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Os canais de navegação do século XIX no Norte Fluminense

Authors:
Campos dos Goytacazes/RJ
13
1.1 Os canais de navegação do século XIX no Norte Fluminense
Arthur Sofati*
muitas vozes a armar que o documento conhecido como Roteiro
dos Sete Capitães, do século XVII, é falso
1
. No entanto, se ao menos a
descrição geográca que faz da planície dos Goitacases, tem sustentação, havia
nela uma intrincada rede hídrica constituída por cursos d’água e lagoas que
convergiam para os rios Itabapoana, Paraíba do Sul e Lagoa Feia e com saída
por uma considerável quantidade de braços do delta do Paraíba do Sul. Ainda
no século XVIII, o capitão Manoel Martins do Couto Reis tinha diculdades
em descrevê-la (REIS, 1785).
Por mais que desejassem o domínio deste mundo aquoso, os colonos
europeus não tiveram alternativa senão curvar-se diante dele até o século
XVIII. O máximo que se conseguiu, até então, foi a abertura do rio Furado pelo
capitão José de Barcelos Machado, em 1688, e a limpeza dos cursos d’água
existentes, principalmente sob comando dos jesuítas. No século XIX, porém,
a tecnologia permitiu aos descendentes de europeus a abertura de canais para
navegação visando o escoamento da produção do interior para Campos e desta
cidade para São João da Barra e Macaé, portos que permitiam o embarque
para o Rio de Janeiro e Salvador, sobretudo, e mesmo para o exterior. Com
o advento das ferrovias e das rodovias, os canais de navegação perderam a
utilidade e transformaram-se em canais de drenagem. Examinamos, neste
artigo, os quatro grandes canais de navegação construídos na região, com
o objetivo maior de propor sua proteção e restauração por sua importância
histórica e cultural.
1 Canal Campos-Macaé
Julio Feydit não se enganou nem nos enganou ao armar que o bispo
campista José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho foi o primeiro a propor
a abertura de um canal ligando Campos a Macaé (FEYDIT, 1979). De fato, o
clérigo, nascido em Santo Antônio de Guarulhos, escreveu:
* Professor do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Social da Universidade Federal Fluminense/
Campos dos Goytacazes.
1
“Descrição que faz o Capitão Miguel Aires Maldonado e o Capitão José de Castilho Pinto e seus companheiros
dos trabalhos e fadigas das suas vidas, que tiveram nas conquistas da capitania do Rio de Janeiro e São Vicente,
com a gentilidade e com os piratas nesta costa”. Revista do Instituto Histórico e Geográco do Brasil, tomo XVII.
Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1894.
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Toda esta planície [entre os rios Macaé e Paraíba do Sul] é
cortada de vários rios e lagoas, cujas águas correm umas para
o rio Paraíba, outras para o rio Macaé, e pelo meio de toda
aquela planície se pode fazer um canal de comunicação desde
as nascentes dos dois rios Ururaí e Macabu que, nascendo da
grande Serra do Mar, vão entrar na famosa lagoa Feia, que por
um braço se estende para o lago de Quissamã e deste para as
lagoas de Carapebus, até entrar no dito rio Macaé (AZEREDO
COUTINHO, 1966).
A este respeito, Hildebrando de Araujo Góes mostra que João José
Carneiro da Silva (Barão do Monte de Cedro) atribuiu a idéia original não
apenas a Azeredo Coutinho, como também a José Silvestre Rabelo, na
memória Alguns Canais Brasileiros (GÓES, 1934). Acompanhando Alberto
Frederico de Morais Lamego para quem qualquer armação em história deve,
necessariamente, sustentar-se em documentos, ainda que não tenha sempre,
ele mesmo, revelado suas fontes –, o canal Campos-Macaé foi idealizado em
1837 pelo inglês John Henrique Freese e autorizado por lei da Assembléia
Provincial, de 15 de outubro do mesmo ano (LAMEGO, 1942). Na verdade,
trata-se do Decreto n
.
