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Abstract

Neste artigo explora-se a noção semântica de modalidade na falaespontânea do português brasileiro (PB) através de um estudo decorpus, cujo objetivo é fazer um levantamento das principaisestratégias modalizadoras na fala espontânea do PB. O substratoteórico que orienta esse estudo é a Teoria da Língua em Ato, deCresti (2000). Buscaram-se os índices modais morfolexicais nasunidades tonais de cada enunciado do corpus, através deprocedimentos qualitativos e análise quantitativa, e chegou-se àconclusão de que os verbos são os principais veiculadores demodalização na fala espontânea do PB. O principal tipo de modalidademanifestada é a epistêmica, cobrindo mais de 50% dos índicesencontrados. Observou-se também que é frequente a ocorrência deenunciados e unidades tonais com valências modais múltiplas.
Modalização na fala espontânea do
português brasileiro: um primeiro
mapeamento de índices
morfolexicais*
Modality in Brazilian Portuguese spontaneous speech:
a first mapping of morpholexical indexes
Heliana Mello
Universidade Federal de Minas GeraisUniversidade Federal de Minas Gerais
Universidade Federal de Minas GeraisUniversidade Federal de Minas Gerais
Universidade Federal de Minas Gerais
Janayna Carvalho
Universidade Federal de Minas GeraisUniversidade Federal de Minas Gerais
Universidade Federal de Minas GeraisUniversidade Federal de Minas Gerais
Universidade Federal de Minas Gerais
Priscila Côrtes
Universidade Federal de Minas GeraisUniversidade Federal de Minas Gerais
Universidade Federal de Minas GeraisUniversidade Federal de Minas Gerais
Universidade Federal de Minas Gerais
Abstract
This paper explores the notion of modality through a corpus of
Brazilian Portuguese (BP) spontaneous speech corpus, based on the
Speech Patterning Theory (CRESTI, 2000). Morpholexical modality
indexes were identified in tone units within each corpus utterance.
Through qualitative and quantitative methodologies, it was possible
to conclude that: verbs are the major modality agent in BP and the
epistemic modality is the most frequent type found. It was also
observed that BP allows for multiple modal valency utterances and
tone units.
Keywords
Modality, Spontaneous speech, Utterance.
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
106
Resumo
Neste artigo explora-se a noção semântica de modalidade na fala
espontânea do português brasileiro (PB) através de um estudo de
corpus, cujo objetivo é fazer um levantamento das principais
estratégias modalizadoras na fala espontânea do PB. O substrato
teórico que orienta esse estudo é a Teoria da Língua em Ato, de
Cresti (2000). Buscaram-se os índices modais morfolexicais nas
unidades tonais de cada enunciado do corpus, através de
procedimentos qualitativos e análise quantitativa, e chegou-se à
conclusão de que os verbos são os principais veiculadores de
modalização na fala espontânea do PB. O principal tipo de modalidade
manifestada é a epistêmica, cobrindo mais de 50% dos índices
encontrados. Observou-se também que é frequente a ocorrência de
enunciados e unidades tonais com valências modais múltiplas.
Palavras-chave
Modalidade, Fala espontânea, Enunciado.
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 107
O
1.1.
1.1.
1.IntroduçãoIntrodução
IntroduçãoIntrodução
Introdução
estudo da modalidade vem ocupando a pauta de pesquisa dos estudos
lógico-filosóficos e linguísticos há séculos (cf. FINE, 1994). As
tradições teóricas desses estudos são variadas e refletem abordagens
que vão do formalismo lógico às análises funcionalistas e discursivas da
linguagem natural. Em décadas mais recentes, além dos estudos linguísticos
clássicos, estudos psicolinguísticos e linguístico-computacionais também
passaram a enfocar a modalidade, refletindo, assim, um continuado interesse pela
busca da compreensão e descrição dessa categoria (cf. BATLINER et al.,
1994). Neste artigo nos interessa o olhar da linguística de uso para o estudo da
modalidade, ou seja, buscamos o entendimento dessa categoria através de um
estudo empírico. Mais particularmente, interessa-nos o estudo da modalidade não
apenas como categoria semântica, mas também o seu uso manifestado
contextualmente na fala espontânea. Para desenvolver tal proposta, adotamos
como dados de análise as manifestações morfolexicais da modalidade em um
subcorpus de fala espontânea do português brasileiro, o C-ORAL-BRASIL.1
A base teórica do nosso estudo é a Teoria da Língua em Ato, de Cresti (2000)
que propõe ser a fala espontânea composta por enunciados, com uma interface
ilocutiva, e divididos em unidades tonais, com correlatos prosódicos. Essa visão
teórica, empiricamente embasada, trará consequências para o domínio de
aplicação dos índices modais, como será visto na discussão dos nossos dados.
Este artigo é organizado em 4 seções. Inicialmente exploramos o conceito
de modalidade e apresentamos o nosso corpus de estudo; passamos, então, a
uma discussão metodológica e à análise dos dados para, em seguida, concluirmos
e apontarmos perspectivas de continuidade do estudo aqui relatado.
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
108
1.1 O que é modalidade?1.1 O que é modalidade?
1.1 O que é modalidade?1.1 O que é modalidade?
1.1 O que é modalidade?
A reflexão do filósofo John Venn prenuncia a complexidade da tarefa de
se estudar a modalidade. Segundo ele: “[A modalidade] é um tipo de lugar dentre
aqueles mais espinhosos e repulsivos no território da lógica” (VENN, 1888,
p. 245).2 É, de fato, extremamente difícil caracterizar a noção linguística de
modalidade. Isso se deve a uma combinação de elementos, dentre os quais: (a)
o de tal categoria haver sofrido, em sua tradição de estudo, uma grande influência
da Lógica, havendo assim uma mescla entre estudos filosóficos e matemáticos
e aqueles da linguagem natural, o que acarreta uma mistura metodológica nem
sempre produtiva para o estudo da língua em uso (cf. verificação de valores de
verdade); (b) o de essa categoria existir em interrelação, no sistema gramatical
de uma língua, com vários fenômenos gramaticais, como tempo, aspecto e modo,
prosódia, organização da informação, dentre outros; e (c) o fato de o próprio
conceito de modalidade confundir-se com aqueles de atitude, ilocução e emoção.
Apesar disso, é importante salientar que o estudo da modalidade é legítimo
e merece demarcação mesmo que a manifestação dessa categoria gramatical
nas línguas naturais seja tão fluida. Faz-se necessário, portanto, que se busquem,
cada vez com mais rigor, definições coerentes e descrições embasadas no uso
linguístico, para uma melhor compreensão da modalidade. Acreditamos, portanto,
que estudos com base empírica sejam promissores para tal fim, devido ao aporte
observacional que conferem às análises e teorizações delas oriundas.
Ao longo do tempo, o tratamento da modalidade deu-se através das mais
diferentes concepções teóricas, acompanhadas de terminologia própria, variando-se,
assim, o domínio linguístico levado em conta (sintático, semântico, morfológico ou
pragmático) e a relação com outros fenômenos (modo, negação e transitividade,
principalmente). É, portanto, improvável que a adoção de uma teoria não privilegie
uma manifestação da modalidade em detrimento de outras. Em uma definição
muito geral, esquemática de diversas concepções, podemos dizer que
modalidade diz respeito a um domínio semântico que acomoda
variadas nuances de sentido, adicionadas a uma hipotética estrutura
neutra, qual seja, uma proposição, factual e declarativa. Essa
variedade de sentidos encobre um espectro de subclasses que inclui
conteúdos semânticos desiderativos, intentivos, hipotéticos,
dubidativos, dentre outros (MELLO, 2008, p. 2).
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 109
Assim sendo, independentemente da ênfase que seja dada, os autores que
se interessam por esse tema, em geral, concordam que a modalidade, em sua
acepção mais fundamental, é composta por várias nuances de sentido, concebidas
com base em uma proposição neutra. De forma geral, modalidade é a categoria
linguística que indica as intenções, os sentimentos e as atitudes do locutor com
relação ao seu discurso. Em outras palavras, é o valor que o emissor atribui aos
estados de coisas que descreve ou a que alude em seus enunciados.
