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What there is of real and unreal in Realism: Searle versus Rorty

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O texto fala a respeito do debate entre Searle e Rorty sobre "irracionalismo" de Rorty. Ele tenta mostrar que a posição de Rorty está fora do campo "realismo versus anti-realismo" e o "irracionalismo" não é um bom adjetivo. Searle estaria sobre uma linha incorreta em sua abordagem do tema da verdade em Rorty.
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!RESUMO: O texto fala a respeito do debate entre Searle e Rorty sobre
“irracionalismo” de Rorty. Ele tenta mostrar que a posição de Rorty está fora
do campo “realismo versus anti-realismo” e o “irracionalismo” não é um
bom adjetivo. Searle estaria sobre uma linha incorreta em sua abordagem do
tema da verdade em Rorty.
!PALAVRAS-CHAVE: Pragmatismo; racionalismo; pós-modernismo; Rorty;
Searle; verdade.
Rorty vive dizendo que os filósofos deveriam conversar menos sobre
a verdade e mais sobre a liberdade. No entanto, cada vez que ele diz isso,
as objeções são tantas, são tantas as reclamações dos filósofos, que Rorty
termina por escrever sempre mais um artigo sobre verdade! Talvez esta
seja a sina do pragmatismo: uma vocação para conversar sobre filosofia
política liberal sempre abortada pela necessidade de se voltar a temas,
digamos, epistemológicos, talvez metafísicos. Quem sabe essa sina te-
nha tido um responsável, ou dois. Tudo pode ter começado quando William
James definiu o pragmatismo como um método para a verdade. Aí pas-
sou um anjo torto que, tomando as coisas ao pé da letra disse amém e,
1 Palestra ministrada no Programa de Pós-Graduação em Ciências Cognitivas e Filosofia da Mente na
UNESP – Marília – SP – Brasil.
2 Professor visitante da Auckland University, New Zealand. Departamento de Administração e Super-
visão Escolar – FFC – UNESP – 17525-900 – Marília – SP – Brasil.
O QUE HÁ DE REAL E DE IRREAL COM O REALISMO:
SEARLE VERSUS RORTY1
Paulo GHIRALDELLI JÚNIOR2
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então, condenou o projeto pragmático a se engalfinhar no debate sobre a
verdade indefinidamente.
Alguns filósofos, ou mesmo alguns lógicos atuais, Susan Haack à
frente, não acreditam nessa história de anjo torto. Para eles, o pragmatismo
é mesmo uma filosofia da verdade. E não só: o pragmatismo, além de ser
uma filosofia da verdade, desde seus fundadores, não estaria apartado
do campo da teoria da verdade como correspondência e, por que não
dizer, do realismo filosófico. Rorty, obviamente, não concorda com isso.
É claro que ele, com uma erudição invejável em história da filosofia, sabe
que Haack tem boas razões para falar o que fala sobre Peirce, James ou
mesmo Dewey. Mas ele não entende a atividade filosófica como ativida-
de fundacionista, e sim como atividade redescritiva, e por isso não se
interessa em considerar as possíveis ligações dos velhos pragmatistas
com o correspondentismo; segundo ele, isso não levaria a nada, digamos
que isso apenas reforçaria o destino programado pelo meu anjo torto. Ele
prefere ver James e Dewey ligados ao coerentismo, e essa é uma tese
claramente defensável; e quer ver, também, James e Dewey ligados ao
deflacionismo, e esta sim já me parece uma tese mais ousada, uma tese
completamente inovadora, coisa que só um espírito inquieto como o de
Rorty e, como ele mesmo diz, “do contra”, poderia propor.
É esse espírito “do contra” que me faz ver em Rorty uma espécie de
Nietzsche americano. É claro que ele mesmo não concorda com isso.
Penso que ele jamais concordaria em colocar-se como discípulo de um
filósofo europeu. Na sua leitura, é Nietzsche quem deve à America. Por
Rorty, Nietzsche é um pragmatista europeu, e não ele, Rorty, ou mesmo
Dewey, seriam Nietzsches americanos. Mas independentemente dessa
história de ovo e galinha, gosto de chamar Rorty de um Nietzsche ame-
ricano. E isso não para provocar o meu amigo José Carlos Bruni. Longe
de mim querer alfinetar o Bruni. Gosto de ligar Rorty a Nietzsche para
poder chegar a um ponto básico da história da filosofia, a meu ver um
dos momentos mais importantes da história da filosofia, que é aquele em
que Nietzsche escreveu o aforismo 16 de Além do bem e do mal. Pois é
ali que Nietzsche fustiga Descartes e, afinal, toda a filosofia, colocando a
pergunta: “Por que sempre a verdade?”.
