ArticlePDF Available

Abstract

ABSTRACT : Why from the gift to reciprocity? Because, precisely, along the Essay on the gift, Marcel Mauss describes relations and reciprocity provisions. In order to explain the human origins of exchanging, the author uncovers fundamental principles of the organization and economic and social logics in societies of reciprocity. Both the gift and the counter-gift belong to a social and economical dialectics polarized by prestige and honor. Such polarity, alone, not only forbids the simplification of the system gift/counter-gift to an exchange, but also the explanation of the principle of the gift redoubling on the interest of the first donor. Recognition renders prestige and political authority. However, in order to give, it is necessary to produce: such production is subordinated to the donation, which generates an economy with principles anatropous to those of the exchange-based occidental economy. Keywords: Gift; Exchange; Reciprocity; Marcel Mauss.
Introdução
Depois dos inúmeros e qualificados escritos
e comentários produzidos a propósito do Ensaio
sobre a dádiva, e da produção cada vez mais im-
portante das ciências sociais brasileiras sobre o
tema,1 o que agregar sem ser repetitivo ou preten-
sioso? Neste texto abordarei apenas a questão da
relação entre as noções de dádiva, troca2 e recipro-
cidade3 no Ensaio de Marcel Mauss, apoiando-me
em algumas publicações recentes e sem pretender
ser exaustivo. Desenvolverei uma reflexão em tor-
no de um duplo paradoxo do Ensaio sobre a dádi-
va (que passou a fazer parte do livro Sociologia e
antropologia, 1950).
De um lado, Mauss evidencia que a dádiva é o
oposto da troca mercantil e, paradoxalmente, pro-
cura nela a origem da troca (ou do intercâmbio).
De outro lado, mostra a essência da reciprocidade
com o caráter universal da tríplice obrigação de
“dar, receber e retribuir”, mas não chega a teorizar
sobre tal reciprocidade4, trabalho que deixou para
seus seguidores, em particular Lévi-Strauss (1967
[1947], 1997 [1950]) e, mais recentemente, Temple
e Chabal (1995), Temple (1998, 2003), Godbout
(2000, 2007), entre outros.
Mas não consenso entre os seguidores e
estudiosos do Ensaio sobre a dádiva. Sigaud (1999)
mostra, assim, uma descontinuidade da herança
de Mauss e, sobretudo, as diversas interpretações,
às vezes contraditórias, que foram feitas do Ensaio.
A autora analisa como Lévi-Strauss (1997 [1950])
utilizou partes do Ensaio... para justificar sua teo-
MARCEL MAUSS: DA DÁDIVA À QUESTÃO
DA RECIPROCIDADE*
Eric Sabourin
RBCS Vol. 23 nº. 66 fevereiro/2008
Artigo recebido em janeiro/2007
Aprovado em dezembro/2007
* Uma versão preliminar desse texto foi apresentada na
Sessão Especial “Marcel Mauss e as Ciências Sociais”
do XXX Encontro Anual da Anpocs, Caxambu – MG.
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 23 Nº. 66
132
ria da troca generalizada e da troca simbólica.
Devemos a Temple e Chabal (1995 e 2003) uma
explicação renovada das contribuições respectivas
de Mauss e de Lévi-Strauss para a teoria da reci-
procidade.
Esse duplo paradoxo no Ensaio... leva, por-
tanto, às duas partes da minha reflexão. A primei-
ra trata da dádiva como algo contrário à troca e
não como sua origem. A segunda aborda alguns
elementos de leitura empírica do princípio de reci-
procidade no Ensaio... Proponho um breve esboço
de síntese desses ensinamentos e das perspectivas
que se abrem na terceira parte deste texto.
A dádiva como contrário da troca
Para Mauss, as prestações primitivas revestem
a forma de dádivas, de presentes, reguladas por
três obrigações interligadas: dar, receber, retribuir
(Mauss, 2003, pp. 200 e 243). Dar é uma obriga-
ção, sob a pena de provocar uma guerra (Idem, p
201). Cada uma dessas obrigações cria um laço de
energia espiritual entre os atores da dádiva. A re-
tribuição da dádiva seria explicada pela existência
dessa força, dentro da coisa dada: um vínculo de
almas, associado de maneira inalienável ao nome
do doador, ou seja, ao seu prestígio. A essa força
ou ser espiritual ou à sua expressão simbólica liga-
da a uma ação ou transação, Mauss dará o nome
polinésio de mana.
Em primeiro lugar, Mauss mal resolve qualifi-
car de “troca” as relações que está analisando. De
um lado, ele encontra nas sociedades indígenas
formas de troca que não correspondem “a nossa”,
no sistema ocidental.
Descreveremos os fenômenos de troca e de con-
trato nessas sociedades que são, não privadas de
mercados econômicos como se afirmou – pois
o mercado é um fenômeno humano que, a nosso
ver, não é alheio a nenhuma sociedade conheci-
da –, mas cujo regime de troca é diferente do
nosso (Idem, p.188).
De outro lado, algumas dessas prestações
representam, precisamente, o contrário da troca,
inclusive para as prestações de coisas úteis: “Esses
fatos respondem também a uma série de questões
relativas às formas e às razões do que erronea-
mente é chamado de troca, ‘o escambo’, a ‘permu-
tatio’ das coisas úteis” (Idem, p. 302).
Mauss identifica nas prestações totais das so-
ciedades antigas ou primitivas uma forma de re-
lação que ele chama de “dádiva-troca” e que se
diferencia da troca mercantil, na medida em que
associa uma moral, um valor ético, à transação
econômica. Ele usa, precisamente, a expressão de
“moral da dádiva-troca:
O sistema que propomos chamar o sistema de
prestações totais, de clã a clã – aquele no qual in-
divíduos e grupos trocam tudo entre si – constitui
o mais antigo sistema de economia e de direito
que podemos constatar e conceber. Ele forma o
fundo sobre o qual se destacou a moral da dádi-
va-troca (Idem, p. 299).
Mauss diferencia essas dádivas de presentes,
bens e símbolos da troca utilitarista. Para o au-
tor, não são os indivíduos e sim as coletividades
que mantêm obrigações de prestações recíprocas,
mediante os grupos familiares, comunitários ou
mediante seus chefes no caso do potlach: “Em pri-
meiro lugar, não são indivíduos, são coletividades
que se obrigam mutuamente, trocam e contratam
[...]” (Idem, p. 190). Nessas prestações existem
“misturas entre almas e coisas”, entre riquezas ma-
teriais e espirituais, ao passo que nas sociedades
modernas, direitos reais e direitos pessoais, mate-
rial e espiritual, são muito bem separados. Assim
ele descreve as oferendas mútuas:
Ademais, o que eles trocam não são exclusiva-
mente bens, riquezas, bens moveis e imóveis,
coisas úteis economicamente. São, antes de tudo,
amabilidades, banquetes, ritos, serviços militares,
mulheres, crianças, danças, festas [...].(Idem, ibi-
dem).
