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A transformação das práticas educativas em saúde no sentido da escuta como cuidado e presença

Authors:
  • Associação de Pesquisadores de Núcleos de Estudos e Pesquisas sobre a Criança e o Adolescente
DOI: 10.4025/cienccuidsaude.v9i4.12048
Cienc Cuid Saude 2010 Out/Dez; 9(4):704-712
_______________
1
Artigo baseado na dissertação de mestrado de Maricondi MA. Caracterização das práticas educativas dos ‘agentes multiplicadores’ do Projeto
Nossas Crianças: Janelas de Oportunidades. São Paulo (SP): Escola de Enfermagem da USP; 2010.
* Psicóloga. Mestre em Ciências.
Assessora Técnica da Coordenação de Acompanhamento e Avaliação do Departamento de Atenção Básica do
Ministério da Saúde. E-mail: angela.mar@terra.com.br
** Enfermeira. Professora Associada do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da USP. E-
mail:
amchiesa@usp.br
A TRANSFORMAÇÃO DAS PRÁTICAS EDUCATIVAS EM SAÚDE NO
SENTIDO DA ESCUTA COMO CUIDADO E PRESENÇA
1
Maria Angela Maricondi*
Anna Maria Chiesa**
RESUMO
A partir de uma reflexão sobre as mudanças de concepção acerca do processo ‘saúde-doença-cuidado’, em que
pese ao caráter ainda bastante prescritivo, normativo e reducionista das práticas de educação e promoção da
saúde, apresenta-se uma pesquisa qualitativa de caracterização das práticas educativas de profissionais de
saúde que participaram da formação oferecida pelo projeto “Nossas Crianças: Janelas de Oportunidades”, uma
experiência de intervenção no âmbito da atenção primária/Saúde da Família ocorrida na cidade de São Paulo e
voltada à promoção do desenvolvimento infantil através do fortalecimento dos cuidados familiares a gestantes e
crianças menores de seis anos. O método escolhido para a coleta dos dados foi a “História de vida tópica”, uma
vez que o objeto do estudo está circunscrito a uma determinada área de experiência dos sujeitos, neste caso,
suas práticas educativas em saúde. As histórias, em número de seis, foram obtidas por meio de entrevistas
combinando-se uma escuta aberta e atenta para a exploração e aprofundamento das experiências dos sujeitos e
uma atitude diretiva para o levantamento de informações gerais e a manutenção do foco da investigação. No
material coletado foram identificadas sete categorias empíricas. A categoria “Abertura para a escuta e presença”
é apresentada e discutida aqui de forma detalhada, considerando-se o seu valor de contribuição como tecnologia
leve para a construção de uma clínica ampliada.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde. Educação em Saúde. Promoção da Saúde. Acolhimento. Humanização da Assistência.
INTRODUÇÃO
Apesar das mudanças de concepção sobre o
processo saúde-doença-cuidado que vêm
ocorrendo no Brasil, inicialmente impulsionadas
pela mobilização social e pelas conquistas do
Movimento da Reforma Sanitária, a educação
em saúde ainda mantém um caráter prescritivo e
normativo, privilegiando o comportamento
saudável de caráter individual, sem
problematizar as raízes do processo saúde-
doença. Tais práticas educativas revelam-se de
certa forma assemelhadas àquelas primeiras
práticas institucionalizadas com o nascimento da
Saúde Pública no Brasil em um contexto
histórico de controle de endemias rurais,
epidemias e surtos de doenças
infectocontagiosas em espaços urbanos
transformados pelo modo capitalista de
produção. Esse tipo de prática responsabilizava e
culpava os indivíduos por não gozarem de boa
saúde, e como consequência, os problemas
sanitários eram considerados uma decorrência
direta da “ignorância” dos indivíduos; a solução,
portanto, envolvia a imposição de determinadas
condutas para torná-los “mais capazes” de
resolver seus próprios problemas de saúde
(1-4)
.
Esse discurso normativo, que se transformava
em regras para a vida, era tido, portanto, como
verdadeiro e apropriado por todos, embora
devesse ser prioritariamente seguido pelos
amplos setores desfavorecidos. Para esse tipo de
pensamento, as condições concretas de
existência não tinham relações determinantes
com dada situação de saúde e de educação da
população
(5)
.
Uma revisão da literatura científica brasileira
e cubana sobre educação e promoção da saúde
na atenção primária
(6)
revelou que: (a) a despeito
da diferença de regime político-econômico entre
Cuba e Brasil, as ações educativas no campo da
saúde são predominantemente do tipo
informativo e de caráter prescritivo, com vistas à
assunção de estilos de vida saudáveis pelos
grupos considerados de risco, como os
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diabéticos, hipertensos e adolescentes grávidas;
(b) os enfermeiros são os profissionais de saúde
que mais experiência prática e de pesquisa vêm
acumulando sobre o assunto; (c) os grupos
educativos são operados nos recortes
programáticos vigentes na saúde pública
tradicional, utilizando metodologias
predominantemente de transmissão de
informações sobre doenças e seu tratamento
(dimensão assistencial), com muito pouco de
empoderamento para o exercício da cidadania
(dimensão emancipatória); e (d) as atividades de
comunicação/informação em saúde começam a
ser implementadas de forma inovadora e
participativa, mas ainda com baixa frequência e
pouca perspectiva de continuidade.
No Brasil, a educação em saúde instituiu-se
como prática no âmbito da saúde pública, e só
mais tarde como área de estudo e pesquisa. Duas
modalidades de práticas merecem destaque: a
primeira envolve a aprendizagem sobre
prevenção e tratamento de doenças; a segunda,
caracterizada a partir da década de 70 pela
Organização Mundial da Saúde/OMS como
promoção da saúde, leva em conta os processos
de produção social dos diferentes estados de
saúde. Nesta segunda modalidade, o conceito de
promoção da saúde aplica-se a toda a população
no contexto de sua vida cotidiana, indo além de
uma preocupação focada nas pessoas sob risco
de adoecer; e apoia-se em um conceito ampliado
e positivo de saúde ao integrar aspectos
individuais (físicos, mentais e emocionais),
sociais e ambientais (comprometimento com a
igualdade social e a preservação da natureza). A
promoção da saúde configura-se assim como
uma educação em saúde ampliada para
ambientes e políticas públicas saudáveis, com
reorientação dos serviços para além dos
tratamentos clínicos e curativos, utilizando
metodologias participativas inspiradas na
educação libertadora.
