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Viajantes-naturalistas no Brasil oitocentista: Experiência, relato e imagem

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Abstract

As concepções sobre o modo de fazer ciência que privilegiam o trabalho de campo ou o de gabinete coexistem no século XIX. Os naturalistas que vieram ao Brasil haviam feito a opção de "ver com os próprios olhos". Nas grandes expedições científicas, os viajantes buscam dar conta das sensações e impressões experimentadas durante sua estada no Brasil não só utilizando o desenho e a pintura, mas também fazendo ricas descrições textuais. Para grande parte dos naturalistas do século XIX, a multiplicidade de sensações que envolvem o naturalista em sua viagem poderia e deveria ser descrita pela ciência. Assim, o cientista que se faz viajante escolheu não apenas ver com os próprios olhos, mas ouvir e sentir com o próprio corpo os fenômenos lá onde acontecem. Porém, o viajante romântico, se por um lado produzia ciência in loco, por outro, acabou se especializando no registro preciso de sensações e fenômenos, em consonância com os métodos científicos estabelecidos na época.
JUL.-AGO. 2001 863
VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
KURY, L.: Viajantes-naturalistas no Brasil
oitocentista: experiência, relato e imagem.
História, Ciências, Saúde  Manguinhos,
vol. VIII (suplemento), 863-80, 2001.
As concepções sobre o modo de fazer ciência
que privilegiam o trabalho de campo ou o de
gabinete coexistem no século XIX. Os
naturalistas que vieram ao Brasil haviam feito
a opção de ver com os próprios olhos. Nas
grandes expedições científicas, os viajantes
buscam dar conta das sensações e impressões
experimentadas durante sua estada no Brasil
não só utilizando o desenho e a pintura, mas
também fazendo ricas descrições textuais. Para
grande parte dos naturalistas do século XIX, a
multiplicidade de sensações que envolvem o
naturalista em sua viagem poderia e deveria ser
descrita pela ciência. Assim, o cientista que se
faz viajante escolheu não apenas ver com os
próprios olhos, mas ouvir e sentir com o
próprio corpo os fenômenos lá onde
acontecem. Porém, o viajante romântico, se
por um lado produzia ciência in loco, por
outro, acabou se especializando no registro
preciso de sensações e fenômenos, em
consonância com os métodos científicos
estabelecidos na época.
PALAVRAS-CHAVE: viajantes, história natural,
viagens, iconografia.
KURY, L.: Scientific travellers in eighteenth-
century Brazil: their experience, reports and
graphic representations.
História, Ciências, Saúde  Manguinhos,
vol. VIII (suplemment), 863-80, 2001.
Two different approaches to science lived side
by side in the nineteenth century: office and
fieldwork. The naturalists who came to Brazil
had chosen to see it with their own eyes. In
great scientific expeditions, travelers tried to
cope with the sensations and impressions they
had during their stay in Brazil not only
through their drawings and paintings, but also
through rich descriptive texts. For a large
number of nineteenth-century naturalists, the
multiple sensations experienced during their
journeys could and should be described by
science. Thus, a naturalist who made the
choice of being a traveler chose not only to see
it with his own eyes, but also to hear and feel
on his own body the phenomena there, where
they took place. However, if on one hand
romantic travelers made science in loco, on the
other hand they ended up specializing in
precisely recording their sensations and
observed phenomena according to the scientific
methods of their times.
KEYWORDS: scientific travellers, Natural
History, scientific journeys, Iconography.
Viajantes-
naturalistas no
Brasil oitocentista:
experiência, relato e
imagem
Scientific travellers in
eighteenth-century
Brazil: their
experience, reports
and graphic
Lorelai Kury
Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz, Fundação
Oswaldo Cruz
lkury@gbl.com.br
representations
864 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII (suplemento)
LORELAI KURY
Os naturalistas que vieram ao Brasil haviam tomado a difícil decisão
de viajar. Difícil não apenas por causa dos perigos físicos que
corriam durante suas aventuras, mas também porque a comunidade
científica não era unânime quanto à valorização do trabalho do viajante.
Muitos dos mais célebres naturalistas europeus nunca viajaram. Essa
tarefa era muitas vezes realizada por naturalistas mais jovens, oficiais
da Marinha, nobres em busca de entretenimento filantrópico ou
aventureiros em geral (Kury, 2001).
Georges Cuvier (1769-1832), um dos mais poderosos homens de
ciência de seu tempo, não foi um viajante. Convidado por Bonaparte
para acompanhá-lo na expedição do Egito em 1798, decidiu ficar em
Paris. Seu amigo e futuro adversário Geoffroy Saint-Hilaire decidiu, ao
contrário, tomar o caminho da África. Cuvier justificou posteriormente
sua escolha com razões científicas: encontrava-se em Paris, capital da
ciência, tendo à sua disposição as mais completas coleções de história
natural do mundo. Uma expedição desse gênero teria sido prejudicial
à coerência e ao caráter sistemático de seus trabalhos. Tratava-se
igualmente de uma escolha em função da gestão de sua carreira e de
seu prestígio, tendo em vista seu posicionamento nas instituições
científicas do consulado.