Trata-se, no fundo, de misturas. Misturam-se as
almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas
(Idem, p. 212).
Com efeito, se material e espiritual se mis-
turam, pode-se conceber que a coisa dada leva
algo do ser do doador. Dessa forma Mauss faz
uma distinção, em particular em sua análise do
potlach e da dádiva agonística, entre a troca mer-
cantil, motivada pelo interesse, e o sistema de dá-
133
MARCEL MAUSS: DA DÁDIVA À QUESTÃO DA RECIPROCIDADE
diva, no qual reina a nobreza e a honra e no qual
o doador ganha prestígio. Para Temple e Chabal
(1995, p. 19), se o autor interpreta a dádiva como
um intercâmbio arcaico, não é no sentido utilita-
rista, em que o doador deveria recuperar seu bem,
mas porque o donatário quer resguardar seu mana,
seu prestígio, isto é, sua integridade espiritual:
Se coisas são dadas e retribuídas, é porque se
dão e se retribuem “respeitos” podemos dizer
igualmente, “cortesias”. Mas é também porque as
pessoas se dão ao dar, e, se as pessoas se dão, é
porque se “devem” – elas e seus bens – aos outros
(Mauss, 2003, p. 263).
Vale lembrar que Mauss foi criticado por ter
dado demasiada importância ao mana, Mas Tem-
ple e Chabal (1995) consideram, ao contrário, que
Mauss percebera justamente que a matriz do laço
entre as almas, do mana, se encontrava na obri-
gação de retribuir, na obrigação de reciprocidade.
Contudo, de fato, a pesquisa de Mauss limitou-se
apenas à reciprocidade das dádivas (isto é, a reci-
procidade positiva, segundo a proposta de Temple
e Chabal) e, por isso, não conduziu a uma teoria
da reciprocidade. O mana expressaria o sentido
dado ao homem ou criado pelo homem quando
entra numa relação recíproca:
O mana é o valor da reciprocidade, um Terceiro
entre os homens, que não está ainda aqui, mas
para nascer, um fruto, um filho, o Verbo que cir-
cula (a Palavra), que a cada um seu nome de
ser humano, e a sua razão ao universo (Idem, p.
15, tradução do autor).
Portanto, a análise de Mauss deve ser reto-
mada e aprofundada numa direção diversa que
aquela escolhida pelos teóricos da troca, a qual
examinarei na segunda parte deste artigo.
Em síntese, pode-se concluir que as observa-
ções descritas no Ensaio... mostram que a dádiva
equivale, para Mauss, a um crescimento da consciên-
cia de ser, a um incremento de autoridade e de
fama para o doador. Dar não é mais oferecer algo
de si, mas adquirir esse “si”. O prestígio nasce da
dádiva e relaciona-se àquele que toma a iniciativa:
ao doador, para constituir seu próprio nome, sua
fama, o valor de “renome” (Mauss, 2003, p. 258).
Para Temple e Chabal, nesse sentido,
[...] a materialidade e a espiritualidade não estão
mais ligadas a um estatuto comum de objeto, são
opostas mediante dois estatutos, conjugados por
uma relação de contradição: o espiritual aparece
adquirido pelo doador, enquanto o material é ad-
quirido pelo donatário. O uso da noção de troca
não é mais necessário (1995, p. 26, tradução do
autor).
De fato, para Mauss, nas dádivas, não existe
nem troca, nem compra. A dádiva e a contradá-
diva, redescobertas por Mauss, pertencem a uma
dialética social e econômica polarizada pelo pres-
tígio e pela honra. Essa polaridade por si só proíbe
reduzir o sistema dádiva/contradádiva a uma troca
e reduzir o efeito de redobramento da dádiva ao
interesse do primeiro doador.
A questão da reciprocidade: o papel
do terceiro
O Ensaio sobre a diva é introduzido por
um verdadeiro programa de pesquisa em torno de
duas perguntas complementares: Por que as dádi-
vas de presentes devem ser obrigatoriamente de-
volvidas? E por que existe essa universalidade da
retribuição?
Nas palavras de Mauss: “Qual é a regra de
direito e de interesse que, nas sociedades de tipo
atrasado ou arcaico, faz que o presente recebido
seja obrigatoriamente retribuído [...]. Que força
existe na coisa dada que faz que o donatário a
retribua?(2003, p. 188). Segundo o autor, as dá-
divas voltam, são recíprocas e necessariamente
devolvidas ou retribuídas. Mas a obrigação de re-
tribuir parece desmentir a gratuidade das dádivas.
Ela seria apenas aparente, ocultando uma troca
interessada. Portanto, no início da explicação, ele
mantém a tese da troca universal, situando a “dá-
diva-troca” como um ponto de passagem entre as
prestações totais das sociedades arcaicas e os in-
tercâmbios modernos. Assim, a história mostraria
a evolução da troca a partir de prestações primiti-
vas em que a comunicação entre os homens seria
ao mesmo tempo material e simbólica troca de
bens e comunhão entre os seres – isto é, até a se-
paração entre as comunicações espirituais, afetivas
e materiais dos tempos modernos. Nas origens,
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 23 Nº. 66
134
segundo Mauss, interessa não somente as coisas,
mas os seres, o ser:
Mas, por ora, é nítido que, em direito Maori, o vín-
culo de direito, vínculo pelas coisas, é um vínculo
de almas, pois a própria coisa tem uma alma, é
alma. Donde resulta que apresentar alguma coisa
a alguém é apresentar algo de si (Idem, p. 200).