1.2 Distinção e sobreposição de categorias1.2 Distinção e sobreposição de categorias
1.2 Distinção e sobreposição de categorias1.2 Distinção e sobreposição de categorias
1.2 Distinção e sobreposição de categorias
Não cabe, no presente trabalho, o escrutínio detalhado sobre o debate
acerca das várias acepções de modalidade, dado o objetivo empírico a que se
propõe, voltado para dados da fala espontânea. Para tal propósito, remetemos
o leitor a Neves (2006), Pessoa (2008) e Mello et al. (2009). Serão apresentados
aqui somente os grandes eixos que norteiam a discussão classificatória para a
modalidade a fim de estabelecermos um direcionamento taxionômico que
subsidie o exame de dados.
Varia, de estudo para estudo, o lócus de aplicação da modalização. Por
exemplo, discute-se se seria a proposição a categoria modalizável (cf. BYBEE;
FLEISCHMAN, 1995) determinando, portanto, que a modalização é uma
entidade semântica – ou seria o enunciado o seu campo de aplicação, assim
caracterizando a modalização como uma entidade pragmática (cf. MORAES,
1993). Quanto aos elementos linguísticos passíveis de carregar índices
modalizadores, as divergências são ainda maiores. Narrog (2005) faz um
levantamento que mostra que, se partirmos de diferentes definições de
modalidade, chegaremos a índices diferentes de expressão dessa categoria e
poderemos considerar, por exemplo, verbos intransitivos passivizados como
modais, além de fenômenos de passivização; causativização; uso desnecessário
de honoríficos; uso de sinônimos e usos aspectuais que não correspondem a
nuances de um evento.3
Em contrapartida, há inúmeros estudos que apresentam posições teóricas
divergentes sobre o que é modalidade, mas identificam os mesmos elementos
como passíveis de modalização e/ou modalizadores. Quase consensualmente,
diversos autores identificam verbos auxiliares e advérbios como marcadores
lexicais de modalização. No caso da língua portuguesa, especificamente, são
poucos os autores que levam em conta também os adjetivos presentes em
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
110
construções do tipo: “É necessário que você venha”; “É preciso que você me
ligue” e, ainda em menor número, os que estudam o adjetivo em si como
modalizador ou ainda verbos ou locuções verbais emergentes “é pra fazer”; “
pra”. Dessa forma, a supremacia da tradição de estudos, principalmente de
modais auxiliares, ofusca muitos fenômenos que mereceriam uma atenção
cuidadosa em nossa língua. Este estudo (e o projeto em que ele está inserido) é
uma das tentativas de preencher a lacuna aqui mencionada.
1.3 A procedência do 1.3 A procedência do
1.3 A procedência do 1.3 A procedência do
1.3 A procedência do subcorpussubcorpus
subcorpussubcorpus
subcorpus de análise de análise
de análise de análise
de análise
Este estudo foi feito dentro do projeto C-ORAL-BRASIL (cf. RASO;
MELLO, 2009) que tem como objetivo maior o estudo do português brasileiro,
em sua manifestação como fala espontânea, por meio da compilação de um
corpus que segue a arquitetura e critérios observados pelo projeto C-ORAL-
ROM (CRESTI; MONEGLIA, 2005), constituindo-se assim como seu quinto
braço, somando-se às quatro línguas românicas europeias que o compõem:
espanhol, francês, italiano e português europeu. Esse procedimento garante a
comparabilidade entre o PB e as quatro línguas componentes do C-ORAL-ROM.
Cada um dos subcorpora representa uma variedade diatópica e se divide em
duas partes, uma de fala formal e outra, de fala informal, relativas a contextos
privados/familiares e públicos. O C-ORAL-BRASIL representa a diatopia
mineira, principalmente da região metropolitana de Belo Horizonte, e fornece uma
descrição diastrática balanceada.
O corpus tem sua parte informal composta de, aproximadamente, quinze
horas de gravações de interações, equivalentes a cento e vinte textos de, em
média, 1500 palavras cada um. Procurou-se, na constituição da subparte informal,
registrar situações de interações linguísticas acionais variadas, como situações
de compra e venda, jogos de mesa, atividade em obra de construção civil, etc,
de modo que o material refletisse tanto quanto possível a língua utilizada em
situações interacionais espontâneas. O uso acional da linguagem, como nas
gravações registradas, permite que os informantes, em vista da atenção voltada
à tarefa feita, rapidamente se esqueçam que estão sendo gravados e
comuniquem-se com relativa naturalidade. Ademais, o cuidado nas situações
escolhidas para gravação se deve à hipótese de que as situações comunicativas
refletem a organização informacional da fala e uma grande variedade diafásica
espelha as estratégias relevantes da comunicação e, no caso específico deste
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estudo, de uso da modalidade. Todas as gravações foram feitas com gravadores
de qualidade considerável para que a organização da estrutura informacional
fosse adequadamente identificada no programa WinPitch (cf. RASO; MELLO,
2009). As gravações ocorreram de 2007 a 2010, em Belo Horizonte, MG.
Tanto no projeto C-ORAL-ROM quanto no C-ORAL-BRASIL, o
material coletado é transcrito e segmentado de acordo com as diretrizes
metodológicas da Teoria da Língua em Ato, proposta por Cresti (2000), que aponta
o enunciado como a unidade linguística mínima que pode ser pragmaticamente
interpretada, à qual necessariamente se associa uma ilocução. Por ilocução,
entende-se uma das três partes do ato de fala austiniano, a qual diz respeito ao
tipo de ação realizada através da língua (se asserção, se expressão, se direção,
etc.) com o objetivo de atingir, de uma forma determinada, o interlocutor. As
outras partes do ato de fala, a perlocução e a locução, também se manifestam
em todo enunciado; a perlocução, por se referir à motivação mínima do falante
a iniciar um ato de fala;4 a locução, pelo fato inerente a todo enunciado de ser
dotado de conteúdo locutivo.
A associação do enunciado (domínio linguístico) à ilocução (domínio da
ação) é mediada pela prosódia, que permite, então, ao falante reconhecer e
produzir diferentes atos de fala. O enunciado é, portanto, a contraparte linguística
do ato de fala ligado à ilocução (domínio da ação), cuja contraparte formal é a
prosódia. Não há relação necessária entre o enunciado como um todo e a sintaxe
sentencial, uma vez que o conceito de enunciado leva em conta aspectos
prosódicos e ilocucionários, e não sintáticos. O domínio, por excelência, da sintaxe
seria a oração, construto associado à língua escrita. Seguem alguns exemplos de
enunciados:5
(1) *PAU: <sábado> é o dia d’ ele faturar lá no boteco //
*ROG: é //
*ROG: boteco só dá prejuízo //
*PAU: prejuízo e amolação / né // (ipubdl01)
Diversos estudos sobre a manifestação da modalidade no italiano foram
feitos por membros do C-ORAL-ROM, como Cresti (2002) e Tucci (2007, 2008,
2009). Ambas assumem que a modalidade é inerente a todo enunciado, com ou
sem índices de modalização. No entanto, para tornarem a sua pesquisa viável,
elas optaram por fazer um recorte que envolvia os verbos e os advérbios modais
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
112
e adjetivos em posição predicativa. De acordo com Tucci & Moneglia (no prelo),
o domínio de aplicação da modalidade é a unidade tonal; assim sendo, se índices
modais estão presentes em unidades distintas de um mesmo enunciado, isso não
acarreta composicionalidade. Cresti e Tucci trabalham com três valores modais
primordiais (cf. VAN DER AUWERA; PLUNGIAN, 1998), o alético, o deôntico
e o epistêmico, com base na definição de modalidade proposta por Bally (1942,
apud TUCCI, 2008, p. 2): “Envolvimento do falante com o conteúdo de sua
própria locução”, ou seja, o Modus (predicado modal, relativo a uma avaliação
subjetiva) do Dictum (predicado verbal, conteúdo denotativo do enunciado). Para
a condução da nossa análise, adotaremos os mesmos pressupostos nos quais se
pautaram Cresti e Tucci. Por modalidade alética, as autoras entendem a avaliação
que o falante faz do estado de coisas segundo noções lógicas de verdade, e a
apresentação do estado de coisas como verdadeiro (i.e. em discursos diretos
reportados), como ilustram os seguintes exemplos:
(2) “Um cisne pode ser negro”6
“Um leopardo deve ser malhado”7
Dessa forma, as noções de capacidade e habilidade também podem se encaixar
nessa categoria, uma vez que estão atreladas à verdade no mundo.