º 85, de 19 de outubro, como se pode constatar na coleção
da legislação provincial do Rio de Janeiro (SOUTO, 1850). Ainda seguindo
Lamego, a Câmara Municipal de Campos, que, em 1833, havia encaminhado
uma representação ao Presidente da Província sobre a utilidade do canal “por
onde pudessem sair em qualquer tempo os produtos agrícolas do município
e outros gêneros de consumo”, dirige ofício ao major Henrique Luiz de
Niemeyer Bellegarde, chefe da 4
.
ª Seção, datado de 15 de novembro de 1838,
encarecendo a necessidade de rasgar um canal entre os rios Paraíba do Sul e
Ururaí (LAMEGO, 1942).
José Carneiro da Silva, visconde de Araruama, foi o grande animador
da obra, persuadindo o governo provincial de que ela contribuiria para o
dessecamento dos pantanais da região, para a uência das águas estagnadas,
para o transporte por via uvial e para a substituição do porto de São João Barra,
com foz perigosa, pelo de Macaé (SILVA, 1836). Incumbido da empreitada,
ele iniciou os trabalhos a 1 de outubro de 1844. Todo escavado pelo braço
escravo, nalmente o canal foi inaugurado em 1861, interligando as bacias do
Paraíba do Sul, da lagoa Feia e do Macaé. No entanto, a construção da estrada
de ferro Campos-Macaé tornou-o obsoleto poucos anos depois. Os quase dois
mil contos de réis consumidos com sua construção não tiveram o retorno
esperado. Charles Ribeyrolles, que vislumbrou, com entusiasmo, o ingresso
do norte uminense na modernidade, enumera como totalmente drenadas pelo
Campos dos Goytacazes/RJ
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canal Campos-Macaé as lagoas do Osório, do Coelho, do Pessanha, do Sítio
Velho, do Balsedo, da Travagem, do Campo da Cidade, Cinza, da Piabanha
[esta não foi inteiramente dessecada], do Paulo, do Morcego, da Capivara,
do Anil, do Carmo, da Mantiqueira [Mandiquera], do Moreno, do Campo
Novo, do Engenho Velho, Suja, da Tábua [deve ser Tabua], além de outras
que, por serem profundas, só foram esgotadas parcialmente, como a do Jesus,
Paulista e Carapebus (RIBEYROLLES, 1980). A maioria delas pertencente à
bacia da Lagoa Feia. A julgar por uma planta de nivelamento levantada por
Antonio Joaquim de Souza e Jacintho Vieira do Couto Soares, todas elas são
signicativos ecossistemas de água doce (SOUZA , 1849).
Aos poucos, o canal Campos-Macaé foi aproveitado para drenagem
da Planície dos Goitacases e para despejo de esgoto. A partir de 1935, com
as obras de drenagem efetuadas pela Comissão de Saneamento da Baixada
Fluminense, criada pelo governo federal em 1933, ele integrou-se a uma vasta
rede de canais e comportas. Atualmente, encontra-se abandonado em vários
pontos, poluído, assoreado e eutrozado.
Considera-se o Canal Campos-Macaé o segundo mais longo do
mundo, com cerca de 100 quilômetros. Além dos escoadouros naturais, este
canal criou, para o rio Paraíba do Sul, mais um desaguadouro no mar que se
conecta ao rio Macaé exatamente junto a sua foz. Posteriormente, o Canal da
Flecha funciona como mais um braço deuente do Paraíba do Sul no mar.
Na década de 1950, grande parte do rio é transposta para o rio Guandu, que
desemboca na baía de Sepetiba. Finalmente, os canais do Vigário e Engenheiro
Antonio Resende, lançam parte de sua água no mar valendo-se da antiga foz
do rio Guaxindiba.