Alguns anos mais tarde, ao analisar a tradução francesa dos Quadros
da natureza, de Alexander von Humboldt, Cuvier aproveita a ocasião
para defender seu ponto de vista, comparando o naturalista viajante ao
sedentário. O primeiro, ao percorrer diferentes lugares, não pode se
deter diante de tudo que o impressiona, tal é a quantidade de objetos
que chamam atenção. Se, por um lado, ele pode observar as coisas e
os seres nos próprios lugares onde a natureza os colocou, por outro,
não pode consultar lá mesmo seus livros ou comparar os exemplares
que encontra com outros semelhantes. Já com o naturalista sedentário,
acontece o contrário:
é verdade que conhece os seres dos países longínquos apenas
através de relatos e amostras mais ou menos alteradas; as grandes
cenas da natureza não podem ser sentidas por ele com a mesma
vivacidade que por aqueles que as testemunharam; porém, esses
inconvenientes são compensados por muitas vantagens. Se ele
não vê a natureza em ação, ele pode fazer desfilarem diante de
si todos os produtos; ele leva o tempo que quiser para examiná-
los; ele pode acrescentar ao estudo fatos correlatos de diversas
procedências. O viajante percorre apenas um caminho estreito.
É unicamente no gabinete que se pode percorrer o universo
em todos os sentidos; mas é necessário, para tanto, um outro
tipo de coragem: aquela que provém de uma devoção sem limites
pela verdade e que só permite o abandono de tema quando, por
meio da reflexão, da observação e da erudição, ele foi iluminado
por todos os raios que o estado momentâneo de nossos
conhecimentos pode oferecer (apud Outram, 1984, p. 62).
JUL.-AGO. 2001 865
VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
Essas duas perspectivas de trabalho para um naturalista podem ser
efetivamente encontradas em meio aos contemporâneos de Cuvier.
O exemplo mais conhecido do viajante para quem a experiência da
viagem é insubstituível é certamente Alexander von Humboldt.1 Defende
que impressões estéticas experimentadas pelo viajante em cada região
fazem parte da própria atividade científica e não podem ser substituídas
por descrições ou amostras destacadas dos lugares onde foram coletadas.
Leitor de Bernardin de Saint-Pierre, ambos compartilham a opinião de
que o gosto e a sensibilidade são parte integrante do ato de conhecimento.
Além da questão estética, o que preside a busca de Humboldt pelas
paisagens singulares é sua preocupação com a distribuição dos vegetais
pelo planeta e o tipo de sociabilidade de cada planta. vegetais
sociais, que só vivem em grupos, e vegetais não sociais, que vivem
sozinhos. Cada região da terra, por razões climáticas, geográficas e
topográficas, acolhe espécies vegetais distintas, que compõem diferentes
fisionomias.
A abordagem humboldtiana da natureza não é, assim, unicamente
intuitiva: o viajante mede de maneira sistemática e precisa os fatores
físicos que intervêm em cada lugar estudado, tais como temperatura,
altitude, pressão, umidade, além de estudar os hábitos das principais
espécies vegetais que compõem a paisagem na qual o naturalista se
encontra.
Como foi dito, o método de trabalho preferido por Cuvier pressupõe
um outro lugar de produção de conhecimento: o gabinete. A imersão
no trabalho de campo, cara a Humboldt, é substituída por bibliotecas,
laboratórios, coleções, herbários, jardins botânicos... Essa opção não
indica desprezo com relação aos resultados das viagens, e sim uma
espécie de proposta de divisão de trabalho científico, em que o viajante
é visto como um coletor, cujas coleções e informações são essenciais
para a história natural.
Os viajantes-naturalistas que vieram ao Brasil e reivindicavam a
influência de Humboldt, tais como von Martius ou Auguste de Saint-
Hilaire, optaram pela viagem: queriam ver com os próprios olhos.
Porém, cabia a eles transformar sensações, experiências e seres vivos
em novas espécies de animais e plantas que se encaixassem na ordem
natural das famílias, em herbários, animais empalhados, bichinhos
imersos em álcool, descrições detalhadas escritas de modo inteligível
em cadernos de viagens etc.
A viagem é em geral considerada pela história natural como uma
das etapas necessárias para a transformação da natureza em ciência.
Muitas vezes, o coletor e o sistematizador não são a mesma pessoa. Ou
seja, para a história natural realizada nas instituições européias, ver
com os próprios olhos não é necessário. Daí a importância que adquirem
as instruções para as viagens científicas e a formação de profissionais
de diversos tipos, tais como jardineiros coletores, desenhistas e pintores
especializados em história natural, preparadores de animais (que
1 A bibliografia sobre
Alexander von Humboldt
é bastante extensa. Ver,
entre outros, Dettelbach
(1996) e Nicolson
(1990).
866 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII (suplemento)
LORELAI KURY
conheciam os procedimentos de conservação e empalhamento), que
acompanhavam ou algumas vezes substituíam os próprios naturalistas.
