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HALAY, Benjamin. Michel Petrucciani. Paris, Éditions Didier Carpentier, 2011 (resenha)

Authors:

Abstract

Petrucciani foi convidado, em 1997, a tocar Rapsody in Blue, de Gershwin, acom-panhado pela orquestra do La Scala de Milão, sob a regência de Ricardo Muti, em Bolonha, para o Papa João Paulo II; diante de uma plateia de 400 mil pessoas, num evento transmi-tido pela Mondiovision, para 8 milhões de telespectadores, ao lado de artistas como Lucio Dalla, Andrea Bocelli e Bob Dylan, entre outros. Halay reproduz na página 131 o diálogo entre Petrucciani e Muti: – Bom dia, maestro, – Bom dia, maestro, – Porque fui escolhido para interpretar uma obra que tantos tocam melhor que eu, como as irmãs Labèque, por exemplo? – Eu escolhi o senhor por dois motivos: primeiro, quando anunciei seu nome à mi-nha orquestra, todos os músicos se colocaram de pé e aplaudiram durante dez minutos, e segundo, porque Mozart já morreu.
CÂMARA, M. HALAY, Benjamin. Michel Petrucciani. Paris, Éditions Didier Carpentier, 2011.
Revista Música Hodie, Goiânia, V.12 - n.1, 2012, p. 246-248.
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Revista Música Hodie, Goiânia - V.12, 273p., n.1, 2012
Ficha Técnica:
HALAY, Benjamin. Michel Petrucciani.
Paris, Éditions Didier Carpentier, 2011.
Preço: € 19,90.
ISBN: 978-2-84167-713-9
Petrucciani foi convidado, em 1997, a tocar Rapsody in Blue, de Gershwin, acom-
panhado pela orquestra do La Scala de Milão, sob a regência de Ricardo Muti, em Bolonha,
para o Papa João Paulo II; diante de uma plateia de 400 mil pessoas, num evento transmi-
tido pela Mondiovision, para 8 milhões de telespectadores, ao lado de artistas como Lucio
Dalla, Andrea Bocelli e Bob Dylan, entre outros. Halay reproduz na página 131 o diálogo
entre Petrucciani e Muti:
– Bom dia, maestro,
– Bom dia, maestro,
– Porque fui escolhido para interpretar uma obra que tantos tocam melhor que eu,
como as irmãs Labèque, por exemplo?
– Eu escolhi o senhor por dois motivos: primeiro, quando anunciei seu nome à mi-
nha orquestra, todos os músicos se colocaram de pé e aplaudiram durante dez minutos, e
segundo, porque Mozart já morreu...
Benjamin Halay é autor de uma dissertação de mestrado na Universidade François
Rabelais, em Tours, França, defendida em 1997, orientado por Vincent Cotro, entitulada Les
compositions en trio de Michel Petrucciani. Étude du rapport écriture/improvisation1. O li-
HALAY, Benjamin. Michel Petrucciani. Paris, Éditions Didier
Carpentier, 2011
Marcos Câmara (Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP)
mcamara@usp.br
CÂMARA, M. HALAY, Benjamin. Michel Petrucciani. Paris, Éditions Didier Carpentier, 2011.
Revista Música Hodie, Goiânia, V.12 - n.1, 2012, p. 246-248.
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vro traz iconografia, discografia, filmografia, videografia, lista de partituras, sitiografia,
catálogo de obras, índices de composições e músicos, álbuns, além de listas de prêmios e
distinções.
Na introdução, o autor relaciona os comentários da imprensa sobre sua osteogêne-
se imperfeita, causa de sua baixa estatura e de sua fragilidade óssea que o levaria à mor-
te precoce aos 37 anos de idade. O presidente francês Sarkozy, em 2007, lembrou que “De
Beethoven, que se tornou surdo aos 30 anos a Toulouse-Lautrec, a deficiência física se trans-
forma em gênio. De Michel Petrucciani a Ray Charles, todos dois grandes músicos de jazz,
a deficiência física nos mostra o caminho da liberdade” (17).
“Finalmente, começaram a se interessar cada vez mais por minha música e pelo
pianista e menos pelo meu estado físico” (53). Inserindo-se na tradição de um fraseado líri-
co no sentido do standard, sem afinidades com o free-jazz, embora admirasse o trabalho de
um Cecil Taylor (64), Petrucciani não gostava de gravar em estúdio e sua obra é mais o tes-
temunho de momentos do que uma obra discográfica pensada (54-55).
Com sua técnica extraordinária foi, depois de Keith Jarrett, o “pianista dos sonhos”
(78) do produtor Charles Lloyd (Lovesong). Já não se esperava um jazzista como ele, com o
jazz “saindo por todos os poros”, sem repetir ninguém um prodígio que soube inventar
uma nova figura da música no mundo saturado do jazz pós-parkeano.
Em 1982, viajou para os EUA instalando-se em Big Sur, na Califórnia. Casou-
se com Erlinda Montano e obteve seu green card: “– Big Sur é a quietude, Henry Miller,
Kerouac, o sol que me é necessário para viver, a tranquilidade. Antes de partir, eu estava
tão submerso no trabalho que não tive tempo de parar só ao piano, para mudar minha mú-
sica, refazer canções, preparar um material novo”, conta numa entrevista para Jazz Hot,