A modalidade deôntica está relacionada às noções de permissão e de
obrigação, com as quais o falante avalia um estado de coisas referente a alguma
ação, como nos exemplos seguintes:
(3) “Não se pode abandonar a pessoa sozinha”8
“Marco deve partir hoje”9 (com o sentido semelhante ao de ter que)
Essa categoria, na maneira como as autoras a concebem, não está necessariamente
associada ao que é permitido ou vetado convencionalmente, isto é, segundo regras
instituídas, mas estende-se também ao posicionamento que o falante faz com
relação a uma ação, baseando-se em suas noções de necessidade deôntica. A
expressão de desejo, em alguns casos, também se insere nessa categoria, uma
vez que o falante posiciona-se perante uma ação.
A modalidade epistêmica manifesta-se sempre que o falante imprime ao
estado de coisas uma avaliação baseada em seus conhecimentos e crenças
acerca do mundo:
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 113
(4) “Júlio pode ter partido”
Devem ser os sete”
Nessa categoria, o falante expressa graus de possibilidade e de probabilidade,
respectivamente, com relação aos estados de coisas.
2. Metodologia2. Metodologia
2. Metodologia2. Metodologia
2. Metodologia
Para este estudo, procedeu-se à análise de 12 textos, de 1500 palavras em
média cada, que fazem parte de uma parte seleta do C-ORAL-ROM. Tal
subcorpus, a que denominamos minicorpus C-ORAL-BRASIL, é composto de
forma a espelhar a composição do corpus completo em sua tipologia textual. O
minicorpus, entretanto, é integrado pelas gravações de mais alta qualidade
acústica do corpus, além de conter variadas situações acionais. Tal composição
satisfez plenamente as nossas necessidades de lidar com dados qualitativamente
ricos, porém em uma dimensão quantitativa que permitisse a etiquetagem manual
por categoria modal. Ao todo, foram 2573 enunciados completos10 analisados.
Atribuímos valor modal apenas a enunciados em que há presença de índices
modalizadores, que, nos dados analisados, podem ser auxiliares modais (dever,
poder), verbos de sentido pleno (achar, pensar, acreditar), advérbios modais
(provavelmente, necessariamente, talvez), alguns adjetivos em posição
predicativa (é verdade, é preciso), nomes modalizadores (possibilidade,
necessidade) e algumas categorias gramaticais manifestas através do verbo
(tempo e modo, como o futuro do subjuntivo).11 Optamos pelo referido recorte
com o objetivo de descrever tendências gerais das estratégias de modalização
no português brasileiro.12
Consideramos dotados de valor modal epistêmico os verbos, advérbios,
adjetivos em posição predicativa e construções que exprimiam, no contexto em
questão, o grau de possibilidade e de necessidade13 que o falante atribui ao estado
de coisas, baseando-se em seus conhecimentos sobre o mundo. Os índices
considerados aléticos são aqueles que revelam uma avaliação lógica do estado
de coisas, pautada pela realidade. Consideramos modalizadores deônticos todos
aqueles que, no contexto, veiculam um valor de obrigatoriedade e de permissão,
relacionado ao estado de coisas.
Alguns índices podem funcionar como modalizadores de valores modais
múltiplos, como os verbos dever, poder e o advérbio realmente. Nesses casos,
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
114
a análise do contexto é de extrema importância para que se determine o valor
modal in situ. O critério que utilizamos para decidir sobre qual o valor modal a
ser atribuído a itens plurimodais, como o advérbio realmente, foi o grau de
factualidade do estado de coisas, isto é, em (5), por exemplo, esse advérbio
veicula um valor alético por estar associado a um estado de coisas que é um fato
no mundo:
(5) *HMB: as pessoas falam que [/1] que / é / igual a gente faz
mexido aqui // que o resto de comida // mas assim não // a gente
vai + na Espanha realmente es fazem isso / né // (ipubmn)
Em outros casos, como em (6), realmente imprime um valor epistêmico
ao enunciado, porque fica claro que o falante se baseou em seu julgamento
individual para fazer uma avaliação do estado de coisas:
(6) *HMB: de trabalho / de estudo / e de conhecimento mesmo / no //
cada vez que cê tenta fazer o prato / cê tenta fazer melhor // né //
<tenta> / aperfeiçoar // mas eu acho um / prato / muito legal //
*HRM: <hum hum> // hum hum //
*HMB: muito completo //
*HRM: hum hum //
*HMB: e muito saboroso // muito bonito //
*HRM: é // realmente é // (ipubmn)
3. Discussão3. Discussão
3. Discussão3. Discussão
3. Discussão
Considerando modalizadores os índices morfolexicais já mencionados,
encontramos modalizada uma parcela de 9,71% do corpus de análise,
correspondente a 250 enunciados dos 2573 analisados. Dessa parcela
modalizada, a maior parte é composta por ocorrências modalizadas
epistemicamente (57,85%). A porcentagem de modalização deôntica é de
23,57% do total e a de modalização alética é de 18,57%. Os índices modais
encontrados figuram na tabela 1, a seguir.
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 115
TABELA 1
Estratégias lexicais de modalidade, itens correspondentes e porcentagens
Estratégias lexicais Itens Porcentagem
de modalidade referente ao total
do corpus
Adjetivos (ou nomes com (é) lógico, é provável, 1,42%
função adjetiva) em posição é importante, (é) verdade
predicativa
Advérbios ou locuções Talvez, certamente, realmente, 6,42%
adverbiais às vezes, também, logicamente,
sinceramente, com certeza,
completamente, sem dúvida,
possivelmente, na verdade,
na realidade
Condicionais [se X então Y] 13,21%
Construções modais tem condição (de), tem chance 22,14%
de, o que acontece, ter que,
ficar imaginando, ficar pensando,
(é) para + inf., dá para + inf.,
ter certeza, vai saber, tem jeito
Futuro vou + inf. 1,07%
Futuro do pretérito ia ser, ia dar, seria 3,21%
Outros Digamos, de certa forma 3,57%
Verbos (no presente, Dever, poder, achar, acreditar, 48,92%
no pretérito imperfeito acontecer, ver, conseguir,
e no perfeito do indicativo, precisar, pensar, dar e parecer.
no infinitivo)
A discussão sobre a classificação das ocorrências desses índices
modalizadores como ocorrências aléticas, epistêmicas ou deônticas é feita nas
seções 3.1, 3.2 e 3.3 a seguir.
Além dos índices modais propriamente ditos, como listados acima, há que
se notar estratégias textuais de modalização. Discutiremos esse tópico na seção
3.4, na qual exploramos as construções condicionais e os enunciados
plurimodalizados, com mais de um índice lexical modalizante.
