Reabilitação psicossocial: a perspectiva de profissionais de centros de atenção psicossocial do Rio Grande do Sul

Article (PDF Available)inTexto e Contexto Enfermagem 13(4) · December 2004with30 Reads
DOI: 10.1590/S0104-07072004000400009 · Source: DOAJ
Abstract
Esta investigación tuvo como objetivo describir la perspectiva de los profesionales de los Centros de Atención Psicosocial sobre la rehabilitación psicosocial. La metodología es de naturaleza cualitativa, realizada a través de 11 entrevistas semi-estructuradas con profesionales de nivel superior vinculados a 6 Centros de Atención Psicosocial de la región Sur del Rio Grande del Sur. Los resultados señalan que la rehabilitación psicosocial es visualizada como un proceso, la superación de la dicotomía salud/enfermedad, la inclusión de la familia, la interdisciplinaridad, la contratualidad, los valores profesionales como la responsabilidad, la ética, y el respeto a la dignidad del ser humano. Concluímos que la reabilitación psicosocial es un proceso en permanente construción de nuevas y permanentes plurales posibilidades de cuidado, así como, la existencia de un nexo entre el nuevo referencial teórico, aún incipiente, y una multiplicidad de prácticas en curso que superan la producción de un referencial brasileño de rehabilitación.
Texto Contexto Enferm 2004 Out-Dez; 13(4):568-76.
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Babinski T, Hirdes A
REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL: A PERSPECTIVA DE PROFISSIONAIS DE
CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL DO RIO GRANDE DO SUL
PSYCHOSOCIAL REABILITATION: THE PERSPECTIVE OF PROFESSIONALS INSIDE
PSYCHOSOCIAL ATTENTION CENTERS IN RIO GRANDE DO SUL
REHABILITACIÓN PSICO-SOCIAL: LA PERSPECTIVA DE PROFESIONALES DE CENTROS DE
ATENCIÓN PSICO-SOCIAL DE RIO GRANDE DEL SUR
Tatiane Babinski
1
, Alice Hirdes
2
1
Enfermeira do PSF Cruzeiro de São Lourenço do Oeste. Monografia apresentada com requisito à obtenção do título de enfermeiro.
2
Professora de Enfermagem Psiquiátrica da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Campus de Erechim.
Orientadora do estudo. Mestre em Enfermagem pela UFSC .
RESUMO: Esta pesquisa teve como objetivo descrever a perspectiva dos profissionais dos Centros
de Atenção Psicossocial sobre a reabilitação psicossocial. A metodologia é de natureza qualitativa,
realizada através de 11 entrevistas semi-estruturadas com profissionais de nível superior vinculados a
6 Centros de Atenção Psicossocial da região Sul do Rio Grande do Sul. O resultados apontam que a
reabilitação psicossocial é visualizada como um processo, a superação da dicotomia saúde/doença, a
inclusão da família, a interdisciplinaridade, a contratualidade, os valores profissionais como a respon-
sabilidade, a ética, e o respeito à dignidade do ser humano. Concluímos que a reabilitação psicossocial
é um processo em permanente construção de novas e sempre plurais possibilidades de cuidado, assim
como a existência de um hiato entre o novo referencial teórico, ainda incipiente, e uma multiplicidade
de práticas em curso que superam a produção de um referencial brasileiro de reabilitação.
PALAVRAS-CHAVE:
Apoio social.
Estresse emocional.
Saúde mental.
KEYWORDS:
Social support. Stress
psychological. Mental health.
ABSTRACT:This research aims to describe the perspective of professionals inside Psychosocial
Attention Centers in RS about psychosocial rehabilitation. Eleven semi-structured interviews were
performed with professionals at a university level linked to 6 CAPS from the south region of RS. The
results show that psychosocial rehabilitation is seen as a process; the importance of family, participation;
interdisciplinarity; the aims of the service; an integrality of actions and the quality of the service; and
professional values such as responsibility, ethics, flexibility, dignity, respect for the human being. We
concluded that psychosocial rehabilitation is a process in permanent construction-overcoming new
and always multiple possibilities of care, as well as the existence of a lack between the new theoretical
referential, still incipient, and a multiplicity of actions/practices in course, which overcome the
production of a Brazilian referential of rehabilitation.
PALABRAS CLAVE:
Apoyo social.
Estrés psicológico.
Salud mental.
RESUMEN: Esta investigación tuvo como objetivo describir la perspectiva de los profesionales de
los Centros de Atención Psicosocial sobre la rehabilitación psicosocial. La metodología es de naturaleza
cualitativa, realizada a través de 11 entrevistas semi-estructuradas con profesionales de nivel superior
vinculados a 6 Centros de Atención Psicosocial de la región Sur del Rio Grande del Sur. Los resulta-
dos señalan que la rehabilitación psicosocial es visualizada como un proceso, la superación de la
dicotomía salud/enfermedad, la inclusión de la familia, la interdisciplinaridad, la contratualidad, los
valores profesionales como la responsabilidad, la ética, y el respeto a la dignidad del ser humano.
Concluímos que la reabilitación psicosocial es un proceso en permanente construción de nuevas y
permanentes plurales posibilidades de cuidado, así como, la existencia de un nexo entre el nuevo
referencial teórico, aún incipiente, y una multiplicidad de prácticas en curso que superan la producción
de un referencial brasileño de rehabilitación.
