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8º TRANSVERSALIDADES ENTRE ARTE E CIÊNCIA NAS IMAGENS DA NATUREZA CONTEMPORÂNEA

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Resumo A interferência da ciência no mundo natural, bem como as alterações da percepção da paisagem na contemporaneidade têm gerado a produção de obras de arte que tematizam os problemas ecológicos, a biogenética, a manipulação da natureza e a crítica à atividade científica. Na passagem do século XX para o século XXI, artistas como Olafur Eliasson, Mark Dion e Eduardo Kac, entre outros, têm tratado destas questões em seus trabalhos. Este artigo visa analisar as mudanças epistemológicas do tratamento da natureza pela arte nas últimas décadas, destacando a influência das ciência e da tecnologia na cultura contemporânea. Palavras-chave: natureza, ciência, tecnologia, paisagem, ecologia Abstract The interference of science in the natural world and the changes of the perception of landscape in contemporary world have generated the production of artworks that focus on ecological problems, biogenetics, manipulation of nature and critique of scientific activity. In the passage of the twentieth century to the twenty-first century, artists such as Olafur Eliasson, Mark Dion and Eduardo Kac, among others, have addressed these issues in their works. This article aims to analyze the epistemological changes on the treatment of nature in arts in the last decades, highlighting the influence of science and technology in contemporary culture.
18º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas
Transversalidades nas Artes Visuais – 21 a 26/09/2009 - Salvador, Bahia
TRANSVERSALIDADES ENTRE ARTE E CIÊNCIA
NAS IMAGENS DA NATUREZA CONTEMPORÂNEA
Prof. Dr. Hugo Fortes
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA-USP
Resumo
A interferência da ciência no mundo natural, bem como as alterações da percepção da
paisagem na contemporaneidade têm gerado a produção de obras de arte que tematizam
os problemas ecológicos, a biogenética, a manipulação da natureza e a crítica à atividade
científica. Na passagem do século XX para o século XXI, artistas como Olafur Eliasson,
Mark Dion e Eduardo Kac, entre outros, têm tratado destas questões em seus trabalhos.
Este artigo visa analisar as mudanças epistemológicas do tratamento da natureza pela
arte nas últimas décadas, destacando a influência das ciência e da tecnologia na cultura
contemporânea.
Palavras-chave: natureza, ciência, tecnologia, paisagem, ecologia
Abstract
The interference of science in the natural world and the changes of the perception of
landscape in contemporary world have generated the production of artworks that focus on
ecological problems, biogenetics, manipulation of nature and critique of scientific activity.
In the passage of the twentieth century to the twenty-first century, artists such as Olafur
Eliasson, Mark Dion and Eduardo Kac, among others, have addressed these issues in
their works. This article aims to analyze the epistemological changes on the treatment of
nature in arts in the last decades, highlighting the influence of science and technology in
contemporary culture.
Keywords: nature, science, technology, landscape, ecology
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As relações entre natureza e arte sempre provocaram inúmeras discussões de
ordem filosófica. As concepções da natureza, como ponto de partida ideal para a
imitação artística, ou da arte, como possibilidade superior de revelação dos
segredos intrínsecos do mundo natural, alternaram-se ao longo da história.
Segundo Luigi Pareyson, as relações entre arte e natureza têm se baseado no
princípio de que tanto a arte, como a natureza, são atividades formadoras, no
sentido da poiesis.
“É precisamente este o sentido profundo do antiqüíssimo princípio segundo o qual
a arte é uma imitação da natureza, pois a maioria dos que o sustentaram no
campo filosófico, concebiam a arte como imitação da natureza em sua operação,
adotando e prolongando a atividade da natureza. E tal princípio se tornou mais
operacionalmente poético do que especulativamente estético, como no
Renascimento, quando o artista, propondo-se intencionalmente compreender o
segredo produtivo da natureza, se servia para tal escopo da ciência, adotando a
anatomia e até mesmo a geometria como princípio de figuração artística1”.
