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Conhecimento, educação e contemporaneidade

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Cadernos de Pesquisa, n. 117, novembro/ 2002
Cadernos de Pesquisa, n. 117, p. 9-11, novembro/ 2002
CONHECIMENTO, EDUCAÇÃO E
CONTEMPORANEIDADE
Em inúmeros países têm-se desenvolvido
significativos esforços de reformulação dos currí-
culos escolares. Trata-se certamente de um fenô-
meno global, já intensamente estudado por pes-
quisadores que buscam compreender os proces-
sos de elaboração e de implementação das novas
políticas de currículo. Em algumas análises, procu-
ram-se explicitar as relações de poder que se ex-
pressam nas reformas e evidenciar como elas se
têm constituído em instrumentos de regulação e
de auto-regulação de indivíduos e grupos. Afirma-
se mesmo que, por meio das reformas, preten-
de-se o governo das almas, a instituição de de-
terminadas maneiras de ver, sentir e entender o
mundo.
Em outros estudos, busca-se mostrar como
a reorganização dos currículos move-se pela in-
tenção de responder, ainda que de formas distin-
tas, à reestruturação dos locais de trabalho e às
demandas da economia. Seja visando a formar fu-
turos trabalhadores em consonância com as com-
petências que o sistema produtivo parece desejar,
seja visando a formar trabalhadores críticos, autô-
nomos e flexíveis (a despeito das dificuldades en-
volvidas nos significados hoje atribuídos a tais ter-
mos), as recentes reformas educacionais, em que
inovações curriculares ocupam papel de destaque,
parecem levar em conta as recentes mudanças na
organização do trabalho.
Outro aspecto que se evidencia como
preocupação dos que têm coordenado e desen-
volvido os processos de reestruturação da esco-
larização é o caráter inevitavelmente multicultural
de nossas sociedades. Inegavelmente plurais, es-
sas sociedades abrigam diferentes grupos cuja con-
vivência está longe do que se poderia considerar
pacífica. A diferença cultural, cada vez mais mar-
cante, pauta-se por relações de poder que opri-
mem determinados grupos e indivíduos e que res-
pondem por crescentes xenofobia, racismo,
fundamentalismo, terrorismo. Têm-se buscado,
nos novos currículos, oferecer algumas respostas
a esse complexo panorama cultural. Tais respos-
tas tanto têm correspondido à intenção de har-
monizar e integrar os diferentes grupos no seio
do que se chamaria de cultura hegemônica, como
ao propósito de tornar visíveis, questionar e deses-
tabilizar as assimétricas relações entre esses mes-
mos grupos.
Todas as iniciativas de efetuar e de analisar
as mudanças curriculares que se vêm promoven-
do em muitos países precisam ser referidas ao
processo de globalização em curso. Quer se
enfatizem seus aspectos econômicos ou seus as-
pectos culturais, não há como negar seus contra-
ditórios reflexos no cenário educacional. Nas po-
líticas educacionais, nos currículos, nas formas de
avaliação, nas propostas de reformular a forma-
ção docente, nas investigações, assim como nos
encontros e seminários que se desenvolvem em
inúmeros países, há, claramente, procedimentos,
objetivos e características comuns, a despeito de
diferenças também observáveis. A conseqüência
é que se torna sempre possível encontrar alguém,
em qualquer continente, interessado em tais te-
mas, capaz de compreender o que se faz e o que
se fala na área de educação em qualquer outra
parte do mundo. Nesse processo homoge-
neizador, perdas e ganhos com certeza se fazem
sentir.
O avanço tecnológico, que cada vez mais
confere rapidez ao processo de comunicação,
disponibiliza a um número crescente de pessoas
uma ampla gama de informações. Esse desenvol-
vimento, ao mesmo tempo, permite novas e efi-
TEMA EM DESTAQUE
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cazes formas de controle do processo de produ-
ção do conhecimento. Acresçam-se, nesse con-
texto, as idiossincrasias e as dificuldades envolvi-
das na concessão de recursos e na definição de
prioridades para a pesquisa, tão variáveis, quer se
trate do Primeiro ou do Terceiro Mundo. Pode-
se, em síntese, dizer que as condições globais em
que os pesquisadores desenvolvem suas ativida-
des e constroem conhecimento são bem mais
complexas e intercontectadas do que jamais fo-
ram. O fato é que o trabalho intelectual que hoje
se desenvolve ao longo do globo pode pautar-se
tanto por subordinação como por acentuado grau
de autonomia em relação aos mecanismos oficiais
de homogeneização e de controle e às esferas em
que se tomam as decisões.
Os textos aqui apresentados abordam es-
sas preocupações, enfocando a centralidade do
conhecimento na sociedade mais ampla e nas re-
formas educacionais, a necessidade de uma orien-
tação multicultural nos currículos, bem como a
produção de conhecimento sobre educação e
currículo. Apoiados em distintos pontos de vista e
perspectivas teóricas, os autores desenvolvem suas
argumentações considerando as marcantes carac-
terísticas desse paradoxal início de novo século.
