de que forma contribuem para que vozes habitualmente ignoradas exprimam as suas
perspectivas.
Segundo o UNICEF, a verdadeira medida do progresso de uma nação é a qualidade
com que atende as suas crianças: saúde e protecção, sua segurança material, sua educação e
socialização e o modo em que se sentem amadas, valorizadas e integradas nas famílias e
sociedades em que nasceram (UNICEF, 2007). Nesta responsabilidade de atender às
crianças, os meios de comunicação jogam, logicamente, um papel importantíssimo.
Questões de partida
Antes de partirmos para a pesquisa formulamos também algumas hipóteses e
perguntas de partida. A primeira hipótese que elaboramos tem a ver com a ideia de que os
meios de comunicação moçambicanos em geral, e os do nosso estudo em particular,
dedicam um espaço reduzido às questões referentes à infância e aos seus direitos. De outro
lado, a preocupação em ocupar as páginas dos jornais com matérias do domínio político,
económico e desportivo, as quais, na percepção dos profissionais de comunicação social,
parecem ser os assuntos que fazem “vender o jornal”
2
, faz com que haja exiguidade de
espaço para abordar assuntos que tenham a ver com a infância e seus direitos. A temática
da infância e de seus direitos é abordada, com profundidade e exaustação, apenas em datas
como o 1º. de Junho, Dia Internacional da Criança e 16 de Junho, dia da Criança Africana.
Contudo, o dia-a-dia da infância não tem merecido destaque nos media do país.
A segunda hipótese formulada aponta para o facto da criança ser tratada, apenas
como objecto passivo e nunca sujeito activo das suas próprias acções nas notícias. Quando a
2
Chegou-se a esta constatação em resultado das entrevistas que estabelecemos com jornalistas dos
órgãos em análise. Em anexo apresentamos a transcrição das entrevistas.
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criança é notícia, trata-se quase sempre de situações excepcionais e naquelas em que ela é
vítima de abusos, violação, pobreza, deficiência, etc. O outro lado da criança que vive, que
brinca, estuda e reage às situações com que se depara e que procura soluções para os seus
próprios problemas, nunca aparece nos media.
Ainda no campo das perguntas de partida, importou questionar: que representações
associadas às criança se podem encontrar nos media moçambicanos? Que produção
mediática se faz em torno da infância em Moçambique?
Metodologia
A metodologia usada para esta investigação assentou basicamente na leitura e
análise dos jornais em estudo num intervalo de tempo de três (3) meses, nas publicações de
2007/2008 [(Dezembro (2007), Janeiro e Fevereiro (2008)]. A escolha deste recorte temporal
foi feita aleatoriamente. O jornal DM será o modelo principal da análise, preenchendo todos
os requisitos do protocolo de análise de conteúdos proposto por Ponte (2005). O Notícias
servirá apenas para analisar sua tendência na cobertura de assuntos sobre crianças, com o
objectivo de consolidar a análise do DM. O acesso às edições estudadas foi possível através
da consulta aos arquivos dos referidos meios de comunicação e outras bibliotecas. Nessa
leitura fez-se um levantamento de artigos publicados que versem sobre a infância, bem
como aqueles cujo impacto afecta aos direitos da infância, para uma posterior análise.
A análise dos artigos foi feita através do procedimento da análise de conteúdo,
confrontando com as teorias sobre a representação da infância nos media. É importante
referir que, apesar do tema dos direitos da criança ser vasto, neste estudo não se analisa um
tipo de direitos específicos, como o da saúde ou educação, por exemplo. Olha-se para os
direitos – da Convenção dos Direitos de Criança e da legislação moçambicana - de uma
forma generalizada.
Ainda no campo metodológico, constituiu tarefa imprescindível a leitura e análise das
políticas e linhas editoriais dos órgãos em referência. Dentro da perspectiva de não isolar as
matérias das suas rotinas de produção e dos diferentes contextos sócio-culturais a que se
referem, a análise do material também levou em conta entrevistas que realizamos a dois
jornalistas “especializados” nos assuntos sobre crianças, um do jornal Notícias e outro do
Diário de Moçambique, assim como ao director editorial do DM.
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Com o objectivo de perceber como as crianças recebem as notícias sobre elas
próprias, foram realizadas algumas discussões com crianças em torno de artigos publicados
e daquilo que elas gostariam que fosse escrito sobre elas nos jornais. É relevante justificar o
interesse em incluir crianças entre as fontes de informação para análise e elaboração do
trabalho. Tal interesse baseia-se na percepção de que “as crianças não são consideradas
como simples objectos de conhecimentos, mas como sujeitos de direitos e actores plenos,
competentes na formulação de interpretações sobre os seus mundos de vida e reveladores
das realidades sociais onde se inserem” (Sarmento et al., 2004).
Destacando todas as inserções que relatavam situações envolvendo crianças,
chegou-se a um total de 60 inserções nos três meses, no jornal DM, cerca de 0.7 artigos por
dia, em média. A maior concentração de inserções foi no mês de Dezembro (2007), com 28
peças. Em Janeiro, foram 23 peças publicadas e em Fevereiro apenas 9.
Ficaram excluídas as propagandas. Também não foram incluídas as peças sobre
produtos infantis, como programação televisiva ou lançamentos de produtos de uso para
crianças. Não foram consideradas na análise geral as fotografias de crianças que eram parte
de notícias sobre assuntos não relacionados especificamente com a infância, como
catástrofes naturais. Mesmo assim, estas imagens ficaram registradas e também serão
objecto de reflexão neste trabalho, sobretudo no capítulo conclusivo.
Infância em pauta no jornal Diário de Moçambique
O Diário de Moçambique é um jornal de informação geral, que cumpre quatro
grandes objectivos: informar, opinar, recrear e educar
3
. Para a análise ao jornal DM, foram
quantificados dados como: formato dos artigos, âmbito geográfico da notícia, as vozes
citadas no texto, a localização no jornal e os modelos representativos mais recorrentes. A
partir desta primeira quantificação e organização foram produzidos gráficos, que
possibilitaram uma percepção mais clara da distribuição proporcional das fontes ouvidas,
dos temas e dos tipos de texto relacionados a infância. Além desta quantificação baseada no
Protocolo apresentado por Ponte (2005), a maior parte das matérias foi depois reorganizada
em cinco conjuntos temáticos dos quais, quatro foram propostos por Dionísio (2006). Esse
novo agrupamento não se contrapõe às 25 categorias expostas na introdução e nem
3
De acordo com o estatuto editorial do jornal DM.