Considero essa pergunta de Nietzsche uma das mais importantes da
história da filosofia ocidental. No contexto em que está posta, no aforismo
16, o alvo é Descartes. Mas não . Ela é uma pergunta também, e talvez
principalmente, contra Platão. E, sendo assim, ela é um dardo contra
toda a Filosofia, a Filosofia com “F” maiúsculo. À primeira vista, parece
uma pergunta cética. Mas ela não é uma pergunta cética. O cético, prin-
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cipalmente o cético de estilo cartesiano, ou seja, o cético epistemólogo
profissional, quer colocar contra a parede aqueles que acreditam na pos-
sibilidade da verdade. Nietzsche, diferentemente, quer revolver os cére-
bros e os intestinos dos filósofos fazendo uma pergunta de sabor psicoló-
gico, talvez sociológico e antropológico: “Por que sempre a verdade?”.
Por que sempre a verdade?
O que Nietzsche faz, portanto, é perguntar pelo imperguntável: por
que a tarefa de busca da verdade é a tarefa de busca da verdade? Por que
esta tarefa? Haveria outra coisa para fazer em filosofia senão sair da
caverna de sombras em direção à iluminação da paidéia? Não é justa-
mente a tarefa própria e única da filosofia nos tirar da caverna e nos
colocar em contato com a verdade? E isso não é o que há de mais óbvio
para fazer? Ora, Nietzsche pergunta por que é que inventamos tudo isso!
Perguntar sobre o imperguntável e, mais que isso, conversar sobre o
inconversável, tocar em tabus, eis aí o ponto de encontro entre Nietzsche
e Rorty. É claro que Rorty não está deslumbrado com Nietzsche. Ele
sabe muito bem, como já falou várias vezes, que rimos quando lemos
Nietzsche, mas que só rimos gostoso mesmo quando voltamos a ele
depois de alguns anos e rimos de tudo, inclusive e principalmente do
próprio Nietzsche. E isso, entre outros motivos, pelo fato de que Nietzsche
queria muito ser ouvido, mas tinha lá suas dúvidas se seria mesmo ouvi-
do, dado que tinha de escrever com um vocabulário novo, talvez
ininteligível aos filósofos. Mas Rorty, tendo podido rir de tudo isso, es-
creve prosaicamente dentro da filosofia. Apesar de toda a sua busca pelo
novo, pela criação que só a poesia pode promover, Rorty continua filóso-
fo, continua conversando nos termos do vocabulário da filosofia. A opção
pragmático-deflacionista é, assim, a maneira de Rorty de fazer duas coi-
sas: primeiro, conversar sobre a verdade, respeitando os limites do voca-
bulário técnico da filosofia contemporânea na tradição analítico-prag-
mática; segundo, manter viva a chama espiritual da pergunta nietzschiana
“por que sempre a verdade?”. Essa estratégia de Rorty não é só origi-
nal, ela é antes de tudo engraçada, porque de certo modo ela afligiria
o próprio Nietzsche, ela revolveria os intestinos e o cérebro daquele
que mais quis revolver intestinos e cérebros filosóficos! Ao mesmo tempo
essa estratégia é, a meu ver, uma das melhores maneiras de manter
viva a filosofia de Nietzsche, dentro do campo filosófico, no fim do
século XX.
A conversa pragmático-deflacionista de Rorty pode ser exposta em
duas partes. Primeiro, há o seu ataque à teoria correspondentista da
verdade. Segundo, sua opção por uma narrativa sobre a verdade que
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privilegia a semântica em detrimento da epistemologia. Neste último
caso, ele visa mais se desfazer de todo e qualquer debate entre realismo
versus anti-realismo que de tomar partido pelo anti-realismo. Este se-
gundo passo alia-se ao seu anti-representacionalismo, e é isto tudo que
eu venho chamando de postura pragmático-deflacionista.
