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O MODELO ARRIGHIANO E O "NOVO" CAOS: LIMITES E POSSIBILIDADES

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Abstract

Caos e Governabilidade são, para Giovanni Arrighi, tendências intrínsecas ao sistema-mundo moderno que oscilam conforme complexos hegemônicos se sucedem. A partir da exposição e breve análise dos elementos que distinguem uma "rodada" de caos sistêmico, busca-se verificar em que medida a teoria do sistema-mundo, sob a ótica arrighiana, é capaz de explicar as transformações estruturais do sistema internacional a partir da década de 1970. O artigo está dividido em três partes. A primeira, introdutória, traz um debate teórico acerca do conceito de hegemonia, caos e governabilidade. A segunda estabelece a relação teoria-história de modo a apresentar as variáveis que contribuem para a ocorrência do caos sistêmico. E a terceira busca estabelecer paralelos entre os períodos de caos, já encerrados ao longo da história, e as transformações do sistema-mundo nos últimos quarenta anos, de modo a identificar padrões e variações entre o quê a teoria indica e o que a realidade nos apresenta.
O MODELO ARRIGHIANO E O NOVO CAOS:
LIMITES E POSSIBILIDADES
Rafael Pons Reis1
Bruno Hendler2
Resumo
Caos e Governabilidade são, para Giovanni Arrighi, tendências intrínsecas ao sistema-mundo moderno que
oscilam conforme complexos hegemônicos se sucedem. A partir da exposição e breve análise dos elementos
que distinguem uma “rodada” de caos sistêmico, busca-se verificar em que medida a teoria do sistema-mundo,
sob a ótica arrighiana, é capaz de explicar as transformações estruturais do sistema internacional a partir da
década de 1970. O artigo está dividido em três partes. A primeira, introdutória, traz um debate teórico acerca
do conceito de hegemonia, caos e governabilidade. A segunda estabelece a relação teoria-história de modo a
apresentar as variáveis que contribuem para a ocorrência do caos sistêmico. E a terceira busca estabelecer
paralelos entre os períodos de caos já encerrados ao longo da história e as transformações do sistema-mundo
nos últimos quarenta anos, de modo a identificar padrões e variações entre o quê a teoria indica e o que a
realidade nos apresenta.
Palavras-Chave: Economia Política Internacional, Sistema Mundo-Moderno, Transições Hegemônicas,
Caos Sistêmico.
1 Mestre em Relações Internacionais (UFRGS) e professor da UniCuritiba. E-mail: rafaelponsreis@gmail.com.
2 Graduado em Relações Internacionais (UniCuritiba) e Graduando em História (UFPR).
E-mail: bruno_hendler@hotmail.com.
2
INTRODUÇÃO
Não há dúvidas de que os vinte anos que se seguiram à queda do Muro de Berlim trouxeram
mais mudanças no cenário internacional do que muitos especialistas ousaram prever. No ano em que
se completam duas décadas do fim da Guerra-Fria, a perda de poder relativo do grande vencedor do
conflito, os Estados Unidos, e a ascensão de novas geometrias de poder e riqueza, refletem uma
instabilidade sistêmica que encontra raros paralelos na história do sistema mundial moderno, e talvez
marque o fim de um padrão que já dura mais de quinhentos anos.
“A morte de impérios aparece como uma das grandes regularidades da história”, já dizia
Jean-Baptiste Duroselle, referindo-se desde a poderes distantes como a Grécia Antiga a complexos
modernos como a União Soviética (Duroselle, 2000, p. 415). Mas poucos são os estudiosos que
conseguiram compreender tão a fundo as forças profundas que causam as sucessões hegemônicas do
sistema internacional moderno como os autores da Economia Política do Sistema-Mundo (EPSM),
quais sejam: Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi.
Pode-se afirmar que Wallerstein é o fundador da Economia Política do Sistema-Mundo3. A
partir da obra The Modern World System, difundiu-se uma nova forma – com novos conceitos e
métodos de encarar a história moderna, em especial as transformações globais que se deram a
partir do advento do capitalismo e do sistema interestatal na Europa, em fins da Idade Média.
Ao definir o sistema-mundo4 como a unidade de estudo adequada, Wallerstein tem como
objeto de análise a “formação histórica do sistema capitalista a partir da expansão do capitalismo
europeu no século XVI, com integração de novos territórios como partes de seu sistema” (Arienti &
Filomeno, 2007, p 103). Influenciado pela Escola dos Annales, em especial por Fernand Braudel,
Wallerstein consolida os pilares de uma nova interpretação da história moderna, que ao contrário do
pensamento histórico vigente, consegue captar os elementos do capitalismo – pouco aparentes à
primeira vista, mas extremamente determinantes – que permeiam as relações de poder entre os
Estados nacionais.
3 Corrente histórico-sociológica inaugurada em meados da década de 1970 com a publicação do primeiro volume da obra
The Modern World System.
4 Wallerstein define sistema-mundo como um sistema social que abrange regiões espacialmente integradas por uma
divisão do trabalho, movido por forças internas que estão em constante luta para modelar o sistema em seu proveito, e
que está em constante expansão de forma a absorver áreas antes “intocadas” por seu modelo produtivo e por sua
organização de poder. (Arienti & Filomeno, 2007, p 103).
3
Em sua trilogia5, Giovanni Arrighi analisa, sob diferentes aspectos, os ciclos de acumulação
que se sucederam no transcorrer da expansão do sistema-mundo europeu de fins da Idade-Média – a
economia-mundo6 capitalista. Arrighi pauta-se no conceito de hegemonia de Antonio Gramsci, que
por sua vez, o deriva de Maquiavel. Para o escritor de “O Príncipe”, o detentor do poder soberano
deve gerar os sentimentos de amor e temor sobre seus súditos, sendo metaforicamente um centauro –
metade homem, metade animal. Gramsci, por sua vez, afirma que o poder hegemônico (visto por ele
como uma classe dominante no plano intraestatal) assenta-se sobre o poder bicéfalo de Maquiavel,
rebatizado como poder: de consenso e de coerção7.
Gramsci utiliza em seus escritos a terminologia de hegemonia não apenas no sentido de
dominação, mas, primordialmente, no sentido de guiar, conduzir. Assim, para uma classe dominante
exercer a hegemonia não basta apenas dispor dos meios coercitivos do Estado, é necessário que seja
construído “um sistema de alianças entre vários grupos, em que o grupo dominante exerce o poder
graças à sua capacidade de transformar os interesses particulares em gerais ou universais” (Fontana,
2003, p. 120).
O terceiro elemento fundamental para o exercício da hegemonia é, segundo Gramsci, a
centralidade econômica, de forma a possibilitar materialmente a existência do poder bicéfalo. Em
outras palavras, nas sociedades industriais, para satisfazer as demandas materiais dos liderados sem
causar grandes tensões sociais, é condição sine qua non que a elite hegemônica exerça um papel
central no modo de produção.
