Apontamentos acerca da Cadeia do Ser e o lugar dos negros na filosofia natural na Europa setecentista - Notes on the Chain of Being and the place of blacks in eighteenth-century European natural philosophy

Article (PDF Available)inHistória Ciências Saúde-Manguinhos 21(01):20 · December 2014with 447 Reads
DOI: 10.1590/S0104-59702014005000017
Abstract
This examination of academic works produced by eighteenth-century natural philosophers discusses some recurring ideas about the Chain of Being. To this end, the article analyzes the relations between natural philosophy and theology during the period. It also re-evaluates some elements of the Chain of Being through an exploration of authors who addressed the topic in their writings. Lastly, it identifies a specific element within eighteenth-century discussions of scala naturae, to wit, the various and not always convergent ideas about whether there are differences between humans based on specific characteristics and, consequently, about the places they occupy in the chain of being. Por meio da análise de obras acadêmicas produzidas por filósofos naturais no século XVIII, pretendemos discutir algumas ideias recorrentes acerca da Grande Cadeia do Ser. Para tal, analisamos as relações entre filosofia e teologia natural no período. Reavaliamos ainda alguns elementos da Cadeia do Ser, investigando autores que discorreram sobre o tema em seus escritos. Por fim, elencamos um ponto específico das discussões setecentistas sobre a scala naturae, qual seja, as diversas e nem sempre convergentes ideias de que, a partir de características específicas, haveria diferenças entre os homens, bem como seu consequente lugar na Cadeia do Ser.

Apontamentos acerca da Cadeia do Ser e o lugar dos negros na filosofia natural na Europa setecentista

Abstract

Por meio da análise de obras acadêmicas produzidas por filósofos naturais no século XVIII, pretendemos discutir algumas ideias recorrentes acerca da Grande Cadeia do Ser. Para tal, analisamos as relações entre filosofia e teologia natural no período. Reavaliamos ainda alguns elementos da Cadeia do Ser, investigando autores que discorreram sobre o tema em seus escritos. Por fim, elencamos um ponto específico das discussões setecentistas sobre a scala naturae, qual seja, as diversas e nem sempre convergentes ideias de que, a partir de características específicas, haveria diferenças entre os homens, bem como seu consequente lugar na Cadeia do Ser.

Apontamentos acerca da Cadeia do Ser e o lugar dos negros na losoa natural na Europa setecentista
v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 1 1 1
Christian Fausto Moraes dos Santos
Professor, Faculdade de História/Universidade Estadual de Maringá.
Rua Pion. Cosme Gonçalves de Meireles, 190
87025-460 – Maringá – PR – Brasil
chfausto@hotmail.com
Rafael Dias da Silva Campos
Investigador visitante, Centro de História de d’Aquém e d’Além-Mar/
Universidade Nova de Lisboa.
Avenida de Berna, 26-C
1069-061 – Lisboa – Portugal
rafael_diascampos@hotmail.com
Apontamentos acerca da
Cadeia do Ser e o lugar
dos negros na filosofia
natural na Europa
setecentista
Notes on the Chain of Being
and the place of blacks in
eighteenth-century European
natural philosophy
Recebido para publicação em março de 2012.
Aprovado para publicação em setembro de 2012.
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702014005000017
SANTOS, Christian Fausto Moraes
dos; CAMPOS, Rafael Dias da Silva;
Apontamentos acerca da Cadeia do Ser
e o lugar dos negros na filosofia natural
na Europa setecentista. História, Ciências,
Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro.
Disponível em: http://www.scielo.br/
hcsm.
Resumo
Por meio da análise de obras acadêmicas
produzidas por filósofos naturais no
século XVIII, pretendemos discutir
algumas ideias recorrentes acerca
da Grande Cadeia do Ser. Para tal,
analisamos as relações entre filosofia e
teologia natural no período. Reavaliamos
ainda alguns elementos da Cadeia do Ser,
investigando autores que discorreram
sobre o tema em seus escritos. Por fim,
elencamos um ponto específico das
discussões setecentistas sobre a scala
naturae, qual seja, as diversas e nem
sempre convergentes ideias de que,
a partir de características específicas,
haveria diferenças entre os homens, bem
como seu consequente lugar na Cadeia
do Ser.
Palavras-chave: história das ciências;
filosofia natural; scala naturae; Cadeia do
Ser; século XVIII.
Abstract
This examination of academic works
produced by eighteenth-century natural
philosophers discusses some recurring
ideas about the Chain of Being. To this
end, the article analyzes the relations
between natural philosophy and theology
during the period. It also re-evaluates some
elements of the Chain of Being through an
exploration of authors who addressed the
topic in their writings. Lastly, it identifies a
specific element within eighteenth-century
discussions of scala naturae, to wit, the
various and not always convergent ideas
about whether there are differences between
humans based on specific characteristics
and, consequently, about the places they
occupy in the chain of being.
Keywords: history of science; natural
philosophy; scala naturae; Chain of Being;
eighteenth century.
Christian Fausto Moraes dos Santos, Rafael Dias da Silva Campos
2 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro2 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
Um deus para os lósofos naturais iluministas
A Europa do século XVIII viu aflorar uma infinidade de discussões filosóficas que
açambarcaram tanto o campo teológico quanto o laico. Mesmo a crescente condenação do
período contra a interferência das questões religiosas no mundo secular não foi suficiente
para manter a distância entre ambos os universos.
A construção do saber iluminado não havia negado a Bíblia, e sim as explicações baseadas
exclusivamente nela (Gould, 1991, p.34-36; Brooke, 2003, p.150-157). A fim de expor
casos específicos sobre esse tema, a análise de Paul Lawrence Farber (2000, p.42) pode ser
esclarecedora. O autor defende que tanto Georges Cuvier (1769-1832) quanto Étienne Geoffroy
Saint-Hilaire (1772-1844) viam o estudo do mundo natural como uma das possibilidades de
se interpretar a obra divina. Farber (2000, p.11) segue argumentando, acerca do sistemata
sueco Carl von Linnaeus (1707-1778), que a tarefa de ordenar e nomear o mundo pós-Criação
unia a natureza a Deus. Nesse sentido, ele conclui que a própria ideia lineana de ordenação
refletia uma visão da Criação como sistema equilibrado e harmônico.
O exemplo de Charles Bonnet (1720-1793) também é ilustrativo no que concerne às
relações entre filosofia natural e Criação. Em sua obra Contemplation de la nature (1764),
o autor questiona: “Deus quer que o Universo seja, ele é. Essa virtude divina, essa força
‘incompreensível’ pode ser comunicada? E se ela pode ser comunicada, quais são as leis dessa
comunicação?”1 (Bonnet, 1764, p.3). Bonnet acreditava que, mesmo após a Criação, Deus
ainda manifestaria seus desígnios. Sua obra buscou, entre outros aspectos,2
entender como
poderiam ser notados esses elementos divinos na constituição da vida.
Georges-Louis Leclerc, o conde de Buffon (1707-1788), ficou conhecido por defender que
a religião não era a instituição mais apta para explicar os fenômenos naturais após a Criação.
Todavia, foi Buffon (1749, p.131-132), então famoso pelos tratados de história natural, quem
disse: “Essa força de impulsão certamente foi comunicada aos astros em geral pela mão de
Deus, quando ela dava o movimento do Universo”.3
Podemos, portanto, notar que os filósofos naturais setecentistas, como Buffon e Bonnet,
ocupavam-se de um mundo natural que não negava a existência divina; entretanto, requeriam
para si a primazia da interpretação dos seres. Faz-se necessário ressaltar essa influência da
religião nas discussões do mundo natural, pois alguns historiadores postularam um Setecentos
ausente de interferência religiosa: Luzia Aurelia Castañeda (1995, p.36), como outros, ainda
alega que homens como Denis Diderot negaram a existência de Deus. Não isoladamente,
Marina Azem (2006, p.59) defende uma contraposição entre “ciência”5 e religião durante o
século XVIII, ao apontar que a religião entravava os avanços da “ciência”.
Fato é que os filósofos naturais setecentistas não deixaram de observar a “grandiosidade
da obra divina” na formação das rochas6 e vegetação, na idade da Terra7 etc., na diferenciação
dos seres enfim. Mesmo a Encyclopédie (Diderot, D’Alembert, 1751), tida por tantos
historiadores como um manifesto em defesa do conhecimento racionalizado do mundo,
exprime em suas páginas a ideia de que Deus era parte essencial na constituição do Universo.