Pois bem, o que vou fazer daqui até o fim desta exposição é tentar
mostrar, da maneira mais breve e clara possível, quiçá didática, um dos
pontos polêmicos referentes à primeira parte da conversa pragmático-
deflacionista de Rorty.
Os pontos polêmicos do trajeto de Rorty se tornam mais claros quando
abordados a partir de suas respostas a seus críticos. Quanto aos aspec-
tos técnicos do seu discurso filosófico, há, entre seus críticos, quatro
filósofos que não podem deixar de serem lidos: Searle, Putnam, Taylor e
Habermas. Escolho aqui, hoje, a polêmica com Searle (1992), em um de
seus aspectos, que é a crítica de Searle ao que ele chama de “ir-
racionalismo de Rorty” ou, mais amplamente, o que ele chama de
“nietzschianismo” de Rorty, Kuhn, Derrida e Foucault. Não escolho essa
crítica à toa. Ela me servirá para expor exatamente o ponto polêmico da
posição de Rorty em um dos aspectos de seu ataque à teoria da verdade
como correspondência, ou, em outras palavras, seu ataque ao realismo.
A crítica de Searle ao que ele chama de irracionalismo-nietzschismo
de Rorty possui derivações interessantes para a filosofia da educação,
dado que ela é, antes de tudo, uma crítica ao que seria a postura atual
dos intelectuais na condução do trabalho de ensino e pesquisa nas uni-
versidades americanas hoje. Em suma, já é até matéria jornalística o fato
de que Searle vê em Rorty e outros a postura relativista que estaria dete-
riorando a “tradição racionalista ocidental” e, conseqüentemente, o am-
biente acadêmico americano. Eu, que passei a maior parte dos últimos
vinte e dois anos trabalhando com filosofia da educação, me interesso
bastante por esse tema. Acho um tema de suma importância para a
filosofia da educação o debate sobre o relativismo, como ele está posto
nos Estados Unidos desde o final dos anos 80 ou, ainda, desde a publica-
ção de A condição pós-moderna por Lyotard no final dos anos 70. Mas
não é por esse caminho que vou conduzir as coisas hoje. Como já disse,
vou me restringir aos detalhes técnicos da crítica de Searle e, dentre
esses detalhes, vou apontar para a sua crítica à crítica de Rorty à noção
correspondentista de verdade e ao realismo.
Searle, em uma só frase, procura apanhar os dois lados do que seria
a visão de Rorty sobre a verdade. Searle diz: Rorty fala “repetidamente
que ‘verdadeiro’ é apenas um termo de recomendação que usamos para
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elogiar aquelas crenças que pensamos como boas de se acreditar, e que
a verdade é fabricada e não descoberta”. Searle (1992) diverge de ambas
as afirmações. Ele não acha válido a redefinição de verdade “como o que
é bom de se acreditar”. E também não acha que “a verdade é feita e não
descoberta”. Segundo Searle, a afirmação de Rorty ou é circular ou é
obviamente falsa. Ou seja, se, como Rorty faz, redefinimos “verdade”,
tomando-a como o que é bom de se acreditar, acabaremos depois por
procurar um critério para bom de se acreditar e encontramos que tal
critério pode ser definido como verdade ou como correspondência à rea-
lidade. Isso nos levaria junto com Rorty para o fundo do poço da
circularidade. Se, por outro lado, não redefinimos “verdade”, então te-
mos de ficar com o fato de que há muitas proposições que por várias
razões são boas para se acreditar mas que não são verdadeiras, e há
muitas proposições que também por várias razões são péssimas de se
acreditar mas que são verdadeiras. Isso nos levaria junto com Rorty para
um outro poço, o da simples falsidade.
Bem, tudo isso Searle diz em relação ao termo “verdadeiro” como
termo de elogio. Agora, vamos à idéia que Searle atribui a Rorty de que
a verdade não é descoberta mas fabricada.
