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Ídolos falange, cervídeos e equídeos. Dados e problemas a partir dos Perdigões

Authors:
  • Era Arqueologia SA

Abstract and Figures

An assemblage of “idols” made from animal phalanges (mainly from cervids and equines) from Perdigões enclosure’s Chalcolithic contexts is presented. Almost exclusively from funerary contexts, this assemblage is one of the most numerous of Iberia and shows an interesting chronological behaviour, with cervid phalanges being predominant in a first phase and equine phalanges in a second phase. This behaviour is discussed in the context of the human-animal relation and of the process of horse domestication.
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Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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A
AA
A
PONTAMENTOS
PONTAMENTOSPONTAMENTOS
PONTAMENTOS
de Arqueologia e Património
de Arqueologia e Patrimóniode Arqueologia e Património
de Arqueologia e Património
MAR 2015
10
ISSN:
2183
-
0924
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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Título: Apontamentos de Arqueologia e Património
Propriedade: Era-Arqueologia S.A.
Editor: ERA Arqueologia / Núcleo de Investigação
Arqueológica – NIA
Local de Edição: Lisboa
Data de Edição: Março de 2015
Volume: 10
Capa: Falange decorada proveniente do Sepulcro 2 dos Perdigões
(Foto: António Valera)
Director: António Carlos Valera
ISSN: 2183-0924
Contactos e envio de originais:
antoniovalera@era-arqueologia.pt
Revista digital.
Ficheiro preparado para impressão frente e verso.
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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ÍNDICE
EDITORIAL ................................................................................. 05
António Carlos Valera
“ÍDOLOS” FALANGE, CERVÍDEOS E EQUÍDEOS.
DADOS E PROBLEMAS A PARTIR DOS PERDIGÕES ............ 07
Beatriz Bastos
POTENTIAL OF LIPID ANALYSIS ON PREHISTORIC
PORTUGUESE POTTERY …………………………….................. 21
António Carlos Valera, Rui Ramos e Patrícia Castanheira
OS RECINTOS DE FOSSOS DE COELHEIRA 2
(SANTA VITÓRIA, BEJA) ............................................................ 33
António Carlos Valera
CIEMPOZUELOS BEAKER GEOMETRIC PATTERNS:
A GLIMPSE INTO THEIR MEANING .......................…….…....… 47
Patrícia Castanheira
MISERICÓRDIA II (BERINGEL, BEJA):
ALGUMAS NOTAS PARA O ESTUDO DO BRONZE FINAL
NAS TERRAS DE BARROS ....................................................... 53
José Carlos Quaresma, Alexandre Sarrazola, Inês M. da Silva
PRODUÇÃO DE VIDROS E IMPORTAÇÃO DE TERRA
SIGILATTA EM FINAIS DO SÉCULO V / PRIMEIRA METADE
DO SÉCULO VI: O CASO DA MARINHA BAIXA, AVEIRO ........ 63
Alexandre Sarrazola, Mónica Ponce,
Teresa Freitas, Marta Macedo
A RAMPA DOS ESCALERES À REAL CORDOARIA,
BELÉM / JUNQUEIRA (SÉCULO XVIII) ...................................... 77
Ana Olaio, Pedro Angeja, Álvaro Pereira,
Gonçalo Sá-Nogueira, André Texugo
ACTIVIDADE ARQUEOLÓGICA E DIVULGAÇÃO DO
PATRIMÓNIO EM SANTARÉM ...................................................83
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EDITORIAL
Chegamos, com a presente edição, ao número dez dos volumes
publicados da Apontamentos de Arqueologia e Património. Dez
números em oito anos, com algum abrandamento e irregularidade
nos últimos tempos relativamente aos primeiros. Nestes dez
volumes publicaram-se 94 artigos, nos quais foram autores 80
colaboradores, que em vários casos aqui realizaram as suas
primeiras publicações.
O projecto inicial, conforme se declarava no editorial do número
um da revista, visava a “publicação de pequenos textos
informativos ou problematizantes cuja divulgação por outros meios
não se justifica por si só ou poderá ser demorada.” Pretendia-se
“contribuir para a rápida difusão, referenciável e citável, de
informações, ideias, pequenos estudos ou análises, cuja
disponibilização mais imediata seja importante para o desenrolar
da investigação e da actividade arqueológica colectiva”,
respondendo desta forma às crescentes dificuldades financeiras
que se colocavam às edições em papel e à proliferação da
actividade arqueológica no âmbito da Arqueologia de Salvamento.
A intenção inicial, porém, viria a ser progressivamente alterada
pela realidade. A tradicional tendência para publicar pouco, que
sempre caracterizou a Arqueologia portuguesa nos seus mais
variados âmbitos, tem mais a ver com uma postura que com
qualquer ausência de meios.
Como resultado, a revista acabou por enveredar pela publicação
de alguns textos de maior fôlego (que fogem a um Apontamento) a
par de outros que melhor respondiam às intenções originais e o
seu ritmo de publicação adaptou-se à produtividade daqueles que
se disponibilizaram a colaborar.
O resultado, contudo, tem sido positivo, e a julgar pelas citações
que, no país e no estrangeiro, os textos da Apontamentos têm
merecido, a iniciativa ganhou já o seu espaço no panorama
editorial da Arqueologia portuguesa.
Justifica-se, pois, o esforço e, como desde o início, a revista
continuará aberta a todos os que com ela queiram colaborar
António Carlos Valera
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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1. Introdução.
Comum a todos os grandes sítios de fossos do sul da
Península Ibérica durante o 3º milénio a.n.e. é a presença de
numerosos e diversificados conjuntos de objectos
tradicionalmente designados por “ídolos”, os quais podem
ocorrer em contextos variados, mas com particular
predominância nos contextos funerários que se registam
tanto no interior como na periferia dos recintos. É assim em
La Pijotilla, Valencina de la Concepción, San Blás, Porto
Torrão ou Los Marroquiés Bajos.
O recinto dos Perdigões (Reguengos de Monsaraz, Évora),
não foge à regra, apresentando um já vasto e variado
conjunto de artefactos que podem ser enquadrados dentro
da categoria dos objectos ideotécnicos: figuras
antropomórficas, ídolos betilo (lisos e decorados), ídolos
tolva, ídolos placa oculados, ídolos almerienses (ou
cruciformes), placas de xisto decoradas, ídolos “de cornos”,
lúnulas, zoomorfos, ídolos “almofada” e os ídolos falange. As
matérias-primas utilizadas são igualmente variadas, sendo
algumas de origem local e outras exógenas: argila, osso,
marfim, calcário, mármore, xisto.
António Carlos Valera
1
A grande maioria é proveniente dos contextos funerários
Calcolíticos: Sepulcros 1, 2 e 3, fossas 16 e 40 e Ambiente 1
(Valera, Silva et al. 2014b). São excepção os ídolos
almerienses, datados do Neolítico Final, recolhidos na base
do Fosso 12 e num hipogeu não funerário, um ídolo placa na
base do Fosso 1 e alguns objectos procedentes de fossas
calcolíticas ou recolhidos à superfície.
Desta desta categoria de peças, foram já objecto de
publicação específica as lúnulas (Valera, 2010), os ídolos
almeriences (Valera, 2012), as figuras zoomórficas (Valera,
Evangelista et al., 2014), as figuras antropomórficas (Valera
e Evangelista, 2014), as peças da zona da porta NE (Milesi
et al. 2013) e os materiais em marfim (Valera et al., no
prelo). No presente texto abordam-se os designados “ídolos
falange”.
2. A amostra e os contextos de proveniência
O conjunto é constituído por 72 exemplares provenientes de
contextos funerários, com excepção de uma peça recolhida
na fossa 9 no Sector I e outra à superfície. Das restantes, 25
foram registadas no Sepulcro 1, 39 no Sepulcro 2, 1 no
Sepulcro 3, tendo 4 sido recolhidas na Fossa 40 e 1 na
Fossa 16 (Sector Q). A peça de superfície foi recuperada
entre as terras revolvidas da zona da Fossa 40 e Ambiente
1, podendo um destes ser o seu contexto de origem.
