Conference PaperPDF Available

MEMÓRIAS VIDEOGRÁFICAS DAS NAVEGAÇÕES COMUNITÁRIAS PELAS ÁGUAS DA BAHIA

Authors:

Abstract and Figures

Fortes. USP RESUMO: Este artigo apresenta reflexões sobre a documentação videográfica do projeto BTS em Retalhos: ações poéticas em cinco portos da Baía de Todos os Santos: Baiacu, Itaparica, Matarandiba, Coqueiros e Ilha de Maré. O projeto consistiu de uma série de ações realizadas pelos artistas e pesquisadores do grupo MAMETO Cnpq junto a comunidades das ilhas da Baía de Todos os Santos. Foram realizadas oficinas, trabalhos de campo e criação artística coletiva, performances e discussões com os habitantes destas ilhas ao longo de dois anos. O processo foi documentado em vídeo, fotografias e em publicações. O presente texto descreve o processo de criação dos vídeos do projeto, pensando estas obras como documentos do processo artístico, que são ao mesmo tempo obras autônomas que oferecem um testemunho das vivências coletivas do projeto. Palavras-chave: comunidade, criação coletiva, video, documentação, ambiente. ABSTRACT: This article presents reflections on the videographic documentation of the project BTS em Retalhos: poetic actions in five ports of the Baía de Todos os Santos.: Baiacu, Itaparica, Matarandiba, Coqueiros and Ilha de Maré. The project consisted of a series of actions undertaken by artists and researchers from the group MAMETO Cnpq along with communities from the islands of the Baía de Todos os Santos. During two years were held workshops, on-site studies, collective artistic creation processes, performances and discussions with the inhabitants of these islands. The process was documented on video, photos, and publications. This paper describes the creation process of the videos of the project, considering these artworks as documents of the artistic process, which are also autonomous pieces that offer a testimony about the collective experiences of the project.
Content may be subject to copyright.
3400
MEMÓRIAS VIDEOGRÁFICAS DAS NAVEGAÇÕES
COMUNITÁRIAS PELAS ÁGUAS DA BAHIA
Hugo Fortes. USP
RESUMO: Este artigo apresenta reflexões sobre a documentação videográfica do projeto
BTS em Retalhos: ações poéticas em cinco portos da Baía de Todos os Santos: Baiacu,
Itaparica, Matarandiba, Coqueiros e Ilha de Maré. O projeto consistiu de uma série de ações
realizadas pelos artistas e pesquisadores do grupo MAMETO Cnpq junto a comunidades
das ilhas da Baía de Todos os Santos. Foram realizadas oficinas, trabalhos de campo e
criação artística coletiva, performances e discussões com os habitantes destas ilhas ao
longo de dois anos. O processo foi documentado em vídeo, fotografias e em publicações. O
presente texto descreve o processo de criação dos vídeos do projeto, pensando estas obras
como documentos do processo artístico, que são ao mesmo tempo obras autônomas que
oferecem um testemunho das vivências coletivas do projeto.
Palavras-chave: comunidade, criação coletiva, video, documentação, ambiente.
ABSTRACT: This article presents reflections on the videographic documentation of the
project BTS em Retalhos: poetic actions in five ports of the Baía de Todos os Santos.:
Baiacu, Itaparica, Matarandiba, Coqueiros and Ilha de Maré. The project consisted of a
series of actions undertaken by artists and researchers from the group MAMETO Cnpq along
with communities from the islands of the Baía de Todos os Santos. During two years were
held workshops, on-site studies, collective artistic creation processes, performances and
discussions with the inhabitants of these islands. The process was documented on video,
photos, and publications. This paper describes the creation process of the videos of the
project, considering these artworks as documents of the artistic process, which are also
autonomous pieces that offer a testimony about the collective experiences of the project.
Key-words: community, collective creation, video, documentation, environment.
