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Os insectos e os fungos, embora sendo organismos muito distintos, não podem ser considerados separadamente em termos da interactividade e de efeitos que causam nos hospedeiros: as associações que se estabelecem entre uns e outros, concorrendo para a dispersão e sobrevivência, conduzem também a sinergias que agudizam o desequilíbrio fisiológico das árvores e aceleram a sua morte. Grande parte dos agentes patogénicos com maior impacte económico em povoamentos florestais é transmitida por insectos, sendo bem conhecidos os casos de escolitídeos e platipodídeos na dispersão de fungos extremamente gravosos para os ecossistemas florestais: é o caso dos insectos Tomicus piniperda, Ips sexdentatus e Orthotomicus erosus em pinheiro bravo e Platypus cylindrus em montado de sobro. Na simbiose entre insectos e fungos, os insectos beneficiam de estratégias mais eficazes na colonização do hospedeiro, contribuindo para o seu declínio, de fonte de alimento e da criação dum ambiente favorável ao bom desenvolvimento larvar. Sendo transportados pelos insectos, os fungos encontram um eficiente mecanismo de disseminação e de inoculação directa em hospedeiros favoráveis. As associações já encontradas põem em evidência a existência de interacções muito complexas e envolvendo uma grande diversidade de fungos cujas funções individuais não estão nalguns casos ainda claramente identificadas. Com este estudo pretende-se fazer uma síntese destas associações focando fundamentalmente a aquisição de dados sobre a biodiversidade da micoflora associada ao P. cylindrus, galerias e material vegetal; avaliação das funções específicas de cada fungo na sobrevivência dos insectos e efeitos no hospedeiro; avaliação da eficácia dos mecanismos de transporte das populações fúngicas (sobretudo fungos patogénicos) pelos vectores.
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AS RELAÇÕES MUTUALISTAS ENTRE FUNGOS E INSECTOS: SUA
INFLUÊNCIA NO ESTADO SANITÁRIO DA FLORESTA EM PORTUGAL
INÁCIO, M. L.; Henriques, J.; Sousa, E.
Estação Florestal Nacional, Depto de Protecção Florestal, Quinta do Marquês, 2780-159 OEIRAS.
Os insectos e os fungos, embora sendo organismos muito distintos, não podem ser
considerados separadamente em termos da interactividade e de efeitos que causam nos
hospedeiros: as associações que se estabelecem entre uns e outros, concorrendo para a
dispersão e sobrevivência, conduzem também a sinergias que agudizam o desequilíbrio
fisiológico das árvores e aceleram a sua morte. Grande parte dos agentes patogénicos
com maior impacte económico em povoamentos florestais é transmitida por insectos,
sendo bem conhecidos os casos de escolitídeos e platipodídeos na dispersão de fungos
extremamente gravosos para os ecossistemas florestais: é o caso dos insectos Tomicus
piniperda, Ips sexdentatus e Orthotomicus erosus em pinheiro bravo e Platypus
cylindrus em montado de sobro.
Na simbiose entre insectos e fungos, os insectos beneficiam de estratégias mais eficazes
na colonização do hospedeiro, contribuindo para o seu declínio, de fonte de alimento e
da criação dum ambiente favorável ao bom desenvolvimento larvar. Sendo
transportados pelos insectos, os fungos encontram um eficiente mecanismo de
disseminação e de inoculação directa em hospedeiros favoráveis.
As associações já encontradas põem em evidência a existência de interacções muito
complexas e envolvendo uma grande diversidade de fungos cujas funções individuais
não estão nalguns casos ainda claramente identificadas. Com este estudo pretende-se
fazer uma síntese destas associações focando fundamentalmente a aquisição de dados
sobre a biodiversidade da micoflora associada ao P. cylindrus, galerias e material
vegetal; avaliação das funções específicas de cada fungo na sobrevivência dos insectos e
efeitos no hospedeiro; avaliação da eficácia dos mecanismos de transporte das
populações fúngicas (sobretudo fungos patogénicos) pelos vectores.
