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Resumo O luto é caracterizado como uma perda de um elo significativo entre uma pessoa e seu objeto, portanto, um fenômeno mental natural e cons-tante no processo de desenvolvimento humano. Este artigo descreve o conceito do luto a partir da perspectiva psicanalítica de Sigmund Freud e Melanie Klein, com o objetivo de observar possíveis similaridades e divergências ante as concepções apresentadas pelos autores. Abstract Grief is characterized as loss of a link between a person and his object, so a mental phenomenon in natural and constant process of human development. This article discusses the concept of grief from the perspective of psychoanalysis Sigmund Freud and Melanie Klein, in order to observe possible similarities and differences compared to the concepts presented by the authors.
Psicólogo
inFormação, ano 17, n. 17, jan./dez. 2013
O conceito psicanalítico do luto: uma
perspectiva a partir de Freud e Klein
Psychoanalytic concept of grief from
Freud and Klein
AndressA KAtherine sAntos CAvAlCAnti*
MilenA lieto sAMCzuK*
tâniA elenA BonfiM**
Resumo
O luto é caracterizado como uma perda de um elo signicativo entre
uma pessoa e seu objeto, portanto, um fenômeno mental natural e cons-
tante no processo de desenvolvimento humano. Este artigo descreve o
conceito do luto a partir da perspectiva psicanalítica de Sigmund Freud
e Melanie Klein, com o objetivo de observar possíveis similaridades e
divergências ante as concepções apresentadas pelos autores.
Palavras-chave: Luto; Melancolia; Psicanálise Freudiana; Psicanálise
Kleiniana;
Abstract
Grief is characterized as loss of a link between a person and his
object, so a mental phenomenon in natural and constant process of
human development. This article discusses the concept of grief from
the perspective of psychoanalysis Sigmund Freud and Melanie Klein,
in order to observe possible similarities and dierences compared to
the concepts presented by the authors.
Keywords: Grief; Loss; Melancholia; Psychoanalysis Sigmund Freud,
Melanie Klein
* Discentes 5º ano de Formação em Psicologia, Universidade Metodista São Paulo.
** Doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto Psicologia USP e Docente super-
visora do Curso de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo.
Psicólogo inFormação
ano 17, n, 17 jan./dez. 2013
Copyright © 2013 Instituto Metodista de
Ensino Superior CNPJ 44.351.146/0001-57
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Introdução
O processo de luto está inevitavelmente presente na dinâmica
entre os dois polos da existência humana: a vida e a morte. Para
compreender tal princípio buscou-se, neste estudo, explorar as
concepções de luto e seu processo, a partir da ótica psicanalítica,
utilizando as contribuições conceituais de Sigmund Freud e de
Melanie Klein.
O luto é caracterizado como uma perda de um elo signicativo
entre uma pessoa e seu objeto, portanto um fenômeno mental natural
e constante durante o desenvolvimento humano. Nesse contexto, por
se tratar de um evento constante, acaba implicando diretamente no
trabalho de prossionais da saúde, tornando-se um conhecimento
necessário para o amparo adequado àqueles que sofrem a perda.
A ideia de luto não se limita apenas à morte, mas o enfrenta-
mento das sucessivas perdas reais e simbólicas durante o desen-
volvimento humano. Deste modo, pode ser vivenciado por meio
de perdas que perpassam pela dimensão física e psíquica, como
os elos signicativos com aspectos pessoais, prossionais, sociais e
familiares do indivíduo. O simples ato de crescer, como no caso de
uma criança que se torna adolescente, vem com uma dolorosa abdi-
cação do corpo infantil e suas signicações, igualmente, o declínio
das funções orgânicas advindo com o envelhecimento. A capacidade
de o indivíduo, desde a infância, se adaptar às novas realidades
produzidas diante das perdas servirá como modelo, compondo um
repertório, reativado em experiências ulteriores.
Para compreender o conceito de luto dentro da perspectiva
psicanalítica foi necessário partir pela obra do precursor da investi-
gação da psique, Sigmund Freud. O autor sistematizou teoricamente
fenômenos até então incompreendidos sobre o funcionamento men-
tal. Diante disso, escolhemos colocar Melanie Klein em discussão,
que não nega a concepção do desenvolvimento como base da teoria
da sexualidade, mas que a partir dela, construiu a sua teoria com
novas contribuições.
Partindo pelo pressuposto de a Psicanálise ter uma linha de
pensamento desenvolvimentista, seria totalmente impreciso tomar
o caminho pelo entendimento do luto na obra dos autores, sem an-
tes compreender os seus conceitos clássicos, que apresentam, por
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intermédio do desenvolvimento infantil, efetivas contribuições para
o conceito do Luto.
Considerações acerca do Luto em Freud
Ao explicar o conceito em Luto e Melancolia, Freud (1915) o
entende como uma reação à perda, não necessariamente de um
ente querido, mas também, algo que tome as mesmas proporções,
portanto um fenômeno mental natural e constante durante o desen-
volvimento humano. Para o autor, no luto, nada existe de incons-
ciente a respeito da perda, ou seja, o enlutado sabe exatamente o
que perdeu. Além disso, o luto é um processo natural instalado para
a elaboração da perda, que pode ser superado após algum tempo e,
por mais que tenha um caráter patológico, não é considerada doença,
sendo assim, interferências tornam-se prejudiciais.
O luto é um processo lento e doloroso, que tem como caracte-
rísticas uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer ati-
vidade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido,
a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de subs-
tituição com a adoção de um novo objeto de amor (FREUD, 1915).
Durante o desenvolvimento, o indivíduo passa por constantes
experiências de perdas que se constituem em modelos de estados
psíquicos que são incorporados na mente e poderão ser vividos
em situações semelhantes ulteriores. Freud (1926) constata que
as primeiras experiências traumáticas constituem o protótipo dos
estados afetivos, que são incorporados na mente, e quando ocorre
uma situação semelhante são revividos como símbolos mnêmicos.
Para Freud (1923), em O Ego e o ID, o ato de nascer é o primeiro
grande estado de ansiedade, que ocorre por ocasião de uma separa-
ção da mãe, diante de um perigo de desamparo psíquico, torna-se
assim a fonte e o protótipo do estado de ansiedade. Inicialmente, a
imagem mnêmica que a criança tem da pessoa pela qual ela sente
anseio é intensamente catexizada, em seu estado ainda pouco desen-
volvido, essa imagem mnêmica é provavelmente de forma alucina-
tória, e a criança não sabendo como lidar com sua catexia de anseio,
origina uma ansiedade como uma expressão de desorientação.
Freud (1926) lembra, em Inibições, Sintomas e Ansiedades, do fato
de que também a ansiedade de castração, que pertence à fase fálica
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do desenvolvimento psicossexual, constitui o medo de sermos sepa-
rados de um objeto altamente valioso, a perda do objeto, no caso o
pênis. Nesta fase, o alto grau de valor narcísico que o pênis possui
pode valer-se do fato de que o órgão é uma garantia de que pode
novamente se unir à mãe (ato da copulação). O superego elimina
essa possibilidade, fazendo que a separação com a mãe seja reno-
vada, e isto por sua vez signica uma tensão desagradável, como
foi o caso do nascimento que ocorre por ocasião de uma separação
da mãe. Para o autor, as situações de perigo mais antigas vão ser
abandonadas à medida que o ego se desenvolve. Assim, quando o
ego do indivíduo é imaturo, este se diante do perigo de vida; até
a primeira infância, o perigo da perda de objeto; até a fase fálica, o
perigo da castração; e o medo do superego, até o período de latência.