“ÍDOLOS” FALANGE
, CERVÍDEOS
E EQUÍDEOS.
DADOS E PROBLEMAS A PARTIR DOS PERDIGÕES.
Resumo:
Apresenta-se o conjunto de “ídolos” realizados sobre falange de animal (predominantemente de cervídeo e equídeo) proveniente de contextos
Calcolíticos do recinto dos Perdigões. Quase que exclusivamente recolhido em contextos funerários, este conjunto é um dos mais numerosos da
Península Ibérica e revela um interessante comportamento cronológico, com as falanges de cervídeo a dominarem numa primeira fase e as de
equídeo numa segunda. Este comportamento é discutido no contexto das relações homem-animal e do processo de domesticação do cavalo.
Abstract:
Phalange “idols”, cervids and equines. Data and problems from Perdigões.
An assemblage of “idols” made from animal phalanges (mainly from cervids and equines) from Perdigões enclosure’s Chalcolithic contexts is
presented. Almost exclusively from funerary contexts, this assemblage is one of the most numerous of Iberia and shows an interesting chronological
behaviour, with cervid phalanges being predominant in a first phase and equine phalanges in a second phase. This behaviour is discussed in the
context of the human-animal relation and of the process of horse domestication.
________________________________________________
1
Coordenador do Núcleo de Investigação Arqueológica (NIA),
antoniovalera@era-arqueologia.pt.
Centro ICArEHB.
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Os sepulcros 1 e 2 correspondem a estruturas funerárias
consideradas pseudo tholos (cobertura não seria em falsa
cúpula), providas de câmara circular, curto e baixo corredor
e átrio (circular ou ovalado). As câmaras e os átrios,
parcialmente escavadas na rocha de base, eram revestidas
por lajes de xisto e o corredor do Sepulcro 2 era edificado
com pequenos monólitos de diorito, estando o do Sepulcro 1
destruído (Valera, et al. 2007; Valera, Silva et al. 2014).
Trata-se de sepulcros colectivos onde se registam
deposições secundárias, sem evidências de deposições
primárias. Neles os “ídolos” falange surgem associados a
recipientes cerâmicos, grandes lâminas, pontas de seta,
grande variedade de contas de colar, inúmeros objectos em
marfim, betilos e vasos de calcário.
O Sepulcro 3 apenas foi definido ao nível do seu topo, não
ficando totalmente claro se se trata de um fossa ou da
câmara de um monumento mais complexo. A esse nível
foram registados recipientes cerâmicos, contas de colar, um
conjunto agrupado de mais de uma dezena de grandes
lâminas e um “ídolo” falange.
Estes contextos localizam-se na extremidade Este dos
recintos, tendo sido envolvidos a partir de meados do 3º
milénio a.n.e. pelo Fosso 1 (Valera, Silva e Márquez, 2014),
que no local forma um semi círculo (Figura 1: C).
A Fossa 40, de planta circular com 2,6m de largura e 0,75m
de profundidade, localiza-se na zona central dos recintos,
integrada num conjunto de estruturas negativas calcolíticas
que cortam estruturas do Neolítico Final (Figura 1: B). A
presença de dois burados de poste na sua área central
indica que teria tido uma cobertura. No seu interior foram
feitas intensas deposições de restos humanos cremados,
assim como de alguns ossos soltos e partes de corpos
humanos em conexão anatómica não queimados.
Os “ídolos” falange surgem associados a inúmeros objectos
em marfim, entre os quais se destacam figuras
antropomórficas (Valera e Evangelista, 2014), betilos lisos e
decorados, um vaso de pedra, pontas de seta, contas de
colar, punções metálicos e fragmentos cerâmicos, materiais
que apresentavam intensos sinais de exposição ao fogo.
Figura 1
Localização dos contextos de proveniência dos ídolos
falange nos Perdigões. A – Fossa 9; B - Fossa 40 e Fossa 16; C
– Sepulcros 1, 2 e 3.
Contextos de proveniência. Estruturas neolíticas.
Estruturas calcolíticas. Estruturas ainda sem datação.
Tabela 1
Número de ídolos falange e espécies por contexto de proveniência.
Tabela 2
Tratamento das falanges por espécie.
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %
Sepulcro 1 16 64 6 24 1 4,0 2 8,0 0 0 25
Sepulcro 2 18 46,2 20 51,3 0 0,0 0 0,0 1 2,56 39
Sepulcro 3 0 0 1 100 0 0,0 0 0,0 0 0 1
Fossa 40/A1 0 0 5 100 0 0,0 0 0,0 0 0 5
Fossa 9 0 0 1 100 0 0,0 0 0,0 0 0 1
Fossa 16 0 0 1 100 0 0,0 0 0,0 0 0 1
Total 34 47,2 34 47,2 1 1,4 2 2,8 1 1,39 72
Contextos Cervus sp. Equus sp. Sus sp. Ovis Capra Bos sp. Total
Nº % Nº % Nº %
Cervus sp. 30 88,2 3 8,8 1 2,9
Equus sp. 21 61,8 9 26,5 4 11,8
Sus sp. 0 0 0 0,0 1 100,0
Ovis Capra 0 0 0 0,0 2 100,0
Bos sp. 1 100 0 0,0 0 0,0
Total 52 72,2 12 16,7 8 11,1 1
72
34
34
1
2
Afeiçoada Afeiç.+Dec. Simples Total
Espécie
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A Fossa 16 localiza-se a cerca de 5 metros a Sudoeste da
Fossa 40. Apresenta um diâmetro máximo de 1,20m e uma
profundidade de 0,90m. No seu interior formou-se um
depósito cónico através do despejo de restos de cremações
(ossos humanos, fauna e materiais intensamente
submetidos ao fogo e associados a grandes fragmentos de
carvão e cinzas). Entre os materiais contam-se alguns
“ídolos” oculados (placas finas) em osso e marfim, pontas de
seta, alguns fragmentos cerâmicos, um punção metálico e
um fragmento distal de falange de cavalo afeiçoada.
Finalmente, a Fossa 9 situa-se no Sector I (Figura 1: A) junto
aos fossos 3 e 4. Apresenta uma planta subcircular com
alguma irregularidade, com cerca de 2,3m de largura e
0,36m de profundidade, estando preenchida por três
depósitos. No primeiro depósito apresentava uma grande
concentração de fragmentos cerâmicos, restos faunísticos,
elementos de tear, uma ponta de seta e um “ídolo” falange
(Valera, 2008).
Os suportes seleccionados são sempre primeiras falanges,
com clara preferência pelas espécies Cervus Sp. e Equus
Sp., ambas com 34 exemplares que na globalidade
correspondem a 94,5% do conjunto estudado. Com uma
representatividade mínima temos 2 falanges de Ovis/Capra,
1 exemplar de Sus Sp. e 1 de Bos Sp. (Tabela 1). As
falanges destas últimas espécies (com excepção da de Bos
Sp.) não se apresentam afeiçoadas ou decoradas (Tabela
2), podendo mesmo questionar-se se terão assumido a
dimensão simbólica das restantes, uma vez que existem
alguns outros ossos destas espécies nos respectivos
contextos sepulcrais. Já as falanges de cervídeos e de
equídeos apresentam quase sempre alteração por ligeiro
polimento, intenso afeiçoamento ou através de afeiçoamento
e decoração, revelando no conjunto uma percentagem em
torno dos 90% (Figura 2).
É interessante ainda notar, no que respeita à distribuição dos
dois grandes tipos de falanges utilizados, que nas fossas 9,
16, 40 e Sepulcro 3 apenas estão presentes falanges de
equídeos, enquanto nos sepulcros 1 e 2 estão ambos bem
representados, mas registando uma clara inversão: no
Sepulcro 1 predominam as falanges de cervídeo e no
Sepulcro 2 as de equídeo. Esta circunstância poderá ter
implicações cronológicas e culturais, abordadas adiante.