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pretende enquadrar todas as matérias. Trata-se apenas de uma forma de identificar alguns
“eixos temáticos” das matérias sobre crianças, que ficaram definidos como:
Acções Sociais, Assistência e Caridade: notícias sobre projectos e eventos de
assistência social a crianças ;
Educação: inclui todas as notícias relacionadas com a Educação formal e não formal;
Acidentes e Situações de Risco: matérias sobre situações em que o bem-estar de
uma ou mais crianças está ameaçado, mas não propositadamente;
Violência: peças em que a ameaça ao bem-estar das crianças é propositada;
Criança desportista: matéria sobre crianças no desporto
Descrição da análise quantitativa
Formato dos artigos
Durante os três meses analisados, assuntos sobre crianças apareceram em 60
inserções, num conjunto de 2.145 inserções de assuntos voltados para Moçambique no DM.
Isto é, apenas 2,8% dos artigos publicados falavam de crianças.
Dos 60 artigos relacionados com a infância, três eram reportagens com mais de uma
página de tamanho tabloide, 49 notícias com mais de três parágrafos, três eram artigos de
opinião. As notas e textos com até três parágrafos artigos curtos sem aprofundamento
somaram quatro inserções e uma entrevista. Do total dos artigos, apenas 11 vinham
ilustrados com fotografia. É relevante frisar a ausência de editoriais dedicados a temáticas
relacionadas com a infância durante os três meses no DM.
Gráfico1: Formato dos artigos
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Além desta quantificação sobre o formato das matérias em geral, foram também
analisados os tipos de texto de acordo com os quatro grupos temáticos – Acidentes e
situações de risco; Assistência, Caridade e Acções Sociais; Educação; Violência; Criança
desportista. Em todos, a maior parte dos artigos é constituída por notícias.
Situações de Risco e Acidentes são os temas que apresentam maior número de
notícias, cerca de 33%. Segue-se a Assistência, Caridade e Acções Sociais, com 25% e a
Violência ocupa o terceiro lugar com 12 artigos publicados nos três meses, representando
20%. A Educação aparece em quarto lugar com uma fatia de 17%. Criança Desportista é o
eixo temático menos abordado no DM. Foram encontrados apenas 3 artigos, representando
apenas 5% do total.
Gráfico2: Eixos temáticos
Formato dos artigos
5% 2%5%
81%
7% 0%
Grande Reportagem
Entrevista
Opinião e carta de
opinião
Notícia com mais de 3
parágrafos
Notícias breves
Editorial
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Área geográfica
Como dissemos acima, excluimos os artigos das secções “África” e “resto do mundo”
e analisamos apenas os artigos voltados para Moçambique. Talvez por ser um jornal cuja
sede e redacção central está na cidade da Beira, província de Sofala, o Diário de
Moçambique tem a maioria das peças sobre crianças (57%) ambientadas na província de
Sofala, principalmente na cidade da Beira. Os textos de âmbito nacional correspondem a
12% do total das peças. As províncias de Manica e Nampula mereceram uma percentagem
de 12% e 5% respectivamente. Para além das províncias de Maputo, Inhambane e Tete que
tiveram, respectivamente 8%, 3% e outros 3% de cobertura sobre crianças nos três meses no
Diário de Moçambique, outras zonas não foram referidas no jornal.
Uma das razões que determinou a escolha do DM, assim como o JN, como órgãos a
ser analisados, foi a crença de que estes jornais poderiam ser de abrangência nacional e com
capacidade de representar, duma forma geral, a realidade de todo o país. Contudo, os dados
sobre a distribuição das matérias em áreas geográfica não confirmam tal hipótese.
Gráfico3: Área Geográfica
Eixos temáticos
33%
25%
17%
20% 5%
Situações de Risco e Acidentes
Assistência, caridade e Acções Sociais
Educação
Violência
Criança Desportista
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Vozes citadas no texto
Para quantificar as fontes ouvidas para compor os textos, foram registradas tanto as
citações directas como as indirectas. As fontes governamentais Presidente da República,
Governadores provinciais e distritais e esposas – são as que mais aparecem na quantificação,
com 15 citações. Em seguida estão as fontes institucionais ONG´s, academias, instituições
religiosas, empresas, ministérios, etc. -citadas 8 vezes. As fontes policiais (incluindo por vezes
boletins de ocorrência) constituem o terceiro grupo que mais fala com sete citações.
As crianças foram citadas apenas cinco vezes, ou 10% do total, posicionando-se no
quarto grupo citado depois das outras fontes. Esta constatação não nos foi surpreendente.
Aliás, no campo das hipóteses fazemos referência ao facto das crianças serem pouco ouvidas
como fontes de informação. A presença de meninos, três vezes, é superior que a de
meninas, duas vezes, como fontes de informação. Os pais e encarregados de educação,
assim como os professores, foram citados apenas quatro vezes cada (8% para cada um) e
finalmente os profissionais como psicólogos, pessoal médico e cientistas sociais constituem
o grupo que aparece menos vezes nos textos: todos juntos são responsáveis por apenas 6%
das citações.
A conclusão de que as crianças constituem uma das vozes menos citadas como fontes
de informação nos jornais foi por nós apresentada num seminário aberto a activistas dos
direitos da criança, organizações e jornalistas, que teve lugar em Julho de 2008 na cidade da
Beira. A notícia do referido seminário e os resultados preliminares desta investigação foram
a seguir publicados numa edição do DM (DM, 14/07/2008, página 3).
Área Geográfica
8%
3%
57%
12%
3%
5%
12%
Maputo
Gaza
Inhambane
Sofala
Manica
Tete
Nampula
Nacional
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Gráfico 4: Vozes citadas
Localização no jornal
É na secção Sociedade e Política que está a maior parte das matérias sobre crianças
seleccionadas durante os três meses. As outras secções que tem agrupado inserções sobre
crianças são Desporto (3), Bastidores (1) e Magazine, (1) nos três meses. Vale destacar que
foram publicadas 10 matérias sobre crianças na contracapa do jornal.
Durante os três meses analisados, quatro matérias envolvendo crianças tiveram
chamada de capa: Ano lectivo escolar abre hoje no país: Regresso às aulas; Camião com 40
crianças apreendido em Inchope; Rapto Consentido pelos pais é hipótese mais provável;
Transportadas como mercadoria, com fome e sede, as três primeiras em Janeiro e a última
no mês de Fevereiro.
Modelos representativos
Dos quatro grupos temáticos, o que reuniu maior número de peças foi Situação de
risco e Acidentes: 20 inserções. Mesmo que esses eixos temáticos não englobem todos os
textos analisados, é possível perceber que a maioria das matérias que envolvem crianças
Vozes citadas
32%
17%
10%
15%
6%
8%
8% 4%
Fontes governamentais, representantes políticos figuras públicas
Fontes institucionais, ONG´s e responsáveis por programas de acção
Crianças
Fontes policiais
Psicólogos e profissionais de saúde
Professores e instituições de ensino
Pais, encarregados de educação e membros da comunidade
Outras fontes
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publicadas no Diário de Moçambique estão relacionadas com a temática dos acidentes e
situações em que a criança está em risco.