Palavras-chave: interacção insectos-fungos; declínio; montado; pinheiro bravo.
INTRODUÇÃO
As estratégias de defesa das árvores à invasão por fungos causadores de doenças são
muito complexas e as respostas diferem grandemente entre Angiospérmicas e
Gimospérmicas. Estas respostas serão ainda mais complicadas se estiverem envolvidos
fungos transportados por insectos vectores: os sistemas de vecção variam desde o
transporte passivo dos propágulos no seu exosqueleto até ao transporte dos esporos em
estruturas altamente especializadas - micângios – no corpo dos insectos (Smalley et al.,
1993).
Para o insecto, a simbiose com os fungos oferece diversas vantagens, nomeadamente:
fonte de alimento para os insectos “ambrosia” que não se conseguem alimentar
directamente da madeira; decomposição dos tecidos da madeira facilitando a construção
das galerias e criando condições favoráveis para o adequado desenvolvimento dos
descendentes; aumento do declínio das árvores; indução da produção de feromonas
(Christansen & Hornvedt, 1983). Sendo transportados pelos insectos, os fungos
encontraram um mecanismo eficaz de disseminação e um método de inoculação directa
nos hospedeiros mais favoráveis para o seu crescimento (Subramanian, 1983; Beaver,
1989) (Figura 1). Esta co-evolução das duas entidades associadas deu lugar a uma
relação de mutualismo em que os benefícios e o grau de interdependência variam de
acordo com as espécies (Whitney, 1982; Farrel et al., 2001).
Figura 1. Representação esquemática das interacções insecto-fungo-hospedeiro.
Este tipo de associações pode ser encontrado em diversas espécies florestais,
nomeadamente nos géneros Pinus (Lieutier, 1993), Cupressus (Tiberi & Battisti, 1998)
e em Ulmus (Smalley et al., 1993) ou Quercus (Sousa et al., 1997), sendo
particularmente estudadas as simbioses com fungos do complexo Ophiostoma-
Ceratocystis, responsáveis pelas doenças genericamente designadas por “azulamento da
madeira” (Lieutier & Lévieux, 1985; Lieutier et al., 1989; Lévieux & Cassier, 1994).
Com a realização deste trabalho, pretende-se fundamentalmente efectuar uma breve
avaliação acerca do actual estado dos conhecimentos no que respeita às interacções
insectos-fungos em ecossistemas florestais, com particular ênfase para as essências mais
importantes a nível nacional, o pinheiro e o sobreiro. Este tipo de estudos assume um
carácter de urgência se atendermos à grande lacuna de conhecimentos nesta área, quer
no país quer no plano internacional, onde os trabalhos desta natureza estão confinados a
poucas equipas. Entre nós, são pioneiros os trabalhos de Sousa (1996), em montado de
sobro, não existindo qualquer investigação destas ecto-simbioses em pinheiro.
O conhecimento de todas as variáveis envolvidas nas relações insecto-fungo pode
conduzir ao estabelecimento de medidas de controlo, actuando directamente nas
populações de insectos vectores, ou inibindo o desenvolvimento da micoflora a elas
associada.
insecto
. alimentação
. indução da produção de
feromonas
. condições favoráveis ao
desenvolvimento larvar
fungos
trans
p
orte anta
g
onismo
hospedeiro
. degradação da
madeira
declínio
construção de
g
alerias
inoculação
aumento do
efectivo
populacional
ALGUMAS ASPECTOS DAS RELAÇÕES INSECTO-FUNGO
Enfraquecimento rápido do hospedeiro
Para muitas espécies de insectos tem sido verificada uma correlação directa entre a sua
presença no hospedeiro e o aparecimento de doenças nas árvores. Assim, de acordo com
Beaver (1989), grande parte dos patogénios com maior impacte económico em
povoamentos florestais é transmitida por insectos, sendo bem conhecidos os casos de
escolitídeos e platipodídeos na dispersão de fungos extremamente gravosos para os
ecossistemas florestais (Lieutier & Levieux, 1985; Bright, 1993). Os fungos
desempenham um papel tão importante na interacção insecto-fungo-hospedeiro quão
saudável é a árvore colonizada. De facto, eles provocam o declínio rápido da planta
criando as condições ideais para o estabelecimento dos insectos (Lévieux et al., 1991).