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
116
3.1 Modalidade alética3.1 Modalidade alética
3.1 Modalidade alética3.1 Modalidade alética
3.1 Modalidade alética
A expressão desse valor modal se dá através dos seguintes índices: verbo
poder; construções como dar para X, ter condição e ter chance; e nomes
avaliativos, como verdade, em posição predicativa. O verbo poder, segundo
verbo que teve o maior número de ocorrências (35,5%), expressa possibilidade
alética nos dois enunciados seguintes, visto que os falantes atribuem ao estado
de coisas um juízo não subjetivo, baseado em indícios do mundo real e que pode
ser comprovado como verdadeiro no dado contexto:
(07) *REN: quanto // seis e quarenta-e-oito //
*FLA: <é> // sendo que esse aqui de oito tá //
*REN: quatro e noventa-e-oito //
*FLA: hum hum //
*REN: verdade // a gente pode levar um outro qualquer //
*FLA: é / porque esse Neve é caro // (ifamdl)
(08) *JOR: uma empresa tem a sua despesa administrativa tributária
fiscal / é lucro bruto pa poder projetar o lucro líquido //
(bpubmn)
A variedade de acepções do verbo dar já é assunto de vários estudos, que
enfocam, sobretudo, a sua gramaticalização como auxiliar modal14 . Nos
exemplos seguintes, tem-se a construção dar para X, que expressa possibilidade
alética:
(09) *MAR: é // No’ / se rolar de fazer umas coisas assim / né //
*FAB: então // e / dá pra fazer escuro / sem perder a definição
/ e manter as peças de fora clara // o’ como é que fica legal //
(bpubdl)
(10) *CAR: porque até aí / essas criança até dez anos / o [/1] o mundo
que nós tamo vivemos hoje / com dez ano já dá pa ver que dá
trabalho // (ifammn05)
O verbo dar, embora sem complemento, também apresenta uma acepção
gramaticalizada em relação à sua acepção básica no seguinte contexto:
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 117
(11) *CAR: e &d [/1] cê [/1] &he / <&a [/1] aí / acho que / tem> Apis
ali / né //
*GET: <agora uma outra abelha também> + tem Apis // é // tem
uma Apis forte ali // eu tenho que levar ela embora / porque ali
já nu mais // quer ver // (ipubdl)
Também nesse caso, ele expressa possibilidade alética.
As construções modais emergem como a segunda mais profícua estratégia
de modalização, depois dos verbos, e expressam todos os valores modais. Em
seguida, exemplificamos ocorrências de modalização alética pelas construções
ter condição e ter chance:
(12) *SHE: hoje eu já tô animada // sabe // vendo / assim / que tem
condição // que tem chance // né / de você fazer // (ipubmn)
Outra importante estratégia de modalização são os adjetivos (ou nomes
com função adjetiva) em posição predicativa, como no seguinte trecho:
(13) *LUZ: tá levantando poeira // nu tava assim //
*LAU: é verdade / Luzia // a outra vez tava mais tranquila / <né>
// (ifamdl)
Nesse trecho, LAU concorda com LUZ após examinar as condições físicas do
local por onde passam no momento da enunciação. Consideramos a
modalização, nesse caso, alética porque a avaliação é fruto da observação da
realidade, sendo, portanto, objetiva.
3.2 Modalidade epistêmica3.2 Modalidade epistêmica
3.2 Modalidade epistêmica3.2 Modalidade epistêmica
3.2 Modalidade epistêmica
Ocorre expressão de modalidade epistêmica por meio dos seguintes
índices: verbos achar, poder e dever; advérbios ou locuções adverbiais, como
às vezes, na verdade, com certeza, talvez, logicamente; adjetivos em posição
predicativa, como lógico; construção ter certeza; a expressão fixa vai saber;
categorias flexionais dos verbos; e outros (digamos, de certa forma).
O verbo achar é o verbo mais frequente, porque aparece em 59 ocorrências
de modalidade das 138. Alguns exemplos das ocorrências desse verbo:
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
118
(14) *FLA: outro desse / né // ah / então a gente po’ levar / quatro //
*REN: <quatro> //
*FLA: <não> //
*REN: desse daqui //
*FLA: estocar // que que <cê acha> //
*REN: <pode> // tanto faz // pode //
*FLA: ou cê acha muito //
*REN: uhn // acho que não // tá // papel <higiênico / eu nunca>
+ (ifamdl)
(15) *SHE: mas em relação ao tempo eu penso muito nisso assim / de /
ter / né // esse tempo de [/1] de [/1] de sentar mesmo e planejar
bem mais pra frente // pa nu ficar aquele &ne [/1] né / aquela
coisa assim / &he / tocada // né // &he / organizadinha / tudo
direitim / plano de aula // &he / com material adequado / pra
aquilo ali //
*LUA: é / eu acho que / uma coisa também que ajudaria nisso / era
[/1] era se as [/1] as coordenações nas escolas fossem melhor
/ né // como é + que que cê acha // porque / o que acontece / nu
sei como é que é na sua escola / é que o professor / onde eu dava
aula / se vira com tudo // com plano / com &n [/2] com tudo /
né // (ipubmn)
Todas essas ocorrências foram classificadas como epistêmicas, uma vez
que nelas o falante ou exprime, por meio do verbo achar, sua impressão sobre
algum objeto ou situação em um mundo possível, ou indaga, com uso do mesmo
verbo, o ouvinte sobre a sua opinião.
A expressão epistêmica pelo verbo poder geralmente se manifesta em
sugestões ou quando o falante pretende suavizar o conteúdo semântico, de um
modo eufêmico. O verbo, nesses casos, está preferencialmente na terceira
pessoa do pretérito imperfeito, com um sentido de futuro do pretérito.
(16) *MAR: podia fazer até esse detalhe de <pontilhado> aqui por
baixo // (bpubdl)
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 119
(17) *ALO: e / ela pediu pa pagar / essa conta // e ocê sabe quanto
é que é // eu falei / não / eu / devo ter a conta ainda / porque eu
nu + negócio meu eu nu jogo &f [/1] nada fora / tá tudo
guardado // aí / ocê podia olhar pra mim // (ifammn)
(18) *FAB: aí deu o efeito que isso aqui tá por cima disso aqui //
*MAR: é / &t [/1] tem uns pedaços maior / por exemplo / aqui
/ a gente podia fazer essa questão // que nem o + mais ou menos
na veia / assim / o’ // (bpubdl)
Entendemos as sugestões como manifestações epistêmicas porque
emergem como expressões subjetivas.
O verbo dever, modal por excelência, tem 9,4 % de ocorrência, e só
veicula modalidade epistêmica, neste corpus. O dever com um senso de
obrigação não foi encontrado em nenhuma ocorrência. As suas ocorrências
epistêmicas dividem-se entre as de possibilidade e as de probabilidade:
(19) *MAI: o diâmetro dea deve dar uns [/1] uns quarenta a cinquenta
centímetro de [/1] de &s [/2] de grossura / o diâmetro dela //
(ifammn)
(20) *LUZ: <oi // boa tarde // a> gente +
%add: Os informantes dirigem-se ao porteiro da casa de seus
amigos.
*POR: <boa tarde> //
*LUZ: eu / e esse carro de trás // nós vamo lá na Maria Elisa e no
Duda // ela já deve ter deixado aí // é Luzia / e ele é Tommaso //
De típico modalizador deôntico (por conter a noção de obrigação, associada à
dívida), o verbo passou a frequente modalizador epistêmico, veiculando menos
a noção de obrigação do que a de possibilidade ou a de probabilidade. A noção
de obrigação aparece fracamente na semântica do verbo, porque a avaliação de
probabilidade (epistêmico) deriva de uma avaliação baseada na necessidade
(deôntica, neste caso) das relações entre as coisas. É notável a ocorrência dessa
nova acepção (epistêmica), mais frequente que a acepção de raiz (deôntica).