Endereço:
Alice Hirdes
Rua Maranhão 653/21,
99700 000 - Erechim, RS
E-mail: aliceh@uri.com.br
Artigo original: Pesquisa
Recebido em: 15 de maio de 2004
Aprovação final: 23 de setembro de 2004
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Reabilitação psicossocial: a perspectiva de profissionais de centros de atenção psicossocial do RS
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INTRODUÇÃO
A reforma psiquiátrica introduziu no campo da
saúde mental novas abordagens ao sofrimento psíqui-
co no cuidado ao portador de transtorno mental. Den-
tre as novas tecnologias de cuidado aparece o conceito
de reabilitação psicossocial. Os serviços que trabalham
sob a égide da reforma psiquiátrica comumente
intitulam-se reabilitadores. No Brasil, apesar de estas
práticas serem realizadas no cotidiano dos serviços, não
existe um referencial brasileiro de reabilitação psicossocial
que subsidie as práticas nos serviços.
Desde a década de 80, a centralização ocorreu
em torno das discussões sobre o fim dos manicômi-
os, começando a se articular o paradigma da
desinstitucionalização em saúde mental. Desinstitucio-
nalizar compreende não somente desmontar o mani-
cômio, mas sobretudo, as práticas que secularmente
foram exercidas sobre o louco. Aos novos serviços,
deverão corresponder novas tecnologias de interven-
ção ao sofrimento humano. Reforma psiquiátrica e
reabilitação psicossocial não podem ser tomadas como
sinônimos: a primeira trata da reorganização estrutu-
ral dos serviços, enquanto que a reabilitação está focada
em como as pessoas funcionam e na busca de suporte
pessoal.
Existem muitos conceitos de reabilitação e estas
diferenças refletem os modelos filosóficos e técnicos
adotados. Na definição da International Association of
Psychosocial Rehabilitation Services seria o processo de fa-
cilitar ao indivíduo com limitações, a restauração, no
melhor nível possível de autonomia do exercício de
suas funções na comunidade. O processo enfatizaria
as partes mais sadias e a totalidade de potencialidades
do indivíduo, mediante uma abordagem compreensi-
va e um suporte vocacional, residencial, social,
recreacional, educacional, ajustadas às demandas sin-
gulares de cada indivíduo e a cada situação de modo
personalizado
1
.
O novo paradigma em saúde mental necessita
de profissionais comprometidos com uma nova abor-
dagem à doença mental. Em torno deste paradigma
estruturam-se conceitos como interdisciplinaridade/
transdisciplinaridade, projetos terapêuticos individua-
lizados, ruptura do paradigma clínico, noção de terri-
tório, práticas de Clínica Ampliada, o cuidado como
elemento-chave e a prática pautada na responsabilida-
de para com o portador de sofrimento psíquico. O
cuidado oferecido no campo da reforma, apesar da
existência de princípios para a organização de servi-
ços e valores profissionais, não é homogêneo. Exis-
tem várias clínicas atuando neste campo, assim como
contradições entre a teoria e a prática.
Enquanto os profissionais do primeiro mundo
construíram um referencial teórico importante em re-
lação à reabilitação psicossocial, as práticas implementa-
das no sul do mundo “são, na maior parte das vezes,
obtidas da pobreza de recursos institucionais e da ca-
pacidade de identificar e ativar os recursos escondi-
dos da comunidade”
2:104
. Entendemos que não po-
demos simplesmente importar um modelo, necessita-
mos construir um referencial balizador próprio, em
razão das características de nosso povo.
OBJETIVO
Esta pesquisa tem como objetivo descrever a
perspectiva dos profissionais dos Centros de Atenção
Psicossocial sobre a reabilitação psicossocial.
METODOLOGIA
Este estudo insere-se nos pressupostos dos
métodos qualitativos de investigação. A abordagem
qualitativa foi escolhida pelo fato de propiciar uma
maior visualização dos sentimentos, das ações, dos
valores e por facilitar a interação com os sujeitos. Em
virtude também da realidade social se manifestar de
formas mais qualitativas do que quantitativas
3
. Para
isto foi utilizada entrevista semi-estruturada, na qual os
protagonistas puderam discorrer sobre o problema
da investigação.
A pesquisa foi realizada em 6 Centros de Atenção
Psicossocial (CAPS) da região sul do Rio Grande do Sul.
Os CAPS são serviços municipais mantidos pela Secre-
taria da Saúde da Prefeitura. Prestam atendimento a paci-
entes com transtornos mentais severos e persistentes. Em
todos os serviços há uma equipe interdisciplinar que con-
ta com médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes so-
ciais e auxiliares de enfermagem, sendo que existem vo-
luntários das mais variadas áreas.
Os sujeitos deste estudo foram 11 profissionais,
dentre eles: enfermeiros, médicos, psicológos, assis-
tentes sociais e arteterapeutas. O trabalho de campo
foi realizado entre os meses de janeiro e fevereiro de
2003. Como critérios de delimitação dos sujeitos fo-
ram selecionados dois profissionais de nível superior
de cada CAPS, com no mínimo um ano de trabalho
na instituição.
Quanto à análise, foi percorrido o método pro-
posto por Minayo
4
: ordenação de dados, classificação
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de dados e análise final. A ordenação dos dados con-
siste na transcrição de fitas-cassete; releitura do mate-
rial; organização dos relatos em determinada ordem,
de acordo com a proposta analítica. A classificação
dos dados foi operacionalizada através da leitura exaus-
tiva e repetida dos textos. Através deste exercício fez-
se a apreensão das “estruturas de relevância” a partir
das falas dos sujeitos do estudo.