Vários mecanismos foram já há muito propostos para a interpretação da morte súbita
dos hospedeiros causada pela actividade dos fungos patogénicos, nomeadamente: a
produção de toxinas, a penetração do micélio nos tecidos vegetais, a formação de
vesículas de gás no interior das células ou de outras partículas que obstruam os espaços
intracelulares (Anderson, 1960). Estas acções, aliadas à actividade de escavação das
galerias levada a cabo pelos insectos, causam sérias perturbações fisiológicas nas
árvores, tais como o stress hídrico, o bloqueio da circulação da seiva, a diminuição dos
nutrientes na planta e a redução da concentração de monoterpenos, que acabam por
conduzir à sua morte (Shepherd & Watson, 1959; Horntvedt et al., 1983; DeAngelis et
al., 1986, Nebeker et al., 1993).
Micetofagia
Alguns insectos da família Scolytidae e quase todos os membros dos Platypodidae são
considerados xilomicetófagos uma vez que as suas larvas ou adultos se alimentam
sobretudo do micélio de alguns fungos que se desenvolvem nas paredes das suas
galerias (Batra, 1963). Aliás, mesmo os insectos considerados especificamente como
sub-corticais podem exibir algum grau de micetofagia (por exemplo, Tomicus sp., Ips
sp., Scolytus sp. e Dendroctonus sp.) (Whitney et al., 1987; Beaver, 1989).
OS ASPECTOS EVOLUTIVOS DA ASSOCIAÇÃO INSECTO-FUNGOS
As associações com fungos
Os fungos que vivem associados aos insectos e às suas galerias são denominados fungos
ambrosia”, do mesmo modo que os insectos são conhecidos por “insectos ambrosia”.
Este nome, de origem grega, tem o significado místico de “alimento dos deuses” e foi
usado inicialmente no século XIX quando se observou que os insectos se alimentavam
de uma substância viscosa na superfície das galerias e que era, na altura, desconhecida
(Sousa, 1996).
Com a designação de ambrosia podem encontrar-se vários fungos pertencentes a
diferentes grupos (Ascomycota, Basidiomycota e fungos mitospóricos), contudo, a
maioria deles apenas são conhecidos na sua forma imperfeita (Subramanian, 1983),
ainda que não se possa excluir que nalgumas condições estes fungos possam formar
estruturas reprodutivas sexuais.
A maioria dos fungos ambrosia é dimórfica: apresenta um aspecto de levedura sob
determinadas condições - forma ambrosia - e também uma forma micelial (Batra, 1985;
Subramanian, 1983). As secreções das larvas ou dos adultos parecem ser responsáveis
pela forma ambrosia que se desenvolve após um contacto físico com o fungo (Whitney,
1982; French & Roeper, 1972).
Os vários fungos ambrosia têm sido agrupados em cinco géneros principais:
Monacrosporium, Phialophoropsis, Raffaelea, Fusarium e Ambrosiella (Arx &
Hennerbert, 1965; Batra, 1967; Subramanian, 1983). Além destes fungos tipicamente
ambrosia, os insectos transportam ainda outros que favorecem o desenvolvimento dos
fungos principais e podem servir de alimento aos insectos em certas fases do seu
desenvolvimento (Batra, 1985; Francke-Grosmann, 1967). Leveduras como Candida
sp., Hansenula sp. e Pichia sp. poderão igualmente desempenhar um papel importante
na nutrição dos insectos (Baker, 1963; Batra, 1963).