No entanto, essa coerência aparente da sua
teoria deixa o próprio Mauss insatisfeito. Ele evo-
ca várias vezes o vocabulário da troca e do inte-
resse como palavras tipicamente européias que se
aplicariam tão mal ao que pretendia dizer. Com
efeito, lembram-nos Temple e Chabal (1995, p. 15),
Mauss vai procurar uma palavra indígena para ex-
plicar que “os indígenas”5 fazem referência a um
motor das prestações econômicas diferente do in-
teresse. Motor ao qual Mauss dá um nome poliné-
sio: o mana. O autor reconhece não poder reduzir
o mana à noção de interesse econômico. Propõe,
então, compará-lo a um capital imaginário, ao
ser do doador. Mas, explicam Temple e Chabal,
como a supremacia da sociedade ocidental sugere
fortemente que a troca seja a forma mais evoluída
das prestações humanas, a solução mais fácil pa-
ra ligar troca e dádiva seria interpretar a reciproci-
dade das dádivas como uma troca arcaica. Preci-
saria, então, reduzir o mana, que segundo as re-
ferências indígenas comanda a reciprocidade, a
um valor que pudesse ser trocado. Mauss atribui o
mana ao doador, como uma propriedade espiritu-
al; assim, dando algo, dá-se algo de si mesmo. A
noção de dádiva de si leva à idéia de que a dádiva
cria uma dependência para com o outro, porque o
mana, o ser do doador, seria inalienável. Portanto,
aquele que receberia esse símbolo seria obrigado
a restituí-lo ou a ficar sob a sua dependência.
A interpretação que Mauss faz do hau Ma-
ori parece corroborar essa tese. O hau seria esse
mana, a força de ser do doador que acompanha o
bem dado e que, onde quer que esse vá, terá que
voltar. Para Temple e Chabal, a questão do prestí-
gio fica no coração de uma reflexão inacabada de
Mauss. O hau maori e o mana polinésio seriam,
segundo esses povos, a razão da circulação dos
bens. Ora, Mauss observa que para dar conta des-
sa circulação os Maoris falam de um ciclo ternário:
A a B que dá a C o qual devolve a B que
de novo a A.
Mauss acredita que os Maori querem explicar
a reciprocidade das dádivas dando uma expres-
são ao mana. Portanto, esse terceiro parceiro seria
necessário para visualizar um valor moral.6 O au-
tor é levado assim a introduzir entre os parceiros
um Terceiro de natureza ontológico, o mana ou
o hau, isto é, o nome do doador. Porém a tese de
Mauss, segundo Temple e Chabal, pode estar ape-
nas incompleta, porque ele propõe também outra
solução: o hau e o mana não constituem um va-
lor já instituído como próprio do doador, mas, ao
contrário, um valor produzido pela reciprocidade
das dádivas, pelo movimento dos bens materiais
ou simbólicos.
Nesse embate da reciprocidade, tal valor éti-
co é compartilhado pelos protagonistas como um
todo indiviso, invisível, um Terceiro incluído.7 Para
evidenciar esse “Terceiro” é possível recorrer a uma
estrutura que não seja um artifício, como imagina
Mauss, mas uma estrutura de reciprocidade bem
concreta, ternária em vez de binária: precisamente
a estrutura de reciprocidade simétrica.
Para Temple e Chabal essa interpretação tem
o mérito de esclarecer como Ranaipiri o sábio
Maori explica o funcionamento do hau para o
etnólogo Rupert E. Best: “Esse texto [..] por mo-
mentos surpreendentemente claro oferece apenas
uma obscuridade: a intervenção de uma terceira
pessoa” (Mauss, 2003, p. 198).
Um fato importante no Ensaio sobre a dádiva
é precisamente que para o essencial do que desco-
bre e que não corresponde à lógica da troca mo-
derna Mauss deixa falar os “indígenas”. Quando
introduz a expreso “manifestar respeitos recípro -
cos” (Idem, p 237) está traduzindo uma expressão
dos índios Tlingit. Para qualificar o valor espiritual
associado ao movimento das dádivas, ou para dar
conta da necessidade do Terceiro, usa o mana ou
a cara do mana. Para falar da figura desse Terceiro
que assegura o laço espiritual, ele usa a expressão
Kanak: “Nossas festas [a reciprocidade das dádi-
vas] são o movimento da agulha que serve para
ligar as partes do telhado de palha, para que haja
um único teto, uma única palavra” (Idem, p. 213).
Mauss percebeu a preeminência da obriga-
ção de retribuir (devolver), mas não tirou dessa
observação o princípio de reciprocidade. Para
Temple e Chabal (1995, p. 64), sua insistência em
declarar essa obrigação irredutível aos dois ter-
135
MARCEL MAUSS: DA DÁDIVA À QUESTÃO DA RECIPROCIDADE
mos permite, no entanto, invocar uma estrutura
mais fundamental que enlaça entre elas todo tipo
de atividades (matrimônios, assassinatos,8 dádivas
etc.), precisamente a estrutura de reciprocidade.
Nas prestações totais, tudo é simbólico, diz Mauss,
e tudo é recíproco.
Síntese e ensinamentos
Mauss chega a uma conclusão mestra: as dá-
divas vão e voltam sempre. “Pouco importa seu
valor, pouco importa sua natureza; podem ser
idênticas ou não; o importante é que recorram ca-
minhos inversos ou simétricos, que elas se repro-
duzam como num espelho; e esta reflexão é o mo-
tor oculto dos seus movimentos, inclusive quando
são aparentemente livres e gratuitas” (Temple e
Chabal, 1995, p. 73, tradução do autor).
A devolução da dádiva é explicada pela for-
ça presente na coisa dada, pelo laço espiritual ao
qual, na falta de um termo equivalente nos países
ocidentais, Mauss o nome de mana ou que
reconhece também no hau dos Maori. O prestígio
não corresponde ao ego do doador, mas ao ser ao
qual ele aspira, que não lhe preexiste e que deve
ser produzido mediante a relação de reciprocidade
(Temple e Chabal, 1995). Pois bem, a reciprocida-
de supõe uma preocupação pelo outro. Não se
pode estar inquieto do outro sem se preocupar
com suas condições de existência. Tal preocupa-
ção torna-se, portanto, hospitalidade, dádiva de
alimentos e víveres, proteção, ou seja, motivos ou
obrigações para produzir.
A partir das observações de Mauss sobre as
dádivas, Temple (2003, Tomo 1, pp. 81-93) propõe
uma regra de base da economia primitiva: se para
ser é preciso dar, para dar, é necessário produzir.
A produção de riquezas materiais é, assim, uma
conseqüência da produção de energia espiritual,
de mana. Mauss identificou a reciprocidade das
dádivas, mas não o motor de uma economia de
reciprocidade, porque no contexto em que vivia
não existia outra possibilidade de evolução econô-
mica, exceto a troca.