Em nome de sua importância história, o Canal Campos-Macaé foi
tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural mediante Edital
publicado, ocialmente, em 30 de dezembro de 2002. O tombamento incluiu
o Córrego Grande ou do Cula, um dos braços do delta do rio Paraíba do Sul:
O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural notica aos
proprietários ou a quem interessar possa que ca determinado
o tombamento provisório, nos termos do inciso II, do artigo
5
.
º do Decreto 5
.
º 5.808, de 13 de julho de 1982, do bem de
valor histórico e paisagístico denominado CANAL CAMPOS-
MACAÉ em toda a sua extensão que atualmente corta os
Municípios de Campos dos Goytacases, Quissamã, Carapebus e
Macaé e do trecho urbano do CANAL DO CULA ou GRANDE
CANAL a ele associado localizado no Município de Campos
dos Goytacazes, R. J., conforme processo 5
.
º E-18/1 134 2002
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(INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMÔNIO CULTURAL,
2002).
Os dois canais também estão protegidos pelo novo Plano Diretor de
Campos dos Goytacazes.
2 Canal de Cacimbas
Além do mais famoso canal da região norte uminense, do qual
restam atualmente melancólicos remanescentes, outros foram construídos e
abandonados. Da foz do rio Paraíba do Sul para o interior, contam-se o de
Cacimbas, o do Nogueira e o da Onça.
O sertão de Cacimbas, à margem esquerda do rio Paraíba do Sul, entre a
costa e a Formação Barreiras, gozou de merecido prestígio nos séculos XVIII
e XIX por suas preciosas madeiras de lei e pelos estabelecimentos rurais.
Apresentava, no entanto, um obstáculo ao seu crescimento: uma via de acesso
que permitisse o escoamento de sua produção para o rio Paraíba do Sul e deste
para outras partes do Império. A conguração física do terreno mostrava-se
favorável à abertura de um canal que acompanhasse as valas entre cordões de
restinga. Atento a este rasgo topográco, o major Henrique Luiz de Niemeyer
Bellegarde escreveu em seu relatório, publicado em 1837:
O extenso e produtivo Sertão de Cacimbas, hoje povoado
por muitos e bons estabelecimentos quer de agricultura, quer
de exploração de ricas madeiras, acha-se muito mal servido
de comunicações para a Vila, e Porto de S. João da Barra,
oferecendo, aliás, proporções para abertura de um canal que,
comunicando os brejos de cacimbas com a Lagoa de Macabu,
lhes evite o caminho que ora fazem por terra até aos maus
Portos de Gargaú, Terra Nova, etc. (BELLEGARDE, 1837).
Este foi o primeiro passo para a abertura do desejado canal, cuja
construção foi autorizada pela Lei Provincial n
.
º 160, de 10 de maio de 1839.
Pelos seus termos, o presidente da província cava autorizado a contratar a
companhia organizada em São João da Barra, por Francisco José Rodrigues
Fernandes, José dos Santos Pereira e Souza, Manoel Pereira Porto e Marcos
Lopes Kopke, ou outra que oferecesse maiores vantagens, para abrir um canal
que atravessasse o sertão das Cacimbas e estabelecesse comunicação entre
o rio Paraíba e a lagoa de Macabu. A lei estabelecia o prazo de um ano para
o início das obras, sob pena de anulação do contrato e, depois de pronto o
Campos dos Goytacazes/RJ
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canal, a obrigação da empresa na conservação da obra e na construção de
pontes. Por outro lado, ela ganharia a propriedade perpétua da via navegável,
o monopólio de manter por trinta anos um canal uvial no sertão, salvo na
lagoa de Macabu e demais corpos d’água atravessados pela vala, e o direito de
cobrar taxas pelo seu uso nas barreiras que estabelecesse, contando, inclusive,
com a força armada da província em caso de recalcitrância dos usuários. Em
plena vigência de um Estado liberal do tipo clássico, a iniciativa privada
usufruía grandes poderes, mas não de forma absoluta. As vantagens oferecidas
à empresa revelam bem o patrimonialismo do Estado.
