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OS PROBLEMAS DA CLASSIFICAÇÃO TRADICIONAL DAS UNIDADES LÉXICAS E UMA PROPOSTA DE SOLUÇÃO: O CRITÉRIO SÊMIO-TÁXICO A classificação morfossintática das unidades léxicas

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Abstract

RESUMO: Este trabalho discute os problemas que envolvem a delimitação das unidades léxicas da língua -que costumam ser identificadas ao conceito intuitivo e nebuloso de "palavra" -, tanto no sistema (lexias) quanto no dis-curso (vocábulos), por força das peculiaridades morfossintáticas e gráficas de cada língua, que conduzem muitas vezes a uma dificuldade no reconheci-mento da unidade simples, composta ou complexa (na verdade, seqüência de unidades simples ou compostas), com conseqüentes repercussões nos estu-dos lexicológicos e lexicográficos, em que é fundamental reconhecer com cla-reza a fronteira entre tais unidades léxicas. A seguir, propõe-se um critério metodológico de delimitação das unidades léxicas, com vistas à solução do problema em questão. • PALAVRAS-CHAVE: Unidades léxicas; lexia; vocábulo; lexicología; lexicogra-fia; critério sêmio-táxico. Introdução Um dos grandes problemas que sempre se colocam quando se estuda o léxico de uma língua do ponto de vista morfossintático é a clas-sificação das lexias ou dos vocábulos nas categorias simples, composto, complexo e textual. Embora tal distinção não seja ociosa, porquanto diga respeito aos próprios processos de formação dessas unidades léxicas, ela acarreta uma série de embaraços, já que a fronteira entre as categorias supramencionadas é quase sempre fluida, além de os critérios tradicio-nais de classificação se basearem freqüentemente no aspecto gráfico da palavra, o qual é em geral bastante enganador. Assim, procuramos aqui propor um critério rigoroso de classificação morfossintática das unida-des léxicas, que escape aos percalços das classificações tradicionais e que seja válido para qualquer língua que admita as categorias léxicas em questão.
OS
PROBLEMAS
DA
CLASSIFICAÇÃO
TRADICIONAL
DAS
UNIDADES
LÉXICAS
E
UMA
PROPOSTA
DE
SOLUÇÃO:
O
CRITÉRIO
SÊMIO-TÁXICO
Aldo
Luiz
BIZZOCCHI
1
RESUMO:
Este
trabalho discute os problemas que envolvem a delimitação
das unidades léxicas da língua - que costumam ser identificadas ao conceito
intuitivo
e nebuloso de "palavra" -, tanto no sistema (lexias) quanto no dis-
curso
(vocábulos),
por força das peculiaridades morfossintáticas e gráficas de
cada
língua, que conduzem muitas
vezes
a uma dificuldade no reconheci-
mento da unidade simples, composta ou complexa (na verdade, seqüência de
unidades simples ou compostas), com conseqüentes repercussões nos estu-
dos
lexicológicos
e
lexicográficos,
em que é fundamental reconhecer com cla-
reza a fronteira entre tais unidades
léxicas.
A seguir, propõe-se um critério
metodológico de delimitação das unidades
léxicas,
com vistas à solução do
problema
em questão.
PALAVRAS-CHAVE:
Unidades
léxicas;
lexia;
vocábulo;
lexicología;
lexicogra-
fia;
critério sêmio-táxico.
Introdução
Um
dos
grandes
problemas que sempre se colocam quando se
estuda
o
léxico
de uma língua do ponto de vista morfossintático é a clas-
sificação
das lexias ou dos vocábulos nas categorias simples, composto,
complexo
e textual. Embora tal distinçãoo
seja
ociosa, porquanto diga
respeito aos próprios
processos
de formação
dessas
unidades
léxicas,
1
Programa de Mestrado em
Comunicação
e
Ciências
da Linguagem -
Instituto
de
Ciências
Sociais
e
Comunicação
- Universidade Paulista - 04026-002 -o Paulo.
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999
89
ela
acarreta
uma série de embaraços, já que a fronteira
entre
as
categorias
supramencionadas
é
quase
sempre
fluida,
além de os critérios tradicio-
nais
de classificação se
basearem
freqüentemente no
aspecto
gráfico da
palavra, o qual é em geral
bastante
enganador.
Assim, procuramos aqui
propor um critério rigoroso de classificação morfossintática das unida-
des léxicas, que
escape
aos percalços das classificações tradicionais e
que
seja
válido
para
qualquer língua que admita as
categorias
léxicas
em questão.