A obra de Humboldt sobre o Novo Mundo e sua aura de grande
sábio são referência constante para seus contemporâneos que vieram
ao Brasil. A arte  expressão privilegiada para dar conta das sensações
visuais experimentadas pelos viajantes acompanha sempre que
possível os relatos e descrições feitos por naturalistas. As grandes
expedições podiam muitas vezes contar com a presença de artistas,
como Louis de Choris, Thomas Ender ou Adrien Taunay (Belluzzo,
1999; Diener e Costa, 1999; Martins, 1999). O mais marcante da
abordagem humboldtiana, independentemente da qualidade artística
das representações, é o estudo das fisionomias das paisagens. Por
exemplo: certas regiões da Europa se distinguem pelas florestas de
pinheiros que acompanham as montanhas. O pinheiro é uma planta
social, ou seja, sempre há grande número de indivíduos da mesma
espécie juntos. Já a floresta tropical se caracteriza pela combinação de
plantas não sociais, isto é, uma mesma paisagem compõe-se de enorme
variedade de espécies diferentes. As florestas brasileiras, onde os vegetais
se confundem e se misturam uns com os outros, são freqüentemente
retratadas com imagens e com palavras, e se tornavam uma espécie de
passagem obrigatória nas descrições de viagens a países de floresta
tropical úmida. O botânico Auguste de Saint-Hilaire (1830, p. 11) sublinha
esse aspecto, quando trata da Mata Atlântica: nada aqui lembra a
cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e de pinheiros;
cada árvore tem, por assim dizer, um porte que lhe é próprio; cada uma
tem sua folhagem e oferece freqüentemente uma tonalidade de verde
diferente das árvores vizinhas. Vegetais , que pertencem a famílias
distantes, misturam seus galhos e confundem suas folhas.
O botânico Carl Philipp von Martius talvez seja o mais importante
humboldtiano que visitou o Brasil. Além de produzir classificações
precisas, numerosos herbários e trabalhos em antropologia e história,
esse naturalista descreveu com sensibilidade diversas fisionomias vegetais
presentes no Brasil.2 Em algumas regiões, são as palmeiras que fornecem
o caráter dominante das paisagens; em outras, as bananeiras ou as
árvores frondosas. O primeiro volume de sua Flora Brasiliensis, de
1840, contém mais de cinqüenta pranchas que buscam retratar a variedade
da vegetação, do relevo e da fauna do Brasil. Uma das imagens do
Icones Selectae Plantarum Cryptogamicarum (1828-34) retrata um
conjunto vegetal em que, não fosse a legenda a distinguir indivíduos
em meio a uma floresta, um olhar inadvertido jamais localizaria as
espécies representadas (Imagem 1).
No monumental Historia Naturalis Palmarum (1823-53), de Martius,
as espécies estudadas aparecem em três registros diferentes: retratadas
a partir de seus detalhes morfológicos (Imagem 2); inseridas em seu
ambiente natural (Imagem 3) (paisagens, em alguns casos, com a
presença de animais, de humanos e de edificações); dispostas em
2 Sobre a concepção de
história de Martius, ver
Guimarães (2000). No
que diz respeito a
Martius como viajante,
ver Lisboa (1997).
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VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
grandes mapas do mundo (Imagem 4), indicando as zonas climáticas
onde ocorrem. Fisionomias e detalhes alternam-se a fim de dar conta
do contexto em que as espécies vivem e da descrição minuciosa de
suas partes componentes, o que é essencial para a classificação e para
a compreensão do desenvolvimento do vegetal. O naturalista evidencia
a importância que as imagens têm em seu trabalho científico. A
legenda da prancha 60 (Astrocaryum gynacanthum, Bactris pectinata
e Bactris hirta) (Imagem 5) avalia os diversos registros que podem
ajudar o estudioso a compreender melhor a história natural das palmeiras
no Brasil:
É mais difícil retratar o caráter das jovens florestas brasileiras
com palavras do que com imagens; e desse modo parece-nos já
ter satisfeito ao benévolo leitor com a arte do pintor. Contudo
aquele que deseje saber mais sobre a natureza destas florestas,
percorra a narração de nossa viagem e o nosso discurso
acadêmico sobre a fisionomia das plantas no Brasil (Martius,
1823-53, vol. II, pp.73-4).
Assim, imagem e texto articulam-se organicamente na produção
científica de Martius. O discurso acadêmico ao qual ele fez referência
A fisionomia do reino vegetal, de 1824 descreve as diversas
fisionomias que compõem o país. O Brasil é definido como um todo
geográfico, delimitado pelo mar e por dois grandes rios: o da Prata e o
Amazonas. A unidade subjacente a essa região é dada pelas florestas,
que dominam grande parte do território. A umidade, a altitude, a
proximidade do equador, entre outros fatores, alteram a vegetação e,
conseqüentemente, a fisionomia dos lugares.
Voltando à prancha 60 de Historia Naturalis Palmarum, vê-se aí
não apenas um conjunto vegetal, mas também a presença de um índio
e de uma onça. Esses elementos ajudam a compor a fisionomia dessa
floresta amazônica, onde ocorrem as palmeiras descritas e onde a cena
de caça poderia acontecer.