Em síntese, esta sobreposição de conceitos
parece indicar que a educação em saúde tem
potencial para transformar-se em um veículo
através do qual o ideário da promoção da saúde
poderá ser operacionalizado na atenção
primária
(6-7)
.
Uma pesquisa de mestrado
(6)
que buscou
caracterizar as práticas educativas dos
profissionais de saúde da família que foram
capacitados na metodologia do projeto “Nossas
Crianças: Janelas de Oportunidades” situa-se
neste campo de transformações, de avanços,
retrocessos e novos aprendizados. O “Projeto
Janelas” visava à promoção da saúde de crianças
de zero a seis anos através do fortalecimento dos
cuidados familiares, e previa ações de
capacitação de profissionais que seriam
responsáveis pela formação de outros
profissionais, na perspectiva de uma ampliação
das possibilidades de vínculo e escuta das
famílias, em diferentes espaços de intervenção
além daqueles convencionais das consultas e dos
grupos de orientação, utilizando materiais
educativos especialmente elaborados para essa
finalidade: a cartilha da família, o manual de
apoio da equipe e a ficha de acompanhamento
dos cuidados da criança pelo médico e
enfermeiro (www.grupomo.ee.usp.br).
Sete categorias empíricas foram identificadas
e analisadas nesse trabalho. A categoria
“abertura para a escuta e presença’” será mais
desenvolvida e detalhada neste artigo porque
seus elementos constitutivos e constituintes
poderão ser facilmente incorporados como
tecnologia leve
(3)
pelos profissionais que atuam
no contexto da atenção primária, na perspectiva
da construção de uma clínica ampliada.
METODOLOGIA
O estudo consistiu de uma pesquisa
qualitativa de abordagem compreensiva cujo
objeto foi a caracterização das práticas
educativas dos “agentes multiplicadores” do
Projeto Janelas, uma experiência de intervenção
no âmbito da atenção primária/Saúde da Família
ocorrida na cidade de São Paulo por ocasião da
implantação da Estratégia Saúde da Família e
voltada para a promoção do desenvolvimento
infantil através do fortalecimento dos cuidados
familiares na atenção a gestantes e crianças de
até seis anos de idade. Cento e quatorze agentes
multiplicadores oriundos de 10 distritos de saúde
(atualmente nove postos de Supervisão de
Saúde) - enfermeiros, médicos, dentistas,
psicólogos, etc. - foram capacitados entre agosto
e outubro de 2003. Desses, noventa e oito
sustentaram algum tipo de prática educativa com
as equipes e/ou as famílias, a partir de 2004.
A “História de vida tópica”
(8)
foi escolhida
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como método de coleta de dados, uma vez que a
investigação circunscrevia-se a um determinado
campo da experiência profissional dos sujeitos,
ou seja, o das suas práticas educativas. De
maneira geral, as técnicas de história de vida,
realizadas através de entrevista aberta ou
semiaberta e observação participante, exigem
uma consciência reflexiva maior, tanto dos
pesquisadores quanto de seus interlocutores, os
quais irão construir, conjuntamente, uma espécie
de pré-texto para, depois, inseri-lo em um
contexto mais complexo e amplo. O pesquisador
realiza um esforço contínuo de articulação das
informações obtidas em um determinado
contexto histórico, relacional e social, pois as
narrativas dos sujeitos sempre têm um caráter
incompleto. Os interlocutores não contam a sua
vida, eles refletem sobre ela enquanto a narram,
(re)construindo sentidos que vão do presente ao
passado e ao futuro, “portanto, o investigador
nunca encontrará a verdade e, sim, a versão
situada dos participantes nos episódios
narrativos. Igualmente, sua biografia, nalgum
momento, deverá ser posta no contexto
etnográfico”
(8:161)
.
As histórias foram tiradas combinando-se
uma escuta aberta e atenta para o
aprofundamento dos temas que se pretendia
desenvolver e aprofundar com uma atitude
diretiva para a obtenção de informações gerais e
manutenção do foco da atenção na experiência
objeto da investigação.
Foram realizadas entrevistas com seis
profissionais, as quais posteriormente foram
analisadas utilizando-se a análise temática
proposta por Bardin
(9)
.
O desenvolvimento do estudo ocorreu em
conformidade com o preconizado pela
Resolução 196/96 do Conselho Nacional de
Saúde e o projeto de pesquisa foi aprovado pelo
Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de
São Paulo, sob o Parecer N.º 793/2009.
RESULTADOS E ANÁLISE
As categorias empíricas encontradas foram
sendo identificadas durante as sucessivas leituras
do material coletado nas entrevistas. Elas se
referem ao desvelamento da trajetória dos
sujeitos no campo da formação que receberam
do ‘Projeto Janelas’ (área temática I), das
práticas educativas que desenvolveram com as
equipes e as famílias (área temática II) e da
percepção de impacto (no sentido estrito de
mudança) de suas ações educativas sobre as
famílias e as comunidades (área temática III).
Estas três grandes áreas temáticas foram
recortadas em sete unidades menores ou
categorias empíricas específicas.
A formação que receberam
Esta área temática foi subdividida em duas
categorias empíricas: (1) aspectos significativos
do processo de formação; e (2) percepção de
impacto nas próprias atitudes e condutas.
Os aspectos significativos do processo de
formação abordados pelos sujeitos de pesquisa
foram organizados em dois eixos: o primeiro
refere-se à qualidade e atualidade dos conteúdos
teóricos e técnicos aprendidos (por exemplo, a
importância de uma formação/saberes
direcionada para a prática/fazeres); e o segundo,
aos aspectos metodológicos do processo ensino-
aprendizagem (por exemplo, a alternância
equilibrada entre momentos de concentração e
dispersão; a articulação das dinâmicas de grupo
com os conteúdos teóricos e técnicos, numa
relação de sentido e significação para a
aprendizagem).
Quanto à percepção dos sujeitos sobre suas
próprias mudanças internas e de comportamento,
foram relatadas mudanças de atitudes como, por
exemplo, aumento da autoconfiança, aumento do
próprio interesse e motivação pelo
desenvolvimento infantil (incluindo os próprios
filhos), maior segurança interna para empreender
ações educativas no sentido da mudança, e
mudanças de comportamento tanto no sentido de
vincular-se afetivamente e contaminar
positivamente os outros quanto de conquistar
legitimidade e espaços de atuação como
educador em saúde.