Continuando ainda com Sigmund Freud (FREUD, 1915) em
Luto e Melancolia, o autor revela que o luto é um processo doloroso,
porém, a justicativa para isso seria encontrada quando tivessem
condições de apresentar uma caracterização da dor. Em 1926, o au-
tor apresenta que a Dor, na dimensão mental, também é a reação
real à perda do objeto. Segundo Freud (1926), quando uma dor
física, ocorre um alto grau do que pode ser denominado de catexia
narcísica da parte do corpo que se sente a dor. Na dimensão mental,
diante de uma situação dolorosa, essa catexia está concentrada no
objeto do qual se sente falta ou que está perdido, por não poder ser
apaziguada, essa catexia tende a aumentar com rmeza. A dor na
dimensão mental produz a mesma condição econômica que é criada
diante de uma dor física. A transição da dor física para a mental
corresponde a uma mudança da catexia narcísica (investida na parte
danicada do corpo) para a catexia do objeto (objeto perdido do
qual se sente falta).
No processo de luto, a inibição de qualquer atividade que não
esteja ligada ao objeto perdido e à perda de interesse no mundo ex-
terno ocorre por causa da catexia do objeto que continua a aumentar
e tende, por assim dizer, a esvaziar o ego. Para Freud (1915), essa
inibição é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que
nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. Freud (1926),
em Inibições, Sintomas e Ansiedades, fala sobre a Inibição, que também
não apresenta necessariamente uma implicação patológica, sendo
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uma restrição da função do ego imposta como medida de precaução
ou acarretada como resultado de um empobrecimento de energia. O
ego, no estado do luto, se envolvido e absorvido em uma tarefa
psíquica particularmente difícil, perdendo uma grande quantidade
de energia à sua disposição, tendo que reduzir o consumo dessa
energia em muitos pontos ao mesmo tempo.
Considerações Acerca do Luto em Klein
Sem discordar das definições de luto explanadas por Freud
(1915), Melanie Klein também o concebe como uma perda objetal
e, em cujo processo haverá uma reativação de experiências tidas no
princípio do desenvolvimento psíquico humano. M. Klein entende
que nesse processo haverá uma reativação (KLEIN, 1940) do que
chamou de “posição depressiva” arcaica. Assim, o que é acrescido
em Klein, é que o luto não se refere apenas a uma perda objetal real,
mas também simbólica.
Klein (1940) postula que atividades psicóticas (primitivas, pois
são vividas no desenvolvimento natural) são reativadas no luto nor-
mal e durante esse período o indivíduo encontra-se adoecido, porém,
como o seu estado mental é comum e natural dado às circunstâncias,
o luto não é considerado uma doença, vencido após certo tempo.
Para a autora, o luto reativa a posição depressiva arcaica.
A teoria kleiniana, chamada de “teoria das relações objetais”,
está assentada numa visão muito mais dinâmica do que estrutural.
Essa dinâmica humana – de introjeção e projeção consiste, pois, num
mundo interno (psíquico) que é construído a partir de relações que
se estabelecem entre objetos (coisas ou pessoas) e que inuencia e
é inuenciado também pelo mundo externo. O conceito de posição
(posição esquizoparanoide e posição depressiva) norteia todo o
desenvolvimento humano de sua teoria, assim como o desenvolvi-
mento psicossexual, acompanhando o indivíduo por toda a vida.
Nesse sentido, para explicar o luto e o processo de “enlutamen-
to” em Klein, é necessário retomarmos a sua teoria desenvolvimental
e sua dinâmica.
Nos primeiros meses de vida, o bebê tem a percepção da re-
alidade distorcida, enxergando e mantendo relações apenas com
objetos parciais, sendo o primeiro deles o seio materno. Mergulhado
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em fantasias inconscientes, que são alimentadas por experiências de
graticação e frustração, o ego prematuro introjeta um seio bom e
graticador que o alimenta, e um mau e frustrador que se ausen-
ta e o deixa com fome, separados pelo mecanismo de cisão, uma
das suas primeiras defesas. Em sua fantasia, o bebê tem desejos
de incorporar o seio bom (objeto de amor), e desejos de destruir
o seio mau, mastigando-o, rasgando-o com seus impulsos sádico-
-orais que, nesse momento, estão em seu auge e causam bastante
ansiedade pois, o bebê acredita que da mesma forma esses objetos
maus querem destruí-lo, tornando-se, assim, objetos persecutórios
(KLEIN, 1935).
No segundo semestre do primeiro ano de vida, o ego do bebê
está mais organizado e com os objetos bons internos melhor esta-
belecidos. A projeção de objetos maus traz ansiedades persecutórias
vindas de fora que ameaçam não somente o ego, mas também seus
objetos bons internalizados, originando um medo da perda. Nessa
posição, o bebê percebe que o objeto que o gratifica é o mesmo
que causa frustração, e os dois fazem parte integral de um mesmo
objeto, a mãe, consistindo assim numa percepção de objeto inteiro.
Dessa forma, origina-se um conito de ambivalência causador de
muita ansiedade, pois os ataques antes feitos a um “seio mau” traz
também o medo de que isso possa destruir o objeto amado por
inteiro. Essas ansiedades, provindas do medo de perder, reforçam
a introjeção do objeto bom como mecanismo de defesa, além de
trazer outro mecanismo associado: a reparação; isso, pois, o bebê
sente muita culpa e anseia reparar todo o mau que causou à mãe.
Além disso, cabe salientar que a relação com os primeiros objetos
inteiros, que são incorporados, forma a base e participa da estrutura
do superego (KLEIN, 1935).
O que colabora para a passagem da incorporação de objetos
parciais para objetos inteiros é o desmame. Ele é também o primeiro
luto vivenciado e se na posição depressiva do desenvolvimento,
pois por intermédio dele é sentido pelo bebê a perda da sua maior
fonte de alimento e prazer: o seio e todas as representações que
ele carrega. Segundo Klein (1940), o bebê passa a ter sentimentos
depressivos pouco antes, durante e após o desmame com fantasias
incontroláveis e impulsos destrutivos contra o seio da mãe. Em
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paralelo, o bebê também tem sentimentos que permeiam a perda
de ambos os pais, pois nesse mesmo momento está acontecendo o
complexo de Édipo que traz medo e impulsos orais e está fortemente
ligado a frustrações associadas ao seio. A perda passa a ser temi-
da na fantasia a partir de ataques que são feitos contra os objetos
amados e contra irmãos e irmãs que estão dentro do corpo da mãe,
o que resulta também em sentimentos de culpa.
Os mecanismos de introjeção e projeção são importantes formas
de defesa e ataque para o bebê, na estruturação e construção do
mundo interno. Como a ansiedade surge da operação da pulsão de
morte, sentida como o medo de aniquilamento e morte, transforma-
da em medo de perseguição quando ligada a um objeto, a projeção
consiste na deflexão da pulsão de morte para o mundo externo,
livrando o ego dos perigos. E a introjeção consiste na incorporação
de um objeto bom, que promovendo uma maior segurança, também
diminui as ansiedades (KLEIN, 1946).