Diferença entre troca e reciprocidade
Como Lévi-Strauss (1997 [1950]) mostrou, a
troca é, às vezes, chamada de recíproca porque,
de fato, satisfaz o interesse de cada parceiro. Nesse
caso, em que difere da reciprocidade? Precisamen-
te porque a reciprocidade implica na preocupação
pelo outro para estabelecer o mana, para produzir
valores afetivos ou éticos como a paz, a confiança,
a amizade e a compreensão mútua.
A troca utiliza esses primeiros valores huma-
nos para se poupar da violência. Trata-se de uma
relação de interesses, mas que supõe uma reci-
procidade mínima. A razão aconselha estabelecer
a competição de interesses forjada na confiança,
na paz e na compreensão mútua produzidas pelas
relações de reciprocidade. Dessa forma é possível
entender que se possa muito facilmente confundir
a troca com uma forma de reciprocidade simétrica.
Mas, em realidade, ela inverte o movimento da re-
ciprocidade, porque em vez de se preocupar com
o outro, procura em primeiro lugar a satisfação do
próprio interesse.
Segundo Temple e Chabal, Mauss reuniu as
principais peças de uma teoria da reciprocidade:
a dádiva, a obrigação de retribuir, o prestígio e
a presença do terceiro, esse elemento que era “a
única obscuridade da teoria indígena”. Mauss con-
vence-se da idéia de que o ciclo das dádivas leva
à obrigação de retribuir. No entanto, essa obriga-
ção supõe uma estrutura fundamental de simetria
entre as dádivas ou necessita que se recorra a um
terceiro elemento, seja ele uma pessoa ou um sím-
bolo. Pois o ele é um vinculo de almas, sendo a re-
ciprocidade sua matriz, o princípio da sua gênese.
No final de sua obra, Mauss percebe a origem na-
tural da estrutura de reciprocidade nas condições
do parentesco (exogamia e filiação):
[...] a separação por sexo, por gerações, por clãs,
leva a fazer de um grupo A o associado de um
grupo B, mas esses dois grupos, A e B, quer di-
zer as linhagens, são precisamente divididas por
sexos e gerações: as oposições cruzam as coe-
sões (Mauss, 1968-1969 [1931a], p. 141, tradução
do autor).
Como escreve Laval (2006), para Mauss, a re-
ciprocidade não se limita à dádiva entre pares, ela
rege o princípio das relações entre grupos de ida-
de e estatutos. Mauss diferencia assim a recipro-
cidade direta (prestações materiais ou simbólicas
devolvidas entre dois indivíduos ou dois grupos)
da reciprocidade indireta, quando os bens sim-
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 23 Nº. 66
136
bólicos recebidos não são devolvidos a quem os
deu, mas a outro grupo que, por sua vez, terá que
devolvê-los a um outro grupo. O modelo dessa
reciprocidade indireta é precisamente aquele da
circulação dos bens entre as gerações. “É aquilo
que seu pai fez para você que você pode devolver
ao seu filho” (Mauss, 1968-1969 [1931b]).
O que é recebido em termos de educação
também deve ser devolvido (Laval, 2006). Essa es-
trutura de reciprocidade ternária, segundo Temple
(1998), é aquela que reproduz também o senti-
mento e o valor ético de “responsabilidade” entre
gerações. Aplicado aos recursos naturais, é essa
mesma responsabilidade que levou as gerações
passadas a preservar florestas, rios, lagos e mares.
No fim da vida, Mauss pressentiu a universalidade
desse princípio de reciprocidade quando discutiu
a teoria educativa de Piaget:
[Ele] faz da noção de reciprocidade um privilégio
do indivíduo saído da infância ou da sociedade
já civilizada. Mas os fijianos, australianos [...] das
grandes civilizações neolíticas possuíam a no-
ção de reciprocidade; no entanto a reciprocidade
não quer dizer sempre igualdade. Da geração 1
à geração 2, como da geração 2 à 3, recipro-
cidade, mas não igualdade; da mesma maneira
entre homem e mulher (Mauss, 1968-1969 [1931a],
p. 301, tradução do autor).
Como reconhece Laval, “podemos conside-
rar que a transmissão cultural é estruturada se-
gundo o princípio de reciprocidade indireta do
qual Mauss foi o grande descobridor” (2006, p.
109). Mas, de fato, já na conclusão do Ensaio..., o
autor explica essa moral da reciprocidade como
matriz da humanidade:
Convém que o cidadão não seja nem demasiado
bom e subjetivo demais, nem demasiado insen-
sível e realista demais. É preciso que ele tenha
um senso agudo de si mesmo, dos outros e da
realidade social (e haverá, nesses fatos de moral
uma outra realidade?). Ele deve agir levando em
conta a si, os subgrupos e a sociedade. Essa moral
é eterna; é comum às sociedades mais evoluídas,
às do futuro próximo, e às sociedades menos edu-
cadas que possamos imaginar! Tocamos a pedra
fundamental. Nem mesmo falamos mais em ter-
mos de direito, falamos de homens e de grupos
de homens, porque são eles, é a sociedade, são os
sentimentos de homens de carne, osso e espírito
que agem o tempo todo e agiram em toda parte
(Mauss, 2003, p. 299).
Isso quer dizer que o objetivo ético e político
não é apenas assegurar as condições materiais de
vida decentes para todos os seres humanos – para
elas em si –, nem de garantir por si a liber-
dade dos indivíduos psíquicos e coletivos, mas de
assegurar a maximização da sua individualização
no sentido de exprimir a sua singularidade, como
garantia do seu pertencimento diferenciado a co-
letivos ou à totalidade humana.
Considerações finais
A intuição genial de Mauss foi a sua capaci-
dade de vislumbrar a continuidade dessas catego-
rias da dádiva do intercâmbio e da reciprocidade
nas sociedades modernas:
Veremos a moral e a economia que regem essas
transações. E, como constataremos que essa mo-
ral e essa economia funcionam ainda em nossas
sociedades de forma constante e, por assim dizer,
subjacente, como acreditamos ter aqui encontra-
do uma das rochas humanas sobre as quais são
construídas as nossas sociedades, podemos dedu-
zir disso algumas conclusões morais sobre alguns
problemas colocados pela crise do nosso direito e
da nossa economia [....] (Idem, p. 188).
Mauss via, também, na antiguidade e na uni-
versalidade de uma pluralidade de formas de mer-
cados a estrutura da reciprocidade generalizada,
antecipando as propostas mais recentes da econo-
mia solidária:
Nesses fenômenos sociais “totais” [...] exprimem-
se de uma vez as mais diversas instituições:
religiosas, jurídicas e morais, políticas e familiares
[...] e econômicas – estas supondo formas especí-
ficas da produção e do consumo, ou melhor, do
fornecimento e da distribuição [...] (Idem, p. 187).