Outro modelo que agrupa parte considerável das peças é o da criança assistida”,
com 17 textos do total. A existência de um elevado número de crianças órfãs e pobres,
precisando de assistência em Moçambique talvez contribua para a maior presença deste
tema no corpus Sociedade e Política do jornal DM. Refira-se que o mês de Dezembro (2007)
é o que mais engoliu o maior número de artigos sobre assistência à criança. Tal facto talvez
se justifique por Dezembro ser o mês em que instituições e pessoas individuais têm levado a
cabo obras de “caridade”, movidas pelas comemorações do Natal.
Esta mesma têndencia encontra-se também nas investigações que envolvem crianças
realizadas em Moçambique. De facto, segundo Colonna (2008), a maioria das pesquisas
sobre a infância no país continua fortemente focalizada em crianças desfavorecidas ou que
se encontram em situações excepcionalmente difíceis.
Crianças como sujeitos ou como objectos?
Outra forma de agrupar as matérias foi separá-las de acordo com os papéis
atribuídos a crianças e adultos no texto. Peças em que crianças eram os principais agentes
da situação reportada e em que sua opinião era levada em conta para construir o relato,
foram colocadas sob o rótulo de “Crianças como sujeitos”. Em outro grupo, “Crianças como
objectos, adultos como sujeitos”, estavam as peças em que às crianças era delegado um
papel de passividade e em que os adultos eram os principais agentes.
Com a quantificação constatou-se que as crianças aparecem como agentes activos e
protagonistas da acção em 9 artigos (15% do total) e que em 51 inserções (85% do total) são
adultos os principais sujeitos actuantes. Isto mostra, de forma inequívoca, a tendência dos
media na atribuição de espaço a matérias em que as crianças não actuam realmente.
Nos dois conjuntos de peças acima referidos também foi quantificada a presença de
modelos temáticos de infância, e os dados resultantes desta nova contagem ajudaram a
identificar quais são as representações associadas às crianças quando elas aparecem como
sujeitos activos e participantes nas notícias ou como objectos passivos.
O conjunto “Crianças como objectos, adultos como sujeitos” tem uma distribuição de
modelos temáticos diferente. A criança em situações de risco e a violência é significativa,
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estando presente em 16% das notícias. O modelo mais comum neste grupo, entretanto, é o
da criança assistida, que engloba 21% das peças.
Gráfico 5:Categorias de crianças
No grupo “Crianças como sujeitos” o modelo temático mais recorrente é o da criança
assistida, presente em 4 inserções. Em seguida, temos a criança estudante, predominante
em 3 matérias. A criança desportista aparece como sujeito em 2 inserções.
A categoria “criança cidadã” - participação social e na expressão da palavra pelas
crianças de criança sujeito, foi preenchida por apenas duas peças em três meses.
Apresentamos aqui um destes artigos, com título “Crianças seropositivas expõem na Beira”.
Sete crianças seropositivas, com idades compreendidas entre
oito e 12 anos, expõem a partir de hoje, na Casa Provincial da
cultura de Sofala, na Beira, um trabalho que ilustra a
problemática da pandemia do século. A exposição, que
comporta mais de 20 quadros, consta de uma iniciativa do
Hospital Central da Beira (HCB), com o apoio da Fundação
Clinton, e visa promover a inserção social das crianças. César
Macome, director do HCB, disse ontem que a iniciativa tem
ainda como objectivo criar um espaço para que as crianças
envolvidas possam transmitir à sociedade os seus
pensamentos sobre vários assuntos, que incluem a
problemática da chamada doença do século.
Esta peça mostra que crianças são também sujeitos activos de suas próprias acções e
não apenas objectos sobre as quais as acções dos adultos recaem. Contudo, a voz citada no
Categorias de "crianças Objectos"
24%
11%
3%
7%
2%
0%2%
5%
5%
12%
7%
5%
7% 7% 3%
Assitida Estudante Familia
Acidentes Universal Psic omédica
Trabalhadora Raptada Traficada
Situações de Risco Vítima de Catástrofes Nascimentos
Abandonada Pobre Não aplicável
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texto é do director do HCB como se ele fosse a notícia. No lugar da sua voz, corroboraria
melhor a opinião das crianças expositoras, afinal elas sim são as protagonistas da notícia.
Crianças em imagens
As imagens das crianças nos jornais têm constituído objecto de discussões e reflexões
em diferentes quadrantes académicos e não só. Embora nossa análise não incide para o
campo das imagens, tentamos traçar um panorama mais geral sobre as representações da
infância no DM. Durante o período analisado foram publicadas 16 fotos em que crianças
apareciam, acompanhando as matérias. Na maioria destas imagens as crianças aparecem em
ambientes como recinto escolar, sala de aulas, na rua, campo de futebol, instituições de
caridade, sempre em primeiro plano e quase sempre em grupo.
Na contra capa do DM, existe uma “secção” denominada “Objectiva do repórter”, um
espaço preenchido com fotografias. Embora não se tivesse feito uma contagem rigorosa do
tipo das fotos publicadas nesse espaço, foi possível perceber que a maior parte das fotos
retrata crianças, quase sempre na categoria de “criança abandonada e maltratada”, “criança
pobre”, “criança delinquente”. Foi curioso constatar que quase todas as fotos deste tipo
foram assinadas por Celeste Mac-Atur, fotojornalista do DM.
Quando a criança aparece na primeira página
Das 60 peças seleccionadas, quatro têm chamada de capa. A maior parte, três peças,
relata situações negativas envolvendo crianças: em todas fala-se do caso de rapto de 40
Figura 2: Um exemplo de foto publicada em “Objectiva do Repórter”
do DM, 11/01/2008
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crianças transportadas num camião, supostamente para tráfico. A outra destaca o início de
ano lectivo, mas referindo o problema da falta de vagas na 8ª e 11ª classes
4
.
Quadro 1: Crianças como sujeito e como objecto na capa
Crianças como Sujeitos Crianças como Objecto
-
Regresso às aulas – 28/01/2008
Camião com 40 crianças apreendido em
Inchope – 30/01/2008
Rapto consentido pelos pais é hipótese
mais provável – 31/01/2008
Transportadas como mercadoria, com
fome e sede – 11/02/2008
A partir deste novo reagrupamento, é possível ver que nenhuma chamada de capa,
em três meses, destaca a actuação de uma criança como sujeito activo no jornal DM. Outro
aspecto igualmente de fácil percepção tem a ver com o facto de em nenhuma das chamadas
de capa se tratar de uma situação efectivamente positiva. Mesmo na chamada referente ao
“regresso às aulas”, que a priori parece uma situação boa, chama-se atenção ao problema da
falta de vagas, o que obrigará a muitos alunos a “ficar de fora”, sem lugar para estudar. A
foto que ilustra esta chamada de capa apresenta meninos e meninas recebendo aulas ao
relento, sentados no chão. Esta imagem mostra o cunho negativista de que estamos a falar.
