ArticlePDF Available

Migração e Saúde

Authors:
  • National School of Public Health NOVA Lisboa

Abstract

A migração internacional é considerada um dos maiores de-safios da Saúde Pública a nível mundial. Actualmente há uma reconhecida necessidade de compreensão da movimentação da população e do seu impacto na saúde, quer para os países de acolhimento, trânsito e origem, quer para as populações, mi-grantes e autóctones. Neste contexto, é fundamental um me-lhor conhecimento dos determinantes de saúde e do estado de saúde dos indivíduos e comunidades imigrantes. A crescente imigração, a que muitos países estão sujeitos, torna necessário reflectir sobre políticas e estratégias de saúde integradoras e sustentadas, que produzam efeitos reais na redução de riscos e vulnerabilidades e permitam obter ganhos efectivos em saúde. migração e saúde, determinantes de saúde, estado de saúde, políticas e estratégicas de saúde. International migration is considered to be one of the greatest challenges facing Public Health on a world level. There is cur-rently a recognised need to understand population movement and its impact upon health, in host countries. There is curren-tly a recognised need to understand population movement and its impact upon health, in host, transitory and origin countries as well as for migrant and native populations. Within this fra-mework a better understanding of the factors that determine health, the state of health of individuals and of immigrant com-munities is fundamental. The growth in immigration that many countries are subject to has made it necessary to reflect upon integrated and sustained health policies and strategies, that produce real effects in reducing risks and vulnerability and that also lead to reaping the positive gains of health. migration and health, health determinants, state of health, he-alth policies and strategies.
15
Migrações _ #1 _ Setembro 2007
Migração e Saúde
Sónia Dias* e Aldina Gonçalves**
A migração internacional é considerada um dos maiores de-
saos da Saúde Pública a nível mundial. Actualmente há uma
reconhecida necessidade de compreensão da movimentação da
população e do seu impacto na saúde, quer para os países de
acolhimento, trânsito e origem, quer para as populações, mi-
grantes e autóctones. Neste contexto, é fundamental um me-
lhor conhecimento dos determinantes de saúde e do estado de
saúde dos indivíduos e comunidades imigrantes. A crescente
imigração, a que muitos países estão sujeitos, torna necessário
reectir sobre políticas e estratégias de saúde integradoras e
sustentadas, que produzam efeitos reais na redução de riscos e
vulnerabilidades e permitam obter ganhos efectivos em saúde.
migração e saúde, determinantes de saúde, estado de saúde,
políticas e estratégicas de saúde.
International migration is considered to be one of the greatest
challenges facing Public Health on a world level. There is cur-
rently a recognised need to understand population movement
and its impact upon health, in host countries. There is curren-
tly a recognised need to understand population movement and
its impact upon health, in host, transitory and origin countries
as well as for migrant and native populations. Within this fra-
mework a better understanding of the factors that determine
health, the state of health of individuals and of immigrant com-
munities is fundamental. The growth in immigration that many
countries are subject to has made it necessary to reect upon
integrated and sustained health policies and strategies, that
produce real effects in reducing risks and vulnerability and that
also lead to reaping the positive gains of health.
migration and health, health determinants, state of health, he-
alth policies and strategies.
Resumo
Palavras-chave:
Summary
Key-words:
* Unidade de Saúde e Desenvolvimento, Instituto de Higiene e Medicina Tropical,
Universidade Nova de Lisboa.
** Médica, Professora de Saúde Pública.
DIAS, Sónia e GONÇALVES, Aldina (2007), “Migração e Saúde”, in DIAS, Sónia (org.),
Revista
Migrações - Número Temático Imigração e Saúde
, Setembro 2007, n.º 1, Lisboa: ACIDI, pp.
15-26
16 Imigração e Saúde
Os movimentos migratórios têm vindo a ganhar uma frequência cada vez mais
acentuada no mundo actual. Em 2004, estimou-se que existiam cerca de 25 mi-
lhões de não-nacionais a viver nos países da União Europeia (EUROSTAT, 2006).
Em Portugal, dados de 2006 referem que a população estrangeira era constituída
por 409.185 cidadãos, contabilizando autorizações de residência, autorizações de
permanência e vistos de longa duração (SEF, 2006).
A migração internacional é actualmente considerada um dos maiores desaos
a nível mundial, surgindo como fonte de reexão para a generalidade dos paí-
ses. Neste contexto, há uma reconhecida necessidade de compreensão da mo-
vimentação da população e do seu impacto, quer para os países de acolhimento,
trânsito e origem, quer para as populações, migrantes e autóctones (Carballo e
Nerukar, 2001; IOM, 2003).
Na história da humanidade sempre existiram deslocações de pessoas ou grupos
dentro dos países e para fora destes. No entanto, as necessidades e as moti-
vações deste fenómeno têm sofrido alterações associadas às rápidas mudan-
ças ambientais, demográcas, sócio-económicas e políticas (Levitt e Jaworsky,
2007). A migração pode ser motivada por vários factores, entre outros, factores
ambientais (
e.g.
, catástrofes naturais), económicos (
e.g.
, pobreza, diferença de
recursos entre os vários países, aspirações a melhores condições de vida, globa-
lização da economia), políticos e religiosos (
e.g.
, guerras, conitos). O estado de
saúde dos indivíduos e a procura de cuidados de saúde é por vezes também uma
causa de mobilidade (WHO, 2003a).
Como fenómeno sócio-económico, a migração pode ser considerada um contri-
buto essencial para o desenvolvimento e para a resolução do problema demográ-
co que ocorre nos países desenvolvidos, na medida em que estes se confrontam
com uma população envelhecida e uma baixa taxa de natalidade. Nestes países,
a população imigrante, geralmente em idade activa, contribui com mão-de-obra
em várias actividades económicas para as quais não existe, muitas vezes, dispo-
nibilidade de trabalhadores nos próprios países. Por outro lado, nos países em
desenvolvimento, onde os aspectos demográcos têm outras características, a
migração surge, como já se referiu, como um recurso contra a pobreza ou como
solução para outras situações, nomeadamente catástrofes naturais, conitos bé-
licos, políticos, étnicos e religiosos.
A migração representa um desao para a Saúde Pública nos vários países.
Atendendo à complexidade dos determinantes de saúde dos imigrantes, à he-
Migração e Saúde
Sónia Dias e Aldina Gonçalves
17
Migrações _ #1 _ Setembro 2007
terogeneidade destas populações e à falta de dados nacionais e internacionais
consistentes sobre estas questões, a investigação nesta temática é ainda muito
incipiente (Maggi e Cattacin, 2003; McKay
et al.
, 2003).
Apesar da escassez de informação, as investigações e os indicadores de saúde
disponíveis parecem apontar para que os migrantes apresentem uma maior vul-
nerabilidade a doenças ou a outros problemas de saúde (Carballo
et al.
