BIOLOGIA E ECOLOGIA DE ESPÉCIES DE LAGARTAS DE LEPIDÓPTEROS E SUAS PLANTAS HOSPEDEIRAS NA RESTINGA DE JURUBATIBA, RJ

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Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil, 23 a 28 de Setembro de 2007, Caxambu - MG
BIOLOGIA E ECOLOGIA DE ESPÉCIES DE LAGARTAS
DE LEPIDÓPTEROS E SUAS PLANTAS HOSPEDEIRAS
NA RESTINGA DE JURUBATIBA, RJ.
Milena de Sousa Nascimento
1, 2
; Rafael Cury Sadock de Freitas & Ricardo Ferreira Monteiro
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1
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Biologia, Depto. de Ecologia, Laboratório de Ecologia de
Insetos.-
2
nascimentoms@biologia.ufrj.br
INTRODUÇÃO
No Brasil, os registros de plantas hospedeiras de
insetos fitófagos e informações de sua biologia e
comportamento têm como fonte principal estudos
pontuais ligados a alguns táxons de insetos, em
geral, relacionados a pragas agrícolas ou vetores
de doenças (por exemplo, Costa Lima 1945).
Recentemente, vários estudos têm revelado
numerosos dados sobre insetos associados a plantas
no cerrado do Brasil Central (Price et al. 1995; Diniz
et al. 2000; Pinheiro et al. 2002). Entretanto, dados
disponíveis sobre insetos associados a grupos
representativos de plantas em outros ecossistemas
brasileiros são ainda relativamente escassos.
Nessa última década surgiram novas contribuições
sobre a biologia e a ecologia de lepidópteros de
restingas da região sudeste (por exemplo, Monteiro
& Becker 2002, Flinte et al. 2006). Monteiro et al.
(2004) apresentam um levantamento pioneiro, mas
preliminar ainda, sobre as espécies de Lepidoptera
da Restinga de Jurubatiba, porém quase nada é
conhecido sobre as plantas hospedeiras desses
insetos.
Nesse trabalho procurou-se averiguar a composição
de espécies de lagartas de Lepidoptera associadas
a cinco espécies de plantas hospedeiras abundantes
no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba
(PNRJ) e descrever aspectos gerais da morfologia,
comportamento e especificidade dessas lagartas.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi realizado no Parque Nacional da
Restinga de Jurubatiba (PNRJ), localizado no litoral
norte do estado do Rio de Janeiro (Brasil), em uma
planície arenosa com vegetação distribuída em
moitas, mas com presença também de mata
periodicamente inundável. As espécies de plantas
escolhidas neste trabalho estão entre as que
apresentam grande abundância e ampla
distribuição no PNRJ (Araújo et al. 2004). São elas:
Erythroxylum ovalifolium Peyr. e Erythroxylum
subsessile (Mart.) O.E.Schulz (Erythroxylaceae),
Manilkara subsericea (Mart.) Dubard (Sapotaceae),
Protium icicariba (DC.) March. e Protium
heptaphyllum (Aubl.) March (Burseraceae). Outras
espécies desses três gêneros ocorrem no PNRJ,
porém em densidades bastante baixas (Araújo et
al. 2004).
Quinze plantas de E. ovalifolium, E. subsessile e
M. subsericea foram vistoriadas, mensalmente, no
período de Julho de 2003 a Junho de 2005. Em P.
icicariba, foram vistoriados 30 indivíduos
mensalmente, sendo 15 indivíduos na formação de
mata e 15 na formação de moitas, de Junho de
2004 a Agosto de 2005. Já P. heptaphyllum teve 15
indivíduos vistoriados mensalmente, de Novembro
de 2004 a Agosto de 2005. As plantas foram
amostradas aleatoriamente e nas vistorias anotava-
se a sua fenologia e o número de lagartas de cada
espécie de inseto fitófago, sendo alguns deles
coletados para criação, observação sobre seu
comportamento e posterior identificação dos
adultos. Observações avulsas também foram
realizadas em outras espécies de plantas presentes
na região, com o objetivo de registrar eventuais
hospedeiros das espécies de lagartas obtidas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante todo o estudo foram encontradas 32
espécies de lagartas de Lepidoptera exofíticas
associadas a essas cinco espécies de plantas
hospedeiras. Manilkara subsericea apresentou o
maior número de espécies de lagartas associadas
(14), seguida por E. ovalifolium (10), e P. icicariba
(7). E. subsessile e P. heptaphyllum apresentaram,
respectivamente, seis e duas espécies de lagartas
associadas. Dessas espécies, 56% (n=18) vivem no
interior de algum tipo de abrigo. Para a construção
desses abrigos são utilizadas, principalmente, folhas
unidas com seda. Esse tipo de proteção pode ser
importante na defesa contra inimigos naturais
(Jones et al. 2002), mas também pode ser uma
adaptação fundamental para evitar a sua dessecação
(Diniz et al. 2000). Essa alta proporção de espécies
de lagartas utilizando-se de abrigos pode estar
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Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil, 23 a 28 de Setembro de 2007, Caxambu - MG
relacionada, no caso da restinga aberta,
principalmente, à necessidade de proteção contra
dessecação, uma vez que nesse ambiente são fortes
a insolação e o vento.