Entre 2010 e 2012 foram realizadas uma série de intervenções artísticas junto
aos habitantes das ilhas da Baía de Todos os Santos, no âmbito do projeto BTS em
Retalhos, sob coordenação geral da Profa. Dra. Viga Gordilho da UFBA e
participação dos membros do grupo de pesquisa MAMETO. O projeto BTS em
Retalhos, cuja idealização iniciou-se em 2007, teve como objetivos realizar estudos
de campo, ações artísticas coletivas e oficinas de arte para a população das
comunidades de Baiacu, Itaparica, Matarandiba, Coqueiros e Ilha de Maré. Além de
valorizar a cultura local e estimular a criação artística junto a estas comunidades, o
projeto também atuou como uma plataforma de discussão de questões sociais,
3401
ecológicas e culturais por meio da arte. Para os pesquisadores e artistas
participantes, o contato com um ambiente natural exuberante e distante da cidade
grande e os diálogos travados com os habitantes das comunidades, muitas vezes
bastante carentes, possibilitou um ponto de partida para a reflexão e um motivo de
inspiração para a criação de obras coletivas conscientes, que dialogassem
poeticamente com as realidades locais.
As ações artísticas foram de diversos tipos, incluindo desde oficinas de
criação coletiva utilizando pintura, cerâmica e outros materiais, até mesmo um
desfile com trajes artísticos criados pelos artistas a partir das rendas produzidas
pelas habitantes da Ilha de Maré e performances que foram apresentadas para as
comunidades. Embora algumas destas ações também apresentassem aspectos
educativos, não se pretendeu impor unidirecionalmente um conteúdo a ser
aprendido pelos habitantes das comunidades ao contrário, foi a partir das
características e necessidades de cada comunidade que se pensaram as ações
artísticas, nas quais os aspectos colaborativos foram salientados com o intuito de
criação de obras coletivas com a participação ativa das populações locais.
Em verdade, podemos compreender as atividades realizadas no âmbito do
projeto BTS em Retalhos como uma obra única e distendida no tempo, cujas
realizações não se materializam em um suporte específico e nem pretendem ser
formatadas em um único produto artístico consumível, pois consideram o processo
criativo colaborativo e o poder transformador da arte o seu principal objetivo. Talvez
por isso a melhor definição para estas atividades seja mesmo o termo ações
poéticas, pois situam-se próximas das noções de performance ou happening devido
a seus processos efêmeros e desmaterializados, que, porém, promovem interações
efetivas e participativas com as comunidades participantes. Distantes do mercado de
arte e sem necessidade de se oferecer como obras artísticas acabadas e
comercializáveis, estas ações podem ser visualizadas e percebidas de diferentes
formas e em diferentes suportes, que funcionam como objetos mediadores entre os
criadores e os fruidores das obras.
Em uma primeira instância, poderíamos dizer que os artistas envolvidos e as
comunidades onde se realizaram as ações seriam ao mesmo tempo os produtores e
o público destas obras. Afinal estas ações foram realizadas por eles e devido ao fato
3402
destas comunidades apresentarem-se distantes dos grandes centros e do mercado
artístico, raramente houve um público que se dirigisse aos locais das ações apenas
para assisti-las. Em geral, era a própria população local das ilhas que participava e
via os resultados criativos. Mesmo os artistas envolvidos no projeto, nem sempre
puderam estar todos presentes em todas as ações, que o grupo era formado por
uma grande quantidade de artistas de diversos estados do Brasil, sendo que alguns
artistas estiveram presentes apenas em algumas ações.
Em uma segunda etapa, após as realizações das ações efetivas nas ilhas,
entretanto, foram organizadas fotos que retratavam estas ações, produzidos textos
com reflexões sobre os processos desenvolvidos e as vivências criativas, bem como
editados vídeos que documentavam as atividades do grupo nas comunidades. Este
tipo de material, de caráter documental e reflexivo constituiu uma nova possibilidade
de apreensão da obra produzida pelo projeto BTS em Retalhos. É importante
ressaltar que a apreensão desta obra distendida no tempo é, portanto, sempre
fragmentária, pois suas ações produziram uma série de documentos textuais,
imagéticos e videográficos, que ao mesmo tempo narram as ações realizadas e
constituem-se como objetos mediadores de acesso às ações desenvolvidas. Devido
ao caráter relacional das ações desenvolvidas pelo projeto BTS em Retalhos, à
multiplicidade de espaços onde ocorreu, à abrangência de públicos criadores e
fruidores que envolveu e da variedade de mídias e suportes que foram utilizadas
durante o seu desenvolvimento, a compreensão integral deste processo artístico
seria possibilitada apenas àqueles que estiveram presentes em todas as ações.