De todas as obras desta natureza executadas na região, o canal de
Cacimbas é o que mais aproxima as bacias do Paraíba do Sul e do Itabapoana.
Sua construção não teve por m ligar os dois sistemas hídricos, mesmo porque
as características do relevo não o permitiriam. Concluído e operando, Fernando
José Martins comentava, na segunda metade do século XIX:
O grande serviço que à indústria e ao comércio hão prestado
os empresários da vala navegável do sertão de Cacimbas é
certamente incalculável. Os portos da cidade encontram-se
sempre apinhados de madeiras de quaisquer dimensões, o que
contribui vantajosamente para a rápida conclusão das obras
com pouco estipêndio e menor tempo; proveito exclusivamente
devido à facilidade com que agora se transportou (sic) as
madeiras daquele vasto continente [...] Esta útil empresa,
concebida e posta em prática pouco mais de 25 anos por uma
associação de particulares, tem sua base à margem esquerda
do Paraíba cerca de 4.500 braças acima de sua foz, no lugar
denominado Cacimbas; e correndo em linha reta na direção de
N.S. por espaço de 6 a 7.000 braças até a volta do Cipó, daí
segue em sentido oblíquo a entrar na lagoa de Macabu, centro
da freguesia de S. Francisco de Paula, onde presentemente
termina (MARTINS, 1868).
Tanto o canal de Cacimbas quanto a lagoa de Macabu guram nos
minuciosos mapas traçados por Pedro D’Alcantara Bellegarde e Conrado
Jacob Niemeyer e por G. W. e C. B. Colton (BELLEGARDE; NIEMEYER,
1866). Numa terra de abundância, tem-se a ilusão de que a natureza é
inesgotável. O canal de Cacimbas levou os empresários e a população em geral
a acreditar que ele permitiria explorar uma fonte inexaurível de riquezas. A via
navegável estimulou um desmesurado desmatamento no sertão de Cacimbas.
Se houve acumulação progressiva de capital por um lado, por outro houve
a desacumulação da natureza. Hoje, no sertão de Cacimbas, restam apenas
alguns os de cabelo da pujante cabeleira orestal de outrora. Como os demais,
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o canal de Cacimbas foi primeiramente abandonado. Com o Departamento
Nacional de Obras e Saneamento, ele foi recuperado e integrado à grande
rede de drenagem da baixada norte-uminense, desembocando atualmente
no canal Engenheiro Antonio Resende. Por meio de comportas automáticas,
ele passou a servir aos interesses da agropecuária e a desagradar pescadores.
Por mais de uma vez, houve atrito entre representantes destas duas atividades
econômicas, uma delas motivando a instauração de um inquérito civil público
pelo Ministério Público Federal.
3 Canal do Nogueira
A grande lagoa do Campelo separava o sertão de Cacimbas do sertão
do Nogueira, com este nome, segundo consta, porque um de seus primeiros
habitantes chamava-se Francisco Nogueira Monte. Ele se estendia da referida
lagoa até as margens do rio Muriaé, pelo lado esquerdo do Rio Paraíba do Sul.
Zona situada nos tabuleiros, sua ocupação se deu por pioneiros que partiram
da baixada. Nela, prodigalizavam as lagoas formadas, principalmente, por rios
provenientes do patamar cristalino e que foram barrados no tabuleiro pela
grande restinga do norte uminense e pelos sedimentos acumulados nas cheias
dos rios Paraíba do Sul e Muriaé. Pouquíssimos cursos d’água conseguiram
romper este obstáculo interposto pelo mar, entre eles o Itabapoana e o próprio
Paraíba do Sul, por força da vazão de suas águas. Entre ambos, apenas o
pequeno rio Guaxindiba logrou tal façanha. Nas palavras de Camilo de
Menezes:
É o único auente do oceano entre a foz do Paraíba e a ponta
de Manguinhos. Sua barra, ao contrário das situadas ao sul de
Atafona, é muito estável e só se fecha quando cessa totalmente
a descarga do rio; logo às primeiras chuvas pode-se abri-la
facilmente (MENEZES, 1940).