Embora a representação mimética da natureza exista na arte desde os gregos,
entre os quais se destacava o pintor Zeuxis, o qual teria pintado cachos de uva tão
perfeitos que enganavam os passarinhos, apenas após o renascimento que a
natureza passa a ser representada de maneira autônoma, principalmente com o
surgimento dos gêneros das pinturas de paisagem e de natureza morta a partir do
século XVII. Se por um lado a arte apoiou-se nos conhecimentos científicos
racionais para a produção de suas obras, por outro lado a ciência também se
serviu da arte para representar seus objetos. Os estudos de científicos de
Leonardo da Vinci são importantes exemplos da junção entre ciência e arte. À
medida em que a arte começa a se distanciar dos temas religiosos para voltar-se
para o retrato do mundo cotidiano burguês, como na arte holandesa, a natureza
começa a ganhar destaque nas imagens de paisagens e de natureza morta. O
pintor procura cada vez mais se aperfeiçoar em sua representação do mundo real,
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valorizando a observação “do natural”, o que inicialmente é possível
principalmente nos arranjos de natureza morta.
Embora possam se encontrar conteúdos simbólicos e espirituais na natureza
morta, o apuro técnico na representação mimética permite que as pinturas de
natureza sirvam também como documentação confiável da flora e da fauna
existentes. Especialmente a partir da virada do século XVIII para o século XIX
surgiram inúmeros artistas naturalistas que documentaram a fauna e a flora com
objetivos científicos. Muitos deles eram enviados aos novos continentes,
retratando o mundo natural exótico que despertava interesse aos olhos europeus.
No Brasil podemos citar os trabalhos de Frans Post e Eckout, por exemplo, que
contribuíram para a formação das primeiras imagens da natureza brasileira.
A ilustração artística tornou-se uma importante ferramenta para o estudo de
paisagens geográficas, espécimes botânicos e zoológicos e o próprio corpo
humano. Embora se baseasse em procedimentos de representação mimética, a
apreensão do mundo natural oscilou entre o retrato objetivo defendido pelos
neoclássicos e a figuração simbólica e emocional sugerida pelos românticos. São
conhecidas, por exemplo, as discussões entre Goethe e Kaspar David Friedrich a
respeito da melhor maneira de se retratar nuvens na pintura: para o primeiro as
representações de nuvens deveriam seguir as orientações científicas dos
meteorologistas, porém Friedrich preferia pintá-las livremente, conforme suas
emoções. Também cientistas como Alexander von Humboldt chegaram a escrever
indicações de como deveria ser a pintura de paisagens de modo a retratar
fielmente o mundo natural.
Embora arte e ciência apresentem pontos de contato em seus primórdios,
conforme nos aproximamos do século XX, ambas parecem se tornar cada vez
mais separadas. Enquanto a ciência desenvolve seus próprios procedimentos e
raciocínios abstratos especializados, a arte moderna volta-se para a discussão
dos problemas da expressão emocional ou das especificidades de seu próprio
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campo formal, como cor, composição, representação e forma. A ilustração artística
com o intuito de observar e documentar os objetos do mundo natural vai cedendo
lugar à documentação fotográfica e outros métodos de observação tecnológicos.
A separação entre o conhecimento objetivo e o conhecimento subjetivo afirma-se
cada vez mais com a especialização dos saberes ao longo do século XX, levando-
nos inicialmente a pensar em um divórcio irreconciliável entre arte e ciência. Não é
por acaso que se nota um certo desconforto por parte dos filósofos que procuram
perceber o mundo de uma maneira mais ampla, integrando sensação e razão,
como é o caso de Maurice Merleau-Ponty.