, 1998;
Jansà, 2004). No que respeita às doenças infecciosas, como sejam tuberculose,
VIH/SIDA e hepatites, alguns estudos disponíveis sugerem que as populações que
migram estão em maior risco de contrair estas doenças do que as populações
autóctones (Coker, 2003; Fennely, 2004; Gardete e Antunes, 1997). Uma investiga-
ção realizada por Saracino e colaboradores (2005) concluiu que, apesar da taxa de
prevalência da infecção VIH/SIDA ter diminuído em Itália, houve um aumento da
infecção nas populações imigrantes. Relativamente às doenças cardiovasculares,
diabetes, cancro e outros factores de risco associados, estudos comparativos en-
tre populações autóctones e populações imigrantes apontam para que as últimas
apresentem uma maior taxa de prevalência destas doenças (Rubia et al., 2002;
Mehler
et al.
, 2001; Hyman, 2007).
Alguns estudos referem que a migração pode também ter um impacto negati-
vo na saúde mental dos imigrantes, sugerindo que as populações imigrantes se
encontram em maior risco de vir a sofrer de doenças mentais, nomeadamente
depressão, esquizofrenia e stress pós-traumático, como resultado de diversos
factores de stress presentes ao longo do processo de migração (Carta
et al.
, 2005;
Pumariega et al., 2005; Keyes, 2000; Fox
et al.
, 2001; Hermansson
et al.
, 2002;
Maddern, 2004; Mollica
et al.
, 2001; Steel e Silove, 2001).
No mesmo sentido, investigações na área da saúde reprodutiva apontam para
a existência de piores indicadores de saúde associados à população imigrante,
concretamente no que se refere à mortalidade perinatal, baixo peso à nascença
e menor utilização de métodos contraceptivos (Essen
et al.
, 2000; Mosher
et al.
,
2004; Kornosky
et al.
, 2007).
O efeito da migração na saúde é contudo controverso. Algumas investigações su-
gerem que nem sempre os migrantes, quando comparados com as populações de
acolhimento, apresentam piores indicadores de saúde (McKay
et al.
, 2003; Kandu-
la, 2004). Neste sentido, tem sido descrito o fenómeno do “migrante saudável”, que
aponta para o facto de alguns imigrantes serem mais saudáveis do que as popula-
ções autóctones e do que as populações da mesma origem, que já nasceram nos pa-
íses de acolhimento (Abraído-Lanza
et al.
, 1999; Razum
et al.
, 2000). Esta condição
tem sido demonstrada através de indicadores de saúde e de mortalidade entre dife-
rentes grupos de imigrantes e populações de vários países de acolhimento (Muennig
e Fahs, 2002; Noh e Kaspar, 2003; Swerdlow, 1991; Singh e Siahpush, 2001).
18 Imigração e Saúde
O estado de saúde de uma população é resultado de redes complexas de determi-
nantes que envolvem factores biológicos, genéticos, psicossociais, estilos de vida
e comportamentos, meio ambiente físico, sócio-económico e cultural, aspectos
relacionados com os sistemas de saúde, e ainda factores políticos e de nível ma-
cro-social (Reijneveld, 1998). No contexto da migração e saúde, é cada vez mais
consensual que a migração, em si mesma, não representa um factor de risco.
Neste sentido, o impacto da migração na saúde e os determinantes presentes em
cada fase do processo migratório variam com o tipo de migração (legal/irregular,
voluntária/forçada), o ambiente global do país de origem, trânsito e acolhimento,
as políticas de imigração adoptadas no país de chegada, as condições de acolhi-
mento ou o contacto mantido com o país de origem (Jolly e Reeves, 2005; McKay
et al.
, 2003). Assim, o efeito da migração no estado de saúde do imigrante, bem
como os padrões de morbilidade e mortalidade, dependem de quem está a mi-
grar, quando migra, de onde emigra, para onde migra e quais os parâmetros de
saúde que estão a ser avaliados (IOM, 2004; Carballo, 2007).
Apesar de se considerar que, em geral, a população que migra é a mais saudável,
estes grupos poderão estar mais vulneráveis à doença pelos riscos para a saúde
e bem-estar a que estão expostos nos países receptores (Kandula, 2004). Na che-
gada aos países de acolhimento, os imigrantes confrontam-se com um contexto
novo que inclui diferenças do meio ambiente físico e social, choque de culturas
e estilos de vida, barreiras linguísticas, diferenças nos sistemas administrativos
e legais, entre outros. Estas circunstâncias podem gerar problemas físicos, psi-
cológicos e sociais, que muitas vezes se associam a outros riscos inerentes ao
próprio indivíduo e ao país de origem (Carballo e Nerukar, 2001).
Os determinantes sócio-económicos têm ganho especial relevo no esforço de
compreensão da relação entre migração e vulnerabilidade no que diz respeito à
saúde (Reijneveld, 1998; WHO, 2003a). Os imigrantes apresentam, em geral, piores
condições de vida do que as populações dos países de acolhimento. Frequente-
mente, residem em zonas degradadas com reduzidos serviços de âmbito social e
de saúde, em condições habitacionais decientes e sem infra-estruturas básicas.
No contexto do trabalho, as actividades laborais que habitualmente desenvolvem
são pouco qualicadas e conjugam exposições a riscos e agentes de doença. Adi-
cionalmente, os imigrantes apresentam muitas vezes menor autonomia laboral e
negligência nos mecanismos de protecção no trabalho, na protecção social e nos
cuidados de saúde. Estas situações estão muitas vezes associadas a um estatuto
irregular, que torna os imigrantes mais vulneráveis à exploração laboral e limita
a capacidade para exercerem os seus direitos (Wolffers
et al.
, 2003).
Um outro factor de vulnerabilidade associado ao processo migratório, que pode
inuenciar o estado de saúde e bem-estar das populações imigrantes, é a própria
experiência de afastamento e ruptura das relações sociais e familiares (espe-
19
Migrações _ #1 _ Setembro 2007
cialmente quando o imigrante migra sozinho), situação que gera uma redução
do suporte social e emocional dos indivíduos. A ausência de estrutura familiar
e de outros mecanismos micro-sociais de apoio à estabilidade individual e aos
comportamentos protectores de saúde pode aumentar a vulnerabilidade, por
perpetuar a exposição a factores de risco e favorecer práticas prejudiciais à saú-
de, como sejam os consumos/dependência de substâncias (álcool, tabagismo,
outras drogas) e o envolvimento em episódios de violência (UNAIDS/IOM, 2001).
Por outro lado, o frequente isolamento social das populações imigrantes e a es-
tigmatização e discriminação quanto à sua origem étnica, crenças religiosas ou
condição de imigrante condicionam a sua adaptação e integração na sociedade de
acolhimento. No conjunto, estas situações podem colocar diculdades ao nível da
saúde mental dos imigrantes, que se encontram, muitas vezes, numa situação de
grande stress, motivada pela ruptura familiar, ansiedade quanto à sua situação
no país de acolhimento e receio de ser extraditado, em caso de imigração irregu-
lar (Carballo e Nerukar, 2001; Carta, Bernal
et al.
, 2005).