O autor já reconhecia os valores e a dialética
da dádiva, subjacente à estrutura econômica de re-
distribuição (ou de compartilhamento), das políti-
cas de seguro social hoje tão ameaçadas:
Toda a nossa legislação de previdência social [...]
137
MARCEL MAUSS: DA DÁDIVA À QUESTÃO DA RECIPROCIDADE
inspira-se no seguinte princípio: o trabalhador
deu sua vida e o seu trabalho à coletividade de
um lado, a seus patrões, de outro e, se ele deve
colaborar na obra de previdência, os que se bene-
ficiaram de seus serviços não estão quites em rela-
ção a ele com o pagamento do salário. O próprio
Estado, que representa a comunidade, devendo-
lhe, com a contribuição dos patrões, uma certa se-
guridade em vida, contra o desemprego, a doen-
ça, a velhice e a morte (Idem, p. 296).
Temple e Chabal (1995) lembram na intro-
dução do seu livro que uma objeção à tese de
Mauss também poderia residir no fato de que, se
as sociedades fundadas sobre a troca mercantil
emergiram historicamente das sociedades organi-
zadas pela reciprocidade, isto não significa neces-
sariamente que a troca provenha da dádiva. Troca
e dádiva podem ter coexistido e ter se afrontado
desde as origens, e a troca triunfou, por exemplo,
na sociedade ocidental. Precisamente, nas conclu-
sões do Ensaio..., Mauss escreve a propósito da
sociedade moderna:
Uma parte considerável de nossa moral e de nossa
própria vida permanece estacionada nessa mesma
atmosfera em que dádiva, obrigação e liberdade se
misturam. Felizmente, nem tudo ainda é classifica-
do exclusivamente em termos de compra e de ven-
da. As coisas possuem ainda um valor sentimental
além de seu valor venal, se é que há valores que
sejam apenas desse gênero (Idem, p. 294).
Uma releitura do Ensaio sobre a dádiva,
como do conjunto da obra de Mauss, ou por que
não dizer de qualquer outro autor, deve, por su-
posto, ser situada no seu tempo. Assim, considero
uma contribuição primordial de Mauss não apenas
a qualificação da dádiva como forma de relação
social e de transação econômica, mas, sobretudo,
a universalidade da tríplice obrigação “dar, receber
e retribuir” que permite hoje entender o princípio
de reciprocidade como essa “rocha”, matriz das re-
lações e das civilizações humanas.
Notas
1 Refiro-me aos trabalhos recentes de Caillé (1998),
Sigaud (1999), Lanna (2000), P. H. Martins (2001,
2002) e L. R. C. Oliveira (2004).
2 A troca, no sentido antropológico geral, é definida
como “um termo aplicado a todo movimento de
intenção recíproca entre duas partes” (Encyclo-
pedia universalis, 1984, p. 897). Na economia, a
troca corresponde a “diferentes modos de transfe-
rência de bens e de serviços realizados mediante
contrapartida ou equivalência entre uns e outros”
(Idem, p. 897).
3 Na antropologia, a reciprocidade foi muitas vezes
limitada ao sistema “dádiva/contradádiva”. De-
pois da contribuição de Mauss, ela foi associada
ao conjunto de relações “dar, receber e retribuir”,
que corresponde à reciprocidade das dádivas (ou
reciprocidade positiva). De fato, o princípio de re-
ciprocidade é mais global e contempla também
a reciprocidade negativa (a de vingança) e a re-
ciprocidade simétrica. Neste sentido mais geral,
tal conceito pode ser definido como uma relação
mútua reversível entre dois sujeitos.
4 No conjunto dos textos do Ensaio sobre a dádiva,
o termo reciprocidade aparece uma única vez, o
adjetivo recíproco, quatro vezes, e a palavra tro-
ca (intercâmbio), mais de noventa vezes. De fato,
Mauss designa por troca fatos bem diversos (des-
de a compensação material ate no sentido amplo
de comunicação: o intercâmbio tece o laço social,
está na base de todas as sociedades...), mas sem
nunca definir esse conceito.
5 Os indígenas seriam os inventores da reciprocida-
de, como reconhece Lévi-Strauss na introdução à
Sociologia e antropologia (2003).
6 Essa interpretação foi criticada por Lévi-Strauss
(1997 [1950]). Segundo ele, os Maori, não sabendo
reconhecer a troca como motor oculto da recipro-
cidade das dádivas, invocam um deus ex machi-
na, o mana.
7 O Terceiro incluído seria “o que é, por si só, con-
traditório” da filosofia de Stéphane Lupasco (1987
[1951]).
8 A reciprocidade negativa, de acordo a Temple e
Chabal (1995, pp. 81ss).
BIBLIOGRAFIA
CAILLÉ, Alain. (1998), “Nem holismo, nem indivi-
dualismo metodológicos: Marcel Mauss
e o paradigma da dádiva”. Revista Bra-
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 23 Nº. 66
138
sileira de Ciências sociais, 13 (38): 5-38,
São Paulo.
ENCYCLOPÉDIA UNIVERSALIS. (1984), Encyclopé-
dia universalis. Paris, Éditions Universa-
lis, 20 vols.
GODBOUT, T. Jacques. (2000), “Le don, la dette et
l’identité”. Paris, La Découverte.
_________. (2007), Ce qui circule entre nous: don-
ner, recevoir, rendre. Paris, Le Seuil.
LANNA, Marcos. (2000), “Nota sobre Marcel Mauss
e o Ensaio sobre a dádiva”. Revista de So-
ciologia Política, 14: 173-194, Curitiba.
LAVAL, Christian. (2006), “Les deux crises de
l’éducation”. La Revue du MAUSS, 28: 96-
115.
LÉVI-STRAUSS, Claude. (1967 [1947]), Les structu-
res élémentaires de la parenté. La Haye,
Mouton.
_________. (1997 [1950]), “Introduction à l’œuvre
de Marcel Mauss”, in M. Mauss, Sociolo-
gie et anthropologie, 7 ed., Paris, PUF.
LUPASCO, Stéphane. ([1951] 1987), Le príncipe
d’antagonisme et la logique de l’énergie,
Paris, Edition Le Rocher.
MARTINS, Paulo Henrique. (2001), “A sociologia de
Marcel Mauss e sua atualidade teórica: o
paradigma da dádiva e as ciências sociais
no Brasil”. Trabalho apresentado no XXV
Encontro Anual da Anpocs, Caxambu.