Mesmo assim, cada um teve percepções e níveis de envolvimento diferentes com
esta grande obra. Desta forma, podemos depreender que a apreensão desta obra se
deu de forma múltipla, ocorrendo não só através da percepção ao vivo daqueles que
participaram in loco dos eventos, mas também foi estendida àqueles que tomaram
contato com ela através de imagens, vídeos, pinturas, objetos e relatos produzidos a
partir das experimentações artísticas.
Neste momento, em que as ações presenciais nas ilhas da Bahia de Todos os
Santos foram concluídas, a reunião destas percepções vem sendo organizada em
publicações que incluem vídeos, fotos e textos, além de estar sendo discutida em
apresentações orais. Estes documentos das ações tornam-se portanto uma segunda
3403
etapa de atualização da obra, constituindo-se por sua vez obras em si, que se
oferecem ao público como a possibilidade de acesso aos conteúdos desenvolvidos
no projeto. Acredito ser importante aqui ressaltar que o aspecto documental destes
materiais não reduz sua poética enquanto objetos artísticos. Em uma palestra
recente na conferência internacional Performing Documents, em 2013, em Bristol na
Inglaterra, a Profa. Dra. Rebecca Schneider da Brown University, EUA, apresentou
suas reflexões sobre os materiais de documentação e arquivações de performances.
Em sua fala, a professora salientou que as fotografias, vídeos e textos que
documentam performances, ao invés de serem vistos como meros documentos
incompletos de ações efêmeras do passado, devem ser encarados como uma
possibilidade de atualização das performances no momento em que são exibidos, e,
assim, eles “performam“ ao serem visualizados por nós. É neste sentido que
pretendo discutir alguns dos vídeos que documentam as ações do projeto BTS em
Retalhos. Estes vídeos são, portanto, obras indissociáveis de todo o contexto do
projeto e seu objetivo não foi dar conta de documentar tudo o que ocorreu durante
as ações, mas sim funcionar como uma ponte entre o público que não esteve
presente nas ilhas e as ações ali ocorridas, ao mesmo tempo em que se constituem
como obras artísticas em si.
Sem um roteiro pré-definido, estes vídeos foram se construindo a partir das
percepções das atividades coletivas ocorridas nas comunidades visitadas. O tempo
transcorrido entre a captação das imagens in loco e a posterior edição serviu para
que a memória efetuasse a seleção das imagens e percepções mais eloquentes. A
narrativa que ocorre no transcorrer de cada vídeo, embora apresente conexões com
a sequência cronológica na qual as ações ocorreram, nem sempre é totalmente fiel à
temporalidade de cada evento ocorrido, já que a própria linguagem videográfica
impôs suas necessidades de ritmo e edição, de maneira que as imagens fossem
concatenadas de maneira lógica e compreensível para o espectador.
Pretendo me concentrar principalmente na análise de dois vídeos dos quais
participei ativamente os que documentam as ações ocorridas na Ilha de Itaparica
(Porto II) e na Ilha de Maré (Porto V). Nestes dois locais, atuei tanto como
videomaker quanto como artista participante das oficinas e atividades performáticas
que ocorreram no local. Munido de uma câmera portátil Mini Dv, observei as
3404
atividades ao mesmo tempo em que me envolvi e me sensibilizei com elas. Em
ambas as ocasiões, procurei captar o máximo de imagens possível e também ficar
atento aos sons que poderiam ser utilizados na edição final do vídeo. A captação
das imagens deu-se de maneira simples, na maior parte das vezes sem tripé e com
iluminação natural já que as condições técnicas do local não permitiam grande
aparato tecnológico, o que também tiraria a naturalidade dos participantes.