O papel central que o grupo hegemônico desempenha na produção lhe dá grande influência
sobre a economia como um todo, mas esse potencial deve se transformar em realidade por
meio da ação política consciente (Augelli; Murphy, 2007, p. 205-7).
5 São as obras: O Longo Século XX (1996); Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial (2000) e Adam Smith
em Pequim (2008).
6 Existem dois tipos de sistema-mundo: a economia-mundo e o império mundo. Este tem como característica principal a
centralização política sobre territórios economicamente integrados. Cada região especializa-se na parte da cadeia de
produção que mais convém aos interesses do centro político, perfazendo assim um único sistema econômico de centro-
periferia mantido pela força da burocracia e do exército. A economia-mundo também apresenta uma economia complexa
e integrada, mas composta por unidades políticas autônomas, ou seja, sociedades culturalmente diferentes e politicamente
autônomas tornam-se interdependentes graças às relações econômicas que as une.
7 Em uma visão bastante parecida com a de Gramsci, os renomados internacionalistas norte-americanos Robert Keohane
e Joseph Nye Jr. (Keohane & Nye, 2001, p.220) apresentam dois conceitos que buscam mostrar os diferentes aspectos
que envolvem o exercício do poder. O chamado poder duro (hard power) pode ser definido da seguinte forma: “ (...) is
the ability to get others to do what they otherwise would not do through threats or rewards” (tradução livre: é a
habilidade de fazer com que outros façam aquilo que não o fariam por meio de ameaças ou recompensas). Já o segundo
aspecto de poder, o poder brando (soft power), “ (…) is the ability to get desired outcomes because others want what you
want; it is the ability to achieve desired outcomes through attraction rather than coercion” (tradução livre:“é a
habilidade de obter os resultados desejados porque os outros querem o que você quer; é a capacidade de alcançar os
resultados desejados através da atração ao invés da coerção”).
4
A partir desta definição, autores como Robert Cox e Giovanni Arrighi utilizam-se da
expressão hegemonia mundial para se referir aos complexos de poder e riqueza que, em
determinados momentos da história, apoiaram-se no tripé hegemônico de Gramsci e garantiram uma
época de governabilidade. Nas palavras do próprio Arrighi (1996, p. 29-30):
As hegemonias mundiais, como aqui entendidas, só podem emergir quando a busca do poder
pelos Estados inter-relacionados não é o único objetivo da ação estatal. Na verdade, a busca
do poder no sistema interestatal é apenas um lado da moeda que define, conjuntamente, a
estratégia e a estrutura dos Estados enquanto organizações. O outro lado é a maximização do
poder perante os cidadãos. Portanto, um Estado pode tornar-se mundialmente hegemônico
por estar apto a alegar, com credibilidade, que é a força motriz de uma expansão geral do
poder coletivo dos governantes perante os indivíduos. Ou, inversamente, pode tornar-se
mundialmente hegemônico por ser capaz de afirmar, com credibilidade, que a expansão de
seu poder em relação a um ou até a todos os outros Estados é do interesse geral dos cidadãos
de todos eles. (grifos no original)
De acordo com o modelo arrighiano, o Sistema Mundo Moderno8 oscila entre duas
tendências: caos e governabilidade. A governabilidade decorre da capacidade de um poder
hegemônico em garantir ordem e estabilidade no sistema-mundo. Quando este poder entra em crise,
abre-se um leque de oportunidades para novos players, que se lançam na concorrência empresarial e
competição estatal para “abocanhar” o vácuo deixado pela hegemonia. Arrighi define o caos
sistêmico como:
(...) uma situação de desorganização sistêmica aguda e aparentemente irremediável. Quando
há uma escalada da competição e dos conflitos que ultrapassa a capacidade reguladora das
estruturas existentes, surgem nos interstícios novas estruturas que desestabilizam ainda mais
a configuração dominante de poder. A perturbação tende a reforçar a si mesma, ameaçando
provocar, ou de fato provocando, um colapso completo na organização do sistema (Arrighi;
Silver, 2001, p. 42).
Portanto, a crise e o colapso de uma ordem mundial decorrem do enfraquecimento das
“estruturas existentes” – alicerçadas no poder hegemônico – e da ascensão de “novas estruturas” que
buscam, através da competição econômica e/ou da contestação política e militar, um rearranjo
sistêmico, com uma nova divisão do trabalho, da riqueza e do poder.
A partir da análise do gráfico abaixo, pretende-se expor os elementos comuns aos períodos de
caos sistêmico já encerrados. Apesar de ser uma abstração teórica, portanto rígida e pouco apegada a
variáveis endógenas, a relevância da imagem está em apresentar ao leitor a idéia de oscilação entre
caos e governabilidade, permitindo uma verificação da capacidade explicativa da teoria em questão.
8 Giovanni Arrighi afirma que o Sistema Mundo Moderno tem sua origem nas cidades-Estado principescas da Itália
renascentista. Com forte influência de Fernand Braudel, o autor percebe a ocorrência de duas estruturas de longa duração
que se originaram neste recorte espaço-temporal e perduram até os dias de hoje: o sistema interestatal e a lógica de
acumulação capitalista.
5
Gráfico 1: CICLO DE TRANSIÇÕES HEGEMÔNICAS9
A principal informação a ser extraída da imagem é o longo século, que deriva de um conceito
de Fernand Braudel (longue durée) para se referir a fenômenos de longa duração, não
correspondendo a exatos cem anos. O longo século de cada hegemonia possui três fases, que são
representadas pela ondulação das linhas: i) ascensão; ii) plena expansão; e iii) declínio. Tanto a
ascensão quanto o declínio ocorrem em momentos de caos sistêmico, representado pela área escura
do gráfico, enquanto que a plena expansão coincide com a governabilidade, a área clara do gráfico.
Disto afere-se que o caos sistêmico é marcado por uma transição hegemônica, em que há uma
sobreposição de longos séculos: o declínio de um e a ascensão de outro.
Arrighi aponta uma série de variáveis que caracterizam esta tendência ao caos sistêmico, que
é historicamente evidenciado pela “troca de guarda” na liderança do sistema-mundo. O moderno
sistema internacional tem apresentado características evolutivas em que “as hegemonias mundiais
têm ascendido e declinado não num sistema imutável, mas num sistema que elas próprias criaram,
expandiram e superaram” (Arrighi, 2001, p. 272). Assim depreende-se a ideia que os respectivos
caos sistêmicos guardam não apenas relações entre si, mas também comportam mudanças
significativas entre uma hegemonia e outra.
Entendemos que as crises hegemônicas se caracterizam por cinco processos distintos, mas
estritamente relacionados: 1) o processo de financeirização da economia-mundo centrado na
9 FONTE: HENDLER, Bruno. A transição hegemônica no sistema-mundo moderno: o declínio da PAX
BRITANNICA e as origens da hegemonia norte-americana, na passagem para “o longo século XX” (1873-1945).
Monografia defendida para o Curso de Relações Internacionais do Unicuritiba, 2010.