As práticas educativas desenvolvidas com as
equipes e as famílias
Esta área temática foi subdividida em quatro
categorias empíricas: (1) abertura para a escuta;
(2) percepção de valores sociais e compreensão
dos determinantes sociais do processo saúde-
doença; (3) práticas emancipatórias e práticas
regulatórias; (4) práticas intersetoriais.
A categoria “abertura para a escuta”
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configurou-se a partir da importância que os
sujeitos de pesquisa deram à escuta, ao
estabelecimento de vínculos afetivos e aos
ambientes acolhedores, no sentido do diálogo e
da troca de experiências de caráter pessoal.
A categoria “percepção de valores sociais e
compreensão dos determinantes sociais do
processo saúde-doença” agrega percepções,
ideias e reflexões dos sujeitos sobre os
determinantes sociais do processo saúde-doença
relacionados a aspectos afetivos, familiares e
sociais, com especial ênfase na formação de
redes e na defesa de direitos de cidadania.
A categoria “práticas emancipatórias e
práticas regulatórias” reúne depoimentos que
apontam uma contradição dialética de modelos:
paradigma biomédico x paradigma crítico-
participativo. No âmbito das práticas calcadas no
paradigma biomédico, os principais conteúdos
encontrados referem-se a práticas sanitárias de
controle e regulação do comportamento da
população, negação e desvalorização do saber
popular, supervalorização do conhecimento
técnico-científico e transmissão vertical sem a
participação efetiva da população. No âmbito
das práticas inspiradas no paradigma crítico-
participativo aplicado ao campo da saúde, os
conteúdos enfatizam os processos participativos,
as interações afetivas, a amorosidade, a
suspensão de julgamentos morais, a ampliação
do olhar clínico, uma visão integral do ser
humano e o reconhecimento da criança como
sujeito de direitos.
A categoria “práticas intersetoriais” compõe-
se de relatos que reconhecem iniciativas próprias
no sentido da articulação e integração de saberes
e ações das diferentes políticas públicas, ainda
que pontuais e assistemáticas.
A percepção de impacto das ações educativas
com as famílias e as comunidades
Em relação às famílias, os relatos referem
maior sensibilidade dos cuidadores no tocante à
importância da vinculação amorosa com a
criança antes mesmo de ela nascer; aumento da
disposição das mães em conversar mais com
seus filhos, cantar e contar histórias para eles;
maior envolvimento da figura do pai ou avô no
cotidiano e na educação da criança; e aumento
da participação do pai nos grupos educativos e
nas consultas de pré-natal.
No âmbito da comunidade, quando as ações
educativas foram articuladas em torno de um
determinado tema da cartilha e desenvolvidas
durante um determinado mês nos diferentes
espaços de atendimento - consultas, grupos,
visitas domiciliares e reuniões comunitárias - as
famílias demonstraram interesse em disseminar
o assunto e disposição para orientar outras
famílias da comunidade (fortalecimento de
“famílias educadoras”).
Para a discussão e análise dos conteúdos
investigados foram utilizadas as seguintes
categorias analíticas: “aprender a conhecer”,
“aprender a fazer”, “aprender a conviver” e
“aprender a ser”
(10)
, além de práxis dialógica
(11-
12)
, empoderamento psicológico e
empoderamento comunitário
(13)
, liberdade e
autonomia
(11-12,14)
, regulação e emancipação
social
(15)
, escuta sensível
(16)
, presença implicada
e presença em reserva
(17)
e escuta-
experimentação
(18)
.
SOBRE A ESCUTA COMO CUIDADO E
PRESENÇA
Os depoimentos que configuraram a categoria
empírica “abertura para a escuta e presença”
relacionam-se à ênfase que os sujeitos da
pesquisa deram à escuta propriamente dita, à
importância da corresponsabilização e ao
fortalecimento dos vínculos afetivos com
potencial para o diálogo e a troca de experiências
pessoais
(6)
. Em outras palavras, eles situam-se no
campo das tecnologias leves
(3)
, ou seja, das
tecnologias relacionais humanizadoras do
processo de trabalho em saúde
(19)
.
A escuta ganha assim valor de cuidado e,
nessa perspectiva, tem posição privilegiada tanto
no campo da formação quanto no da prestação
de serviços em saúde. A escuta como cuidado
pode ser tomada como indicador sensível de
mudança de paradigma em tempos pós-
modernos, uma vez que se contrapõe ao
paradigma da ciência moderna positivista,
hegemônica, segundo o qual conhecer significa
quantificar, o que desqualifica as qualidades
intrínsecas do objeto; e conhecer significa
dividir e classificar, o que reduz a complexidade
do mundo
(15)
.
A escuta como cuidado transforma-se em
escuta qualificada porque se apoia
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simultaneamente na sensibilidade e no marco
teórico de referência do sujeito que ouve,
contempla e torna-se presente.
É possível identificar vários tipos de escuta
que caracterizam diferentes abordagens de
cuidado.
A “escuta sensível” é um tipo de escuta
bastante apropriado ao trabalho do pesquisador e
do educador. Trata-se de um”‘escutar-ver”
bastante influenciado pela abordagem rogeriana
em ciências humanas, pois se apoia na empatia.
Ter empatia significa ser capaz de sentir o
universo afetivo, imaginário e cognitivo do outro
para poder então compreendê-lo dentro de suas
próprias atitudes, comportamentos e sistemas de
ideias
(16)
.
[...] Então, numa situação dessas, é ouvir,
entender um pouquinho o que essa mãe está
trazendo; onde está, nas entrelinhas, o que ela
realmente está precisando, e que não é aquele
paracetamol para aquela dor de cabeça (S5).
Essa talvez seja uma grande lição que tenha
ficado da capacitação. É a de que o cuidar abre
portas. E esse cuidar pode, quem sabe, até ampliar
a empatia ou iniciar a empatia por alguns temas
(S6).
O ouvinte sensível não julga, não mede, não
compara. Sua compreensão ocorre sem adesão
ou identificação com o que ouve e no outro.
Neste sentido, sua escuta afirma a sua
congruência, pois ele transmite suas emoções,
seu imaginário, suas interrogações e até seus
ressentimentos. Afirma também sua presença ou
consistência, podendo se recusar a trabalhar com
alguém ou determinado grupo sob condições que
firam seus valores e sua filosofia de vida.