O canal pretendia interligar o Rio Paraíba do Sul e a lagoa do Campelo,
passando pelas lagoas Maria do Pilar, Taquaruçu, brejo da Olaria, do Fogo e
Brejo Grande, além de permitir a comunicação com outras lagoas por meio
de ramais, que as águas do Campelo se misturavam com as lagoas da
Saudade, Formosa, dos Coxos e Tigibibaia. A obra foi projetada em 1829
pelo brigadeiro Antonio Elisiário de Miranda Brito, mas só iniciada em
1833 (LAMEGO, 1942). um livro da Câmara Municipal de Campos dos
Campos dos Goytacazes/RJ
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Goitacases registrando a contabilidade do canal de dezembro de 1834 a agosto
de 1835 e com termo de fechamento do seguinte teor: “Aqui se nda esta
conta em virtude da ordem do Exmo. Senr. Vice-Presidente da Província de
19 de Junho, pois que mandou parar com a consignação mensal, e o [ilegível]
no andamento da obra (CÂMARA MUNICIPAL DE CAMPOS. Códice
17,72). Lamego arma que, mesmo assim, os trabalhos prosseguiram de forma
ininterrupta até 1845 (LAMEGO, 1942). Em 2 de junho de 1852, 85 moradores
de Guarulhos encaminharam requerimento à Comissão dos Negócios Internos
reivindicando a abertura de um canal que ligasse a lagoa da Saudade ao Rio
Paraíba do Sul, passando pelos sertões do Nogueira e de Imburi, proposta que
Bellegarde já havia apresentado em 1837, com o nome de canal do Campelo,
articulado ao canal do Nogueira. Logo a seguir, a Câmara Municipal de
Campos reforçou o pedido junto ao presidente da província. Estabeleceu-se,
então, uma discordância entre Ernesto Augusto Cesar Eduardo de Miranda,
chefe do 5
.
º Distrito, favorável à abertura da vala, e Amélio Pralon, engenheiro
da Câmara Municipal de Campos, propugnando a continuação do canal do
Nogueira. Prevaleceu a opinião de Pralon e o Nogueira foi retomado entre
1853 e 1871, cando inconcluso. Custou ao todo um milhão, cinqüenta e três
mil, oitocentos e quarenta e um contos e oitocentos réis (LAMEGO, 1942).
Alberto Ribeiro Lamego o considera uma obra suntuária, toda revestida
de cantaria, para escoar madeiras nobres e a produção agrícola do sertão que lhe
emprestou o nome (LAMEGO FILHO, 1934). Camilo de Menezes diz que a
Diretoria de Saneamento da Baixada Fluminense restabeleceu-lhe, parcialmente,
o curso em ns dos anos 30 do século XX, desentulhando as ligações entre
as lagoas de Taquaruçu, Brejo Grande e outras. O mesmo autor explica que a
Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense restabeleceu-lhe parcialmente
o curso, avivando ligações entre várias lagoas (Taquaruçu, Brejo Grande e
outras). Informa também que as duas eclusas
2
do canal estavam semidestruídas.
A primeira, junto ao rio Paraíba, permitia a entrada de embarcações no canal.
Nesta, não existiam mais suas portas tendo-se construído nela uma barragem
transversal de alvenaria, com pequena comporta. A segunda, cerca de 8
quilômetros à jusante do Paraíba, destinava-se a vencer o degrau entre o nível
do canal logo depois do rio e o nível mais baixo comandado pelo Brejo Grande.