Por meio do mecanismo de introjeção, que desde o começo
acompanha o bebê, é que é construído na mente inconsciente da
criança um mundo interno, correspondente às experiências reais
e impressões que recebeu das pessoas e do mundo externo, que,
ao mesmo tempo, são alternadas pelas suas fantasias e impulsos.
O mundo interno é povoado por objetos parciais e inteiros bons e
maus, que é preenchido através da relação da criança, primeiro com
a mãe, depois com o pai e outras pessoas, acompanhadas por pro-
cessos de internalização. Ao incorporar os pais o bebê sente como
se os mesmos fossem pessoas vivas dentro do seu corpo, da mesma
maneira que profundas fantasias inconscientes são vividas. Na sua
mente, então, esses objetos internos fazem parte do seu mundo in-
terior (KLEIN, 1940). Em 1935, a autora explica que a mãe externa
e a internalizada foram o que ela chamaria de “duplo”, pois elas
estão interligadas e, por isso, tanto as ansiedades que o bebê tem
em relação a elas, quanto os métodos utilizados pelo ego para lidar
com essas ansiedades, estão interligados e em constante interação.
Dessa forma, a criança se volta para o mundo externo sempre para
constatar e testar a mãe interna. Esse teste de realidade está sempre
presente pelas alterações e movimentos que o mundo interno cria
através das experiências reais do bebê.
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Os ataques ao seio podem evoluir para ataques voltados a todo
o corpo da mãe, como uma extensão do seio, ainda sem que o bebê
conceba que a mãe seja um objeto inteiro. Desses ataques típicos
dessa posição, temos o de cunho introjetivo que deriva de impulsos
orais e dizem respeito ao sugar, escavar, secar, morder, tomar para si
todo o conteúdo do seio. O bebê responde a estímulos desagradáveis
com a fragmentação. Em sua fantasia, é introjetado o seio mau em
fragmentos e, por uma tendência do ego à integração, o seio bom
inteiro que servirá de ponto focal para o ego. Porém, com os ins-
tintos sádico-orais e canibalescos em seu auge e intensicados em
momentos de ansiedade, o bebê pode ter a sensação de ter tomado
para dentro de si o seio bom despedaçado e sentindo-se assim jun-
tamente fragmentado. Pois, segundo Klein (1946), o ego é incapaz
de cindir um objeto interno ou externo sem que dentro dele ocorra
uma cisão correspondente, ou seja, as fantasias de ter despedaçado
um objeto bom introjetado inuenciam na estrutura do ego.
Os ataques de cunho projetivo são derivados de impulsos anais
e uretrais, do qual o bebê projeta para o interior do seio ou da mãe
excrementos perigosos e venenosos do ego. Essa projeção é feita
não só com o intuito de danicar o objeto, como também de tomar
posse e controlá-lo por dentro, pois junto aos excrementos, partes
cindidas do ego foram juntamente projetadas na mãe.
Na medida em que a mãe passa a conter partes más do self, ela não
é mais sentida como um indivíduo separado, e sim como sendo o
self mau. Muito do ódio contra partes do self é agora dirigido contra
a mãe. Isso leva a uma forma peculiar de identicação que estabe-
lece o protótipo de uma relação de objeto agressiva. Sugiro o termo
“identicação projetiva” para esses processos (KLEIN, 1946, p. 27).
Processo de elaboração
O processo de luto é instalado para a elaboração de uma perda,
consistindo no desligamento da libido a cada uma das lembranças e
expectativas relacionadas ao objeto perdido, por isso, é considerado
um processo lento e penoso.
Como vimos, diante de uma situação dolorosa, ocorre uma
catexia concentrada no objeto do qual se sente falta ou que está
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perdido, por não poder ser apaziguada anal o objeto não existe
mais – tende a aumentar efetivamente, sendo assim hipercatexiza-
das. Enquanto o ego se absorvido no processo de luto por meio
da hipercatexia, a sua elaboração ocorre sob a inuência do teste
de realidade, fundamental para a constatação de que esse objeto
não existe mais.
O instinto de realidade, como descrito por Freud (1920), atua
através dos instintos de autopreservação do ego. Este princípio não
abandona a obtenção de prazer, porém, pede um adiamento da sa-
tisfação, para uma obtenção de prazer no futuro. Em contrapartida,
o princípio do prazer, que está fortemente ligado aos instintos se-
xuais e por essa razão eles se tornam mais difíceis de domar, busca
um prazer imediato e desde o início pode ser visto como altamente
perigoso e inecaz para a autopreservação do ego.
Portanto, o teste de realidade atua para a preservação do ego,
solicitando um adiamento da satisfação. O ego está absorvido neste
processo por meio da hipercatexia das lembranças vinculadas ao
objeto, deste modo, obtém uma satisfação imediata, na qual conser-
va e prolonga-se psiquicamente, nesse meio-tempo, a existência do
objeto perdido. Segundo Freud (1915), esta oposição ocasiona um
desvio da realidade e um apego ao objeto perdido.
Cada uma das lembranças e expectativas isoladas por meio das
quais a libido está vinculada ao objeto é evocada e hipercatexizada,
e o teste de realidade exige que toda a libido seja retirada de suas
ligações com aquele objeto. Desta forma, o trabalho do luto é conclu-
ído quando a realidade prevalece e quando atingido certo grau de
catexia, a libido é desligada e o ego se vê livre e desinibido outra vez.
A capacidade do indivíduo se relacionar com o mundo externo
depende da sua capacidade de distinguir entre percepções internas
e externas. Por meio do teste de realidade, o indivíduo se defronta
com cada lembrança do objeto amado perdido e envolve o ego em
uma persuasão narcísica, diante da questão de saber se seguirá o
mesmo destino do objeto ou continuará vivo, assim é convencido
pelo prazer de estar vivo e se desliga do objeto. Freud (1915) nega
que nessa persuasão narcísica contém o triunfo acerca do luto. Para
o autor, o triunfo tinha características da mania como uma grande
euforia relacionada à economia. Quando não se tem necessidade de
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fazer grande esforço para alcançar alguma condição, por exemplo, o
fato de ganhar uma grande quantia de dinheiro na loteria pouparia o
indivíduo de trabalhar para adquirir dinheiro, essa situação promo-
veria grande euforia, a qual não se quando o trabalho de luto é
realizado e o ego se livre para investir sua libido em outro objeto.
Klein (1940) explica que, o objeto de amor, assim como seus
objetos bons da infância, foi introjetado e instalado no seu mundo
interno. Dessa forma, quando se instala o luto adulto, o indivíduo
tem uma fantasia inconsciente de que com o objeto perdido todos
os seus objetos bons, inclusive seus pais bons internalizados, foram
perdidos, predominando então os objetos maus, reativando assim a
posição depressiva e suas ansiedades derivadas: culpa, sentimentos
de perda provindos do desmame, complexo de Édipo e outras fontes,
além de alguns sentimentos de perseguição que também podem ser
reativados. Ou seja, quando ocorre a perda real, em sua fantasia, o
indivíduo acredita que seu mundo interno foi destruído. O processo
de luto para a autora consiste então na reestruturação do mundo
interno, reintrojetando o objeto bom de maneira a reestruturá-lo,
assim como todos os objetos que acreditou ter perdido, recuperando
aquilo que já havia obtido na infância.