As desigualdades sócio-económicas que estão associadas a contextos de pobre-
za, exclusão social e a situações laborais precárias podem traduzir-se em redu-
zidas oportunidades de acesso à educação, informação e utilização dos serviços
sociais e de saúde. Estas desigualdades determinam diferentes graus de expo-
sição a factores de risco e de protecção, que levam a um aumento da vulnera-
bilidade, com consequências ao nível da saúde destas populações (Braveman e
Gruskin, 2003).
No que diz respeito a uma maior exposição aos riscos para a saúde, as questões
associadas à migração, saúde e género fazem, cada vez mais, parte das agendas
nacionais e internacionais (Jolly e Reeves, 2005; Parlamento Europeu, 2006). De
acordo com o relatório
A Passage to Hope – Women and International Migration
,
o número de mulheres migrantes (e que migram sozinhas) tem vindo a aumentar
signicativamente, o que introduz preocupações, pois frequentemente as migra-
ções no feminino representam maiores riscos e vulnerabilidades (UNFPA, 2006).
No contexto de pobreza, que caracteriza muitas vezes estes processos de migra-
ção, verica-se uma maior probabilidade de sexo coercivo, violência, exploração,
fraco poder de decisão e oportunidades limitadas para adoptar comportamentos
saudáveis (Carballo, 2007; Herrera e Campero, 2002; WHO, 2003b).
As políticas de imigração vigentes nos países de acolhimento que não promovem
a integração social e contribuem para a manutenção das condições associadas à
vulnerabilidade das populações imigrantes podem inuenciar de forma negativa
a sua saúde (Carballo e Nerukar, 2001; Grove, 2006). De acordo com algumas in-
vestigações, a associação positiva entre imigração e risco na saúde parece estar
relacionada com um limitado acesso aos serviços de saúde (Calado
et al.
, 1997;
Politzer
et al.
, 2001; Stronks
et al.
, 2001). Apesar da existência de cobertura e
20 Imigração e Saúde
acesso universal aos cuidados de saúde na maior parte dos países receptores
de imigrantes, o que se constata é que muitas vezes as comunidades não bene-
ciam de todos os serviços disponíveis e não são efectivamente abrangidas pelos
sistemas existentes de promoção da saúde, prevenção ou tratamento da doença
(Gautier
et al.
, 1997; Luck
et al.
, 1999; Mcmunn
et al.
, 1998; IOM, 2004).
O acesso e a utilização dos serviços de saúde pode ser dicultada por diferentes
níveis de barreiras e/ou obstáculos, como sejam as barreiras legislativas, es-
truturais, organizativas, económicas, culturais e linguísticas (Dias
et al.
, 2004;
Fennely, 2004). Apesar de o direito universal à saúde ser reconhecido, na prática
as restrições impostas aos imigrantes (sobretudo, aos que estão em situação ir-
regular) podem determinar o acesso aos cuidados de saúde. A situação laboral
instável e precária dos imigrantes, a diculdade em obter protecção social e o
custo associado aos cuidados de saúde podem constituir barreiras à utilização
dos serviços de saúde por parte das populações imigrantes.
Os constrangimentos nanceiros e a falta de outros recursos na área da saúde exis-
tentes em alguns países de acolhimento podem condicionar a adequação e/ou e-
cácia das respostas às necessidades de saúde das populações imigrantes. Um dos
aspectos a referir diz respeito às infra-estruturas e funcionamento dos serviços de
saúde, nomeadamente a distância, o horário e os tempos de espera. O comporta-
mento dos administrativos e prossionais de saúde é outro dos factores que pode
ser determinante no uso dos serviços. Frequentemente, os prossionais apresentam
um limitado conhecimento da legislação ou da sua aplicabilidade, que se traduz na
exclusão das comunidades imigrantes do sistema de saúde. Por outro lado, a discri-
minação e estigmatização, socialmente produzidas e associadas à situação de imi-
grante (sobretudo a de irregular), podem também condicionar o acesso à informação
e à utilização dos serviços de saúde (Wolffers
et al.
, 2003).
Os determinantes culturais, como os costumes, crenças e representações acerca
de saúde, doença e tratamento, são outro aspecto importante a considerar, pois
inuenciam os comportamentos em saúde, as práticas de risco e a necessida-
de percebida de utilizar os serviços de saúde (Dias
et al.
, 2002; Fongwa, 2001;
Stronks
et al.
, 2001). As práticas de saúde nos países de origem, que, muitas
vezes, se caracterizam pela preferência da medicina tradicional em substituição
do sistema de saúde, podem tender a perpetuar-se nos países de acolhimento e
traduzir-se numa menor procura e utilização dos serviços de saúde. Alguns estu-
dos sugerem que tende a haver um aumento da necessidade percebida de aceder
aos serviços por parte dos imigrantes que já estão há mais tempo no país e que
têm maior grau de alfabetização (Abbott
et al.
, 2000; Gonçalves
et al.
, 2003).
A menor utilização pode também ser potenciada pela pouca preparação dos pro-
ssionais de saúde para lidar com a diversidade cultural. Às barreiras culturais,
21
Migrações _ #1 _ Setembro 2007
acrescem-se as barreiras linguísticas que poderão existir entre os prestadores e os
utentes dos cuidados. Estas, no seu conjunto, dicultam a comunicação entre pa-
ciente e prossionais de saúde, introduzem obstáculos à promoção da saúde, pre-
venção, diagnóstico e tratamento, e contribuem para um sentimento de insatisfação
por parte do utilizador (Eshiett, 2003; Fenton, 2001). Neste sentido, os prossionais
de saúde devem estar sensibilizados para a importância das diferenças culturais e
ter competências para desempenhar adequadamente a sua função. Os serviços de
saúde devem disponibilizar meios para limitar as barreiras e dar respostas ajustadas
e sensíveis às especicidades destas populações (Dorr e Faist, 1997; Jansà, 2004;
Kandula, 2004). No global, é necessário uma reorganização dos serviços de saúde
que permita um maior ajustamento e adaptação a esta realidade.
As restrições no acesso aos cuidados de saúde impostas aos imigrantes em si-
tuação irregular e o receio de denúncia desta condição pode fazer com que estes
evitem os serviços de saúde e recorram à auto-medicação, à medicina alternativa
e a serviços em que a documentação não é um factor determinante de atendi-
mento – urgências, farmácia, unidades móveis, entre outros (CCHS, 1997). Esta
situação pode levar a que apenas recorram aos serviços de saúde em fase avan-
çada de doença, conduzindo a situações de maior gravidade e custos mais eleva-
dos com a saúde (WHO, 2003a).
Uma melhor compreensão dos determinantes do acesso e utilização dos serviços
de saúde na população imigrante poderá ser de grande utilidade para o desenvol-
vimento de políticas e programas de saúde mais adequados (que contribuam de
forma efectiva para minimizar os seus problemas de saúde). Será fundamental
reconhecer, quer ao nível dos prestadores, quer dos responsáveis políticos, que
não basta que o sistema prestador esteja disponível, mas é necessário que seja
acessível. De forma a contribuir para que os imigrantes tenham pleno acesso ao
que em cada país está estatuído, é também importante que estes sejam informa-
dos sobre os seus direitos.