Os encyclopédistes chegaram a afirmar que: “Somente Deus conhece toda a bondade que ele
coloca nas suas obras, porque só ele é capaz de conhecer perfeitamente a justeza que brilha
em suas obras, a relação mútua que se encontra entre elas, a harmonia que faz delas um
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todo regular e sabiamente ordenado, onde ele põe, estabelece a ordem para as conservar”
(Diderot, D’Alembert, 1751, p.318).8
Essa manutenção das questões religiosas no universo da filosofia natural, contudo, não
ocasionou o alegado atraso, defendido pela historiografia supracitada. Com efeito, a relação
ambígua e imbricada entre filosofia natural e religião contribuiu, por exemplo, para o
desenvolvimento das técnicas e teorias nos campos da osteologia (Dionis, 1703, p.51), fisiologia
(Monro, 1791, p.383-384), embriologia9 etc. Malebranche (1638-1715), por exemplo, estava
mais disposto a provar a presença de Deus no mundo natural do que se tornar uma referência
(semi)ateísta do mundo filosófico natural (Malebranche, 1721, p.184).
Maupertuis (1698-1759), em seu Essay de cosmologie (publicado em 1750), analisou as
leis da ação e reação, determinando uma força menor da ação (Maupertuis, 1752, p.14-25).
Muito citado hoje, devido a seu trabalho em oposição à teoria da pré-formação (Maupertuis,
1768; Ramos, 2005), realizou grande esforço para “provar a existência de Deus” por meio das
“maravilhas da natureza” (Maupertuis, 1752, p.3-13). Em outras palavras, as investigações
daqueles homens seguiam lógicas próprias: diferente dos juízos contemporâneos sobre o que
deve orientar as investigações acadêmicas, a lógica daquele momento pressupunha que os
seres haviam sido criados pela sabedoria divina.
As investigações filosófico-naturais estavam fundamentadas no princípio de uma
superioridade divina. Todavia, essa superioridade seria como que “representada” pelos
caucasianos. E, a fim de manter a verdade bíblica, muitos se debruçaram em estudos da
anatomofisiologia setecentista, tais como crânios, posturas corporais e cores de pele. Os dados,
coletados e descritos ao longo das expedições e viagens filosóficas às colônias compunham o
estudo de um mundo natural que era capaz, inclusive, de comportar autóctones, como os do
Novo Mundo. O que veremos, portanto, é que na filosofia natural setecentista, amparada por
uma verdade bíblica, o estudo dos animais e homens também se prestava à instrumentalização
do antropocentrismo.
A Grande Cadeia do Ser na Europa
A Grande Cadeia do Ser, como ficou mais conhecida, fundamentava os conhecimentos
acerca do mundo natural no Setecentos. Pressupunha uma contínua escala dos seres, em
melhora linear e unidirecional ascendente. A Cadeia do Ser, contudo, não foi adotada de
igual maneira pelos filósofos naturais, pois alguns (Soame Jenyns – 1704-1787 –, por exemplo)
defenderam que a gradação entre os seres seria do ser mais imperfeito ao mais perfeito,
porém, outros, por exemplo, como Buffon, que via o mundo natural através das lentes da
degenerescência (Gerbi, 1996) terminou por defender (de modo coerente às suas concepções)
que a gradação na Cadeia do Ser ocorreria por meio de uma degenerescência do ser mais
perfeito até o mais imperfeito. Em uma passagem levada à fama por Arthur Lovejoy, Soame
Jenyns expôs sua versão do que era a Cadeia do Ser:
Quanto mais investigamos as obras de nosso grande Criador, mais evidentes são as
marcas que descobriremos de sua sabedoria e potência, e talvez nenhuma seja mais
notável do que esta maravilhosa cadeia de seres, com que este globo terrestre foi provido;
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4 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro4 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
elevando-se cada qual sobre o outro desde a terra insensível até o mais brilhante gênio
da espécie humana …
Desse grau mais baixo do brutal hotentote, a razão, com a assistência do conhecimento
e da ciência, avança, através dos vários estágios do entendimento humano que se elevam
uns sobre os outros, até em um Bacon ou em um Newton alcançar seu ápice (Lovejoy,
2005, p.196-197).10
Buffon, reclamando das dificuldades de concluir a constituição de um sistema geral,
também nos permitiu analisar sua ideia acerca das diferenças no mundo natural. Ele emitiu
seu parecer no conhecido Histoire naturelle:
Pode-se descer pelos graus quase insensíveis, da criatura mais perfeita até a matéria
mais disforme, do animal mais bem organizado até o mineral mais bruto; se reconhecerá
que suas gradações imperceptíveis são a grande obra da natureza; se encontrarão suas
gradações, não somente nas grandezas e nas formas, mas nos movimentos, nas gerações
[reproduções], nas sucessões de toda espécie.
... Mas a natureza caminha por gradações desconhecidas, e, consequentemente,
não se pode prestar totalmente a essas divisões, visto que ela passa de uma espécie a
outra espécie e, frequentemente, de um gênero a outro, por gradações imperceptíveis;
de modo que se encontra um grande número de espécies intermediárias e de objetos
meio partidos [metade uma espécie, metade outra] que não sabemos onde pôr, e que
atrapalham necessariamente o projeto do sistema geral (Buffon, 1749, p.12-13).11
É considerável notar, portanto, que a Cadeia do Ser não se dava por meio de explicações
simplistas. Em suas contendas com Linnaeus, Buffon contra-argumentava que as divisões
das espécies em táxons não poderiam ser relacionadas necessariamente com as gradações, já
que estas últimas poderiam ser imperceptíveis. Com o que concluímos ser a Cadeia do Ser
complexa e multifacetada, não configurando um mero auxiliar na taxonomia setecentista.
Defenderam essas ideias homens considerados marcos fundadores em muitas disciplinas
atuais, como, por exemplo, os estudos naturais e químicos. Homens que se queriam como
o último e mais avançado ser na escala das espécies terrenas, abaixo apenas dos anjos,
arcanjos e afins. O pesquisador Arthur Lovejoy (2005), em suas observações acerca do século
XVIII, apontou Georges Louis Leclerc, Denis Diderot, Carl von Linnaeus, Charles Bonnet,
Abraham Trembley, Jean-Jacques Rousseau, James Thomson, Alexander Pope, Henry St. John
Bolingbroke, Albrecht von Haller, Mark Akenside, Immanuel Kant, Johann Gottfried von
Herder, William King, Joseph Addison, Oliver Goldsmith e Johann Heinrich Lambert. Nomes
tão influentes que nos permitem dizer que a Cadeia do Ser não era grande só na quantidade
de espécies que registrava, mas também no considerável número de defensores.
Cabe lembrar, porém, que, em meados do século XX, quando apresentou sua defesa do
que seria a história de uma ideia chamada cadeia do ser, Lovejoy foi criticado por diversos
autores na mesma revista que o tornou referência no tema. Nela, diversas discussões foram
levantadas, inclusive com uma publicação do próprio Lovejoy respondendo críticas acerca de
sua produção histórica. Em 1946, portanto, ele publicou na Journal of the History of Ideas uma
defesa de sua concepção do que seria a cadeia do ser na história natural de Oliver Goldsmith.
É interessante notar nesse artigo, além da análise sobre Goldsmith, que Lovejoy observou uma
“fórmula” usual nas descrições setecentistas da cadeia do ser. O princípio da continuidade,
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comumente expresso na frase “os seres descem por imperceptíveis gradações”, era geralmente
empregado nessa “fórmula” pelos filósofos naturais para explicar a cadeia do ser. A diferença
em Goldsmith, porém, era que ele seria mais influenciado que seus contemporâneos pelos
princípios de continuidade e gradação (Lovejoy, 1946, p.92). Goldsmith seria, assim, mais
uma referência no mundo da filosofia natural a apresentar noções básicas da Cadeia do Ser,
mesmo defendida por esse filósofo natural apenas de forma inconsistente e intermitente, na
expressão de Lovejoy (p.92).
O autorrotulado “dicionário racionado”, que se propôs reapresentar os temas prementes
do mundo de então, também não esqueceu a Cadeia do Ser. A famosa Encyclopédie baseou
grande parte de suas percepções na filosofia natural setecentista, o que possibilitou o uso da
Teoria da Cadeia do Ser por D’Alembert no verbete Cosmologia:
Leis gerais pelas quais o universo é governado. Tudo é interligado na natureza; todos
os seres estão vinculados por uma cadeia em que percebemos algumas partes contínuas,
ainda que nos escape um número maior de ligações entre os seres. ... a arte do Filósofo
[natural] consiste em juntar os novos elos das partes separadas, a fim de os posicionar
com a menor distância possível (Diderot, D’Alembert,12 1751, p.294).13
Os encyclopedistes, que, conforme discutimos acima, acreditavam que teria sido Deus o
criador da ordem encontrada na natureza, pensavam tal ordem por meio dos encadeamentos
dos seres. Para eles, nomeadamente D’Alembert, a busca dos elos perdidos entre os seres
do mundo natural deveria ser o eixo norteador da pesquisa desenvolvida pelo filósofo
natural.