As ações realizadas nestas duas ilhas foram bastante diferentes, o que
influenciou também na apresentação final dos vídeos. Enquanto a ação em Itaparica
consistiu principalmente de uma atividade de pintura em retalhos de tecido, realizada
em conjunto com as artesãs locais, a ação da Ilha de Maré foi mais elaborada
artisticamente, que cada artista criou um traje com as rendas tramadas pelas
rendeiras da comunidade local e posteriormente foi realizado um desfile e uma série
de performances na praia e no gramado da Ilha.
Apresento a seguir a maneira como os vídeos foram editados, em linhas
gerais. O vídeo sobre a ação em Itaparica (Porto II), por ser o primeiro a ser
realizado no âmbito do projeto e pela própria natureza da ação ali realizada, tem um
caráter mais simples, em que a documentação se sobressai. O vídeo inicia com a
travessia em barco de transporte público para a ilha. Após uma primeira imagem do
mar em silêncio sobre a qual foi escrito o título do vídeo, surge uma imagem do
interior da barca pública, lotada e com um grande barulho de vozes misturadas. A
intenção é salientar o contraste sonoro e visual com a imagem anterior, de caráter
mais meditativo e introspectivo em relação à imagem seguinte que mostra a
precariedade e o barulho da balsa, além de destacar a gente simples que a usa
diariamente para atravessar o mar. Este contraste é novamente salientado pela
imagem que se segue: crianças observando o horizonte ao longe no terraço do
barco. Esta imagem é exibida novamente sem som. A alternância entre barulho
estridente e espaços de silêncio promove um ritmo no vídeo, que trafega entre a
documentação crua das vivências obtidas durante a ação e a dimensão reflexiva
sobre a comunidade e o ambiente, que surgem nas imagens mais silenciosas ou na
sobreposição de palavras que dão novo significado às imagens.
As primeiras palavras surgem no vídeo logo após esta introdução, quando o
barco chega à ilha e começam a ser mostradas as atividades realizadas junto com a
3405
comunidade. Primeiramente aparece o neologismo “deslimites” que busca conferir
um conteúdo poético ao vídeo, remetendo metaforicamente à ideia de quebra das
distâncias e separações entre o pessoal morador das ilhas e do continente,
procurando simbolizar a busca da construção de uma ponte imaginária através da
arte. Após esta palavra, surgem ainda as palavras “matéria“, “memória“ e “conceito“,
que sintetizam as proposições artísticas do grupo MAMETO, responsável pelo
desenvolvimento destas ações. Estas palavras aparecem sobre um fundo verde,
aparentemente abstrato, que aos poucos se revela como sendo um dos tecidos
sendo pintado pela coordenadora do projeto, Profa. Dra. Viga Gordilho e uma das
integrantes da comunidade. Este take é a primeira imagem da produção de obras
plásticas que aparece no vídeo, servindo assim como separação das imagens
anteriores, que documentavam mais a travessia no barco, para introduzir as
imagens da ação artística em si. O fundo musical desta imagem anuncia de maneira
solene o que está por vir. Trata-se da “Ave Maria“ de Charles Gounod, cantada
espontaneamente a capella pela artesã Jaciara Santana, moradora da comunidade
de Itaparica e participante desta ação. A música, que surge aqui no início do vídeo,
volta aparecer em seu fechamento, quando é identificada sua cantora. Seu caráter
sacro traduz a forte religiosidade do povo baiano, trazendo um elemento erudito a
uma situação popular e singela.
Após esta introdução seguem-se uma série de imagens que documentam os
trabalhos de pintura, colagem e bordados realizados com as integrantes da
comunidade local. O clima é de descontração, revelado em imagens
despretensiosas embaladas ao som de músicas que foram cantadas por todo o
grupo. Para a edição destas imagens, foram selecionados trechos das músicas
cantadas espontaneamente pelos participantes que foram remontados sobre
imagens que melhor mostravam as atividades do grupo trabalhando. um
descolamento proposital entre o som e as imagens, de forma que as músicas
servem apenas como pano de fundo. Esta sequência de sonoro-visual é apenas
quebrada quando se insere a imagem das artesãs caminhando para ir embora após
o término dos trabalhos. Nesta imagem o som captado diretamente, já que as
artesãs cantam em coro a música “Mulher Rendeira“, que se relaciona diretamente a
seu fazer enquanto mulheres artesãs. O sentido da coletividade é aqui reforçado e
pode-se ver a alegria nos rostos das participantes após o trabalho realizado.