Segundo Searle, essa afirmação de Rorty é protegida pela ambigüi-
dade. Uma vez que a verdade aparece sempre em declarações, e que as
declarações são feitas pelas pessoas, então a verdade é realmente produ-
zida e não descoberta. Todavia, diz Searle, disso não se segue o fato de
que não há nenhuma realidade existindo independentemente daquelas
declarações que estariam em correspondência com tal realidade. Há um
sentido, diz Searle, no qual se pode dizer que a verdade é produzida e
não descoberta, que é quanto ao fato das declarações lingüísticas serem
feitas, produzidas. Mas haveria um sentido, consistente com este, no
qual a verdade é descoberta. “O que se descobre”, diz ele, “é o que é que
torna as declarações verdadeiras” ou falsas. E Searle resume: “As decla-
rações verdadeiras são feitas, mas a verdade das declarações não é feita,
é descoberta”. Assim, na conta de Searle, se tiramos a ambigüidade das
afirmações de Rorty, então tudo cai por terra.
E então, o que resta a Rorty dizer? Seriam mesmo as posições de
Rorty este castelo de cartas que a crítica de Searle faz parecer? Varrería-
mos Rorty para fora do cenário filosófico, acusando-o de ilogicidade da
mesma maneira que alguns pensaram poder varrer Nietzsche quando ele
paradoxalmente disse que “não há fatos, só interpretações”? Não creio.
Todavia, antes de prosseguir, quero notar duas imprecisões na críti-
ca de Searle. Primeiro, que Rorty não diz apenas que a verdade é o que
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é bom de se acreditar, ele diz também outras coisas. Ele enumera outros
usos básicos do termo verdadeiro. Mesmo que ficássemos só com a idéia
de que a verdade é o que é bom de se acreditar, isto é, se apenas ficás-
semos na parte em que Rorty diz que o termo “verdadeiro” é um termo
de elogio, teríamos de notar que ele não vê necessidade de voltar e
procurar critérios para o elogio na correspondência. Isso seria procurar
de novo caminhar pela epistemologia quando já se optou pela semântica
e por uma semântica deflacionista. Por isso, a idéia da circularidade, a
meu ver, não cabe. Pelo menos não cabe assim, tão diretamente como
Searle, a coloca. Segundo, Rorty não diz que a verdade é feita e não é
descoberta, o que ele diz, sim, é que temos de abandonar essa dualidade
fabricar/descobrir.
Bem, eis aí algumas coisas que, talvez, pudéssemos objetar a Searle.
Mas eu não quero ir por aí. Não quero invalidar a crítica de Searle, pe-
gando aqui e acolá pontos nos quais ele não teria sido fiel ao texto rortyano.
Isso seria tarefa de exegetas e, creio, pareceria muito com o que os mar-
xistas faziam no passado quando liam uma crítica contra Marx; eles
procuravam aqui e ali onde o crítico teria “atravessado” o texto. Não, não
vou repetir esse procedimento que nunca levou a nada a não ser à forma-
ção de igrejinhas. A crítica de Searle permite uma boa conversa, pois ela
toca um ponto central de todo o debate realismo versus anti-realismo, e
lembra em parte o debate entre Putnam e Rorty, entre Taylor e Rorty,
entre Susan Haack e Rorty.
Atentemos para o que Searle está dizendo. Ele está falando que em
um certo sentido a verdade é descoberta e não fabricada. Uma declara-
ção verdadeira é fabricada na medida em que depende do falante, mas a
verdade da declaração verdadeira independe do falante, ela tem a ver
com um algo que é independente do falante e, então, independente da
própria declaração lingüística. Assim, se a declaração é sobre monta-
nhas, este “algo” tem a ver com as montanhas como existentes antes de
toda e qualquer declaração, este “algo” tem a ver com a “existência da
realidade independente” das declarações lingüísticas. É isso mesmo que
Searle está pensando, pois ele define o “realismo”, ao qual ele se filia,
como a posição que sustentaria a “tradição racionalista ocidental” e que
advoga que “a realidade existe independentemente das representações
humanas”. E ele explica bem o que quer dizer com isso. Ele diz: trata-se
da idéia de que “embora tenhamos representações mentais e lingüísticas
do mundo na forma de crenças, experiências, declarações e teorias, há
um mundo ‘lá fora’ que é totalmente independente dessas representa-
ções”. E ele continua: “isto tem a conseqüência, por exemplo, de que
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quando nós morrermos, como morreremos, o mundo continuará em grande
parte não afetado pelo nosso falecimento”.