Nós não estamos condenando o fato delas [as
gestantes] não estarem querendo [o bebê], mas
sim apoiando, aceitando, recebendo aquilo,
entendendo o momento delas. [...] você pode
apoiar através das suas orientações, apoiar de
várias formas, mas que nós não estamos aqui pra
criticar nem pra julgar. Então, isso faz a diferença
do olhar (S2).
É possível identificar a “escuta sensível”
também através do que ela não é
(16)
, a saber:
- a escuta sensível não é uma rotulagem
social, pois, para além dos papéis e rótulos
sociais, o ouvinte sensível aprecia o lugar
diferenciado que cada um ocupa no campo das
relações sociais, o que lhe possibilita ouvir a
palavra criadora;
- a escuta sensível não é uma projeção de
nossas angústias ou desejos - nada fácil, mas
possível a partir de um trabalho consigo mesmo,
envolvendo até, se for o caso, um terceiro
ouvinte (um psicanalista ou psicoterapeuta, por
exemplo);
- a escuta sensível não se fixa na
interpretação de fatos - trata-se de não interpretar
porque todo e qualquer julgamento foi suspenso,
e nesta condição torna-se possível surpreender-
se diante do desconhecido e ter de aguentar
zonas de incerteza para depois arriscar algumas
proposições interpretativas, já que a confiança
está assegurada;
- a escuta sensível não se apoia em apenas um
órgão dos sentidos - pelo contrário, mesmo
sendo escuta, ela se amplia para todos os outros
sentidos.
Escuta; Cuidado; Presença
A escuta como presença nasce dos modos
como o cuidador cuida. Um agente de cuidados é
um sujeito implicado nas coisas que faz; é um
sujeito facilmente reconhecido por esse seu
fazer. As modalidades de “presença
implicada”
(17)
são “sustentar e conter”,
“reconhecer” e “interpretar e reclamar”.
1. Quanto a “sustentar e conter”, duas
funções primordiais são importantes durante
toda a nossa existência: a função de holding
(Winnicott), que significa sustentação e nos
garante a continuidade; e a função de containing
(Bion), que nos possibilita a transformação.
Famílias, grupos e instituições oferecem holding
aos indivíduos ao longo de toda a sua vida. Por
outro lado, para crescer e se expandir no mundo,
os indivíduos também precisam de containing
(continência), também oferecida pelas famílias,
grupos e instituições. Estas são formas
extraordinariamente importantes do cuidar.
Quando elas faltam, ocorre uma sobrecarga de
experiências emocionais obscuras e
perturbadoras. Assim, tanto para a experiência
da continuidade quanto para a da transformação,
a “presença implicada” do outro é indispensável.
Então, eles traziam muitas angústias, e a gente
percebeu que no primeiro e no segundo encontros
eles precisavam falar, falar dessas angústias. [...]
quando eu comecei a captar que essa angústia
precisava ser ouvida, que a gente precisava refletir
sobre isso, e a gente foi permitindo (S1).
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Durante a conversa com a mãe, eu olhava pra
criança e percebia algo que não era ainda pra mim
conhecido; eu me lembro então que, como eu
estava sentado de frente pra essa criança, eu
apenas bati na minha perna e, pra minha surpresa,
a criança pulou no meu colo! (S6).
2. No tocante à modalidade “reconhecer”,
pode-se dizer que muitas vezes cuidar é
simplesmente ser capaz de prestar atenção e
reconhecer o outro - o “objeto” dos cuidados -
no que ele tem de mais próprio e singular,
dando-lhe testemunho disso, o que funciona
como um retorno ao sujeito de sua própria
imagem. É uma modalidade tão discreta que
pode passar despercebida, mas a sua falta é
extremamente prejudicial à formação da
autoestima.
Eu imagino que se não estivéssemos atentos ao
luto que essa criança estava vivendo e se não
pudéssemos externar a nossa preocupação em
relação a esse luto, talvez ela não pudesse
vivenciar a sua tristeza com a força que uma
criança tem de se recuperar - com a sua resiliência
- e se reconstituir. [...] Só de não medicar uma
criança, eu acho um avanço! (risos). É possível
que alguém dissesse que precisasse de um
antidepressivo para uma, ou precisasse de uma
medicação específica para a enurese da outra,
mas, efetivamente, o reconhecimento desses
aspectos pode ser fundamental (S6).
3. A modalidade de cuidado “interpelar e
reclamar” é extremamente importante, pois sem
ela nenhum ser humano ascende à vida e à
humanidade. Trata-se de uma forma de cuidado
bastante ativa, em que o outro que interpela e
reclama funciona como um agente do confronto
e do limite, colocando o sujeito em contato com
fatos significativos da existência, como a morte,
a finitude, a alteridade e a lei. Chamar à vida,
chamar às falas e chamar à ordem são tão
necessários aos processos de constituição
psíquica quanto as funções de acolher e
reconhecer.
[...] Até aquele momento eu não havia sentido o
gosto da desgraça da infância brasileira e
principalmente da periferia, que eles
começavam a anunciar. Então, eles contavam
casos de abandono, violência, adoecimentos
incabíveis, maus-tratos, e tudo isso eclodia nas
multiplicações. Eu me lembro que um dia... eu...
eu... eu dei um grito, um grito no sentido de um
berro mesmo. Foi um momento em que eu,
olhando para todo aquele grupo, que era um grupo
imenso, e extremamente impressionado com o que
eu mesmo haveria de dizer, porque eu mesmo
ainda não havia ouvido, eu pergunto: _”Mas,
então, quem vai dizer às crianças que viver vale a
pena?”. E ainda tem todo esse silêncio, porque,
em situações muito hostis à vida, é muito difícil
dizer a alguém que vale a pena a vida. Mas me
lembro desse ponto de interrogação que eu
carrego até hoje, vou carregar talvez pra sempre
(S6).
Em algumas situações de cuidado, outra
modalidade de presença pode ser necessária,
porque terapêutica: a “presença em reserva”
(17)
.
Esta significa a capacidade do cuidador de
renunciar à sua própria onipotência, aceitando
sua dependência. Para cuidar do outro também é
preciso cuidar de si, deixando-se cuidar: a
mutualidade no cuidado é um dos princípios
éticos mais fundamentais. Assim, o cuidador
pode ganhar muito ao descobrir que o outro
também pode exercer funções cuidadoras e
cuidar dele de alguma forma. Essa “presença em
reserva” também cria um espaço vital
desobstruído e não saturado da presença do
cuidador e seus fazeres.
