O abastecimento público de aglomerados urbanos em
água potável, por tradição garantido a partir de rios e ribeiras,
fontes e exsurgências naturais, ou ainda através de poços
abertos para aproveitamento de aquíferos freáticos, cedo se
constituiu uma preocupação crescente das autoridades civis,
municipais, principalmente a partir do momento em que o
crescimento demográfico acentuou carências e o risco de
epidemias colocava em perigo a saúde dos cidadãos.
Encruzilhada de saberes, a temática das águas, tem vindo
a ser valorizada pelos investigadores das diversas áreas da
História da Ciência e das Técnicas, sendo atualmente, a nível
internacional, muito vasta a produção científica disponível,
em domínios como os da história do abastecimento, da saúde
pública, do património hidráulico e das políticas de gestão e
de saneamento básico. Em Portugal estes temas também têm
sido explorados, tanto no âmbito da investigação académica,
como na produção de trabalhos de divulgação. Refiram-se,
a título de exemplo, a imensa produção sobre a história e
o património gerado em torno do abastecimento de água
a Lisboa, e a investigação, nos mesmos domínios, referente
a Braga, Castelo Branco, Coimbra e região conimbricense,
Évora, Porto e Matosinhos.
O acesso à água potável e a adequação do saneamento
básico ao dimensionamento urbano, consideradas
necessidades fundamentais e ineludíveis, colocadas
ao alcance de todos os habitantes, são generalizações
relativamente recentes, em termos históricos, no mundo
ocidental. Ainda há pouco mais de um século, em muitos
lugares, a água canalizada ao domicílio, inspirada no modelo
da Inglaterra vitoriana, era um luxo ao alcance de poucos,
enquanto a generalidade da população tinha de recorrer a
fontanários públicos, a aguadeiros, ou a outros expedientes
para obter o precioso líquido, nem sempre nas desejáveis
condições de salubridade. Por tais motivos, as condições de
higiene da população urbana de setecentos ou oitocentos, em
épocas anteriores aos progressos estruturais que marcaram
a segunda revolução industrial, eram bastante precárias
e as epidemias sucediam-se, deixando rastos de morte e
insegurança. A cólera, em particular, foi particularmente
mortífera e grassou por pelo menos oito vezes, desde o seu
aparecimento em Portugal, durante o cerco do Porto (1832-
1833), sendo mais grave o surto de 1855, no reinado de D.
Pedro V, falecido precocemente, vítima de febre tifoide.
Bem longe da dimensão de outras cidades portuguesas,
bastante mais populosas e, desde longa data, supridas
parcialmente de água através aquedutos, a Figueira da
Foz conseguiu mitigar as limitações de um abastecimento
público que, até meados do segundo quartel do século XIX,
era apenas assegurado por alguns fontanários locais, ligados
a nascentes de caudal modesto, ainda mais limitado durante
o estio. Estes escassos pontos de água, foco permanente de
algum descontentamento por parte de setores necessitados
da população e de agentes ligados a atividades locais,
sobretudo as comerciais e portuárias, eram alimentados por
uma pequena rede de condutas, cuja construção remontava,
pelo menos, ao século XVIII.1 Destas, conhecem-se diversas
estruturas subterrâneas, descobertas aquando da realização
de obras intrusivas no seio do núcleo urbano da cidade, as
quais foram, ao tempo, acompanhadas pelo gabinete de
arqueologia do Museu Municipal Santos Rocha.
Finda a instabilidade política das décadas de 1830
e 1840, o progresso socioeconómico figueirense sofreu
forte incremento, apoiado que estava solidamente numa
burguesia emergente, ligada ao florescimento de atividades
mercantis, designadamente o sal, os vinhos e os frutos das
Beiras, para além de outras relacionadas com o movimento
portuário e a pesca costeira e de longo curso. Estas atividades,
aliadas ao crescimento da procura sazonal da Figueira da Foz
enquanto estância balnear de excelência, contribuíram para
a sua ascensão a cidade em setembro de 1882, motivando
ainda mais uma resposta adequada à necessidade, desde
há muito sentida, de dotar o núcleo urbano de modernas
infraestruturas de abastecimento de água, iluminação pública e saneamento. Tais aspirações eram consonantes
com os padrões “civilizados” da época, abraçados, em
Portugal, pelos governos da Regeneração.