Se é assim, então estaria Rorty, que na conta de Searle acha que a
verdade não é descoberta mas fabricada, negando que possamos admitir
que as montanhas existem antes de nós falarmos delas?
Se Searle está mesmo pensando assim, e tudo indica que está, Rorty
foi mais ou menos transformado por ele em algo equivalente a um persona-
gem de um chiste contado por Gramsci. Se me lembro bem, Gramsci falou
de um leitor do idealismo kantiano que, tendo ficado sabendo da existên-
cia do fenômeno e da realidade em si, olhava rapidamente e de relance por
trás dos ombros para ver a realidade fenomênica se formando!
Pelo que Rorty responde a Searle, ele teve a mesma impressão que
eu. Pelo que Searle escreve, parece que os filósofos que não acreditam na
realidade independente da mente, como é o caso de Rorty, devem então
“negar que havia montanhas antes das pessoas terem tido a idéia de
‘montanha’ em suas mentes ou a palavra ‘montanha’ em suas lingua-
gens”. Todavia, lembra Rorty, ninguém nega isso; “ninguém pensa que
há uma cadeia de causas que torna as montanhas um efeito de pensa-
mentos ou palavras”. Pessoas como Kuhn, Derrida e Rorty, segundo o
próprio Rorty, “acreditam que é sem sentido perguntar se realmente há
montanhas ou se é meramente conveniente para nós falarmos sobre
montanhas”. “Nós também pensamos”, diz Rorty, “que é sem sentido
perguntar, por exemplo, se neutrinos são entidades reais ou meramente
ficções heurísticas úteis”. E ele continua: é isso que pretendemos quan-
do insistimos
que é sem sentido perguntar se a realidade é independente do nossos modos de
falar sobre ela. Dado que há condições para se falar de montanhas, como certa-
mente há, uma das verdades óbvias sobre montanhas é que elas estavam aqui
antes de falarmos delas. Se você não acredita nisto, provavelmente você não
sabe como jogar os jogos de linguagens habituais que empregam a palavra
“montanha”. Porém, a utilidade desses jogos de linguagem não tem nada a fazer
com a questão de se a realidade em si mesma, à parte do modo q ue é conveniente
para os seres humanos descrevê-la, possui montanhas. (Rorty, 1998, p.85-7)
Assim, para Rorty, o problema todo entre ele e Searle está na manei-
ra como usamos a palavra “independente”. Falamos em independência
representacional e em independência causal, mas para Rorty só o segun-
do tem sentido. Os jogos de linguagem que jogamos habitualmente com-
portam o segundo modo de falar de independência, mas falar do primeiro
modo levaria a situações pouco confortáveis e a impasses filosóficos tal-
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vez desnecessários e mesmo sem sentido. O raciocínio de Rorty é, gros-
so modo, o seguinte. Nos nossos jogos de linguagem habituais, uma
montanha é causalmente independente de boa parte das declarações
lingüísticas sobre ela, mas que sentido teria em falar, mantendo-se nos
jogos de linguagem que conhecemos, que a montanha é representa-
cionalmente independente? Estaríamos falando da montanha-para-além-
de-todas-as-descrições? Mas dentro de nossos jogos de linguagem, o
que significa falar em montanha para além de tudo que a palavra “mon-
tanha” implica? Falamos de montanhas, e quando falamos delas admiti-
mos que uma de suas características é ser causalmente independente
das declarações que fazemos, mas segundo Rorty não podemos dizer
que elas são representacionalmente independentes nem que não são
representacionalmente independentes, pois nem caberia tal pergunta.
Nossos jogos de linguagem habituais entram em colapso quando quere-
mos falar da maneira dual que a epistemologia realista quer nos obrigar
a falar, isto é, quanto temos de falar da realidade-em-si e da realidade-
para-nós, pois isso significaria ter de falar sobre a realidade para além
das relações descritivas que temos com ela. Teríamos de dizer que en-
contramos um modo de falar de fatos sem interpretá-los.
O pragmatismo, como Rorty o entende e o pratica, é uma perspecti-
va holística, contextualista. Nessa perspectiva, uma coisa X qualquer é o
que se pode falar dela em suas relações. Para além de suas relações, o
que seria um X? Um X não é algo com duas camadas, uma formada pelas
suas relações e outra prenhe de características não-relacionais. Isto é,
para o pragmatismo de Rorty não vale a equação X = “características
meramente relacionais” + “características intrínsecas”. Isso não tem sen-
tido para o holismo da postura pragmatista rortiana.