São também transportados outros fungos para além dos envolvidos directamente na
alimentação dos insectos. Eles pertencem sobretudo aos géneros Ceratocystis,
Graphium, Ophiostoma e Leptographium (Graham, 1967; Harrington et al., 1985;
Lieutier & Lévieux, 1985) e têm um papel importante na selecção, colonização e
estabelecimento dos insectos no hospedeiro (Nebeker et al., 1993). Estes fungos
provocam o quadro sintomatológico genericamente designado como “azulamento” da
madeira e podem ser transportados por escolitídeos, como o Ips sexdentatus Boern,
Tomicus piniperda L. (Lieutier et al, 1995) ou Ortothomicus erosus Wollaston
(Wingfield & Marasas, 1980) (Figura 2).
Estas espécies de insectos acompanham a área de distribuição do pinheiro bravo no
nosso país e são muitas vezes encontradas associadas a árvores em desequilíbrio
fisiológico, árvores recentemente cortadas e, em casos de grandes pululações, podem
atacar hospedeiros sãos. Os prejuízos directos redundam na morte da árvore e
depreciação da madeira, originados pelas galerias construídas na região floémica e pelo
azulamento causado pelos fungos associados ao insecto (Pinto, 1996).
Quase todos os escolitídeos e platipodídeos podem também transportar fungos
saprófitas dos géneros Aspergillus spp., Cladosporium spp., Verticillium spp.,
Epicoccum spp., Mucor spp., Ceuthospora spp., Penicillium spp., Fusarium spp. e
Trichoderma spp. (Batra, 1963; French & Roeper, 1972; Beaver, 1989; Lieutier et al.,
1989).
Figura 2. Esquema do ataque de escolitídeos em pinheiro: 1. selecção do hospedeiro; 2.
colonização e inoculação dos fungos do “azulamento da madeira”; 3. libertação de compostos
voláteis atractivos e ataque massivo; 4. ataque de insectos secundários; 5. morte do hospedeiro.
No caso particular do insecto Platypus cylindrus Fab., xilomicetófago do sobreiro com
uma importância crescente no nosso país e associado ao fenómeno do declínio do
montado (Sousa, 1995; Sousa & Débouzie, 2002), a observação das suas galerias
revelou um revestimento fino e esbranquiçado (Figura 3).
Figura 3. Secção transversal da galeria de Platypus
cylindrus exibindo um revestimento esbranquiçado.
Adaptações morfológicas
A maioria dos insectos que formam simbioses com fungos apresentam órgãos
especializados - micângios - que asseguram o transporte dos fungos simbióticos (Batra,
1963). Os micângios incluem glândulas de secreção que mantêm as condições
favoráveis à manutenção dos esporos durante todas as fases de voo e de dispersão dos
insectos (Lévieux et al,. 1991). A estrutura morfológica dos micângios e a sua
localização no corpo do insecto varia muito consoante as espécies, assim como a sua
ocorrência nos dois sexos. Nos escolitídeos, os micângios estão presentes no sexo
responsável pelo ataque dos hospedeiros (Francke-Grosman, 1967). Já para a maioria
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das espécies de platipodídeos acontece precisamente o contrário: os machos escolhem
as árvores a colonizar mas são as fêmeas que têm os micângios (Baker, 1963). Contudo,
nalgumas espécies, como é o caso de P. cylindrus, os micângios ocorrem em ambos os
sexos, sendo ovóides e localizados na parte superior do protórax e constituídos por
cavidades semi-esféricas (Cassier et al., 1996), em maior número na fêmea do que no
macho (Sousa & Inácio, 2004) (Figura 4).
De salientar que são conhecidas algumas simbioses em que não existem órgãos de
transporte especializados no corpo do insecto (Lévieux & Cassier, 1994), ocorrendo
apenas o transporte passivo dos fungos aderentes ao exosqueleto do insecto e também
através do conteúdo intestinal (Baker, 1963). Noutros ainda, observam-se relações mais
complexas como sucede com o transporte de esporos de Ophiostomatales por ácaros,
em certos insectos sub-corticais (Moser, 1985).
fêmea macho
Figura 4. Micângios de Platypus cylindrus (na fêmea e no macho).