Acrescenta ainda que a drenagem da lagoa do Vigário começou com a abertura
de uma vala que desaguava no canal do Nogueira, pois a antiga sangria feita pela
prefeitura, ligando a lagoa ao Paraíba mostrava-se inútil, pois só funcionava nas
estiagens, quando não era necessária (MENEZES, 1940).
2
Águas separadas, braços e canais ou lagoas.
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Esquecido por muito tempo, o canal do Nogueira foi redescoberto em
1999. A eclusa junto ao Paraíba, conquanto abandonada, mostra-se íntegra e
apta a ser restaurada. A lagoa de Maria do Pilar foi drenada e se transformou no
brejo do Parque Prazeres, que, segundo pesquisa do Laboratório de Ciências
Ambientais do CBB/UENF, funciona como amortecedor da carga poluente
que entra na lagoa do Taquaruçu. Houvesse interesse do poder público, as
lagoas drenadas poderiam ser recuperadas; o canal, redragado e as eclusas,
restauradas, permitindo uma excelente opção de lazer e turismo, desde que
toda a obra fosse presidida por rigorosos estudos prévios de impacto ambiental.
Mesmo no estado em que está a primeira eclusa, é desejável o seu tombamento
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ou pelo Instituto
Estadual do Patrimônio Cultural ou, ainda, pela municipalidade.
4 Canal da Onça
Acima dos sertões do Nogueira e de Imburi, entre os rios Muriaé e
Itabapoana, situava-se o sertão da Pedra Lisa, amplo território em que se erguem
fragmentos da Serra do Mar e ramicações da Serra da Mantiqueira. Um deles
é o maciço do Morro do Coco, onde assoma a Pedra Lisa. Cerca de oito cursos
d’água descem destas elevações e desembocam em lagoas represadas, depois
de irrigarem o tabuleiro. Um deles, o valão da Onça, deuía na extinta lagoa
do mesmo nome, sugerindo a espécie animal que freqüentava suas imediações.
O café se expandia para aquelas regiões com tal vigor que, em 1844, cerca de
120 colonos belgas se instalaram. A experiência malogrou, permanecendo
apenas o belga contratante, que se dedicou a substituir matas por cafezais.
José Fernandes da Costa Pereira, um dos grandes proprietários naquela
região, tomou a si a tarefa de ampliar e regularizar o canal da Onça, de forma a
facilitar o escoamento de madeiras e da produção da Pedra Lisa. Com recursos
obtidos por subscrição popular, realizou a obra em tempo recorde: iniciada em
10 de julho de 1840, ela foi concluída em 3 de novembro do mesmo ano. No
ano seguinte, contudo, pela lei n
.
º 244, de 10 de maio, o governo provincial
determinou que a Câmara Municipal de Campos indenizasse José Fernandes da
Costa Pereira com a importância de quatro mil e seiscentos contos de réis e se
tornasse proprietária do canal, encarregando-se de sua limpeza e conservação,
bem assim da cobrança de taxas aos usuários.
Descendo do sertão da Pedra Lisa, o valão drenava diversos brejos,
alargava-se num ponto denominado Porto da Madeira, entrava na lagoa da
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Onça e dela saía em direção ao rio Muriaé. No tempo das águas, desciam
por ele pranchas conduzindo madeiras e produtos agrícolas em direção a
Campos e São da Barra, por onde eram exportados. Cumpriu ele o mesmo
papel dos canais de Cacimbas, do Nogueira, Campos-Macaé e do Jacaré, este
natural e ligando a lagoa das Pedras ao rio Paraíba do Sul, até que as ferrovias
principiassem a substituí-los na segunda metade do século XIX (SOUTO,
1850; MELLO, 1886; FEYDIT, 1979; LAMEGO, 1947).