6
hegemonia em declínio; 2) a ascensão de novos centros de acumulação de poder e riqueza; 3) a
obsolescência das instituições internacionais; 4) a perda da capacidade coercitiva relativa do poder
hegemônico; e 5) a “guerra de trinta anos”. A forma assumida por estes processos e a maneira como
eles interagem no curso do espaço-tempo variam de uma crise para outra. Mas pode-se identificar
uma combinação dos cinco processos em cada uma das duas transições hegemônicas concluídas até
hoje: da hegemonia holandesa para a britânica e da britânica para a norte-americana, bem como na
possível atual transição do ciclo norte-americano para um destino ainda não conhecido.
Sendo assim, o objetivo central do presente artigo consiste em apresentar brevemente os
elementos do caos sistêmico em uma perspectiva histórica, de forma a identificar determinados
padrões que se repetem ao longo dos séculos, e contrastá-los com alguns elementos “novos” diante
das recentes transformações políticas e econômicas da ordem mundial. Essa tarefa nos conduz a um
campo de observação mais amplo, resgatando os momentos de caos sistêmico das últimas duas
transições hegemônicas até os dias atuais.
Na tentativa de facilitar a leitura do presente trabalho, cada um dos cinco elementos presentes
no caos sistêmico ligados à crise hegemônica – derivada da corrosão dos três pilares: coerção,
consenso e a centralidade econômica – estão representados nas primeiras cinco seções do texto.
Dessa forma, os elementos 1) e 2) estão ligados a crise da centralidade econômica; o 3) é relativo a
crise do apelo consensual e ideológico; o 4) está ligado a crise do poder coercitivo; e o 5) resulta na
ruptura hegemônica, em que os elementos anteriores interagem entre si, dando origem a uma guerra
de trinta anos10. Por fim, na sexta seção, serão delineados os elementos que compreendem o “novo”
caos sistêmico, instaurado a partir da década de 1970 e aprofundado após os recentes
desdobramentos do sistema internacional e do papel dos Estados Unidos na primeira década do
século XXI.
10 Para efeito de análise, os autores apontam os cinco elementos considerados principais no caos sistêmico. Não obstante,
este é um recorte particular e o tem como objetivo englobar todas as variantes sociais, econômicas e políticas que
caracterizam a teoria do sistema-mundo, nem tão pouco contrastar com outras abordagens teóricas do Sistema-Mundo
formuladas por autores como Immanuel Wallerstein e José Luís Fiori.
7
1. OS ELEMENTOS DO CAOS SISTÊMICO NA HISTÓRIA
1.1 PROCESSO DE FINANCEIRIZAÇÃO DA ECONOMIA-MUNDO CENTRADO NA
HEGEMONIA EM DECLÍNIO
Através da fórmula de reprodução de capital de Marx (Dinheiro – Mercadoria – Mais
dinheiro, ou apenas, DMD´), Arrighi identifica duas tendências na economia-mundo capitalista que
coincidem com as fases do longo século de uma hegemonia. A primeira tendência é a expansão
material ou DM, que ocorre quando uma hegemonia está em seu auge, em plena expansão. Neste
momento:
(...) os capitalistas usam seu capital monetário para mover uma crescente massa de produtos
(o que inclui força de trabalho e outros fatores de produção transformados em mercadoria),
esperando, através da posterior comercialização dos produtos finais (realização da mais-
valia), ampliar ainda mais a liquidez de que dispunham quando converteram seu capital
monetário em mercadorias, antes de iniciar propriamente a produção e o comércio. Nessa
fase, a introdução de inovações no processo de acumulação e no sistema interestatal pelos
novos agentes hegemônicos faz com que as atividades produtivas e comerciais
proporcionem, em relação às demais atividades econômicas, maior lucratividade (...). O
investimento produtivo é o meio capaz de garantir aos capitalistas a reprodução de seu
capital a taxas de lucro extraordinárias. (Arienti; Filomeno, 2007, p. 120). (g.n.)
Em poucas palavras, os agentes empresariais e governamentais da hegemonia difundem para
o resto da economia-mundo, após o fim do caos sistêmico anterior, as inovações organizacionais e
tecnológicas criadas na fase de ascensão de seu longo século. Com isso, ocorre uma expansão
material que impulsiona as esferas “reais” da economia – produção e comércio – ao passo que
consolida uma nova divisão internacional do trabalho, agregando mais valor às atividades
econômicas centrais em detrimento das periféricas.
Não obstante, há um momento em que o modelo de acumulação atinge sua máxima eficiência
e sofre da contradição inerente ao capitalismo, segundo Adam Smith: de tão bem sucedida, a
expansão material traz um afluxo de capital maior do que os “canais estabelecidos” de produção e
comércio são capazes de reabsorver em forma de investimentos. Desta forma, o motor da economia-
mundo, a hegemonia, torna-se o centro da expansão financeira que afeta os mais diversos pontos do
globo “tocados” pelas redes de mercadorias.
Após certo tempo de expansão material, a superacumulação de capitais concretiza-se, isto é,
a acumulação de capital é muito superior à que pode ser investida com lucro, no comércio e
na produção, nas estruturas vigentes do regime de acumulação mundial. (...) Um volume
crescente de capital, na sua forma líquida e mais flexível, vai procurar sua valorização na
8
esfera financeira. É um período de crise hegemônica, de transformação estrutural do
moderno sistema de Estados nacionais soberanos, de surgimento de novos regimes de
acumulação, de novos modos de governo, de reorganização do sistema-mundo sob nova
liderança, durante o qual são lançadas as bases para a superação da crise financeira e para o
início de um novo ciclo sistêmico de acumulação, com transformações nas estruturas de
produção e nas formas de hegemonia política (Arienti; Filomeno, 2007, p. 120-121) (g.n.).
Neste momento a acumulação de capital por parte da hegemonia é tamanha que a taxa de
lucros na economia real torna-se decrescente. excesso de liquidez e perda de lucratividade na
produção e no comércio, de forma que a especulação, o comércio de moedas e o mercado financeiro
de forma geral se tornam mais lucrativos para os agentes capitalistas. Em outras palavras, a
“economia virtual” torna-se mais lucrativa que a economia real, gerando uma expansão financeira,
ou fase MD´, segundo a fórmula de Marx.
Após a plena expansão das hegemonias holandesa e britânica, tanto Amsterdã (ao longo do
século XVIII) quanto Londres (a partir da década de 1870) tornaram-se o epicentro de expansões
financeiras – que prenunciavam o declínio do longo século. Na primeira, o excesso de capital
decorreu do sucesso alcançado pelas companhias de comércio, verdadeiras “máquinas de
acumulação de poder e capital” da Holanda. Na segunda, a expansão financeira decorreu dos anos de
expansão material impulsionada pela divisão internacional do trabalho, “amarrada” às indústrias
inglesas que, dispondo de acesso privilegiado a recursos naturais e mercados consumidores, fizeram
da Grã-Bretanha o grande centro de acumulação do século XIX.
O começo da expansão financeira coincide com a crise sinalizadora (S) da hegemonia, que
baliza o início de seu declínio. Historicamente este processo é iniciado com uma crise de
hiperacumulação, quando o dinheiro e o crédito tornam-se extremamente baratos, os preços caem
vertiginosamente e as empresas comerciais e produtivas da hegemonia passam a receber menos
investimentos.