Relativamente à alteração exercida sobre as falanges, o
afeiçoamento mais ou menos intenso sem decoração é o
mais frequente, com 30 casos em falanges de cervídeo, 21
de equídeo e 1 de Bos ou seja, mais de 2/3 das peças do
conjunto (72%). É resultado de uma redução da espessura
das diáfises através de polimento (por vezes intenso)
exercido sobretudo nas partes laterais, mas também nas
faces anterior e posterior. A extremidade articular distal é
também afeiçoada, produzindo-se na globalidade da falange
um adelgaçamento que lhe confere uma morfologia mais
sugestiva e mais próxima do antropomorfismo (Figura 3). Por
vezes o adelgaçamento é tal que a matriz esponjosa do
interior do osso aflora pontualmente à superfície do mesmo.
A decoração, sempre em relevo e obtida por incisão e
polimento, é mais rara e ocorre apenas em 12 exemplares
(16,7%), sendo 9 casos sobre falanges de equídeo e 3 sobre
falanges de cervídeo. Num caso em que a decoração se
apresenta mais elaborada (Figura 9), são ainda visíveis
vestígios de pintura com pigmentos vermelhos. Com
excepção da peça da Fossa 9, todas as decoradas são
provenientes dos sepulcros da área C.
Figura 3
Exemplificação da intensidade e locais de
afeiçoamento em falanges de equídeo. 1. 1. Falange pouco ou
nada afeiçoada; 2. Falange intensamente afeiçoada com
indicações das áreas de redução; 3. Vista em fractura da
redução da espessura do osso.
Figura 2
Percentagem de falanges/espécie por
contexto.
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O motivo dominante é o zigue-zague horizontal, que abrange
a face anterior e as laterais da diáfise, sendo abrangente da
quase totalidade da falange (Figura 7: 2 e 5) ou restrita à sua
metade distal (Figura 7: 4 e 6). Duas das falanges de
cervídeo decoradas enquadram-se nesta última situação
(Figura 6), estando a terceira muito fragmentada. Trata-se de
um motivo associado normalmente às “tatuagens”.
Uma das falanges de equídeo com zigue-zague abrangente
apresenta na extremidade proximal uma faixa horizontal
elaborada através incisões formando um motivo espinhado
(Figura 7: 1).
Apenas duas falanges de equídeo fogem a este padrão
dominante. Uma, proveniente do Sepulcro 1, apresenta na
face anterior uma decoração à base de círculos concêntricos
e na face posterior motivos espinhados ou ziguezagueantes
(Figura 7: 3). Os círculos, concêntricos ou simples, são
pouco comuns na decoração das falanges. Na região,
ocorrem por vezes na decoração de pequenos recipientes
cerâmicos, como acontece com um exemplar proveniente da
Anta Grande da Comenda da Igreja ou num outro
proveniente do próprio Sepulcro 1 dos Perdigões (Figura 8).
A outra, proveniente do Sepulcro 2, apresenta uma
decoração mais complexa (Figura 9). A face anterior da
falange é decorada com as linhas ziguezagueantes, mas, ao
contrário do que é mais frequente, estas apresentam-se na
vertical, numa situação em tudo idêntica à representação
dos cabelos das figurinhas antropomórficas e de muitos dos
designados ídolos oculados do sul Peninsular. A face
posterior apresenta a representação dos olhos raiados, sob
os quais três traços marcam as “tatuagens faciais”. Mais
abaixo surge uma faixa horizontal composta por um
espinhado delimitado por duas caneluras. Restos de pintura
a vermelho estão presentes em ambas as faces.
Figura 4
Falanges de equídeo afeiçoadas. 1
Sepulcro 1;
2 – Sepulcro 2.
Figura 5
Falanges de cervídeo. 1
Apenas ligeiramente
polida; 2 – Afeiçoadas do Sepulcro 1; 3 – Afeiçoadas do
Sepulcro 2.
Figura 6
Falange de cervídeo ligeiramente
afeiçoada e
decorada proveniente do Sepulcro 1.
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Figura 7
Falanges de equídeo decoradas. 1 e 5: Sepulcro 2; 2 e 3: Sepulcro 1; 4: Sepulcro 3; 6: Fossa 9. A 6 apresenta
-
se serrada na
sua extremidade proximal.
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3. As falanges dos Perdigões e o seu contexto
peninsular
Os designados “ídolos” falange ocorrem durante o calcolítico
em quase toda a metade sul da Península Ibérica,
abrangendo a Andaluzia, a Extremadura espanhola, o sul de
Portugal e a Estremadura portuguesa.
No sentido de avaliar comparativamente a colecção
existente para os Perdigões (que, tendo em conta a natureza
e tamanho deste complexo arqueológico, será apenas uma
amostra do real universo destes materiais que este sítio
reunirá) procedeu-se a uma inventariação dos contextos que
forneceram “ídolos” falange, a qual, sem a pretensão de ser
absolutamente exaustiva, permite ainda assim construir um
quadro geral que podemos confrontar com o conjunto dos
Perdigões.
No centro e sul de Portugal foram inventariados 23 sítios
(incluindo os Perdigões e uma colecção sem proveniência),
dos quais 15 correspondem a contextos funerários (Tabela
3). Neste conjunto de sítios foi possível contabilizar um total
de 126 “ídolos” falange, os quais são maioritariamente sobre
primeiras falanges de equídeo (71 casos – 56,3%),
seguindo-se as primeiras falanges de cervídeo (39 casos –
31%) e com uma expressão residual as primeiras falanges
de bovídeo, suídeo e de ovino/caprino (com 4 – 3,2% -
cada). Para quatro falanges (3 do tholos 2b da anta 2 do
Olival da Pega e 1 de Santa Justa) não temos informação
sobre a espécie.
Um primeiro dado que resulta deste quadro geral para o
centro e sul de Portugal é que os Perdigões apresentam a
maior concentração deste tipo de artefacto, correspondendo
a mais de metade do total inventariado (72 exemplares –
57%). Santa Justa e Lapa da Bugalheira surgem com 9 e 8
exemplares respectivamente, Porto Torrão com 5 e os
restantes com ocorrências entre 1 e 3. Por outras palavras,
ainda que presentes em bastantes contextos, em termos
gerais os “ídolos” falange nunca são muito numerosos,
situação com a qual os Perdigões contrastam
significativamente.
Outro contraste significativo tem a ver com as espécies de
animais. Se o número elevado de primeiras falanges de
equídeo nos Perdigões segue o padrão de predominância
global (Tabela 3), já a presença de um número idêntico de
primeiras falanges de cervídeo é outra originalidade. Dos 39
“ídolos” sobre falange de cervídeo referenciados em
Portugal, 34 (87%) estão nos Perdigões, mais
concretamente nos Sepulcros 1 e 2.
Já no que respeita ao tratamento exercido sobre as falanges,
o que se observa nos Perdigões é próximo do quadro geral
(Tabela 3). A percentagem de peças não alteradas é
reduzida e com valores em torno aos 11%. Também em
concordância está a predominância de falanges
simplesmente afeiçoadas, embora com uma percentagem
ligeiramente superior nos Perdigões (72% contra 67%),
enquanto as falanges decoradas correspondem a 15%
(contra 21% no quadro global).
Figura 8
Recipiente decorado com canelura
junto ao bordo,
círculos e uma faixa de traços verticais delimitados por duas linhas,
proveniente do Sepulcro 1 dos Perdigões.
Figura 9
Falange de equídeo decorada. Face posterior: olhos
raiados,”tatuagens faciais”, faixa horizontal com espinhado entre
caneluras. Face anterior: cabelos ziguezaguentes. Ambas as faces
apresentam vestígios de pintura com pigmentos vermelhos.