Vários advérbios e locuções adverbiais com função modalizadora foram
encontrados. Alguns são até neologismos, como logicamente, formado por
derivação sufixal, com acréscimo do sufixo –mente à base lógica. Seguem
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
120
alguns exemplos de modalização epistêmica, a mais encontrada nos advérbios
e locuções adverbiais:
(21) *SHE: então pra ele / é um absurdo ele ter que pagar trinta reais
num livro // ele nu tem esse dinheiro em casa // né // como que
ele vai investir na [/1] na + pra ele nu é [/2] isso nu é [/2] nu é
lucro // né / ele nu vê / sentido no &di [/2] em ter um + não / trinta
reais / aí eu &j [/2] eu [/1] eu fico imaginando que e’ fica
pensando assim / Nossa // às vezes lá em casa tá precisando
de fazer uma compra e tudo / né // pra que que eu vou gastar
esses trinta reais // com &l [/2] com livro de inglês //
(22) *HRM: mas se cê fosse fazer um [/1] um jantar / assim / que o
prato / de carne na verdade fosse peixe / por exemplo //
(23) *MAI: aí e’ percebeu que [/1] que era essa cobra que e’ já &vi
[/2] já tinha visto &se [/1] falar nela lá / já tinha visto / talvez
ela também //
(24) *BAL: alguém vê que eu sou muito foda // <medo> / de perder
/ <o> posto <deles / es vão [/2] es vão> me xxx / <né> //
*BEL: <eles> + es <iam> + <com certeza> //
Em (21), uma locução adverbial que tradicionalmente indica frequência
(às vezes) funciona como modalizador epistêmico por causa do contexto. A
locução na verdade, em (22), assume um valor epistêmico nesse contexto
porque se insere numa construção condicional, por meio da qual o falante
instaura um mundo possível onde a referida ação aconteceria, o que revela um
caráter hipotético e, por isso, epistêmico. As ocorrências (23) e (24) são
epistêmicas porque o falante avalia um estado de coisas baseando-se estritamente
em suas noções sobre o mundo. Com certeza, em (24), expressa um forte grau
de concordância, situado, numa escala de adesão que compreende também os
valores intermediários entre o verdadeiro e o falso, acima daquele veiculado pelo
talvez de (23).
À semelhança de na verdade, na realidade e realmente, logicamente
é um advérbio que poderia, a princípio, ser associado à modalização alética, uma
vez que a definição dessa categoria leva em conta uma avaliação do estado de
coisas baseada na lógica. Contudo, os contextos em que esses advérbios (e
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 121
locuções) ocorrem acabam por determinar o seu sentido, como no caso seguinte,
em que logicamente foi encontrado com um valor epistêmico:
(25) *JOR: e lá eu fiquei um período / desenvolvendo o mesmo tipo de
trabalho / logicamente com um salário melhor / hhh e por
amizade eu fui cair / em uma multinacional / que eu dei uma
virada no produto //
Assim como seu derivado, o adjetivo lógico também é modal:
(26) *SHE: ah / é // &e [/1] esse aí também é um grande problema /
né // o tempo / porque eu / tenho dois cargos // né // não tenho
tempo // não tenho tempo de fazer aquele planejamento / igual
eu gostaria de fazer / e tal // eu faço é [/1] é uma [/1] um [/1]
um rascunho // do que que eu vou fazer naquele dia lá / lógico
que nu é em cima da hora / né // mas uns dois [/2] uns dois três
dia assim / eu [/1] eu penso / né //
Nesse caso, tem-se o adjetivo lógico empregado com valor epistêmico,
porque não há nada de lógico – ou de obrigatório, como a expressão é lógico
normalmente sugere – na questão tratada pela informante. A situação é avaliada
segundo o que a informante considera obrigatório, o que não torna a modalização
alética ou, ainda, deôntica.
A principal construção modal associada à modalização epistêmica é ter
certeza, que pode ser intensificada, como acontece a seguir, e transmite a noção
de necessidade epistêmica:
(27) *LUZ: eu tive certeza absoluta que eu nu era daqui quando eu
saí //
Algumas expressões fixas também podem ser modais. Em alguns
contextos, como o representado aqui, a expressão fixa vai saber transmite uma
noção de incerteza, e, por se associar ao eixo do conhecimento do falante, foi
classificada como epistêmica.
(28) *FAB: <é> // também // de repente um Photoshop //
*MAR: é // vai saber / né //
Estudos mostram que não só vocábulos funcionam como índices modais,
mas também algumas categorias flexionais dos verbos, sobretudo tempo e modo
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
122
(cf. BYBEE et al., 1994). Tendo isso em vista, consideramos os verbos
conjugados no futuro do pretérito, índices modais sempre epistêmicos, como nas
seguintes ocorrências:
(29) *MAR: aquele <que tem ali> //
*FAB: <esse> já seria melhor / aqui no caso // porque pra [/1]
pras peças grandes / a <gente já [/1] já pegou> //
(30) *CAR: e / e eu achei que ia me dar trabalho // mas não //
As duas ocorrências são epistêmicas porque o falante ou faz uma conjetura
(primeiro caso), ou relata um pensamento hipotético feito no passado (segundo
caso). As locuções verbais com o verbo auxiliar no futuro, em alguns contextos,
representam estratégia semelhante, como acontece em:
(31) *HMB: se ela gosta de carne / se ela gosta de peixe / se ela gosta
de frango / se ela gosta de verdura / e quem nu fala nada / pode ser
qualquer coisa / normalmente / nu dá certo // porque / aí / eu vou
sugerir de acordo com [/1] com [/1] com o que eu penso //
(32) *SHE: e eu acredito que depois que eu terminar o EDUCONLE
/ eu acho que aí eu vou tar mais madura ainda / acho que mais
preparada //
O contexto é fundamental para que haja modalização nesses casos. Em
ambos, o falante posiciona-se epistemicamente com relação a um ponto de
referência situacional, marcado pelo . Simplesmente uma locução verbal desse
tipo, sem essas características contextuais, não seria necessariamente epistêmica.
Nos dois exemplos acima, e em outros casos do mesmo tipo, o caráter epistêmico
da avaliação prevalece sobre qualquer traço semântico do verbo (i.e. obrigação).
A segunda ocorrência é um exemplo do que Bybee et al. (1994) classificam
como expressão de “possibilidade futura”. Para os autores, as ocorrências que
indicam alguma previsão se dividem em dois tipos, as que denotam “certeza
futura” e as que expressam “possibilidade futura”. No segundo caso, o enunciado
é marcado com mais algum índice de possibilidade, além do sintagma verbal com
sentido futuro, como, em (32), acontece com o verbo achar.
Por fim, apresentamos as outras estratégias de modalização, que não
pertencem a nenhuma categoria anteriormente definida. É o caso de digamos
e de certa forma.
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 123
(33) *MAR: <isso aqui / digamos / é uma> segunda camada
/ também / né //
*FAB: <hum hum> //
(34) *CAR: mas e o pólen / Getúlio // como é que cê tá dando o pólen //
*GET: porque pólen / de certa forma ela acha bem por aqui / né /
Carlão //
Os dois índices representam uma relativização que o falante faz do estado de
coisas que entendemos como epistêmica, porque só pode ser baseada nos
conhecimentos de mundo do falante.
3.3 Modalidade deôntica3.3 Modalidade deôntica
3.3 Modalidade deôntica3.3 Modalidade deôntica
3.3 Modalidade deôntica
No corpus foram identificadas expressões de modalidade deôntica
através do verbo poder e das construções ter que e é para + inf.
As ocorrências deônticas envolvendo o verbo poder, em muitos casos
encontrados, estão relacionadas a normas sociais ou a regras específicas a alguns
estabelecimentos ou situações. No seguinte trecho, o falante afirma, duas vezes,
que não é permitido inscrever-se para dois cargos num mesmo concurso:
(35) *LUZ: nu sei se <pode não> //
*LAU: <não / são> datas diferentes //
*LUZ: ah / são // <são editais diferentes // ah / tá> //
*LAU: <é // é> // não / o [/1] o + são [/1] são + cada departamento
tem o seu edital // sua [/1] <seu> [/1] seu modus operandi //
*LUZ: <ham ham> // &t [/1] tá // tá certo // porque eu acho que
no mesmo concurso cê nu pode fazer duas //
O verbo poder, antecedido pela partícula de negação, expressa proibição,
modalidade deôntica, portanto; contudo, o valor modal do enunciado, resultante
da composição de valores, é epistêmico, uma vez que o falante “acha que não
é permitido fazer X”. Nessa situação, em que dois valores diferentes convivem
na mesma unidade informacional, que, neste caso, é o enunciado todo, o princípio
da composicionalidade não só pode, como deve atuar. As evidências para o
julgamento que o falante faz compõem suas noções sobre o mundo, mais
especificamente, sobre o modo de funcionamento de concursos públicos. A partir
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
124
de suas crenças, o falante faz uma conjetura que envolve uma outra avaliação,
marcada pela noção de proibição.