4
Ano lectivo escolar abre hoje no país: Regresso às aulas “ Em Sofala e Maputo persiste o problema da
falta de vagas na 8ª e 11ª classe (...)”
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A relação do título com o corpo da notícia
Um aspecto digno de análise quando se escreve sobre crianças é a relação entre o
título e o resto do texto. A peça “Inundações matam duas crianças”, de 01 de Janeiro de
2008, DM, foi o exemplo escolhido para uma análise deste tipo.
O título desta peça destaca a morte de duas crianças no rio Púnguè, devido às cheias,
na província de Sofala. Lendo toda notícia verifica-se que, durante os 11 parágrafos que dão
corpo ao artigo, faz-se referência da morte das crianças apenas no primeiro parágrafo. O
restante do artigo, 10 parágrafos, fala do que disse o governador de Sofala, Alberto Vaquina
sobre as cheias. Sobre a morte das crianças, assunto que intitulou a peça, não se voltou a
falar. Em cerca de 500 palavras que compõem o artigo, a palavra criança aparece apenas 2
vezes em todo o texto. Este contraste entre o título e o conteudo do artigo apresenta-se
várias vezes no DM.
Crianças em situações de risco e acidentes
Como referimos, a categoria de crianças em situações de risco e acidentes ocupou a
maioria do espaço que o DM dedicou a infância durante os três meses em análise. A partir
da leitura dos textos sobre acidentes e situações de risco, que relatam situações distintas
envolvendo crianças, é possível perceber uma associação da infância à falta de certas
capacidades, como a percepção de uma situação de perigo. De certa forma é acentuado o
lado instintivo, mais do que racional, da actuação desses meninos e meninas, que devem,
segundo os textos, permanecer sob vigilância dos adultos na maior parte das vezes.
Na nossa análise confirma-se que na maioria dos artigos não é sublinhada a
insegurança do local da ocorrência do acidente, como afirma Ponte (2005). Por exemplo, no
artigo “Beira: criança atropelada gravemente”, nada se diz acerca da perigosidade da
estrada onde a criança foi atropelada. As informações publicadas talvez não sejam muito
diferentes das que constam no Boletim de Ocorrência do caso, mostrando mais um caso em
Figura 3. Exemplo de matéria sobre crianças e com chamada de capa
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que o relato noticioso se prende somente ao discurso oficial – principalmente policial– como
frequentemente acontece. Em vários textos sobre acidente, a óptica policial ganha status de
voz principal nas matérias – uma voz que não é questionada.
Talvez por se tratar de um texto de “opinião”, o artigo que segue não apresenta os
sinais listados por Ponte. Publicado, no corpus Bastidores, em 9 de Fevereiro, este exemplo
mostra o cuidado que seu autor teve na sua redação:
TÍTULO: Perigo à vista
Na Rua do Capitão Gamito, cidade da Beira, está bem visível o
perigo iminente para as crianças e qualquer pessoa que por
ali passe, tudo porque duas caixas de fossas cépticas estão
sem as respectivas tampas. (…) Para o “Bastidores”, está-se
perante mais um daqueles casos que não se resolvem
enquanto não houver danos, isto é, alguma criança ou adulto
cair num dos buracos das caixas. Porque não seguirem o
velho adágio, segundo o qual ´é de pequena que se mata a
cobra`?”
Como procede o Notícias
Nesta pesquisa, temos o Notícias apenas como um exemplo para consolidar as
categorias de análise utilizados para o DM. Segundo o seu estatuto, o Notícias é um jornal
privado diário de carácter nacional cuja actividade se baseia no rigor e criatividade editorial,
com orientação, independente de qualquer vinculação ideológica, política, económica ou
religiosa.
5
Foram seleccionados 60 artigos publicados entre Dezembro e Fevereiro (2007-2008)
no JN. Este órgão tem, de uma forma geral, mais inserções do que o DM por um lado por ser
composto por um elevado número de páginas e por outro por ter um tamanho maior que de
um tablóide normal. Contudo, interessou-nos a nós analisar apenas 60 artigos relacionados
com crianças e infância, mais ou menos 85% do total.
A maioria dos artigos do JN, cerca de 25, falavam de educação, diferentemente do
caso do DM. A assistência estava em segundo lugar com mais ou menos 13 artigos. A
violência postou-se em terceiro lugar com cerca de 6 artigos publicados. As fontes de
informação mais ouvidas e citadas durante os três meses no JN foram as institucionais e
5
Disponível em www.jornalnoticias.co.mz
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seguiram-se as fontes governamentais. As crianças foram citadas como fontes de
informação apenas duas vezes. As fontes policiais foram citadas cinco vezes, quase todas em
situações de acidentes e rapto.
Em todos os artigos seleccionados, apenas três eram cartas de leitores. O restante
eram notícias, a maioria das quais com mais de quatro parágrafos. Não foi publicado
nenhum editorial relacionado com crianças durante os três meses. Dos 60 artigos escolhidos,
apenas 17 vinham com fotografias, das quais sete crianças estão em plano principal.
As notícias de âmbito nacional foram a maioria durante o período observado,
seguindo-se a província e cidade de Maputo e Sofala. As províncias de Gaza, Manica e Tete
foram referidas como área geográficas apenas uma vez cada e as restantes não. Foram
localizados quatro artigos do âmbito global e apenas um sem especificação.
Durante os três meses apenas três vezes as crianças tiveram chamada de capa com
os títulos: Taxas de mortalidade preocupantes no país” (21/02), Algumas escolas não
têm vagas” (09/01) e “Um milhão de crianças ingressa na escola” (28/01). As crianças foram
pautadas como sujeitos actuantes em apenas duas peças, correspondendo a apenas 3,3% de
vezes.
Em seguida apresentamos em gráficos o diagnóstico da cobertura jornalística sobre
crianças no JN, duante Dezembro (2007) e Janeiro e Fevereiro (2008).
Gráfico 6: Área Geográfica
Área Geográfica
5%
29%
12%
2%
2%2%
36%
2% 10%
Inhambane
Maputo
Sofala
Gaza
Manica
Tete
Nacional
Não especificado
Global
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Gráfico 7: Vozes citadas
Gráfico 8: Eixos temáticos
Os graficos apresentados ilustram como procede o JN no que concerne a cobertura
sobre infância. Embora o caso deste jornal não seja rigorosamente igual ao do DM, é
possível perceber que ambos órgãos têm a mesma tendência quanto a sua cobertura de
assuntos relacionados com crianças.