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Esta situação é semelhante à que se pode observar no sul
de Espanha (Tabela 4). Embora a inventariação para esta
região tenha sofrido de dificuldades de acesso a bibliografia
e de uma ausência de informação detalhada sobre muitas
das peças referenciadas (daí que os números da Tabela 4
apresentem por vezes discrepâncias entre os totais e as
parcelas), o quadro global conseguido revela significativos
paralelismos com a situação observada para o centro e sul
de Portugal: predominância do uso das primeiras falanges
de equídeo, seguidas pelas de cervídeo e as restantes com
valores residuais; predominância das simplesmente
afeiçoadas, seguidas pelas decoradas, sendo as simples
raras; predominância de contextos funerários; peças pouco
numerosas por contexto. No que se refere a este último
aspecto, deve sublinhar-se que os sítios que apresentam
números mais elevados correspondem a peças que provêm
de vários contextos sepulcrais, sendo o seu número
relativamente reduzido em cada um deles: 15 sepulcros em
Los Millares, 8 em Los Castellones, 7 em La Gabiarra, 4 em
Los Llanillos ou em La Sabina. Neste sentido, os Sepulcros 1
e 2 dos Perdigões continuam, agora a nível peninsular, a
apresentar uma concentração inusitada de “ídolos” falange,
continuando o sítio a proporcionar a colecção mais
numerosa.
Relativamente às peças decoradas, os motivos presentes
nos Perdigões enquandram-se, na sua quase totalidade, no
que é conhecido para a decoração dos “ídolos” falange na
Península Ibérica.
O preenchimento abrangente ou simplesmente da metade
distal das falanges com as linhas ziguezaguentes é comum e
encontra paralelos em Carenque e Lapa da Bugalheira
(Cardoso, 1995). Ao ziguezague pode estar adicionada, na
extremidade proximal, uma banda, que pode ser de
espinhado (como nos Perdigões – Figura 7: 1) ou de um
ziguezague horizontal mais apertado e com canelura (caso
da peça do tholos de S. Martinho - Leisner, 1965) ou de
ziguezagues verticais sob canelura (como na peça de Olelas
– Cardoso, 1995).
A peça com a representação dos olhos raiados e tatuagens
na face posterior da falange e ziguezagues na face anterior
encontra paralelos na Pijotilla (Hurtado, 1986), onde estão
também representados dois braços e mãos, na Lapa da
Bugalheira (Cardoso, 1995), em Santa Justa (Gonçalves,
1989), Alcalar (Almagro Gorbea, 1973), Cueva de Belda
(Ruiz Gonzalez, Leiva Rojano, 1980-81), Los Millares
(Leisner e Leisner, 1943), Almizaraque (Almagro Gorbea,
1973), Los Castellones (Leisner e Leisner, 1943) ou
Valencina de La Concepción (Hurtado, 2013). Relativamente
Nº Sítio
Cervus S p.
Equus Sp.
Sus Sp.
Bos Sp.
Ovis/Capra
Total
Simples
Afeiçoadas
Decorad as
1 Almizaraque _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
2 Blanquizares de Lebor _ _ _ _ _ 2_ 1 1
3 Terrera Ventura 3 1 _ _ _ 50 _ _ 4
4 Los Millares 19 11 _ _ 1 33 5 23 5
5 El Jautón _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
6 Rambla de Huéchar _ _ _ _ _ 3_ _ _
7 Loma de la Atalaya _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
8 Loma de las Eras _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
9 Loma de la Torre _ 1 _ _ _ 9_ _ _
10 Cabecito de Aguilar _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
11 Buena Arena _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
12 La Sabina _ 4 _ _ _ 10 _ 4 _
13 Los Castellones 2 7 _ _ _ 61 _ 8 1
14 La Gabiarra _ 6 _ _ 1 41 1 6 _
15 La Cruz del Tio Cogollero 1 _ _ _ _ 1_ 1 _
16 Llano de la Teja _ 1 _ _ _ 2_ _ 1
17 Loma de la Manga _ 1 _ _ _ 1_ _ _
18 Los Llanillos 1 3 _ _ _ 17 _ 4 _
19 Las Peñicas 3 _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
20 Las Peñicas 4 _ _ _ _ 3_ _ _
21 La Mesa del Mudo _ 1 _ _ _ 4_ 1 _
22 Cueva del Agua _ _ _ _ _ 1_ _ _
23 Orce _ _ _ _ _ 1_ 1 _
24 Loma de la Rambla _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
25 Loma del Aspador _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
26 El Atalayon _ _ 2 _ 1 3_ _ 3
27 Cueva de Belda _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
28 Los Royos _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
29 Totana _ 4 _ _ _ 4_ 1 3
30 El Capitán _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
31 Torrequemada 1 1 _ _ _ 2_ 1 1
32 La Pijotilla _ 2 _ _ _ 2_ _ 2
33 Valencina de la Concepción 1 2 1 1 _ 5_ 4 1
Totais 28 57 3 1 3 267 6 62 27
Tabela 3
Contextos com “ídolos” falange em Portugal.
Tabela 4
Contextos com “ídolos” falange no sul de Espanha.
Nº Sítio
Cervus S p.
Equus Sp.
Sus Sp.
Bos Sp.
Ovis/Capra
Total
Simples
Afeiçoadas
Decorad as
1 Perdigões 34 34 1 1 2 72 8 52 11
2 Mercador _ 3 _ _ _ 3_ 3 _
3 M.N . Albardeiros _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
4 Anta Grande Olival da Pega _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
5 Olival d Pega 2b ? ? ? ? ? 3? ? ?
6 Gruta d Escoural _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
7 Porto Torrão _ 5 _ _ _ 5_ 5 _
8 S. Pedro 1 1 1 _ _ 3_ 3 _
9 Tholos Centirã _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
10 Anta da Pedra Branca _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
11 Tholos 8 de Alcalar _ 2 _ _ _ 2_ 1 1
12 Santa Justa 4 1 2 _ 1 9_ 6 3
13 Tholos da Serra da Vila _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
14 Lapa da Bugalheira _ 8 _ 1 _ 95 2 2
15 Conchadas _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
16 Tholos 4 de Trigache _ 1 _ _ _ 1_ 1 _
17 Penha Verde _ 1 _ _ _ 2_ 1 _
18 Tholos de S. Martinho _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
19 Carenque _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
20 V.N.S.P. _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
21 Olelas _ 1 _ _ _ 1_ _ 1
22 Leceia _ 3 _ _ _ 3_ 2 1
23 Lapa do Fumo _ 1 _ _ 1 1_ 1 2
24 Colecção M. Vaultier _ _ _ 2 _ 2_ _ 2
Totais 39 71 4 4 4 126 13 84 26
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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a estes, o ídolo dos Perdigões apresenta a particularidade
de uma faixa abaixo das tatuagens e a verticalidade do
ziguezague na face anterior.
Caso aparentemente único será a decoração em círculos
concêntricos presente numa das peças dos Perdigões
(Figura 7: 3).
Genericamente, estes motivos decorativos, feitos por incisão
ou pintados, remetem para uma temática abrangente, de
natureza ideológica, cuja iconografia, no todo ou em parte
dos seus motivos, ocorre em diferentes tipos de peças. Está
presente em recipientes cerâmicos (de que é exemplo
clássico o vaso do Tholos do Monte do Outeiro – Leisner,
1965), em betilos, variados “ídolos” placa e figurinhas
antropomórficas.
Sobre o sentido da temática subjacente a esta iconografia,
as teses tradicionais vêem nela a representação da “Deusa
Mãe” (Cardoso, 1995; Gonçalves, 2005), sublinhando o
carácter feminino que algumas destas peças apresentam,
nomeadamente a identificação ou sugestão do triângulo
púbico ou dos lábios vaginais, situações que também
ocorrem em algumas falanges: caso dos triângulos
presentes numa peça de Cabecito de Águilar (Leisner e
Leisner, 1943) e noutra de El Atalayon (Murillo Redondo,
1988) ou do afeiçoamento aprofundado e demarcado da
depressão central da parte proximal da falange, como
acontece na peça de Monte Novo dos Albardeiros
(Gonçalves, 2005).