A
classificação
morfossintática
das
unidades
léxicas
Pottier (1974, p.266-7) classifica as lexias em simples,
compostas,
complexas e textuais, conforme
segue:
a)
La
lexie
simple
corresponde
au
"mot
"
traditionnel
dans
de
nombreux
cas:
chaise,
pour,
mangeait, la.
b)
La
lexie
composée
est le
résultat
dúne
intégration
sémantique,
qui
se
manifeste
formellement:
tire-bouchons,
vert-bouteille,
rez-de-chaussée.
Le
lien
peut
être
très
étroit
entre
un
lexème
et
un
grammème,
pour
former
un
lexème
secon-
daire:
fourchette
{qui
ne
s'oppose
plus
à
fourche),
remanier
(t
manier).
Toute
séquence
peut
s'intégrer
et
former
un
nouveau
lexéme.
Esp.:
ensi-
mismarse
(sur
"en
si
mismo"),
pordiosear
(sur
"t
por
Dios!").
c)
La
lexie
complexe
est une
séquence
en
voie
de
lexicalisation,
à des
degrés
divers:
La
guerre
froide,
un
complexe
industriel,
prendre
des
mesures,
feu
rouge,
bel
e
bien,
hot
dogs.
d)
La
lexie
textuelle
est une
lexie
complexe
qui atteint le
niveau
dun
énonce
ou
d'un
texte:
hymne
national,
prière,
tirade,
devinette,
proverbe...
Note-se
que a tipologia da lexia proposta por Pottier se atém
sobre-
tudo ao grau de liberdade combinatória dos
lexemas
que a formam (Pais,
1977, p.62), o qual é
atestado
principalmente pela grafia (as lexias sim-
ples
consistem uma só palavra, as lexias
compostas
por
vezes
m
seus
lexemas
constituintes ligados por hífen, as lexias complexas e textuais
o formadas de palavras livres,
separadas
por
brancos
gráficos).
2
Na
Neste trabalho, estamos empregando o termo palavra como
seqüência
de letiaso
separadas
entre si por
espaços
em branco ou qualquer outro
sinal
gráfico.
90
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999
pesquisa
lexicológica, a unidade léxica
detectada
no
corpus
é
sempre
uma palavra, manifestação efetiva de um vocábulo, unidade de dis-
curso. Como o vocábuloo é senão uma
lexia
que se atualiza num dis-
curso determinado, sofrendo, portanto, uma redução sêmio-táxica de
seu significado, ocorre que também os vocábulos se
dividem
em simples,
compostos e complexos (entretanto, devemos nos referir à atualização
discursiva de uma
lexia
textual como enunciado atualizado). Embora os
vocábulos possam ser lexicais ou gramaticais,
segundo
contenham ou
o lexemas em sua estrutura morfossintática, analisaremos aqui
ape-
nas os vocábulos lexicais. As definições de vocábulo simples, composto
e complexo que daremos a seguiro definições tradicionais e
baseadas
sobretudo no
aspecto
gráfico dos vocábulos. Tais definições aplicam-se
bastante
bem a línguas como o
português
ou o francês. Entretanto,o
funcionam
para línguas como o alemão e o holandês, por exemplo.
Assim
sendo,
partiremos
delas
para em seguida demonstrar a insuficiência,
problematizando a questão com alguns contra-exemplos. A partir daí,
proporemos um novo critério para a identificação dos tipos de vocábulo.
O
estabelecimento de uma definição consistente de vocábulo simples,
composto e complexo é de fundamental importância em lexicología e
lexicografia,
uma vez que a
pesquisa
lexicológica e lexicográfica
quase
sempre
envolve a coleta de unidades a partir de um
corpus,
sendo
então
necessário delimitar tais unidades, isto é,
definir
que tipos de vocábulos
constituirão o objeto da análise; para tanto, é imprescindível
saber
se
uma determinada unidade léxica é ouo decomponível em unidades
menores.
O
vocábulo
lexical
simples é aquele formado de um único lexema,
e um número qualquer de gramemas:
v
s
=
{1,
g,, g
2
,-gj
Graficamente, o vocábulo simples
apresenta-se
como uma seqüên-
cia
ininterrupta de letras, percebida e seguida de espaços em branco,
seqüência
esta
que, como já fizemos anteriormente, denominaremos,
na
falta
de termo melhor, como palavra. Exemplos: cadeira, elefante,
bonito,
amar.
O
vocábulo
lexical
composto resulta da combinação de dois ou mais
vocábulos simples. Graficamente, os vocábulos simples que constituem
o vocábulo composto
apresentam-se
aglutinados ou ligados por hífen,
de modo a formarem uma seqüência ininterrupta de sinais gráficos, pre-
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999
91
cedida e seguida de espaços em branco, ou seja, uma palavra. Exem-
plos:
cata-vento, morfossintaxe, guarda-roupa, pé-de-moleque.