Entretanto, a maioria dos casos em que o verbo poder está presente15 não
está associada a valores sociais. O trecho abaixo corrobora isso:
(36) *BEL: <eles> + es <iam> + <com certeza> // <é> // pode
consertar / ou não //
*BAL: não / &p [/1] deixa do jeito que <tá> / minha filha //
*BEL: <ahn> //
*BAL: se cê sentir que ele tá muito deitadinho //
*BEL: ham ham //
*BAL: porque / ele nu pode ficar muito deitado //
Nesse trecho, BEL pergunta se está autorizada a manipular o aparelho de
modo a consertá-lo. BAL diz que o aparelho não deve ficar completamente na
posição horizontal. Em ambos os casos, um pedido e uma asserção negativamente
marcada que exprime proibição, respectivamente, há presença da modalidade
deôntica.
Em (37), há a construção ter que, muito frequente, à qual é associado um
valor de necessidade deôntica. A construção é pra + inf. (38) transmite a noção
de obrigação, por isso é melhor classificada como deôntica.
(37) *HRM: dona Helô / então / me fala / <por exemplo / se eu> fosse
/ planejar / assim / um [/1] um jantar // me fala uma sugestão //
*HMB: <hhh a cara> // bom // eu nu sugiro jantar / sem a pessoa
me falar que que ela gosta de comer <hhh> // porque / cada um
/ tem um [/1] uma afinidade com um tipo de coisa / gosta / de
um tipo de comida / então eu nunca sugiro antes de ter uma
[/1] um feedback da pessoa // ela tem que falar / assim / de que
que ela gosta //
(38) *CAR: aí entrou todo mundo em parafuso / todo mundo ficou /
desesperado / quando [/1] quando ligaram / falaram que era pra
/ levar de volta //
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 125
3.4 Estratégias textuais de modalização3.4 Estratégias textuais de modalização
3.4 Estratégias textuais de modalização3.4 Estratégias textuais de modalização
3.4 Estratégias textuais de modalização
3.4.1 Construções condicionais3.4.1 Construções condicionais
3.4.1 Construções condicionais3.4.1 Construções condicionais
3.4.1 Construções condicionais
As construções condicionais apresentam uma organização que desafia a
premissa de que o lócus de aplicação da modalidade é a unidade informacional,
dessa forma instigando estudos futuros. Tal situação se dá por serem as
condicionais uma estratégia textual que ultrapassa o escopo de uma unidade
informacional, como verificado nos exemplos extraídos do corpus.
Pesquisas sobre essas estruturas atestam esse fato, como mostrado em
Ferrari (2008):
No domínio epistêmico, as condicionais expressam a ideia de que
o conhecimento do evento ou do estado de coisas expresso na
prótase seria uma condição suficiente para o estabelecimento da
conclusão expressa na apódose (FERRARI, 2008).
Assim, tais construções, mais que expressar uma crença ou uma hipótese
do interlocutor em relação ao futuro, instauram-na em relação a um evento de
modo que o domínio epistêmico possa ser avaliado/ julgado no momento de
produção de fala. Um exemplo que corrobora essa análise segue abaixo:
(39) *HMR: dona Helô / então / me fala / <por exemplo / se eu> fosse
/ planejar / assim / um [/1] um jantar // me fala uma sugestão //
(bpubmn01)
O advérbio “assim”, no exemplo acima, é um conector das ideias
expressas na prótase e na apódose, mas, além disso, como observa Castilho
(1992), reitera o material e é um modalizador. Para Castilho (1992), tal item é um
modalizador epistêmico quase asseverativo e, embora não usemos essa
nomenclatura, realmente percebe-se que essa palavra, no domínio epistêmico,
instaura uma crença ou opinião do ouvinte quase como uma verdade. No
contexto acima e em outros examinados, é uma relativização que reforça o
julgamento do falante sobre um estado de coisas.
A maioria das condicionais encontradas no trabalho se distribui em duas
unidades informacionais e a primeira unidade tem escopo sobre a outra. Isso
articula a expressão de probabilidade, característica da modalidade epistêmica,
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
126
com a de certeza absoluta e com a hipótese já expressa pela modalidade
epistêmica na primeira unidade informacional:
(40) *CAR: o que tivesse de ser minha / vinha na minha mão //
(bfammn01)16
3.4.2 Mais de um valor modal no enunciado3.4.2 Mais de um valor modal no enunciado
3.4.2 Mais de um valor modal no enunciado3.4.2 Mais de um valor modal no enunciado
3.4.2 Mais de um valor modal no enunciado
Além das estruturas condicionais que apresentam mais de um valor modal
no enunciado (no caso de prótase e apódose aparecerem em unidades
informacionais diferentes), vários enunciados do corpus trabalhado
apresentaram mais de um valor modal. Isso, provavelmente, é motivado, assim
como nas condicionais, pela necessidade de articulação das três grandes noções
que norteiam o estudo da modalidade: verdade, probabilidade e necessidade.
Assim, o falante pode, ao usar itens léxicos que expressam mais de uma noção
modal dentro de uma unidade informacional, articulá-las para fins de persuasão
ou ênfase de alguma das noções supracitadas. Dos enunciados do corpus, foram
encontrados 15 exemplos com mais de um valor modal no enunciado. As
especificações estão na Tabela 2, abaixo.
TABELA 2
Enunciados plurimodais
Mais de um valor modal Frequência Exemplos
no mesmo enunciado
Articulação de 2 índices epistêmicos 4 *SHE: não / trinta reais / aí eu &j
na mesma unidade informacional [/2] eu [/1] eu fico imaginando que
e’ fica pensando assim / Nossa //
(bpubmn03)
Articulação de 1 índice deôntico e 1 1 *MAI: aí / deu a noite / e a mulher nu)
índice alético na mesma unidade podia sair pa poder / ir atrás de
informacional alguém // (bfammn03)
Articulação de 2 índices epistêmicos 3 *MAI: ele nu) é muito parente
em unidades informacionais chegado não / mas &t [/1] deve ser
diferentes / deve ser // (bfammn03)
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 127
Articulação de 3 índices epistêmicos 3 *SHE: e eu acredito que depois que
em unidades informacionais eu terminar o EDUCONLE / eu acho
diferentes que aí eu vou tar mais madura ainda
/ acho que mais preparada //
(bpubmn03)
Articulação de 1 índice epistêmico 1 *HMB: que eu acho <que azeite> é
e 1 deôntico em unidades um [/2] é um ingrediente / que cê não
informacionais diferentes pode usar qualquer um //
(bpubmn01)
Articulação de 2 índices deônticos 1 *HMB: &he / &he / cê tem que
em unidades informacionais pegar os frutos do mar e &s [/1] tem
diferentes que ter um certo conhecimento //
(bpubmn01)
Articulação de 3 índices deônticos 1 *HMB: tem que ir colocando /
em unidades informacionais ter <aquele> sentimento de // e ver
diferentes se tá bom / se tá / no ponto / se nu
tá / <entendeu> // (bpubmn01)
Articulação de 2 índices deônticos 1 *CAR: porque / primeiro eu tive que
e 1 alético em unidades / contecer uma tragédia comigo /
informacionais diferentes que tive que perder minha filha / que
é um retratinho que tá ali na estante
/comigo / ela abraçada em mim / pra
/ eu / &he / chegar a essa conclusão
pa mim pegar uma filhinha pa mim
criar // (bfammn01)
4. Conclusão4. Conclusão
4. Conclusão4. Conclusão
4. Conclusão
Neste artigo nos propusemos uma análise preliminar de um subcorpus de
fala espontânea do português brasileiro, tendo em vista a identificação e
quantificação de índices modalizadores em unidades tonais. Os nossos objetivos
eram, sobretudo, verificar as estratégias morfolexicais empregadas na fala
espontânea para a veiculação de valoração modal. Partindo de uma análise
qualitativa, pautada por um exame manual do subcorpus e, posteriormente, por
uma análise balizada quantitativamente, pudemos identificar as seguintes classes
e itens morfolexicais modalizadores:
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
128
Verbos (no presente, no pretérito imperfeito e no perfeito do indicativo,
no infinitivo): dever, poder, achar, acreditar, acontecer, ver, conseguir, precisar,
pensar, dar, parecer
Advérbios ou locuções adverbiais: talvez, certamente, realmente, às vezes,
também, logicamente, sinceramente, com certeza, completamente, sem dúvida,
possivelmente
Adjetivos em posição predicativa: (é) lógico, é provável, é importante
Construções modais: tem condição (de), tem chance de, o que acontece, ter
que, ficar imaginando, ficar pensando, (é) para + inf., dá para + inf., ter certeza,
vai saber, tem jeito
Futuro do pretérito: ia ser, ia dar, seria
Futuro: vou + inf.