Com uma compreensão também definida sobre a Cadeia do Ser, Charles Bonnet (1779,
p.179) chegou a discutir em seu Consideration surs le corps organisés as contribuições que os
seres intermediários (ou elos) poderiam proporcionar. Em outra passagem, agora citando
Leibniz, Bonnet (1768, p.187) ressaltou que as zoófitas (à época também conhecidas pelo
nome de “planta-animal”), diferentemente do que muitos diziam, não possuíam nada de
monstruoso, mas eram simplesmente seres na ordem (linear) da natureza. Portanto, conforme
Lorin Anderson (1976, p.46, 51-52) notou, Bonnet possuía uma visão holística de cadeia do
ser, na qual todos os seres eram agrupados linearmente, desde os imperfeitos até os mais
perfeitos, que no caso terreno seriam os humanos, mas que chegaria até aos anjos e demais
seres celestiais.
Bonnet tentou demonstrar ainda, como indica o título do capítulo, que o pólipo coloca
em evidência a gradação que existe entre todas as partes da natureza [Que le polype met en
évidence la gradation que est entre toutes les parties de la nature]. Quando buscou esclarecer a
discussão sobre o lugar ocupado pelos mesmos na escala dos seres (se animais ou plantas),
Bonnet (1768, p.188) demonstrava ainda grande preocupação por não saber quais eram os
outros elos perdidos: “O Pólipo foi descoberto nas águas, e os dois reinos ‘orgânicos’ estão
agora unidos. ... existe certamente uma gradação na Natureza ... Se o Pólipo nos mostra a
passagem do Vegetal ao Animal, por outro lado nós não descobrimos a do Mineral ao Vegetal
(destaque nosso).14
O fisiologista Lazzaro Spallanzani (1729-1799) buscou realizar um estudo sistemático
do sistema digestivo em diversas espécies animais em seu Disssertazioni di fisica animale e
Christian Fausto Moraes dos Santos, Rafael Dias da Silva Campos
6 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro6 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
vegetabile (1780). Tratando especificamente da enguia, o filósofo natural reconhecido como
um dos maiores autores nas discussões sobre o sistema de geração dos organismos ressaltou seu
olhar ante a estrutura organizacional da natureza: “Entre peixes eu vou primeiro tratar dessa
espécie que carrega semelhança com as serpentes, até considerada muito forte na cadeia dos
seres animados, sendo o elo intermediário entre os peixes e as serpentes; refiro-me à enguia
(Spallanzani, 1784, v.1, p.123).15
Spallanzani, portanto, identificou a enguia como o elo perdido entre aquáticos e terrestres.
Sua história natural graduava diretamente para um ser terrestre com características externas
semelhantes. Interessante notar, porém, que Spallanzani realizou um estudo dos órgãos
internos da enguia e que, ainda assim, percebeu as serpentes como o ser logo acima das
enguias na escala dos seres.
O mundo baseado na Cadeia do Ser, porém, não ficou restrito ao universo dos homens
de letras. Suas ideias se popularizaram chegando a ocupar lugar de destaque nos jornais.
Por meio do periódico português O Panorama podemos observar as concordâncias com a
filosofia da gradação dos seres. Ao falar sobre o avestruz, um autor desconhecido16 ressaltou
que: “A forma e os hábitos peculiares deste animal são inteiramente diversos dos de toda a
mais casta plumigera: e parece que forma um dos anéis intermediários na extensa cadeia dos
entes animados, ligando as tribos aladas com os quadrúpedes (O abstruz, 8 jul. 1837, p.77).17
O jornal The New York Magazine também nos auxilia a perceber que a Cadeia do Ser não
ficou restrita apenas ao universo acadêmico do século XVIII. O jornal britânico publicou
o capítulo de William Smellie, constante da obra The philosophy of natural history. Embora
a discussão proviesse de um filósofo natural, cabe salientar que a presença de um texto
acadêmico em um meio de circulação como o jornal direciona a popularização da ideia. A
obra de Smellie era um texto acadêmico, o fato de estar em um jornal, com maior circulação,
implica, por um lado, que a ideia se popularize ainda mais (independente das concepções
defendidas, a Cadeia do Ser acabaria ficando ainda mais conhecida), por outro, a Cadeia
do Ser só estava presente naquele jornal por meio do texto de Smellie porque a editoria
do jornal já conhecia a obra desse autor e a supunha passível de ser publicada ali. O jornal
havia publicado um excerto em que o filósofo natural concebia que as diferenças entre
homens e negros eram abissais:
Na cadeia animal, o homem é inquestionavelmente o líder da principal ligação, e
dele todos os outros elos descendem por quase imperceptíveis gradações (Smellie,
1792, p.157).
... Quantas gradações podem ser traçadas entre um estúpido Huron ou um Hotentote
e um profundo filósofo? Aqui, a distância é imensa (p.158).18
Nesse sentido, podemos notar que a filosofia natural se propunha o papel de, entre outras
coisas, encontrar as mínimas características de cada ser para classificá-los nesse emaranhado
de gradações imperceptíveis. Todavia, os critérios morfofisiológicos usados tomavam quem
não fosse europeu como um antropoide – uma expressão tão vulgarizada no século XVIII
que, ao longo dos anos, perdeu seu significado inicial – ou seja, seres indeterminados entre
uma espécie e outra, essencialmente próximos dos chamados seres brutos, mas que possuíam
diversas características fisiológicas que os aproximavam do Homo sapiens. Por isso, tais
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seres brutos seriam fisiológica e anatomicamente humanoides; entretanto, apresentavam
debilidades.
Todavia, esse processo possuía uma coerência própria e não pode ser observado como
contraditório, pois fazia parte da sociedade europeia setecentista. O período que produziu os
conceitos mais dinâmicos e complexos acerca da igualdade na modernidade foi o mesmo que
justificou a desigualdade das “raças”, por meio da hierarquização baseada em informações
retiradas do mundo natural. Selvagens, silvícolas e gentios não foram meras denominações
sociais, mas termos que buscavam compartimentalizar as etnias em uma “taxonomia de raças”
num período em que os conceitos de “raça” e “espécie” se imbricavam.
A Cadeia do Ser e os diferentes homens
Buscamos mostrar, anteriormente, que religião e filosofia natural não se digladiaram
no século XVIII como, por vezes, é generalizado; observamos também que a Cadeia do Ser
era muito utilizada no período, que se amparava em princípios religiosos e buscava assim
formular uma razão pautada no seio do universo cristão. Ainda assim, não foram apenas essas
as relações entre a Cadeia do Ser e a filosofia iluminista.
Sabemos que as considerações filosófico-naturais do século XVIII acerca do tom de pele,
por exemplo, geraram diversas discussões historiográficas. Todavia, índios e negros continuam
sendo pensados enquanto seres humanos discriminados. Tem sido pouco notado (devido a
visões extemporâneas) que nas tantas construções visando diferenciar os europeus do restante
das pessoas, os filósofos naturais do Velho Mundo poderiam classificar negros e índios como
não humanos.
Ocorre que as indecisões sobre os seres intermediários na Cadeia do Ser provocaram
contundentes disputas no período, sendo que os seres humanos também foram alvo de tais
discussões. O conhecido Charles Bonnet (1768, p.98), em uma de suas muitas argumentações,
defendeu que haveria uma gradação linear, culminando no branco europeu. “O Pólipo é
possivelmente menos distante do Macaco do que dos animais que nós procuramos conhecer.
Em uma palavra, não sabemos onde começa o Animal: sabemos somente onde termina, e
que o Homem é o fim o mais elevado dessa magnífica gradação”.19
Em um trecho famoso de sua An account of the regular gradation in man, and in different
animals and vegetables (1799), Charles White (1728-1813) se propôs a esclarecer como era
produzida a diferença entre os seres. Ainda mais contundente que Bonnet, Charles White
defendeu uma gradação tão delineada que chegou mesmo a expor a existência de diferentes
humanos. Nesse momento, ele revela seu olhar acerca da relação homem/humanoide:
Ascendendo a linha de gradação, chegamos finalmente ao branco europeu, o qual,
sendo o mais distante da criação bruta, pode, por esse motivo, ser considerado como a
mais bela das “raças”. Ninguém duvidará da superioridade dos seus poderes intelectuais,
e creio que se julgará que a sua capacidade é naturalmente superior também à de todos
‘os outros humanos’ (White, 1799, p.134-135; destaques nossos).20
Percebamos que White falou em humanos no plural, pois para a época (diferentemente
do que nos acostumamos a pensar) havia diversas espécies parecidas com os humanos
Christian Fausto Moraes dos Santos, Rafael Dias da Silva Campos
8 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro8 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
considerados verdadeiros (os europeus). Podemos notar ainda que havia uma dificuldade
quanto à delimitação dos critérios que definiam os seres, inclusive os ditos seres humanos.