Quanto às vozes ouvidas e citadas nas matérias, pode-se notar que ambos jornais
não têm a criança como fonte de informação prioritária quando escrevem sobre ela, isto é,
tanto no Notícias como no Diário de Moçambique, a voz da criança é citada poucas vezes. As
vozes governamentais e de distintas instituições são as que aparecem em maior escala em
ambos jornais. Nos casos de acidentes, ambos matutinos mostram ter as fontes policiais
como prioridade e, tal como afirma Ponte (2005), estes jornais não apontam a questão da
Vozes citadas
12%
5%
5%
29%
34%
5%
5% 5%
Policias
Crianças
Pais e encarregados
Governamentais
Institucionais
Estudos e pesquisas
Membros da
comunidade
Outros
Eixos temáticos
31%
13%
27%
4%
6%
15% 4%
Educação Violência Assistência
Acidentes Situações de risco Saúde
Registo de Nascimento
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(in)segurança do local do acidente nos textos. Na maioria das notícias sobre crianças
publicadas no Notícias, elas aparecem como vítimas de alguma insuficiência, enfermidade ou
catástrofe.
Crianças em discussão
Opções e procedimentos
A reflexão sobre como vem representada a infância nos jornais Notícias e Diário de
Moçambique envolveu, para além da análise das matérias e das entrevistas com jornalistas,
um grupo de discussão acerca destas notícias com crianças, estudantes da Escola Primária
Completa Dom Bosco, de Infulene. A discussão teve lugar no dia 3 de Outubro, no salão da
escola. Para além do pesquisador e das crianças, estava presente a supervisora deste
trabalho que teve o papel de assistente de pesquisa. Depois de ter pedido a autorização às
crianças, a conversa foi gravada e posteriormente transcrita. As crianças autorizaram o uso
de seus nomes originais no trabalho.
Essa opção metodológica de ter um grupo de discussão justifica-se por vários
motivos. Além da necessidade de se pensar o contexto de produção e recepção dos
materiais em análise, essas conversas constituem um aporte alternativo para a leitura destas
matérias, pois as discussões sobre as notícias levaram em conta os parâmetros, as vivências
e as experiências pessoais das crianças. Outra razão tem a ver com a percepção de que as
falas e as experiências das crianças são bastante ricas e enriquecedoras e auxiliam-nos a ver
questões que antes estavam obscuras, uma vez que elas nos trazem novos enfoques para
assuntos que já não considerávamos tão importantes para a pesquisa.
A escola foi escolhida pela facilidade de entrada, graças a um conhecimento prévio
da instituição. É relevante referir que as crianças participantes do grupo de discussão foram
seleccionados por um de seus professores, baseando-se na sua “esperteza”, isto é, nas suas
capacidades de discutir sobre questões relacionadas com a leitura de jornais.
As falas nos grupos de discussão são entendidas neste trabalho como produções
discursivas dos participantes, permeadas de outros discursos correntes na sociedade e
influenciadas por suas vivências socioculturais. Uma das obras que contribuiu
significativamente para a escolha da nossa abordagem é o livro de Joseph Tobin (2000), cujo
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pressuposto é que as crianças formam suas crenças e ideias sobre os medias através das
conversas que mantêm com os amigos e com os adultos.
Tobin denomina Mapeamento Bakhtiniano de Texto” o método de interpretação
das falas das crianças, em que procura identificar citações, alusões e associações
intertextuais nas transcrições das entrevistas. Assim, mais do que expressar fielmente o
pensamento dos meninos e meninas entrevistados, as falas reproduzem “cacos” de outros
discursos correntes nos contextos em que eles vivem. Além da fundamentação teórica, a
obra de Tobin foi importante para este trabalho por discutir diversas questões com que
cientistas sociais lidam, que envolvem conflitos, dúvidas e hesitações. Em vários momentos,
ao ler os relatos do autor, era possível ver situações parecidas.
3.2 Apresentação do grupo
O grupo de discussão formado era composto por seis três meninos e três meninas,
dos 11 aos 12 anos de idade. Todas as crianças são estudantes da 7ª classe do ensino geral
na escola seleccionada. A preferência pela escolha do mesmo número de meninos e meninas
justifica-se pela necessidade de garantir que ambos géneros exponham suas opiniões na
pesquisa. As crianças do grupo de discussão são todas de um nível social que se pode
considerar de médio-alto. Respondendo a pergunta “onde trabalham vossos pais”, os
meninos e meninas do grupo responderam: engenheiro hidráulico, assistente da
Administração e Finanças, professor da escola secundária, enfermeira e estudante de
Medicina, estudante de advogado no estrangeiro, dono de duas ferragens, negociante.
Todas as crianças fazem parte de famílias que consideramos “não pobres”, para a realidade
moçambicana.
Práticas culturais e consumo dos media
O objectivo do grupo de discussão era perceber como as crianças recebem e
compreendem matérias jornalísticas sobre elas. A nossa primeira preocupação foi saber que
experiências têm aqueles meninos com os media. Respondendo a pergunta “Vocês têm
Televisão e Rádio em Casa?”, todas afirmaram, que: Sim, temos as duas coisas”. Talvez por
pertencer a famílias de um status social relativamente elevado, todas as crianças tinham
acesso aos media em casa.
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Para além da TV e rádio, todos os meninos responderam que tinham em média
acesso a pelos menos uma publicação, que lhes chegavam através de seus pais e familiares.
As crianças dizem que costumam ler de vez em quando, algumas aos fins de semana.
Leitura e compreensão de artigo
Depois de termos sabido da experiência e do contacto que aquelas crianças têm com
os media, nosso seguinte passo foi convida-las a ler um artigo noticioso, publicado no Diário
de Moçambique. Trata-se da notícia “Bandidos violam uma criança e semeiam terror”, do dia
6/01/2008. O artigo dava conta de que um grupo de indivíduos assaltou uma zona no distrito
de Dondo, Sofala e que nessa operação uma criança foi violada sexualmente.
O exercício consistia em ler o lead e mais dois parágrafos do texto e em seguida
partilhar as percepções. Nosso objectivo era perceber como as crianças percebem as notícias
escritas sobre elas próprias. Nossa primeira “crença” era de que as crianças não eram
capazes de compreender a essência da mensagem transmitida em artigos de jornais. Esta
hipótese não foi confirmada. Durante o intercâmbio, as crianças do grupo mostraram que
tinham percebido o que estava escrito. Talvez por manterem um contacto permanente e
regular com os jornais que seus pais compram ficou-lhes mais fácil entender e explicar o
conteúdo do texto.
ABRAÃO: Eu entendi que há certos bandidos foram violar
uma miúda, uma criança. Entendi também que estavam
armados de seus instrumentos. (…) Está tudo claro.
