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José Vicente Martins Campos

Authors:
V. 36 - no. 4 - out/dez. 1999 Arq Gastroenterol 167
IN MEMORIAM
JOSÉ VICENTE MARTINS CAMPOS
Fez-se médico atendendo forte vocação
interior e também influência paterna. O pai,
prestigioso farmacêutico e destacado líder
político em sua tão amada Santa Cruz das
Palmeiras, SP.
Desde cedo, também, sua vocação musi-
cal, cultivada até o fim da vida, com autêntica
paixão.
Formado em 1948 pela Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo,
começou a trabalhar na enfermaria do Prof.
Cantídio de Moura Campos, em que já se
destacava o Dr. José Fernandes Pontes, forte
liderança enriquecida com bagagem trazida da
Clínica Mayo e das Escolas Alemãs.
Metodologia laboratorial e radiológica para os
dois futuros grandes clínicos do aparelho
digestivo e algo mais.
No começo dos anos 50, criam o IGESP
- Instituto de Gastroenterologia de São Paulo,
na rua Japurá, a primeira clínica integrada a
desenvolver radiologia, laboratório clínico,
endoscopia, laparoscopia, hepatologia,
biopsia hepática e psicanálise, com raízes no
Hospital das Clínicas e galhos frondosos na
clínica privada, em pouco tempo um nome
nacional.
Nos anos 60, fundam o IBEPEGE -
Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas
de Gastroenterologia, com um pequeno
grupo de brilhantes colaboradores, instituição
que viria a destacar-se como outro nome na-
cional.
Ali foram realizados, até os anos 80,
dezenas de Cursos, Simpósios, Jornadas,
Encontros, Seminários, Palestras. Comple-
taram sua pós-graduação em nível de espe-
cialização quase duas centenas de médicos,
muitos deles vindos de fora e hoje professores
em suas paragens. Ali foram defendidas 70
teses de mestrado. E ali nasceram os Arquivos
de Gastroenterologia, publicação regular do
IBEPEGE, que teve em Martins Campos um
de seus mais operosos editores, que se
orgulhava de ter conquistado sua inclusão no
Index Medicus.
Com a extinção do Departamento de
Gastroenterologia do Hospital das Clínicas,
mais um dos incontáveis desacertos do que
se convenciona chamar de Política Univer-
sitária, passou a trabalhar no Departamento
de Pediatria, onde organizou o Laboratório
de Investigações, e lá frutificou seu talento
de clínico, investigador e homem de labora-
tório. Foi pioneiro nos estudos das síndromes
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de má absorção, da doença celíaca, da
mucoviscidose com ênfase também pioneira
na biopsia intestinal colhida por cápsula.
Quantos jovens certamente puderam
desenvolver-se, viver e crescer e não morrer
ou definhar, por seu feliz intervento. Com sua
habilidade laboratorial, sua capacidade didática
e sua personalidade convincente, despertou
nos pediatras o gosto pela Gastroenterologia,
ele, em origem, um médico de adultos.
Suas atividades na Johnson & Johnson do
Brasil constituem outra face brilhante de sua
vida. Bolsista e depois Chefe do Departamento
Médico e Científico (1951-1971), Consultor,
Diretor do Comitê Biomédico (1971-1986).
Pioneiro, nos anos 50, na introdução do
soro caseiro contra a desidratação, foi também
responsável pela formulação e divulgação de
alguns medicamentos consagradíssimos, que
salvaram milhares de vidas. Fez brilhantes
campanhas de atualização da classe médica,
com utilíssimas publicações.
Publicou mais de 150 trabalhos e orientou
60 teses de Mestrado e Doutorado.
Não menos notável, sua participação em
Sociedades Médicas, Membro Emérito da Aca-
demia de Medicina de São Paulo, foi fundador
da Sociedade Paulista de Gastroenterologia
Pediátrica e da Sociedade Latino Americana de
Pesquisas em Gastroenterologia, um dos poucos
brasileiros membro da European Society of
Pediatric Gastroenterology and Nutrition.
Exerceu a Medicina como obra de arte e
como fruto de investigação científica, no que
atendeu sua dupla vocação científica e
artística. Medicina como Arte de corrigir os
pecados da natureza, que necessita da
precisão e da profundidade dos conhecimentos
científicos para entender e resolver os
problemas e seus pacientes, ou os pacientes
com seus problemas, na infinita sutileza do jogo
das individualidades.
Ato de amor a Deus e a sua Criação, mas
que também implica em soma muito bem
orquestrada de recursos, poderes, conhe-
cimentos, desvelos, dedicação, sacrifícios que
poucos conseguem elevar a nível de excelência.
Martins Campos marcou forte presença e abriu
amplos e claros espaços no cenário médico e
cultural de São Paulo e do Brasil.
Médico, professor, homem de ciência,
pesquisador, dirigente e consultor empresarial,
fundador de sociedades, homem político,
músico, memorialista inesgotável, escritor.
Inesquecível, sua charmosa sala do ter-
ceiro andar do IGESP, retrato íntimo de sua
personalidade, onde milhares de pessoas ali
encontraram um médico com estupenda visão
clínica da própria. Cultor também da
Psicanálise e de Freud, era Membro da
Sociedade Freud de Viena e grande admirador
também de Jung e de Campbell, mais
recentemente falecido.
Tudo isto, integrado na bagagem cultural
do clínico de adultos, crianças e de Família.
Ele mesmo, uma orquestra muito bem
regida de paixões, valores e vocações humanas
tão bem realizadas.
Cássio RAVAGLIA
Lido em homenagem prestada pela Sociedade Paulista de Gastroenterologia Pediátrica e Nutrição, na sede do IBEPEGE, sob a Presidência da
Profa. Dorina Barbieri, em 17 de outubro de 1998.
José Vicente Martins Campos
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