Uma das situações mais dolorosas numa situação de perda
está na constatação real de que esta existiu. Aperceber-se da perda
consiste num trabalho de teste de realidade, que é fundamental para
a compreensão e o caminho até a sua elaboração. Segundo Klein
(1935), o teste de realidade era usado continuamente pelo bebê a
m de testar seu mundo interior por intermédio da sua realidade
externa, assim como a mãe interna tinha como referência a mãe
externa, a percepção de que a mãe era um objeto integral e ambi-
valente do qual continha coisas boas e ruins, trazia uma segurança
e, consequentemente, uma melhor tolerância aos objetos ruins. É
então através do prolongado teste de realidade que se explica de
certa forma a necessidade de reativar elos com o mundo externo,
revivendo assim constantemente a perda, o que contribui de forma
ativa na dolorosa reconstrução do mundo interno que está em perigo
de desmoronar na mente do indivíduo. Ou seja, da mesma maneira
que o bebê sofre para reestabelecer e reestruturar seu mundo inter-
no na posição depressiva arcaica, o sujeito enlutado também o faz.
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Klein (1940) postula que dos sentimentos que estão ligados ao
luto, os mais perigosos são os de ódio contra a pessoa perdida, e
que, esse ódio pode vir à tona por uma sensação de ter triunfado
sobre o morto.
O triunfo faz parte da posição maníaca no desenvolvimento infantil.
Os desejos de morte infantis contra os pais, irmãos e irmãs se veem
realizados quando uma pessoa querida morre, pois ela sempre é um
representante, até certo ponto, das guras importantes do início da
vida da criança e atrai, portanto alguns dos sentimentos originalmente
relacionados a elas. Sua morte, por mais que tenha sido arrasadora
por outros motivos, não deixa de ser percebida também como uma
vitória. Isso origem à sensação de triunfo, que gera ainda mais
culpa (KLEIN, 1940, p. 397).
O triunfo por atrapalhar o processo de luto por interferir na
crença do indivíduo em seus objetos bons. Quando é projetado o
ódio na pessoa amada perdida, esta passa a ser um perseguidor, o
que diculta no processo de idealização. Quando na tenra infância,
a mãe boa idealizada trazia grande segurança para a criança con-
tra a mãe retaliadora, e contra os outros objetos maus, no luto,
idealizar o objeto de amor contribui para manter ainda que tempo-
rariamente um mundo interno seguro por trazer boas lembranças
da pessoa amada que morreu.
Essa relação contínua com o mundo externo e aproximação com
a realidade necessária para a elaboração do luto tem como base o
simbolismo. No auge do sadismo, o corpo da mãe e o seu conteúdo
se tornam fonte do interesse da criança, ela quer tomá-lo para si e
destruí-lo. Os ataques contra a mãe trazem na criança uma ansiedade
persecutória, um medo de que esses ataques voltem para si. Ansie-
dade que, no caso do luto adulto, pode ser persecutória no tocante
ao triunfo. Essas ansiedades que movimentaram o bebê a procurar
equiparar seus objetos maus que causam medo com objetos do
mundo externo buscando equipará-los e dotando-os de simbolismo.
Cheguei à conclusão de que o simbolismo é o fundamento de toda a
sublimação e de todo talento, pois é através da igualdade simbólica
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que as coisas, as atividades e os interesses tornam o conteúdo de
fantasias libidinais (KLEIN, 1930, p. 252).
Torna-se assim evidente que a sublimação pode ser relacionada
ao trabalho de luto, pois da mesma forma que ansiedades provin-
das do sadismo faz com que o olhar do bebê seja desviado da mãe
para o mundo externo, o enlutado desvia o seu olhar do objeto de
amor perdido para o mundo externo, tendo em vista que, de certa
maneira, a pessoa perdida é simbolicamente relacionada aos seus
objetos bons internalizados, ou seja, seus pais amados.
Como para Klein (1940) o luto adulto é a reativação da posição
depressiva arcaica, a diferença da perda de um objeto real e o des-
mame está no contexto. Ao perder o seio e toda a sua simbologia
de bom e segurança que esse objeto carrega, o bebê é tomado pelo
sofrimento mesmo estando ao lado da mãe, justamente por estar no
auge da luta contra o medo de perder tanto a mãe interna quanto a
externa e a segurança ainda não foi bem estabelecida em seu mundo
interior. Já no luto adulto, o cenário é diferente, pois ocorre a perda
real de uma pessoa, no entanto, o fato de ter estabelecido uma mãe
“boa” internamente ajuda na superação. Por essa razão também a
presença de pessoas amigáveis corrobora e traz um maior conforto
numa situação de luto.
No luto adulto, embora se trate de uma perda real, a elabo-
ração é feita de forma semelhante à posição depressiva arcaica,
vivida na infância. O trabalho de luto consiste na reintrojeção do
objeto bom, portanto, introjetando novamente não somente a pessoa
amada, mas também os pais amados que representam seus objetos
bons internalizados.
Seu mundo interior, aquele que vinha construindo desde o início da
vida, foi destruído em sua fantasia quando ocorreu a perda real. A
reconstrução desse mundo interior caracteriza o trabalho de luto bem
sucedido (KLEIN, 1940, p. 406).
Luto patológico
No tocante aos desdobramentos do luto, também sua versão
patológica, a qual foi feita uma consideração pelos dois autores.
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Freud (1915) traz o conceito de melancolia, esta toma os mes-
mos sintomas do luto, exceto por uma perturbação na autoestima.
O melancólico se autodeprecia de maneira exagerada. Esse estado
também tem um caráter mais inconsciente e ideal, pois não se sabe
o que foi realmente perdido uma vez que o objeto não precisa ter
necessariamente morrido, mas apenas ter sido perdido enquanto
objeto de amor, por exemplo, em um término de relacionamento.
O luto anormal, proposto por Klein (1940), corresponde a uma
não superação da posição depressiva do desenvolvimento, que é
crucial para o forte estabelecimento de objetos bons no mundo
interior e para se sentir seguro no mesmo. Nesta versão patológica
do luto uma interminável ligação com o objeto perdido, e uma
indiferença pela perda, resultado de um abafamento de sentimentos.
Podendo causar uma psicose grave caso o ego recorra a uma fuga
para os objetos internos bons, ou uma neurose caso o ego recorra a
uma fuga para objetos externos bons.
A autodesvalia expressada pelo melancólico acontece porque
o ego se identifica com o objeto de amor perdido, que faz que a
libido objetal vinculada a ele se volte para o ego do indivíduo.
Dessa forma, a libido é julgada pelo superego como se fosse um
objeto, o objeto de amor perdido. É também por essa razão que
o enlutado não sente vergonha ou demonstra se incomodar em
expressar seu ódio e recriminações que, apesar de serem ditas de
si mesmo, parecem se referir a outra pessoa, ao ser amado que
agora está de certa forma, instalado dentro do seu próprio ego.