Bonnet ressaltou o caráter de perfeição do “Homem”, mas o próprio autor apresenta incerteza
quanto à definição dos seres considerados animais.
O mesmo Bonnet, então preocupado com o restante de gradações ainda por descobrir,
defendia que o hotentote era o elo entre o orangotango e o homem (branco europeu). O
trecho que segue nos permite analisar as noções acerca da ideia de gradação natural do autor
de Contemplation de la nature (1782) e o lugar dos negros nessa escala dos seres. Assim, para
o filósofo natural, mais um elo estaria completo, pois (de maneira contínua) do macaco
passaríamos ao hotentote e deste ao branco:
Se o elefante parece se aproximar do Homem pela inteligência, o Orangotango parece
se aproximar dela [inteligência] ainda mais devido à conformação tanto interior quanto
exterior, e pelas inclinações, os hábitos e os talentos que dela resultam. ‘O Orangotango
é tão parecido com o Homem, que o Anatomista que os compara crê comparar dois
indivíduos do mesmo Gênero; & devido às tão marcadas e numerosas semelhanças
que ele’ descobre entre esses dois Seres, ele ‘não hesita em colocar o Orangotango
imediatamente após o grosseiro Hotentote’ (Bonnet, 1782, p.436; destaques nossos).21
Bonnet não estava sozinho nessa visão hierarquizada e estática do desenvolvimento
humano dado por Deus. Buffon afirmou que o nariz aquilino era uma das características
definidoras da espécie humana, quando defendeu a forma e posição avantajada do nariz,
frente às narinas achatadas e curtas dos símios (Buffon, 1864, p.99-100). Do conjunto de
elementos específicos (p.92, 111-113, 115), tais como o citado nariz ou o braço, Buffon
chegou à conclusão de que o Homo sapiens (branco europeu) era completamente diferente
do restante da natureza e que seria ligado aos demais seres do reino animal por meio de elos.
Essa visão pôde ser mais bem percebida quando o famoso autor francês, em seu De la nature
de l’homme, defendeu a “infinita diferença” do homem ante o restante do mundo natural:
Existe uma distância infinita entre as faculdades do homem e as do mais perfeito
animal, atestação evidente de que o homem é de uma natureza diferente, que ele
sozinho compõe uma classe à parte, da qual ele desce percorrendo um espaço infinito
antes de chegar a esses animais, pois se o homem fosse o líder dos animais, existiria
na natureza um número de seres menos perfeitos que o homem e mais perfeitos que o
animal, aos quais desceriam insensivelmente e por gradações do homem ao macaco;
mas não é assim: passamos de uma vez só do ser pensante ao ser material, da potência
intelectual à força mecânica, da ordem e do desenho ao movimento cego, da reflexão
ao apetite (Buffon, 1864, p.27).22
Podemos concluir por meio dessa passagem que as críticas de Buffon foram direcionadas
a outros filósofos naturais, que defendiam uma gradação lenta na Cadeia do Ser, enquanto o
diretor do Jardin du Roi apontava uma mudança brusca; do pensante ao material, como
o mesmo ressaltou. Nesse excerto, Buffon defendeu uma transformação repentina entre o
Homem branco e o negro, de modo que este último não possuiria condições de desempenhar
“as boas” características dos brancos europeus, posto que a gradação entre ambos não mudaria
de modo sutil, mas de forma brusca, visto que eram totalmente diferentes (um Humano, o outro
animal). Segundo sua lógica, as diferenças entre o branco europeu e o restante das espécies
Apontamentos acerca da Cadeia do Ser e o lugar dos negros na losoa natural na Europa setecentista
v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 9 9 9
anatomofisiologicamente semelhantes aos humanos seriam tão grandes que até mesmo o elo
entre elas era deveras distante do branco. Com isso, Buffon não negou a existência de elos
na Cadeia do Ser, ele apenas buscou ressaltar, para seus contemporâneos, que as diferenças
entre as espécies eram fixas e determinadas. Ainda segundo o autor da Histoire naturelle, os
negros eram os elos entre o Homo sapiens e os símios, porém, esse fato não implicaria uma
proximidade entre os negros e o Homem – branco europeu. Portanto, Buffon acreditava que
o lugar de cada ser estava definido e que, mesmo havendo gradação entre o negro e o Homem
branco, os seres Humanos eram totalmente superiores e diferentes dos negros e demais seres
considerados inferiores. Por mais que se parecessem e por mais que os negros fossem o elo
entre os brancos e os macacos, a visão de Buffon não permitia a compreensão de negros como
seres pensantes, ainda que minimamente. Os negros não seriam humanos, mas animais, e o
fato de serem um elo entre brancos e macacos não mudava sua condição.
Em outra passagem da vasta obra de Buffon (1777, p.506) podemos notar que sua noção
de homem (não isolada de seus correspondentes europeus) classificava os não europeus
como “espécies” inferiores. Tratando dos anões de Madagascar, Buffon não via diferenças
entre esse grupo e os demais africanos, e, por fim, os considerou próximos aos macacos tanto
quanto os negros. Ele é textual: “Retire-lhes a fala ou as dê aos macacos grandes e pequenos,
será a passagem insensível da espécie humana à gente quadrúpede. O caráter natural e
distintivo desses pequenos homens é de serem brancos ou menos pálidos que todos os negros
conhecidos”.23
Jean-Baptiste-René Robinet (1735-1820) não ficou conhecido como Buffon, mas defendia
que o rabo dos animais ia diminuindo à medida que se observavam os seres mais desenvolvidos
na cadeia do ser (Robinet, 1768, p.167). Valendo-se de uma passagem da Histoire naturelle
(tomo 6, p.245) de Buffon, ele argumentou que os hotentotes não eram propriamente negros,
mas que, no universo racial dos negros, eram os que mais se aproximavam dos brancos; tal
como os mouros, que na raça dos brancos seriam os mais próximos dos negros (Robinet,
1768, p.172-173). O filósofo natural francês chegou a concluir seu raciocínio acerca dos
hotentotes afirmando que o orangotango era um animal sob a máscara de um humano e que
um hotentote seria um homem mascarado pelos traços, voz e hábitos de um animal (Robinet,
1768, p.174). Robinet possuía uma visão particular do desenvolvimento no mundo natural;
para ele, o início de uma progressão na Cadeia do Ser poderia ter uma acepção também
negativa: “Desde o primeiro passo de sua degradação, ele deixa de ser homem: o vizinho mais
próximo do homem é quase um homem; mas ele não é um homem” (p.6).24
Sua noção sobre a Cadeia do Ser chegou a ponto de detalhar o processo de gradação do
negro ao branco europeu. Para ele, a natureza conduziria a elevação das espécies até chegarmos
ao branco. Todavia, esse processo não ocorreria, como depois alguns pensadores propuseram,
por meio da miscigenação; seria um processo de “melhoria natural”,25 sem volta, em que as
gradações das espécies culminariam no branqueamento (ascensão) dos seres humanoides:
Estudando as variações da cor das raças negras, encontraremos todos os tons
intermediários do negro ao moreno; comparando seus traços, seus tamanhos, as
proporções de seus membros, veremos a Natureza ‘melhorando sem cessar’, mas
lentamente, a espécie humana multiplicando as gerações, reformando cada vez certos
traços. Quantos séculos foram necessários para lavar a pele do Senegalês, e ‘não falo pela
Christian Fausto Moraes dos Santos, Rafael Dias da Silva Campos
10 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro10 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
mistura de sangue’ do Branco, ‘mas pela gradação necessária’ das formas que abraçam
igualmente a cor da pele ...? (Robinet, 1768, p.169; destaques nossos).26
Johann Friedrich Blumenbach (1752-1840), mais conhecido hoje por ter sido o criador da
expressão “caucasiano”, estava a investigar o que diferenciava o homem dos outros animais.
Na obra De generis humani varietate nativa (Da variedade natural do homem), publicada
originalmente em 1775, Blumenbach (1865a, p.264-276) analisou os diferentes caracteres
dos brancos e os comparou aos de diversos povos, definindo o que estaria presente em uns
e ausente em outros e assim diferenciando as espécies. O leitor das suas obras Contribution
to natural history e Manuel d’histoire naturelle poderá notar Blumenbach classificando o negro
como obtuso mentalmente, com um corpo especialmente diferente dos outros “homens”
e numa cadeia de imperceptíveis passagens ou elos na Cadeia do Ser (Blumenbach, 1865b,
p.305; 1803, p.3, 78).