_________. (org.). (2002), A dádiva entre os mo-
dernos. Petrópolis, Vozes.
MAUSS, Marcel. (1968-1969 [1931a]), Essais de so-
ciologie. Paris, Éditions de Minuit (To-
mos 1 e 2 de Oeuvres).
_________. (1968-1969 [1931b]). Œuvres. Paris,
Editions de Minuit, vol. 3.
_________. (1997 [1950]), Essai sur le don: forme
et raison de l’échange dans les sociétés
archaïques, in _________, Sociologie et
anthropologie, Paris, PUF (ed. original:
Année Sociologique, seconde série, tome
1, Paris, 1923-1924).
_________. (2003), Sociologia e antropologia. São
Paulo, Cosac e Naify.
OLIVEIRA, Luis Roberto Cardoso de. (2004), “Hon-
ra, dignidade e reciprocidade”, in P. H.
Martins e B. Nunes (eds.), A nova ordem
social: perspectivas da solidariedade con-
temporânea, São Paulo, Paralelo 15.
SIGAUD, Lygia. (1999), “As vicissitudes do Ensaio
sobre o dom”. Mana Estudos de An-
tropologia Social, 5 (2): 89-124, Rio de
Janeiro.
TEMPLE, Dominique. (1998), “Les structures élé-
mentaires de la réciprocité”. Revue du
MAUSS, 12: 234-242, Paris.
__________. (2003), Teoría de la reciprocidad.
La Paz, Padep-GTZ [Tomo I: “La reci-
procidad y el nacimiento de las valores
humanos”; Tomo II: “La economía de
reciprocidad”; Tomo III: “El frente de ci-
vilización”].
TEMPLE, Dominique & CHABAL, Mireille. (1995),
La réciprocité et la naissance des valeurs
humaines. Paris, L’Harmattan.
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 23 Nº. 66
208
MARCEL MAUSS: DA DÁDIVA À
QUESTÃO DA RECIPROCIDADE
Eric Sabourin
Palavras chave: Dádiva; Troca; Re-
ciprocidade; Marcel Mauss.
Por que da dádiva à reciprocidade?
Porque, precisamente, ao longo do
Ensaio sobre a dádiva, Marcel Mauss
descr eve relações e pre stões de r e-
ciprocidade. Procurando explicar as
origens humanas da troca, o autor
descobre princípios fundamentais
da organização e da lógica econô-
mica e social das sociedades de reci-
procidade. A dádiva e a contradádi-
va pertencem a uma dialética social
e econômica polarizada pelo pres-
tígio e pela honra. Essa polaridade,
por si só, proíbe não reduzir o
sistema dádiva/contradádiva a uma
troca (intercâmbio), mas também
proíbe explicar o princípio de redo-
bramento da dádiva pelo interesse
do primeiro doador. O reconheci-
mento traduz-se em prestígio e em
autoridade política. Mas, para poder
dar, é preciso produzir: a produção
está subordinada à doação, o que
gera uma economia com princípios
inversos àqueles da economia de
troca ocidental.
MARCEL MAUSS: FROM THE GIFT
TO THE ISSUE OF RECIPROCITY
Eric Sabourin
Keywords: Gift; Exchange; Reci-
procity; Marcel Mauss.
Why from the gift to reciprocity?
Because, precisely, along the Essay
on the gift, Marcel Mauss describes
relations and reciprocity provisions.
In order to explain the human ori-
gins of exchanging, the author un-
covers fundamental principles of
the organization and economic and
social logics in societies of reciproc-
ity. Both the gift and the counter-gift
belong to a social and economical
dialectics polarized by prestige and
honor. Such polarity, alone, not only
forbids the simplification of the sys-
tem gift/counter-gift to an exchange,
but also the explanation of the prin-
ciple of the gift redoubling on the
interest of the first donor. Recogni-
tion renders prestige and political
authority. However, in order to give,
it is necessary to produce: such pro-
duction is subordinated to the dona-
tion, which generates an economy
with principles anatropous to those
of the exchange-based occidental
ec onomy.
MARCEL MAUSS : DU DON À LA
QUESTION DE LA RÉCIPROCITÉ
Eric Sabourin
Mots-clés: Don; Échange; Récipro-
cité; Marcel Mauss.
Pourquoi le don de la réciprocité?
Car, spécifiquement, au long de l’Es-
sai sur le don, Marcel Mauss décrit
les liens et les prestations de réci-
procité. Cherchant à expliquer les
origines humaines de l’échange,
l’auteur découvre des principes fon-
damentaux de l’organisation et de la
logique économique et sociale des
sociétés de réciprocité. Le don et le
contre-don appartiennent à une dia-
lectique sociale et économique pola-
risée par le prestige et par l’honneur.
Cette polarité interdit, à elle seule,
non seulement de réduire le système
don/contre-don à un échange, mais
interdit aussi d’expliquer le principe
de redoublement du don à cause de
l’intérêt du premier donneur. La re-
connaissance se traduit en prestige
et en autorité politique. Mais, pour
pouvoir donner, il faut produire: la
production est subordonnée à la do-
nation, ce qui gère une économie de
principes inverses à ceux de l’écono-
mie d’échange occidentale.
... Interstício, pois a feira sendo um espaço onde as relações humanas se produzem e reproduzem, produzindo assim diversas formas de estar junto; é o espaço onde são gestadas e geradas continuamente novas formas, advindas de encontros sem fim, encontros permanentes, encontros fortuitos, encontros infinitos que ocorrem impertinentemente. E é aí, nessa forma-interstício, onde podemos encontrar formas Simmel (1999;, Sabourin (2008). ...
... Os pescadores dependem então dos familiares para executar as atividades, haja vista que é necessária uma organização de trabalho para se ter acesso aos recursos e aos territórios de pesca. As relações se dão através das noções de reciprocidade propostas por Sabourin (2008). Para referenciar sobre a necessidade de relações e organizações de trabalho acerca da pesca, se pode encontrar semelhança com o trabalho de Alonso-Población (2014), realizado na vila de pescadores de Saviño de Ningures, Espanha. ...