Foi nosso interesse perceber o que as crianças do grupo achavam da notícia lida. Com
essa pergunta pretendíamos saber se haveria algo que gostariam de ver no texto e que não
constava.
RAPOSÃO: Eu gostaria de ver os nomes dos assaltantes e o
nome da criança que foi agredida. (…) Saber quem é que fez
isso e vir a imagem ali de quem foi violada.
SANDRA: Também deviam mostrar os objectos que
utilizaram. Também os nomes. As tantas conhecemos essa
pessoa nem?
Questionadas sobre a importância da publicação da foto da criança violada e como se
sentiriam se fosse a foto delas, a opinião das crianças mudou:
SANDRA: (Ao publicar a foto), a criança ia ficar triste.
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MOISÉS: Porque tem pessoas que discriminam.
SANDRA: Sim, talvez pusessem isso assim, tapassem a
imagem.
ABRAÃO: Eu acho que está bom assim, porque se pusessem a
foto da criança ela ainda estaria triste...
Pesquisador: Então Abraão tu concordas que não apareça o
nome e a imagem da criança?
ABRAÃO: A foto o é lá muito, mas a imagem, roupas
rasgadas, marcas no corpo, acho que não, não tem que vir. E
mesmo a família não pode gostar basta nós sabermos que
uma criança foi violada na zona X, com uma pessoa X, acho
que estaríamos informados assim mesmo
RAPOSÃO: As fotos dos bandidos tinham que aparecer. Se os
bandidos ficam tristes é com eles.
SANDRA: Eu acho que devia aparecer sim nem. Para ficarmos
a prevenir. Quando vermos aquela pessoa não deixar entrar
em casa de qualquer maneira. E quando vermos aquela
pessoa vamos dizer afinal é aquele que violentou aquela
criança. Não podemos falar com ele, é um criminalista.
MOISÉIS: Porque ele pode voltar a cometer o mesmo crime.
De acordo com o excerto, as crianças consideram o jornal e as informações
veiculadas como sendo um aporte que lhes oferece “informação” capaz de mudar seus
comportamentos no sentido de se prevenir e proteger de certas situações. Podemos assim
dizer que as crianças consideram que estando informadas, estão mais seguras.
A discussão com as crianças mostra também que as opiniões individuais não foram
fixas. As crianças podem mudar de ideia e podem persuadir outras a mudar sua posição. Esta
ideia é defendida por O’Brien, Alldred e Jones (1996), pesquisadores que levaram a cabo um
estudo sobre as relações familiares de crianças. Estes investigadores concluíram que as
opiniões expressas não são apenas resultado da percepção individual das crianças mas são
também produtos construídos socialmente no contexto particular da pesquisa.
Sandra, inicialmente defendia a publicação da foto da criança, mas depois de ouvir a
opinião dos demais companheiros a sua posição Sandra mudou. Ela acrescenta também que
os jornalistas deveriam ter um certo “cuidado ético” com a criança violada: “Eu acho que
não deveriam entrevistar uma criança no estado de choque, quando acaba de passar por
uma situação difícil e logo o jornalista chega entrevista, ela não se sente bem. Mas depois de
um bom tempo sim”.
Para todas as crianças o texto lido estava “claro e simples”. Mesmo assim, quase
todas propõem a mudança do título:
MOISÉS: Indivíduos cometem pedofilia.
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AILA: Indivíduos violam uma criança sexualmente.
MARCIA: A criança desamparada.
SANDRA: Uma quadrilha assalta uma zona e viola uma
criança.
ABRAÃO: Violação da criança.
Analisando os títulos propostos, é fácil perceber a simplicidade com que se
apresentam. Com indivíduos cometem pedofilia”, Moisés talvez quisesse enfatizar o facto
de terem sido indivíduos adultos a violar uma menor. Mesmo assim, é possível notar que
todas as crianças propõem títulos claros e directos.
A ideia de que as crianças aparecem pouco nos jornais como matéria mediática é
comungada também por elas e também reconhecem que sua voz não é citada nos jornais.
Convidadas a dizer algo no final da conversa, Márcia afirmou: É uma iniciativa boa nós
estarmos a participar aqui nós estamos a gostar”. As palavras desta estudante levaram-nos a
prolongar as perguntas:
Pesquisador: Vocês então gostam de expressar vossos pontos
de vista?
TODOS: SIM!
Pesquisador: Acham que muita gente não vos deixa dizer o
que pensam...
SANDRA: Sim. A maioria de vezes até somos ameaçados que
se vocês dizer isso vai se ver comigo
Pesquisador: Então vocês concordam que os jornalistas
devem perguntar-vos coisas quando acontece algo
relacionado convosco?
TODOS: DEVEM!
ABRAÃO: Até que perguntam. Perguntam. Ontem
acompanhei que umas crianças foram mandadas embora
pelo banco numa casa, porque elas viviam numa casa que
haviam comprado. E os jornalistas perguntaram as crianças.
Dão valor as crianças. Gostei daquele jornalista.
As palavras de Abraão mostram que ele reconhece o esforço de alguns jornalistas em
entrevistar crianças. Mesmo assim, os meninos do grupo quiseram deixar recomendações
para os jornalistas. As crianças respondem que deveriam escrever mais acerca das crianças e
dos seus direitos, alegando que estes assuntos são mais tratados na televisão.
SANDRA: Como a Márcia falou, (deveriam escrever mais
sobre) direitos da criança. Quando pegamos um jornal não
ouvimos falar da criança. Acho que devem também falar da
criança porque o jornal não é só para adultos nem? A falarem
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da política, sociedade, ... Nós também crianças queremos
ouvir assuntos sobre nós.
Pesquisador: E tu não costumas ver esses assuntos?
SANDRA: Nem sempre. Mesmo quando falam das crianças
falam pouco.
MOISÉS: Eu gostaria de ver os direitos e os deveres da criança
ali no jornal.
As crianças depois indicam os direitos que consideram mais importantes a serme
discutidos nos jornais e explicam o porquê: é para os adultos saberem e não violarem estes
direitos.
RAPOSÃO: A Educação.
SANDRA: A Educação, assistência médica, amor, carinho.
MOISÉIS: O vestuário.
MARCIA: Segurança, direito de brincar.
AILA: As crianças deviam ter um tempo para brincar. Há pais
que não deixam as crianças brincar, até acorrentam
crianças...
SANDRA: Os outros até tiram as crianças da escola para irem
a machamba. Trabalhar.
SANDRA: Deviam publicar para os pais saberem. pais que
estão a violar os direitos da criança. No jornal talvez podiam
informar para eles sobre esse caso. (…) os que não
conhecem e outros estão a violar. Muitos pais acham que
essa coisa de direitos de criança não serve para nada, criança
deve trabalhar porque há falta de comida em casa.