O filósofo natural Eberhard August Wilhelm von Zimmermann (1743-1815) realizou
diversos estudos, entre eles alguns sobre a elasticidade da água e proliferação e degeneração
humana. Em 1777, Zimmermann publicou a obra Zoologie géographique, muito comentada
na época, principalmente devido à relação por ele estabelecida entre os seres naturais e a
geografia. Nesse livro, ele discutiu a influência da distribuição geográfica dos animais na
determinação de diversos grupos taxonômicos. Mas quando aplicou sua visão zoogeográfica,27
Zimmermann ressaltou o papel do fixismo para sua compreensão setecentista da variedade
humana e, consequentemente, para sua noção de Cadeia do Ser:
Para retornar às nuanças entre o Negro e o Branco, observamos que são encontradas
nelas uma grande variedade, ou melhor, uma gradação.
... Finalmente, a natureza passa através da nuança do Mouro e do Hotentote
gradualmente até o Negro. É necessário observar ainda uma outra mistura, a saber, o
Índio verde-oliva. Ele habita as partes meridionais da Ásia (Zimmermann, 1784, p.175).28
Por essa passagem, podemos notar que Zimmermann compreendia diferenças humanas,
que, todavia, se dariam devido às gradações da natureza, de modo que o lugar dos negros,
brancos, mouros e hotentotes seria determinado. Nesse sentido, a ideia fixista de mundo
natural não somente estava presente na obra de Zimmermann como era um importante
elemento para a construção de sua ideia de gradação entre hotentotes e brancos, pois foi por
meio dela que esse autor defendeu as variedades humanas.
O já citado Blumenbach, em seu Manuel d’histoire naturelle, originalmente publicado em
1779, descreveu espécies de diversas ordens animais postuladas por Linnaeus. Essa obra gerou
certa dúvida, pois Blumenbach criticou Linnaeus, contundentemente, quanto à existência
ou não do Homo lar (Linnaeus, 1771, p.521). Segundo o fisiologista alemão (Blumenbach,
1803, p.80), o animal descrito não era um Homo como dizia o sueco, mas um símio. Não por
acaso, autores passaram a encontrar em Blumenbach o primeiro grande pensador que seria
contrário à Cadeia do Ser (Burns, 2003, p.30; Wilson, Reil, 2004, p.61-62). Esses pesquisadores
só chegaram a tais conclusões porque deixaram de ler as duas páginas seguintes do Manual
de Blumenbach.29
Das espécies que o filósofo natural alemão estudou, os humanos foram taxonomizados
como bimanos, tendo ele agrupado diversos povos no mesmo gênero Homo (o que contribuiu
Apontamentos acerca da Cadeia do Ser e o lugar dos negros na losoa natural na Europa setecentista
v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 11 11 11
para a percepção de que defendia a ideia de uma única espécie humana). Na sequência, ele
descreveu os quadrúmanos (mamíferos tetrápodes), sendo os macacos o primeiro grupo
descrito. O autor separou os macacos sem cauda dos caudatos. Entre os macacos sem cauda
estariam chimpanzés, orangotangos, gibões e, por fim, os macacos ordinários (latinizados por
Blumenbach como Simeae sylvanus; em inglês pygmy; em francês pithèque) ou, simplesmente,
pigmeu (Blumenbach, 1803, p.82-84; Buffon, 1866, p.84-91). Blumenbach, crítico de Linnaeus,
na verdade não foi um crítico da visão de natureza do sistemata sueco. Os pigmeus, grupos
étnicos africanos hoje conhecidos como Mbuti, Aka, Baka e Twa, foram considerados, também
por Blumenbach, seres mais próximos dos macacos que dos humanos (Blumenbach, 1803,
p.3, 78, 82-84; 1865b, p.305). Para Blumenbach, os pigmeus nem do gênero Homo eram.
O famoso Voltaire (1604-1778) publicou em 1773 um artigo no cotidiano Oxford Magazine.
Nesse texto, o iluminista (reputado como uns dos mentores do ideal filosófico de igualdade)
irritou-se com a possibilidade de senhoritas se deitarem com negros (“What ... ladies with
black skins! monstrously absurd! ... Impossible!”). Voltaire também não achava que os negros
eram Homens:
Estas criaturas são chamadas de homem porque elas falam algumas palavras e possuem
um pouco da aparência humana (Voltaire, 1773, p.220).
...
Elas nunca tinham vivido por mais de vinte e cinco anos, isto então pareceu ser ‘um
tipo de espécie de seres, intermediária entre homens e brutos’, uma ligação pela qual a
natureza escolhe continuar sua cadeia universal. Essa é uma das desconhecidas espécies
de animais, que descobre a grandeza do Criador, e talvez existam muitas outras naqueles
desconhecidos lugares, situados no polo Sul (p.221, destaque nosso).30
Podemos notar que Voltaire, que era, aliás, investidor na Companhia das Índias
(Ginzburg, 2007, p.123), defendia uma concepção de negro consideravelmente próxima
dos animais. Para ele, havia os homens e os brutos – os negros eram “um tipo de espécie
intermediária” entre ambos. Assim, mesmo sendo relembrado como um profícuo ideólogo
das ideias liberais no Setecentos, sua concepção em relação ao negro (de inferior como
espécie) era coetânea à de seus contemporâneos na defesa de uma diferença marcante
que separava de modo completo os negros dos brancos, posto que ocupassem gradações
específicas na Cadeia do Ser. Voltaire, portanto, é exemplar para a compreensão dessa questão
tão controversa (a ideia de inferioridade do negro em sentido de espécie), pois suas críticas
políticas, comumente lembradas, contra um mundo desigual foram ouvidas de Lisboa a São
Petersburgo, passando por Vila Rica. Todavia, sua visão do negro, que estava amparada por
ideias acadêmicas e era compartilhada por filósofos igualmente reconhecidos, não ganhou
tanta notoriedade na historiografia.
Um desses reconhecidos autores era Linnaeus. No hoje clássico Systema naturae (na
edição de 1758), usando o critério de reprodução sexuada para diferenciar os seres, criou
uma escala de funções morfofisiológicas que permitiam enquadrar espécies aparentemente
diferentes num mesmo grupo (como, por exemplo, os divergentes mamíferos baleia e
morcego). É de conhecido saber que a ordem de Linnaeus se iniciava com o reino mineral,
depois as plantas e então os animais; entretanto, pouco se tem notado que, imbricado em
seu Systema, encontramos um grupo especialmente dedicado às raças humanas.
Christian Fausto Moraes dos Santos, Rafael Dias da Silva Campos
12 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro12 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
O sistemata sueco dividiu os primatas em quatro grupos: Homo, Simios, Lemur e
Vespertilio. Subsequentemente, os Homo foram classificados em seis outros grupos: Homo
americanus, Homo europeus, Homo asiaticus, Homo aser ou niger e os Homo monstrosus,
sendo estes últimos (H. monstrosus) redivididos em três, incluídos aqui os hotentotes.
Por fim, Linnaeus classificou o Homo noturnos ou troglodita como uma espécie distinta de
hominídeos (Linnaeus, 1759, p.12). O mais inusitado foi que os orangotangos estavam
presentes neste último grupo de Homo. O que faziam esses símios classificados como
“humanos”? Teria Linnaeus cometido um erro, ou o sistemata sueco entendia que os
orangotangos eram os semi-humanos mais próximos dos símios? Se considerarmos seu
cuidado de classificar as espécies, podemos dizer que Linnaeus não se considerava errado.
Basta tomarmos como exemplo o Homo caudatus: Linnaeus (juntamente com seu discípulo
Hoppius) chegou a identificá-los, mas preferiu não os incluir no Systema naturae, devido
às incertezas quanto a sua existência (Linnaeus, Hoppius, 1760, p.9; Gould, 1990, p.243;
Bynum, 1975, p.21-22).
Devemos notar, portanto, que no caso específico de um mundo que discutia sua origem,31
esses valores cumpriam o papel de formar o saber. Nesse contexto tão difuso, a resposta
unidirecional e ascendente oferecida pela Cadeia do Ser era uma maneira de explicar a
complexa “teia” de seres naturais (isto é, tanto minerais quanto plantas e animais) aos olhos
irrequietos dos filósofos naturais europeus.
Nesse sentido, uma marcante expressão do princípio da gradação na natureza acabou
sendo defendida no último quartel do século XVIII e assim corroborando a Cadeia do Ser.
