Mana

Published by Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Ao retornar aos Lele do Kasai (Congo), em 1987, vinte e cinco anos após sua pesquisa de campo, a autora é informada sobre fatos que tinham ocorrido no final dos anos 70 e início dos anos 80. Um grande surto antifeitiçaria tomara conta do país lele, sendo liderado por missionários católicos, nativos e não-nativos. O artigo relata as brutalidades cometidas nesse período contra supostos feiticeiros, inserindo esses fatos em um duplo contexto: por um lado, aquele da religião lele e de sua teoria para explicar o infortúnio; por outro, aquele advindo da pregação missionária e da conversão. Por fim, procura entender as razões para a ocorrência de um surto tão violento e analisa a incapacidade da Igreja Católica, tanto para oferecer respostas às questões que afligem os africanos, como para compreender suas doutrinas religiosas.
 
A noção de economista, longe de simples e evidente, é objeto de numerosas lutas de definição. O exemplo do campo dos economistas franceses, analisado a partir de um conjunto de entrevistas, observações de dados prosopográficos, revela certas características dessas lutas. Estas opõem detendores de formas diferenciadas de capital, que estão elas mesmas em correspondência com posições distintas no campo do poder. Nessas lutas, estão em questão ao mesmo tempo a autonomia e a estrutura desse campo científico. A fraca autonomia relativa do campo da ciência econômica se faz acompanhar de uma forte homologia entre a estrutura desse campo e aquela do campo do poder francês em seu conjunto.
 
Este artigo responde às críticas formuladas por Christian Delacampagne e Bernard Traimond em "A Polêmica Sartre/Lévi-Strauss Revisitada. Nas Raízes das Ciências Sociais de Hoje", publicado em Les Temps Modernes 596 (novembro-dezembro de 1997). Para fazê-lo, recorda inicialmente o caráter relativo da oposição entre "sociedades frias" e "sociedades quentes". Em seguida, refuta a tese de que Maurice Merleau-Ponty, sob a capa de um elogio, teria dirigido críticas veladas ao autor. Finalmente, reconhecendo o afastamento da antropologia de hoje em face das posições do autor, admite, sem se pronunciar sobre o valor desse movimento, que temas de ar sartriano ressurgem nos antropólogos contemporâneos.
 
O presente trabalho discute a abordagem de Fredrik Barth para o problema da etnicidade com base em uma análise abrangente de sua obra. Levam-se em conta algumas idéias-chave que aparecem de maneira recorrente nos escritos programáticos e teórico-metodológicos desse autor, bem como em seus estudos etnográficos. Analisa-se o poder explicativo dos fatores ecológicos e demográficos em seu modelo, a importância de sua tese da identidade relativa, a genealogia das influências teóricas encontradas nas explicações barthianas e o problema do ator racional como fio condutor de sua concepção interacionista das relações sociais.
 
No presente artigo, buscamos analisar alguns fatos ligados à derrota eleitoral sofrida pelo Partido Justicialista - no poder até então - em uma cidade da Mesopotâmia argentina, em 1995. Dirigentes e militantes do partido atribuíram a derrota para a prefeitura local a uma traição que teria sido cometida pelos membros de uma de suas facções, que teriam votado no candidato da oposição. Pretendemos examinar o significado dessa acusação e determinar as razões pelas quais a responsabilidade pela derrota foi atribuída, fundamentalmente, a dois homens. A análise do significado da acusação de traição concentrar-se-á nas formas de confiança que formam a base das relações sociais atingidas pelas rupturas qualificadas de traições. Isso nos leva à análise do conceito peronista de lealdade, que aparece como símbolo constitutivo fundamental da confiança que cimenta as relações entre os membros do partido. Nossa análise é etnográfica, ou seja, obtém seus materiais da observação participante e tem como eixo as variadas e mutáveis perspectivas dos atores - o que não significa considerá-las o elemento explicativo, mas situá-las em contextos teóricos que as tornem compreensíveis.
 