MOISÉS: A criança pode ajudar isso pode, mas tem que haver
tempo para ele estudar.
AILA: Há pais que não têm condições de meter uma na
escola. Mas agora já podem meter as crianças, mas eles não
deixam. Principalmente as meninas no campo. Não deixam as
meninas estudarem. Dizem que os meninos é que devem
estudar.
A discussão foi muito rica em ideias para reflectir sobre diferentes aspectos da vida
das crianças em Moçambique, sobre os seus direitos e sobre os seus pontos de vista. A
inclusão deste grupo de discussão ajudou a perceber o que entendem as crianças sobre sua
representação nos media e sobretudo acerca da forma como elas pensam que os media as
deveriam representar. Contudo, é relevante referir que a análise que fazemos às palavras
ditas pelas crianças do grupo não é nenhum produto acabado e tem um valor
principalmente exploratório. Espera-se que estudos mais aprofundados possam dar
visibilidade e espaço a “voz das crianças” para que o artigo 12 da CDC, que preconiza o
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direito das crianças de expressar opiniões e serem levadas em consideração, passe a ser uma
prática efectiva.
Conclusões
Quando decidimos elaborar este trabalho nosso objectivo não foi pretender dizer
tudo sobre a cobertura da infância nos jornais Diário de Moçambique e Notícias. O que
pretendíamos era produzir – e estimular – uma reflexão crítica sobre esse tema. Terminada a
apresentação da análise, articulamos algumas considerações conclusivas sobre o que
investigamos.
A nossa pesquisa mostrou que se escreve pouco sobre crianças nos jornais
analisados. Em Moçambique as crianças constituem a maioria da população nacional.
Considerado o espaço que os órgãos analisados dedicam a este grupo na sua cobertura,
torna-se visível que a “maioria da população” do país é a menos representada nos jornais.
Diante desse facto, torna-se “injusto” o não agendamento de questões ligadas à infância nas
pautas dos jornais. Mostra-se relevante que os meios de comunicação moçambicanos
dediquem um espaço maior e com mais aprofundamento a assuntos ligados à infância e aos
os direitos da criança.
Na maioria dos casos, os autores de artigos sobre crianças prendem-se apenas aos
dados “oficiais”, fornecidos por governantes, instituições e pela polícia. Mostra-se pois
relevante a realização de investigações prévias sobre o assunto pretendido. Esta
investigação fará com que jornalistas conheçam de modo mais sustentado as problemáticas
da infância e possam produzir novas formas de tratamento noticioso.
Em conversa com o jornalista António Cumbane, do DM, foi nos possível constatar
que a cobertura de temas “bombásticas” relacionadas com crianças é tendenciosa. Na
percepção daquele jornalista, não tem nenhum interesse noticiar “que está tudo bem com
as crianças. É preciso apontar para os problemas que vivem as crianças”. Estas palavras
levam-nos a concluir que nunca se faz agendamento da realidade quotidiana dos mais novos
no jornal DM. Para aquele jornalista as experiências pessoais das crianças “normais” não
têm peso relevante ao ponto de merecer espaço nas páginas do jornal.
Analisando as notícias sobre violência, acidentes e situações de risco envolvendo
crianças, notamos que existe uma “contradição” entre a forma como estes assuntos são
tratados nos jornais analisados e o envolvimento daqueles órgãos com a questão da
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protecção da criança. Ou seja, percebemos que os jornais noticiavam simplesmente por
existir o facto noticioso mas sem nenhum objectivo de envolver-se no combate daqueles
males e na construção de uma sociedade digna e justa, tal como preconizam as linhas
editoriais do JN e DM. Mais do que a busca por soluções, o que se encontra na cobertura
desses temas foram principalmente denúncias pontuais e descontextualizadas. Esse dado,
que diz respeito não só às matérias sobre violência e acidentes, mostra como a infância
ainda não é uma pauta prioritária nos órgãos de informação estudados.
A maioria das notícias sobre crianças que tiveram chamadas de capa no período
analisado está relacionada com raptos, violência, falta de acesso a educação, mostrando a
criança como vítima. Todo este destaque, contudo, remete frequentemente a textos curtos
e superficiais, que muitas vezes usam notas policiais e governamentais como únicas fontes
discursivas. Nota-se pois uma certa desvalorização da temática referente às crianças. Tal
desvalorização estará relacionada não com a qualidade dos textos, mas também com a
capacitação (ou falta dela) dos profissionais e com as condições de trabalho dos repórteres.
Jornadas de trabalho excessivamente longas e sobrecarregadas e pouco tempo para
aperfeiçoamento são factores que possivelmente contribuem para que a infância continue
“alojada” na secção generalista “Sociedade e Política”, para o DM e “Sociedade” para o JN.
A prática da valorização da criança como vítima é bastante recorrente na cobertura
da infância em ambos os jornais. Seja em fotografias sobre catástrofes naturais ou em
notícias sobre acidentes e assassinatos, as crianças ainda constituem “as melhores vítimas”
para as matérias, facto também notado por Cristina Ponte em seu estudo sobre jornais
portugueses (2005). Essa vitimização da infância pode ser relacionada com a permanência
em alguns textos do modelo da criança romântica, em que ela é vista como um ser frágil e
vulnerável, que deve ser protegido para manter características que a aproximam de um
“ideal infantil” onde predominam a inocência e a pureza.
Em conversas que tivemos com o jornalista António Cumbane, do DM, assim como o
Director Editorial do mesmo jornal, Artur Ricardo, foi possível perceber que a infância não é
tema que merece uma pauta prévia. Sempre que se escreve sobre crianças no jornal DM, é
quando a ocasião o permite, isto é, quando há uma denúncia ou um comunicado sobre
alguma situação negativa.
Este este trabalho mostra que os profissionais de informação devem considerar as
crianças como agentes e protagonistas de acções reportáveis e como tal, devem constituir
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fontes de informação. O artigo 12º da CDC só pode ser posto em prática quando as crianças
forem oferecidas oportunidade de dizer o que pensam e sentem.
Desde que decidimos elaborar este trabalho, nossa “ambição” é que o estudo não
seja apenas mais um trabalho para ocupar espaço nas prateleiras das bibliotecas.
Pretendemos que produza resultados concretos tanto ao nível da realização de pesquisas
mais aprofundadas sobre a representação e presença da infância nos media moçambicanos,
como ao nível do agendamento de temas sobre infância nas pautas, principalmente dos
jornais, mas também das rádios e televisões moçambicanos. Com este trabalho esperamos,
portanto, lograr a criação de uma ideia cientificamente formulada e clara sobre a situação da
infância e a necessidade de um tratamento especial na divulgação e promoção dos direitos
do grupo etário mais jovem da população pelos meios de comunicação moçambicanos.