Freud (1915) chega a relacionar a melancolia à fase sádico-oral do
desenvolvimento, que além da ideia de incorporação, também
uma fantasia de destruição ao ato de mastigar e morder. O ego
tem um ímpeto de sobrevivência, porém, no caso da melancolia,
um conflito expressado sintomaticamente como desvalia, cau-
sado pelo objeto amado incorporado, que traz um sentimento de
abandono ao enlutado. Esse conflito do ego pode ser relacionado
diretamente ao conflito da fase oral que traz como sintomas a ina-
petência, disfunções alimentares, vômitos, algumas até com certo
caráter suicida. O suicídio poderia ser praticado para a agressão
de outro, ainda que outro que se encontra dentro do próprio ego.
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Melanie Klein (1935) sugeriu que existem defesas da ordem da
paranoia na melancolia, defesas que são características da posição
esquizoparanoide. Em seu trabalho de 1940, a autora postula que o
luto anormal consiste na não superação da posição depressiva arcai-
ca, prevalecendo defesas da posição anterior. Ou seja, o indivíduo
melancólico ainda utiliza predominantemente de defesas da posição
esquizoparanoide. Uma dessas defesas, a identicação projetiva, foi
introduzida pela autora em 1946, consiste na cisão de partes ruins
do ego seguida da projeção no outro, causando além de uma neces-
sidade de controle alheio com a nalidade de controlar suas partes
excindidas do ego, uma confusão de personalidade. Esse mecanismo
de defesa também estabelece uma relação agressiva de objeto que
pode ser associada à relação de sadismo que é estabelecida entre
o enlutado e seu objeto de amor na melancolia, por conta da auto-
desvalia dirigida ao próprio ego, como Freud (1915) identicou ser
na verdade dirigida a outro alguém do qual se encontra instalado
no próprio ego: o objeto de amor perdido.
O ódio expressado pelo objeto de amor perdido ainda pode
ser associado à relação entre amor e ódio que é descrita na teoria
de Klein (1937). O amor e o ódio estão presentes desde os primei-
ros anos de vida do bebê, pois este ama a sua mãe quando ela o
alimenta, e a odeia quando esta se ausenta e não atende às suas
necessidades, trazendo sentimentos agressivos de ódio e desejos
de destruir a mesma pessoa que é sua fonte de graticação. Esses
impulsos agressivos é que trarão ao bebê o sentimento de culpa, e
subsequentemente a necessidade de reparação. Essa relação de amor
e ódio é que movimenta as relações.
O amor e o ódio lutam entre si na mente da criança; essa luta continua
presente de certa forma pelo resto da vida e pode se tornar fonte de
perigo nas relações humanas (KLEIN, 1937, p. 349).
Por outro lado, a desvalia sugere uma regressão ao narcisismo
primário, pois a libido é voltada para o próprio ego. O indivíduo
que sofre de melancolia não consegue investir libido no mundo ex-
terno. Portanto Freud (1915) explica que, ainda que com um cunho
negativo, há de certa forma uma devoção a si próprio, ou seja, uma
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grande devoção ao objeto perdido incorporado ao ego: “No luto,
é o mundo que ca pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego”
(FREUD, 1915, p. 251).
A incorporação do objeto perdido, no caso do luto, acontece em
nível transacional, e o teste de realidade traz ao ego a constatação de
que o objeto já não mais existe, forçando o desligamento da libido. O
teste de realidade então, de encontro com o princípio do prazer, visa
alcançar um prazer em longo prazo – ainda que evidencie um prazer
que no momento o indivíduo não queira ver – quando a dor adiante
for superada. Porém, na melancolia uma manutenção do objeto
visando a um prazer imediato, mantendo-o vivo dentro do ego, de
forma que o princípio do prazer tenha se sobressaído ao princípio
de realidade, causando essa interminável ligação ao objeto. Freud
(1920) comenta que o princípio de prazer é um método primário do
funcionamento psíquico, mas que, no ponto de vista da autopreser-
vação em relação ao mundo externo, ele se torna inecaz e perigoso.
Dessa forma, é substituído pelo princípio de realidade que é capaz
de fazer um adiamento da satisfação em favor da autopreservação.
Porém, como o princípio do prazer “persiste por longo tempo como
o método de funcionamento empregado pelos instintos sexuais, que
são difíceis de ‘educar’” (p. 20), frequentemente consegue vencer o
princípio de realidade.
Há, portanto, uma concordância na obra de Melanie Klein
(KLEIN, 1940) ao armar que no luto anormal uma interminá-
vel ligação ao objeto perdido. Mas explica que as pessoas que não
conseguem vivenciar o luto podem ter suas emoções inibidas, por
negar seu amor ao objeto perdido pela sensação de incapacidade
de restauração de objetos bons internos. casos onde ocorre um
abafamento de sentimentos como o amor, dando vazão ao ódio que
aumenta ansiedades paranoides. E, em casos ainda mais severos,
crises maníaco-depressivas ou até mesmo paranoicas. Dessa forma,
as estratégias encontradas pelo ego para lidar com ansiedades de-
pressivas são as mesmas encontradas no desenvolvimento infantil.
No entanto, para a autora, a análise pode vir a diminuir ansiedades
de ordem persecutórias que provêm dos pais internos destrutivos. A
diminuição dessas ansiedades permitem que o ódio seja mitigado, e
a relação com os pais vivos ou mortos seja reexaminada, de maneira
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que eles possam ser então reintegrados e melhor estabelecidos no
mundo interno como guras boas. Com essas guras boas internas
mais rmes e estabelecidas, é possível lidar de forma mais efetiva
com ansiedades depressivas. Em outras palavras, nalmente superar
a posição depressiva que não foi superada no passado. Portanto,
vivenciar o luto e elaborá-lo, bem como sentir emoções como a
culpa, o pesar, o amor e a conança. Criando uma tolerância maior
às perdas, com mecanismos de defesas mais adequados.
Assim, elaboramos um Quadro Descritivo que resume o tema em
questão. O quadro foi distribuído em Luto, Processo de Elaboração e
Dissolução, numa tentativa de resumir e colocar palavras-chave que
indicam semelhanças e divergências entre as teorias.
Quadro I – O luto normal e o patológico, vistos a partir das concepções
freudianas e kleinianas
As contribuições expostas no Quadro I foram extraídas de:
Sigmund Freud Luto e melancolia (1917) e Melanie Klein O luto e
suas relações com os estados maníaco-depressivos (1940).
Considerações finais
Durante nossa pesquisa, percebemos que apesar das maiores
semelhanças das teorias dos autores se concentrarem na concepção
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do desenvolvimento psicossexual, e que ambos concordam que os
desdobramentos da vida infantil e considerações acerca do complexo
de Édipo podem inuenciar na personalidade do indivíduo, tam-
bém entendemos que as divergências identicadas entre as teorias
se encontravam em suas bases, que se reetiam posteriormente na
maneira de expressar de cada um de acordo com o desenvolvimento
de suas ideias primeiras. Klein concentrou seu trabalho no estudo
de crianças pequenas, o que lhe possibilitou enxergar detalhes no
que tange ao desenvolvimento infantil e à relação da criança com
objetos, o que ainda lhe possibilitou conceber a dimensão do mundo
interno povoado por objetos internalizados, e as posições esquizo-
paranoide e depressiva que perpassam por toda a vida, alterando
assim o seu olhar e sua análise acerca da psicanálise/coisas.