O transporte de esporos nos micângios dos adultos e o seu estabelecimento nas novas
galerias é crucial para a sobrevivência do insecto. De facto, muitos dos fungos
encontrados nas galerias de P. cylindrus em Portugal foram isolados a partir dos
micângios das fêmeas (Ascoidea sp., Aspergillus carbonarius (Brainier) Thom.,
Eurotium sp., Fusarium solani (Mart.) Sacc., Gliocladium solani (Hartig) Petch., G.
roseum Bainier, Nodulisporium sp, Raffaelea ambrosiae Arx & Henneb. e um
Agonomycetes) (Sousa et al., 1997). Outros fungos, como Acremonium sp., Aspergillus
spp., Paecilomyces variotii Bainier, Penicillium spp., Punctularia strigoso-zonata
(Schwein) P.H.B. Talbot, Scytalidim sp., Trichoderma spp. e Trichothecium roseum
(Pers.:Fr.) Link foram também isolados das galerias destes insectos, não estando ainda
totalmente estabelecido o seu mecanismo de transporte e inoculação no hospedeiro.
A inoculação dos fungos é feita passivamente durante a escavação das novas galerias,
sendo que este processo estimula o aumento das secreções glandulares nos micângios
facilitando então a libertação dos esporos (Francke-Grosman, 1967; Farris & Funk,
1965). No caso de P. cylindrus, as fêmeas produzem ainda um meio nutritivo no interior
das galerias, composto por uma mistura de serrim e excrementos, em que os fungos se
desenvolvem mais facilmente, aumentando a quantidade de alimento à disposição dos
insectos (Baker, 1963).
Após completar o seu ciclo biológico no interior do hospedeiro, os imagos esperam as
condições ideais para iniciarem a procura de novos hospedeiros. Durante este período,
deslocam-se nas galerias e contribuem para a dispersão aleatória e não específica dos
esporos dos fungos dos micângios ao longo dessas galerias (Batra, 1967). A Figura 5
representa esquematicamente o processo de instalação do insecto no sobreiro e
desenvolvimento dos fungos associados nas galerias.
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Figura 5. Esquema do ataque de Platypus cylindrus em sobreiro: 1. selecção do hospedeiro
susceptível; 2. colonização; 3. construção de galerias; 4. inoculação dos fungos associados; 5.
expulsão de serrim e declínio do hospedeiro; 6. saída dos adultos e procura de novos
hospedeiros.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O aumento gradual dos ataques de escolitídeos e platipodídeos nas espécies florestais,
sobretudo na Europa e na América do Norte, parece indicar que algumas situações
novas estão a despontar e será, muito provavelmente, uma combinação de factores que
tornará possíveis novos ataques (Kühnholz et al., 2003; Sousa & Guedes, 1998). Se é
um facto que o acréscimo dos níveis populacionais de certos insectos está directamente
associado ao declínio geral das florestas (Landman, 1985), também é aceitável assumir
que mecanismos mais eficazes de colonização de hospedeiros possam ter ocorrido,
assim como o desenvolvimento de maiores capacidades de ultrapassar os mecanismos
de defesa desses hospedeiros (Raffa & Berryman, 1987) ou, ainda, o estabelecimento de
novas relações de simbiose com outros agentes bióticos mais eficientes (Piou, 1993).
Atendendo a esta última hipótese, a presença de alguns fungos nas galerias de P.
cylindrus tais como Acremonium sp. (anamorfo de Ceratocystis sp.), Nodulisporium sp.
(anamorfo de Biscogniauxia sp.), F. solani (considerado como potencialmente
patogénico para algumas essências florestais) e R. ambrosiae (anamorfo de Ophiostoma
sp., género que inclui diversos fungos fitopatogénicos) (Holiday, 1989), sugere que este
tipo de associações podem fazer parte de uma complexa estratégia de ataque na qual o
transporte de fungos patogénicos pelo insecto é determinante para o enfraquecimento do
hospedeiro.