A actual crescente imigração a que muitos países estão sujeitos, em particular os
europeus, constitui um desao a nível nacional e internacional (Carballo, 2007).
Tem sido advogada a necessidade de denir uma política de cooperação inter-
nacional entre os países de origem, trânsito e destino. É também fundamental
estabelecer políticas intersectoriais que englobem os diferentes actores deste
fenómeno global. Ao longo do tempo, diversas organizações públicas e privadas
têm desenvolvido esforços para elaborar e implementar políticas de imigração
que permitam a integração destas populações (ACIDI, 2007; Nações Unidas,
2003). No estado actual do conhecimento é globalmente aceite que as políticas e
estratégias devem ser sensíveis à diversidade cultural e adaptadas aos diversos
contextos que surgem com o fenómeno migratório, a m de serem dadas respos-
tas ecazes às necessidades das populações e indivíduos.
22 Imigração e Saúde
Numa perspectiva de Saúde Pública mais especíca e ao nível da organização e
operacionalização de programas não é demais reforçar que é fundamental um
maior conhecimento das comunidades imigrantes em cada contexto particular,
onde se inclui a saúde e os seus determinantes (Jansà, 2004). Este será um con-
tributo indispensável para identicar prioridades de intervenção, avaliar neces-
sidades especícas e estabelecer políticas e estratégias de saúde integradoras e
sustentadas, que produzam efeitos reais na redução de riscos e vulnerabilidades
e permitam obter ganhos efectivos de saúde nestas comunidades, assim como
nas comunidades de acolhimento (Grove, 2006).
Neste quadro referencial é indispensável para a sustentabilidade do processo um
modelo de intervenção que inclua as comunidades imigrantes, com um enfoque
no aproveitamento das suas potencialidades. Neste contexto, deve-se incentivar
a participação e empowerment destas comunidades para que adoptem um papel
activo na melhoria da sua saúde. A um nível mais abrangente é importante a
promoção de parcerias comunitárias que facilitem a identicação dos principais
problemas e das soluções mais adequadas.
Existe consenso de que é essencial adoptar uma abordagem integrada da mi-
gração e saúde e um modelo social de saúde positiva que contemple os deter-
minantes macro-sociais. Tal como é expresso na carta de Ottawa, para existir
saúde é necessário assegurar condições e recursos fundamentais de vida e tra-
balho (WHO, 1986). As populações imigrantes deverão beneciar do mesmo tipo
de factores protectores da população em geral, nomeadamente recursos sócio-
económicos, condições habitacionais, protecção social, laboral e igualdade de
oportunidades na educação e saúde. Os pressupostos deste conceito reforçam a
necessidade de fortalecimento do compromisso político como eixo fundamental
para que estas metas sejam alcançadas. Neste sentido, os responsáveis políticos
têm de repensar as políticas de saúde relativas aos imigrantes para que seja ul-
trapassada a abordagem individual do fenómeno saúde e doença e se aprofunde
a discussão em relação às várias dimensões envolvidas na saúde. Na sociedade
global deverá ainda prevalecer o objectivo ético de prevenir a discriminação e a
exclusão que pode ocorrer em vários contextos da vida social e da saúde, bem
como assegurar a promoção e protecção dos direitos humanos a todos os cida-
dãos (Parlamento Europeu, 2006).
23
Migrações _ #1 _ Setembro 2007
Referências Bibliográcas
Abbott, M. W., Wong, S., Williams, M., Au, M. e Young, W., (2000), “Recent Chinese
migrants’ health, adjustment to life in New Zealand and primary health care
utilisation”,
Disability and Rehabilitation
, 22, pp. 43- 56.
Abraído-Lanza, A. F., Dohrenwend, B. P., Ng-Mak D. S., e Turner, J. B. (1999), “The
Latino mortality paradox: a test of the ‘salmon bias’ and healthy migrant hypo-
theses”,
American Journal of Public Health
, 89 (10), pp.1543-1548.
ACIDI (2007),
Plano para a Integração dos Imigrantes
, Lisboa: ACIDI, Alto-Comis-
sariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, I.P.
Braveman, P., e Gruskin, S. (2003), “Poverty, equity, human rights and health”, ,
Bulletin of the World Health Organization
, 81 (7), pp. 539-545.
Calado, B., Silva, L. e Guerreiro, D. (1997), “Barreiras e incentivos à vigilância
pré-natal, identicação das barreiras – resultados parcelares”,
Saúde em Nú-
meros
, 12 (4), pp. 29-31.
Carballo, M., e Nerukar, A. (2001), “Migration, refugees, and health risks”,
Emer-
ging Infectious Diseases
, 7 (3), pp. 556-560.
Carballo, M., Divino, J., e Zeric, D. (1998), “Migration and health in the European
Union”,
Tropical Medicine and International Health
, 3 (12), pp. 936-944.
Carballo, M., (2007),
The challenge of migration and health
, Antwerp: Internatio-
nal Centre for Migration and Health.
Carta, M.G., Bernal, M., Hardoy, M.C. e Haro-Abad, J.M. (2005), “Migration and
Mental Health in Europe”,
Clinical Practice and Epidemiology in Mental He-
alth
, 1, p. 13.
CCHS (1997), “Health Care for Children of Immigrant Families”,
Pediatrics
, 100
(1), pp. 153-156.
Coker, R. (2003),
Migration, Public Health and compulsory screening for TB and
HIV – Asylum and Migration Working Paper 1
, Londres: IPPR.
Dias, S., Gonçalves, A., Luck, M., e Fernandes, M.J., (2004), “Risco de Infecção
por VIH/SIDA: Utilização-acesso aos Serviços de Saúde numa comunidade
migrante“,
Acta Médica Portuguesa
, II Série, 17 (3), pp. 211-218.
Dias, S., Matos, M., e Gonçalves, A. (2002), “Conhecimentos, atitudes e compor-
tamentos face ao VIH numa comunidade migrante – implicações para a inter-
venção”,
Psicologia, Saúde & Doença
, 3 (1), pp. 89-102.
Dorr, S. e Faist, T. (1997), “Institutional conditions for the integration of immi-
grants in Welfare states: A comparison of the literature on Germany, France,
Great Britain, and Netherlands”,
European Journal of Political Research
, 31
(4), p. 401-426.
Eshiett, M.U. (2003), “Migrants and health: a cultural dilemma”,
Clinical Medicine
,
3 (3), pp. 229-31.
Essen, B. et al. (2000), “Increased perinatal mortality among sub-Saharan immi-
grants in a city-population in Sweden”,
Acta Obstetricia Gynecologica Scandi-
navica
, 79, pp. 737-742.
24 Imigração e Saúde
EUROSTAT (2006),
Statistics in focus: non-national populations in the EU Member
States.
Disponível: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITYOFFPUB/KS-
NK-06-008/EN/KS-NK-06-008-EN.PDF (12-06-2007).
Fennely, K. (2004),
Listening to the Experts: Provider Recommendations on the
Health Needs of Immigrants and Refugees
, Malmo: Malmo University.