Pretendemos também despertar a atenção dos editores e jornalistas dos órgãos de
comunicação moçambicanos de modo a tomarem posições tendentes a considerar e
promover a abordagem da infância nos seus meios de comunicação.
A pesquisa e publicação de situações em que os menores estejam em risco e em
privação de seus direitos é uma atitude sensata, mas não pode constituir o único ângulo de
abordagem escolhido pelos media na cobertura sobre crianças. É relevante a representação
de outras categorias de crianças nos materiais mediáticos dos jornais. Isto é, embora seja
importante publicar notícias sobre “criança órfã”, “criança vulnerável”, “criança pobre”, é
também primordial produzir trabalhos mediáticos sobre outro lado do quotidiano da
“criança cidadã”, “criança herói”, “criança celebridade” em que não apenas se apresenta
como objecto mas também como sujeito actuante de suas próprias acções individuais ou em
conjunto com outras crianças e adultos.
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RECEBIDO EM 05 DE FEVEREIRO DE 2011.
APROVADO EM 02 DE MARÇO DE 2011.
Thesis
Full-text available
Based on the understanding of children as sociocultural beings and active agents in the productions of the world around them, this study aims productions of the world around them, the present work aims to understand the play and the relationships that precede, mediate and succeed them, as a meaningful activity of children and possibility of transformations and rereading of possible worlds, from three Mozambican communities located in the south of the country. The longitudinal fieldwork carried out from 2014 to 2018 covered three main data collection periods: six months during 2014, 2017 and 2018 in the communities of Mabotine (urban area of the capital of Maputo ), Matola A (peri-urban area of the city of Matola) and Nhandlovo (rural area in the city of Massinga, Inhambane), with children aged 3 years to 17 years. The places where the ethnographic research happened permeated the places where the children were, especially those in the community, such as the streets, the backyards, the “secret” spaces, the river, the houses, the schools, among others considered significant for them. With the ethnography, other methods have also been employed in seeking a greater understanding of play: photography, drawing, video, unstructured interviews, semi-structured interviews, and informal conversations. From the data collected and analyzed, four main points were worked on: the idea of being a child from the perspective of children and adults themselves; the playing and construction of toys from discarding material; play and the relationship with nature and landscapes; images of play and the use of photography. The aspect is brought, analyzed and discussed in chapters that follow the present thesis, considering its relationship with occupational therapy, its practices and theories. The results point to a kaleidoscope of diversity and language used by children in play, understood as a way of being in the world and from their spatiotemporal relations. Finally, questions are raised about the potentialities of future development in African and childhood studies, pointing to the coexistence of childhood and child pluriverses, as well as possible research methods.
Article
Full-text available
Drawing on ethnographic data from rural Bolivia and applying the theoretical approaches of the minority group child and the tribal child (James et al. 1998), this paper shows that majority world children integrate work, play and school, moving back and forth between child and adult-centred worlds. It argues that majority world children have largely been perceived in relation to their work, and that the overlapping arenas of their everyday lives tend to be ignored. A more holistic perspective which considers how they may combine work and school with play could be more appropriate for understanding children’s childhoods.
Article
A partir da apresentação de um projecto de investigação sobre a realidade das crianças que tomamconta de outras crianças nos bairros periféricos da cidade de Maputo, em Moçambique, o artigopretende levantar algumas questões mais gerais sobre a relação existente entre a investigaçãocientífica e as crianças do continente africano. Em primeiro lugar, nota‐se que, apesar da faixa etáriados 0 aos 18 anos representar cerca da metade população africana, permanece ainda escasso onúmero de investigações científicas voltas ao estudo específico da realidade das crianças destecontinente. Em segundo lugar, observa‐se que, na maioria dos casos, quando as crianças constituemo objecto principal de investigação, se trata de crianças desfavorecidas ou que se encontram emsituações excepcionalmente difíceis (crianças de rua, crianças chefes da família, crianças soldados,crianças trabalhadoras, crianças órfãs, ...). São raros os trabalhos que objectivam estudar a realidadedas crianças consideradas “normais” dentro de um determinado contexto e ainda mais raros são osestudos que apresentam o ponto de vista das próprias crianças sobre as suas experiências e as suasvivências quotidianas. Em terceiro lugar, discute‐se a legitimidade de aplicar o conceito de “infância”,assim como foi criado em Ocidente, ao estudo de contextos culturais profundamente diferentes,quais os dos países africanos. Finalmente, a comunicação conclui‐se com uma reflexão sobre apossibilidade e as formas de conciliar a universalidade dos Direitos da Criança com as especificidadesculturais de um determinado contexto local.
Infantil e as Mídias: representações culturais em websites de entretenimento para crianças. Relatório de Pesquisa PIBIC/CNPq/UFSC
  • A Dionísio
  • Imaginário
DIONÍSIO, A. O Imaginário Infantil e as Mídias: representações culturais em websites de entretenimento para crianças. Relatório de Pesquisa PIBIC/CNPq/UFSC, 2005.
Pobreza infantil em perspectiva: Visão de conjunto do bem-estar da criança nos países ricos
  • Fundo Das Nações Unidas Para A Infância
FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA. Pobreza infantil em perspectiva: Visão de conjunto do bem-estar da criança nos países ricos. Innocenti Report Card N° 7, 2007
Investigação etnográfica com crianças: teorias, métodos e ética. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian
  • E Graue
  • D Walsh
GRAUE, E.; WALSH, D. Investigação etnográfica com crianças: teorias, métodos e ética. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003
Children's Constructions of Family and Kinship
  • M Alldred
  • P And
  • D Jones
O'BRIEN, M., ALLDRED, P. AND JONES, D. Children's Constructions of Family and Kinship, in J. Brannen and M. O'Brien (eds) Children in Families: Research and Policy, London: Falmer Press., 1996
Quando criança é notícia: representações sobre a infância no Diário Catarinense. Tese de licenciatura em Jornalismo
  • A Dionísio
DIONÍSIO, A. Quando criança é notícia: representações sobre a infância no Diário Catarinense. Tese de licenciatura em Jornalismo. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2006. Disponível em www.aurora.ufsc.br.
Para entender as Notícias. Linhas de análise do discurso jornalístico
  • C Ponte
PONTE, C. Para entender as Notícias. Linhas de análise do discurso jornalístico. ed. 1, ISBN: 85-7474-275-9. Florianopolis: Editora Insular, 2005a
Crianças em notícia: a construção da infância pelo discurso jornalístico
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PONTE, C. Crianças em notícia: a construção da infância pelo discurso jornalístico (1970-2000). Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2005b
Children's Constructions of Family and Kinship
  • M O'brien
  • P Alldred
  • D Jones
O'BRIEN, M., ALLDRED, P. AND JONES, D. Children's Constructions of Family and Kinship, in