Porém, ao falar do luto, percebemos que não muitas dife-
renças. É claro que cada um se expressaria mediante a forma como
introduziram suas teorias. Mas o luto em si transcorria, de modo
geral, da mesma maneira para os dois teóricos, assim como as vias
de elaboração também são, num geral, bastante parecidas, como foi
possível traçar no quadro norteador. Acerca da versão patológica do
luto, também foram encontradas mais relações do que divergências.
As duas teorias entendem que o indivíduo deve voltar ao
estado em que se encontrava antes da perda, ou o mais próximo pos-
sível, seja com o ego desinibido para novos investimentos no mundo
externo, seja com o mundo interno harmonioso e bem estabelecido
de objetos bons. A perda de algum objeto amado traz, ainda que
momentânea, a fragmentação e desestruturação do sujeito. Portan-
to, é possível concluir que o luto é um processo de reconstrução e
reorganização diante de uma perda, desao psíquico com o qual o
sujeito tem de lidar.
Referências
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FREUD, Sigmund. Além do Princípio de Prazer (1920). In:______. Além do Princípio
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FREUD, Sigmund. O Ego e o Id (1923). In:______. O Ego e o ID e outros trabalhos
(1923-1925). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud. Vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 33-40.
FREUD, Sigmund. Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926 [1925]). In:______. Um
Estudo Autobiográco, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Análise Leiga e outros
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ego (1930). In: ______. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Obras
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KLEIN, Melanie. Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos
(1935). In: ______. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Obras
Completas de Melanie Klein. Vol. I, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KLEIN, Melanie. O desmame (1936). In______. Amor, culpa e reparação e outros
trabalhos (1921-1945). Obras Completas de Melanie Klein. Vol. I, Rio de Janeiro:
Imago, 1996.
KLEIN, Melanie. O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos (1940).
In:______. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Obras Completas
de Melanie Klein. Vol. I, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Obras Completas
de Melanie Klein. Vol. I, Rio de Janeiro: Imago, 1991.
KLEIN, Melanie. (1946) Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In:______.
Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Obras Completas de Melanie
Klein. Vol. I, Rio de Janeiro: Imago, 1991.
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Contato dos autores:
Andressa Katherine Santos Cavalcanti: a.kscavalcanti@gmail.com
Milena Lieto Samczuk : milenalieto@gmail.com
Tânia Elena Bonm: tania.bonm@metodista.br
Universidade Metodista de São Paulo
Curso de Psicologia
Rua Dom Jaime de Barros Câmara, 1000
Campus Planalto CEP 09750-001, São Bernardo do Campo, S.P.
Recebido em: 08/08/2013
Aceito em: 01/10/2013
... Contudo, embora a morte de um ente querido seja comumente desencadeadora de um processo de luto, o luto está mais relacionado com a perda decorrente da morte do que da morte em si. Dessa forma, podemos entender o luto como um processo que resulta de uma perda significativa, que pode ocorrer em outras situações além da morte, como nas perdas amorosas, de ideais, de crenças, de papéis sociais, entre tantas outras (Cavalcanti et al., 2013). ...
... Deste modo, pode ser vivenciado por meio de perdas que perpassam pela dimensão física e psíquica, como os elos significativos com aspectos pessoais, profissionais, sociais e familiares do indivíduo. O simples ato de crescer, como no caso de uma criança que se torna adolescente, vem com uma dolorosa abdicação do corpo infantil e suas significações, igualmente, o declínio das funções orgânicas advindo com o envelhecimento (Cavalcanti et al., 2013). ...
... Apesar de não ser patológico, o luto costuma ser um processo lento e doloroso para quem o vivencia, muitas vezes implicando um retraimento social em que o investimento libidinal é completamente voltado para o objeto perdido, não permitindo, assim, o surgimento de interesse por outras coisas não relacionadas ao luto (Freud, 1915(Freud, /1996c. A tarefa que envolve o luto costuma requerer uma quantidade de energia psíquica do indivíduo que o faz diminuir a energia em outras atividades (Cavalcanti et al., 2013). Mesmo diante desses aspectos, é esperado que a maioria das pessoas consiga passar pelo luto sem um adoecimento mental e, nos casos em que o desfecho é a formação de uma patologia, prevalece o entendimento de que, provavelmente, havia uma predisposição ao desenvolvimento deste transtorno (Freud, 1915(Freud, /1996c. ...
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Este trabalho tem por objetivo discutir que a maior incidência de adoecimento mental no climatério decorre principalmente das perdas experimentadas nesta etapa da vida. Para cumprir este objetivo, recorremos a uma análise qualitativa de viés psicanalítico, com base na experiência de pesquisadores envolvidos em um estudo transversal, com 130 mulheres climatéricas, com idade entre 45 e 65 anos. As principais queixas observadas foram organizadas em grupos por similaridade temática. Observou-se que, no período do climatério, o luto se instala por diferentes perdas percebidas pelas mulheres. A maioria dessas perdas está relacionada a questões de estética, de fertilidade, projeto de vida e as perdas sociais vivenciadas. Concluímos que o adoecimento mental observado no climatério pode ser o sintoma que se forma para denunciar um contexto de perdas. A compreensão dessas perdas e da instalação de um processo de luto pode permitir um olhar mais humano e cuidado mais eficiente.
... A partir da análise dos dados advindos desses estudos, observa-se que uma das questões mais presentes nos discursos dos profissionais diz da grande dificuldade da equipe no manejo da morte e do processo de morrer, visto que é uma característica, antes de qualquer coisa, humana, onde o luto pode ser caracterizado como uma perda de elo entre as pessoas e que isso se vivencia em diferentes momentos do desenvolvimento humano (Cavalcanti et al., 2013). ...
... As constantes perdas de pacientes e o envolvimento emocional tanto com o paciente como com a família trazem bastante desgaste físico e mental aos profissionais em questão. Conforme Cavalcanti et al. (2013), o conceito de luto representa mais que apenas à morte em si, diz também das diversas perdas reais e simbólicas que vivenciamos ao longo da vida. E tais perdas são vivenciadas tanto na dimensão física como psíquica. ...