Fenton, K. (2001), “Strategies for improving sexual health in ethnic minorities”,
Current Opinion in Infectious Diseases
, 14 (1), pp. 63-69.
Fongwa, M. (2001), “Exploring quality of care for African Americans”,
Journal of
Nursing Care Quality
, 15 (2), pp. 27-49.
Fox, P., Burns, K., Popovich, J. e Ilg, M. (2001), “Depression among immigrant
Mexican women and Southeast Asian refugee women in the U.S”,
The Interna-
tional Journal of Psychiatric Nursing Research
, 7 (1), pp. 778-792.
Garbete, M. J. e Antunes, M.L. (1997), “Tuberculose em imigrantes”,
Saúde em
Números
, 8 (4): 30-32.
Gautier, A. et al. (1997), “Tuberculose em imigrantes: rastreio activo, será impor-
tante?”,
Revista Portuguesa de Pneumologia
, 3 (5), pp. 552-553.
Gonçalves, A., Dias, S., Luck, M., Fernandes, J. e Cabral, J. (2003), “Acesso aos
Cuidados de Saúde de Comunidades Migrantes”, Revista Portuguesa de Saú-
de Pública, 21 (1), pp. 55-64.
Grove, N. (2006), “Our health and theirs: forced migration, othering, and public
health”,
Social Science & Medicine
, 62 (8), pp. 1931-42.
Hermansson, A., Timpka, T. e Thyberg, M. (2002), “The mental health of war-
wounded refugees: An 8-year follow-up”,
The Journal of Nervous and Mental
Disease
, 190 (6). pp. 374-380.
Herrera, C. e Campero, L. (2002), “The vulnerability and invisibility of women fa-
cing HIV/AIDS: constant and changing issues”,
Salud Publica de México
, 44
(6), pp. 554-564.
Hyman, I. (2007),
Immigration and Health: Reviewing evidence of the healthy im-
migrant effect in Canada, CERIS Working Paper, n.º 55
. Disponível: http://
ceris.metropolis.net/Virtual%20Library/WKPP%20List/WKPP2007/CWP55.
pdf(14-06-07).
Jansà, J.M. (2004), “Salud e inmigración: nuevas realidades y nuevos retos”,
Ga-
ceta Sanitaria
, 18 Supp (l1), pp. 207-13.
Jolly, S. e Reeves, H. (2005),
Gender and Migration: Overview Report
, Brighton:
Bridge/Institute of Development Studies.
Kandula, N.R. (2004), Assuring the health of immigrants: what the leading health
indicators tell us”,
Annual Review Of Public Health
, 25, pp. 357-76.
Keyes, E. (2000), “Mental health status in refugees: An integrative review of cur-
rent research”,
Issues in Mental Health Nursing
, 21 (4), pp. 397-410.
Kornosky, J.L., Peck, J.D., Sweeney, A.M., Adelson, P.L. e Schantz, S.L. (2007),
“Reproductive characteristics of Southeast Asian immigrants before and af-
ter migration”,
Journal of Immigrant and Minority Health
. Disponível: http://
www.springerlink.com/content/e06572643512r189/fulltext.pdf (12-06-07).
25
Migrações _ #1 _ Setembro 2007
Levitt, P. e Jaworsky, B.N. (2007), “Transnational Migration Studies: Past Develo-
pments and Future Trends”,
Annual Review of Sociology
, 33, pp. 129-156.
Luck, M., Ferreira, R., Patrício, A., Simões, G., Horta, R. e Magalhães, E. (1999),
“Vigilância da gravidez numa comunidade imigrante africana: necessidades
elevadas, baixa utilização”,
Saúde em Números
, 14 (1), pp. 1-4.
Maddern, S. (2004), “Post-traumatic stress disorder in asylum seekers”,
Nursing
Standard
, 18 (18), pp. 36-39.
Maggi, J. e Cattacin, S. (2003),
Needed Basic Research in «Migration and Health»
– 2002-2006 in Switzerland, Switzerland: SFM.
Mcmunn, A., Mwanje, R., Paine, K. e Pozniak, A. (1998), “Health service utilization
in London’s African migrant communities: Implications for HIV prevention”,
Aids Care
, 10 (4), pp. 453-462.
McKay, L., Macintyre, S. e Ellaway, A. (2003),
Migration and Health: A Review of
the International Literature
, Glasgow: Medical Research Council – Social and
Public Health Sciences Unit.
Mehler, P. et al. (2001), “Russian immigrant cardiovascular risk assessment”,
Journal of Health Care for the Poor and Undeserved
, 12 (2), pp. 224-235.
Mollica, R., Sarajlic, N., Chernoff, M., Lavelle, J., Vukovic, I. e Massagli, M. (2001),
“Longitudinal study of psychiatric symptoms, disability, mortality, and emi-
gration among Bosnian refugees”,
Journal of the American Medical Associa-
tion
, 286 (5), pp. 546-554.
Mosher, W.D., Martinez, G.M., Chandra, A., Abma, J.C. e Willson, S.J. (2004), “Use
of contraception and use of family planning services in the United States:
1982–2002”,
Advance Data
, 350, pp. 1-36.
Muening, P. e Fahs, M. (2002), “Health Status and Hospital Utilization among Im-
migrants to New York City”,
Preventive Medicine
, 35, pp. 225-32.
Nações Unidas (2003),
Relatório Conjunto sobre a Inclusão Social.
Disponível:
http://europa.eu/scadplus/leg/pt/cha/c10616.htm (23-05-07).
Noh, S. e Kaspar, V. (2003),
Diversity and Immigrant Health,
Toronto: University
of Toronto.
OIM (2003),
World Migration: Managing Migration – Challenges and Responses for
People on the Move
. Disponível: http://www.iom.int/jahia/Jahia/cache/offon-
ce/pid/1674?entryId=4992 (15-06-07).
OIM (2004),
Migration Health Report
. Disponível: http:www.iom.int/iomwebsite/
Publication/ServletSearchPublication?event=detail&id=4494 (28-06-07).
Parlamento Europeu (2006),
EU Annual Report on human rights
. Disponível:
http://ec.europa.eu/external_relations/library/publications/31_2006_eu_hu-
man_rights_en.pdf (16-07-07).
Politzer, R.M., Yoon, J., Shi, L., Hughes, R.G., Regan, J., e Gaston, M.H. (2001),
“Inequality in America: The contribution of health centers in reducing and eli-
minating disparities en access to care”,
Medical Research Review
, 58 (2), pp.
234-248.
26 Imigração e Saúde
Pumariega, A.J., Rothe, E. e Pumariega, J.B. (2005), “Mental Health of Immigrants
and Refugees”,
Community Mental Health Journal
, 41 (5), pp. 581-597.
Razum, O., Zeeb, H. e Rohrmann, S. (2000), “The ‘Healthy Migrant Effect’- Not
Merely a Fallacy of Inaccurate Denominator Figures”,
International Journal of
Epidemiology
, 21, pp. 199-200.