Tal conclusão foi desenvolvida por Samuel Thomas von Soemmerring (1755-1830), que
em 1785 descreveu a anatomia do queixo dos negros como próxima à dos macacos. Esse
anatomista alemão afirmou que: “Existe uma real gradação da organização e das faculdades,
em todos os corpos da natureza; por ele descemos gradualmente do homem branco ao Negro,
e do Negro ao Hotentote: do Hotentote ao Orangotango a transição é muito significativa,
tal como a primeira entre os macacos é ainda bastante inferior à última entre os homens”
(Soemmerring, 1837, p.103).32
Nessa passagem, Soemmerring apresentou de forma culminante a condição dos não
europeus na Cadeia do Ser. O negro não era apenas apresentado como inferior; as palavras
“Negro” e “Hotentote” com inicial maiúscula denotam o caráter de “espécies” humanas,
verdadeiros humanoides. Soemmerring e seus colegas de filosofia natural defendiam
preceitos definidos, em que características consideradas animalescas (sociais, culturais e
anatomofiosiológicas) conferiam uma proximidade aos seres brutos, e eram, portanto,
decorrentes de investigações nos campos da anatomia, da fisiologia (e obviamente, sabemos
hoje, de valores eurocêntricos, que terminavam por permitir uma análise baseada em
uma superioridade dos europeus sobre os demais). Defendia-se um estágio delimitado no
desenvolvimento dos negros como espécies inferiores do gênero Homo.
Tal concepção era como uma complementaridade à defendida anteriormente por Edward
Tyson (1651-1708), pois antes de Soemmerring, na obra Orang-outang, sive Homo Sylvestris.
Or the anatomy of a Pygmie compared with that of a monkey, an ape, and a man (1699), Tyson,
que era um reconhecido anatomista comparado, anotou características marcantes de um
jovem chimpanzé trazido de Angola (segundo a terminologia de Tyson seria um orangotango
Apontamentos acerca da Cadeia do Ser e o lugar dos negros na losoa natural na Europa setecentista
v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 13 13 13
também). Segundo ele defendeu, tal ser não era um humano, seria o elo mais próximo entre
os Homo e os seres menos perfeitos (símios) (Montagu, 1944, p.85).
A obra Traité général du commerce de l’Amérique, publicada em 1783, foi atribuída ao
incógnito M. Chambon. Esse autor certamente não foi tão influente no universo acadêmico
quanto Soemmerring, mas é um exemplo das visões presentes nos relatos de viagens, que
tanto contribuíram para a formulação de conceitos sobre raça e espécie no século XVIII,
especialmente porque suas histórias serviram de fonte para os filósofos naturais de gabinete,
tão atuantes naquele século. Na passagem que se segue, Chambon defende que se, como
ele crê, existe uma gradação do homem ao macaco, certamente haveria uma determinada
continuação desse processo do maior ao menor dos seres criados. Para nós, vale ressaltar a
certeza do autor de que os negros eram espécies inferiores aos brancos, da mesma forma que
ele acreditava ser possível semelhante gradação entre os demais animais: “Mas o que significa
esses degraus do Negro e do Hotentote ao Albinois [Albino?], e do Albinois ao macaco, e do
homem ao animal? Sem dúvida haverá uma idêntica gradação do Elefante ao invisível Ciron
[aracnídeo, então considerado o menor dos animais]” (Chambon, 1783, p.450).33
Charles-Nicolas-Sigisbert Sonnini de Manoncourt (1751-1812) foi secretário de Buffon,
encarregado dos artigos de ornitologia estrangeira da Histoire naturelle (Michaud, 1854,
p.613). Mas foi quando se propôs a discutir a história natural de maneira geral que Sonnini
de Manoncourt contribuiu para a difusão da ideia de que os não europeus eram inferiores:
Nós reconhecemos então uma verdadeira gradação de vida e das faculdades em todos
os corpos da natureza; porque nós podemos descer por nuanças do ‘homem branco’ ao
‘negro’, e do ‘negro’ ao ‘hotentote’; a gradação é muito pronunciada do ‘hotentote’ ao
‘orangotango’, de modo que o primeiro dos ‘macacos’ é já bem inferior ao último dos
‘homens’ (Sonnini de Manoncourt, 1803, p.269; destaques no original).34
Podemos notar que o autor descreveu detalhadamente a ideia de gradação no ponto em que
tocava os negros e brancos. Sonnini de Manoncourt foi taxativo quando nomeou os brancos
como homem branco, em contraposição aos negros, que não receberam o “prefixo” homem.
Para ele, a gradação universal dos seres desceria (devemos lembrar aqui das concepções de
degenerescência de Buffon, seu mentor) e seria delimitada, de modo que o branco europeu
pertencesse a um grupo diferente dos demais seres que tinham alguma semelhança física
com os brancos, tanto que sua frase final ressalta a diferença entre o “primeiro dos macacos”
frente o “último dos homens”.
O filósofo natural Julien-Joseph Virey (1775-1846), em sua Histoire naturelle du genre humaine
(publicada em 1800), pensava com as mesmas palavras de Sonnini (Virey, 1824, p.48-49).35
Para ele, as gradações seriam diretas, sendo que dos símios passar-se-ia aos negros e enfim
aos homens (brancos europeus):
Em geral, o europeu é o mais inteligente e o mais polido de todos os habitantes da
terra. Em seguida vem o Indu, o Asiático da raça mongol, como o Chinês e o Japonês,
etc., esses são seguidos pelas tribos malaias, as tribos kalmoukes e americanas; descemos
enfim ao Laponio, ao negro, ao Hotentote e mesmo ao cretino [pouco inteligente],
depois o ‘Makaia’, ao negro ‘éboë’, que, segundo Bryan Edwards, é exatamente idêntico
ao babuíno. Passamos então insensivelmente do homem ao macaco por pequenas
gradações. ... ‘Existe certamente mais diferença entre um Descartes, um Homero e o
Christian Fausto Moraes dos Santos, Rafael Dias da Silva Campos
14 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro14 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
estúpido Hotentote, que entre o orangotango e este último’ (Virey, 1824, p.434-435;
grifos no original, destaque frasal nosso).36
A Grande Cadeia do Ser era estática, não previa transformações e, justamente por isso,
adequava-se às hierarquias sociais da Europa setecentista. Cada qual em seu lugar, com os
europeus no topo, a Cadeia do Ser propiciou fortemente a defesa ideológica de uma hierarquia
dos seres. Das mais diversas áreas (entre a geografia e a fisiologia, passando pela filosofia),
a Cadeia do Ser era utilizada para assegurar veracidade, refutar ideias ou reafirmar certezas;
enfim, era uma “verdade” usada para dizer outras “verdades”.
Considerações nais
Os filósofos naturais europeus do século XVIII entendiam os índios e negros não como
humanos inferiores, mas como seres quase humanos; logo ali, alguns degraus/elos abaixo na
Cadeia do Ser. A ideia comumente aceita de um racismo quase amainado recebe, portanto, um
novo olhar, posto que as ações para com negros e índios acabavam por receber justificativas
filosóficas (permeadas de neutralidade) acerca da inferioridade dos não europeus. Tais defesas,
logo, não nos permitem classificar/rotular esses homens como racistas, pois a hierarquização
por eles defendida estava baseada em critérios diferentes daqueles empregados pelos adeptos
do racismo científico no século seguinte. Ao mesmo tempo, como discutimos acima, o termo
raça não estava definido na época, sendo, então, uma incoerência atribuir a todo um grupo de
pensadores um conceito que não refletia a mesma ideia a todos; grupo esse que nem mesmo
era uníssono quanto aos limites da hierarquização que criou. Cada qual em seu lugar, com
os europeus no topo, a Cadeia do Ser propiciou fortemente a defesa da hierarquia baseada
no “conhecimento racional”.
Em outra medida, nossa pesquisa percebeu quão problemática é a ideia de “elo perdido”
(decorrente da teoria da Cadeia do Ser), que frequentemente circula nos meios midiáticos.
Incorreta do ponto de vista da teoria evolucionista, essa perspectiva mantém, em parte, a
arrogância científica da superioridade humana, permitindo que velhos erros sob novas formas
possam ser ainda hoje cometidos.
Este artigo buscou discutir em que medida os filósofos naturais europeus do século XVIII
justificaram as diferenças humanas por meio do tamanho do crânio, como também por
quaisquer outros dados morfofisiológicos que pudessem ser encontrados nas diferenças entre
caucasianos, mongólicos e negroides, compondo o mosaico e as estatísticas que ajudaram
a fundamentar a Teoria da Cadeia do Ser. Portanto, a filosofia natural setecentista passou a
ser vista como um importante fator de transformação do mundo, inaugurando uma nova
concepção secular. A natureza deixava de se apresentar para simples contemplação, e sim,
para “conhecimento de domínio”.37
Nesse quadro, a busca dos elos perdidos implicava coletar provas que atestassem a gradação
dos seres. São exemplos desse processo a quantidade de estudos fisiológicos e anatômicos
classificando os seres e a grande quantidade de filósofos naturais setecentistas viajando pelo
mundo em busca de decifrar os elos da cadeia, então desconhecidos. Esse método analítico
acabou conferindo lugar privilegiado à anatomia e à fisiologia, pois através dessas duas
Apontamentos acerca da Cadeia do Ser e o lugar dos negros na losoa natural na Europa setecentista
v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 15 15 15
disciplinas seria comprovada a “proximidade quase imperceptível” entre um ser inferior e
seu imediato superior na Escada do Ser.