A análise final permitiu fazer uma reflexão so-
bre o material empírico e o analítico, num movimento
incessante que se elevou do empírico para o teórico e
vice-versa. Esta “dança” que promove relações entre
o teórico e o empírico, o concreto e o abstrato, o
geral e o particular, a teoria e a prática é o verdadeiro
movimento dialético visando ao concreto pensado.
Entende-se que o produto final é sempre provisório e
condicionado pelo momento histórico, pelo desen-
volvimento científico, por sua pertinência a uma classe
social e pela capacidade de objetivação
4
.
Os entrevistados encontram-se identificados no
texto pela letra “A” e o número da entrevista (exem-
plo: A1, A 2....). Foram respeitados os aspectos éticos
referentes à pesquisa com seres humanos
5
e obteve-se
parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa.
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
A principal área temática que emergiu das estru-
turas de relevância extraídas das falas dos participan-
tes desta pesquisa foi : 1) Reabilitação psicossocial como
processo. Esta, por sua vez, deu origem às seguintes
subáreas: A.1) Revendo saberes: superação da
dicotomia saúde/doença; A.2) Contratualidade no
processo de reabilitação psicossocial; A.3) Autonomia
e participação; A.4) O trabalho como forma de rea-
bilitar; 2) Objetivos e princípios norteadores das prá-
ticas em curso; 3) Participação familiar e comunitária
no processo de reabilitação psicossocial; 4) Trabalho
interdisciplinar: uma necessidade concreta na efetivação
dos serviços.
Reabilitação psicossocial como processo
Os sujeitos trazem em suas narrativas a idéia de
Reabilitação Psicossocial como um processo amplo e
complexo que busca transformar a concepção e a as-
sistência em saúde mental.
Reabilitação Psicossocial é um processo terapêutico,
de tratamento que exige uma série de cuidados, especialmente
um tipo de relação muito próxima, muito íntima em certo
aspecto com as pessoas que estão isoladas, que estão sofrendo
as conseqüências dos transtornos mentais, conseqüência da
própria dificuldade da família de compreendê-los, da própria
dificuldade da sociedade de aceitá-los, tanto no convívio, como
para empregos, quanto na imagem que eles tem à sociedade
(A1).
A reabilitação é um processo de reconstrução,
um exercício pleno da cidadania e também de plena
contratualidade nos três grandes cenários: habitat, rede
social e trabalho com valor social
2
.
[...] é um processo muitas vezes permanente, e de cons-
trução, de construção de coisas que a pessoa precisa recon-
quistar, ir reconquistando a cada dia [...] (A2).
O autor preconiza as variáveis que influenciam
nos resultados da reabilitação, ressaltando de um lado
o vínculo, a afetividade, o compromisso, a relação entre
usuário e profissional e de outro lado o método, como
estão disponibilizados e estruturados os serviços de
saúde mental.
Enfatizamos a necessidade e a disponibilidade
de os profissionais estarem atentos e abertos ao
florescimento de um outro saber. Este deve ser carac-
terizado pela valorização do sujeito e sua singularida-
de, sua história, sua vida cotidiana. Há desta forma,
um deslocamento da doença para a pessoa doente, o
resgate de aspectos positivos, dos pontos fortes, ou
seja, o modelo deixa de ser o do dano, da doença e
passa a ser o da reconstrução de vida.
Reabilitação, tomada desta maneira, consiste em
oferecer todas as possibilidades de tratamento que
estejam disponíveis, chega-se onde o paciente quer
chegar e não onde a equipe de cuidados previamente
estabelece
6
. A reabilitação psicossocial pode ser enten-
dida como um tratado ético-estético que anime os
projetos terapêuticos para buscarmos alcançar a uto-
pia de uma sociedade justa e sem manicômios
7
.
Entendemos que a reabilitação psicossocial é um
processo de transformação, de reconstrução, de
reinserção, de mudança, no sentido de criar alternati-
vas que venham transformar a forma de atenção e de
cuidado destinada ao portador de sofrimento psíqui-
co e que visem à devolução de identidade e cidadania.
No entanto, para este processo tornar-se concreto e
efetivo, faz-se necessária uma contínua avaliação, a fim
de não incorrermos no erro de reproduzir as mesmas
práticas do modelo hospitalocêntrico.
Ressaltamos que a reabilitação psicossocial traz
em sua essência o dinamismo que dá significado a este
processo e que, portanto, deve ser construído e
reconstruído quantas vezes forem necessárias, até que
possa encontrar-se com o objetivo maior, que é a par-
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ticipação do sujeito no seu tratamento e na sua reabi-
litação, tornando-se desta maneira protagonista da sua
própria história.
Revendo saberes: superação da dicotomia
saúde/doença
A reabilitação psicossocial é mencionada ain-
da como um processo que vem modificar a dicotomia
saúde/doença.
A reabilitação psicossocial teoricamente é um proces-
so, dá para te dizer que é novo, onde a gente inverte a forma
de atenção à saúde mental [...] a Reabilitação Psicossocial
vem transformar a perspectiva de saúde/doença onde a gente
busca resgatar a saúde mental ao invés de simplesmente tra-
tar a doença mental. Muda a questão da relação saúde/
doença, a gente vai trabalhar com a saúde mental deles,
resgatar o que tem de saudável nesta pessoa, buscando resta-
belecer os laços comunitários, familiares, sociais desta pessoa
(A5).