3406
Figura 1 Cena do vídeo BTS em Retalhos Porto II - Itaparica
Terminado este bloco bastante musical do vídeo, instaura-se uma imagem
bastante silenciosa da paisagem, podendo-se ouvir apenas alguns sons de pássaros
e do próprio mar. A imagem é dividida em três faixas horizontais, mostrando a areia,
o mar e o céu. Acima da linha do horizonte, lentamente aparece um texto deslizando
da direita para a esquerda, e alguns segundos depois surge do lado esquerdo um
barco de pescadores retirando uma rede de pesca do mar, dirigindo-se para o lado
oposto do campo visual. Os movimentos do texto em direção à esquerda e do barco
em direção à direita promovem uma relação simbólica entre eles: enquanto o texto
se refere às mulheres retratadas no vídeo, o barco exibe a realização de uma
atividade essencialmente masculina, a pescaria. Este take do vídeo apresenta uma
duração um pouco mais longa que os anteriores e introduz assim uma espécie de
pausa meditativa sobre a atividade artística realizada. A frase que desliza sobre a
tela, elaborada a partir de textos previamente escritos a respeito de outras ações do
projeto BTS, nos conta de maneira poética sobre as conversas tidas com a
comunidade local durante a realização das atividades. O texto é o seguinte:
“Falaram das travessias, das estradas, das águas, dos longos caminhos percorridos
pelas vendedoras de mariscos e pelas professoras para se formar; falaram da
3407
coragem dessas mulheres, de sua força e esforço físico. Falaram da natureza
misteriosa e do mar. Falaram da destruição crescente da natureza. Falaram de
preconceito e auto-estima”.
Após este momento reflexivo e quase silencioso, novamente o vídeo
apresenta uma sequência sonora bastante potente, cuja música de fundo é
novamente a Ave Maria de Gounod, cantada agora até o final por uma das artesãs
que participaram da atividade em Itaparica. As imagens mostram um longo caminhar
sobre os retalhos pintados e bordados durante a atividade, que se encontram agora
todos unidos em um longo tapete comunitário colocado sobre um píer existente na
praia em frente do Instituto Sacatar, onde foi realizada a ação artística. A extensão
do tapete é revelada ao final do vídeo. Quando a câmera chega ao final do píer
após mostrar todos os retalhos, é realizado um movimento para cima, mostrando
primeiramente a areia, depois o mar e por fim o céu. A relação entre a música e o
caráter de celebração desta imagem é destacada pela fusão do céu com um close
nos olhos da cantora, enchendo a imagem de emoção e espiritualidade. Por fim, a
música cessa e novamente aparece a imagem do longo tapete de retalhos sobre o
píer, desta vez aparecendo por inteiro em um plano aberto que mostra sua
integração a paisagem da praia. Os créditos da realização da ação artística
aparecem sobrepostos a esta imagem estática sob o som natural dos pássaros e do
mar.
Embora tenha sido realizado com poucos recursos e em curto espaço de
tempo, este vídeo procurou trazer um pouco da atmosfera colaborativa e simples
existente na ação realizada no Porto II Itaparica. A inserção de textos e imagens
mais contemplativas, assim como a convivência entre músicas eruditas e populares
e sons captados do natural teve como objetivo ampliar as dimensões reflexivas da
ação, ao mesmo tempo em que a documentava. A realização desta obra
videográfica serviu como ponto de partida para a criação de outros vídeos que
documentaram as ações seguintes do projeto BTS.
O vídeo que documentou a última ação do projeto BTS, no Porto V Ilha de
Maré, teve um caráter mais elaborado, assim como a ação artística ali ocorrida.