As coisas ficam mais claras quando Rorty debate com Charles Taylor,
sobre o mesmo ponto em que responde a Searle. Rorty dá o exemplo dos
dinossauros. Cito Rorty (1998, p.85-7):
Considere os dinossauros. Uma vez que você descreve alguma coisa como
um dinossauro, sua cor de pele e sua vida sexual são causalmente independen-
tes de sua descrição dele. Mas antes de você descrevê-lo como um dinossauro,
ou como alguma outra coisa, não havia nenhum sentido na afirmação de que ele
está “lá fora” tendo propriedades. O que está lá fora? A coisa-em-si? O mundo?
Conte-nos mais. Descreva-o em mais detalhes. Uma vez que você assim faz, mas
somente então, estamos em uma posição de falar quais das suas propriedades
são causalmente independentes de terem sido descritas e quais não. Se você o
descreve como um dinossauro, então podemos falar que a característica de ser
ovíparo é causalmente independente de nossa descrição dele, mas a caracterís-
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tica de ser um animal cuja existência tem sido conjecturada só nos séculos mais
recentes não é. Isso não é uma distinção entre as características “intrínsecas” e
as características “meramente relacionais” dos dinossauros. É apenas a distin-
ção entre as relações-causais-com-algumas-coisas-(ovos)-sob-uma-descrição e
as relações-causais-com-outras-coisas-(nós)-sob-uma-descrição.
Quando o realista ouve essa fala de Rorty, ele acredita poder objetar.
A objeção realista que se pode fazer a Rorty aqui é a que segue. Há
relações causais que se alteram sob redescrição, como a relação causal
dos dinossauros conosco, e há relações causais que não se alteram sob
redescrição, como a relação dos dinossauros com seus ovos. O realista,
diante disso, pode dizer: as descrições que descrevem relações causais
que não se alteram sob redescrição são assim ou (1) porque a realidade e
a verdade são invariantes ou (2) porque a unidade é uma característica
desejável da ciência. Essa dupla opção realista estaria, em qualquer caso,
ou atrelada à idéia de que as relações causais são mais “intrínsecas” às
coisas que as descrições dessas coisas, ou atrelada à idéia de que des-
crições de coisas como causalmente relacionadas são descrições mais
próximas do modo que as coisas são de “qualquer modo” do que como
descritas por outros modos.
Todavia, Rorty insiste, deveríamos apenas ficar com a conclusão de
que há relações causais que devem permanecer constantes, e nada mais.
Conversar como o realista conversa nos levaria de volta a impassses,
como por exemplo a idéia de termos de falar do algo que está para além
de toda descrição. O que é “algo” para além de toda descrição?
Sendo assim, não há cabimento para Rorty termos de aceitar o
realismo quando este diz que a verdade de qualquer afirmação de-
pende “de como o mundo é”. Caso a expressão “de como o mundo é”
inclua só relações causais, como quer o realismo, então Rorty não
pensa em dizer que a verdade depende de como o mundo é. Todavia,
se a expressão “de como o mundo é” engloba relações causais mais
descrições das relações, como pretende o pragmatismo, então certa-
mente ele concorda que a verdade depende de como o mundo é. Rorty
quer escapar da idéia de colocar a verdade sobre o crivo da dualidade
fabricar/descobrir. Mas entre descobrir e fabricar, é certo que para
ele a verdade não pode ser descoberta. Isso seria admitir que a ver-
dade depende “de como o mundo é” no primeiro sentido dessa ex-
pressão, isto é, no sentido no qual tal expressão engloba apenas rela-
ções causais sem englobar também as descrições pelas quais nós
podemos conversar sobre tudo, inclusive falar de relações causais e
descrevê-las.