É neste quadro que, no último quartel do século XIX, por
iniciativa de um dos grandes vultos figueirenses, António dos
Santos Rocha (Figueira da Foz, 30 de abril de 1853 - Figueira
da Foz, 28 de março de 1910), causídico local que à época
liderava o executivo municipal, foi lançado um novo projeto
de abastecimento de água à cidade, da autoria do engenheiro
Joaquim Filipe da Encarnação Nery Delgado (Elvas, 26 de
maio de 1835 - Figueira da Foz, 3 de agosto de 1908), membro
adjunto da Comissão Geológica do Reino, cuja experiência
nesta área já fora demonstrada em trabalhos de índole
semelhante, cruzando os seus profundos conhecimentos de
Geologia com as Artes da moderna Engenharia.
Movendo-se num quadro legal ainda pouco consolidado,
as obras e a concessão da exploração e distribuição das águas
a partir de nascentes nas faldas da serra da Boa Viagem,
foram confiadas, em 1886, à The Anglo-Portuguese Gas &
Water Company Limited, sociedade de capitais ingleses, que
arrematou também, a concessão para o gás. A execução
do projeto foi atribulada, sucedendo-se mal-entendidos
e conflitos a que não terão sido estranhos o clima de
animosidade para com os ingleses, que derivou do Ultimato
de 1890, e a complicada situação financeira que se viveu
na última década do século, a qual permitiu a afirmação do
movimento republicano, vincada com a revolta do 31 de
janeiro e a implementação de novas políticas económicas.
Assim, desde meados de 1889 que a população
figueirense passou a dispor de uma rede de fontanários
públicos que antecederam a generalização da água
canalizada ao domicílio, a qual permitiu ultrapassar, em
grande medida, a tradicional escassez deste líquido durante
os meses de verão, quando a população não residente
aumentava substancialmente; porém, os trabalhos só foram
oficialmente reconhecidos como terminados em 1895.
Na literatura sobre a Figueira da Foz, são escassas as
referências ao projeto, assumido como “coisa natural”, mas
cuja relevância decorre, para além do progresso que trouxe
à sede do município, do facto de ter sido concebido por um
dos pioneiros dos estudos geológicos oficiais em Portugal,
também ele um grande vulto da ciência no nosso país e
engenheiro prestigiado. Tema pois pertinente, que justificou,
na ótica dos autores, a sua abordagem em fóruns recentes .2
Desta importante obra, parte inalienável do património
histórico-arquitetónico municipal, restam ainda, várias peças
construídas, embora, em parte, há anos desativada; outros
destes elementos centenários ainda integram a atual rede
de distribuição, nomeadamente três dos chafarizes originais
da cidade e o reservatório do alto do Pinhal, este último
contíguo ao edifício sede da empresa Águas da Figueira
e ampliado em 1985, já no âmbito das competências dos
Serviços Municipalizados de Água.3
Para além de se revestir de um grande interesse para a
história do município figueirense, o projeto de Nery Delgado e
sua execução, tema central dos capítulos seguintes, constitui
um importante estudo de caso sobre a modernidade urbana
de finais do século XIX, quando as cidades portuguesas se
começaram a dotar das infraestruturas básicas que hoje as
caracterizam, transformando profundamente muitos aspetos
das vivências quotidianas das suas populações.
A revelação deste projeto e dos episódios com ele
relaionados, põe em evidência a relevância da documentação
epistolar de Nery Delgado, principal âncora do presente texto.
Este, guardava meticulososamente toda a correspondência
recebida, bem como as minutas das cartas enviadas, parte da
qual foi incorporada no Arquivo Histórico Geológico-Mineiro
do LNEG. Cruzada com a documentação do Arquivo Histórico
Municipal da Câmara Municipal da Figueira da Foz, e com
outras fontes, constitui-se, como um registo incontornável
sobre a História da Ciência e das Técnicas, em Portugal.
Ao reunir documentos sobre a conceção e implementação
do projeto oitocentista de abastecimento público de águas
à Figueira da Foz, o presente texto esboça uma leitura
diacrónica dos seus principais passos e contornos, cuja
visão condensada se apresenta no ANEXO I. Para além da
concessionária, resgata ao esquecimento os seus atores
fundamentais, técnicos, autarcas e gerentes, que se trazem,
na primeira pessoa, transcrevendo o seu pensamento e
afirmações, sempre que tal se julgou pertinente.
Assume-se, também, como mais uma contribuição para
o conhecimento da história social e industrial contemporânea
da cidade da famosa Praia da Claridade.