No limite, o cuidador ficará mais livre
daquelas modalidades de cuidado em que o
excesso de implicação despotencializa,
desqualifica e aprisiona os objetos do seu
cuidado (bebês, alunos, pacientes, etc.).
[...] Lembro de um dos conteúdos das oficinas que
é um dos capítulos iniciais da cartilha,
valorizando a vida, que orientava o cuidador a
valorizar qualquer aspecto vital que encontrasse
pela frente, fosse uma planta, fosse um pequeno
animal (S6).
A transformação das práticas educativas no
sentido da escuta como cuidado e presença
nasce da identificação de uma não escuta, de
uma não escuta que descuida, da “escuta surda”
de Luis Antonio dos Santos Baptista apud
Heckert
(18)
. A escuta surda refere-se àquelas
práticas em que se ouve sem escutar, isto é, que,
em lugar de indagarem acerca das evidências
que nos constituem enquanto sujeitos, terminam
elas mesmas por nos conduzir. Produz-se assim
uma medicina das evidências, uma psicologia
das evidências, uma enfermagem das evidências
que, tendo seus procedimentos dirigidos por
naturalizações, pouco consegue captar as
singularidades que permeiam o humano, a
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variabilidade e imprevisibilidade que constitui o
vivo”
(18:7)
. Neste sentido, a escuta surda é um
ato protocolar, uma técnica de coleta de
evidências ou sinais. Seu efeito mais danoso é a
tutela e a culpabilização dos sujeitos, uma vez
que fala por em lugar de falar com eles.
Transforma-se assim em uma escuta moral, pois
é prescritiva e julgadora, mera repetição de
formas instituídas. A escuta surda [...] não se
lembra do rosto e dos nomes dos usuários e dos
profissionais, da cor dos olhos e da pele, dos
cheiros, das rugas e cicatrizes (marcas do
vivido), dos saberes e histórias”
(18:8)
.
Em sentido contrário ao da estagnação e
repetição do instituído situa-se a “escuta-
experimentação” de Suely Rolnik apud
Heckert
(18)
. Abrir-se à alteridade implica em
desviar-se do campo da escuta como técnica para
mergulhar no plano da escuta como
experimentação, isto é, como perturbação do
instituído; portanto, não se trata de ensinar a
escutar, mas de entrar em contato, atiçar este
plano do coletivo do qual todos nós emergimos,
onde há saberes-experimentações, e não saberes-
formatos-definidos a serem aplicados
(18)
.
Assim, uma vez que as práticas de cuidado e
os modos de escuta a elas relacionados são
engendrados num determinado campo de
relações de saber e de poder, torna-se
fundamental garantir que suas mútuas relações
estejam permanentemente sob análise crítica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No âmbito das práticas educativas em saúde,
os resultados aqui apresentados são
especialmente relevantes em um cenário de
mudança de concepção teórica sem alteração
significativa das práticas, preponderantemente
de caráter prescritivo e normativo, que focalizam
os comportamentos saudáveis individuais sem
problematizar as raízes do processo saúde-
doença e, consequentemente, sem contribuir para
a transformação da realidade de diferentes
grupos e classes sociais. Esses resultados
nasceram da articulação de sete categorias
empíricas recortadas dos discursos dos sujeitos
de pesquisa com algumas categorias analíticas
apoiadas em Paulo Freire, Boaventura de Sousa
Santos, René Barbier, Luís Claudio Figueiredo,
Sérgio Resende Carvalho e Denise Gastaldo. As
categorias analíticas escolhidas funcionaram
como verdadeiras lentes organizadoras e
significadoras dos conteúdos das entrevistas. Os
principais resultados giram em torno de aspectos
da formação recebida, das práticas educativas
desenvolvidas com as equipes de saúde e as
famílias e da percepção de impacto dessas ações
sobre as famílias e comunidades.
Tanto a formação recebida quanto as práticas
educativas desenvolvidas parecem ter sido
ampliadas para além do olhar biomédico, pois
incluem aspectos emocionais e relacionais de
indivíduos, grupos e famílias. Todos os sujeitos
identificam a abordagem crítico-participativa da
formação que receberam e o impacto dela sobre
suas atitudes e comportamentos, o que indica um
processo de empoderamento com maior abertura
para a escuta e algum tipo de transformação em
suas práticas no sentido do empoderamento da
população.
Especialmente em relação à maior ou menor
incorporação de atitudes e condutas orientadas
pelo respeito à autonomia da população,
entende-se que essas oscilaram entre valores
normativos de manutenção e novos valores
civilizatórios. Essa dialética regulação-
emancipação variou de sujeito para sujeito, com
uma preponderância perceptível do polo da
emancipação social.
Diante do cenário descrito, é possível
concluir que uma importante lacuna na
formação dos profissionais de saúde, a qual, se
adequadamente compreendida, poderá embasar
iniciativas com vistas à qualificação dos
processos de educação permanente em saúde.
Tal lacuna, muito mais do que certa falta ou
carência de informações técnicas e científicas,
refere-se à dimensão do “aprender a fazer”.
Compreende-se que o processo ensino-
aprendizagem deve acontecer dentro e fora da
sala de aula, nos espaços acadêmicos e nos
serviços simultânea e articuladamente. Esse
modo de conduzir tal processo cria uma
oportunidade ímpar de integração entre teoria e
prática que resulta no exercício de uma práxis
dialógica, com suas características essenciais de
troca, compartilhamento e horizontalidade do
poder sem negação das diferenças, pois é neste
processo dialógico que as diferenças vão sendo
compartilhadas.
O questionamento do modelo biomédico, em
Práticas educativas em saúde: a escuta como cuidado 711
Cienc Cuid Saude 2010 Out/Dez; 9(4):704-712
que o médico ou seu simulacro assume o maior
poder pelo maior saber, gera uma possibilidade
de aproximação real dos profissionais de saúde
com a população. Essa aproximação vivifica o
contato e faz cair determinadas máscaras e
papéis sociais. Um contato assim mais real
exige, por sua vez, uma postura de escuta e
presença implicada. Quando as pessoas se
vinculam, seus universos confrontam-se,
desafiam-se, dialogam. Surgem dúvidas,
angústias, incertezas, diferenças que até podem
parecer intransponíveis. A escuta sensível, a
escuta-experimentação e a escuta qualificada não
negam a assimetria dos lugares que ocupam os
profissionais de saúde e a população.