Esta ação foi bastante diferente das anteriores, pois ao invés da realização de uma
oficina com a comunidade, optou-se pela apresentação de uma série de
3408
performances e um desfile performático com trajes criados pelos artistas a partir das
rendas confeccionadas pelas artesãs locais. Esta ação tinha como objetivo valorizar
a produção do artesanato local, apresentando novas possibilidades de utilização das
rendas para a população. Além disso, a realização das performances em um cenário
natural paradisíaco evocou um sentido comunitário entre a força da natureza, seus
habitantes, seu imaginário e suas projeções míticas. As performances e os trajes
criados fizeram referência aos orixás e personagens locais, porém retrabalhados de
maneira bastante contemporânea. Embora as ações tenham sido realizadas
preponderantemente pelos artistas do grupo MAMETO, tendo a comunidade de
rendeiras como público, estes habitantes locais se integraram à realização das
atividades, colaborando com a realização das performances e fornecendo as rendas
que foram utilizadas pelos artistas. Após a finalização das apresentações, foi
realizada uma conversa com as habitantes locais, na qual elas puderam identificar
as rendas que tinham feito, contando informações sobre sua confecção e
transmitindo ao grupo de artistas aspectos de seu saber tradicional. Os momentos
poéticos se instauraram nesta ação, tanto pelo estranhamento ritualístico despertado
pela linguagem contemporânea da performance, como pelo diálogo franco e
amistoso entre os artistas e os membros da comunidade.
O vídeo que documenta esta ação privilegiou a beleza das imagens da
paisagem como fundo para as poéticas performances realizadas. Inicialmente
uma introdução de imagens da paisagem marítima, captadas durante a travessia
entre Salvador e a Ilha de Maré. No início não aparecem imagens de pessoas
nestas cenas, que salientam a beleza do ambiente natural. A música escolhida como
trilha sonora é Que carro de boi é esse” composta por Loop B e Pedro Osmar. Seu
caráter bastante contemporâneo une elementos que remetem aos tons tradicionais
locais. Ao final desta música, finalmente surge a chegada dos artistas que
desembarcam na ilha sendo trazidos por um pequeno barco conduzido por um
habitante local.
Após esta cena vemos a recepção aos artistas, realizada por dois integrantes
do grupo, Nicole Avilez e Arthur Scovino, que dançam e dão as boas-vindas vestidos
de branco em frente à pequena igreja da ilha. A seguir, segue-se uma cena bastante
descontraída. As imagens mostram todos se movimentando em um terraço onde se
3409
abrigam da chuva, degustando frutas locais, se arrumando para as performances,
conversando excitados pela paisagem da ilha e ao mesmo tempo acuados diante da
força da chuva. O som local que embala a cena são canções de Gal Costa, sendo
tocadas em uma pequena vitrola. Ao final desta cena, vemos o rosto de um menino
habitante da ilha e aí começa um momento mais misterioso do vídeo.
Ao som da poderosa música Suite Negona“ de Loop B e Pedro Osmar, que
reúne sons de berimbau e ruídos eletrônicos, vemos primeiramente uma montagem
rítmica e acelerada que justapõe imagens de rendas de bilro e de raízes do mangue,
traçando uma analogia entre as tramas deste artefato da cultura local e a poderosa
força mítica da natureza baiana. Após essa sequência de imagens, surgem uma
série de performances realizadas na ilha por diferentes artistas e ao final é exibido o
desfile de trajes, no qual todos se integram de maneira coletiva e performática. Esta
parte do vídeo concentra as principais realizações artísticas do grupo na Ilha de
Maré e reúne simbolicamente suas intenções, trazendo elementos da cultura popular
unidos à arte contemporânea, relacionando natureza e cultura e trafegando entre a
elaboração criativa e a espontaneidade das relações afetivas entre os artistas e a
comunidade.
Figura 2 Cena do vídeo BTS em Retalhos Porto V Ilha de Maré
3410
O final do vídeo é marcado pela introdução de uma nova música, “O seu lado
de cá” de Nando Reis. A letra desta canção faz referências ao mar e às relações
humanas, trazendo de maneira poética alguns dos conteúdos da ação artística. A
música é entremeada por depoimentos das rendeiras, juntamente com os artistas,
representando a comunhão de saberes e o diálogo estabelecido. Ao final, vê-se a
despedida do grupo de artistas sendo levados de volta no mesmo barco em que
chegaram, porém transformados pelas vivências que tiveram na ilha. A última
imagem do vídeo, sobre a qual aparecem os créditos de produção retrata apenas o
mar e a areia, numa dança abstrata de formas que fazem e se desfazem. Esta
imagem, além de mostrar um elemento da paisagem natural do local, torna-se um
momento simbólico e meditativo do vídeo, que ao som da canção de Nando Reis
funciona como uma pausa reflexiva sobre o que acabamos de ver.