Com as obras do Departamento Nacional de Obras e Saneamento,
o canal da Onça passou a contornar a lagoa do mesmo nome por fora,
deixando de alimentá-la de água. Drenada pelo segmento do canal à jusante
do ecossistema lagunar, ele foi estiolando até ser transformado em terra para
o plantio de cana. Todavia, o vigor da estação das águas de 1996-1997 fez a
lagoa ressuscitar em parte, com seu rápido povoamento por peixes, répteis
(jacaré-de-papo-amarelo) e mamíferos (lontra). Mas, logo em seguida, a Usina
Sapucaia drenou-a novamente. Seja como for, cou demonstrada a pujança da
única lagoa do Norte Fluminense situada entre o tabuleiro e a serra.
5 Referências
BELLEGARDE, Henrique Luiz de Niemeyer. Relatório da 5
.
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Full-text available
Article
In " A Venice in the rio de janeiro´s hinterland: the rivers and the canals in Campo dos Goitacazes" marked the importance of the rivers and channels as necessary means for the formation of an area and of the constitution of exchanges and changes. As such a social process involved multiple agents and different interests, it can be considered as founder of territories in Campos and, in this line, spaces where several conflicts were sketched around the use of the fluvial spaces.
A Terra Goitacá à luz de documentos inéditos
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LAMEGO, Alberto Frederico de Morais. A Terra Goitacá à luz de documentos inéditos. Tomo V. Niterói, RJ: Diário Oficial, 1942.
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História do Descobrimento e Povoação da Cidade de S. João da Barra e dos Campos dos Goitacases, antiga Capitania da Paraíba do Sul e da Causa e Origem do Levante Denominado – dos Fidalgos – Acontecido em Meados do Século Passado
  • Fernando José
MARTINS, Fernando José. História do Descobrimento e Povoação da Cidade de S. João da Barra e dos Campos dos Goitacases, antiga Capitania da Paraíba do Sul e da Causa e Origem do Levante Denominado – dos Fidalgos – Acontecido em Meados do Século Passado. Rio de Janeiro: Quirino & Irmão, 1868.
Campos dos Goitacases em 1881
  • José Alexandre Teixeira De
MELLO, José Alexandre Teixeira de. Campos dos Goitacases em 1881. Rio de Janeiro: Laemmert, 1886.
Memória sobre a Abertura de um Novo Canal para Facilitar a Comunicação entre a Cidade de Campos, e a Vila de S
  • José Silva
  • Carneiro Da
SILVA, José Carneiro da. Memória sobre a Abertura de um Novo Canal para Facilitar a Comunicação entre a Cidade de Campos, e a Vila de S. João de Macaé. Rio de Janeiro: J. Villeneuve e Comp. 1836.
Legislação Provincial do Rio de Janeiro de 1835 a 1850, parte I. Niterói: Tip
  • Luiz Honorio Vieira
SOUTO, Luiz Honorio Vieira (Org.). Legislação Provincial do Rio de Janeiro de 1835 a 1850, parte I. Niterói: Tip. Fluminense de Lopes & Cia., 1850.
Subsídios para a História dos Campos dos Goitacases. 2. ed. Rio de Janeiro: Esquilo
  • Julio Feydit
FEYDIT, Julio. Subsídios para a História dos Campos dos Goitacases. 2. ed. Rio de Janeiro: Esquilo, 1979.
Saneamento da Baixada Fluminense: Relatório Apresentado pelo Engenheiro Chefe da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense
  • Hildebrando Góes
  • De Araújo
GÓES, Hildebrando de Araújo. Saneamento da Baixada Fluminense: Relatório Apresentado pelo Engenheiro Chefe da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense. S.l.: s.n., 1934.
Rio de Janeiro: s.n., 30 dez
  • Instituto Estadual Do
  • Patrimônio Cultural. Diário
  • Oficial
INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMÔNIO CULTURAL. Diário Oficial. Rio de Janeiro: s.n., 30 dez. 2002.
A Planície do Solar e da Senzala. Rio de Janeiro: Católica
  • Lamego
  • Alberto Filho
LAMEGO FILHO, Alberto. A Planície do Solar e da Senzala. Rio de Janeiro: Católica, 1934.