Reijneveld, S. (1998), “Reported health, lifestyles and use of health care of rst
generation immigrants in the Netherlands: do socioeconomic factors explain
their adverse position?”,
Journal of Epidemiology and Community Health
, 52
(5), pp. 298-304.
Rubia, M. et al. (2002), “Increased risk of heart disease and stroke among foreign-
born females residing in the United States”,
American Journal of Preventative
Medicine
, 22 (1).
Saracino, A. et al. (2005), Access to HAART in HIV-Infected Immigrants: A Re-
trospective Multicenter Italian Study”,
AIDS Patient Care and STD’s
, 19 (9), pp.
599-606.
SEF (2006),
Relatório de Actividades – Imigração, Fronteiras e Asilo.
Disponível:
http://www.sef.pt/documentos/56/RelatorioActividSEF_2006_DIGITAL.pdf
(20-06-07).
Singh, G. K. e Siahpush, M. (2001), All-Cause and Cause-Specic Mortality of
Immigrants and Native Born in the United States”,
American Journal of Public
Health
, 91 (3), pp. 392-99.
Steel, Z. e Silove, D. (2001), “The mental health implications of detaining asylum
seekers”,
The Medical Journal of Australia
, 175 (11-12), pp. 596-599.
Stronks, K., Ravelli, C.J. e Reijneveld, A. S. (2001), “Immigrants in the Netherlan-
ds: Equal access for equal needs?”,
Journal of Epidemiology and Community
Health
, 55 (10), pp. 701-707.
Swerdlow A. J. (1991), “Mortality and cancer incidence in Vietnamese refugees in
England and Wales: a follow-up study”,
International Journal of Epidemiology
,
20, pp. 13-19.
UNAIDS/IOM (2001),
Migrants’ Right to Health
. Disponível: http://data.unaids.org/
Publications/IRC-pub02/JC519-MigrantsRightToHealth_en.pdf (17-06-07).
UNFPA (2006).
A Passage to Hope – Women and International Migration. State of
World Population 2006
. Disponível: http://www.unfpa.org/swp/ (06-06-07).
WHO (1986),
Ottawa Charter for Health Promotion
, Geneva: WHO.
WHO (2003a),
International Migration, Health and Human Rights
. Disponível:
http://www.who.int/hhr/activities/en/intl_migration_hhr.pdf (15-06-07).
WHO (2003b),
Gender and HIV/AIDS
. Disponível: http://www.who.int/gender/hiv_
aids/en/ (03-07-07).
Wolffers, I., Verghis, S. e Marin, M. (2003), “Migration, human rights, and health”,
Lancet
, 362 (9400), pp. 2019-2020.
... Outros estudiosos das migrações têm discutido as causas e as consequências das migrações, chamando a atenção para a sua complexidade e o facto de as causas não poderem ser analisadas isoladamente, senão no cômputo dos factores sociais, económicos, físicos, ambientais, políticos, sociológicos, antropológicos, de saúde, etc. (Dias & Gonçalves, 2007). O conceito de migração está associado sempre a questões de desequilíbrios regionais, em termos económicos e sociais. ...
... O conceito de migração está associado sempre a questões de desequilíbrios regionais, em termos económicos e sociais. Para Dias & Gonçalves (2007), as motivações das migrações têm sofrido no tempo alterações associadas às rápidas mudanças ambientais, demográficas, socioeconómicas e políticas. Assim, dentre os principais factores que justificam a ocorrência da migração destacam-se, segundo estes autores, os factores ambientais (catástrofes naturais), económicos (pobreza, diferenças de recursos entre os lugares, aspirações a melhores condições de vida, globalização da economia), políticos e religiosos (guerras e conflitos). ...
Book
Full-text available
Com este livro, o Centro de Pesquisa em População e Saúde (CEPSA) pretende contribuir para o debate sobre a dinâmica da população e saúde em Moçambique. Nos últimos anos, Moçambique tem registado mudanças económicas, sociais, culturais e políticas cujos efeitos na saúde da população são menos conhecidos. Se se tomar em consideração que a saúde das pessoas é influenciada, não só pelos factores individuais, mas também pelos factores do nível do grupo ou da comunidade, estudar os efeitos, na saúde, das mu- danças económicas, sociais, culturais e políticas que o país tem experimenta- do é particularmente relevante. Ao mesmo tempo, as transformações que a população moçambicana per si tem sofrido nos últimos anos têm sido igual- mente pouco estudadas e documentadas. No entanto, e, como Leone (2010) Carlos Arnaldo | Boaventura M. Cau Dinâmicas da População e Saúde em Moçambique 1 Introdução poderia argumentar, as transformações da população são uma componente fundamental das mudanças nas necessidades de saúde e têm implicações nos programas e políticas de saúde e bem-estar da população. Por exemplo, o en- tendimento da dinâmica da população na forma de tamanho, estrutura etária e mudanças nos padrões e determinantes de fecundidade, mortalidade e mi- grações é vital na formulação de políticas públicas ajustadas à realidade. O es- tudo dos principais factores sociais e culturais que podem constituir barreiras para uma redução rápida das taxas de mortalidade infantil e infanto-juvenil, influenciar o início precoce da actividade sexual e a consequente exposição a gravidezes na adolescência e a doenças de transmissão sexual, incluindo o HIV e SIDA, pode orientar o desenho e implementação de políticas e pro- gramas de combate a estes desafios em Moçambique. As mudanças económicas, sociais, culturais e políticas de Moçambique registadas nos últimos anos são igualmente factores importantes da mobilida- de populacional cujas implicações na saúde pública urge estudar. Os prospec- tos da exploração dos recursos naturais que vão sendo descobertos no país e o contexto internacional têm tornado o país um destino de pessoas oriundas de diversas partes do mundo e com potencial impacto na sua estrutura social, económica e perfil de saúde. Por outro lado, a estagnação da economia rural força muitos residentes rurais a migrar para as áreas urbanas, contribuindo para a precariedade das condições de vida e de saúde nestas áreas. Tendo em conta esta realidade, o CEPSA inicia, com este livro, uma série de publicações sobre questões de população e saúde em Moçambique, baseadas na análise aprofundada dos dados que vêm sendo recolhidos pelo Instituto Nacional de Estatística e outras instituições/organizações nacionais e internacionais, com o objectivo de contribuir para o conhecimento das dinâmicas de população e saúde que possam servir de suporte no desenho e implementação de programas e políticas para a promoção da saúde pública e do bem-estar da população, bem como da formação de nível superior nestas áreas.
... These difficulties in integration often translate into barriers to access to social services, health, education, skills development and the labor market. Many of these women are low skilled, low-paid, social unprotected in there jobs (Dias & Gonçalves, 2007), what can lead them to prostitution, or becoming victims of human trafficking (Neves, 2010a(Neves, , 2010b(Neves, , 2011. In fact, Castles and Miller (2003) point out that the primarily responsible for the absorption of women immigrant labor is the services sector, with emphasis on domestic work, care for the elderly and children and the sex industry (Neves, 2010a;Miranda, 2009;Padilla, 2007). ...