No passado a reabilitação era considerada so-
mente após o término do tratamento
8
, ou ainda con-
siderada como uma alternativa quando o tratamento
falhava. Hoje muitos programas de reabilitação se uti-
lizam de técnicas de tratamento ao invés da tecnologia
da reabilitação, que em muitos locais a principal mo-
dalidade de ajuda é a combinação de farmacoterapia
e terapia individual ou em grupos, também que os
profissionais dos serviços são selecionados para o trei-
namento de técnicas terapêuticas e não para a habili-
dade da tecnologia da reabilitação psicossocial. Entre
as diferenças estabelecidas, a principal missão da rea-
bilitação é promover o funcionamento e satisfação em
ambientes específicos, enquanto que o tratamento está
focado na redução de sintomas, na “cura”.
Para um paciente com diminuição da capaci-
dade decorrente de sua doença é bastante delicado e
difícil estabelecer laços com pessoas diferentes e luga-
res desconhecidos, muitas vezes é assim que se apre-
sentam os locais e profissionais responsáveis pelo tra-
tamento. Neste sentido, uma vez que se consiga um
vínculo em uma instituição, este deve ser mantido e os
procedimentos de tratamento/reabilitação devem
ocorrer no mesmo lugar e com a mesma equipe. “Tra-
tar e reabilitar são perspectivas indissociáveis, para se
reabilitar um paciente é preciso oferecer continuamente
tratamento”
6: 45
.
De nada adiantariam as intervenções extramu-
ros, se estas apenas transpusessem as práticas tão con-
denadas das instituições asilares. Os profissionais de-
vem caminhar e guiar-se pelo que a reforma psiquiá-
trica traz em seu bojo, mantendo o senso crítico e
buscando a constante superação, visando sempre à
qualidade do serviço e ao atendimento centralizado
na saúde do indivíduo.
Contratualidade no processo de reabilitação
Psicossocial
O processo de reabilitação psicossocial implica
variáveis a serem trabalhadas, como casa (habitar); tra-
balho e relações sociais. Estas variáveis envolvem con-
textos micro e macros sociais, como retrata a seguinte
fala:
[...]reabilitação psicossocial é um conjunto de medidas
e ações que são instituídas, que são compartilhadas dentro de
um Centro de Atenção Psicossocial que visa uma melhoria
das condições de vida, de relação entre as pessoas portadoras
de sofrimento psíquico sua família e também dentro da co-
munidade, é um resgate, mais que um resgate das questões
referentes aos portadores de sofrimento psíquico, é um resgate
da cidadania, é o momento de efetuar trocas, entre outras
coisas (A10).
A reabilitação é entendida como um processo
que implica a abertura de espaços de negociação para
o paciente, para sua família, para a comunidade
circundante e para os serviços que se ocupam do pa-
ciente; a dinâmica da negociação é contínua e não pode
ser codificada de uma vez por todas, já que os atores
(e os poderes) em jogo são muitos e reciprocamente
multiplicantes
2
.
Entendemos que fortalecer o poder contratual
do usuário seja uma das maiores e mais difíceis tarefas
dos reabilitadores. Sustentamos que se o serviço não
conseguir criar possibilidades para efetuação de tro-
cas, estará fadado ao insucesso, pois criou uma con-
cepção errônea do que é reabilitar. Estará apenas fa-
zendo o que o hospital psiquiátrico faz com o porta-
dor de sofrimento psíquico, institucionalizando a pes-
soa, cronificando-a e mantendo-a dentro, pois as por-
tas abertas de um CAPS são sinônimo de liberdade,
de autonomia e de participação comunitária. Faz-se
necessária a informação para ampliar a oferta de es-
colhas, o incentivo a caminhar com as próprias per-
nas, a ruptura do institucionalismo.
A convivência como cidadão na sociedade não
é o único atributo desejável, mas a convivência des-
provida de preconceitos que residem nos portadores
de sofrimento psíquico, ainda nos dias de hoje, apare-
ce como um ideal a ser conquistado. A conquista des-
te ideal passa por várias instâncias, legislativas, políti-
cas, de organização dos serviços. Entretanto, a
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desmitificação da loucura deve ser pensada não só em
termos macros, mas a partir de movimentos, de ações
que são desenvolvidas no plano micro, é aí que se ins-
talam as mudanças mais significativas na vida dos por-
tadores de sofrimento psíquico
9
.
Visualizamos a preocupação dos profissionais
em relação ao empobrecimento da contratualidade dos
sujeitos, seja ele em termos individuais, familiares ou
comunitários, por isso faz-se necessária a criação de
mecanismos que possibilitem a emancipação e supe-
ração de preconceitos, que muitas vezes encontram-se
impregnados no próprio usuário, no familiar e até
mesmo nos profissionais. São estes os muros ou bar-
reiras que devem ser rompidos para que possa acon-
tecer a reabilitação.
Autonomia e participação
A reabilitação também está associada a um pro-
cesso que visa devolver habilidades perdidas, devol-
ver a autonomia do sujeito.
Acredito que Reabilitação Psicossocial é um conjunto,
é um processo que visa reinserir o usuário de saúde mental
tanto na família como na sociedade, buscando a sua autono-
mia, a sua cidadania e o seu respeito (A7).
Reabilitar pode ser entendido como um pro-
cesso de restituição contratual do usuário, com vistas a
ampliar a sua autonomia
10
. A contratualidade do usu-
ário, primeiramente vai estar determinada pela relação
estabelecida com os próprios profissionais que o aten-
dem, se estes podem usar de seu poder para aumen-
tar o poder do usuário ou não. Depois pela capacida-
de de elaborar projetos, isto é, práticas que modifi-
quem as condições concretas de vida, de modo a que
a subjetividade do usuário possa enriquecer-se, assim
como, para que as abordagens terapêuticas específicas
possam contextualizar-se.