O
vocábulo
lexical
complexo é aquele formado a
partir
da combina-
ção
de dois ou mais vocábulos lexicais simples ou compostos e, eventual-
mente, também vocábulos gramaticais, que servem de relatores.
Grafi-
camente, os vocábulos lexicais e gramaticais constituintes do vocábulo
complexo
apresentam-se
destacados
entre
si,
isto é,
separados
por espaços
em
branco. Podemos dizer, então, que o vocábulo complexo é formado
de
duas
ou mais palavras. Exemplos: aula magna, greve geral, copa do
mundo,
processamento de dados.
O
principal
problema que
essas
definições tradicionais acarretam
diz
respeito exatamente ao
aspecto
gráfico dos vocábulos, poiso é
verdade que o vocábulo simples sempre se constitua graficamente de
uma única palavra, ou que o vocábulo composto sempre
apresente
seus
formantes aglutinados ou hifenados, assim como nem sempre as pala-
vras constituintes do vocábulo complexo aparecem
separadas
por
espa-
ços
em branco. Senão vejamos:
a) Sejam formas verbais compostas como
está
chovendo ou havia
feito.
Em
cada
um
desses
exemplos, temos
duas
palavras distintas,
entretanto,
está
chovendo pode perfeitamente comutar com uma
forma
simples como chove, assim como havia feito pode comutar com
fizera.
o se pode dizer que o verbo
auxiliar
seja um vocábulo
lexical
indepen-
dente, já queo remete a nenhum designatum, mas
desempenha
ape-
nas uma função gramatical, que é a de indicar um tempo e um
aspecto
verbais, no
caso,
o
presente
continuativo
e o pretérito mais-que-perfeito.
Nesse
sentido, o verbo
auxiliar
possui em línguas predominantemente
sintagmáticas como o português, o francês e o inglês, a mesma função
de uma desinência modo-temporal numa língua paradigmática como o
latim.
Cada uma das formas verbais tomadas como exemplo
constitui,
portanto,
um vocábulo simples, contendo um único lexema.
b)
Sejam os
phrasal
verbs
do inglês, como, por exemplo, go out, get
in,
look
up, take away etc. Graficamente, constituem-se de
duas
ou mais
palavras, e, por vezes, podemos inserir outros elementos entre
elas
(por
exemplo,
take
away).
o obstante, todo
phrasal
verb
constitui
um
único vocábulo, por
sinal,
um vocábulo simples, já que
apresenta
um
único lexema.
Assim,
o inglês go out, "sair", resulta da combinação de
go,
"ir",
e out, "para
fora",
da mesma
forma
que o
latim
exire,
"sair", resulta
de ex, "para
fora"
eire,
"ir".
Temos, assim, no inglês, um
caso
de deriva-
ção
semelhante ao que ocorre na prefixação em
latim,
com a única
dife-
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Alfa,
o Paulo, 43:
89-103,
1999
rença de que no inglês o
afixo
é posposto ao verbo e possui certa auto-
nomia
sintática. O mesmo vale para os verbos destacáveis do alemão
(por
exemplo, ausgehen, "sair", mas gehtaus, "sai").
c)
Por outro lado, temos contrações gráficas de vocábulos
distin-
tos, por exemplo, o inglês cannot, contração de can e not, e a formao
contrata can noto é permitida em inglês. Trata-se aí de mero capricho
ortográfico,
uma vez que cannot comuta com is not, has not, may not,
must not, formaso contratas.
Assim,
cannot constitui-se de dois
vocábulos,
um vocábulo
lexical
simples e um vocábulo gramatical.
d)
Sejam os vocábulos alemães
Generalstreik
e
Produktionspro-
gramm,
por exemplo. A despeito de se apresentarem graficamente como
uma única palavra,
cada
um
desses
exemplos constitui um vocábulo
complexo,
pois
Generalstreik,
"greve geral", se opõe a
siegreicher
Streik,
"greve
vitoriosa",
assim como Produktionsprogramm, "programa de pro-
dução" se opõe a produktives Programm, "programa
produtivo".
Ocorre
que, em alemão, sempre que o adjunto adnominal ou o complemento
nominal
de um substantivo é outro substantivo, deve
este
vir grafica-
mente justaposto ao substantivo que lhe serve de
base,
o que acontece
também com certos adjetivos
(caso
de
General-).
e) Compare-se agora o vocábulo
mesa
redonda nas
duas
frases
a
seguir:
(1)
Minha
sala
de
jantai
possui
uma
mesa
redonda
e
quatro
cadeiras.