Homens e natureza são estreitamente relacionados nas concepções
científicas de Martius, assim como o eram para Humboldt. Este último
afirmava, por exemplo, que
mesmo que o começo desta civilização (do gênero humano) não
seja unicamente determinado pelas relações físicas, ao menos
sua direção, o caráter dos povos e as disposições alegres ou
sérias dos homens dependem quase inteiramente da influência
do clima. ... A influência do mundo físico sobre o moral, esta ação
recíproca e misteriosa do material e do imaterial, dão ao estudo
da natureza, quando a contemplamos de um ponto de vista
elevado, um atrativo particular ainda muito pouco conhecido
(Humboldt, 1828, pp. 23-6).
868 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII (suplemento)
LORELAI KURY
Do mesmo modo, Martius relaciona o caráter das populações ao
ambiente onde vivem. No discurso de 1824 (op. cit., p. 246), ele descreve
a floresta amazônica da seguinte maneira:
Escuro como o inferno, emaranhado como o caos, aqui se estende
uma floresta impenetrável de troncos gigantescos, desde a foz
do Amazonas até muito além do território português em direção
a Oeste. ... A natureza pudibunda do reino vegetal parece, de
repente, sentir prazer em produzir formações grotescas, numa
ânsia inquieta. Arbustos com espinhos irritantes e malignos,
palmeiras com terríveis aguilhões, cipós laticíferos emaranhados
perturbam os sentidos do peregrino ... Não admira que a alma do
índio, errando em tal ambiente, torne-se sombria e de tal maneira,
que, perseguido pelas sombras da solidão, possa ver em toda
parte criações fantasmagóricas da sua rude imaginação.
A percepção das fisionomias como conjuntos de dados climáticos,
topográficos, culturais, de flora e de fauna permite delinear uma postura
ecológica avant la lettre, que relaciona os seres vivos a uma determinada
economia natural (Acot, 1998). A conhecida imagem da lagoa do rio
São Francisco (Imagem 6) repleta de aves ilustra perfeitamente esse
aspecto da percepção do naturalista. Os pássaros inserem-se no
interior de uma paisagem, da qual são inseparáveis. A mão do homem,
e do naturalista em particular, pode tirar as aves de seu contexto para
expô-las em museus ou conservá-las em laboratórios. Cabe ao artista
zelar para que o público apreciador das viagens científicas possa
apreender a totalidade do lugar de onde foram retiradas. A descrição
textual que o naturalista faz desta imagem em sua Reise in Brasilien
impressiona pela visão da dinâmica ecológica que ele percebe no
microcosmo em que transformou a lagoa do rio São Francisco:
Ressoam aqui, na mais alvoroçada celeuma grasnada, chiados e
gorjeios sem fim dos mais diversos gêneros de aves, e, quanto
mais observávamos o raro espetáculo, em que os animais, com a
nata independência e vivacidade, sozinhos representavam os papéis
no espetáculo da natureza, tanto menos vontade sentíamos de
perturbar, com mortíferos tiros, aquele cenário pacífico da natureza.
... Parecia-nos ter-se renovado o quadro da criação do mundo
diante dos nossos olhos, e esse maravilhoso espetáculo nos teria
ainda mais agradavelmente impressionado, se não ocorresse o
pensamento de que a guerra, a eterna guerra, era a lei e misteriosa
condição de toda existência animal. As inúmeras espécies de aves
aquáticas e paludícolas aqui se agitavam, umas no meio das outras,
descuidadas, perseguindo cada qual seu gênero de presa, de
insetos, rãs e peixes e cada qual sendo procurada por seu próprio
inimigo (Martius e Spix, 1981, vol. II, pp. 88-9).
JUL.-AGO. 2001 869
VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
A variedade de registros que se originam da observação e da pesquisa
de um determinado fenômeno inclui, no caso da viagem de Spix e
Martius ao Brasil, o tratamento da natureza como conjunto de indivíduos
animais e vegetais, tratados pelos métodos científicos que se atêm aos
detalhes. O rio São Francisco e suas margens foram uma das fontes dos
espécimens coletados por esses viajantes. Além de imagens fisionômicas
e textos em estilo cuidado, o material resultante da viagem inclui
herbários, animais empalhados, pranchas que retratam as partes
componentes de animais e plantas e textos descritivos dessas mesmas
partes.
A iconografia resultante das viagens científicas do século XIX costuma
representar cenas consideradas típicas da vida nos trópicos, onde a
natureza e os indígenas têm papel preponderante. O pintor Louis de
Choris, que passou pelo Sul do Brasil em 1815, procurou retratar traços
naturais e humanos no interior de um mesmo conjunto. Em uma das
poucas ilustrações que fez sobre o Brasil, insere em uma paisagem de
Santa Catarina pássaros, répteis, plantas, relevo local e o que seria um
brasileiro típico.
Diversos naturalistas incluem em suas obras cenas que retratam a
relação dos homens com a natureza, como é o caso do Selecta Genera
et Species Piscium, de Spix (1829-31), que retrata os índios e suas técnicas
de pesca. A utilização de produtos naturais pelas populações locais
está presente igualmente nas imagens pitorescas de diversos artistas.