A autonomia passa a ser entendida como a capa-
cidade de um indivíduo gerar normas, ordens para a
sua vida, conforme as diversas situações que enfrente.
Vejo assim que é um resgate, é restituir as condições
internas e externas das potencialidades do indivíduo, para
ele ocupar o espaço que lhe compete como sujeito na busca da
autonomia perdida pela dependência e limitação imposta da
forma que nós vimos, pela exclusão (A4).
Entretanto, não se trata de confundir autono-
mia com auto-suficiência nem com independência.
Dependentes somos todos nós, a questão dos usuári-
os é antes uma questão quantitativa: depende excessi-
vamente apenas de poucas relações/coisas. Esta situa-
ção de dependência restrita/restritiva é que diminui a
sua autonomia. “Somos mais autônomos quanto mais
dependentes de tantas mais coisas pudermos ser, pois
isto amplia as nossas possibilidades de estabelecer no-
vas formas, novos ordenamentos para a vida”
10:57
.
Só não podemos cair no mito da autonomia,
que é o maior responsável pela hiperseleção dos paci-
entes nos programas de reabilitação e do complemen-
tar abandono dos pacientes não selecionados. De fato,
e uma vez mais, a psiquiatria é um autocosmo onde se
auto reproduz a cultura dominante, “os mais dotados
conseguem, e então se selecionam aqueles que prova-
velmente são os mais bem dotados a fim de que con-
sigam; por outro lado, os menos dotados não conse-
guem então é anti-econômico selecioná-los”
2: 113
.
Temos observado em nossa experiência profis-
sional, uma certa tendência dos profissionais a explo-
rarem as habilidades dos ditos “mais fortes”, por sim-
bolizar ser menos frustrante e trazer resultados mais
visíveis, mais palpáveis, o que faz com que os “ditos
mais fracos”, que já têm grandes problemas em efetu-
ar trocas, estabelecer vínculos, entrem em uma escala
abaixo. Assim, projetamos que de uma maneira uni-
forme, porém singular, devemos definir eixos a se-
rem trabalhados junto com os usuários visando à cons-
trução da capacidade contratual de cada pessoa.
O trabalho como forma de reabilitar
A fala seguinte traz à tona a questão do traba-
lho como forma de valorização do ser humano:
[...]
fazer com que a pessoa saia daqui e tenha uma
maneira de investir, de produzir trabalhos, assim que eu
acredito que ele vá se reabilitar também, esta é só uma parte
do trabalho, fazer com que ele retorne a sociedade, podendo
ser produtivo (A6).
Apostar no usuário significa acreditar nas suas
potencialidades para mudanças, tanto de padrões
como de comportamento, adquirindo ou readquirindo
habilidades que lhe permitam conviver e interagir em
sociedade. Este conviver e interagir pode se dar de
várias formas, como a inserção real no mercado de
trabalho, mas também pelo mínimo gerenciamento
dos cuidados pessoais, do tratamento, do ambiente e
das suas relações interpessoais
9
.
Entendemos que a inserção do portador de so-
frimento psíquico no meio laborativo é uma alternati-
va extremamente importante no processo de reabili-
tação, desde que o desejo do usuário seja trabalhar ou
voltar a trabalhar. Neste contexto, vale ressaltar a ca-
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pacidade do profissional de discernir e construir cole-
tivamente com o usuário um plano terapêutico, no
qual o trabalho possa estar incluso ou não. Estas ações
individualizam o cuidado e propiciam a criação de
um espaço terapêutico, onde são respeitadas as esco-
lhas e decisões dos usuários, remetendo-os à condi-
ção de protagonistas de suas vidas.
O trabalho para os pacientes gravemente
desabilitados, se entendido como simples desenvol-
ver de determinadas tarefas, pode ser na realidade uma
forma ulterior de norma e contenção, de restrição do
campo existencial. O trabalho, entendido como inser-
ção laborativa, pode, ao invés disso, promover um
processo de articulação do campo dos interesses, das
necessidades, dos desejos
4
.
Reabilitar é buscar proporcionar a independência de-
les, que eles passem só um tempo aqui, que isto realmente seja
uma casa de passagem, que quem trabalha que continue tra-
balhando que consegue trabalhar, desde que esteja medicado,
que tenha acompanhamento da família e que tenham acom-
panhamento da equipe do CAPS, dá para trabalhar, dá
para produzir (A3).
A questão é o quanto o trabalho pode ser um
meio de sustento e o quanto é um meio de auto-reali-
zação. E isto está relacionado com o sentido e com o
valor que uma sociedade atribui ao trabalho e de quanto
o trabalho é componente de um projeto para o indi-
víduo. O trabalho é visto como um instrumento de
reabilitação diretamente relacionado à cura e posteri-
ormente como um indicador do êxito da cura, por-
tanto, algo que é tido como padrão de normalidade
ou de volta à normalidade
2
.
O grande desafio imposto para a desmitificação
e aceitação dos portadores de sofrimento psíquico
serem aceitos no mercado de trabalho deverá ser tra-
vado com a sociedade. Fazer perceber que além da
doença existe uma pessoa que é cidadã e que tem pos-
sibilidades e direitos que lhe foram negados ao longo
da história institucional. Fazê-los tornarem-se empre-
endedores e sujeitos da própria história deverá se cons-
tituir, por excelência, num compromisso primordial
assumido pelos reabilitadores
9
.