Article
Full-text available
Este trabalho foi desenvolvido na comunidade quilombola de Mangueiras, localizada no município de Salvaterra, na Ilha do Marajó, estado do Pará, com o objetivo de caracterizar os recursos pesqueiros de importância alimentar e as práticas utilizadas na pesca artesanal, bem como as sociabilidades que envolvem essa atividade e ainda evidenciar o domínio cultural da comunidade sobre a pesca. Foram entrevistadas/os 21 pescadoras e pescadores para a elaboração da lista livre dos peixes. Os principais instrumentos da metodologia empregada foram entrevistas abertas, entrevistas semiestruturadas, observação participante, turnês guiadas por pescadores locais e a técnica da listagem livre. Para análise da lista livre foi utilizado o índice de saliência de Smith. O programa ANTHROPAC 4.8 foi utilizado para o tratamento estatístico dos dados. Os resultados obtidos evidenciaram que os pescadores e pescadoras mantêm uma constante transmissão de conhecimentos, propiciada através do contato cotidiano com os peixes e com o rio desde a infância. O conhecimento tradicional faz parte da identidade e cultura do quilombo, território dominado por atores sociais conhecedores contumazes das espécies de peixes, distinguindo-os por seu habitat, preferências alimentares e comportamentos.
... According to Cruz Filho (2012), these organisations work under a wide variety of legal structures and represent new responses to changes brought about by economic crises, to the difficulties of the State and to the social and economic needs and aspirations of their communities. Sabourin (2008) states that economic activities are not motivated solely by individual or corporate material interest, many of them also include concern for satisfaction of others' needs or maintenance of social ties. In this sense, social capital can be defined as a set of characteristics such as trust, norms and systems, which contribute to increasing the efficiency of society and facilitate coordinated actions. ...
Article
Full-text available
Social entrepreneurship is a field widely explored from multiple perspectives and within multiple academic disciplines. In parallel, practitioners have applied social entrepreneurship principles to multiple sectors and on multiple levels. This research investigates how social capital applied to social entrepreneurship can contribute as a driver of social enterprise. A systematic literature review was conducted based on searches of major academic databases (Web of Science, Ebsco and Periódicos Capes), winnowing an initial list of 3,106 papers down to 472 articles that underwent content analysis. The results of this analysis were summarised and used to develop a theoretical proposal and research propositions relating social entrepreneurship to social capital and highlighting the social entrepreneur’s social connections with the collective actors and institutions that together constitute social entrepreneurship. The discussion presented suggests that the interface between social entrepreneurship and social capital is a latent field for research and the paper ends by presenting a model to consolidate research efforts, identifying three key themes that recur in the literature: Creation of social capital by the social entrepreneur, social capital and its relationship with the institutions, and Social capital as a former of groups. In these terms, a future agenda is presented for debating these issues.
Article
Full-text available
RESUMO O presente artigo é fruto de um estudo que teve por objetivo analisar a agrobiodiversidade dos roçados da comunidade quilombola de Providência, Salvaterra, Marajó-PA, bem como a relação da comunidade com a diversidade manejada in situ no contexto das mudanças recentes registradas no que se referem a diminuição dos roçados nas comunidades ou a transição, em alguns casos, para o monocultivos do abacaxi nas comunidades próximas. Para isso foram obtidos dados via observação participante e entrevistas não diretivas com os representantes de oito unidades familiares. Também aplicou-se lista livre e questionários semiestruturados, que versaram sobre aspectos socioeconômicos e produtivos e buscaram entender o papel de cada elemento dos roçados para a cultura local. Foram identificados o manejo de oito cultivos (mandioca, macaxeira, jerimum, maxixe, abacaxi, melancia, arroz e milho), dos quais destaca-se o de mandioca por apresentar maior índice de saliência cultural e consequentemente maior domínio cultural pelos moradores da comunidade. Trata-se de uma espécie de predominância absoluta nos roçados, destinada ao autoconsumo. Ao todo são 11 etnovariedades de mandioca: açaíznho, arité, cachorrinho, folha fina, pacajá, pacuí, paimané, tareza, tucumanzinho, vermelhinha e zolhuda. Outra espécie de grande destaque foi o abacaxi, cuja produção atende fins comerciais para complementação da renda familiar. Os demais cultivos são de caráter sazonal como é o caso do jerimum, maxixe e melancia, colhidos em até três meses após o plantio. O sistema de produção do roçado "alimenta" a comunidade para além das questões nutritivas, pois nutre as tradições locais, seja no preparo de comidas e bebidas típicas presentes nas festividades, como o cotidiano dos moradores e as tradições que se expressam nas casas de farinha e que regem seu preparo. PALAVRAS-CHAVE: Agricultura de coivara, Amazônia, Cultura, Conhecimento tradicional. SWIDDEN AGROBIODIVERSITY IN THE QUILOMBOLA COMUNITY OF PROVIDÊNCIA, SALVATERRA, MARAJÓ ISLAND, PARÁ, BRAZIL ABSTRACT The current study sought to analyze the agrobiodiversity of the swiddens in Quilombola community of Providência, Salvaterra, Marajó-PA, as well as the relationship between the community and maneged diversity in the context
Article
Full-text available
RESUMO Este artigo objetiva sistematizar práticas de pluralidade econômica tomando como base empírica propósitos de autossuficiência em ecovilas e, como referência teórica, elementos de economia solidária, plural em Polanyi e da dádiva em Mauss. Assumimos a premissa que a economia de mercado domina a sociabilização humana reduzindo a racionalidade humana ao cálculo utilitário, estabelecendo, assim, uma monocultura que se espraiada da mente à agricultura. Pontuamos práticas econômicas cujos propósitos e esquemas de trabalho, gestão e economia se orientam pela preservação e regeneração de ecossistemas que reconectam o ser humano a ele próprio e à natureza. Após 49 dias de imersão em quatro ecovilas, e posterior acompanhamento remoto de suas atividades, foram qualificadas práticas diversificadas de agricultura, centradas em ideais de autossuficiência, tempos e processos naturais e em singularidades de vida social, revelando pluralidade econômica em termos de domesticidade, reciprocidade, redistribuição, dádiva e solidariedade. Restritas relações com o mercado orientam dinâmicas de vida econômica e sustentam ideais de enfrentamento da crise social e ambiental.
Preprint
Full-text available
Text with the presentations of the 1st and 2nd Part in Sociology of Art and Culture with Cultural Spaces in Europe. Dissertation on the Curricular Units. Academic Aggregation I. Cies/Iscte -University Institute of Lisbon. 2021. The text also expands about biographical research that is one part of my work. Text in progress, here with 52 of 90 p. I consider this text peer reviewed as it re-ratakes published work with previous peer review.