Condicionais: [se X então Y]
Outros: (é) verdade, digamos, na verdade, de certa forma, na realidade
A partir de uma análise quantitativa, estabelecemos as seguintes
porcentagens de ocorrência para cada uma das classes modalizadoras
encontradas:
GRÁFICO 1: Porcentagens de ocorrências de classes modalizadoras
Como pode ser observado no Gráfico 1, são os verbos os responsáveis
pelo maior índice de codificação modalizadora na fala espontânea, seguidos em
Verbos 48,92%
Advérbios 6,42%
Adjetivos 1 ,42%
Construções modais 22,1 4%
Futuro do pretérito 3,21 %
Futuro 1 ,07%
Condicionais 1 3,21 %
Outros 3,57%
Verbos 48,92%
Advérbos 6,42%
Adjetivos 1,42%
Condicionais 13,21%
Outros 3,57%
Construções modais 22,14%
Futuro do pretérito 3,21%
Futuro 1,07%
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 129
ordem decrescente por construções modais, construções condicionais, advérbios,
outros, futuro do pretérito, adjetivos e futuro simples.
Desdobrando-se a análise dos índices modalizadores de acordo com sua
ocorrência em enunciados, nota-se que esses podem ter valência múltipla, ou seja,
um mesmo enunciado pode apresentar mais de um índice modal e, nesse caso,
esses índices podem ter valores distintos quanto à sua classificação. Sendo o
domínio de aplicação da modalidade a unidade tonal, se índices modais estão
presentes em unidades distintas de um mesmo enunciado isso não acarreta
composicionalidade. Contudo, se ocorrerem no domínio de uma mesma unidade
tonal, então a modalidade resultante será constituída a partir de princípios
composicionais. Nos dados examinados encontramos as configurações modais
em um mesmo enunciado, como explicitadas a seguir: 17
e-e em unidades diferentes (3), e-e na mesma unidade (4), e-e-e em
unidades diferentes (3), e-d na mesma unidade (1), e-d em unidades
diferentes (1), d-d em unidades diferentes (1), d-d-d em unidades diferentes
(1), d-a na mesma unidade (1), d-d-a em unidades diferentes (1).
Seguindo Tucci (2008), ressaltamos que a articulação da fala, dadas as
suas características particulares e distintas da escrita, implica consequências para
a expressão da modalidade. É de se notar, sobretudo, que, se na escrita, o domínio
de aplicação da modalidade é a proposição, expressa sintaticamente como uma
oração, na fala o domínio de aplicação da modalidade é a unidade informacional.
Assim, a modalidade enquanto categoria semântica, coerentemente impacta o
conteúdo proposicional na escrita e o conteúdo locutivo na fala. Então, se de um
lado a sintaxe tem papel crucial para a articulação do texto escrito, a pragmática
organiza a fala em enunciados. O nível semântico, ao qual a modalidade está
vinculada, está presente tanto na escrita quanto na fala, variando-se apenas o seu
lócus de aplicação. Isso não significa dizer que eliminamos a sintaxe como foco
analítico na fala – porém, assim como para a modalidade, o domínio de análise da
sintaxe restringe-se necessariamente ao interior de uma unidade informacional.
O mapeamento dos índices morfolexicais da modalidade na fala espontânea
do PB foram o objetivo principal desse estudo. Deste ponto de partida,
contemplam-se inúmeras outras tarefas a serem cumpridas para uma melhor
compreensão do papel funcional da modalidade na fala, dentre elas, destacam-
se: o estudo da modalidade em correlação com as unidades informacionais em
que ocorrem, o estudo das unidades informacionais que contêm múltiplas
MELLO; CARVALHO; CÔRTES
130
valências modais; a exploração refinada de índices modais, as correlações entre
tipologias ilocucionárias e padrões de organização de índices modais, o estudo
da correlação entre padrões prosódicos e expressão da modalidade, dentre muitos
outros estudos a serem vislumbrados.
NotasNotas
NotasNotas
Notas
* Este trabalho foi desenvolvido com o apoio do CNPq (Processos 311075/2009-6),
FAPEMIG (Processo PPM-00324-08) e Banco Santander. As autoras agradecem
as discussões com os colegas do grupo C-ORAL-BRASIL sobre modalidade e
sugestões de um parecerista anônimo.
1 O C-ORAL-BRASIL será descrito na seção 1.3.
2 Tradução nossa para: “A variety of place upon that most thorny and repulsive of
districts in the logical territory”.
3 Vale ressaltar que o autor não afirma que qualquer fenômeno de passivização ou
de causativização, por exemplo, poderia ser considerado como expressão de
modalidade. Na verdade, ele se detém em mostrar como definições vagas podem
nos orientar a rotular muitos fenômenos como expressão de modalidade.
4 Essa noção de perlocução, diferente da austiniana, é proposta por Cresti no volume
I do Corpus di italiano parlato (2000).
5 A teoria também prevê a segmentação dos enunciados em unidades tonais menores.
O final de um enunciado, percebido como de valor terminal, relativo ao cumprimento
de uma ilocução, é sinalizado por duas barras (//), e o final de uma unidade tonal é
percebido como de valor não terminal e sinalizado por uma barra (/). O símbolo +
representa o enunciado interrompido, e o sinal [/n] é referente ao fenômeno de
retracting, problema de execução, como cancelamento de palavras que serão
imediatamente substituídas por outras que o falante julga mais apropriadas, dentro
de um mesmo programa, ou repetição de parte do conteúdo locutivo. O “n” é
substituído pelo número de palavras canceladas.
6 Tradução nossa.
7 TUCCI, 2007.
8 TUCCI, 2007.
9 TUCCI, 2007.
10 Em oposição aos enunciados interrompidos, que resolvemos descartar por
motivos óbvios.
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 18, n. 2, p. 105-133, jul./dez. 2010 131
11 Para definir quais são os índices modais, baseamo-nos em Neves (2006).
12 O estudo do corpus completo possibilitará o levantamento de outras categorias
morfológicas associadas à modalização.
13 Por exemplo, em:
“– Esta moça está lá dentro?
Deve estar. Quer que mande chamá-la?” (NEVES, 2006.)
14 Para um aprofundamento nesse tema, veja-se MELLO et al., 2009; SALOMÃO,
2008; SCHER, 2006, entre outros.
15 Isso se aplica também a outras formas de expressão de modalidade deôntica
equivalentes.
16 Cabe ressaltar que as estruturas são condicionais no que se refere à significação,
pois as estruturas sintáticas nem sempre correspondem a “se X, então Y”.