Se avançar no sentido de um agir em saúde
de caráter mais emancipatório do que regulatório
significa investir na formação em geral e na
educação permanente em particular, tais
processos formativos deverão articular
conhecimentos que não fragmentem a
compreensão do processo saúde-doença-
cuidado; além disso, deverão promover o
desenvolvimento de habilidades relacionais
centradas na escuta, oportunizando a
convivência e a aprendizagem em diferentes
espaços dialógicos como a sala de aula, o serviço
e a comunidade, num ir e vir dialético capaz de
sustentar o novo, a transformação e a vida.
THE TRANSFORMATION OF HEALTH EDUCATION IN THE SENSE OF HEARING AS
CARE AND PRESENCE
ABSTRACT
Starting from a reflection about changes of conception on the process ‘health-sickness-care’ in spite of the still
very prescriptive, normative and reductionist character of the practice of education and health promotion, presents
a qualitative research on characterization of educational practices of health professionals who participated on the
training offered by Project ‘Our Children: Windows of Opportunities’, an experience of intervention within primary
care/family health that took place at São Paulo city and was dedicated to promote child development by
strengthening family care of pregnant women and children under six years old. The method chosen to collect data
was the ‘topical life story’, once the object of study is limited to a certain area of expertise of the subjects, in this
case, their health education practices. The stories, six in number, were obtained through interviews combining an
open and attentive listening to the exploration and deepening of the experiences of the subjects and an attitude
survey of policy for the general information and maintenance of the focus of the investigation. The collected
material identified seven empirical categories. The category 'openness to listening and presence' is presented
and discussed here in detail considering the value of its contribution as a soft technology for building an expanded
clinic.
Key words: Primary Health Care. Health Education. Health Promotion. User Embracement. Humanization of Assistance.
LA TRANSFORMACIÓN DE LAS PRÁCTICAS EDUCATIVAS EN SALUD HACIA EL
ESCUCHAR COMO CUIDADO Y PRESENCIA
RESUMEN
A partir de la reflexión sobre los cambios de concepción relativos al proceso ‘salud-enfermedad-cuidado’, en que
pese el carácter todavía demasiado prescriptivo, normativo y reduccionista de las practicas de educación y
promoción de la salud, presenta una investigación cualitativa de la caracterización de las prácticas educativas de
los profesionales de la salud que participaron en la capacitación ofrecida por el Proyecto ‘Nuestros Hijos:
Ventanas de Oportunidades’, una experiencia de intervención en el ámbito de la atención primaria/salud de la
familia que tuvo lugar en la ciudad de Sao Paulo y orientada hacia la promoción del desarrollo del niño a través
del fortalecimiento del cuidado familiar para las mujeres embarazadas y niños menores de seis años. El método
elegido para recoger los datos fue la 'historia de vida tópica', ya que el objeto de estudio es limitado en una área
particular de la experiencia de los sujetos, en este caso, sus prácticas educativas en la salud. Las historias, seis
en total, se obtuvieron a través de entrevistas, combinando un abierto y atento escuchar a la exploración y
profundización de las experiencias de los sujetos y una actitud directiva para levantamiento de información
general y mantener el foco de la investigación. En el material recolectado fueron identificadas siete categorías
empíricas. La categoría 'apertura a la escucha y la presencia' es presentada y debatida en detalle, considerando
el valor de su contribución como tecnología liviana para la construcción de una clínica ampliada.
Palabras clave: Atención Primaria de Salud. Educación en Salud. Promoción de la Salud. Acogimiento. Humanización de la Atención.
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Endereço para correspondência: Maria Angela Maricondi. Rua Lisboa, 1208, apto 93, Bairro Cerqueira Cesar,
CEP: 05413-001, São Paulo, São Paulo.
Data de recebimento: 02/07/2010
Data de aprovação: 04/12/2010
... Em pesquisa domiciliar com amostragem em clister na Etiópia, demonstrou que as práticas integrativas do parto e nascimento como o contato pele a pele e a amamentação exclusiva, foram contempladas, merecendo atenção ao tempo disponibilizado ao banho do recém-nascido nas primeiras vinte e quatro horas e cuidados com o coto umbilical A13 (Callaghan-Koru, et al., 2013). Assim, autores ressaltam que o momento pré parto, parto e pós parto, são propícios para desenvolver ações de educação em saúde, momentos para formação de grupos, orientações de altas, enfim, conhecimentos para ser disseminados na comunidade e desfazer mitos que perpetuam em gerações, (Rios & Vieira, 2007); (Maricondi & Chiesa, 2012). ...
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According to the humanization model of assistance to labor and childbirth, there must be incentive to skin-to-skin contact from the professionals who work at this area. Objective: Investigating scientific evidence on exclusive breastfeeding during the first hour of life. Method: Integrative review carried out on the Literature of Latin America and the Caribbean and the Medical Literature Analysis and Retrieval System On line by Pubmed databases. Results: The topics that appeared on the articles studied focused on the incentive to skin-to-skin contact; breastfeeding as a benefit to the bond between mother and baby; consideration of opinions from puerperal women regarding breastfeeding. The results highlight the necessity of training area towards promoting breastfeeding during the first hour of life, as well as the importance of public authorities support on the theme. Conclusion: Benefits of exclusive breastfeeding during the first hour of and contributing in a useful way to a healthy society.
... Therefore, when we listen to the other and value their singularities, we experience care and advance in strategies to strengthen the autonomy of the subjects and consequent promotion of their health, indicating a process of empowerment with greater openness to listening and some kind of transformation in practices towards the empowerment of the population. 28 The access scenario that refers to the multiple dimensions of the vulnerability of quilombola women reinforces the imminent importance of individual and community empowerment strategies in an equitable approach and endorses practices and discussions that promote the health and quality of life for these women. ...
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Objetivo: Discutir o acesso de mulheres quilombolas em vulnerabilidade social para o alcance da equidade em saúde. Método: Pesquisa de abordagem qualitativa articulada com o referencial metodológico de Paulo Freire, durante a realização de Círculos de Cultura com dez mulheres quilombolas. Resultados: Como temas relevantes do acesso são desvelados o transporte, mobilidade urbana, informação em saúde e o racismo. O empoderamento comunitário é imprescindível para o alcance da equidade em saúde. Instiga-se um aprofundamento desta temática, pois se percebe que o constrangimento, insegurança e culpabilidade destas mulheres ao relatarem algumas omissões sobre sua saúde ainda se mantém presente. É visível o alcance do empoderamento ao terem atitudes perante a sua saúde e autocuidado. Conclusão: Destaca-se a importância de se impulsionar uma consciência cidadã, a emancipação e fortalecimento de sujeitos a fim de garantir o acesso universal e equitativo como construção e direito de todos.