(2)
Os
lideres
dos
países
industrializados
realizaram
uma
mesa-redonda
em
Paris.
Na
frase (1),
mesa
redonda é perfeitamente decomponível em
mesa
e redonda, pois
nesse
caso
mesa
redonda se opõe a
mesa
quadrada,
mesa
marrom, e a almofada redonda, bandeja redonda etc.
Pode-se
inclusive
intercalar outros elementos entre
mesa
e redonda: "Esta
mesa
é redonda". Já na frase (2), mesa-redonda constitui um todo indecompo-
nível.
Por isso mesmo, é grafada com hífen.
Assim,
em (1) temos um
vocábulo complexo e em
(2),
um vocábulo composto. Podemos dizer que
em
(1)
trata-se
de fato de uma
mesa
que possui por atributo ser redonda.
Em
(2), o significado recoberto pelo significante mesa-redonda na ver-
dade
nada tem a ver com
mesa
ou com a forma redonda. Temos aí uma
simples reminiscência da motivação metonímica
inicial
do vocábulo,
hoje
já totalmente desaparecida.
f)
Em muitos
casos,
vocábulos resultantes de
processos
morfossin-
táticos
semelhanteso grafados de forma diferente, atestando, em alguns
casos,
diferentes estágios de
lexicalização,
em outros, simples incoerência
Alfa,
o Paulo, 43:
89-103,
1999
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ortográfica.
Comparem-se os vocábulos ingleses milkman, songwriter,
fig-tree
e data
processing.
No primeiro
caso,
temos um
caso
de compo-
sição
em que o substantivo de
base,
man, praticamente perdeu o
esta-
tuto
de vocábulo,
tendo-se
transformado em mero
sufixo
(compare-se
com
o português
leiteiro).
O segundo
caso
é semelhante ao
primeiro,
porém aí a motivação de
writer
é muito mais
forte,
de modo que grafias
song-writer
e mesmo song
writer
seriam igualmente aceitáveis, embora
desusadas,
ao contrário de *milk-man e, menos ainda, de *milk man.
Em
fig-tree (também grafado como fig
tree),
temos algo semelhante a
songwriter,
porém com uma grafia diferente. Já em data
processing,
qualquer contratação seria impossível. Data
processing
possui o mesmo
estatuto do português processamento de dados, que pode sofrer interca-
lação
(processamento automático de dados) ou comutação de
seus
constituintes (processamento de informações, análise de dados). Com-
parem-se, ainda, os vocábulos portugueses desordem e contra-ordem,
ou
os vocábulos ingleses subordinate e co-ordinate. O mesmo
processo
de prefixação resulta ora em aglutinação, ora em ligação por hífen, con-
forme
o
prefixo
utilizado.
Os exemplos citados revelam que a grafia é freqüentemente um
cri-
tério
enganoso
para se
tipificar
vocábulos, ainda mais quando é preciso
delimitar
com precisão a extensão das unidades que se
deseja
analisar.
Assim,
substituiremos tal critério por outro, que, a
nosso
ver, permite dar
conta de todos os exemplos
apresentados.
Chamá-lo-emos de critério
sêmio-táxico.
O
critério
sêmio-táxico
de
classificação
de
vocábulos
Quando
duas
lexiaso colocadas em combinatória sintagmática num
enunciado, a semia resultante
dessa
combinatoria é um subconjunto do
produto
cartesiano dos
sememas
das lexias envolvidas. No
caso
de um
sintagma nominal formado, por exemplo, de um substantivo qualificado
por
um adjetivo, temos uma relação
base
x adjunto, de tal sorte que o
semema do substantivo pelo semema do adjetivo, entendidos ambos
como conjuntos sêmicos.
Assim,
essa
relação se reduz a um produto car-
tesiano entre dois conjuntos. Antes de
passarmos
adiante, convém tor-
narmos mais claro como se dá
esse
produto cartesiano.
Para
tanto, nos
basearemos
no modelo proposto por
Pais
(1977, p.74-82)
acerca
da com-
binatória semêmica no enunciado simples, modelo
este
que também se
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Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999
aplica
no
caso
da combinatoria semêmica intra-sintagmática, adaptando,
entretanto, tal modelo às
nossas
necessidades
específicas.
Cumpre lembrar que numa situação normal de comunicação, todo
enunciado simples contém uma carga de informação
pressuposta
comum
aos dois sujeitos da enunciação, o emissor e o receptor, bem como uma
carga de informação
supostamente
pertencente
apenas
ao emissor, o
que
justifica
o ato da comunicação.