Jean Baptiste Debret, por exemplo, evidencia a presença de plantas e
animais exóticos em obras que mostram escravos vendendo frutos
tropicais, negros caçadores e coletores de borboletas. A obra de Wied-
Neuwied também enfatiza esse aspecto da interação entre homem e
mundo natural, como pode ser visto nas ilustrações de seu relato de
viagens, onde índios aparecem ocupados com seus afazeres cotidianos
e grupos típicos são retratados em suas relações com paisagens, animais
e plantas locais.
A tentativa de registrar a totalidade dos fenômenos naturais e a
consideração dos fatos da cultura como parte integrante das paisagens
naturais levou diversos naturalistas a buscarem auxílio na vivacidade
das descrições literárias para delinear fisionomias. O botânico von
Martius recorre inúmeras vezes a citações literárias e poéticas que o
auxiliem na tarefa de descrever com precisão as sensações vividas. No
primeiro volume de sua Flora Brasiliensis (1996, p. 88), por exemplo,
lança mão de um trecho de poema de Goethe para descrever a sensação
de estar perdido em meio aos arbustos de um planalto da província de
Minas Gerais (Imagem 7):
Ai do cansado viajante, que, a pé e sozinho, é levado a erro nesta
imensidão de arbustos, onde não nenhum vestígio de cultura
humana; tudo é indício de uma natureza primitiva. A esta singular
e quase hórrida espécie de natureza enquadra-se o que disse o
870 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII (suplemento)
LORELAI KURY
nosso maior poeta, Goethe: Mas porém quem é ele?/ entre os
arbustos perde-se o seu rastro,/ Atrás dele fecham-se/Os arbustos/
As hastes da grama erguem-se novamente/ O vazio o engole!
Assim, o modelo humboldtiano orientou uma determinada maneira
de retratar os lugares percorridos pelos viajantes. A descrição das
fisionomias particulares permitia, em aparente paradoxo, integrar os
fenômenos particulares ao cosmos. Diversos tipos de representação 
iconográficas, textuais e material museológico  compõem o quadro
de um lugar específico. Esse quadro retrata sua essência. A ciência dos
viajantes busca atingir o que está por trás da variedade e da profusão
dos fenômenos. Martius escolhe com precisão as fisionomias retratadas
em seus inúmeros livros, muitas vezes desenhadas ou pelo menos
esboçadas por ele mesmo ou por artistas conceituados que vieram ao
Brasil, como Rugendas e Thomas Ender. Os momentos retratados são
especiais, únicos e típicos ao mesmo tempo. Únicos, porque foram
vividos e observados pelo próprio viajante ao longo de suas andanças.
Típicos, porque os fenômenos descritos ocorrem ali sempre sob as
mesmas circunstâncias. A fisionomia de um lugar depende da
quantidade, da variedade e da sociabilidade das plantas e dos animais,
assim como do tipo de relação que os habitantes locais estabeleceram
com a natureza ao longo do tempo. É como se cada fisionomia contivesse
uma parte da alma do Brasil.
A iconografia e os relatos de viagem buscam, assim, descrever de
modo exaustivo e profundo os diversos elementos que compõem cada
lugar. Esse aspecto do trabalho científico dos naturalistas do século XIX
pode parecer, aos leitores do século XX, meramente pitoresco ou
romântico, no sentido pejorativo que a palavra adquiriu. No século
XXI, para rejeitar os possíveis anacronismos interpretativos, é preciso
compreender que, para os naturalistas do século XIX, a ciência devia
buscar descrever a totalidade de elementos que atuavam em um
fenômeno local. É como se cada parte contivesse o todo. Uma fisionomia
particular seguiria a mesma lógica de relações harmônicas e de simpatias
que, supunha-se, regiam a vida cósmica.
Apesar de se especializar na descrição de sensações, a ciência
romântica de matriz humboldtiana não deve ser confundida com
descrições de cunho inteiramente pessoal e, por isso, totalmente
subjetivas. Humboldt, Martius, Saint-Hilaire, ou Wied-Neuwied
acreditavam utilizar os recursos das artes e da retórica para retratarem
fielmente a realidade que observavam. A sensibilidade individual seria
importante na medida em que dota alguns indivíduos da capacidade
de perceber as forças que atuam na natureza e de transmitir as sensações
vividas.
Para grande parte dos naturalistas do século XIX, a multiplicidade
de sensações que envolvem o naturalista em sua viagem poderia e
deveria ser descrita pela ciência. Daí o uso de representações pictóricas
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VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
Imagem 1 Alsophila armata e Didymochaena sinuosa (Martius, 1828-34). Um olhar inadvertido jamais localizaria as
espécies representadas, se não fosse a legenda a distinguir indivíduos em meio à floresta.
872 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII (suplemento)
LORELAI KURY
Imagem 2  Martius (1823-53).
Nesta imagem, as espécies são retratadas a partir de seus detalhes morfológicos.
JUL.-AGO. 2001 873
VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
Imagem 3  Martius (1823-53).
Aqui as plantas aparecem inseridas em seu ambiente natural.
874 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII (suplemento)
LORELAI KURY
Imagens 4a e 4b  Martius (1823- 53).
Nos mapas, os trechos coloridos em tons de vermelho e chocolate indicam as regiões onde as palmeiras ocorrem.