Após a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), estima-se que a concessão de crédito holandês era
quinze vezes maior do que a moeda líquida ou real na Holanda (Arrighi; Silver, 2001, p. 62),
causando uma bolha financeira que estouraria numa série de crises de hiperacumulação nos anos
seguintes. As décadas de 1870 e 1880 testemunharam uma grande crise de hiperacumulação em
Londres. A Inglaterra tornara-se um “imenso ‘continente’ de capital excedente – capital que se
acumulava muito além do que podia ser investido com lucro na expansão da produção e do
comércio” (Arrighi; Silver, 2001, p. 77). Sem grandes perspectivas de lucro na economia real, pois
os preços estavam em declínio acentuado, boa parte dos capitalistas ingleses acabou migrando para a
“economia virtual” da bolsa de valores, obtendo lucros com agiotagem, especulação, investimentos
externos e câmbio de moedas. Londres entrava no caminho sem volta da expansão financeira.
9
O gráfico abaixo mostra a evolução do Balanço de Pagamentos da Grã-Bretanha. A partir de
1870 as tendências são claras: o comércio de mercadorias (Balança Comercial) apresenta um déficit
crescente, chegando a duplicar, de 62,2 para 124,5 milhões de Libras, em apenas dez anos; ocorre
uma elevação dos rendimentos financeiros, através de serviços e juros líquidos; e o saldo mantém-se
positivo, ou seja, a acumulação continua, ainda que puxada pela “economia virtual”.
Gráfico 2: BALANÇO DE PAGAMENTOS DA GRÃ-BRETANHA11
Com este excesso de liquidez, ocorrem dois tipos de concentração de capital: dentro e fora do
alcance de poder da hegemonia. A concentração que se dá dentro das estruturas hegemônicas
propicia um “momento maravilhoso de reanimação” do modelo de acumulação. Exemplos disso são
a formação de oligopólios em setores estratégicos e a efervescência cultural que acontece em
Amsterdã em princípios do século XVIII e em Londres da idade de ouro da Era Vitoriana12. Mas a
concentração que ocorre às margens do raio de ação da hegemonia é a causa determinante do
declínio desta, pois faz brotar estruturas regionais de acumulação que desestabilizam o antigo regime
e antecipam a emergência do novo (Arrighi, 1996, p. 244-245), nos levando ao segundo fenômeno
característico do caos sistêmico.
11 FONTE: HOBSBAWM, Eric. Da Revolução Industrial inglesa ao imperialismo. Ed Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2003, diagrama 10.
12 Para muitos especialistas a hegemonia norte-americana vive este “momento maravilhoso” desde a década de 1970, sob
a égide da globalização.
10
1.2 ASCENSÃO DE NOVOS CENTROS DE ACUMULAÇÃO DE PODER E RIQUEZA
A facilidade para se obter crédito no grande centro financeiro possibilita o surgimento de
alianças Estado-empresa inovadoras, que reciclam o capital virtual” acumulado na hegemonia e,
com novas técnicas organizacionais, passam a concorrer com os agentes empresariais tradicionais
ligados à própria hegemonia.
Assim, no sentido contrário à financeirização do modelo de acumulação vigente, novos
modelos iniciam suas expansões materiais (geralmente dois se destacam). Um destes modelos acaba
optando pela confrontação política direta com a hegemonia em declínio, caracterizando, na visão de
Wallerstein, um aspirante a império-mundo, que busca o controle das fontes de poder e riqueza
através da força. Em contrapartida, outro modelo inovador limita-se a concorrer com a hegemonia na
esfera econômica, evitando, sempre que possível, o acirramento das rivalidades políticas e militares.
Seja na esfera econômica, política, ou em ambas, o fato é que o surgimento destes novos
modelos corrói as vantagens competitivas tanto do Estado hegemônico quanto das empresas ligadas
a ele, contestando, de uma forma ou de outra, a ordem mundial vigente. E a centralidade econômica,
vista por Arrighi e Cox como fundamental para amparar o exercício da hegemonia, deixa
gradualmente de existir.
Esta tendência é verificável nas duas fases de caos sistêmico já encerrado do sistema-mundo.
Quando Amsterdã iniciou sua expansão financeira, o capital disponível obteve maior lucratividade
na França e Inglaterra, cujos governos adaptaram o mercantilismo holandês à busca por territórios
ultramarinos e, em pouco tempo, passaram a contrabalancear as vantagens econômicas e o poderio
naval desta hegemonia. Em meados do século XVIII, a Holanda era, segundo Arrighi (2001, p. 59),
“sócia minoritária” do império britânico e suas companhias de comércio concorriam em
desvantagem com as homólogas francesas e inglesas. Mais do que isso, após a Revolução Gloriosa
na Inglaterra (1688) que colocou um nobre holandês no trono inglês o mercado de capitais de
Amsterdã praticamente fundiu-se à economia inglesa, cujos agentes capitalistas aproveitaram-se da
oferta monetária para desenvolver a lógica capitalista que marcaria o século XIX: a produção em
massa das empresas familiares da Inglaterra, a partir de meados do século XVIII.
Desta forma, o declínio da hegemonia holandesa esteve, de fato, vinculado à concorrência
econômica da nova lógica capitalista inglesa. Porém, o fim da governabilidade deveu-se não apenas à
competição interempresarial, mas também ao acirramento das rivalidades interestatais, intensificadas
pela preponderância da França monárquica no continente europeu. O vácuo deixado pela hegemonia
em declínio propiciou a ascensão de outros Estados na disputa por poder e riqueza, destacando-se o
11
papel da diplomacia da França monárquica no continente europeu, da Inglaterra em vias de
industrialização, e das três coroas da Europa centro-oriental: Prússia, Áustria e Rússia.
No período de caos sistêmico seguinte, esta tendência se repetiu. A expansão financeira
centrada em Londres propiciou a concentração de capital às margens do alcance hegemônico,
provocando o surgimento de dois modelos de acumulação que passaram a concorrer com as
empresas inglesas: o norte-americano e o alemão13. Da mesma forma como a Inglaterra
industrializou-se a partir da abundancia de capital em Amsterdã, os EUA desenvolveram a nova
lógica capitalista de grandes corporações através da abundância de capital em Londres. “Os Estados
Unidos se transformaram na fronteira de expansão do capital financeiro e do capitalismo inglês,
selando uma aliança estratégica e criando um ‘território econômico’ quase contínuo” (Fiori, 2007, p.
97-99).
Na virada para o século XX, indústria e império haviam deixado de ser “exclusividade” do
império britânico. A industrialização de países europeus, bem como dos EUA e do Japão, provocou
um acirramento considerável da competição interempresarial, o que intensificou o caos sistêmico.