... Desse modo, para a escuta qualificada necessita-se utilizar os demais sentidos, a fim de captar o que o sujeito quer dizer e, muitas vezes, não consegue. 13 Nesse sentido, escutar transcende o ouvir as palavras do outro, é preciso apreender o sentido que a pessoa que fala dá para sua narração. 6 É uma ação difícil, pois é essencial estar e mostrar-se disponível para o outro. ...
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The aim of the study was to analyze the conceptions of Family Health professionals about listening to women in situations of violence. This is a qualitative, participant research developed with 38 professionals (nurses, nursing technicians and community health agents). Data were produced in six pedagogical workshops held from November 2015 to January 2016 and were submitted to thematic analysis. Listening was conceived by professionals as a practice that needs to go beyond what the woman reports and requires empathy, sensitivity, serenity and a non-judgmental attitude. It also needs indirect questioning, in a private, confidential and protected environment. The limiting factors indicated by respondents were lack of time, excessive demand on the unit, lack of empathy, unpreparedness on the part of professionals and lack of vigilance of the aggressor. As actions and solutions, the valorization and qualification of listening as a technique and the organization and planning of activities with individual and collective listening were emphasized. We conclude that the Family Health Strategy unit is a service in which listening should be encouraged through the qualification of this practice, aiming at the embracemeng and integral care of women in situations of violence.
... Quando se pensa em um processo de ensino e aprendizagem voltado para a mudança, mais do que investir em suprir faltas ou carências de informações científicas, os processos formativos devem articular conhecimentos que levem à compreensão integral do processo saúde-doença e promovam o desenvolvimento de habilidades relacionais, criando oportunidade de integração entre teoria e prática que resulta no exercício de uma práxis pautada na troca, compartilhamento e horizontalidade do poder (17) . ...
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Este trabalho tem como objetivo analisar as concepcoes de educacao, que permeiam as praticas dos enfermeiros e seu papel de facilitador na educacao permanente. Trata-se de um estudo qualitativo e analitico, com enfermeiros da Estrategia de Saude da Familia de Sao Carlos/SP. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas e submetidos a tecnica de analise de conteudo tematico-categorial.Constituiram-se tres categorias de analise. Na primeira, identificam-se, nas praticas educativas relatadas, a educacao bancaria e aproximacoes com conceitos e praticas de educacao permanente. Na segunda, ferramentas utilizadas pelos profissionais, como rodas de conversa e reunioes de equipe, refletiram a concepcao de educacao permanente. Na ultima, os entrevistados referiram como importante seu papel de educador e esta se apresentou mais como facilitador do processo do que como fonte de informacoes. Alguns preceitos da educacao permanente mostram-se incorporados, considerando-a como espaco para organizacao do trabalho, mas persiste o desafio da desconstrucao da pratica educacional verticalizada. Aponta-se a necessidade de investimentos na mudanca dos processos formadores de ensino e servico de modo a proporcionar o cuidado integral.
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OBJECTIVE: To report on the relationships between the workers and service users and the implications of these for continuity of care. METHODS: Qualitative research, undertaken based on a case study, between February and July 2012. The subjects were health workers and the users of a Family Health Unit(FHU). Participant observation, interviews and document and record searches were made. RESULTS: Instances were evidenced in which the team generalizes the service users, which disregards their uniqueness; this dismisses the service user, revealing the fragility of the comprehensiveness of the care. CONCLUSION: There are implications of colonialist relationships which consider the service users as objects, affecting the continuity of the care. The nurses' participation in the processwas revealed, emphasizing the need to deepen reflection in regard to professional practice.
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Neste trabalho, descrevemos o arcabouço teórico e as estratégias centrais da Promoção à Saúde, seguidos de uma análise crítica tanto intra como extra-paradigmática ao ideário do referido movimento. A partir de uma perspectiva intra-paradigmática, privilegiamos o enfoque ao qual se filia a Promoção à Saúde, as teorias crítico-sociais, para analisar um dos seus conceitos estruturantes - o conceito de empoderamento -, explorando seu potencial para a transformação das práticas comunitárias e profissionais em saúde. A seguir, refletimos sobre a Promoção à Saúde a partir de uma perspectiva extra-paradigmática, buscando nas teorias pós-estruturalistas novas possibilidades analíticas para entender as relações de poder que se estabelecem a partir das práticas e políticas de Promoção à Saúde. Ao longo deste artigo, articulamos os princípios teóricos explorados a questões contextuais e a debates atuais na área da saúde no Brasil.