JUL.-AGO. 2001 875
VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
876 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII (suplemento)
LORELAI KURY
Imagem 5  É mais difícil retratar o caráter das jovens florestas brasileiras com palavras do que com imagens;
e desse modo parece-nos já ter satisfeito ao benévolo leitor com a arte do pintor (Martius, 1823-53, vol. II, p. 73).
JUL.-AGO. 2001 877
VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
Imagem 6  Lagoa das aves, no rio São Francisco, atribuída a Martius. Os pássaros inserem-se aí no interior de uma paisagem, da qual são inseparáveis.
878 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII (suplemento)
LORELAI KURY
Imagem 7  Campos extensos, cobertos de denso matagal, perto da serra de Santo Antônio do Deserto, província de Minas (Martius, vol. 1, 1840).
JUL.-AGO. 2001 879
VIAJANTES-NATURALISTAS NO BRASIL
e a preocupação com os recursos literários das narrativas de viagem.
Assim, o cientista que se fez viajante escolheu não apenas ver com os
próprios olhos, mas ouvir e sentir com o próprio corpo os fenômenos
onde acontecem. Talvez resida aí uma das hesitações da ciência
romântica, já que, se por um lado o viajante romântico produzia ciência
in loco, por outro, acabou se especializando no registro preciso de
sensações e fenômenos, em consonância com os métodos científicos
estabelecidos na época. A experiência da viagem pode, então, ser
reproduzida, deixando, assim, de ser insubstituível.
As instruções de viagem do século XIX insinuam que, para a ciência,
pouco deveria importar quem era o viajante. Suas anotações e registros
deveriam ser publicados e passíveis de serem compreendidos por outros
naturalistas. O viajante-naturalista do século XIX parece não ter hesitado
entre considerar a irreprodutibilidade de sua experiência e entre fornecer
registros fiéis do que viu, ouviu e sentiu. Nesse sentido, o estilo pitoresco
das representações iconográficas das paisagens e costumes dos lugares
visitados poderia ser considerado um estilo científico. A ciência das
viagens foi uma forma de apreensão das relações entre ambiente e
seres vivos; a profusão de registros produzida pelos diversos tipos de
viajante, uma maneira de tornar a experiência da viagem reprodutível.
Em Martius (1943, pp. 244-5), a profusão de registros parece necessária
para decodificar as sensações vividas nessa Atlântida, como diz, nesse
mundo perdido, redescoberto por Colombo e pela botânica:
O peregrino sente-se aqui ao mesmo tempo elevado e inquieto.
Os horrores da solidão destas sombrias trevas da floresta unem-
se ao gozo duma contemplação tão estranha, e com a admiração
e a veneração do Onipotente que criou aqui, diante dos nossos
olhos, um novo mundo, que nos fala em linguagem antes nunca
sentida e nos revela com magia, mesmo na vida modesta do
silencioso reino das plantas, o vigor e a majestade de sua criação.
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Agradeço o auxílio de
Aline Cardoso Cerqueira.
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Martius, Carl F. P. von A fisiononomia do reino vegetal no Brasil.
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e Spix, Johann Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 3 vols. (1823-31)
Baptist von
1981
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1990 Em A. Cunningham e N. Jardine (orgs.), Romanticism and the sciences.
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1984 France. Manchester, Manchester University Press.
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1830 Paris, Grimbert et Dorez, 2 vols.
Spix, Johann Selecta Genera et Species Piscium. Munique, C. Wolf.
Baptist von
1829-31
Recebido para publicação em maio de 2001.
Aprovado para publicação em julho 2001.
... Nos últimos anos, a arqueologia também se engajou no debate sobre o pós-humanismo e na crítica ao antropocentrismo. O resultado disso é que "as coisas não são mais o que costumavam ser" na visão de vário(a)s arqueólogo(a)s (THOMAS, , p.1288 (KURY, 2001;SALLAS, 2010;SCHWARTZ, 2000) 17 . ...
Thesis
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Esta tese de Livre-Docência visa demonstrar a importância do dado etnográfico e da prática etnográfica na construção do conhecimento arqueológico, desde o século XIX, até a atualidade. Trata-se de uma revisão bibliográfica sobre este tema, contemplando majoritariamente, a produção científica das arqueologias anglo-americana e brasileira sobre analogia etnográfica, etnoarqueologia, etnografia arqueológica, arqueologia do/no presente, etnografia da arqueologia, arqueologia etnográfica. O trabalho também busca mostrar algumas características e tendências da disciplina arqueológica, ao longo do tempo.
... The first approach would be somewhat like what occurred in the time of the first foreign naturalists of the XVIII and XIX centuries, when researchers from well-established research centers came to remote corners of the globe to carry out their studies (Vanzolini 1996;Kury 2001). Although this strategy should effectively contribute to improving the knowledge of biodiversity gaps, financial funding for this kind of initiative is very limited, which can seriously hamper field work campaigns. ...