em 1983 (88). No 14 Juillet de 1986, sobe ao palco de Montreux integrando um trio legen-
dário com Jim Hall e Wayne Shorter. No período novaiorquino, encontra-se com a canto-
ra brasileira Joyce e seu marido, o percussionista Tutti Moreno, e tocam juntos a canção
Estate (94).
Em 1987, no Carnegie Hall, sobe ao palco ao lado de Bobby McFerrin e Stanley
Jordan. Na década de oitenta, a cantora brasileira nia Maria, casada com o produtor
Éric Kressmann, era uma das referências maiores da cena brasileira, apresentando-se em
Montreux, Tóquio e Europa, e ganhava o Grammy de melhor vocalista de jazz. Ela foi
inspiradora das três Brazilian Suites que Petrucciani viria a registrar nos álbuns Michel
plays Petrucciani, Music e Playground (114). Depois de duas noites fazendo o show de en-
trada para Miles Davis na Polônia, Miles vem a Michel para dizer-lhe que “– Amanhã eu
é que farei a primeira parte” (116). Em 1995, realiza um sonho ao gravar com Stéphanie
Grappelli (127).
Nas páginas 128-131, Halay faz uma interessante reflexão sobre a história dos en-
cartes de discos, considerados como “objetos sociais, determinando as questões artísticas e
econômicas de um período histórico”; citando alguns nomes emblemáticos de criadores de
encartes como James Flora, David Stone, William Claxton e Andy Warhol, até o surgimento
do Compact Disc, com seus livretos “cartão-postal”.
Revelando ao público de jazz que ele era um pianista clássico e ao público clássi-
co que era um pianista de jazz, Petrucciani compõe Ah non! (Ah não!) como uma brinca-
deira-trocadilho com o método de Charles-Louis HANON (1819-1900) com o qual Michel
trabalhou por sugestão da produtora Hélène Dreyfus, para quem ele tinha a “mais bela
mão esquerda do mundo” (133-134). Dreyfus insiste sobre a qualidade sonora do toque de
Petrucciani que “vai ao fundo da nota e oferece um ataque tão direto e tão preciso que per-
mite um som que oscila levemente no tempo”.
CÂMARA, M. HALAY, Benjamin. Michel Petrucciani. Paris, Éditions Didier Carpentier, 2011.
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Com seu pai Tony – inventou para o fabricante Steinway um sistema de pedais es-
pecíficos para seu filho, que passava a representar a marca –, na guitarra, e seu irmão Louis
no contrabaixo, “nenhum ensaio é necessário, nos conhecemos de cor, e é a música que nos
move” (168). Assim Petrucciani descreve seu método:
Toco assim [...] um pouco como um pintor que pega uma tela para fazer um traço.
[...] Como se diz em inglês quando ao telefone a gente começa a rabiscar, é o doodling, é o
rabisco (gribouillage). [...] E depois, de tempos em tempos, há um acorde, uma frase, uma
nota que me diz algo. Então eu ligo meu gravador. A partir daí, se decido que vai sair uma
peça, não abandono mais a ideia até que ela saia. Pego o fio, seguro-o para ver aonde ele
me leva. Mas é sobretudo a música que me leva a algum lugar, não sou eu que levo a mú-
sica (178-179).
“É preciso estudar os standards. Você pode comparar os standards aos estudos
de Chopin. É preciso trabalhá-los, sabê-los de cor” (180), como o repertório cssico, para
a aquisição da técnica e do senso de melodia (191). “Tudo que tenho são dez manuscritos.
O resto perdi, dei, às vezes joguei. No entanto, se você transcrever alguma, me uma
cópia, isso me interessa” (190).
Convencido de que não se deve ter medo de errar, mas sim de tornar-se desinteres-
sante, é comum ouvirmos em suas gravações momentos em que uma nota falsa aparece e
ele começa a brincar com ela, criando novos temas e aproveitando o “erro” de maneira pro-
dutiva, sem perder o interesse. Compõe Regina para “a maior cantora brasileira”, Elis, que
ele ouvia muito com Tânia Maria. “Adoro a música brasileira”, dizia.
Benjamin Halay é musicólogo, pianista, diretor de escola de música, programador
e organizador de eventos, criador do festival “Val de Jazz”. Foi o primeiro a realizar um tra-
balho acadêmico sobre Petrucciani e trabalhou com ele durante seus últimos cinco anos
de vida. Este ano de 2012 marca o cinquentenário de nascimento de Michel Petrucciani
(Orange, 1962 – New York, 1999).
Nota
1 As composições em trio de Michel Petrucciani. Estudo da relação escrita/improvisação.
Marcos Câmara - É professor do Departamento de Música da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de
Ribeirão Preto e do programa de pós-graduação da ECA/USP. É também professor corresponsável da disciplina
FLS 5235 - Antropologia e música: leituras e escutas, junto com Rose Satiko Gitirana Hikiji (PPGAS-USP) e Pedro
Paulo Salles (Departamento de Música da ECA/USP) do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/SP.
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