Porém, na esteira da competição econômica surgiram também os impérios coloniais europeus que
disputavam o acesso a matérias-primas e mercados consumidores. E dentre estes impérios, a
Alemanha do Kaiser Guilherme II foi notadamente o país mais agressivo, tanto dentro quanto fora da
Europa. Questionando a ordem mundial vinculada à hegemonia britânica, a Weltpolitik14 foi
responsável pela escalada da competição interestatal que levou o sistema-mundo à nova guerra de
trinta anos vista por Arrighi como o período compreendido pelas duas guerras mundiais (1914-
1945).
Portanto, com as vantagens competitivas reduzidas ou anuladas, o Estado hegemônico perde
seu apelo consensual (soft power) e sua superioridade coercitiva (hard power), ambos fundamentais
para o exercício da hegemonia, segundo Arrighi. Como conseqüência, chega-se aos outros dois
elementos característicos do caos sistêmico: o desgaste do apelo ideológico de manutenção do
sistema, com a obsolescência das instituições internacionais; e a perda da capacidade coercitiva
relativa do poder hegemônico, conforme veremos nas duas seções seguintes.
13 Nos EUA predominou a integração vertical de grandes corporações, em que a mesma empresa controlava diferentes
setores da cadeia produtiva. na Alemanha predominou a integração horizontal, em que se formaram oligopólios ou
monopólios em setores estratégicos para o Estado. Em ambos os casos, o protecionismo estatal foi largamente aplicado,
esvaziando o liberalismo econômico pregado pela Grã-Bretanha.
14 A Weltpolitik ou Política mundial foi a política externa do período Guilhermino da Alemanha Imperial (1897-1913).
Recebeu este nome em contraposição à Realpolitik de Otto Von Bismarck, que primava por uma postura defensiva do
país em relação aos seus vizinhos. A Weltpolitik consistiu numa série de discursos revisionistas e ações de expansionismo
do Kaiser Guilherme II que tinham por objetivo maximizar o poder (interno e externo) do Estado alemão e garantir a
inclusão da Alemanha no clube das grandes potências.
12
1.3 OBSOLESCÊNCIA DAS INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS
As normas, princípios e instituições criadas pela hegemonia quando o caos sistêmico se
encerra, visam garantir nova rodada de governabilidade para o sistema. Tal ordem não significa a
ausência de conflitos, mas uma “ordem anárquica” cujos membros reconhecem e adotam seus
procedimentos, seja na guerra ou na paz. No papel de “garantidor” desta ordem, o Estado
hegemônico difunde a ideia de que seu poder é benéfico a todos, alimentando as aspirações ideais de
seus subalternos em busca de um futuro melhor. Segundo Cox,
Para se tornar hegemônico, um Estado teria de fundar e proteger uma ordem mundial que
fosse universal em termos de concepção, isto é, uma ordem em que um Estado não explore
outros diretamente, mas na qual a maioria desses (ou pelo menos aqueles ao alcance da
hegemonia) possa considerá-la compatível com seus interesses (Cox, 2007, p. 117).
Porém, um momento em que os mecanismos jurídicos e os argumentos ideológicos não
dão conta de absorver as transformações infra-estruturais dos tópicos 1.1 e 1.2, pois os novos players
não mais se sujeitam às regras de uma ordem mundial regida por uma hegemonia.
O apelo ideológico de manutenção do sistema que, em tese, é bom para todos, é questionado
e esvaziado por novas visões de mundo, tanto empresariais quanto estatais. A face consensual da
hegemonia, que se assenta sobre este discurso, está fadada a desaparecer, sendo substituída por uma
pluralidade de visões que acirram ainda mais a competição e contribuem para a intensificação do
caos sistêmico.
Os princípios de equilíbrio de poder, soberania estatal e proteção do comércio, instituídos à
época da hegemonia holandesa na Paz de Westfália (1648), foram sistematicamente violados
conforme os conflitos se intensificavam. De forma homóloga, o liberalismo econômico, o equilíbrio
de poder do Concerto Europeu e a legitimidade das monarquias européias, positivados no Congresso
de Viena (1815) e atrelados à hegemonia britânica, também passaram a ser questionados e violados
pelos novos modelos políticos e econômicos. A obsolescência destes princípios e instituições
resultou na perda do soft power das hegemonias em questão, uma vez que deixaram de garantir a
estabilidade sistêmica.
13
1.4 PERDA DA CAPACIDADE COERCITIVA RELATIVA DO PODER HEGEMÔNICO
Assim como o apelo ideológico, a superioridade coercitiva do poder hegemônico também
tende a se relativizar até desaparecer. A assimetria de poder bélico, que predomina na fase de
governabilidade, desaparece quando os novos players se utilizam da expansão financeira para
desenvolver métodos de guerra que fazem frente ao poder hegemônico.
Desta forma, conforme outros Estados se armam, a hegemonia é obrigada a aumentar seus
gastos com defesa, o que agrava ainda mais sua economia – em processo de financeirização. A perda
de sua capacidade coercitiva relativa gera um vácuo de poder que estimula os novos players a
“abocanhar” o que outrora fora exclusividade da hegemonia, seja tecnologia bélica avançada,
colônias, mercados consumidores ou pontos estratégicos para uma possível guerra.
Esta necessidade de expansão estatal é verificada na noção de Norbert Elias que perduraria
até hoje, citada por Fiori (2007, p. 18), ao se referir às guerras de fins da Idade Média. De acordo
com o sociólogo, no ambiente de extrema competição, quem não sobe, cai”, ou seja, os poderes
soberanos são sempre expansivos, propondo-se em última instância a conquista de um poder cada
vez mais global, até onde alcancem seus recursos e possibilidades.
O soft power tende a predominar quando a hegemonia está em seu auge, ainda que seu poder
bélico esteja bem acima do alcance dos demais. Porém, quando o apelo ideológico da hegemonia
começa a enfraquecer, o hard power tende a ser mais usado, como que para compensar as
desvantagens econômicas e reveses políticos. Assim, o choque entre a hegemonia decadente e um
poder em ascensão torna-se praticamente inevitável.
Confrontado com a produção de navios de guerra em larga escala da Alemanha nos primeiros
anos do século XX, o governo britânico viu-se obrigado a investir ainda mais em seu poderio
marítimo para assegurar sua soberania e sua segurança. Após a Primeira Guerra Mundial, a Grã-
Bretanha deixara finalmente de ser a “senhora dos mares”, dividindo os oceanos com outros países
na seguinte proporção: 5 para Grã-Bretanha e EUA; 3 para o Japão; 1,75 para França e Itália (Neré,
1981, p. 364).
Quanto à assimetria de poder coercitivo da hegemonia holandesa, chega a ser questionável a
sua existência, dadas as derrotas em batalhas navais de “guerras de ajuste” contra a Inglaterra e a
força do exército francês. Ainda que tenha sido uma grande potência naval em meados do século
XVII, a Holanda esteve longe de apresentar uma assimetria de poder lico em relação a seus
concorrentes, sendo, na visão dos autores do presente artigo, um poder hegemônico incompleto
pleno em sua centralidade econômica e apelo consensual, mas falho em seu hard power.