Juan Carlos Tedesco toma como alvo de
sua atenção a sociedade do conhecimento e da
informação em que vivemos. Nela, o conhecimen-
to e a informação estariam substituindo os recur-
sos naturais, a força e o dinheiro como variáveis-
chave na geração e distribuição do poder. Defen-
de o ponto de vista de que uma sociedade basea-
da no uso intensivo de conhecimento produz si-
multaneamente fenômenos de mais igualdade e
mais desigualdade, de maior homogeneidade e
maior diferenciação. Argumenta que as instâncias
em que se produzem e distribuem o conhecimen-
to e os valores culturais passaram a ocupar um
lugar central, tanto na análise de novas configura-
ções como na definição de estratégias de inter-
venção social e política. Sugere que, no âmbito da
educação, a formação básica e universal venha a
dotar os estudantes dos instrumentos e compe-
tências cognitivas indispensáveis à aprendizagem
de conhecimentos socialmente significativos. In-
siste, por fim, na necessidade de se desenvolve-
rem, por meio da escolarização, novas formas de
solidariedade e de associação, capazes de contri-
buir para a construção de identidades complexas,
nas quais se inclua o pertencimento a múltiplos
âmbitos.
John Willinsky propõe um novo enfoque na
política da identidade e do multiculturalismo, su-
gerindo que propiciemos ao nosso estudante a
compreensão de como categorias poderosas
como cultura, raça e nação têm sido construídas.
Pergunta se é possível continuar a dividir a realida-
de humana, como temos feito, em culturas, his-
tórias, tradições, etnias e sociedades nitidamente
diferentes, e sobrevivermos de modo humano às
conseqüências dessa divisão. Sugere, então, que
focalizemos nos currículos a construção dessas
categorias, tornando evidente como elas vêm sen-
do produzidas e naturalizadas ao longo dos tem-
pos. Trata-se, em outras palavras, de reconhecer
e contestar a fabricação histórica de categorias usa-
das para identificar-nos. Trata-se de compreender
como a humanidade veio a ser dividida de um
determinado modo, o que é indispensável para
se apreciar, criticar e desvelar o jogo político da
identidade no mundo contemporâneo.
Michael Young preocupa-se com o currícu-
lo do futuro. Continuará a ser baseado na separa-
ção entre conhecimento científico e conhecimento
de senso comum? Continuará a preservar sua tra-
dicional organização disciplinar? Continuará a ig-
norar as mudanças que se passam na sociedade e
no mundo do trabalho? Empregando os concei-
tos de insularidade (correspondente à separação
nítida, no currículo, entre diferentes tipos de co-
nhecimento) e hibridização (correspondente à
continuidade e unidade essenciais de todas as for-
mas de conhecimento e à permeabilidade das fron-
teiras entre eles), o autor defende uma base para
o currículo que possa superar tanto o caráter não
histórico da organização disciplinar tradicional como
as incertas conseqüências da hibridização e sua re-
núncia aos critérios pedagógicos e epistemológicos
usuais. Em sua argumentação, recorre a Durkheim
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e a Vygotsky. Discute como ambos entendem as
relações entre diferentes tipos de conhecimento,
bem como o caráter simultaneamente social e
objetivo desse conhecimento. Pergunta então: há
que se optar entre o aistoricismo de Durkheim
ou o historicismo equivocado de Vygotsky que afir-
ma conhecer o curso da história? Em sua respos-
ta, defende a complementaridade dos dois enfo-
ques, ressaltando que o currículo deve enfocar
tanto a realidade social do conhecimento, enfa-
tizada por Durkheim, como o caráter histórico do
processo de transformar o conhecimento, desta-
cado por Vygotsky. Um currículo do futuro, a seu
ver, precisa tratar o conhecimento como elemen-
to distinto do processo histórico, no qual algumas
pessoas se esforçam por superar as circunstâncias
em que se encontram. Tais circunstâncias incluem
fazer, refazer e cruzar fronteiras entre as discipli-
nas e entre a escola e o mundo do trabalho.
Antonio Flavio Moreira focaliza o processo
de construção do conhecimento sobre currículo
no Brasil. Restringe-se à produção que se verifica
no espaço-tempo do Grupo de Trabalho de Cur-
rículo  GT  da ANPEd, levando em conta que
desse grupo participam tanto os pesquisadores
seniores mais produtivos do campo, como os jo-
vens pesquisadores interessados em questões
curriculares. O que se produz no grupo, a seu
ver, portanto, é capaz de refletir a produção brasi-
leira. Apoiando-se no conceito de campo de Pierre
Bourdieu, o autor propõe perguntas e hipóteses
referentes ao funcionamento do GT nos últimos
anos. Argumenta que o modelo adotado precisa
ser remetido à forma como a própria ANPEd se
estruturou e ao modo como os Programas de Pós-
Graduação em Educação do país vêm responden-
do às políticas de organização e de avaliação do
sistema de pós-graduação. Analisa também os tra-
balhos apresentados no GT nos últimos anos, mais
uma vez sugerindo perguntas e levantando hipó-
teses sobre a diversidade de temas e de influên-
cias teóricas observáveis nos estudos examinados.
Questiona, em síntese, o processo de produção
do conhecimento no campo do currículo e suge-
re formas que, a seu ver, podem evitar fragmen-
tações e a desintegração do campo.
Os leitores são convidados a refletir sobre
os diferentes argumentos, posicionamentos e de-
safios propostos nos textos. Da leitura com certe-
za emergirão concordâncias, dúvidas, discordân-
cias, o que é ótimo para estimular novas reflexões,
novos pontos de vista, novos desafios, novas polí-
ticas, novas propostas.
Antonio Flavio Barbosa Moreira
afmcju@infolink.com.br
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