Nos últimos anos, porém, tem-se assistido a uma crítica não
só do essencialismo que se encontra subjacente à
associação de uma multiplicidade de objectos e
representações à figura divina da “Deusa” (Bailey, 1994;
1996; Ucko, 1996; Robb, 2009; Valera e Evangelista, 2014),
mas também à classificação de uma grande variedade de
peças como “ídolos”, no sentido de imagens divinas objecto
de culto (Robb, 2009; Hurtado; 2010). Tem-se sublinhado a
diversidade estilística e o potencial diferenciador que essa
diversidade apresenta ao serviço das estratégias de
identificação, assim como a sua associação a desempenhos
mais tangíveis e concretos no âmbito das relações sociais. A
grande abrangência geográfica de uma iconografia bem
padronizada revela a existência de um fundo ideológico e
simbólico partilhado, mas a tónica é agora posta nas formas
diversificadas como esse fundo comum é expresso regional
e contextualmente e nos diferentes desempenhos e
objectivos que pode servir a nível social, político, identitário
ou ontológico.
Não é objectivo deste texto, porém, desenvolver o debate
hermenêutico em torno desta iconografia, nem aprofundar a
argumentação sobre a natureza simbólica, significado e
desempenho social dos “ídolos” falange. Pretende-se, antes,
orientar o questionário para um aspecto aparentemente
lateral relativamente a estas peças e que a colecção dos
Perdigões permite questionar: a escolha das falanges de
cervídeo e de equídeo e as suas implicações no estatuto
simbólico, social e económico destas espécies e dos seus
desenvolvimentos ao longo do 3º milénio a.n.e.
4. A cronologia e as espécies: questões colocadas pela
colecção dos Perdigões.
A generalidade dos autores aponta como razão da escolha
de primeiras falanges para a execução destes objectos
simbólicos a sua morfologia natural, sugestiva de um certo
antropomorfismo, o qual é depois reforçado por
afeiçoamento / decoração. Daí a preferência por primeiras
falanges de equídeo (em primeiro lugar) e de cervídeo (em
segundo), nas quais o antropomorfismo será mais sugestivo.
A razão apontada é a morfologia do osso, que é assim
isolado do animal a que pertence e dos sentidos que este
pode assumir do ponto de vista económico, social, simbólico,
ontológico, etc.
De facto, a morfologia das falanges é diferente de animal
para animal e essas diferenças são significativas mesmo
entre as primeiras falanges de equídeo e de cervídeo,
estando bem expressas numa inequívoca preferência pelas
de equídeo no cômputo global dos “ídolos” falange
peninsulares. Na colecção dos Perdigões, todavia, as
falanges de equídeo e de cervídeo apresentam-se com
números idênticos, contrariando a tendência geral. Tal facto
não seria digno de grande atenção não fosse a dimensão da
colecção deste sítio, que é bem superior à totalidade das
restantes peças inventariadas para o resto do país (e 47%
para cada espécie num universo de 72 é bem diferente de
50% num universo de 2 ou 4 exemplares), acrescida do facto
de revelar um comportamento diacrónico particular (o qual
também só nesta colecção pode ser percebido).
No que respeita à cronologia, todos os contextos de
proveniência dos “ídolos” falange nos Perdigões são
integráveis no 3º milénio a.n.e., estando a Fossa 16 e os
Sepulcros 1 e 2 datados pelo radiocarbono. Quanto à Fossa
40, não existindo ainda qualquer datação para as
deposições de cremações no seu interior, estão datados os
depósitos de cremações que a extravasam (Ambiente1) e
que estabelecem um terminus ante quem para a sua
utilização (Figura 10).
Figura 10
D
atações de radiocarbono para a Fossa 16,
Ambiente 1, Sepulcro 1 e Sepulcro 2 dos Perdigões (segundo
Valera, Silva, Márquez, 2014, acrescentado de uma data
ainda inédita para o sepulcro 1).
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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Estas datas, correlacionadas com as sequências
estratigráficas observadas, permitiram estabelecer uma
sequência para a utilização destas estruturas (Valera et al.
2013). A construção e primeiras utilizações dos Sepulcros 1
e 2 enquadram-se dentro do segundo quartel do 3º milénio.
A utilização do Sepulcro 1 estende-se até meados do milénio
altura em que a câmara do Sepulcro 2 é parcialmente
esvaziada e o seu átrio começa a ser utilizado, reutilizações
que se prolongam pelo terceiro quartel do milénio,
consubstanciando uma segunda fase de utilização bem
individualizada. É também de meados / terceiro quartel que
são efectuadas as deposições de restos de cremações na
Fossa 16 e Ambiente 1 (e muito provavelmente também na
Fossa 40). Ora se as falanges de equídeo estão presentes
em todos estes contextos (mais o da Fossa 9 e Sepulcro 3,
ainda não datados em termos absolutos), já as falanges de
cervídeo apenas estão presentes nos Sepulcros 1 e 2,
apresentando um comportamento diacrónico específico.
No Sepulcro 2, entre a primeira fase de utilização (segundo
quartel do 3º milénio) e a segunda (meados / terceiro quartel
do 3º milénio), observa-se uma inversão da proporção de
falanges de cervídio e de equídeo: na primeira fase as
falanges de cervídeo são claramente predominantes,
invertendo-se totalmente a situação na segunda fase de
utilização (Figura 11).
A situação de predomínio claro das falanges de cervídeo
também se observa no interior do Sepulcro 1, o qual
genericamente é contemporâneo da primeira fase de
utilização do Sepulcro 2. Por outro lado, as falanges de
equídeo são exclusivas nas Fossas 16 e 40, as quais são
genericamente contemporâneas da segunda fase de
utilização do Sepulcro 2, onde também predominam. Por
outras palavras, se juntarmos por um lado os contextos mais
antigos do Sepulcro 1 e do Sepulcro 2 (abrangendo o
segundo quartel do milénio) e, por outro, os contextos mais
recentes do Sepulcro 2 e as Fossas 16 e 40, verificamos que
a colecção dos Perdigões denota um primeiro momento em
que existe uma clara preferência por falanges de cervídeo
(71%) sobre as de equídeo (29%) e que num segundo
momento (meados / terceiro quartel do milénio) esta situação
se inverte, passando as falanges de equídeo a dominar
(67%) sobre as de cervídeo (33%) (Figura 12).
Esta situação não pode ser confrontada com os dados do
quadro geral, uma vez que para os restantes sítios não
temos faseamentos e cronologias absolutas que nos
permitam observar tendências como neste caso. Porém,
dada a dimensão da amostra dos Perdigões e do
faseamento que é possível estabelecer para os contextos de
proveniência das falanges, esta inversão bem marcada terá
significado cultural e dificilmente representará apenas uma
situação casuística. Que traduzirá então?
Comecemos por analisar a representatividade destas duas
espécies nas colecções faunísticas estudadas para o centro
e sul de Portugal. Dados estão actualmente disponíveis para
15 sítios (Tabela 5): Perdigões, Mercador, Moinho de
Valadares, Monto do Tosco, Porto Torrão, Porto das
Carretas, Monte da Tumba, S. Jorge, Outeiro Alto, Paraíso,
S. Pedro e Casa Branca 7 (no Alentejo); Leceia, Zambujal e
Penedo Lexim (na Estremadura).
Nos contextos não funerários já estudados dos Perdigões
(que, portanto, excluem da contabilidade os “ídolos” falange),
os quais cobrem toda a cronologia do sítio desde o Neolítico
Final ao Calcolítico Final / transição para a Idade do Bronze,
os equídeos são sempre vestigiais (com percentagens entre
0,3 e 0,7). Já os cervídeos estão sempre mais
representados, ainda que com percentagens relativamente
baixas (entre 1,5 e 4,4).