Em Portugal, foram já identificadas várias espécies de fungos associados às galerias do
insecto, aos micângios e ao conteúdo intestinal de larvas e adultos. No entanto, não
estão ainda totalmente compreendidas as funções específicas de cada fungo na
interacção insecto-fungo-hospedeiro, para além da possibilidade de novas associações
se desenvolverem ao longo da evolução de todo o sistema.
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3
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O conhecimento dos mecanismos de ataque/defesa é vital para o desenvolvimento
futuro de métodos de controlo e prevenção do acréscimo das populações destes insectos
no seio da floresta. De facto, a informação referente aos agentes bióticos e abióticos que
interagem nas relações que se estabelecem entre praga e hospedeiro, os mecanismos de
ataque e as estratégias de defesa do hospedeiro são a base das acções de programas de
prevenção cujo principal objectivo será o de manter em níveis aceitáveis as populações
das pragas com grande impacte nos ecossistemas florestais. Entre os novos métodos que
podem vir a ser testados, os indirectos, tal como o controlo dos fungos que lhes servem
de alimento, podem ser considerados como uma boa estratégia de investigação.
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Sousa, E. M.; Tomaz, I.; Moniz, M. F. & Basto, M. S. 1997. La répartition spaciale des champignons
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... O Platypus cylindrus (Plátipo), ou gorgulho-dos-carvalhos é um inseto da família xilomicetófago (perfurador de madeira que se alimenta de fungos) identificado em Portugal desde 1870. É um inseto "ambrosia" que estabelece simbioses com fungos, o que oferece vantagens por constituírem uma fonte de alimento, por decomporem os tecidos da madeira facilitando a construção das galerias e por criarem condições favoráveis ao desenvolvimento dos descendentes (Inácio et al., 2005). Atacam árvores enfraquecidas, embora recentemente se tenham verificado ataques em árvores aparentemente sãs (Figura 25). ...
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Em Portugal Continental, segundo os dados do 6º Inventário Florestal Nacional (IFN6) (ICNFa), os espaços florestais (floresta, matos e improdutivos) ocupam 6,2 milhões de hectares (69,4%) do território, ocupando a floresta uma área de 3,2 milhões de hectares. Os “montados”, os sobreirais e os azinhais constituem a principal ocupação flores�tal, com 1.069.300 hectares, representando cerca de 1/3 da floresta. Em Espanha ocupam uma área de cerca de 3.515.920 hectares (Campos et al., 2010), o que representa cerca de 1/5 dos espaços florestais, equivalente a 6,95% do território peninsular espanhol, sendo 75% das explorações privadas. De acordo com os dados do Inventário Florestal Nacional (ICNFa) o sobreiro ocupa no território continental uma área de 719.900 hectares e a azinheira de 349.400 hectares. Na região do Alentejo a área ocupada pelo sobreiro é de 609.400 hecta�res e pela azinheira de 315.500 hectares, representando, assim, 84,6% e 90,2%, respetivamente, das áreas ocupadas por estas espécies no território continental. Na floresta os habitats mais representados são os que derivam das florestas de quercíneas, os montados (4%, habitat 6310), os sobreirais (4%, habitat 9330), os carvalhais (3%, habitat 9230) e os azinhais (2%, habitat 9340) (ICNFa).
... Such fungi are so called ambrosia as they act as a nourish source for the insect descendants after being inoculated and cultivated in the galleries. The observation of those galleries confirms the existence of a light-coloured, thin wall cover, constituted by mycelium of the symbiotic fungi (Inácio et al., 2005; Sousa & Inácio, 2005). The taxonomy of ambrosia fungi is somewhat confused and the general papers on this issue were published a long time ago. ...