14
1.5 A GUERRA DE TRINTA ANOS
Conforme os quatro elementos examinados interagem entre si, o conflito armado se torna
cada vez mais provável. Mais do que provável, Arrighi como inevitável a ocorrência de uma
guerra de grandes proporções que marca o clímax do caos sistêmico e a crise terminal (T) da
hegemonia. A este conflito, o autor o nome de “guerra de trinta anos”, pois historicamente, sua
ocorrência durou cerca de três décadas.
É possível perceber um padrão de formação das alianças que disputam esta guerra. De um
lado figura o aspirante a império-mundo, expansionista, que contesta diretamente a ordem mundial
centrada na hegemonia em declínio e busca a conquista, pela força, das fontes de poder e riqueza
desta. Como resposta a este movimento, surge uma coalizão de unidades políticas ameaçadas por
esta expansão, que são lideradas pela hegemonia em declínio, mas, principalmente, por um outro
modelo de acumulação que, assim como o império-mundo, surgiu da expansão financeira centrada
na hegemonia.
A guerra de trinta anos marca a substituição definitiva de uma hegemonia por outra, após
ambas terem lutado lado a lado contra o império-mundo. Assim, ocorre o que Arrighi (2001, P. 75)
chama de “centralização da capacidade militar e financeira nas mãos do Estado hegemônico em
ascensão”, pois apenas este chega ao final do conflito com a capacidade de reorganizar o sistema-
mundo, enquanto que a hegemonia anterior tem suas forças exauridas pela guerra.
As Guerras Napoleônicas (1792-1815) são consideradas a típica “guerra de trinta anos” de
Arrighi, em que o clímax do caos sistêmico provoca uma “desorganização aguda e irremediável”. As
estruturas existentes – o princípio do equilíbrio de poder e a soberania dos Estados não
correspondem mais aos desafios impostos pelas novas estruturas ou novas visões de mundo, no caso,
os ideais iluministas difundidos (à força) por Napoleão.
À medida que aumenta o caos sistêmico, a demanda de ‘ordem’ – a velha ordem, uma nova
ordem, qualquer ordem! – tende a generalizar cada vez mais entre os governantes, os
governados, ou ambos. Portanto, qualquer Estado ou grupo de Estados que esteja em
condições de atender a essa demanda sistêmica de ordem tem a oportunidade de se tornar
mundialmente hegemônico. (Arrighi, 1996, p. 30)
Ao final dos conflitos, o império-mundo francês é derrotado pela coalizão das demais
unidades políticas e a hegemonia holandesa está em frangalhos devido ao desgaste da guerra. Apenas
a Inglaterra, cujo modelo de acumulação se desenvolveu a partir da expansão financeira de
Amsterdã, tem as condições de garantir uma nova rodada de governabilidade sistêmica.
15
O velho roteiro da guerra de trinta anos (como clímax do caos sistêmico) voltou à cena na
Primeira Guerra Mundial e perdurou até a Segunda. Nos dois conflitos houve um aspirante a
império-mundo (a Alemanha imperial e nazista) que contestava diretamente a ordem mundial
baseada na hegemonia e buscava, por meio da força, a conquista das fontes de poder e riqueza deste
poder.
Os princípios liberais e mecanismos de negociação interestatal existentes no século XIX,
como o Concerto Europeu, foram pulverizados pela crise do entre-guerras, aniquilando os resquícios
da hegemonia britânica, cujo governo afundou-se em dívidas para evitar a invasão pelo Canal da
Mancha.
Como conseqüência da ameaça imperial da Alemanha nas duas guerras mundiais (e do Japão
e da Itália na Segunda), os EUA aparecem como líderes da coalizão anti-império-mundo e chegam
ao final dos conflitos como o único Estado capaz de reorganizar o sistema-mundo e garantir nova
rodada de governabilidade.
Não obstante, a partir de 1945 ocorrerá uma mudança de paradigmas ocasionada por dois
novos elementos: a bomba nuclear e a “convivência” da nova hegemonia (EUA) com um poder anti-
sistêmico (URSS) detentor de tecnologias de destruição em massa.
2. OS ELEMENTOS DO NOVO CAOS SISTÊMICO: LIMITES E
POSSIBILIDADES
Após o sucesso do desempenho econômico norte-americano apresentado no período do pós
Segunda Guerra Mundial, conhecido como a idade de ouro do capitalismo – que definiu o ciclo de
expansão material da potência hegemônica –, a expansão financeira nas décadas de 1970 e 1980
parece marcar o retorno à tendência de caos sistêmico, uma vez que muitos dos elementos que
caracterizam este processo podem ser verificados na atual configuração do sistema mundo moderno.
Tal como nos ciclos anteriores, o começo da expansão financeira coincide com a crise sinalizadora
(S) da hegemonia de Arrighi, momento também identificado como um sinal do outono por Braudel.
A década de 1970 marca a “crise inicial” da hegemonia norte-americana, e sua “crise terminal”,
denominada “ruptura hegemônica” no esquema deste autor (2001, p. 75) ainda encontra-se incógnita
neste início do século XXI, se é que ocorrerá. Assim, estamos vivenciando um momento decisivo na
história do capitalismo, que coincide com as variáveis típicas do caos sistêmico15.
15 À primeira vista, é fácil perceber que a economia dos Estados Unidos é significativamente menos vultosa do que era
no passado. Esta comparação livre pode ser enganosa, pois não podemos comparar os Estados Unidos de hoje com sua
16
O capitalismo mundial e o sistema interestatal passaram por significativas mudanças estruturais
na década de 197016. Na década seguinte, a reestruturação do capitalismo nos países desenvolvidos
foi posta em marcha sob o comando de governos neoliberais que se concentraram na
desregulamentação a e abertura comercial e financeira das economias nacionais. Simultaneamente,
as grandes empresas fizeram avançar um processo de reestruturação produtiva inaugurando, segundo
Harvey (1992), um padrão de acumulação flexível, baseado em novas formas de organização das
forças produtivas, pela introdução da automação e microeletrônica, desregulamentação das leis
trabalhistas e pela precarização do emprego.
Diante da escalada da competição interempresarial, as grandes empresas transnacionais buscaram
novos espaços de acumulação em locais onde a classe trabalhadora recebesse baixa remuneração,
dentre outras facilidades, como apoio de subsídios e legislações ambientais menos restritivas. Esse
processo levou à realocação geográfica de diversos segmentos produtivos, em especial, na Ásia, cujo
resultado redesenhou espacialmente o sistema capitalista mundial.
Segundo Corsi (2010, p.62), a lenta acumulação do ciclo de expansão material da hegemonia foi
a grande responsável, mas não a único, “pela ampliação do excedente de capital na forma dinheiro,
que vinha crescendo desde o final da década de 1960 e que sofreu uma majoração exponencial a
partir da própria valorização fictícia nos mercados financeiros cada vez mais globalizados”. Assim,
conclui o autor, a ampliação e a falta de controle dos mercados financeiros permitiram para a
crescente autonomia da esfera financeira em relação à produção de valor.