Esta raridade dos equídeos é comum a muitos dos contextos
considerados, frequentemente com percentagens inferiores
a 1%, valor ultrapassado ligeiramente no Mercador (1,4%) e
Outeiro Alto na fase neolítica (1,7%), e com relevância em S.
Jorge de Ficalho (2,7%), no Paraíso (4%), em S. Pedro (5%)
e no Porto torrão (1,5% e 4,3%). Já no Outeiro Alto (fase
calcolítica), a percentagem elevada de 34% resulta de se
terem contabilizado separadamente os dentes que estavam
integrados num único crânio, que funciona assim como um
único resto. Recalculando a percentagem esta é de 4%,
enquadrando-se com as anteriores. A estes valores foge
claramente o Porto das Carretas, tanto na sua fase de
Calcolítico inicial/pleno como na sua fase campaniforme,
com valores em torno aos 11%. Trata-se, contudo, de uma
amostra com um universo relativamente pequeno, pelo que
Figura 11
Relação falagens de equídeo / falanges de
cervídeo entre as duas fases de utilização detectadas no
Sepulcro 2.
Figura 12
Relação falagens de equídeo / falanges de
cervídeo entre os contextos de proveniência mais antigos
(Sepulcro 1 e primeira fase do Sepulcro 2) e os mais recentes
(segunda fase do Sepulcro 2, Fossa 16 e Fossa 40).
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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deve ser considerada com reservas, tanto mais que o
contemporâneo Mercador, localizado a cerca de 1 quilómetro
de distância e com uma colecção bem mais numerosa,
apresenta valores que se enquandram dentro do quadro
geral.
Relativamente ao cervídeo, a situação é genericamente
semelhante à que se observa também nos Perdigões:
valores sempre superiores aos dos equídeos em 2 a 4
pontos percentuais (ainda que com diferenças mais
reduzidas nos sítios da Estremadura), sendo as excepções o
Monte da Tumba (onde atingem 12%), o Porto das Carretas
e o Porto Torrão (este na sua fase do Calcolítico final), com
valores que variam entre os 14% e os 23% e S. Pedro, onde
atinge os 36%. Apenas no sítio do Paraíso os equídeos
apresentam uma percentagem ligeiramente superior à de
cervídeo.
Ou seja, os equídeos apenas apresentam números
relevantes numa colecção de universo muito reduzido (Porto
das Carretas), o que aconselha cautela na valorização dos
dados, tanto mais que as colecções mais numerosas e
abrangentes são genericamente concordantes, com
percentagens frequentemente abaixo de 1%, mas que em
alguns sítios alentejanos podem chegar aos 5%.
Por outro lado, estas percentagens baixas ou mesmo
residuais na maioria dos sítios não parecem sofrer
alterações muito significativas ao longo do tempo (quando há
informação diacrónica disponível). Esta situação é
particularmente evidente para o caso dos Perdigões, que
apresenta globalmente uma das maiores colecções
faunísticas já estudadas.
Esta raridade dos equídeos nos conjuntos de restos
faunísticos tem sido interpretada como consequência da sua
condição selvagem, considerando-se que a sua captura
seria difícil (Cardoso, 2001/02). A escassez é assim
apresentada como indicador do estado ainda selvagem,
continuando a domesticação de equídeos a ser motivo de
debate (Corina Von Lettow-Vorbeck, 2005; Bendrey,
2012).Tem sido presumida por alguns autores para o final do
3º milénio (Morales et al. 1998; Cardoso, 1995; Cardoso e
Detry, 2001/02), mas tal não está ainda demonstrado, tanto
mais que a raridade não se altera significativamente. Mesmo
a recente identificação da presença de Equus asinus em
Leceia, durante o Calcolítico, não permitiu determinar a sua
real condição, autorizando apenas que se levante a hipótese
de ser doméstico e ter chegado por via das interacções que,
durante o período, se estabeleciam com o Norte de Áfria,
onde teria o seu ascendente selvagem (Cardoso et al. 2013).
Algumas questões, porém, podem ser colocadas
relativamente a esta matéria. Uma primeira tem a ver com a
alegada dificuldade de caça dos equídeos. Percebe-se mal
que, operacionalmente, sejam particularmente difíceis de
caçar no Calcolítico, a não ser que a dificuldade se deva à
sua raridade. Efectivamente, a rarefacção dos equídeos
durante o Holocénico tem sido um fenómeno apontado para
territórios europeus extra peninsulares (Bendrey, 2012), mas
a sua sobrevivência no Ocidente e sul peninsulares tem sido
demonstrada e justificada por um papel de área de refúgio
que estas regiões teriam desempenhado (Cardoso, 1993;
1995), constituindo-se por isso mesmo como um dos
possíveis focos de domesticação (Brendley, 2012; Davis e
Mataloto, 2012). Estando presentes, não parece que a
captura de equídeos seja particularmente mais difícil que a
de cervídeos (não explicando, portanto, as sistemáticas
diferenças percentuais) ou mais perigosa que a de auroques,
os quais aparecem com raridade semelhante nas colecções
faunísticas. Num quadro de uma relação estritamente
predatória, a escassez destes animais nos registos
faunísticos poderá mais facilmente ser associada à
preponderância económica da pastorícia ou a factores
culturais específicos (como poderiam ser determinadas
prescrições e interditos relacionados com os lugares que os
equídeos ocupariam nos universos ideológicos humanos).
Tabela 5
Representatividade de restos de equídeos e
cervídeos em contextos do Neolítico Final e Calcolítico do
Alentejo e Estremadura.
NRI % NRI %
Perdigões
Neo Final - Sanja 1 e outros 3 0,7 19 4,4 C abaço, 2010
Neo Final- Fosso 6 6 0,4 23 1,5
Calco - Fosso 3 16 0,6 54 2
Calco - Fosso 4 4 0,3 42 3,3
Calco - Fosso 1 6 0,7 21 2,3
Moinho de Valadares
Fase 1: Neo Final 1 0,3 7 2,4
Fase 2: Calco _ _ 5 1,9
Mercador: Calco 52 1,4 104 3,5 M oreno Garcia, 2013
Monte do Tosco: Calco _ _ 4 1,6 Pajuello, 2013
Porto das Carretas
Fase 1: Calco 3 10,7 4 14,3
Fase 2: Calco Final 5 11,6 8 18,6
Porto T orrão
Calco ? 1,5 ? 2,2
Calco Final ? 4,3 ? 23
Monte da Tumba - Calco 2 0,5 48 12,0 Antunes, 1987
São Pedro - Calco 35 5,0 248 36,0 Davis e Mataloto, 2012
Paraíso - Neo Final _ 4,0 _ 3,0 Davis e Mataloto, 2012
S. Jorge - Neo Final 1 2,7 2 5,4 C ardoso, 1994
Casa Branca 7 - Calco 1 0,7 2 1,3 Costa, 2006
Outeiro Alto 2
Neolítico Final 5 1,7 3 1,0
Calcolítico 16 34,0 _ _
Zambujal
Calco ? 0,1 ? 3,4
Calco Final ? 0,1 ? 3,9
Leceia
Neo Final _ _ 7 1
Calco inicial 2 0,05 31 0,7
Calco pleno 2 0,05 124 1,1
Penedo Lexim - Calco ? 0,1 ? 1,7 M oreno Garcia e Valera, 2007
Sítio Ref. Bibliográfica
Valente, 2013
Costa, 2013
Cardoso, 2013
Cardoso e Detry, 2001/02
Cavalo Veado
Arnaud, 1993
Moreno Garcia e Valera, 2007
Valera et al., 2013
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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De facto, se equídeos e cervídeos são animais selvagens e
caçados, a sua presença na arte do 3º milénio a.n.e.
aparenta não ser exactamente a mesma. Os cervídeos estão
bem representados na arte parietal e ocorrem nas
cerâmicas, associados à “decoração simbólica” ou à
decoração campaniforme. No próprio recinto dos Perdigões
surgem representados num fragmento cerâmico (Figura 13)
e no Sepulcro 2 foi registada uma estatueta de cervídeo em
marfim (Valera, Evangelista et al., 2014, Figura 4: 3).