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Resumo: Com o intuito de analisar o processo de assimilação da morte pelos profissionais de saúde no contexto hospitalar, o estudo que segue teve os seguintes aparatos: discorrer acerca do tema da morte; reconhecer o impacto da morte para estes profissionais de saúde e por fim, identificar estratégias destes profissionais para lidar com a morte e com o processo de morrer. O tema da morte é um desafio profundo no ambiente hospitalar, afinal toda equipe técnica está focada no processo de cura. Devido às inovações tecnológicas, agora é possível aumentar a expectativa de vida. Embora o morrer seja um processo natural, a experiência destes profissionais e a atitude frente à morte e morrer dentro do ambiente hospitalar geram sentimentos ambivalentes, que precisam ser compreendidos e vivenciados pelos envolvidos. O presente artigo constitui-se em uma revisão sistemática, realizada através de pesquisa descritiva realizada nas plataformas Scientific Electronic Library Online (SciELo), Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePSIC) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) com as combinações de descritores: morte; atitude frente à morte; equipe. Após a definição dos artigos, utilizou-se o critério de classificação das revistas de A2 a B3. Diante dos dados encontrados, emergiram duas questões: questões estruturais e metodológicas dos artigos e questões temáticas e qualitativas dos mesmos. Os artigos avaliados, em sua maioria, focam suas pesquisas em profissionais da enfermagem, mostrando a grande necessidade de produção científica acerca da experiência de outros profissionais da saúde. Conclui-se que é de suma importância preparar profissionais para enfrentar a morte dentro dos ambientes acadêmicos, além da criação de espaços terapêuticos dentro dos hospitais para que, diante da morte e do processo de morrer, os profissionais possam compartilhar suas vivências. Abstract: In order to analyze the health professionals' death assimilation process in a hospital context, the presented study had the following apparatus: discourse about death; recognize the impact of dying on these health professionals and, finally, identify strategies for these professionals to deal with death and the dying process. The subject of death is a profound challenge in a hospital environment, after all the technical team is focused on the healing process. Since technological innovations it is possible to extend life expectancy. Even though dying is a natural process, the professionals' experience and attitude towards death and dying within the hospital environment generate ambivalent feelings (failure/resting) that need to be understood and experienced by the people involved. The present work is a systematic review, performed through descriptive research carried out in Scientific Electronic Library Online (SciELo), Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePSIC), and Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) platforms with combinations of the keywords: morte; atitude frente à morte; equipe. After the papers selection, the classification criteria of journals from A2 to B3 were used. Given the analysis, two topics emerged: structural and methodological matters of the papers, and thematic and qualitative matters of them. Most of the papers found focus on nursing professionals. This shows the necessity of scientific production about other health professionals' experiences as well. In conclusion, it is extremely important to prepare professionals to face death within academic environments, as well as the creation of therapeutic spaces within hospitals so that, in the face of death and the dying process, professionals can share their experiences.
... No entanto, se não há a elaboração desse luto, é possível que a mãe passe deste para um processo de depressão. Não havendo a ausência material, o luto se abriga diante de um morrer estranho (CAVALCANTI, 2013). ...
... Nesse momento, começa a tomar consciência da sua atual condição, sentindo uma necessidade de isolamento, no qual acontecerá uma grande introspecção. Assim, ela percebe que nada do que foi feito ou tentou fazer resolveu o seu problema, surgindo um sentimento de grande perda (CAVALCANTI, 2013). ...
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Objetivo: verificar quais os sentimentos vivenciados pelas mães diante o diagnóstico de microcefalia do filho e as estratégias de enfrentamento utilizadas. Metodologia: para alcançar os resultados, foi utilizada a pesquisa de campo com sete mães, cujos filhos estavam matriculados na APAE – Jequié/BA. Para a coleta de dados utilizou-se a entrevista semiestruturada composta por questões sóciodemográficas e objetivas sobre o tema. filho idealizado durante a gestação foi substituído por um filho enfermo, causando grande choque de realidade. As estratégias de enfrentamento utilizadas foram o coping religioso, a busca por informações a cerca da deficiência e a busca por cuidados a criança na medicina. Empregou-se a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo para análise de dados. Resultados: diante o diagnóstico de deficiência do filho as mães vivenciam sentimentos predominantemente negativos caracterizando-se em um lento e doloroso luto. Com a responsabilidade de proporcionar bem-estar para as crianças, as mães sentem-se sobrecarregadas, pois se tornam as principais cuidadoras. Conclusão: fica evidente a importância na adoção de medidas de prevenção à saúde mental das mães e não somente para a criança afetada, pois a cuidadora é geralmente a mais atingida e essas dificuldades e frustrações, se não trabalhadas, poderão, também interferir no ajustamento social e desenvolvimento da criança. Essa é, portanto, uma questão que precisa ser discutida, a fim de que sejam desenvolvidas políticas públicas de assistência e atenção às cuidadoras.
... Some authors (Cavalcanti, Samczuk & Bonfim, 2013) recall the grief postulated by Freud (1917) as a reaction to loss, not necessarily of a loved one but, of something that has the same proportions, generating a profound sadness and, Klein (1940) as a process that reactivates an archaic depressive position. The concepts of psychoanalysis make sense in the discourses and relate with the internal desires, as well as with the external ones. ...
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This article brings together the central results of an investigation, carried out since 2017. Through an online questionnaire, linked in virtual groups during the period of June - August 2019, it was possible to understand the emotional issues of 55 Brazilian women, who interrupted voluntarily at least one pregnancy. Respondents highlighted depression, anxiety, guilt and shame as present suffering, however, most reported feeling relief from the experience. The narratives were worked on by Discourse Analysis, which enabled discussions in the fields of psychoanalysis and social sciences. The investigation reinforced previously found results, given that suffering is more linked to criminalization than to the interruption and, each woman will re-signify the experience in a unique way. In addition, qualified listening was rated as fundamental in the decision and reframing process.
... O luto pode ser compreendido como uma perda de um elo significativo entre uma pessoa e seu objeto, sendo, portanto, um fenômeno mental inerente ao processo de desenvolvimento humano (Cavalcanti, Samczuk & Bonfim, 2013). O trabalho de luto é importante para a manutenção da saúde mental (Gomes & Gonçalves, 2015) e reconhecido como um processo normal, no qual o seu enfrentamento depende do repertório individual de cada sujeito -como esse percebe as perdas, sua história e situações pregressas, capacidade de tolerância e necessidade de manter a autoestima (Parkes, 1998). ...
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Resumo: Por meio de uma revisão integrativa, busca-se identificar, dentro da produção científica brasileira, artigos que fazem intersecção entre os temas do luto e da velhice, sob o olhar da psicanálise. Desta forma, se visa estabelecer qual o enfoque dado ao idoso e qual a visão apresentada pela psicanálise para um trabalho com esta população que se encontra mais propensa a rupturas e perdas. Assim, se reconhece que há uma identificação de morte e finitude vinculada à figura do sujeito que envelhece, mentalidade adotada pela lógica de consumo. Identificou-se de que forma as inúmeras perdas aliadas ao envelhecimento suscitam no idoso um processo de luto que, segundo a psicanálise, pode ser definido como o afeto resultante da perda de um objeto libidinal. Verifica-se, assim, a importância de um acompanhamento aos idosos que vise desobstruir a via do desejo e criar novas perspectivas de vida, sobretudo nesta fase do desenvolvimento, que como todas as outras, possui características e desafios particulares. Palavras Chaves: Luto; Velhice; Psicanálise. Losses And The Mourning Process in old age: a look from psychoanalysis Abstract:Through An Integrative review, we seek to identify, withintheBrazilianscientificproduction, articles that intersect the themes of mourning and old age, from the perspective of psychoanalysis. In this way, it aims to establish the focus given to the elder lyand what is the vision presented by psychoanalysis for a work with this population that is more prone to ruptures and losses. Thus, it is recognized that there is an identification of death and finitude linked to the figure of the aging subject, a mentality adopted by the logic of consumption. Thus, it was identified how the numerous losses combined with aging cause a grieving process in theelderly. This Morning, according to psychoanalysis, can be defined as the affect resulting from the loss of a libidinal object. Thus, there is the importance of monitoring the elderly that aims to clear the path of desire and create new perspectives on life, especially at this stage of development, which, like all others, has particular characteristics and challenges. Introdução Segundo Paradella (2018), o Brasil tem vivenciado um crescimento da população idosa, e seus efeitos se fazem perceber pelas demandas sociais, nas áreas da saúde e assistência. É, inclusive, dever do Estado a garantia à vida e saúde desta
... Desde que nascemos, vivenciamos inúmeros tipos de perda, seja porque alguém morreu, porque estamos crescendo, mudando de cidade, de emprego ou de relacionamento. Todos esses cortes podem mobilizar alterações emocionais, cognitivas e comportamentais, na medida em que o luto responde a perdas reais e simbólicas (Cavalcanti, Samczuk, & Bonfim, 2013). ...