Article
Resumo Este artigo objetiva demonstrar que um dos papéis históricos da Economia Social e Solidária está vinculado à preservação de sistemas de vida e organizações socioeconômicas distintas da economia de mercado, ao se constituírem como sociedades de pessoas, lastreadas em relações sociais vinculantes. Os elementos empíricos em favor dessa tese provêm de estudos em diversas regiões e continentes, enquanto seus fundamentos teóricos assentam-se nas contribuições seminais de Karl Polanyi e Marcel Mauss, as quais nos permitem entender como uma pluralidade de princípios determina a atuação de empresas e estrutura os sistemas econômicos. Argumenta-se que a Economia Social e Solidária se contrapõe à primazia do princípio de intercâmbio, base da sociedade de mercado, ao acionar o princípio da reciprocidade, com o qual institui outros processos de produção e circulação de bens. Assim, dá origem a uma multiplicidade de mercados, desfazendo as aparências de um mercado único e a crença em sua inevitabilidade.
Book
Full-text available
La metodología Grameen de microcréditos con garantía solidaria es aplicada por una gran diversidad de instituciones alrededor del mundo para “luchar contra la pobreza”. Como producto de un largo proceso de creación y difusión a escala internacional impulsado por los organismos multilaterales de financiamiento, es considerada actualmente en términos de una herramienta de “empoderamiento” y “liberación”.Habiendo sido desarrollada bajo la consigna del “fracaso del Estado” en la reducción de la pobreza, la modalidad Grameen de microcréditos se presenta a sí misma como una opción “viable” y “de mercado”. En la Argentina, fue incorporada como fundamento de una política social del Ministerio de Desarrollo Social de la Nación, aunque invirtiendo su relación fundamental: es “el Estado” el que debería paliar los “fracasos del mercado”. En este marco, el libro de Adrián Koberwein aporta al análisis de las relaciones sociales involucradas en la implementación de este tipo de microcréditos. Dichas relaciones se constituyen, según el autor, a partir de la articulación entre diferentes lógicas de producción y circulación de valor: una relativa a las microfinanzas, otra a las políticas sociales, y una tercera a las relaciones personalizadas. Dichas relaciones se constituyen, según el autor, a partir de la articulación entre diferentes lógicas de producción y circulación de valor: una relativa a las microfinanzas, otra a las políticas sociales, y una tercera a las relaciones personalizadas.
Article
Full-text available
A partir dos anos 60, antropólogos de diferentes tradições nacionais passaram a convergir no sentido de considerar que o texto de Marcel Mauss, "Ensaio sobre o Dom", contivesse uma teoria da troca, que atribui à identificação entre a coisa dada e o espírito do doador o princípio de explicação das transações. Esta interpretação contrasta com a que tiveram os contemporâneos de Mauss, os quais resgataram do trabalho suas dimensões relativas ao direito, às obrigações e às prestações totais. Partindo desta constatação, o artigo problematiza o destino do ensaio e busca torná-lo inteligível. Para tanto examina as condições sociointelectuais que contribuíram para que se produzisse a inflexão na leitura e a consolidação de uma espécie de crença coletiva em relação ao trabalho. Através deste estudo de caso, a autora identifica mecanismos que operam no processo de construção de teorias, na conformação de representações acerca de textos e na sua consagração no âmbito da antropologia.
Article
Full-text available
Este artigo analisa a obra clássica de M. Mauss, Ensaio sobre a dádiva, à luz de desenvolvimentos recentes da Antropologia. Salienta como contribuição de Mauss o entendimento da dimensão política da troca de dádivas, assim como a sugestão de sua universalidade, posteriormente demonstrada por Lévi-Strauss, constituir-se em princípio formal-abstrato, e não num fato empírico-concreto. A partir desse princípio, avalia a tese segundo a qual a dádiva é fundamento de toda sociabilidade e comunicação humanas, assim como sua presença e sua diferente institucionalização em várias sociedades analisadas por Mauss, capitalistas e não-capitalistas.
Article
Full-text available
O artigo se situa no contexto da crítica ao utilitarismo que vem sendo conduzida, desde o início dos anos 80, por um grupo de intelectuais reunidos em torno do MAUSS - Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais, cujas idéias são divulgadas pela La Revue du MAUSS, publicada pela Editora La Découverte, em Paris. Alain Caillé procura resgatar a importância de Marcel Mauss no interior da escola sociológica francesa, ressaltando a contribuição deste autor clássico na sistematização inicial do paradigma do dom, que subsiste na modernidade, como o demonstram, em várias oportunidades, os colaboradores deste movimento antiutilitarista. Para Caillé, o paradigma do dom constitui o fundamento necessário de criação de uma teoria paradoxal e pluridimensional da ação, capaz de resolver a dicotomia clássica entre holismo e individualismo. No entanto, ressalta o diretor da Revue du MAUSS, na constituição do novo paradigma, as imbricações entre o dom e o simbolismo ainda permanecem imprecisas e algo misteriosas.
Encyclopédia universalis. paris, Éditions Universalis
  • Encyclopédia Universalis
ENCYCLOPÉDIA UNIVERSALIS. (1984), Encyclopédia universalis. paris, Éditions Universalis, 20 vols.
Le don, la dette et l'identité
  • T Jacques
  • La Paris
  • Découverte
gODBOUt, t. Jacques. (2000), "Le don, la dette et l'identité". paris, La Découverte.
Le príncipe d'antagonisme et la logique de l'énergie
  • Stéphane Lupasco
LUpASCO, Stéphane. ([1951] 1987), Le príncipe d'antagonisme et la logique de l'énergie, paris, edition Le Rocher.
A sociologia de Marcel Mauss e sua atualidade teórica: o paradigma da dádiva e as ciências sociais no Brasil
  • Paulo Martins
  • Henrique
MARtinS, paulo Henrique. (2001), "A sociologia de Marcel Mauss e sua atualidade teórica: o paradigma da dádiva e as ciências sociais no Brasil". trabalho apresentado no XXV encontro Anual da Anpocs, Caxambu.
Honra , dignidade e reciprocidade
  • Luis Roberto Oliveira
  • Cardoso De
OLiVeiRA, Luis Roberto Cardoso de. (2004), " Honra, dignidade e reciprocidade ", in p. H. Martins e B. nunes (eds.), A nova ordem social: perspectivas da solidariedade contemporânea, São paulo, paralelo 15.
Les structures élémentaires de la réciprocité
  • Dominique Temple
teMpLe, Dominique. (1998), "Les structures élémentaires de la réciprocité". Revue du MAUSS, 12: 234-242, paris.