Essas
cargas
de informação,
segundo
Pottier
(1974),o
chamadas,
respectivamente, suporte e aporte. Diz
Pais
(1977) em seu trabalho:
O
suporte contém uma carga
de
informação
própria
que
é o
resultado
da
combinatória
dos sememas das lexias que o integram.
Essa
combinatória
intra-
suporte
é
uma atribuição
que se
realiza
numa
relação
base
x
adjunto entre
o
termos
do
grupo substantivo
e do
grupo adjetivo. Resulta
desse
produto
o
semema
do
suporte,
que se
caracteriza por conter apenas semas descritivos,
numa
visão nominal,
estática;
contém necessariamente semas
da
semântica
lexical,
ligados
à
descrição
dos
objetos
do
universo antropocultural
-
manifes-
tos
ou
representados
por
substitutos
- e
semas gramaticais, pertencentes
à
estrutura
interna
da
língua,
as
taxes,
como
gênero, número, grau
e
outros,
necessários
à
definição da
combinatória.
O
aporte leva o suporte, atribui-lhe uma carga semântica suplementar
de
informação.
Esta
carga sêmica resulta por sua vez
de
uma
combinatória
intra-
aporte, uma atribuição
que se
realiza,
também, numa
relação
base
x
adjunto
entre
os
termos do grupo
verbal,
de
um lado,
e do
grupo adjetivo
e do
grupo
dos
complementos
do
outro lado.
Da
mesma forma, resulta
desse
produto
o
semema
do
aporte,
que vai
entrar
em
combinatória
com o do
suporte,
e que
contém,
como
no
caso
do
suporte, semas lexicais
e
gramaticais.
O
enunciado
é
uma seqüência
de
lexias
de que o
suporte
e o
aporte
o
subseqüências
distintas. Quanto
à
carga semântica
de
informação,
estrutura-se
a
semia do enunciado
como
o subconjunto
antropocultural
-
biofatos, sociofatos,
psicofatos
e
manufatos
- ou de
semas descritivos
de
processos,
que
intervêm
entre aqueles objetos, ou
seja,
semas estáticos
e
dinâmicos, respectivamente.
No primeiro caso, teremos
em
estrutura profunda,
um
esquema lógico-
conceptual atributivo,
através
do
qual
o
semema
do
suporte recebe semas
que
o
tornam mais específico.
No
segundo
caso, teremos,
em
estrutura profunda,
um
esquema lógico-conceptual ativo,
através
do
qual
o
semema
do
suporte
recebe semas
que
o
o
tornam necessariamente mais específico mas
o
colo-
cam
numa
relação
conjuntural com
o
aporte,
segundo
o
qual
o
suporte desen-
cadeia
um processo que
pode
eventualmente atingir outros actantes.
Do
que foi
dito,
resulta que, em qualquer enunciado, ocorrem, tanto
no nível intra-suporte, quanto no nível intra-aporte, como ainda no nível
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103,
1999
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suporte-aporte, relações de combinatória sêmica que produzem a semia
final
do enunciado, ou esquematicamente:
NÍVEL
DO SUPORTE:
base
x adjunto = semia do suporte
NÍVEL
DO
APORTE:
base
x adjunto = semia do aporte
NÍVEL
DO
ENUNCIADO:
suporte x aporte = semia do enunciado
Restringindo-nos
aos dois primeiros níveis, encontraremos sintag-
mas nominais ou verbais, ambos caracterizados por possuir um elemento
de
base
e eventualmente um ou mais adjuntos. Nosso problema é
saber
se
esse
conjunto base-adjunto
constitui
um vocábulo composto ou com-
plexo.
Segundo o critério sêmio-táxico, o que vai indicar de que
tipo
de
vocábulo
se trata é o seu semema. Vejamos como isso acontece.
Seja o sintagma
nominal
mesa
redonda, tal qual depreendido da frase:
Minha
sala
de jantar
possui
uma mesa redonda e quatro
cadeiras.
Temos o semema de mesa:
<mesa> =
{+M,
+D, -A, +R +T, +C, +E,
±R,±Q,
±0,...}
e o semema de redonda:
<redonda>
=
{+M,
+D,
±A,...
+R,...}
onde: M = material, D = descontínuo, A = animado, p = com pés, T =
com
tampo, C = para comer, E = paia escrever, R = redonda, Q = qua-
drada, O =
oval.