Pensamos que o trabalho possa ser uma alterna-
tiva no processo de reabilitação quando este supere o
simples fato de manter o paciente entretido, ocupado,
e o faça sentir-se capaz, útil, importante e lhe propor-
cione auto-realização e produção de vida. O estabele-
cimento do diferencial entre vida produtiva e produ-
ção de vida deve ser considerado. O primeiro remete
ao fazer algo, enquanto o segundo confere valor à vida.
Objetivos e princípios norteadores das práti-
cas em curso
Os profissionais colocam que existem determi-
nados métodos que devem estar inclusos nos objeti-
vos e princípios da reabilitação. No entanto, não exis-
tem modelos criados ou, ainda, protocolos para se-
rem seguidos. Portanto, há a concreta necessidade de
fornecer um tipo individualizado de cuidado e atendi-
mento, que vise trabalhar e desenvolver as
potencialidades junto com o usuário, mas que tam-
bém vise restaurar o melhor nível possível de autono-
mia e participação comunitária às pessoas que têm
uma desabilidade.
Estas ações fazem com que o serviço se torne
efetivo e resoluto por criar alternativas conjuntas com
os maiores interessados neste processo, que são os
usuários.
[...]então os objetivos são proporcionar um cuidado
mais integral, não é só o atendimento tradicional individual,
distante, onde você olha para a pessoa você vê sintomas de
doença e se procura combater aqueles sintomas, então se ava-
lia muito mais completamente, se avalia a família da pessoa,
o local, a comunidade onde vive, as coisas que ela traz da sua
história, as suas aptidões, as suas limitações, aí de uma
maneira específica para cada pessoa, então se busca valori-
zar as coisas boas e estimular para que as dificuldades pos-
sam ser transcendidas em certo nível, a reabilitação é para
que se possa proporcionar um atendimento mais integral (A1).
Os objetivos da reabilitação psicossocial devem
coincidir com os objetivos dos serviços que executam
a reabilitação. Objetivos são diretrizes para os servi-
ços andarem de mãos dadas com os valores da reabi-
litação psicossocial. A combinação de objetivos e va-
lores de ajuda determinam os princípios orientadores
dos serviços
1
. Os objetivos da reabilitação psicossocial
correspondem aos objetivos dos serviços, e estes são
designados para ajudar pessoas com doença mental
severa a alcançar recuperação, atingir a máxima
integração comunitária e a mais alta possibilidade de
qualidade de vida.
Os valores estipulados para os profissionais são
os seguintes e estão associados com os objetivos da
reabilitação psicossocial: o profissional de reabilitação
psiquiátrica acredita que todas as pessoas têm o direi-
to de autodeterminação, incluindo a participação em
todas as decisões que afetam as suas vidas; acredita na
dignidade e valor de todos os seres humanos, inde-
pendente do grau de impairment, disability ou handicap; é
otimista em relação ao melhoramento e eventual re-
cuperação de pessoas com doença mental severa que
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Babinski T, Hirdes A
estão sob os seus cuidados; assume que todas as pes-
soas têm capacidade de aprender e crescer; é sensível
no respeito individual, cultural e diferenças étnicas de
cada consumidor
1
.
[...] eu acho que em termos de valores são estes, o respeito
é que vai puxar todos os outros, solidariedade, integralidade das
ações, justiça que a gente consiga ser o mais justo possível nos
casos que estamos atendendo, e que tudo isto junto com as técnicas
de cada uma das profissões e o próprio trabalho que a família e
o usuário vão estar fazendo é o que acaba construindo a reabili-
tação (A3). Responsabilidade, seriedade, lealdade aos princípios
éticos e de respeito à dignidade e integridade de todos que nos são
confiados (A4).
Substituir um olhar pessimista por um olhar
aberto possibilita a inclusão de um universo de alter-
nativas e possibilidades, abrindo um novo campo de
visão para a diversidade de necessidades e métodos
de resolução e a inclusão da participação da família,
desinstitucionaliza a equipe, aumenta o grau de partici-
pação comunitária, passando a comunidade de mera
doadora à interlocutora e cooperadora
11
.
A perspectiva de tratamento/reabilitação tem
como objetivo proporcionar que atinjam índices cada
vez mais altos de gerenciamento de suas vidas, possi-
bilidades sempre maiores de autonomia, aumentar-
lhes a capacidade de escolha. Um paciente com auto-
nomia baixa vai necessitar muito investimento
institucional, pode exigir quase todos os dispositivos
do serviço, pode precisar ir todos os dias à instituição,
participar de grupos, receber visitas domiciliares, acom-
panhamento terapêutico individual e outros. Já um
paciente com autonomia alta, mas com problemática
intermitente, pode manter-se com medicação e tera-
pia grupal. Não faria sentido ele freqüentar diariamente
a instituição, pois consegue ter um grande desempe-
nho na rede social
6
.
Participação familiar e comunitária no pro-
cesso de reabilitação psicossocial.
Os profissionais entendem como imprescindí-
vel a participação da família no processo de reabilita-
ção. No paradigma antigo, centrado no hospital psi-
quiátrico, a família era alijada e culpabilizada pela do-
ença. A restrição às visitas nas primeiras semanas vem
corroborar a culpa da família. Atualmente, visualiza-
se concretamente a necessidade de inserção familiar
no processo de reabilitação e tratamento e é nesta pers-
pectiva que os novos serviços devem funcionar.