AGRADECIMENTOS
Estudo realizado sob os auspícios da Fundação Araucária, órgão de fomento à pesquisa do estado do Paraná.
Agradecemos a inestimável contribuição do professor Flávio Edler, com suas sugestões de leitura e atenção
dispensada, aquando do Quarto Congresso Internacional de História (Maringá, 2009). De modo semelhante,
este texto não teria sido possível sem as correções do professor Jaime Benchimol, que se dedicou a nos
auxiliar a solucionar as fragilidades do texto. Benchimol e os(as) pareceristas de Manguinhos tiveram papel
fundamental para o artigo como se encontra. As responsabilidades, todavia, são dos autores.
NOTAS
1 “Dieu veut que l’Univers soit, l’Univers est. Cette virtu divine, cette force incomprehensible peut-être
communiquée? Et si elle peut-être communiquée, quelles sont les loix de cette communication”.
Nesta e nas demais citações em outros idiomas, a tradução é livre. Os excertos originais estão todos constantes
em notas.
2 Em sua vasta obra, Bonnet investigou conteúdos os mais diversos, enquadrando-se no enciclopedismo dos
filósofos naturais do século XVIII. Dessas pesquisas, foram notórias suas descobertas acerca da partenogênese
dos pulgões e os estudos sobre a regeneração dos animais (Papavero, Pujol-Luz, 2000, p.170-181).
3 “Cette force d’impulsion a certainement été communiquée aux astres en général par la main de Dieu,
lorsqu’elle donna le branle à l’Univers.”
4 A paginação não foi numerada no arquivo, portanto, seguimos neste caso os números do arquivo pdf
disponibilizado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
5 Seria mais correto empregar, com relação a esse período, a expressão filosofia natural, pois ‘ciência’ surgiu
depois de 1840, quando, na Escócia, a Associação Britânica para o Progresso da Ciência utilizou a conotação
moderna do termo (Ronan, 1983, p.7). Já para Paolo Rossi (2001, p.371), a formação de institutos de pesquisa
também seria um fenômeno circunscrito, eminentemente, ao século XIX.
6 Leibniz (1646-1716), por exemplo, defendeu na Acta enditorum, de 1693 (Leibniz, 1997, p.10-11), que
a maior parte da matéria que compunha o globo terrestre teria sido destruída pelas chamas quando da
separação entre trevas e luz, um preceito bíblico. Na obra Protogaea, de 1749, ele defendeu essas mesmas
ideias, apontando o seu princípio religioso: “Suspeita-se ou pretende-se que habitamos tal vulcão, produto
do divórcio da luz e das trevas assinalado por Moisés. Quase todos creem, e os ‘Sacros Escritos insinuam’,
que existem no centro da Terra focos ardentes cujas chamas podem às vezes causar erupções. ‘Apoiam
essa conjectura os vestígios’ que ainda subsistem do aspecto primitivo da Terra” (Leibniz, 1997, p.29;
destaques nossos).
7 Podemos aqui citar como exemplo o grupo dos filósofos naturais neptunistas, que postulavam ser a água,
principalmente a do Dilúvio, o agente geológico mais importante. Em 1756, Johann Gottlob Lehmann
(1719-1767), ‘geólogo’ formado em medicina, classificou diferentes strata (camadas) por ele atribuídos ao
Dilúvio Universal (Young, Stearley, 2008, p.72). Temos também que levar em consideração, mais uma vez, as
defesas ideológicas de Buffon. Tanto para não ser censurado quanto por não ser ateu, ele acabou mantendo
a interpretação original do Gênesis acerca da idade da Terra. No seu Les époques de la nature (1778, p.28-29),
Buffon alterou a ideia básica dos setes dias da Criação, postulando que o termo ‘dia’ designava intervalos
de tempo e não 24 horas.
8 “Dieu seul connoît toute la bonté qu’il a mise dans ses ouvrages, parce qu’il est lui seul capable de connoître
parfaitement la justesse qui brille dans ses ouvrages, le rapport mutuel qui se trouve entr’eux, l’harmonie
qui fait d’eux un tout régulier & sagement ordonné, en un met l’ordre établi pour les conserver.”
9 O preformacionismo, por exemplo, arguia que os seres vivos existiam já formados dentro dos ovos, tendo
sido colocados lá por Deus (Correia, 1998, p.30). Conforme notaram Jan Sapp (2003, p.39), Francesca Rigotti
(1986, p.217) e Nelson Papavero (Papavero, Pujol-Luz, 2000, p.102), o termo “evolução” era utilizado pelos
preformacionistas para explicar o desenvolvimento embrionário. Assim, preferimos adotar uma expressão que
se aproxime da atual ideia de evolução, mas que aborde o desenvolvimento biológico de modo a historicizar
o próprio termo. Essa teoria, segundo Correia (1998), seria uma das alternativas mais criativas à geração
Christian Fausto Moraes dos Santos, Rafael Dias da Silva Campos
16 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro16 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
espontânea e às versões iniciais da epigênese. Para mais detalhes sobre as mudanças nas visões acerca das
teorias embrionárias, cf. a obra de Clara Pinto Correia (1998).
10 Com pequenas diferenças, essa passagem pode também ser encontrada no jornal londrino The Gentleman’s
Magazine: “The farther we enquire into the works of our great Creator, the more evident marks we shall
discover of his infinite wisdom and power, and perhaps in none more remarkably, than in that wonderful
chain of Beings with which this terrestrial globe is furnished; rising above each other, from the senseless
clod to the brightest genius of human kind ...
From this lowest degree in the brutal Hottentot, reason, with the assistance of learning and science, advances,
through the various stages of human understanding, which rise above each other, till in a Bacon, or a
Newton, it attains the summit” (Jenyns, 1782, p.188).
11 “On peut descendre par des degrés presqu’insensibles, de la créature la plus parfaite jusqu’à la matière la
plus informe, de l’animal le mieux organisé jusqu’au minéral le plus brut; il reconnoîtra que ces nuances
imperceptibles sont le grand œuvre de la Nature; il les trouvera ces nuances, non seulement dans les grandeurs
& dans les formes, mais dans les mouvemens, dans les générations, dans les successions de toute espèce.
... Mais la Nature marche par des gradations inconnues, & par conséquent elle ne peut pas se prêter totalement
à ces divisions, puisqu’elle passe d’une espèce à une autre espèce, & souvent d’un genre à un autre genre,
par des nuances imperceptibles; de sorte qu’il se trouve un grand nombre d’espèces moyennes & d’objets
mi-partis qu’on ne sait où placer, & qui dérangent nécessairement le projet du système général.”
12 Apesar de a referência ser a ambos, por questões formais, o autor dessa passagem é mesmo D’Alembert.
13 “Lois générales par lesquelles l’Univers est gouverné. Tout est lié dans la Nature; tous les êtres se tiennent
par une chaîne dont nous appercevons quelques parties continues, quoique dans un plus grand nombre
d’endroits la continuité nous échappe. … l’art du Philosophe consiste à ajoûter de nouveaux chainons aux
parties séparées, afin de les rendre le moins distantes qu’il est possible.”
14 “Le Polype a été découvert dans les Eaux, & les deux Règnes organiques se sont unis. ... Il y a certainement
une Gradation dans la Nature ... Si le Polype nous montre le passage du Végétal à l’Animal, d’un autre côté
nous ne découvrons pas celui du Minéral au Vegetal.”
15 “Among fishes I will first treat of that species which bears so strong a resemblance to serpents, and is
even considered in the chain of animated beings, as the intermediate link between fishes and serpents, I
mean the eel.”
16 As contribuições no periódico, desde sua fundação, em 1837, até 1839, não eram assinadas (Correia,
2008, p.2).
17 Apesar de se tratar de um período posterior ao discutido neste artigo (século XVIII), optamos por manter
essa citação em jornal em vez de outras do Setecentos, pois nos permite exemplificar a difusão da ideia, ao
mesmo tempo em que podemos propor a outros estudiosos análises também para o século XIX.
18 “In the chain of animal, man is unquestionably the chief for capital link, and from him all the other
links descend by almost imperceptible gradations. ... How many gradations may be traced between a stupid
Huron, or a Hottentot, and a profound philosopher? Here the distance is immense”
19 “Le Polype est peut-être moins éloigné du Singe, qu’il ne l’est des Animaux que nous cherchons à connoître.
En un mot, nous ne savons point où commence l’Animal: nous savons seulement où il finit, & que l’Homme
est le terme le plus élevé de cette magnifique gradation.”