... These difficulties in integration often translate into barriers to access to social services, health, education, skills development and the labor market. Many of these women are low skilled, low-paid, social unprotected in there jobs (Dias & Gonçalves, 2007), what can lead them to prostitution, or becoming victims of human trafficking (Neves, 2010a(Neves, , 2010b(Neves, , 2011. In fact, Castles and Miller (2003) point out that the primarily responsible for the absorption of women immigrant labor is the services sector, with emphasis on domestic work, care for the elderly and children and the sex industry (Neves, 2010a;Miranda, 2009;Padilla, 2007). ...
... Nos últimos tempos, a relação entre a mobilidade espacial da população e a saúde tem merecido destaque num número considerável de estudos sobre migração (p. e., Gune et al., 2011;Minnis, 2010;Hjern, 2009;Pussetti et al., 2009;Halliday & Kimmitt, 2008;Dias & Gonçalves, 2007;Mckay et al., 2003). Essa relação tem sido abordada do ponto de vista do papel que a migração desempenha no desenvolvimento, propagação e expansão de certas doenças, desde as mentais até às infecto-contagiosas, como é o caso do HIV e SIDA. ...
Book
Full-text available
De acordo com o Censo de 2007, os adolescentes e jovens (10 aos 24 anos) correspondiam a 32% do total da população em Moçambique (INE, 2013). O tamanho deste grupo torna relevante o conhecimento das suas dinâmicas demográficas e do seu estado de saúde, não só para compreender os determinantes da saúde dos adultos no futuro, como também das suas implicações sociais e económicas. A adolescência e a juventude são uma etapa da vida cheia de riscos e desafios. Entre os vários riscos e desafios, com potencial de comprometer a capacidade de gozar uma vida presente e futura saudável, contam-se estilos de vida repreensíveis, a residência em condições precárias, a desistência escolar, os acidentes rodoviários, o início precoce da actividade sexual e reprodutiva, os casamentos prematuros e as gravidezes precoces. Adolescentes e Jovens em Moçambique: uma Perspectiva Demográfica e de Saúde 1 Boaventura M. Cau  Carlos Arnaldo  Introdução O HIV e SIDA também está entre os riscos que os adolescentes e jovens moçambicanos, principalmente os do sexo feminino, enfrentam hoje em dia. O Inquérito Nacional de Prevalência, Riscos Comportamentais e Informação sobre HIV e SIDA em Moçambique realizado em 2009, constatou que 11,1% das mulheres e 3,7% dos homens com 15 a 24 anos de idade estão infectados pelo HIV (INS, INE & ICF Macro, 2010). Existe uma necessidade de melhor conhecimento da natureza e dinâmica dos riscos e desafios que ameaçam o bem-estar dos adolescentes e jovens em Moçambique e dos aspectos que levam os mesmos a adoptarem comportamentos e práticas que os protegem dos riscos e desafios inerentes à sua idade. Ao mesmo tempo, os adolescentes e jovens moçambicanos estão num processo de transição para a vida adulta, numa altura em que o país regista mudanças económicas, sociais, culturais e políticas. Estes factores estruturantes têm um impacto profundo, não só no bem-estar presente de adolescentes e jovens no país mas também na sua capacidade de transitar com sucesso para uma vida adulta saudável e produtiva. A juventude é também um período de vida de grande mobilidade geográfica. Entre os motivos da mobilidade dos jovens, contam-se a busca de melhor educação e oportunidades económicas. As implicações desta mobilidade na saúde dos jovens não são suficientemente conhecidas. Face ao contexto descrito acima, o Centro de Pesquisa em População e Saúde (CEPSA) organizou este livro que junta contribuições de investigadores ligados a disciplinas tais como saúde pública, medicina, demografia, geografia, sociologia e antropologia. O livro está organizado de forma a ser útil para uma vasta audiência que inclui planificadores e decisores de políticas de desenvolvimento e de saúde, organizações governamentais e não-governamentais que trabalham em assuntos de adolescentes e jovens, estudantes do ensino superior (graduação e pós-graduação) e público em geral.
... At present, immigrants are a valuable population for the Member States of the European Union due on one hand to the potential for population growth engine to counter the aging population and low fertility rates, and on the other hand, the economic potential to work given the shortage of labor [1,[3][4][5]. Recognition of the migration role in economic development and sustainability emphasizes the subject of health of these populations as one of the priorities for health policies [1,5]. ...
Article
Full-text available
Background Despite the importance of immigrant population in Portugal few studies have analyzed the patterns of overweight/obesity in this subpopulation. The aims of this study are: (i) describe and compare the prevalence of overweight between immigrants and natives in Portugal; (ii) analyze the association between length of residence and overweight among adult immigrants in Portugal. Methods A cross-sectional study (2005–2006) in a representative sample of the Portuguese population from national territory, including the Autonomous Regions of Azores and Madeira. The final sample comprised 31,685 adult participants (≥19 years old), of whom 4.6% were immigrants. Country of birth was used to determine immigrant condition. Logistic regressions were conducted to investigate the association between overweight (dependent variable) and length of residence (exposure), adjusting for all covariates in the study. A 5% confidence level and 95% CI were considered. Results The percentage of immigrants that are overweight [44.9% (95% CI: 42.3; 47.5)] was lower than for natives [52.8% (95% CI: 52.2; 53.4)]. The migrant condition, after adjusted for sociodemographic variables, was not associated with overweight [OR 1.004 (95% CI: 0.998; 1.010)]. Among immigrants, being women [OR 0.585 (95% CI: 0.583; 0.587)], not married [OR 0.784 (95% CI: 0.781; 0.787)] and with a higher education [OR 0.481 (95% CI: 0.478; 0.483)], are probably protective factors of being overweight. Adjusting for other factors, the odds of being overweight for a long-term immigrant (≥15 years) was 1.3 times higher [OR 1.274 (95% CI: 1.250; 1.299)] than for the newcomers (<4 years). Conclusions The prevalence of overweight was higher for natives than immigrants. Length of residence (≥15 years) was positively associated with prevalence of overweight, among adult immigrant population. In the future, understanding dietary patterns and acculturation process may be important for health immigrant studies.
Article
Full-text available
Trata-se de uma pesquisa qualitativa que utilizou entrevistas semiestruturadas, realizadas com trinta bolivianos e com 49 profissionais de saúde que os atendem na Unidade Básica de Saúde do Bom Retiro, bairro de São Paulo, Brasil. Essas entrevistas foram analisadas por meio de cinco categorias temáticas, utilizando o método de análise de conteúdo. Os resultados mostraram que a garantia do acesso não é o bastante para que o cuidado em saúde à população imigrante aconteça. Os atores políticos e os sujeitos sociais precisam estar envolvidos, organizados e preparados para que esse serviço realmente ocorra.