O predomínio do capital financeiro passou a criar um ambiente de instabilidade crônica na
economia mundial a partir da formação de bolhas especulativas. Tal processo desencadeou, ao todo,
seis crises, a saber: recessão 1990-1991; a crise do México (1994); a do Sudeste Asiático (1997);
Rússia/Brasil/Argentina (1998-2001); recessão 2001-2002 e a crise da bolha imobiliária (2007).
No período pós Guerra Fria, novos arranjos de poder e riqueza aumentaram de importância em
virtude dessa nova lógica de estruturação do sistema internacional, tal como a ascensão de blocos
econômicos de geometrias variáveis e a consolidação da Ásia (em especial a China) como um
posição ocupada no início da guerra fria. Assim, entende-se que a análise da possível crise da hegemonia norte-
americana deve ser analisada diante de uma perspectiva que conta de verificar as correlações de força imanentes no
sistema político e econômico contemporâneo. Faz-se necessário então que a comparação seja feita com as outras forças
presentes, e em particular, segundo Sader (2004), com seus pontos de força e de debilidade. Diante da limitação do
recorte de objeto proposto no presente trabalho, não será delineada a atual configuração de forças que servem como
formidáveis incentivos as facilidades e constrangimentos à hegemonia norte-americana.
16 São exemplos dessas mudanças: o colapso do sistema de Bretton Woods; as crises do petróleo (de 1973 e 1979); a
desregulamentação das finanças; o impacto da elevação da taxa de juros norte-americanos em 1979 nos países de terceiro
mundo; a liquidez mundial baseada em uma cesta de moedas, dentre outras.
17
atrativo pólo de investimentos para as forças produtivas, o que nos leva ao segundo elemento do caos
sistêmico: a ascensão de novos centros de acumulação de poder e riqueza.
Durante as últimas duas décadas, a dinâmica da economia-mundo passou a ficar mais complexa
diante do aumento do peso do novo pólo de acumulação sistêmica formado na Ásia. Em sua última
obra, Adam Smith em Pequim (2008), Arrighi afirma a tese de uma transição para uma hegemonia
com sede na Ásia, inaugurando assim, uma nova lógica de acumulação de capital com o prognóstico
de formidáveis mudanças para as próximas décadas17. A internacionalização americana associada
com o crescimento chinês permitiu o vislumbre de uma tendência capaz de produzir mudanças no
“longo” século norte-americano. São vários os especialistas que apontam sem muita surpresa a
criação nacional de acumulação de poder e de capital da China com grande capacidade gravitacional
similar à dos Estados Unidos. Assim, o incremento das relações econômico-comerciais entre este
país e China permitiu verificar um ponto atípico: a falta de uma rivalidade geopolítica sem
complementaridade econômica como ocorreu com a hegemonia inglesa (frente à rivalidade alemã), e
no século XX, com a hegemonia norte-americana frente à rivalidade soviética.
Os Estados Unidos adquiriram um quase monopólio do uso legítimo da força em escala mundial.
No entanto, seu endividamento financeiro é de tais proporções que o país torna-se vulnerável diante
dos países que controlam a liquidez internacional, tais como a China18, Japão e outros países
asiáticos. Segundo Gunder Frank (2003, p.368): “Pela primeira vez desde as origens mais remotas da
economia mundial capitalista, o poder do dinheiro parece estar escapando ou haver escapado das
mãos do Ocidente”.
Em tese, vislumbra-se a perda do poder relativa dos EUA diante de novas geometrias de poder
variável em curso, em especial na Ásia; no entanto, apesar do extraordinário crescimento da China
não é possível encontrar um candidato em um horizonte próximo que consiga reunir grande parte dos
atributos de potência hegemônica, pois, para isso, seria necessário o provável candidato contemplar
não apenas os elementos importantes para o exercício da hegemonia – como as supremacias nas
dimensões econômicas, militar, política e cultural –, mas também oferecer respostas sistêmicas
capazes de estruturar um novo momento de governabilidade, ou ainda, em se comportar como um
aspirante a império-mundo, tal como a Weltpolitik alemã no ciclo anterior. Sendo assim, a ascensão
17 Foi longo o caminho percorrido pela China para realizar o tão debatido “milagre econômico”. Um substantivo
incremento das relações sino-americanas iniciou-se na década de 1970, através da opção estratégica dos EUA em isolar a
URSS no sistema internacional a partir do acordo geopolítico realizado com a China. Como sublinha Fiori (2008, p. 66):
“Foi a maior e mais rápida expansão do território econômico supranacional’ dos Estados Unidos. Ela aumentou, de
forma geométrica, o poder do dólar e dos títulos da dívida pública do governo americanos e a capacidade de
multiplicação do seu capital financeiro”.
18 Importante mencionar que a China é o país que mais compra títulos do tesouro norte-americano, financiando assim a
dívida pública dos Estados Unidos.
18
econômica da China não tem provocado a confirmação de um aumento na escalada da competição
interestatal que seja capaz de desencadear uma guerra de trinta anos, tal como prevê o argumento de
Arrighi nos ciclos anteriores.
Ao final da Segunda Guerra Mundial (em Bretton-Woods e São Francisco19) foram criadas as
instituições internacionais que garantiram a inflação do poder consensual hegemônico norte-
americano e, por conseqüência, a nova rodada de governabilidade das décadas seguintes. A
coexistência com uma potência antagônica (a União Soviética) e as guerras regionais decorrentes
desta rivalidade – não reduziram o poder hegemônico dos EUA durante as primeiras décadas da
Guerra-Fria. Pelo contrário, o advento deste conflito em potencial deu a justificativa ideológica
necessária para a construção de um mundo pautado em instituições e valores defendidos por esta
nação.
Não obstante, com a crise econômica mundial da década de 1970 e o fim da URSS em 1991,
muitas das instituições e dos princípios que as norteavam acabaram por ser violados pela própria
hegemonia. Como conseqüência, ocorre o fenômeno da obsolescência destas organizações e ideias,
que não acompanharam ou foram obrigadas a se adaptar a um contexto diferente daquele em que
foram criadas.
Em meio à crise do petróleo de 1973 e à concorrência econômica oferecida por Japão e
Alemanha, os EUA romperam unilateralmente com o padrão ouro-dólar – uma das principais
convenções de Bretton-Woods. O neoliberalismo pregado por Reagan e Thatcher, tido como a única
alternativa após a falência do socialismo real, sofreu severos golpes a partir da década de 1990, com
a sucessão de crises econômicas em países periféricos, o agravamento das desigualdades de renda e o
crescimento desenfreado da especulação, conforme já mencionado.
Embora de natureza militar, o propósito político da Organização do Tratado do Atlântico
Norte (OTAN) também se esvaziou com o fim de sua contraparte – o Pacto de Varsóvia. Não
havendo mais a ameaça de invasão do “rolo compressor” soviético, os EUA perderam, na década de
90, a justificativa para manter suas tropas estacionadas no continente europeu.