Article
Scientometric investigation and scientific production analysis are essential for science progress. Although a vast number of studies on Brazilian ant diversity have been carried out, a critical analysis of the advances in its scientific production is still missing. We compiled a comprehensive database on ant diversity papers carried out in the Brazilian territory. Our main research question is: what is the profile of ant diversity studies developed in Brazil? We sorted the studies according to the main terrestrial Brazilian biomes. We compiled 468 papers, which were published in 132 journals and encompassed a time range from 1970 to 2020. Most studies were carried out in Atlantic Forest (143), followed by Amazon Forest (111), Cerrado (106), Caatinga (38), Pantanal (14), and Pampa (4). In all biomes, ant samplings presented a much-aggregated distribution. Most studies had samplings carried out in all seasons in almost all biomes. The three most employed sampling techniques were pitfall traps, direct sampling, and attractive baits. The main subject of papers were ant assemblage diversity and ant fauna surveys. We discussed the implications of ant diversity study profiles regarding all aspects considered, the historical changes in these factors during the time range, and their possible influence on ant diversity paper publications, and provided suggestions for a more efficient use of time and financial resources for future research directions on ant diversity studies. Finally, we propose that our study can be replicated in other world regions, allowing for a comprehensive view on ant diversity research at a global scale.
Article
In Brazil, the number of researchers and PhD-level research fellows who mention ethnobotany as one of their keywords has increased from 500 to 2,200 in the past twelve years. While this disciplinary field remains confidential in France, it is booming in Brazil and mobilizes various fields; from naturalist disciplines to genetics, chemistry, law, sustainable development... in a landscape which is the object of many different methodological approaches. Where does this knowledge on plant-society relations in Brazil belong? What kinds of debates does it open? Who are the discipline's new stakeholders?
Article
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Resumo O artigo revisita o relato da Viagem ao Brasil (1815-1817) de Maximiliano de Wied na perspectiva de valorizar as contribuições dos registros da expedição do príncipe naturalista para a história natural, especialmente no levantamento da flora do atual extremo sul da Bahia. A abordagem perpassa a análise das características gerais da produção científica no campo da história natural e dos relatos de viagens do século XIX, bem como do perfil biobibliográfico do viajante. O objetivo central é demonstrar como se deu a relação do naturalista com as populações indígenas na produção do seu inventário florístico, destacando a importância dos saberes e fazeres dos índios para o trabalho do naturalista europeu.
Article
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As iconografias sobre o Rio de Janeiro oitocentista, RJ, Brasil, assim como a própria identidade brasileira, foram criadas, principalmente, por uma diversidade que incluía fatores nativos e exóticos da flora, da fauna, das sociedades e das culturas, assim como englobava o próprio olhar estrangeiro. O problema de se empregar as imagens apenas como ilustração, ou percebê-las de forma fragmentada, resulta na limitação de sua análise. Ao utilizar a iconografia como fonte primária para estudos de humanidades ambientais é possível fazer uma leitura mais integrada das paisagens pretéritas, destacando conjuntamente aspectos botânicos, geográficos, culturais, entre outros. Destarte, propomos uma análise interdisciplinar sobre as imagens, nas quais buscamos evidenciar a agência compartilhada da flora e do trabalho dos negros/as escravizados/as em conjunto com o olhar estrangeiro. Através dessa abordagem, demonstramos que estas iconografias podem revelar a interação entre agentes humanos e não humanos nos processos de transformação dos ambientes retratados.
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Ao lançar Conexões Geográficas 2: múltiplos olhares, os organizadores apresentam o volume 2 da Coleção Conexões Geográficas, que destaca a pluralidade das pesquisas realizadas por geógrafos de diferentes instituições do Brasil, apresentando assim, uma conexão entre diferentes temas e abordagens geográficas. A ideia inicial, era realizar o lançamento de apenas um livro, Conexões Geográficas: ensino e pesquisa, lançado em 2020, visando apresentar aos leitores, diferentes pesquisas no/do campo geográfico brasileiro em suas múltiplas escalas e análises, contribuindo efetivamente para colocar em destaque o profundo papel da ação humana na transformação da superfície terrestre. Através da receptividade dos primeiros leitores, observamos que dar continuidade e criar uma coleção temática diferenciada, seria necessário e oportuno, para o principal objetivo da coleção, a difusão do conhecimento geográfico em seus diferentes níveis, buscando assim, uma interpretação horizontal dos temários apresentados. A presente coleção é composta de 15 artigos, divididos em diferentes matrizes do pensamento geográfico, com destaque para os estudos de Geografia Cultural; Geografia da Religião; Geografia Econômica; Ensino de Geografia; Geografia Urbana; Cartografia; Geografia Política; Geopolítica, entre outros. A coleção representa em sua construção aquilo que o geógrafo cultural Denis Cosgrove apresenta: “(...) a geografia está em toda parte, reproduzida diariamente por cada um de nós” (COSGROVE, 1998, p.121).