Em seu famoso texto “O olho e o espírito”, Merleau-Ponty critica a supremacia da
ciência no século XX e defende uma retomada da possibilidade da arte como
conhecimento: “A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Fabrica para
si modelos internos delas e, operando sobre esses índices ou variáveis as
transformações permitidas por sua definição, só de longe se defronta com o
mundo atual. Ela é, sempre foi, esse pensamento admiravelmente ativo,
engenhoso, desenvolto, este parti pris de tratar todo ser como “objeto em geral”,
isto é, a um tempo como se ele nada fosse para nós, e no entanto, se achasse
predestinado aos nossos artifícios.2
A percepção do distanciamento entre o pensamento científico e a essência do
mundo sensível, conforme nos apontam Merleau-Ponty e outros teóricos ligados à
fenomenologia, reflete-se também no trabalho dos artistas plásticos. Em um
mundo dominado pelo racionalismo científico, no qual o homem se relaciona com
o mundo natural de maneira distanciada, através de modelos e teorias, cabe ao
artista repor ao homem um contato mais sensível com a natureza, não mais de
forma ingênua e fundante, mas considerando as alterações histórico-científicas e
interagindo poéticamente com elas.
Para o artista contemporâneo, a natureza não se constitui mais de um modelo
original imutável a ser simplesmente representado, mas sofre alterações e
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interferências provocadas pela ciência e até mesmo pela arte. A natureza deixa de
ser apenas modelo para o artista e passa a ser material real com o qual o artista
realiza suas obras. Diversas instalações, performances, intervenções e ações
conceituais produzidas após a década de 60 incluíram a utilização de animais,
plantas, frutos, terra, água, fogo, ar e diversos processos naturais em suas
realizações. Vários exemplos podem ser encontrados entre os trabalhos
realizados pelos artistas ligados à Arte Povera ou à Land Art. Se tomarmos como
exemplo alguns dos trabalhos produzidos por artistas ligados à Land Art, como
Robert Smithson ou Walter de Maria, podemos notar que a natureza nestes
trabalhos passa a ser um campo de experimentação artística, no qual o artista
interfere munido de conhecimentos oriundos da física, da geografia, da
meteorologia, da engenharia e de outras ciências.
A popularização da ciência ao longo do século XX permitiu que os artistas
tivessem acesso a seus documentos e procedimentos e passassem a empregá-
los propositalmente na constituição de suas obras, quer seja para criticá-los, quer
seja para aproveitar suas qualidades tecnológicas e racionalizantes.
Paralelamente a isso, o desenvolvimento da ecologia e da genética trouxe ao
homem novos questionamentos éticos sobre sua relação com a natureza e seu
manejo consciente. O próprio conceito de natureza tem sido revisto, distanciando-
se cada vez mais da idéia de uma origem imutável e determinante, e tornando-se
algo manipulável, provisório e até mesmo virtual. A natureza original, que servia
de refúgio ao homem ou que tinha que ser enfrentada por ele, dá lugar agora a
uma natureza manipulada e aparentemente dominada, na qual é possível
existirem seres sintéticos, virtuais, transgênicos e híbridos.
A natureza encontra-se hoje esquadrinhada pela ciência e torna-se cada vez mais
artificial. A produção da imagem da paisagem contemporânea, além de ser
informada por toda a produção artística histórica anterior à atualidade, incorpora
concepções e modelos advindos da biologia, da arquitetura e da engenharia, da
física, da meteorologia e das mais variadas ciências. O artista contemporâneo tem
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acesso a esses modelos e conceitos científicos e sua visão de mundo já vem
contaminada por eles. Conhecemos certos espécimes naturais melhor através de
imagens fotográficas e midiáticas e modelos de representação científica do que
através da observação direta do próprio mundo natural. Assim, a relação atual do
artista com a natureza não é mais tão direta e original, mas está sujeita à
interferência de camadas de sentido oriundas da ciência e da comunicação social.
A iminência de catástrofes naturais ocasionadas pela exploração incorreta do meio
ambiente, que alcançou maior divulgação no final da década de 80, aumentou a
consciência ecológica da população mundial e vem se refletindo também na
maneira dos artistas tratarem da natureza em suas obras. Ao mesmo tempo, o
aceleramento do desenvolvimento cibernético vem afastando cada vez mais o
homem de sua relação com o mundo natural, levando-o a viver em um mundo
cada vez mais virtual e tecnológico. As alterações do genoma animal, a criação de
clones e os produtos alimentícios transgênicos já fazem parte de nosso cotidiano e
passaram a ser tema do trabalho de diversos artistas contemporâneos.