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Volto agora à primeira objeção de Searle a Rorty, a que ele não
concorda com a redefinição que Rorty faz do termo “verdadeiro”, tra-
tando-o como um termo de elogio. Searle diz que, se tratamos a verda-
de como o que é bom de se acreditar, mais cedo ou mais tarde procu-
raremos um critério para “bom de se acreditar” e certamente encontra-
remos na verdade e na correspondência esse critério, e então cairíamos
em um círculo. Como já disse, entendo que Searle assim pensa porque
ele não consegue imaginar a verdade sendo tratada fora dos cânones
epistemológicos, simplesmente pela semântica. Rorty é deflacionista
exatamente porque, advogando que o fundacionalismo metafísico e/ou
epistemológico chegou a um impasse, optou por tratar a verdade em
termos semânticos. Nesses quadros, o que importa para Rorty não é
falar da verdade, mas sim enumerar os usos do termos “verdadeiro”.
Tratar desses usos implicaria uma outra fala, pois nos levaria ao debate
de Rorty não só com Susan Haack e Putnam, mas principalmente com
Habermas, e não há espaço para tal. Sou obrigado então a encerrar por
aqui. Ou seja, volto a Nietzsche.
Comecei dizendo que a plataforma pragmático-deflacionista de Rorty,
na qual se incluem suas críticas ao anti-realismo aqui expostas, é uma
maneira de manter viva a pergunta de Nietzsche: “Por que sempre a
verdade?”. Agora gostaria de corrigir um pouco isso, para ser justo com
Rorty e com Nietzsche. É que Rorty é completamente antifundacionalista
e quer levar às últimas conseqüências o deflacionismo que existe na
pergunta “por que sempre a verdade?”. Não creio que era este exata-
mente o intuito de Nietzsche. Como o próprio Rorty lembra, a leitura que
Heidegger faz de Nietzsche tende a mostrar que este não se libertou
completamente da busca de fundamentos metafísicos. Creio que deve-
mos considerar isso. Quem lê o aforismo 22 de Além de bem e mal não
fica só surpreso com o início do texto, que joga todo esforço teórico em
um impasse, e talvez toda a filosofia, mas fica mais surpreso ainda quan-
do no final aparece a vontade de potência fazendo um papel dúbio, talvez
fundacionalista. Temos de considerar que a noção de vontade de potên-
cia em Nietzsche, para muitos intérpretes, fica entre uma postura
cosmológica e uma postura metafísica. E se é assim, a pergunta “por que
sempre a verdade?”, a meu ver, não teria toda a radicalidade que eu quis
conferir a ela no início. Acho que valeria a pena confiar mais no riso de
Rorty, o riso de tudo, não só do realismo de Searle mas também da per-
gunta de Nietzsche e, quem sabe, de si próprio, que, no limite, não pode
conversar sobre a liberdade como gostaria, tendo de ficar conversando
sobre a verdade.
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GHIRALDELLI JÚNIOR, P. What there is of real and unreal in Realism: Searle
versus Rorty. Trans/Form/Ação (São Paulo), v.21-22, p.119-129, 1998-1999.
!ABSTRACT: The article talks about debate between Searle and Rorty on a
“irrationalism” of Rorty. The text tries to show that the Rorty’s position is out
of the field “Realism versus Anti Realism” and the “irracionalism” is not a
good adjective. Searle would be on a incorrect line in his account of the
Rorty’s theme of truth.
!KEYWORDS: Pragmatism; Rationalism; Postmodernism; Rorty; Searle; truth.
Referências bibliográficas
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84, 1992.
RORTY, R. Truth and Progress: Philosophical Papers. Cambridge: Cambridge
University Press, 1998. v.III
Trans/Form/Ação, São Paulo, 21/22: 119-129, 1998/1999
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Nacido en 1931 y muerto en 2007, Richard Rorty se formó en las universidades de Chicago y de Yale y, aunque se adhirió inicialmente a la filosofía analítica, pronto se volvió un crítico severo de ella y en general de toda la filosofía esencialista centrada en las grandes preguntas. Conocido militante del pragmatismo iniciado por John Dewey, Rorty cuestionó siempre las verdades absolutas y los significados inamovibles y, en contraposición, sostuvo que las ideas deben ser valoradas por su utilidad para facilitar una mejor convivencia social y para que los hombres sean más felices. Nacido en una familia de izquierda, nunca renunció a determinadas reivindicaciones sociales, aunque cierta crítica lo acusa de haberse sometido en demasía a la sociedad del bienestar.