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Bertha Lutz, cientista brasileira e naturalista, descrita por si mesma. Trata-se da apresentação de uma documentação dos arquivos do Museu Nacional (SEMEAR), que foi extinto pelo incêndio do dia 02 de junho de 2018. Os originais datilografados de Bertha Lutz demostram sua visão da situação ambiental por diversas localidades fluminenses, particularmente sobre a situação da flora e vegetação de Mata Atlântica, no entorno dos parques nacionais até as fronteiras fluminenses, com São Paulo e Minas Gerais. O Relatório de 1954 foi enviado ao Ministério da Agricultura, após uma expedição científica de monitoramento e de fiscalização, por Bertha Lutz pessoalmente, entre 1953-1954. Acompanhada de um técnico do Museu Nacional, Sr. Venâncio Fernandes, contou com o apoio do pessoal das localidades e funcionários dos parques. As localidades foram escolhidas a partir de antigos caminhos de naturalistas e áreas conhecidas de interesse científico para coleta de batráquios, como o Itatiaia e a Serra dos Órgãos. Bertha Lutz recomendou ao Ministério da Agricultura: aumentar os territórios protegidos e a conservação integral das florestas nativas ainda existentes, fora das unidades, ampliando a criação de parques nacionais no Estado do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.
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O livreto traz informações sobre a exposição temporária com mesmo nome, na Casa da Chica da Silva, Diamantina, MG, ocorrida entre setembro de 2018 a janeiro de 2019. O local é importante ponto de visitações escolares e turísticas na cidade de Diamantina e a exposição foi montada para o público em geral, moradores de Diamantina e região, porém com enfoque em alunos e professores do ensino básico do município e imediações. Nesse sentido, o público universitário, bem como, turistas brasileiros e estrangeiros que visitavam o espaço e acabavam por conhecer a obra dos naturalistas, favorecendo a divulgação científica. A exposição objetivou a divulgação e popularização do conhecimento científico sobre a região da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço (RBSE) pelo olhar dos naturalistas Spix e Martius e a sua relação com o cotidiano, registrado há 200 anos. Buscou-se introduzir a visão das ciências naturais, geográficas, no que concerne à paisagem e sua interpretação. e ressaltar a importância da região quanto à conservação dos ecossistemas, assim como, contextualizarem temas ligados às unidades obrigatórias e temas transversais como Ciências, Geologia, Botânica, Geografia, Cartografia, Música, Educação Ambiental, Biodiversidade, Geomorfologia, Ecologia e Biogeografia. Materiais gráficos na forma de banners autoexplicativos contendo comparações e interpretações das paisagens atuais e daquelas retratadas por Martius e Spix na Reserva na época em que passaram na região. Fizeram parte também do material gráfico: cartazes de divulgação, marcadores com QRcode de acesso ao site da exposição, além de livretos que continham síntese dos conteúdos abordados na exposição, estes últimos materiais foram disponibilizados aos visitantes da exposição. A exposição teve mais de 2.300 visitantes. A obra é apresentada pelos professores Bernardo Machado Gontijo (IGC-UFMG) e José Newton Coelho Meneses (FAFICH- UFMG).
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O objetivo da presente investigação é analisar a literatura de artigos científicos em língua portuguesa contendo a intersecção entre ciência e arte, chamada Sci-Art. Busca-se uma reaproximação, convergência ou até mesmo de intersecção entre arte e ciência, com foco nas contribuições do campo à educação e ao ensino. Procede-se através de uma pesquisa sistemática da literatura no Portal de Periódicos CAPES. Como resultados foram catalogados 26 artigos, abraçando publicações Latino Americanas e Europeias. O levantamento mostra que o campo está em ascensão e vem ganhando espaço nos centros de pesquisa e periódicos.
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A quoi sert de voyager? Quelles étaient les raisons qui poussaient les instituitions scientifiques françaises à s'engager dans la connaissance de la nature exotique? Quelle était la destinée des objets d'histoire naturelle rapportés en France? Mêlant utopie, savoir scientifique et projets colonialistes, le voyage est à l'image des institutions et des personnages qui le promeuvent : multiple, formateur, conquérant. Instructions aux voyageurs, théories scientifiques, jardins botaniques et d'acclimatation, ménageries, collections, musées, vocations et carrières sont des éléments essentiels pour la compréhension des rapports qui lient voyages et histoire naturelle, des Lumières à l'époque romantique.
Article
Edición de Facsimiliar del original publicado en 1805
Article
Von Martius tornou-se referência importante para os estudos de historiografia a partir de seu texto premiado pelo IHGB contendo um programa de escrita da história do Brasil. Sua vasta produção intelectual dedica espaço considerável a esta temática, tendo em vista a necessidade de uma escrita da história para a produção de uma identidade coletiva para a jovem nação nos trópicos. O presente artigo procura tratar de alguns aspectos desta escrita da história, articulando-a aos modelos científicos em elaboração nas primeiras décadas do século XIX, assim como a cultura oitocentista.
A fisiononomia do reino vegetal no Brasil
  • Martius Carl F. P. von
Tableaux de la nature
  • Humboldt
Humboldt, Tableaux de la nature.
Gide et Fils, 2 vols
  • Paris Alexander Von
Alexander von Paris, Gide et Fils, 2 vols. (1808)
  • Carl F P Martius
  • Martius De Von
Martius, Carl F. P. von A viagem de von Martius (Flora Brasiliensis, vol. I, 1840).
Alexander von Humboldt and the geography of vegetation
  • Malcolm Nicolson
Nicolson, Malcolm Alexander von Humboldt and the geography of vegetation.