[...] a participação da família é imprescindível neste tra-
balho de reabilitação psicossocial, ou seja, ele vai aprender um
novo ofício, ele vai ter a socialização com os iguais, ele vai tentar
dentro de suas possibilidades aprender um novo oficio e a família
sempre ao lado, e sendo trabalhada a família, porque é muito
complicado para família, então o CAPS tem que estender o seu
trabalho do individuo até a sua família, o seu meio” (A2).
A doença não reside isolada e culpabilizante
dentro do sujeito, mas na interação existente entre ela
e os membros da família. Portanto, a família também
é objeto da terapia e o propósito da terapia é restabe-
lecer os laços comunicativos que estão prejudicados
ou inexistentes. A família pode ser protagonista das
estratégias de cuidado e reabilitação, e a comunidade
não se separa deste contexto, e é considerada recurso
potencial de um serviço, no sentido de produção de
contratualidade e bem-estar
2
.
Os proponentes de serviços de saúde mental
comunitária têm alertado para a expansão dos servi-
ços à família como uma prioridade essencial. As abor-
dagens às famílias, consistentes com a reabilitação, pro-
vêem informações e aumentam a capacidade para re-
solver situações problemáticas
8
.
[...] então a família tem que ser incluída neste tratamento
e uma das formas de se incluir a família são as assembléias
periódicas dos familiares dos pacientes para ele ter um acompa-
nhamento do que está sendo feito, porque de repente tu faz uma
arte-terapia aqui, ela pode ser comprometida na própria família,
pois não é estimulada, é excluída da participação da família,
então ela tem que ser integrada também na família (A5).
Pensamos que o envolvimento familiar é essen-
cial no processo de reabilitação, pelo prolongamento
e continuidade que este processo significa, isto é, a re-
abilitação deve acontecer dentro e fora dos serviços.
Para que isto ocorra, a família precisa dar suporte a
esta pessoa, fazendo a ponte entre o meio social e o
serviço, subsidiando as intervenções num ambiente de
afetividade e credibilidade. Assim, a família torna-se
também protagonista nesta busca de caminhos inter-
rompidos pela doença e passa a construir junto com
o seu ente, novas perspectivas de vida.
Trabalho interdisciplinar: uma necessidade
concreta na efetivação dos serviços
Os profissionais entrevistados enfatizam a rele-
vância da interdisciplinaridade na efetuação dos traba-
lhos desenvolvidos dentro dos CAPS.
[...] e ter a noção de equipe, mais que multidisciplinar, ir
além, buscar a interdisciplinaridade, porque do contrário o tra-
balho não terá resultados favoráveis (A8).
A integração da equipe é uma das muitas variá-
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Reabilitação psicossocial: a perspectiva de profissionais de centros de atenção psicossocial do RS
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veis responsáveis pela enfermidade ou eficácia de um
serviço. Estas variáveis estão ligadas à organização e
ao método de trabalho da equipe e, portanto, podem
ser favoráveis ou desfavoráveis às intervenções reali-
zadas. Dentre as variáveis favoráveis para uma equipe
estão as seguintes características: distribuição do po-
der, importância do conhecimento, comunicação cla-
ra e não contraditória, discussão e planificação do tra-
balho, socialização dos conhecimentos, autocrítica e
avaliação periódica dos resultados
2
.
Serviços autoritários operam relações autoritá-
rias em todos os níveis hierárquicos de relações, nin-
guém escapa à relação de obediência que o autorita-
rismo impõe, sendo que a maior quota de obediência
cabe à parte mais fraca desta pirâmide de poder, en-
quanto serviços democráticos e respeitadores valem-
se do significado da palavra direito e trabalham bem
não só com os usuários, mas com todas as instâncias
associadas a este processo
11
.
Não é a redefinição da instituição em termos
estruturais, através de novos esquemas, que garantirá
que as ações serão terapêuticas, mas sim as relações
que se estabelecerão dentro das novas organizações
assistenciais
12
.
Característica fundamental, a interdisciplinaridade,
nós achamos que para que um trabalho destes tenha frutos é
necessário que os profissionais gostem de trabalhar com pes-
soas e se respeitem mutuamente, então há um desejo de todos
em prol de um trabalho maior e se hoje nós temos resultados
satisfatórios no trabalho é devido a todo um trabalho de
equipe onde nenhum ou outro profissional é mais importante
e sim, todos ( A10).
O primado da interdisciplinaridade constitui
campo complexo e difuso, saturado de história, por
definição atravessado pelas ambigüidades da subjeti-
vidade, onde é impossível seu manejo por um saber
aplicado ou por uma série de saberes aplicados,
compartimentando uma totalidade. Saúde mental de-
nomina campo de práticas e um processo vital carac-
terizado por estados do ser e que apresenta hierarqui-
as externas e internas de determinação, mas não se
reduz a qualquer dos seus elementos, o biológico, o
social e o psicológico, os quais não podem ser frag-
mentados, mas entendidos como um todo
13
.
Entre as características de um bom serviço es-
tão a flexibilidade e a diversificação, a partir da crítica
ao serviço como produtor de uma oferta fechada à
qual o paciente deve se adaptar sob pena de expulsão.
Aquilo que deve interessar, quando se avalia um servi-
ço, não é tanto o numerador, ou seja, o número de
pacientes, mas sim o denominador, constituído dos
pacientes que se pode servir
2
.
O bom serviço é, portanto, aquele que possui
uma alta integração interna e externa, ou seja, onde a
permeabilidade dos saberes e dos recursos prevalece
à separação dos mesmos, o que se reflete em saltos
qualitativos na assistência
2
.