Article
The objective of this article is to describe and analyze the living conditions of Haitians and understand their implications for the mental health of these women, an exploratory type research was carried out, using qualitative and quantitative instruments. 38 Haitians, living in a neighborhood of Aparecida de Goiânia, participated in the study, who answered the sociodemographic questionnaires: SRQ-20, WHOQOL-breef and were submitted to semi-structured interviews, whose contents were analyzed with the help of the WebQDA software. It was found that most of the participants are between 20 and 30 years old, have elementary school level, are married, have children in Brazil and Haiti, have been in the country for over a year and less than five years, do not speak Portuguese, are unemployed. Unemployment was the main factor of psychological suffering and establishing good relations with Brazilians was the main factor of protection for mental health. Despite the difficulties, most Haitians have a perception of wellbeing living in this country
Article
Full-text available
This article aims to investigate how the theme Haitian immigrants’ health has been approached in qualitative empirical studies. A systematic review was carried out in the databases PubMed, Scielo, Scopus and Web of Science between 2007 and 2019. This review was guided by principles of quantitative systematic review applied to qualitative research. The 17 selected articles were critically reviewed and relevant data were extracted and synthesized using thematic synthesis precepts. Results show that perceptions and knowledge about health/disease were present in all the aticles. The selected studies demonstrate reasons why research participants do not access health services, but do not explore how care paths occur. It is recommended that further studies should recognize the need of intercultural dialog and advance towards understanding the logic and meanings that support sociocultural representations of healthcare.
Article
Full-text available
Com a intensificação e diversificação dos fluxos migratórios internacionais para o Brasil e a necessidade de inserção da população imigrante aos serviços públicos de saúde, novas dinâmicas se apresentam no contexto da Atenção Básica. Tendo como estudo de caso a população boliviana que utiliza os serviços da Unidade Básica de Saúde do Bom Retiro, em São Paulo, buscou-se compreender qual o papel dos agentes comunitários de saúde (ACS) para que o sistema público cumpra seu princípio de universalidade, oferecendo acesso às populações imigrantes e as incluindo. Por meio de entrevistas semiestruturadas, examinadas por meio da análise de conteúdo, pôde-se constatar que os agentes comunitários são essenciais para a garantia de inserção dos imigrantes ao serviço de Atenção Básica, pois são ao mesmo tempo sujeitos da promoção em saúde e agentes do território, construindo redes de vínculos que favorecem o cuidado integral.
Article
This study aimed to describe the perceptions of immigrants and health professionals regarding health care seeking and the factors that influence access and utilization of health services among immigrants. Data was collected through focus groups with intentional samples of 20 immigrants and 32 health professionals. Six focus groups were conducted, one with each immigrant group (from Portuguese-speaking African countries, Brazil and Eastern European countries) and health professional group (doctors, nurses, office workers). Data were analyzed using content analysis. The results revealed the existence of different patterns of health care seeking, having been described situations of regular utilization of health services, use only in an acute condition and non-utilization. Simultaneously, given the need of health care, other practices were reported. In focus groups, some barriers in access and utilization of health services were pointed out, as the irregular status, the socioeconomic difficulties, the lack of knowledge on legislation about access, the cultural issues, the attitudes and competencies of professionals and those related with services. The seeking of health care at the health services results from the dynamic interaction of multiple factors that should be taken into account in the planning of strategies for improving health of immigrant populations. Access to health care involves several aspects besides the legal right. It is essential to invest in health professionals’ training concerning their knowledge and competencies to deal with cultural diversity, and in provision of information about the health services and rights among immigrant populations.
Article
Full-text available
The AIDS and HIV infection rates in Portugal are growing in the past years. There is increasing recognition that migrants may be more vulnerable than local population to acquiring the infection. The purpose of this study was to explore AIDS related knowledge, attitudes and behaviours in a migrant community near Lisbon. The participants of this study were 66, aged 15 or older. Data was obtained from 8 group interviews, groups being selected by aged and sex. The results indicate a gender difference regarding AIDS related knowledge, attitudes and behaviours. The results highlight the impact of psychosocial and cultural factors in the individual and group behaviour. These findings are discussed in terms of the relevance to adopting preventive behaviours and the implications of research results in the design of culturally appropriate strategies to promote sexual health focused to these communities.
Article
Full-text available
The new social and demographic framework in Spain that has appeared since the arrival of new migrant populations, rai- ses the need to improve the knowledge of their health status and to identify preventive measures and priorities in heath ser- vices. A bibliographic review of the available information on migration and health in Spain is performed, together with an analysis of their contents from a Public Health point of view. The high proportion of new borns from foreign mothers, the mental needs, deficits in oral and dental health, and the increase of tuber- culosis in migrants, together with limited vaccine coverage in children, define the main health needs of these populations. The analysis of health services, reveals a high use of pedia- tric, obstetric and gynecologic resources by migrant popula- tions. Conclusions; although no particular health needs have been identified for migrants, special attention for tuberculosis, mother and child health and health promotion and prevention, have to be funded for specific migrant populations. Health re- sources and services have to be reinforced with health agents, human resources, and specialized education for health pro- fessionals. Key words: Health. Migration. Prevalent diseases. Health ser- vices.
Article
The past two decades have witnessed a sea change in migration scholarship. Most scholars now recognize that many contemporary migrants and their predecessors maintain various kinds of ties to their homelands at the same time that they are incorporated into the countries that receive them. Increasingly, social life takes place across borders, even as the political and cultural salience of nation-state boundaries remains strong. Transnational migration studies has emerged as an inherently interdisciplinary field, made up of scholars around the world, seeking to describe and analyze these dynamics and invent new methodological tools with which to do so. In this review, we offer a short history of theoretical developments, outlining the different ways in which scholars have defined and approached transnational migration. We then summarize what is known about migrant transnationalism in different arenas - economics, politics, the social, the cultural, and the religious. Finally, we discuss methodological implications for the study of international migration, present promising new scholarship, and highlight future research directions.
Article
The intent of this statement is to inform practitioners about the special health care needs and vulnerabilities of immigrant children and their families and to suggest clinical approaches to various aspects of their care. Immigrant children and their families, a large and diverse population group, have numerous risks to physical health and functioning and may be unfamiliar with our health care services. They often face many barriers to care, and their special risks and needs may not be familiar or readily apparent to many health care providers. Recently enacted federal welfare and immigration reform measures may increase the vulnerability of this population by limiting its access to health and social services. For multiple ethical and medical reasons, the American Academy of Pediatrics has historically opposed, and continues to oppose, denying needed services to any child residing within the borders of the United States.
Article
In this paper we analyse the literature on a particular aspect of immigrant integration in Western European welfare states: the extent to which this can be explained by conditions set by institutions, social rights and rights of residence. Our focus is on health care, old age insurance, housing and vocational training, and on the circumstances under which migrants have access to benefits from the general systems of social security. In particular, the assignment of a legal position by the rights of residence plays an essential role. The various legal groups have access to social benefits depending on their status of residence. The institutional framework of each welfare states is also relevant to the access that people have to social benefits. In the countries analysed, Germany, France, Great Britain, and the Netherlands, the individual security systems are organized oaccording to different political concepts, each of them allowing immigrants access to their benefits to a different degree. On the whole, the degree and kind of governmental regulations seem to be crucially important for the integration of immigrants into the welfare state.