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Resumo A Covid-19 provocou número elevado de perdas e mudanças nos processos de cuidado e despedida, fatores que podem dificultar a elaboração do luto. Objetivamos, assim, compreender as particularidades do luto no âmbito da Covid-19, ressaltando a importância da adaptação e da criação de estratégias voltadas ao cuidado da saúde mental nos processos de luto. O ensaio realiza um panorama teórico, indicando elementos presentes na pandemia com potencial para interferir no luto, e apresenta um levantamento de iniciativas adaptadas a tal contexto. A pandemia trouxe mudanças na forma de experienciar o morrer. Evidenciam-se iniciativas na tentativa de mitigar os efeitos emocionais, cognitivos e comportamentais. O momento convoca a repensar conceitos e (re)criar compreensões acerca da morte e do luto, ressaltando-se a importância da Rede de Saúde Mental, com o fortalecimento de ações de base sociocomunitária, reconhecimento de diferentes níveis de complexidade das demandas e acesso organizado à atenção especializada.
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A separação conjugal é compreendida como uma ruptura de laços envolvendo duas pessoas, trazendo consequências para o casal e também para os filhos e familiares. Entender o fenômeno do luto na separação auxilia na elaboração de técnicas de intervenção eficazes para o tratamento. O objetivo da pesquisa é apresentar os conceitos teóricos referentes ao tema e as contribuições da Psicologia no tratamento do luto na separação. A metodologia utilizada é a revisão bibliográfica de artigos encontrados em bancos e repositórios de artigos públicos e também livros acerca do assunto. O luto na separação é um assunto ainda pouco pesquisado pela Psicologia, comparado ao fato de que os divórcios e separações são crescentes. A Psicologia possui técnicas para o tratamento e intervenção do luto na separação, favorecendo uma saudável elaboração do luto. A abordagem do luto na separação para crianças e adolescentes é ainda mais delicada e envolve maior responsabilidade dos cuidadores.
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A maneira que os sujeitos vivenciaram o processo de luto foi modificada de maneira drástica devido à situação pandêmica. A pandemia causada pelo novo coronavírus 2019, covid-19 é uma doença que sua propagação se dá em larga escala de maneira extremamente rápida, agravando as taxas de morbidade e mortalidade. O Brasil é considerado um país vulnerável, pois depende de tecnologias advindas de outros países, havendo dificuldades no processo de controle da doença, pois não havia os insumos necessários. Com a mudança de rituais fúnebres, e ordem de isolamento social, o paciente durante o momento da descoberta da Covid-19 até os seus momentos paliativos, enfrentavam processo de morte sozinho, sem companhia nem apoio. Objetiva-se com esse estudo investigar as relações entre ritos fúnebres e a falta da vivência do luto e as consequências que isso pode ter acarretado o período pandêmico. Além de propor uma reflexão sobre as conexões de ritos fúnebres, luto, psicanálise e pandemia da Covid-19. O estudo de cunho bibliográfico numa revisão integrativa da literatura utiliza a Psicanálise como referência para discutir os processos de luto e rituais fúnebres, para a compreensão do momento vivido, permitindo refletir sobre práticas dos profissionais de saúde mental com os processos de luto e contribuir com referenciais teóricos sobre esse assunto tão demandado na atualidade.
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As construções de barragens podem ocasionar à desapropriação de cidades inteiras e realocação de populações. Transformações desta amplitude geram perturbações às comunidades afetadas. Devido a construção da Barragem do Castanhão, a cidade de Jaguaribara foi destruída, e seus moradores transferidos para a primeira cidade projetada do Ceará, a Nova Jaguaribara. Apropriando-se dos conceitos da psicologia ambiental, a pesquisa teve como objetivo compreender aspectos da relação pessoa-ambiente frente ao deslocamento compulsório. Verificou-se na população de Jaguaribara sinais de luto não elaborado, traços de sofrimento psíquico, bem como a fragilização dos vínculos sociais e a redução da autonomia. Compreender as relações humano-ambientais, e impactos decorrentes de processos de deslocamentos programados torna-se primordial para a elaboração de estratégias que visem a redução de danos, potencializem adaptação e a promoção de saúde. Portanto, o impacto da perda do lugar torna-se viabilizador da manifestação e da manutenção de intenso sofrimento favorecendo o surgimento de adoecimentos.
In:______. O Ego e o ID e outros trabalhos (1923-1925) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud
  • Sigmund Ego E O
  • Id
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id (1923). In:______. O Ego e o ID e outros trabalhos (1923-1925). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 33-40.
Sintomas e Ansiedade In:______. Um Estudo Autobiográfico, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Análise Leiga e outros trabalhos (1925-1926) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud
  • Sigmund Inibições
FREUD, Sigmund. Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926 [1925]). In:______. Um Estudo Autobiográfico, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Análise Leiga e outros trabalhos (1925-1926). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XX, Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 81-171.
Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945)
In:______. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Obras Completas de Melanie Klein. Vol. I, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego (1930) In: ______. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945)
  • Melanie Klein
KLEIN, Melanie. A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego (1930). In: ______. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Obras Completas de Melanie Klein. Vol. I, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) Obras Completas de
  • Melanie Klein
KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Obras Completas de Melanie Klein. Vol. I, Rio de Janeiro: Imago, 1991.
O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos (1940)
  • Melanie Klein
KLEIN, Melanie. O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos (1940). In:______. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Obras Completas de Melanie Klein. Vol. I, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
com Milena Lieto Samczuk : milenalieto@gmail.com Tânia Elena Bonfim: tania.bonfim@metodista
  • Andressa Katherine
  • Santos Cavalcanti
Andressa Katherine Santos Cavalcanti: a.kscavalcanti@gmail.com Milena Lieto Samczuk : milenalieto@gmail.com Tânia Elena Bonfim: tania.bonfim@metodista.br Universidade Metodista de São Paulo Curso de Psicologia Rua Dom Jaime de Barros Câmara, 1000
Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud
  • Movimento Psicanalítico
FREUD, Sigmund. A história do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1996. inFormação, ano 17, n. 17, jan./dez. 2013
  • Sigmund Sobre
  • Narcisismo
FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914). In:______. A história do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos (1914