Muitos dos trabalhos recentes têm apresentado uma postura mais crítica sobre as
relações entre a natureza e a ciência. Embora nem sempre engajados
ecologicamente, estes trabalhos tem procurado deixar mais visível a manipulação
da natureza pela ciência e o distanciamento entre o homem e a natureza. Em
muitos deles, a possibilidade da existência de um mundo natural real chega a ser
negada, salientando a artificialidade construída do ambiente contemporâneo.
Outros servem-se de procedimentos científicos para a criação de situações
poéticas inusitadas, introduzindo dados da sensibilidade em um campo marcado
pelo racionalismo distanciado.
Podem se encontrar exemplos destas posturas nos trabalhos de artistas como
Olafur Eliasson, Mark Dion, Henrik Hakkanson, Eduardo Kac, Walmor Correa,
Rodrigo Matheus, entre outros. Embora com propostas e meios bastante
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diferentes, estes artistas têm procurado refletir sobre a relação entre o homem e a
natureza diante da realidade tecnológica, científica e midiática em que vivemos.
Conforme demonstra a filósofa Anne Cauquelin em “A invenção da paisagem”, o
homem contemporâneo torna-se cada vez mais consciente da artificialidade da
noção de paisagem. Os trabalhos do artista dinamarquês Olafur Eliasson são
exemplares reflexões sobre este tema. Diversas vezes o artista constrói pequenas
paisagens ou situações aparentemente naturais no interior de museus, usando
para isto um alto equipamento tecnológico. Recentemente, Eliasson realizou uma
grande instalação na Tate Gallery em Londres, na qual produziu um enorme sol
artificial realizado a partir de projeções luminosas. Com este trabalho o artista cria
uma alteração climática artificial no ambiente londrino, recriando situações
naturais através de um aparato técnico visível. Em outro trabalho, o artista recriou
no interior de um museu austríaco uma série de paisagens com plantas aquáticas,
água, vapor e outros materiais, estabelecendo um contraste com a fria arquitetura
de concreto do local. O espectador podia atravessar as salas do museu
experimentando corporalmente diferentes sensações térmicas, visuais e
climáticas, porém percebendo a artificialidade de sua construção no espaço
expositivo.
Olafur Eliasson
The Mediated Motion.
2001
Instalação: água, algas
e passarela de madeira
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Kunsthaus Bregenz.
Austria
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Frequentemente Eliasson deixa visível o aparato técnico com que constrói suas
instalações. Gráficos e modelos científicos oriundos da física costumam também
ser utilizados pelo artista, que procura incorporar conhecimentos sobre ondas
luminosas e sonoras em suas obras. Embora muitos dos trabalhos de Eliasson
remetam a sensações de paisagens sublimes e idealizadas, evocando um
sentimento romântico, a natureza aparece em seu trabalho indissociada do
aparato tecnológico e científico.
Também o trabalho de Henrik Hakansson problematiza a relação entre natureza e
tecnologia, porém sua obra concentra-se mais na idéia da observação científica do
mundo natural através das tecnologias da imagem contemporânea, como o vídeo
e a fotografia. Hakansson instala câmeras que registram e documentam de
maneira fria e obsessiva as ações e processos do mundo animal e vegetal. Seu
trabalho oscila entre a documentação científica e a expressão artística.
A observação científica da natureza é tematizada também pelos trabalhos do
artista americano Mark Dion, porém de maneira mais irônica. Em algumas
instalações, Dion reproduz os locais de trabalhos de cientistas, com fósseis,
animais empalhados ou em formol, microscópios, tubos de ensaio, sistemas de
catalogação e até mesmo armários e uniformes típicos dos ambientes de
laboratórios. Sua encenação do ambiente científico, no entanto, passa a
impressão de uma ciência antiga e ultrapassada, remetendo a imagem de
laboratórios da década de 50, ou mesmo a procedimentos científicos dos séculos
XVIII e XIX. Dion pretende com isto deixar clara a artificialidade presente na
observação científica e questionar as pretensões de modernidade e progresso da
ciência. Em outras obras, Dion utiliza animais empalhados em situações altamente
artificiais e incômodas, colocando-os lado a lado com aparelhos tecnológicos ou
objetos de consumo descartáveis.