Figura 3 Cena do vídeo BTS em Retalhos Porto V Ilha de Maré
A realização destas ações do projeto BTS em retalhos, e suas posteriores
documentações em vídeos, fotografias e textos mostram-nos que o poder
transformador da arte não se esgota na realização de obras artísticas materializadas
em suportes físicos, mas encontra seus estágios de maior potência na interação
entre os indivíduos que se relacionam pela arte, nas reflexões que pode gerar e nos
3411
afetos que desperta, sensibilizando a todos. Por seu caráter multisensorial, unindo
sons, imagens e textos, além de sua capacidade de documentar ao mesmo tempo
em que instaura um modo poético, o vídeo se revelou um importante instrumento
para tentar traduzir um pouco das experiências vivenciadas durante as ações do
projeto BTS. Funcionando como repositório de lembranças, o vídeo ativa a memória
daqueles que estiveram presentes nas ações e ao mesmo tempo desperta emoções
naqueles que não puderam vivenciar estas ações presencialmente. Estas memórias
videográficas fazem-nos navegar entre o tempo presente e o passado, entre a
cultura e a natureza, entre o artesanal e o artístico, entre o popular e o erudito, entre
o íntimo e o coletivo, entre a terra firme e as ilhas de nosso imaginário flutuante,
buscando nos sensibilizar para sentimentos comunitários essenciais e profundos.
REFERÊNCIAS
GORDILHO,V. et al. Programa de pesquisa Baía de Todos os Santos: resposta à
complexidade das demandas por conhecimento. Rev. Virtual Quim, v. 4, n. 5, p. 497-516,
out. 2012. Disponível em: <http://www.uff.br/rvq>. Acesso em: 03 mai. 2013.
GORDILHO, V. et al. Ocultações e espelhamentos: processos criativos em oficinas
realizadas pelo Núcleo de Arte no Projeto BTS. Salvador: EDUFBA, 2011.
Hugo Fortes
Artista visual, Curador e Professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de
São Paulo ECA-USP. Pós-doutor pela FAU-USP, com doutorado em Artes Visuais pela
ECA-USP, com período sanduíche na Universität der Künste Berlin. Residiu de 2004 a 2006
em Berlim como bolsista DAAD. Como artista, já participou de exposições em cerca de 15
países. Em 2007 foi vencedor nacional do Prêmio CAPES de tese.
ResearchGate has not been able to resolve any citations for this publication.
Programa de pesquisa Baía de Todos os Santos: resposta à complexidade das demandas por conhecimento
  • V Gordilho
GORDILHO,V. et al. Programa de pesquisa Baía de Todos os Santos: resposta à complexidade das demandas por conhecimento. Rev. Virtual Quim, v. 4, n. 5, p. 497-516, out. 2012. Disponível em: <http://www.uff.br/rvq>. Acesso em: 03 mai. 2013.
Ocultações e espelhamentos: processos criativos em oficinas realizadas pelo Núcleo de Arte no Projeto BTS. Salvador: EDUFBA
  • V Gordilho
GORDILHO, V. et al. Ocultações e espelhamentos: processos criativos em oficinas realizadas pelo Núcleo de Arte no Projeto BTS. Salvador: EDUFBA, 2011. Hugo Fortes Artista visual, Curador e Professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo -ECA-USP. Pós-doutor pela FAU-USP, com doutorado em Artes Visuais pela ECA-USP, com período sanduíche na Universität der Künste Berlin. Residiu de 2004 a 2006
Como artista, já participou de exposições em cerca de 15 países
  • Daad Em Berlim Como Bolsista
em Berlim como bolsista DAAD. Como artista, já participou de exposições em cerca de 15 países. Em 2007 foi vencedor nacional do Prêmio CAPES de tese.