Somente Zamagiria laidion, apresentou hábito
gregário e apenas três espécies, Megalopyge lanata,
Phobetron hipparchia e Trichromia onytes, eram
densamente pilosas. Esse baixo número de espécies
de lagartas com esses dois tipos de defesas, pode
ser explicado pelo fato de grande parte das espécies
de lagartas amostradas alimentarem-se e viverem
“protegidas” no interior de abrigos.
Analisando-se a especificidade geral das espécies
de Lepidoptera identificadas, levando-se em
consideração os dados do presente estudo e aqueles
encontrados na literatura, foram encontradas seis
espécies (27%) polífagas, três (14%) oligófagas e 13
(59%) monófagas. Das 13 espécies classificadas
como monófagas, apenas quatro foram abundantes
em suas plantas hospedeiras, apresentando mais
de 100 indivíduos, foram elas: Chlamydastis
fragmentella, Stenoma sp.1, Stenoma sp.2 e
Stenoma sp.4. As outras nove espécies foram
bastante raras, apresentando menos de 50
indivíduos coletados ao longo de todo o estudo.
Segundo Novotny & Basset (2000), essas espécies
estariam se alimentando ocasionalmente na planta
estudada, mas prefeririam outras plantas
hospedeiras, onde seriam mais abundantes.
Para as espécies de lagartas mais abundantes, foi
encontrado um padrão de distribuição temporal
onde os picos de abundância ocorreram logo antes
dos picos de folhas novas de suas plantas
hospedeiras.
(Apoio: CNPq; CNPq/PELD; FAPERJ; IBAMA)
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  • [Show abstract] [Hide abstract] ABSTRACT: Abstract In Brazil, a severe dry season lasting for approximately 5 months and frequent fires make life difficult for cerrado insects. In certain aspects, the cerrado can be considered to be an understudied ecosystem; even basic information such as knowledge about the annual peak in abundance of different insect orders is unknown. Insect abundance patterns have only been investigated for a few groups in the cerrado region. Thus, our study concerns the temporal distribution of insect abundance in the savanna-like vegetation of the central Brazilian cerrado (sensu stricto) in Distrito Federal. The region has a well-defined, long dry season between May and September. The insects were sampled by window, malaise tent and pitfall traps within 1 year. We used a multiple linear regression to analyse the relationship between abundance of insects of each order and climate variables. A total of 50 127 individuals from 15 orders was collected. The orders were Coleoptera (26%), Hymenoptera (23%), Diptera (20.5%), Isoptera (20%), Homoptera (4%), Lepidoptera (4%), Orthoptera (1.5%) and Hemiptera (1%). The abundance of Diptera, Homoptera, Lepidoptera and Orthoptera was randomly distributed over time, Isoptera peaked in the first half of the wet season, Coleoptera and Hemiptera in the second half of the wet season and Hymenoptera in each season. A significant correlation was found only between Coleoptera and delayed climatic variables. There were no obvious trends that might help explain the abundance patterns observed. The study provides baseline information about phenological patterns of insect abundance and permits evaluation of this group as a resource for various food chains and different trophic levels.
    Full-text · Article · Jun 2008
  • [Show abstract] [Hide abstract] ABSTRACT: Seem to favour the idea that rare species are common elsewhere e.g. on a different plant species.
    Full-text · Article · Jun 2000
  • [Show abstract] [Hide abstract] ABSTRACT: Abstract 1. All larval instars of Epargyreus clarus, the silver-spotted skipper, construct and inhabit leaf shelters that are presumed to protect them from predator attack. 2. Shelters effectively protected the larvae against foraging Crematogaster opuntiae ants and naive Polistes spp. wasps in laboratory tests, but did not protect them from predators, largely vespid wasps, present in the field. 3. A range of factors, including type of predator, learning ability, and experience level, may determine the effectiveness of leaf shelters as protection from predators.
    Full-text · Article · Dec 2002
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