20 “Ascending the line of gradation, we come at last to the white European; who being most removed from
the brute creation, may, on that account, be considered as the most beautiful of the human race. No one
will doubt his superiority in intellectual powers; and I believe it will be found that his capacity is naturally
superior also to that of every other man.”
21 “Si l’Éléphant paroît se rapprocher de l’Homme par l’intelligence, l’Orang-outang paroît s’en raprrocher bien
davantage par la conformation tant intérieure qu’extérieure, & par inclinations, les habitudes & les talens qui
en dérivent. L’Orang-outang est si semblable à l’Homme, que l’Anatomiste que les compare, croit comparer
deux Individus de la même Genre; & frappé des ressemblances si marquées & si nombreuses qu’il découvre
entre ces deux Êtres, il n’hésite pas à placer l’Orang-outang immédiatement après le grossier Hottentot.”
22 “Il y a une distance infinie entre les facultés de l’homme et celles du plus parfait animal, preuve évidente
que l’homme est d’une différente nature, que seul il fait une classe à part, de laquelle il faut descendre
en parcourant un espace infini avant que d’arriver à celle de animaux, car si l’homme était de l’ordre des
animaux, il y aurait dans la nature un certain nombre d’être moins parfaits que l’homme et plus parfaits
que l’animal, par lesquels on descendrait insensiblement et par nuances de l’homme au singe ; mais cela
Apontamentos acerca da Cadeia do Ser e o lugar dos negros na losoa natural na Europa setecentista
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n’est pas: on passe tout dun coup de l’être pensant à l’être matériel, de la puissance intellectuelle à la force
mécanique, de l’ordre et du dessin au mouvement aveugle, de la réflexion à l’appétit.”
23 “Otez-leur la parole ou donnez-là aux singes grands & petits, ce seroit le passage insensible de l’espèce
humaine à la gent quadrupède. Le caractère naturel & distinctif de ces petits hommes est d’être blancs ou
du moins plus pâles en couleur que tous les noirs connus”
24 “dès le premier pas de sa dégradation, il auroit cessé d’être homme: le plus voisin de l’homme, est presque
un homme; mail il n’en est pas un.”
25 Cabe relembrar que a Cadeia do Ser baseava-se no princípio do fixismo.
26 “En étudiant les variétés de la couleur des races negres, on y trouvera toutes les teintes intermédiaires du
noir au brun; en comparant leurs traits, leur taille, les proportions de leurs membres, on verra la Nature
perfectionnant sans cesse, mais lentement, l’espece humaine en multipliant les générations, réformant
chaque fois quelque trait. Combien lui a-t-il fallu de fécles pour laver la peau du Sénégallois, je ne dis pas
par le mêlange avec le sang du Blanc, mais par la gradation nécessaire des formes qui embrasse également
la couleur des surfaces ...?”
27 Zimmermann foi um dos primeiros filósofos naturais a empregar o termo zoogeografia para designar o
estudo dos seres vivos em um ambiente determinado.
28 “Pour en revenir aux nuances, entre le Négre & le Blanc, observons qu’ils s’y trouve une grande variété,
on plutôt une gradation. ... Enfin delà, la nature passe par la nuance du Maure & du Hottentot peu à peu
jusqu’au Négre. Il faut observer encore un autre mélange, savoir celui de l’Indien olivâtre. Il habite les
contrées méridionales de l’Asie.”
29 Apesar de não ser foco principal de nossa discussão, cabe salientar que esses autores foram influenciados
também devido ao fato de Blumenbach não ter postulado uma hierarquização definida entre as diferentes
raças em seu sistema de classificação. Quando esse filósofo natural definiu as diferentes raças em seu
sistema, ele não disse textualmente que os caucasianos seriam superiores aos demais. Essa constatação,
portanto, contribuiu para que alguns pesquisadores, como já ressaltado, concluíssem que Blumenbach
negava a Cadeia do Ser.
30 “These creatures are called men, because they speak a few words, and have somewhat of human visage.
...
They have never been know to live above twenty-five years, this then seems to be a sort of intermediate
species of beings between man and brute, a link by which nature chuses [chouses?] to continue her universal
chain. This is one of the unknown species of animals, which discovers the greatness of the Creator, and
perhaps there are many others in those undiscovered countries, that lie towards the South pole.”
31 Os estudiosos de então sentiam dificuldades em classificar os seres do mundo natural: baleias (se mamíferos
ou peixes), se os asbestos eram minerais ou plantas, ou ainda, se os negros eram homens ou macacos.
32 “There is a real gradation of organization and faculties, in all the bodies of Nature; for we may descend
by degrees from the white man to the Negro, and from the Negro to the Hottentot: from the Hottentot to
the Orang Outang the transition is very great, as the first among the monkeys is still very inferior to the
last among men.”
33 “Mais que signifient ces dégrés du Négre & de l’Hotentot à l’Albinois, & de l’Albinois au singe, & de
l’homme à l’animal? Sans doute qu’il y aura une semblable gradation de l’Eléphan à l’invisible Ciron.”
34 “Nous reconnoissons donc une véritable gradation de vie et de facultés dans touts les corps de la nature;
car nous pouvons descendre par nuances de l’homme blanc au nègre, et du nègre au hottentot; la gradation est
trés-prononcée du hottentot à l’orang-outang, puisque le premier des singes est déjà bien inférieur au denier
des hommes
35 “Nous reconnaissons une véritable gradation de vie et de facultés dans tous les corps de la nature; car
nous pouvons descendre à nuances de l’homme blanc au nègre, et du nègre au Hottentot; la dégradation
est très prononcée du Hottentot à l’orang-outang, puisque le premier des singes est déjà bien inférieur au
dernier des hommes. La famille des singes nous mène par des progressions également insensibles à toute
la classe des quadrupèdes; de là aux oiseaux, aux reptiles, aux poissons, aux mollusques, aux crustacés, aux
insectes, aux vers et aux zoophytes. Les polýpes font une nuance très remarquable entre les animaux et les
plantes, puisque’ils sont nommés zoophytes, c’est-à-dire animaux-plantes.” [Reconhecemos uma verdadeira
gradação de vida e faculdades em todos os corpos naturais; pois podemos classificar tons de sombreamento
do homem branco ao negro, e do negro ao hotentote; a degradação é muito pronunciada do hotentote ao
orangotango, uma vez que o primeiro dos macacos já está bem abaixo do menor dos homens. A família dos
Christian Fausto Moraes dos Santos, Rafael Dias da Silva Campos
18 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro18 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
macacos nos leva por meio de progressões igualmente insensíveis a toda classe dos quadrúpedes; das aves,
répteis, peixes, moluscos, crustáceos, insetos, vermes e zoófitos.]
36 “En général, l’Européen est le plus intelligent et le plus policié de tous les habitants de la terre. Ensuite
vient l’Indu, l’Asiatique de race mongole, comme le Chinois et le Japonais, etc., ceux-ci sont suivis par les
peuplades malaies, les hordes kalmoukes et américaines; enfin on descend au Lapon, au nègre, au Hottentot et
même au crétin, puis au Makaia, au nègre éboë, qui, selon Bryan Edwards, a le museau exactement semblable
au babouin. On passe donc insensiblement de l’homme au singe par des nuances graduées. ... Certainement
il ya plus de différence entre un Descartes, un Homère et le stupide Hottentot, qu’entre l’orang-outang et
ce dernier.”
37 Por esse conceito compreendemos a ação, afirmativa, de utilizar o saber acerca de técnicas e tecnologias
novas, não necessariamente próprias, para produzir uma relação de poder, o mais das vezes, desigual.
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This research hasn't been cited in any other publications.
  • Contribution to natural history Göttingen: Heinrich Dieterich In: The anthropological treatises of Johann Friedrich Blumenbach
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    BLUMENBACH, Johann Friedrich. Contribution to natural history. Göttingen: Heinrich Dieterich. In: The anthropological treatises of Johann Friedrich Blumenbach. London: Longman, Roberts & Green. p.277-340. 1865b.
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    Protogaea, ou discussão sobre o aspecto primitivo da Terra e sobre os vestígios da antiguíssima história que encerram os próprios monumentos da natureza...
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    En général, l'Européen est le plus intelligent et le plus policié de tous les habitants de la terre. Ensuite vient l'Indu, l'Asiatique de race mongole, comme le Chinois et le Japonais, etc., ceux-ci sont suivis par les peuplades malaies, les hordes kalmoukes et américaines; enfin on descend au Lapon, au nègre, au Hottentot et même au crétin, puis au Makaia, au nègre éboë, qui, selon Bryan Edwards, a le museau exactement semblable au babouin. On passe donc insensiblement de l'homme au singe par des nuances graduées.... Certainement il ya plus de différence entre un Descartes, un Homère et le stupide Hottentot, qu'entre l'orang-outang et ce dernier."
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