A
semia do sintagma será um subconjunto do produto cartesiano
do semema de
mesa
pelo semema de redonda, ou seja:
<mesa redonda> c <mesa> x <redonda>
O
conjunto resultante cartesiano <mesa> e o segundo é um
sema
do semema <redonda>, de modo a combinar, um a um, cada
sema
do
primeiro
semema a cada um dos
semas
do segundo semema:
<mesa> x <redonda> =
{(+M,
+M),
(+M,
+D),...
(+M,
±R),...
(+D,
+M),
(+D,
+D),
(
+
D,
±A),...
(-A,
±A),...
(±R,
+R),...}
Alguns
dos
pares
ordenados
desse
produtoo incompatíveis, por-
que combinam
semas
de níveis paradigmáticos diferentes, tais como
(+M,
+D) e (+D, ±A), por exemplo. Por
essa
razão, devem ser
elimina-
dos, restando
apenas
os
pares
de mesmo nível paradigmático. Paia
estes,
vale
a seguinte regra de sinais:
96
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999
+
X + = +
+
X- = -
-X
+ = -
-
x - = -
±
x + = +
±
x- = -
+
x ± = +
-X
± = -
Assim,
para que um
sema
pertença à semia do produto, é preciso que
ele esteja
presente
em ambos os
sememas
fatores; se
este
pertencer a
apenas
um dos
sememas,
ou a nenhum, conseqüentemente,o perten-
cerá
ao produto. O sinal ± indica a neutralidade do
sema
que afeta.
Assim,
no semema <mesa>, os
semas
±R, ±Q, ±0 podem ouo ocor-
rer, porém a ocorrência de um
deles
exclui
a dos demais. Da mesma
forma,
no semema <redonda>, o traço
distintivo
"material" é positiva-
mente marcado (somente objetos do mundo material, isto é, biofatos ou
manufatos, podem ter forma redonda), porém o traço "animado" é neu-
tro,
pois redondo pode ser atributo tanto de
seres
animados quanto de
seres
inanimados. Partindo da perspectiva semântica estrutural de
Grei-
mas (1966), podemos dizer que os
semas
+M, +D etc. pertencem ao
núcleo sêmico do semema <mesa>, ao
passo
que os
semas
±R, ±Q etc.
constituem
semas
contextuais, mutuamente exclusivos, cuja inflexão em
termos de articulação sêmica pode ser subsumida por um
sema
único
como
"forma", por exemplo. No semema <redonda>, o
sema
+R per-
tence ao núcleo sêmico, de modo que a combinação semântica <mesa>
x
<redonda> vai provocar a atualização do
sema
complexo "forma", do
semema <mesa>, como "forma redonda", à exclusão dos demais
semas,
"forma
quadrada", "forma
oval"
etc.
Estabelece-se,
assim, entre <mesa>
e <redonda> uma isotopia.
Aplicada
a regra dos sinais a cada um dos
pares
do produto carte-
siano, resulta que o semema de
mesa
redonda tem a seguinte
configu-
ração:
<mesa redonda> =
{+M,
+D,-A,...
+R,...}
Observe-se que
mesa
redonda é um objeto material, descontínuo,
o animado, e, além disso, de forma redonda.
Tomemos,
agora, o sintagma nominal mesa-redonda depreendido
da frase:
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999
97
Os
líderes
dos
países
industrializados realizaram uma
mesa-redonda
em Paris.
Nesse
caso,
o
semema
de mesa-redondao resulta de nenhum
produto
cartesiano entre os
sememas
de
mesa
e de redonda. Temos aí
semas
descritivos de um sociofato, eo de um manufato.
Poderíamos aqui
ensaiar
uma primeira definição de vocábulo
sim-
ples, composto e complexo com
base
no grau de integração semântica
e de liberdade combinatoria dos lexemas constituintes
desse
vocábulo.
Poderíamos dizer então que:
a) o vocábulo
lexical
simples é aquele que possui um único lexema
e um número qualquer de gramemas;
b)
o vocábulo
lexical
composto resulta da integração semântica de
dois ou mais vocábulos simples, de tal modo que o
semema
desse
vocá-
bulo
o
seja
produto de uma combinação dos
sememas
dos vocábulos
simples que o constituem;
c)
o vocábulo
lexical
complexo resulta da combinação sintática de
dois ou mais vocábulos simples ou compostos, de sorte que o
semema
desse
vocábulo é o resultado da combinação dos
sememas
dos vocábu-
los simples ou complexos que o constituem.
Desse
ponto de vista, podemos dizer que
mesa
redonda constitui
um
vocábulo complexo, ao
passo
que mesa-redonda constitui um vocá-
bulo
composto.