17 Note-se que e representa modalidade epistêmica, d deôntica e a alética.
ReferênciasReferências
ReferênciasReferências
Referências
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A modalidade é uma categoria semântica aplicada a uma produção linguística que qualifica e relativiza um material locutivo em termos de grau de certeza, possibilidade, necessidade, capacidade e volição (AVILA, 2014,2015). Fundamentando-se na noção de fala espontânea (CRESTI; SCARANO, 1998) e utilizando a Linguística de Corpus como ferramenta de pesquisa, o objetivo do trabalho foi empreender uma análise qualitativa e quantitativa do uso dos verbos de caráter epistêmico em uma amostra de um corpus de fala espontânea do português europeu, o C-ORAL-ROM (BACELAR DO NASCIMENTO; BITTENCOURT GONÇALVES; VELOSO; ANTUNES; BARRETO; AMARO, 2005). Foi utilizada uma amostra de sua parte informal, contendo 20 textos de três tipologias interacionais (7 monólogos, 7 diálogos e 6 conversações, privados e públicos). Foi realizada uma busca manual pelos índices modais e sua classificação a partir das definições sobre valores e subvalores modais trabalhados na literatura. Os dados foram dispostos numa planilha para facilitar sua organização e contabilização. Foram encontrados 936 índices lexicais, dos quais 237 ocorrências se referem aos verbos epistêmicos.
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In this paper we present an initial description and analysis of discursive markers (MDs) of Portuguese spoken in Libolo (PLB), a subvariety of Portuguese spoken in Angola. The data for the analysis are part of the Libolo Project collection and the data selected from the so-called Corpus 1, specifically, integrate an oral corpora research project for the study of spontaneous speech that is called C-Oral-Angola (under construction). The study of MDs in PLB is guided by the theory L-AcT that proposes that the flow of speech can only be properly analyzed if it is segmented into utterances (speech acts) and tonal units (that correspond to units of information) that are guided by prosodic parameters. In this way, it is possible to identify MDs that correspond to units of dialogic information and that carry different functions because they are subject to different prosodic conditions - see, among others, Moneglia e Raso (2014, p 469), Raso (2014, p. 411). Thus, in this work, from the prosodic-pragmatic criteria, the MDs tás a ver, eh pa, ya and Júlia are described and analyzed, attesting to the following functions: ‘Conative’ (CNT), ‘Expressive’ (EXP), ‘Phatic’ (PHA) and ‘Allocutive’ (ALL). ‘Allocutive’ MD belong to the category called ‘vocatives’ which are not analyzed as MDs in studies outside of L-ACT. In the work, the occurrence of MD ya in the speech of the Portuguese of Angola, and specifically in the speech of Libolo, is credited to the linguistic contact between Angolan Portuguese speakers and German speakers.
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Neste trabalho apresenta-se uma descrição e análise iniciais de ‘Marcadores Discursivos’ (MDs) do português falado no Libolo (PLB), uma subvariedade do português falado em Angola. Os dados selecionados para a análise são parte do acervo do Projeto Libolo e os dados selecionados do chamado Corpus 1, especificamente, integram um projeto de pesquisa de corpora orais para o estudo da fala espontânea chamado de C-Oral-Angola (em construção). O estudo de MDs no PLB é orientado pela teoria L-AcT que propõe que o fluxo da fala só pode ser propriamente analisado se for segmentado em enunciados (atos de fala) e unidades tonais (que correspondem a unidades de informação) que são guiados por parâmetros prosódicos. Dessa forma, é possível a identificação de MDs que correspondem a unidades de informação dialógica e que carregam funções diferentes por estarem submetidos a condições prosódicas distintas – ver, entre outros, Moneglia e Raso (2014, p. 469), Raso (2014, p. 411). Assim, neste trabalho, a partir de critérios prosódico-pragmáticos, são descritos e analisados os MDs tás a ver, eh pa, ya e Júlia que atestam as seguintes funções: ‘Conativa’ (CNT), ‘Expressiva’ (EXP), ‘Fática’ (PHA) e ‘Alocutiva’ (ALL). MDs ‘alocutivos’ pertencem à categoria chamada de ‘vocativos’, que não são analisados como MDs em estudos fora da L-AcT. No trabalho, a ocorrência do MD ya na fala do português de Angola, e especificamente na fala do Libolo, é creditada ao contato linguístico entre falantes de português angolano e falantes de alemão.
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Conforme a Teoria da Língua em Ato (CRESTI, 2000a), que fundamenta este artigo, a sintaxe no estudo da fala espontânea necessita ser estudada considerando a dimensão da articulação informacional, e, portanto, de forma diferente de como é tradicionalmente feita a análise sintática da escrita. Com o objetivo geral de aprofundar o estudo da sintaxe da fala e com base em corpora especificamente construídos para uma adequada análise desta diamesia, é aqui apresentado o primeiro mapeamento das orações completivas no corpus de fala de português brasileiro C-ORAL-BRASIL (RASO; MELLO, 2012), a fim de comparar esta primeira análise quantitativa com os dados disponíveis extraídos do corpus C-ORAL-ROM (CRESTI; MONEGLIA, 2005) para fala de italiano. A análise qualitativa das orações completivas nas duas línguas, conduzida sobre dois subcorpora do C-ORAL-BRASIL e do C-ORAL-ROM anotados informacionalmente, é apresentada em seguida. According to Language into Act Theory (CRESTI, 2000a), on which this paper is founded, the syntax of spontaneous speech can’t be analyzed without taking into account the informational patterning dimension. Its analysis, therefore, must be different from the traditional one applied to written language. With the general aim of examining in depth spontaneous speech syntax and on the basis of adequate spontaneous speech corpora, this paper shows the first mapping of completive clauses in spoken Brazilian Portuguese corpus C-ORAL-BRASIL (RASO; MELLO, 2012), in order to make a quantitative analysis comparable with available data from spoken Italian C-ORAL-ROM corpus (CRESTI; MONEGLIA, 2005). The qualitative analysis of completive clauses in both spoken languages is then presented, conducted on two sub-corpora of C-ORAL-BRASIL and Italian C-ORAL-ROM presenting informational patterning annotation.
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Este trabalho enfoca construções condicionais encaixadas no discurso reportado, com o objetivo de investigar as relações entre estrutura sintática e informações semântico-pragmáticas associadas a essas construções. A investigação de condicionais atestadas em textos escritos demonstra que a visão tradicionalmente aceita de uniformidade de postura epistêmica em condicionais preditivas (FILLMORE, 1990; DANCYGIER; SWEETSER, 2005) deve ser reavaliada, tendo em vista que casos de não-uniformidade também são observados nesses contextos. Argumenta-se que o primitivo discursivo de Ponto de Vista, em seus desdobramentos na configuração de espaços mentais, permite uma explicação unificada para as diferentes combinações modo-temporais que as condicionais encaixadas em Espaços de Fala podem apresentar (CUTRER, 1994; FAUCONNIER, 1997).
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O presente artigo pretende fazer uma revisão teórica dos principais conceitos relacionados à modalidade, das grandes visões teóricas relacionadas a esse assunto e das principais obras que trataram. Com isso, objetiva-se prover subsídios àqueles que se interessam pela manifestação lingüística da modalidade.
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I defend the notion of essence and argue that rather than understanding essence in terms of modality we should understand modality in terms of essence.
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Transitivity involves a number of components, only one of which is the presence of an object of the verb. These components are all concerned with the effectiveness with which an action takes place, e.g., the punctuality and telicity of the verb, the conscious activity of the agent, and the referentiality and degree of affectedness of the object. These components co-vary with one another in language after language, which suggests that Transitivity is a central property of language use. The grammatical and semantic prominence of Transitivity is shown to derive from its characteristic discourse function: high Transitivity is correlated with foregrounding, and low Transitivity with backgrounding.
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Starting from Bybee, Perkins, & Pagliuca (1994) and complementing their insights with observations that often originate in the non-English literature on modality, this paper attempts to supply the grammaticalized expressions of modality with a semantic map. The term "modality" is taken to refer to just those (four) domains in which possibility contrasts with necessity, and "semantic map" refers to a representation of cross-linguistically relevant synchronic and diachronic connections between modal, premodal, and post-modal meanings or uses. Special attention is given to meanings that are vague between possibility and necessity, to developments from possibility to necessity and vice versa, to postmodal meanings that can originate in either possibility or necessity, and to demodalization of non-epistemic modality.
The evolution of grammar
  • J Bybee
  • R Perkins
  • W Pagliuca
BYBEE, J.; PERKINS, R.; PAGLIUCA, W. The evolution of grammar. Chicago: The University of Chicago Press, 1994.