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A atmosfera de um certo saudosismo de uma ciência ultrapassada, presente no
trabalho de Dion, pode ser também observada no trabalho do artista brasileiro
Walmor Corrêa. Seu trabalho porém volta-se principalmente para a pintura e o
desenho aproximando-se da ilustração artística com fins naturalistas. Os seres
retratados por Walmor Corrêa e apresentados em seu detalhismo anatômico,
como se fossem extraídos de um livro de biologia, são, entretanto, seres irreais,
fantásticos, como sereias, curupiras e outros seres imaginários. Ao retomar a
forma de representação científica dos artistas naturalistas do século XVIII, Corrêa
coloca em xeque todos os modelos de representação objetiva, mostrando-nos que
além da razão há sempre algo inexplicável. Seu trabalho também pode ser
entendido como uma admiração crítica do trabalho dos naturalistas europeus do
século XVIII, que embora devessem documentar o novo mundo, muitas vezes
deixavam-se levar por fantasias baseadas em uma visão eurocêntrica
mistificadora.
Walmor Corrêa
Ondina.
Acrílica e grafite sobre tela.
195 x 130 x 3,5 cm. 2005
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Enquanto Dion e Corrêa colocam em dúvida a modernidade da ciência, o
brasileiro Eduardo Kac serve-se das mais avançadas tecnologias da genética para
a realização de suas experiências artísticas. Em um de seus trabalhos mais
polêmicos, Kac implantou o cromossomo de uma alga luminosa no DNA de uma
lebre, de modo a fazer com que os olhos do animal passassem a ser
fosforescentes no escuro. O estudo da genética tem servido como base para o
desenvolvimento de diversos trabalhos de Eduardo Kac, que tem sido proclamado
como um dos inventores da chamada bioart. Recentemente o artista criou uma
nova espécie de flor na qual inseriu cromossomos de seu próprio DNA humano.
Seu trabalho tem gerado intensas discussões sobre ética e sobre os limites da
atuação da arte e da ciência.
A tecnologia é também o ponto de partida do artista Rodrigo Matheus, porém ao
invés de interferir diretamente sobre o mundo natural, Matheus utiliza as
representações virtuais da realidade para nos falar de uma natureza inatingível.
Na instalação “O mundo em que Vivemos”, apresentada em 2008 na Galeria
Fortes Villaça, em São Paulo, o artista apresentava vários monitores de
computador que mostravam imagens de paisagens virtuais retiradas de jogos
eletrônicos. Descontextualizadas de seu ambiente original estas paisagens
parecem-nos ainda mais artificiais e distantes, levando-nos a um mundo ao
mesmo tempo frio e desejado. Os pores do sol, cachoeiras, montanhas e
vegetações presentes no trabalho de Matheus possuem algo de inalcançável ao
homem contemporâneo, isolado pela frieza de seu aparato tecnológico.
Além dos nomes aqui citados, poderíamos citar inúmeros outros artistas
contemporâneos que fazem das relações entre ciência e arte o cerne de sua
poética, como Jane Prophet, Karl Sims, Carsten Nicolai, etc. Embora com poéticas
próprias e bastante diferentes entre si, estes artistas têm levantado uma série de
questões importantes para a discussão das relações entre o mundo natural e a
tecnologia. Nestes trabalhos é possível identificar uma variada amplitude de
posturas e procedimentos como: paródias do mundo científico tradicional com
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inserção de elementos poéticos, criação de naturezas virtuais, simulação de
eventos possíveis ou impossíveis no mundo natural, utilização de tecnologias e
métodos de observação científica para apreensão da natureza e interferência
direta sobre a constituição do mundo natural, alterando suas características
originais.