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Esta é uma pesquisa qualitativa de abordagem compreensiva que tem como objeto a caracterização das práticas educativas dos agentes multiplicadores do Projeto Janelas, uma experiência de intervenção no âmbito da atenção básica/saúde da família ocorrida na cidade de São Paulo e voltada para a promoção do desenvolvimento infantil através do fortalecimento dos cuidados familiares para gestantes e crianças menores de seis anos. Objetivos: (1) descrever as práticas educativas dos profissionais com as equipes de saúde e as famílias; (2) identificar outras experiências de formação que influenciaram essas práticas; e (3) correlacionar as experiências relatadas com o processo de formação ocorrido no Projeto Janelas. Método: foi escolhida a história de vida tópica porque o objeto de estudo está circunscrito a uma determinada área de experiência dos sujeitos, neste caso, suas práticas educativas em saúde. As histórias, em número de seis, foram obtidas por meio de entrevistas combinando-se uma escuta aberta e atenta para a exploração e aprofundamento das experiências dos sujeitos e uma atitude diretiva para o levantamento de informações gerais e manutenção do foco da investigação. Resultados: no material coletado foram identificadas as categorias empíricas aspectos significativos da formação recebida; percepção de impacto nas próprias atitudes e condutas; abertura para a escuta; compreensão dos determinantes sociais do processo saúde-doença; práticas emancipatórias e regulatórias; práticas intersetoriais; fortalecimento dos cuidados familiares que, na discussão, foram articuladas com as categorias analíticas aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser; práxis dialógica; empoderamento psicológico e empoderamento comunitário; liberdade e autonomia; regulação e emancipação social. Os principais resultados referemse a aspectos da formação recebida, das práticas educativas desenvolvidas com as equipes e as famílias e à percepção de impacto dessas ações com as famílias. Conclusão: tanto a formação recebida quanto as práticas desenvolvidas caracterizam-se pela ampliação do olhar biomédico porque incluem aspectos emocionais e relacionais de indivíduos, grupos e famílias. Todos os sujeitos reconhecem e valorizam a abordagem crítico-participativa da formação que receberam, o impacto dela sobre determinadas atitudes e comportamentos (empoderamento dos profissionais), maior abertura para a escuta e algum tipo de transformação em suas práticas educativas no sentido do empoderamento da população. Quanto à incorporação de atitudes e práticas orientadas pelo respeito à autonomia da população (dialética regulaçãoemancipação), ela variou de sujeito para sujeito, com uma preponderância perceptível do pólo da emancipação social. This is a qualitative research with comprehensive approach that has as object the educational practices of the multiply agents of Project Our Children: Windows of Opportunities, an experience of intervention at the scope of basic attention/familys health that occurred in the city of São Paulo and was focused on the promotion of child development trough the strengthening of family care for pregnant women and children under six years. Goals: (1) describe the educational practices of professionals with the health teams and families; (2) identify other training experiences that influenced these practices; and (3) correlate the reported experiences with the occurred process of projects formation. Method: the topical life story was chosen because the object of study is limited to the subjects given area of experience, in this case, their health education practices. The stories, in number of six, were obtained through interviews combining an open and attentive listening for the exploration and deepening of the subjects\ experiences with an attitude policy for attainment of general information and maintaining the focus of investigation. Results: in the material collected were identified the empirical categories significant aspects of the training received; perceived impact on their own attitudes and behaviors; openness to listen; understanding of social determinants of health-disease; emancipatory and regulatory practices; intersectorial practices; strengthening of family cares -that in the discussion were combined with the analytical categories -learning to know, learning to do, learning to live together, learning to be; dialogical praxis; psychological and community empowerment; freedom and autonomy; regulation and social emancipation. The main results refer to aspects of the training received, the educational practices developed with the teams and families and the perception of the impact of these actions with the families. Conclusion: Both the training received and the developed practices characterized by the expansion of the biomedical gaze because they include emotional and relational aspects of the individuals, groups and families. All subjects recognize and value the critical and participatory approach of the training they received, the impact of it on certain attitudes and behavior (empowerment of the professionals), more openness to listen and some kind of transformation in their educational practices in the sense of the empowerment of the population. As to the incorporation of attitudes and practices based on respect for autonomy of the population (regulation emancipation dialectic), it varied from subject to subject, with a noticeable preponderance of the pole of social emancipation.
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RESUMO Neste ensaio busca-se aprofundar a reflexão sobre o processo de análise na pesquisa qualitativa a partir de autores referenciais e da experiência da própria autora. O texto está organizado em forma de decálogo por meio do qual é tratado o tema processualmente. A hipótese é de que uma análise para ser fidedigna precisa conter os termos estruturantes da investigação qualitativa que são os verbos: compreender e interpretar; e os substantivos: experiência, vivência, senso comum e ação social. A seguir a proposta avança por 10 passos que se iniciam na construção científica do objeto pela sua colocação no âmbito do conhecimento nacional e internacional, na elaboração de instrumentos que tornem concretos os conceitos teóricos, na execução de um trabalho de campo que envolva empaticamente o investigador no uso de vários tipos de técnicas e abordagens, tornando-o um construtor de relações, de observações e de uma narrativa em perspectiva. Por fim, a autora trata da análise propriamente dita, mostrando como o objeto, que já vem pensado em todas as etapas anteriores, deve se tornar um construto de segunda ordem, em que predomine a lógica dos atores em sua diversidade e não apenas as suas falas, dentro de uma narrativa teorizada, contextualizada, concisa e clara.
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Este artigo discute a teoria e prática da educação e saúde. Parte da idéia da hegemonia, na prática pedagógica em saúde, de estratégias ligadas à noção de que a apreensão de saber instituído sempre leva à aquisição de novos comportamentos e práticas. Diferentes axiomas têm norteado as práticas de educação e saúde em momentos distintos e/ou justapostos. O primeiro axioma volta-se para a idéia da superação da relação de determinação dos conhecimentos sobre as práticas; o segundo refere-se à relação de determinação das representações sobre as práticas; o terceiro vincula-se à análise das representações dentro do tradicional quadro de erros e acertos; o quarto trata da relação de reciprocidade entre as representações e as práticas; e o quinto se traduz na importância de se considerarem as práticas como passíveis de reelaboração pelas representações, apontando assim o lugar da experiência no entendimento dos processos de adoecimento dos sujeitos, bem como a forma como culturalmente constroem a doença. O artigo destaca a necessidade de se buscar uma articulação entre as representações sociais e a experiência da doença nas práticas educativas em saúde.
Article
RESUMO A presente reflexão discute a utilização de tecnologias relacionais em saúde, para que possa favorecer a implementação das diretrizes preconizadas na Política Nacional de Humanização (PNH) proposta pelo Ministério da Saúde. Para a efetiva implantação deste processo de mudança, os trabalhadores de saúde deverão participar de processos educativos em que seja valorizado o vínculo com os usuários, assim como a construção de uma relação dialógica que valorize a subjetividade de ambos os sujeitos envolvidos neste processo de trabalho. Assim, tanto o processo de formação quanto o de construção das políticas de atenção à saúde precisam reconhecer e aceitar não só os valores, crenças, culturas, necessidades de auto-estima e valorização, mas também os desejos, emoções e sentimentos dos trabalhadores e usuários. Desta forma, a primazia de um diálogo que vá além da comunicação entre o sujeito trabalhador e o usuário deve ser encarada como um desafio a todo o Sistema Único de Saúde, e sem esse diálogo não haverá a reversão do modelo assistencial vigente.
Escuta sensível na formação de profissionais de saúde
  • R Barbier
  • Fepecs-Ses-Gdf
  • Brasília
  • De
Barbier R. Escuta sensível na formação de profissionais de saúde. Conferência na Escola Superior de Ciências da Saúde -FEPECS -SES-GDF, Brasília, julho de 2002. Disponível através de http://www.barbierrd.nom.fr/ESCUTASENSIVEL.PDF (acessado em 10.03.2010).