Portanto, na visão de Gramsci e Arrighi, o enfraquecimento destas instituições reflete a
deflação de poder hegemônico, uma vez que o apelo consensual – a diplomacia e a negociação
19 Em Bretton-Woods (1944) foram criadas as instituições que regulariam a economia mundial: Fundo Monetário
Internacional (FMI), Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e a natimorta Organização
Internacional do Comércio (OIC). Em 1945, na Carta de São Francisco, foi criada a Organização das Nações Unidas
(ONU), tornando-se a autoridade máxima do Direito Internacional Público e o foro multilateral de discussões entre os
Estados soberanos do mundo.
19
multilateral é substituído por ações unilaterais coercitivas que não visam mais a governabilidade
sistêmica e sim o interesse particular e o resultado imediato.
O desrespeito às resoluções do Conselho de Segurança da ONU quanto às invasões do Iraque
e do Afeganistão, além de ações militares como na Somália em 1994, demonstram claramente a
preponderância coercitiva da política externa norte-americana nas últimas quatro décadas, gerando
um forte desgaste da imagem do país, principalmente a partir da política neoconservadora de Bush
após o 11 de Setembro. Apesar da eleição de Barack Obama, mais voltado ao diálogo multilateral
(pelo menos no discurso), tais fatos sustentam uma possível crise de liderança por parte dos Estados
Unidos em virtude da perda do apelo consensual do líder hegemônico.
Não obstante, afirmar que vivemos um período de caos sistêmico similar aos homônimos
encerrados, é contar apenas parte da história. Ainda que sejam verificáveis a expansão financeira, a
ascensão de novos centros e a corrosão do poder consensual da hegemonia, a atual configuração do
sistema internacional apresenta uma série de variáveis que não são previstas pela teoria do sistema-
mundo. Em primeiro lugar, não se pode falar da perda da capacidade coercitiva relativa do poder
norte-americano. O próprio Arrighi (2001, p. 104), admite uma anomalia: enquanto os caos
sistêmicos anteriores foram marcados pela fusão do poder financeiro e militar sob a jurisdição da
nação hegemônica ascendente, no presente momento ocorre uma fissão destes dois poderes: o
financeiro migrando para a Ásia Oriental, e o militar permanecendo nas mãos dos EUA.
Porém, apesar da manutenção da assimetria de poder bélico dos EUA, ocorre um dilema
peculiar: as armas nucleares tornaram-se um “atalho” para a maximização de poder de nações não-
centrais, de forma que o aparato militar norte-americano perde parte de sua eficácia frente a ameaças
como o Irã e a Coréia do Norte.
Partindo do princípio realista de que os Estados calculam racionalmente suas ações em
função de benefícios e prejuízos, a teoria apresenta um segundo “ponto cego”, ligado ao primeiro: a
impossibilidade de Estados de usarem arsenais nucleares devido à destruição mútua assegurada
fazendo com que a tradicional lógica da “guerra total” entre exércitos nacionais torne-se
ultrapassada. Pela primeira vez na história da humanidade, a tecnologia bélica mais avançada não
pode ser usada devido à certeza de seus efeitos colaterais negativos, estando restrita ao plano da
coerção e da ameaça. Assim, a ocorrência de uma nova “guerra de trinta anos”, que precipite o
colapso de uma hegemonia e impulsione outra, parece improvável. Por outro lado, as ações de
grupos paramilitares e/ou terroristas agindo em nome de causas diversas, têm se tornado focos de
conflitos intra e interestatais, contribuindo para a instabilidade de regiões como o Oriente Médio e a
20
América do Sul, e obrigando a hegemonia norte-americana a despender recursos em nome da
segurança.
Inúmeras outras variáveis não relevadas pela teoria do sistema-mundo poderiam ser citadas
como exclusivas do atual caos sistêmico, tornando apenas parcialmente legítima a afirmação de que,
de fato, vivemos o novo caos. Os desequilíbrios ambientais, por exemplo, consistem numa agenda
que urge não apenas Estados, mas todos os seres humanos, a pensar em conjunto, pois assim como
uma suposta guerra nuclear, geram danos que extrapolam fronteiras e não respeitam classe, cor ou
religião.
21
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O primeiro objetivo do trabalho é modesto, o segundo é ambicioso. O objetivo modesto é apresentar as principais contribuições de Wallerstein, Braudel e Arrighi para a abordagem do moderno sistema mundial. O sistema capitalista mundial como unidade de análise e os conceitos de economia-mundo e sistema interestatal são contribuições de Wallerstein. Fernand Braudel, além da contribuição metodológica da noção de longa duração, enriquece a análise com o esquema tripartido, que permite a articulação diferenciada do capitalismo com a econo-mia de mercado e com as estruturas do cotidiano. O conceito de ciclo sistêmico de acumulação, proposto por Arrighi, permite analisar a história do sistema mun-dial com diferenças qualitativas ao longo do tempo. Uma tentativa de síntese da abordagem do moderno sistema mundial é apresentada no final do trabalho. Finalmente, o objetivo ambicioso é estimular análises críticas sobre o capitalis-mo contemporâneo baseadas nessa abordagem.
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Desde agosto de 2007, o capitalismo global vive uma crise estrutural de grandes proporções, cuja causa imediata foi o estouro da bolha de títulos imobiliários nos EUA. O estouro da bolha se alastrou rapidamente para o sistema financeiro e para a economia em escala mundial. O epicentro irradiador da crise é o próprio coração do sistema e não mais a periferia, como nos anos 1990. A forte queda do movimento especulativo com ações na Nasdaq, em 2000, foi o primeiro prenúncio de que a crise sistêmica tinha alcançado o núcleo do capitalismo. Embora o contexto histórico seja bem diverso, o desenrolar da crise atual guarda certas semelhanças com a de 1929, que foi, pouco a pouco, se agravando e atingiu o auge em 1932 e 1933. Contudo, a atual crise de sobreacumulação de capital não repete as que a antecederam. Cada uma tem suas próprias e múltiplas determinações. Porém, como no passado, o capitalismo, tudo indica, reagirá à crise se reestruturando.
Hegemonia e nova ordem mundial Ler Gramsci, entender a realidade
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SERRANO, Franklin. O mito do colapso do poder americano. Rio de Janiero: Record, 2008. FONTANA, Benedetto. Hegemonia e nova ordem mundial. In: COUTINHO, Nelson ; TEIXEIRA, Andréa de Paula (Org.). Ler Gramsci, entender a realidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
Tigre de papel, dragão de fogo
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HOBSBAWM, Eric. Da Revolução Industrial inglesa ao imperialismo. 5ª Ed-Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.
hegemonia e relações internacionais: um ensaio sobre o método
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Hegemonia y contra-hegemonia In: Hegemonias y emanciopaciones em El siglo XXI
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O sistema interestatal capitalista no início do século XXI
  • Carlos Medeiros
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O sistema interestatal capitalista no início do século XXI. In: MEDEIROS, Carlos Aguiar;
O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo
  • Giovanni Arrighi
ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Rio de Janeiro: Contraponto;
O poder global e a nova geopolítica das nações. São Paulo: Botempo Editorial
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