A importância do trabalho destes artistas consiste em alertar-nos para o enorme
distanciamento do homem contemporâneo da natureza. Porém ao invés de
simplesmente pregar uma volta impossível à natureza original de maneira
ingênua, estas obras levam-nos a pensar em um novo conceito de natureza, que
surge da negociação consciente entre o meio ambiente e o homem que o habita.
O sentido ecológico destas reflexões não se restringe à sugestão de atitudes
preservacionistas, mas acredita numa natureza mutante e mutável, que pode
receber o auxílio da tecnologia e da ciência para sua própria preservação. Apenas
quando o homem torna-se consciente de seu papel frente ao meio ambiente e de
que ele próprio faz parte do mundo natural, mesmo com suas idiossincrasias e
atividades predadoras, é que ele pode pensar em políticas ecológicas factíveis e
sustentáveis, nas quais a tecnologia entra como colaboradora. Ampliar esta
consciência, mesmo que seja aparentemente através de obras distanciadas e
antinaturais, é o objetivo de muitos destes trabalhos artísticos.
Notas
1 PAREYSON, Luigi. Estética da Formatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993. p. 267
2 MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo, Cosac & Naify, 2004.
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WULLEN, Moritz. Natur als Vision. Katalog der Ausstellung der Tate Britain in
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Hugo Fortes é Professor Doutor na Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde também se doutorou. De 2004 a
2006 realizou doutorado-sandwich na Universität der Künste Berlin, Alemanha. Em
2007 foi vencedor do Prêmio CAPES de Tese. Como artista tem participado de
inúmeras exposições na Europa, Ásia e América do Sul. Atualmente é pós-
doutorando na FAU-USP.
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Paisagem Portátil designa/conceitua um projeto abrangente que procede do contexto da arte através de um conjunto de imagens, objetos e meta-arquiteturas, obtidas a partir de estratégias produtivas específicas, visando a constituição de uma espacialidade híbrida, que se expande em direção aos contextos do design e da arquitetura, da cidade e da paisagem. Enquanto reflexão teórica esse projeto procede no sentido de tentar estabelecer aproximações com as noções e conceitos contemporâneos de espaço, enquanto ambiente construído, assim como de paisagem, enquanto natureza 2roduzida. Essa espacialidade híbrida das Paisagens Portáteis funciona como uma espacialidade paralela à espacialidade ideologicamente produzida do cotidiano nas cidades, mas não pretende de modo algum ser uma espacialidade alternativa. Nesse sentido, a espacialidade híbrida das Paisagens Portáteis, é antes de tudo um meio de chamar a atenção sobre o ambiente que nos cerca, pois não pretendem de modo algum ser a solução para problemas que tomaram grandes proporções, e que dizem respeito a uma tomada de consciência mais ampla quanto a espacialidade específica dos ambientes construídos das cidades e o funcionamento que predispõem para todos nós. Tese (Doutorado).
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ELIASSON, Olafur. Your Engagement has Consequences. On the Relativity of Your Reality. Baden/Switzerland: Lars Müller Publishers, 2006
Estética: Teoria da Formatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993. 18º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Transversalidades nas Artes Visuais – 21 a 26
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PAREYSON, Luigi. Estética: Teoria da Formatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993. 18º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Transversalidades nas Artes Visuais – 21 a 26/09/2009 -Salvador, Bahia 550
Natur als Vision. Katalog der Ausstellung der Tate Britain in Zusammenarbeit mit der Alten Nationalgalerie Berlin
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WULLEN, Moritz. Natur als Vision. Katalog der Ausstellung der Tate Britain in Zusammenarbeit mit der Alten Nationalgalerie Berlin. Berlin: SMB DuMont, 2004.
Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Transversalidades nas Artes Visuais-21 a 26/09/2009-Salvador, Bahia Referências ACOSTA, Daniel A. Paisagem Portátil: Arquitetura da natureza estandardizada
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Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Transversalidades nas Artes Visuais-21 a 26/09/2009-Salvador, Bahia Referências ACOSTA, Daniel A. Paisagem Portátil: Arquitetura da natureza estandardizada. Tese de Doutorado, São Paulo: ECA/USP, 2005.
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  • Robert
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