Nos termos de Pottier (1974) a
lexia
complexa é uma seqüência em
vias de lexicalização, portanto, é natural que todo vocábulo complexo
constantemente repetido tenda a tornar-se uma unidade cristalizada, e
dessa
maneira indivisível, e como tal
seja
dicionarizada, atingindo,
assim, o estatuto de vocábulo composto. Tal
processo
é particularmente
facilitado
em línguas que, a exemplo do inglês e, principalmente, do ale-
mão, apresentam grande
flexibilidade
combinatória de
seus
lexemas, por
mecanismos de combinação sintagmática como a justaposição, por exem-
plo.
Desse
modo, tanto os vocábulos complexos quanto alguns vocábulos
compostos apresentam
semema
resultante da combinação sêmica dos
sememas
dos vocábulos integrantes.
Vê-se,
assim, que a definição de
vocábulo composto que demos anteriormente ainda é insuficiente, uma
vez que o critério sêmio-táxico de identificação de vocábulos tem valor
basicamente negativo: se o
semema
do vocábulo em questãoo resulta
da combinação semântica dos
sememas
dos lexemas que o integram,
tal
vocábulo é indubitavelmente composto.
Caso
contrário, é preciso
recorrer a um critério adicional que permita
distinguir
os dois tipos de
98
Alfa,
o
Paulo,
43:
89-103,
1999
vocábulo é o resultado do produto cartesiano do semema do lexema e
dos
sememas
dos gramemas. Entretanto, o semema
lexical
o deve
resultar de nenhum produto cartesiano anterior, vale dizer,o deve ser
decomponível em
sememas
menores. Graficamente, um vocábulo
sim-
ples como cadeira teria a seguinte representação:
PC
PE
{S-p
S
2
,
S
3
,...
S
n
}
cadeira
onde PC = plano do conteúdo e PE = plano de expressão.
Vocábulo
composto é aquele cuja estrutura morfossintárica conte-
nha mais de um lexema, e um número qualquer de gramemas, e que
possua
pelo menos uma das seguintes características:
a) sua semíao resulta do produto cartesiano dos
sememas
de
seus
lexemas;
b)
eleo é decomponível em unidades menores sintaticamente
autônomas.
Convém lembrar que, diacronicamente, um vocábulo como
fidalgo
é primeiramente complexo
(fidalgo
=
filho
d'algo), e a seguir composto.
Numa
perspectiva sincrónica, tal vocábulo deve ser considerado como
simples,
uma vez que, atualmente,
fidalgo
possui
apenas
um lexema,
o
sendo
mais sentida pelos falantes a composição
filho
d'algo.
Graficamente,
um vocábulo composto como guarda-chuva seria
representado como:
{Sj,
S
2
,
S
3
,...
S
n
}
guarda-chuva
Já
um vocábulo composto como
saca-rolhas
poderia ser represen-
tado como:
{S
lf
S
2
,
S
3
,...
S
m
}
sacar
{S
j,
S
2
, S
3
,...S
n
}
rolha
{Sj,
S
2
,
S
3
,...
S
n
} x
{S\,
S
2
, S
3
,... S'
n
}
saca-rolhas
100
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999
No
primeiro
caso
(guaida-chuva), temos a
indivisibilidade
sintá-
tica
e semântica do vocábulo, no segundo
caso
(saca-rolhas),
temos
ape-
nas a
indivisibilidade
sintática.
Vocábulo
complexo é aquele que contenha em sua estrutura mor-
fossintática
mais de um lexema, e um número qualquer de gramemas, e
que
possua
as seguintes características:
a) sua semia resulta do produto cartesiano dos
sememas
de
seus
lexemas;
b)
ele é decomponível em unidades menores sintaticamente autô-
nomas.
Graficamente,
um vocábulo complexo como greve
geral
seria
representado como:
{Sj,
S
2
, S
3
,
s
m
}
greve
{S ], S
2
, S
3,•••S
n
}
geral
{Sj,
S
2
, S
3
,...S
n
}x{S'
1
,S'
2
,S'
3
,...S'
n
}
greve geral
Assim,
poderíamos esquematizar
nossas
definições da seguinte
maneira:
Tipo
de vocábulo Número de
Número de
sememas
Ocorrências
lexical
lexemas
lexicais
da semia
em
dicionários
resultante
simples
1
1
sim
composto
mais de 1
1
ou mais
sim
complexo
mais de 1
mais de 1
o
Retomando agora
nossos
exemplos anteriores, com
base
no crité-
rio
sêmio-táxico de classificação, teremos que:
a) as formas verbais
está
chovendo e havia feito constituem vocá-
bulos simples, possuindo
cada
uma um único lexema e um único semema
lexical
na semia resultante;
3
3 Comparem-se as formas verbais vai fazer e quer fazer. No
primeiro
caso, o verbo
auxiliar
vai
exerce a
função
de uma simples
desinência.