Já no que respeita a representações de equídeos, a sua
presença na arte pós-glaciar tem sido debatida, mas
continua a confrontar-se com problemas de identificação
e/ou de cronologia.
Em Portugal, representações de equídeos na arte do Vale do
Tejo (Fratel) e em Ribeiro das Casas (Almeida) têm sido
atribuídas ao Neolítico e assumidas como representações de
animais selvagens (Gomes e Neto, 2008/10).
Contudo, várias representações conhecidas em Espanha
(Figura 14) sugerem uma relação entre humanos e equídeos
que ultrapassa a simples atitude predatória, mas cuja
atribuição cronológica é ainda ambígua e debatida.
Assim, enquanto representação de equídeo claramente do 3º
milénio, apenas se conhece a escultura de uma cabeça num
vaso zoomórfico proveniente de Valencina de la Concepción
(Garcia Sanjuán, 2013; Valera, Evangelista, et al., 2014). Ou
seja, no imaginário subjacente às representações artísticas
do 3º milénio, cervídeos e equídeos não parecem partilhar
um mesmo estatuto, pelo menos no que respeita à sua
representação.
Mas a colecção de “ídolos” falange dos Perdigões levanta
ainda outras questões. Se atendermos aos inventários, o
número de falanges de equídeo dos contextos aqui
abordados (34) é praticamente igual ao número total dos
restantes restos de equídeos até hoje identificados na já
numerosa colecção de faunas dos Perdigões (35) e, com
excepção do Mercador, muito mais numerosos que os restos
de equídeos identificados em todos os outros contextos
considerados (ver Tabela 5). E se considerarmos apenas os
contextos Calcolíticos (período a que esta utilização das
falanges se parece restringir), então as falanges são mais
numerosas que os outros restos de equídeos (apenas 26).
Assim, quando se confrontam os restos de equídeos
presentes nos Perdigões, parece que há demasiadas
falanges relativamente a outros ossos destes animais. Já o
mesmo não acontece com os cervídeos, onde o número de
falanges (34) é bem inferior ao número total de restos (158).
Ora se a proporção de restos e falanges de cervídeo pode
indicar que teriam origem nos animais caçados e trazidos
(na totalidade ou em parte) para o sítio, já relativamente aos
equídeos a questão coloca-se: onde estão os restos de
equídeos correspondentes à elevada proporção de falanges
nos Perdigões?
Pode ser, naturalmente, uma questão de amostragem,
resultado de uma concentração de falanges nos contextos
funerários e uma maior dispersão dos restantes restos por
uma imensidão de estruturas que existem nos Perdigões.
Outra possível resposta poderá estar no facto de muitos dos
“ídolos” falange presentes nestes contextos funerários
poderem ser trazidos de fora (como muitos outros objectos o
são nos Perdigões), gerando uma desproporção entre o
número de falanges e os restos de equídeos presentes no
sítio e resultantes de carcaças ou partes de carcaças que
para ali foram trazidas (a predominância em quase todos os
sítios de partes apendiculares dos esqueletos reforça a ideia
de que as carcaças seriam previamente desmanchadas
noutros locais e só determinadas partes seriam trazidas para
os sítios – Moreno García, 2013).
Figura 13
Fragmento cerâmico com representação de
cervídeos proveniente do topo da Fossa 7 dos Perdigões.
Figura 14
Cenas que poderão documentar relações não predatória
entre humanos e equídeos: 1.
Tío Campano (Albarracín, Teruel); 2.
Doña Clotilde (Albarracín, Teruel); 3. Villar del Humo (Boniches,
Cuenca); 4. Canjorros de Peñarrubia (Jaén) (Segundo Lucas Pellicer
y Rubio de Miguel, 1986).
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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Nenhuma destas respostas, porém, explica a inversão na
preferência de falanges observada nos Perdigões e a
questão mantêm-se: que significa esta redução no uso de
falanges de cervídeo (cujos restos continuam a ser mais
representativos que os de equídeo) e o aumento do recurso
a falanges de equídeo a partir de meados do 3º milénio, ou
seja, num momento já de expressão do fenómeno
campaniforme? Poderá esta situação estar relacionada com
alterações no estatuto destes animais e mais concretamente
no estatuto e condição dos equídeos? Estariam as relações
humanas com o cavalo em processo de transformação?
É certo que não parecem existir alterações significativas da
proporção de equídeos no quadro geral dos registos
faunísticos portugueses durante o 3º milénio. Mas traduzirá,
por exemplo, o “vaso cavalo” de Valencina a entrada num
novo patamar relacional que ultrapasse a simples relação
predatória?
A arqueozoologia tem evidenciado dificuldades em identificar
inequivocamente a presença de equídeos domésticos no
calcolítico peninsular (em grande medida porque não se
“aprecian importantes diferencias en la variación de criterios
osteométricos entre las muestras del Neolítico hasta la Edad
del Bronce” (Liesau Von Lettow-Vorbeck, 2005: 191). Na
maioria dos casos estudados tem-se optado por uma
situação de selvagem ou simplesmente por uma
incapacidade de distinção. Contudo, para os sítios da
Extremadura espanhola de Cerro de la Horca e Fuente de
Cantos é defendido que o cavalo se encontra em processo
de domesticação (Castaños, 1992, citado em Liesau Von
Lettow-Vorbeck, 2005: 191).
As implicações sociais, económicas e ideológicas de uma
eventual domesticação de equídeos nesta época foram
recentemente sublinhadas (Garcia Sanjuán, 2013),
salientando-se sobretudo a relevância e o impacto que o seu
eventual uso como animal de transporte e montada teria no
âmbito da expansão das transacções regionais e
transregionais, um dos fenómenos mais marcantes do 3º
milénio a.n.e. e que é particularmente evidente em todos os
grande recintos do sul peninsular. A importância que esta
interacção a longas distâncias assume, nomeadamente de
materiais raros, exóticos e prestigiantes, é mesmo
considerada como um indicador indirecto de uma “revolución
socioeconómica que el caballo de monta habría producido”
(idem: 40). De facto, vários autores colocam a possibilidade
de a Península Ibérica ter sido um dos focos de
domesticação (Powell, 1971; Morales et al., 1998;
Uerpmann, 1990; Bendrey, 2012) e a aceitação da presença
de cavalo doméstico durante a Idade do Bronze (Lucas
Pellicer y Rubio de Miguel, 1986; Liesau Von Lettow-
Vorbeck, 2005; Bendrey, 2012) poderá indiciar que o
arranque do processo terá ocorrido ainda dentro do 3º
milénio. Por outro lado, são conhecidas as teses que
associam a domesticação do cavalo à rápida e extensa
expansão do fenómeno campaniforme na Europa durante a
segunda metade do milénio (Shennan, 1977; Gimbutas,
1977; Uerpmann, 1995; Vander Linden, 2004; Heyed, 2007;
Bendrey, 2012).
Num contexto de progressivo protagonismo do cavalo,
ganha relevo a cabeça de um equídeo ritualmente
depositada no fundo de uma fossa e envolvida por um
aglomerado pétreo no Outeiro Alto 2 (Figura 15). Trata-se de
uma fossa de cronologia calcolítica, que integrava
igualmente alguns fragmentos cerâmicos e um punção
metálico, e que se encontrava associada ao pequeno recinto
cerimonial identificado neste sítio, definido por um fosso que
apresentava uma entrada orientada ao solstício de Inverno e
que foi datado do terceiro quartel do 3º milénio AC (Valera,
Silva, Márquez, 2014). A forte carga simbólica do local era
ainda reforçada pela presença, prévia, de uma necrópole de
hipogeus do Neolítico Final e por outra posterior, de fossas e
hipogeus datados da Idade do Bronze.