É preciso capacidade de diálogo, porque se trabalha
em equipe, é preciso flexibilidade, não adianta saber muitas
técnicas e não saber individualizar, não saber improvisar,
não saber conviver com as pessoas [...] então esta flexibili-
dade é fundamental, acho que uma boa capacitação técnica
também é importante (A1).
A integração interna do serviço significa a ado-
ção de um estilo de trabalho com alto consumo afetivo,
intelectual, e organizativo no qual os recursos se en-
contram permanentemente disponíveis, as competên-
cias flexíveis e a organização orientada às necessidades
do paciente e não às do serviço. A integração externa
refere-se à forte permeabilização do serviço a saberes
e recursos circundantes a estes existentes e não vistos,
tampouco utilizados. O muro do manicômio a ser
demolido é qualquer muro que impeça ver e usar ou-
tros saberes e outros recursos
2
.
Relações são pedagogicamente importantes e
promovem mudanças quanto a qualificação dos méto-
dos de se relacionar. Ser cuidadoso em cada momento
de interação, não discriminando nem excluindo, mas
sim, respeitando cada encontro que aconteça, pode sig-
nificar renovação do compromisso de cuidado mútuo
e prenunciar um futuro melhor do que o presente
11
.
Propõem-se a sistematização do cuidado em
saúde mental fundamentada conceitualmente no
referencial da reforma psiquiátrica e da reabilitação
psicossocial e metodologicamente no Processo de
Enfermagem de Irving
14
. Esta proposta de trabalho é
apropriada a equipes interdisciplinares e/ou transdis-
ciplinares e guarda correlação com o processo de tra-
balho desenvolvido pelo Centro de Reabilitação da
cidade de Boston.
Neste contexto, percebemos na equipe, demons-
trações de busca de interações mais efetivas como, por
exemplo, a tomada de decisões em conjunto através
de reuniões e a pronta disponibilidade dos participan-
tes de contribuírem para avaliação e intervenção nas
diferentes situações que se apresentam no cotidiano
de um serviço de saúde mental.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O interesse desta pesquisa, verificar se as práti-
cas dos profissionais que atuam nos novos dispositi-
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Babinski T, Hirdes A
vos de cuidado são condizentes com o paradigma da
reabilitação psicossocial, mostrou-nos uma ampliação
do campo que transcende a construção de um
referencial “brasileiro” na área. O trabalho evidenciou
que este é um processo construído cotidiana e coleti-
vamente – profissionais, usuários e familiares. A reabi-
litação é visualizada como um processo de constru-
ção de possibilidades de vida aos portadores de sofri-
mento psíquico.
Os resultados mostram a ruptura do paradigma
clínico, biomédico, problema/solução (doença/saú-
de), assim como a centralização das ações na saúde
aparece como um diferencial importante. Outro fator
importante no discurso dos entrevistados é a inclusão
da família na reabilitação e tratamento dos sujeitos,
tornando-a protagonista deste processo, o que é uma
característica positiva que qualifica e dá vida ao servi-
ço. A não-dissociação tratamento/reabilitação propor-
ciona abordagens terapêuticas que possibilitam ao usu-
ário atingir patamares cada vez mais altos de
gerenciamento de suas vidas.
A interdisciplinaridade emerge como ponto-cha-
ve para a efetivação e resolutividade dos serviços, os
profissionais destacam a importância de jamais per-
der de vista a noção de conjunto, pois esta facilita o
trabalho e possibilita ao longo do processo aumentar
o grau de autonomia dos sujeitos. Podemos visualizar
que os profissionais têm como valores o respeito à
dignidade de cada pessoa, a ética e a integralidade das
ações. Além destes, foram identificados a liberdade e
a determinação como valores maiores, articulados nos
princípios dos profissionais. Estes valores levam-os a
assumir a identidade de verdadeiros reabilitadores, na
contrução de pontes que possibilitem saltos qualitati-
vos na assistência prestada. Importante se faz salientar
que os valores devem transcender as categorias pro-
fissionais, ou seja, o escopo destes valores deverá estar
imbutido nos princípios da organização dos serviços.
REFERÊNCIAS
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London: Academic Express; 1999.
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psicossocial à cidadania possível. Rio de Janeiro: Instituto
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qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec/Abrasco; 2000.
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outubro de 1996. Dispõe sobre as diretrizes e normas
regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos.
Brasília: O Conselho;1996.
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psicossocial - CAPS. In: Pitta A, organizadora. Reabilitação
psicossocial no Brasil. São Paulo: Hucitec; 2001. p.33-47.
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2001.
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Boston: Arcata Graphics; 1992.
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In: Pitta A, organizadora. Reabilitação psicossocial no
Brasil. São Paulo: Hucitec; 2001. p. 55-59.
11 Harari A, Valentini W, organizadores. A reforma psiquiátrica
no cotidiano. São Paulo: Hucitec; 2001.
12 Basaglia F. A instituição negada: relato de um hospital
psiquiátrico. Rio de Janeiro: Edições Graal; 1985.
13 Sampaio JJC, Barroso CMC. Centros de Atenção
Psicossocial e equipes de Saúde da Família: diretrizes e
experiências no Ceará. In: Lancetti A, organizador.
SaúdeLoucura, 2
a
ed. São Paulo: Hucitec; 2001. p 199-220.
14 Hirdes A, Kantorski LP. Sistematização do cuidado em
enfermagem psiquiátrica. Texto Contexto Enferm 2000
Maio-Ago; 9 (2):94-105.
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