No segundo caso, o verbo modal quer remeteo a
uma
função
gramatical, mas sim a um conceito
lingüístico,
o conceito de desejo. Note-se que, do
ponto
de vista
formal,
vai fazer comuta com uma
forma
sintética
como
fará,
ao
passo
que quer
fazer
só pode comutar com uma
forma
igualmente
analítica
como
deseja
fazer.
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999 101
b)
os
phrasal
verbs
do inglês, bem como os verbos destacáveis do
alemão,
o igualmente vocábulos simples;
c)
os vocábulos alemães
Generalstreik
e Produktionsprogrammo
ambos
complexos, pois possuem dois lexemas e dois
sememas
lexicais
na semia resultante, e, além disso,
seus
vocábulos simples constituintes
possuem autonomia sintática;
d)
mesa-redonda é um vocábulo composto e mesa redonda é um
vocábulo complexo;
e) os vocábulos ingleses milkman, songwriter e fig-treeo com-
postos, pois,
nesse
caso,
o
processo
de integração dos lexemas e,
conse-
quentemente, dos
sememas,
conduziu tanto a uma gramaticalização pro-
gressiva do
segundo
lexema quanto a uma cristalização sintática. Isso
se reflete na lexicalização
desses
vocábulos, já perfeitamente
dicionari-
zados.
Nesse
sentido, tais vocábulos tornaram-se unidades léxicas inde-
componíveis em unidades menores.
Conclusão
Como
vimos, o princípio tradicional de classificação de lexias ou
vocábulos nas categorias simples, composto, complexo e textual é insu-
ficiente
e impreciso, por
basear-se
em critérios pouco rigorosos e pouco
confiáveis,
como por exemplo a grafia, a qual tem
estado
sempre
sujeita
a vicissitudes históricas e idiossincrasias de toda sorte, o que torna
mui-
tas
vezes
a escolha da representação gráfica das palavras arbitrária e
subjetiva.
Além disso, tal princípio de classificaçãoo é universal nem
mesmo no âmbito das línguas européias.
Assim,
parece-nos
que a aná-
lise
sêmio-táxica das unidades léxicas fornece
bases
verdadeiramente
científicas
para a classificação morfossintática
dessas
unidades. Sua
combinação
com o critério da dicionarização conduz, portanto, a uma
classificação
rigorosa e
livre
das incoerências dos métodos tradicionais.
102
Alfa,
o Paulo, 43: 89-103, 1999
BIZZ0CCH1,
A.
L.
The problems of the traditional classification of lexical units
and
a solution proposal: the semio-taxical
criterion.
Alfa (São Paulo), v.43,
p.89-103, 1999.
ABSTRACT:
This
paper discusses the problems involving the
delimitation
of
the
lexical units of the language - which are usually identified to the intuitive and
nebulous concept of
"word"
-,
both
at the level
of
the
system
(lexias) and the dis-
course
(vocables), because of the morphosyntactic and spelling peculiarities of
each language, which
many
times
lead to a difficulty
in
recognising the simples,
compound or complex unit (actually, a sequence of simple or compound units),
with
consequent repercussions in the lexicological and lexicographical studies,
in
which it is fundamental to recognise
neatly
the boundary
between
such
lex-
ical
units. Furthermore, a methodological criterion for the
delimitation
of
lexical
units, aiming at solving the problem at issue, is proposed.
1
KEYWORDS:
Lexical
units; lexia; vocable; lexicology; lexicography; semio-taxical
criterion.
Referencias
bibliográficas
GRE1MAS,
A.
J.
Sémantique structurale: recherche de méthode.
Paris:
Larousse,
1966.
PAIS,
C.
T.
Ensaios semiótico-lingüísticos.
Petrópolis:
Vozes, 1977.
POTTIER,
B. Linguistique
générale:
théorie et description.
Paris:
Klincksieck,
1974.
Alfa,
o
Paulo,
43: 89-103, 1999
103
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Ensaios semiótico-lingüísticos. Petrópolis: Vozes
  • C T Pais
PAIS, C. T. Ensaios semiótico-lingüísticos. Petrópolis: Vozes, 1977.
Linguistique générale: théorie et description
  • B Pottier
POTTIER, B. Linguistique générale: théorie et description. Paris: Klincksieck, 1974.