No mesmo sentido vai a deposição de uma pata de equídeo
em conexão anatómica no topo de uma fossa no recinto de
fossos do Porto Torrão, num contexto já de cronologia
campaniforme (Valera e Filipe, 2004) (Figura 16).
Figura 15
Deposição de crânio de equídeo na Fossa 129 do
Outeiro Alto 2 (Segundo Valera et al, 2013).
Figura 16
Deposição de pata de equídeo no topo de uma
fossa no recinto do Porto Torrão.
Apontamentos de Arqueologia e Património – 10 / 2015
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Por outro lado, a intencionalidade de escolha de falanges de
uma determinada espécie para serem utilizadas como
elementos simbólicos ganha outra expressão quando
integramos na análise a situação recentemente
documentada em hipogeus do Neolítico Final no Alentejo: a
utilização exclusiva de falanges de ovinos / caprinos no ritual
funerário.
O primeiro caso identificado foi no sepulcro 5 da necrópole
da Sobreira de Cima, onde um conjunto de 57 primeiras,
segundas e terceiras falanges de ovinos / caprinos jovens se
encontrava associado a uma concentração de falanges
humanas no interior de um ossário (Valera e Costa, 2013).
Ainda no mesmo sítio, no sepulcro 1, foram registadas
outras 7 falanges igualmente de ovinos / caprinos. A mesma
particularidade ritual com o uso restrito de falanges destas
espécies foi documentada posteriormente na necrópole de
hipogeus da mesma cronologia do Outeiro Alto 2 (Valera e
Filipe, 2012). Ou seja, pelo menos no interior alentejano, as
falanges de cervídeo e equídeo não parecem ter sido
utilizadas como elemento simbólico, dando-se preferência às
de ovinos/caprinos.
Pelo contrário, no 3º milénio a.n.e. o uso ritual de falanges
de ovinos / caprinos parece tornar-se residual, emergindo
então a preferência por falanges de cervídeos e equídeos,
sendo que estas últimas, como os Perdigões e o quadro
geral parecem indicar, se vão tornando predominantes.
Esta evolução cronológica, a confirmar-se em novos
contextos seguros e escavados e registados com
metodologias recentes e adequadas, revela que a escolha
não se restringe às especificidades morfológicas dos ossos,
mas que também é relativa ao estatuto das espécies de
animais, podendo ser indicadores de alterações nos quadros
ideológicos, sociais e económicos que regulam as relações
homem-animal no período.
5. Nota final
A trajectória temporal do uso simbólico de falanges de
animais parece indicar que a escolha não resulta apenas dos
aspectos morfológicos dos ossos de cada espécie, mas está
igualmente relacionada com o animal e o seu estatuto social.
A situação registada com os “ídolos” falange nos Perdigões
poderá, assim, corresponder a mais um indicador indirecto
de alterações relativamente ao papel social desempenhado
por equídeos já em meados / segunda metade do 3º milénio,
tanto no plano sócio-económico como no eminentemente
ideológico, ainda que essas alterações continuem a ser mais
sugeridas do que propriamente demonstradas.
A possibilidade da sua domesticação nesta fase, não
estando inequivocamente atestada, é aceite como plausível
por vários investigadores, enquadrando-se bem com as
dinâmicas sociais que caracterizam a trajectória histórica do
período. Porém, é também indesmentível que o registo
arqueológico não apresenta traços bem marcados desse
processo, perpetuando uma certa ambiguidade. Mas os
indícios vão aumentando.
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This study presents a review of the large-sized mammals from the Upper Pleistocene of Portugal, excluding mustelids. Following the study of the materials kept in the Serviços Geológicos de Portugal and from other Institutions, as well as from sites presently under exploration, we studied materials collected by CEPUNL, namely at one of the most important sites known, the Figueira Brava cave. The studied sites presented unequal interest. As for as the older excavations, no elements concerning stratigraphy are known, except for the Furninha and Casa da Moura caves. For a list of geologícal conditions and age of sites, see QUADROS 150, 151. In the chapter concerning Paleontology, 26 taxa are described. 12 of these taxa are referred for the first time in Portugal (QUADRO 152), one of them - Equus caballus antunesi - being new to Science. Finally, the paleontological information, together with the faunistic associations allow us to made an essay of paleoclimatic evolution during the Upper Pleistocene. Until the Late Würm, the climate was essencially humid and warm; some taxa, as Canis lupus lunellensis, Hyaena hyaena prisca and Elephas antiquus survived here until the last glaciation, the latter even during the Late Würm, later than is known elsewere in Europe. Climate amenity extended out to Late Würm, interrupted by short periods of moderate cold, that justify the occurrence of species like Capra pyrenaica and Rupicapra rupicapra.
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Abstract:Almost 700 animal bones and teeth from this Chalcolithic site in the Alentejo are described and compared with other zooarchaeological collections in southern Portugal and adjacent regions of Spain. Approximately half the São Pedro bones derive from wild animals like aurochs, red and roe deer, horse, wild boar, rabbit, hare and lynx. The other half includes domesticated animals like sheep, goat, cattle and pig. The São Pedro fauna like that of several other contemporary sites in the interior of Portugal and Spanish Extremadura and Andalusia include many wild animals perhaps reflecting their relative small human population, the ephemeral nature of these settlements or even their military nature with soldiers less inclined to keep livestock. Bos and Sus are therefore present in both wild and domestic forms. Measurements of the aurochs, red deer and wild boar compared with those from other periods show that these three taxa were probably small in the Mesolithic but had recovered their larger size by Chalcolithic times. It is suggested that this may reflect over-hunting of large mammals in the Mesolithic – part of a general ‘environmental stress’ at that time. Resumo Cerca de 700 ossos e dentes de animais recuperados deste sítio Calcolítico no Alentejo são descritos e comparados com outras colecções zooarqueológicas da região. Cerca de metade dos ossos de São Pedro derivam de animais selvagens como o auroque, veado, corso, cavalo, javali, coelho, lebre e lince. A outra metade inclui animais domesticados como a ovelha, cabra, gado bovino e porco. A fauna de São Pedro, bem como de alguns sítios contemporâneos no interior de Portugal e na Extremadura e Andaluzia, inclui muitos animais selvagens. Este facto pode ser talvez indicador duma população humana de baixa densidade, povoamento ocasional ou o facto de se tratar de um povoado fortificado com pouca vocação produtora. Bos e Sus estão presentes em ambas as formas – selvagens e domésticos. As medidas dos auroques, veados e javalis em comparação com restos doutros períodos sugerem que estas três espécies eram mais pequenas no Mesolítico mas recuperam os seus tamanhos normais antes do Calcolítico. É sugerido que o tamanho reduzido destes animais reflecte a sua caça em excesso durante o período Mesolítico – parte de um ‘stress ambiental’ neste momento.
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As escavações arqueológicas realizadas desde 1983 no povoado pré-histórico de Leceia (Oeiras) conduziram à recolha de importante conjunto de ideoartefactos, de osso e de pedra os quais, quando exaustivamente publicados, constituirão uma importante fonte documental a nível do Neolítico e Calcolítico peninsulares. O presente trabalho refere-se a uma categoria de tais objectos, já bem documentada noutros arqueossítios do Centro e Sul de Portugal: os "ídolos-falange", representados em Leceia por três exemplares; as comparações que possibilitaram com outros, bem como as conclusões delas decorrentes, estão na origem da sua apresentação monográfica.
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A synthesis on the settlement network of the portuguese north left bank of Guadiana river, integrating a critique of the regional organization of the Late Neolithic and Chalcolithic societies done in the sequence of a bloc of rescue intervention of the construction of Alqueva dam. Published in 2013, the book is from 2005.