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ABSTRACT In the study of the fungi associated to Platypus cylindrus, several fungi were isolated from the insect and its galleries in cork oak, among which three species of Raffaelea. Morphological and cultural characteristics, sensitivity to cycloheximide and genetic variability had been evaluated in a set of isolates of this genus. On this basis R. ambrosiae and R. montetyi were identified and a third taxon segregated witch differs in morphological and molecular characteristics from the previous ones. In this work we present and discuss the parameters that allow the identification of specimens of the three taxa. The role that those ambrosia fungi can have in the cork oak decline is also discussed taking into account that Ophiostomatales fungi are pathogens of great importance in trees, namely in species of the genus Quercus.No estudo dos fungos associados ao insecto xilomicetófago Platypus cylindrus foram isolados, a partir do insecto e das suas galerias no sobreiro, diversos fungos, entre os quais três espécies de Raffaelea. Avaliaram-se características morfológicas e culturais, sensibilidade à ciclohexamida e variabilidade genética num conjunto de isolados do género. Foram identificados R. ambrosiae e R. montetyi e segregou-se um terceiro táxone que difere em características morfológicas e moleculares dos dois anteriores. No presente trabalho são apresentados e discutidos os parâmetros que permitem identificar espécimes dos três táxones. É ainda discutido o papel que estes fungos ambrósia podem ter no declínio do sobreiro, sabido que fungos Ophiostomatales são patogénios de grande importância em plantas lenhosas, nomeadamente em espécies do género Quercus.
... These two fungi are used in biocontrol as biopesticides against many pests in many countries (Samson et al., 1988; Goettel et al., 2008). B. bassiana has already been associated with P. cylindrus on cork oak in Portugal (Inácio et al., 2005; Henriques, 2007), whereas L. psalliota seems new to this type of relationship. The second category includes plant pathogenic fungi, some being the main agents of parasitic diseases. ...
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Platypus cylindrus (Coleoptera: Curculionidae, Platypodidae) is an important insect pest of the cork oak. These beetles maintain symbiotic relationships with many fungi that serve especially as food for the adults and larvae but also intervene in the mechanisms of establishment of the insect by further weakening the host-tree. 270 samples were taken by 3 sources: Galleries (30), mycangia and intestinal contents of male and female insects and intestinal contents of mature larvae (60 each). The results show the presence of 42 species of ambrosia fungi among which 17 are new to this association. The mycetophagy of these beetles is very rich and consisted essentially of Ophiostomatales. Other groups of fungi playing different roles were also isolated: entomopathogenic, antagonistic, saprophytic but especially pathogenic for the tree host. This group consists of many species and their dissemination by the insect and the inoculation in trees may have fatal consequences by accelerating the cycle of declining affected trees. In the present paper, we discuss the fungal species associated to the beetle, identified on the basis of phenotypic characters and ribosomal DNA sequences analysis, and their relationship with P. cylindrus.
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In the study of the fungi associated to Platypus cylindrus, several fungi were isolated from the insect and its galleries in cork oak, among which three species of Raffaelea. Morphological and cultural characteristics, sensitivity to cycloheximide and genetic variability had been evaluated in a set of isolates of this genus. On this basis R. ambrosiae and R. montetyi were identified and a third taxon segregated witch differs in morphological and molecular characteristics from the previous ones. In this work we present and discuss the parameters that allow the identification of specimens of the three taxa. The role that those ambrosia fungi can have in the cork oak decline is also discussed taking into account that Ophiostomatales fungi are pathogens of great importance in trees, namely in species of the genus Quercus.
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Ambrosia fungi live associated with beetles (Scolytidae and Platypodidae) in host trees and act as a food source for the insects. The symbiotic relation is important to the colonizing strategies of host trees by beetles. Ambrosia fungi are dimorphic: they grow as ambrosial form and as mycelium. The fungi are highly specialized, adapted to a specific beetle and to the biotope where they both live. In addition other fungi have been found such as tree pathogenic fungi that may play a role in insects host colonization success. Saprophytic fungi are also present in insects galleries. These may decompose cellulose and/or be antagonistic to other less beneficial fungi. This paper summarizes the importance of ambrosia fungi and the interaction with insects and hosts. The possibility of the transport of pathogenic fungi by Platypus cylindrus to cork oak thus contributing for its decline is discussed.