Este artigo se baseia em trabalho de campo em uma academia de boxe localizada no gueto negro de Chicago. Busca explicar como os lutadores profissionais percebem e expressam o fato de serem mercadorias vivas, e como se reconciliam praticamente com uma impiedosa exploração, de maneira a conseguir manter um senso de integridade pessoal e de finalidade moral. A experiência que o boxeador tem da exploração do seu corpo é expressa através de três idiomas aparentados, o da prostituição, o da escravidão e o da criação animal. Esses três tropos enunciam a comercialização imoral de corpos. Mas essa consciência é neutralizada pela crença na normalidade da exploração, na "capacidade de ação" do empresariamento dos corpos e na possibilidade de casos individuais excepcionais. Essa crença, inscrita nas disposições corporais do lutador, ajuda a produzir o equívoco coletivo de reconhecimento através do qual os boxeadores se tornam cúmplices de sua própria comercialização.
 
Partindo do marco institucional português ao longo do Estado Novo e das obras de Mendes Corrêa e Jorge Dias, pretende-se, neste artigo, questionar as relações entre a produção antropológica em Portugal, o império e a nação. O propósito aqui é o de imbricar uma "antropologia da nação" e uma "antropologia do império" a partir da constatação de que, no caso português, "nação" e "império" correspondem a estruturas políticas e ideológicas que, ao longo do período autoritário, se confundem e, muitas vezes, se traduzem.
 
A antropologia do Mediterrâneo mostra-se um campo fecundo para a discussão do exercício antropológico em geral, pela forma particularmente instigante em que neste campo se confundem objeto e sujeito de um discurso acadêmico. Em Anthropology Through the Looking Glass, Michael Herzfeld salienta aspectos, sobretudo políticos, embutidos em construções conceptuais mediterranistas e antropológicas como um todo. Inspirada em seu trabalho, a autora propõe distinguir alguns pressupostos que parecem orientar nossas práticas, acadêmicas e quotidianas, a partir de certos elementos recorrentes em análises centradas nos temas "mediterrânicos" por excelência da honra e da patronagem. Recorre aos trabalhos reunidos em Patrons and Clients in Mediterranean Societies e Honor and Shame, referências fundamentais da antropologia do Mediterrâneo, no intuito de reiterar riscos envolvidos nas construções simplificadoras de princípios culturais, com poder explicativo questionável, bem como de enfatizar a importância da pluralidade de elementos locais destacados e de perspectivas adotadas, fatores que podem dificultar simplificações e promover o enriquecimento das concepções que produzimos acerca dos outros e de nós mesmos.
 
Se a inflação em uma economia de mercado implica reajustes na proporção entre bens e dinheiro, a inflação em uma economia do dom deve implicar reajustes na proporção na qual são produzidas as relações. Este artigo trata das mudanças ocorridas nas terras altas da Nova Guiné, nos últimos trinta anos, e de como poder-se-ia interpretar o modo pelo qual certas relações estão se desenvolvendo. Estas relações são aquelas entre clãs, parentes e sexos. Ainda que o artigo abarque três horizontes temporais nesse período, ele é escrito deliberadamente da perspectiva de como o presente (a década de 90) apresenta-se a partir do passado (a década de 60).
 
A intenção deste texto é demonstrar, através do diálogo com vários antropólogos que pensaram a arte enquanto linguagem específica, como a perspectiva kaxinawa sobre o entrelaçamento da alteridade e da identidade no tecido da vida se expressa na sua arte. Com esse objetivo, é explorado o modo como a alternância entre figura e fundo chama a atenção para a presença simultânea da figura e de seu contrário corolário na pintura corporal e tecelagem, assim como na arte plumária dos homens, onde a relação entre simetria e assimetria recebe um tratamento diferente mas complementar ao da arte feminina.
 
Este artigo analisa a "aculturação", um conceito derivado da antropologia cultural, do ponto de vista da antropologia social. O termo "ex-Cocama" foi cunhado por antropólogos culturais para denotar a suposta perda ou recusa da identidade indígena pelos Cocama da Amazônia peruana, que pareceriam assim representar um caso clássico de "aculturação". Argumento, todavia, que este caso aparentemente clássico é melhor compreendido como mais um exemplo da sociológica indígena amazônica, pois revolve em torno dos temas da semelhança e da diferença, da afinidade potencial e dos processos onomásticos encontrados em outras sociedades indígenas da região. Essa continuidade de estrutura no seio de uma transformação radical levanta pois questões sobre a natureza da história amazônica que foram obscurecidas pelo conceito de aculturação.
 
Uma certa tradição antropológica tende a interpretar a simbólica da caça como uma maneira de exprimir a ambivalência, até mesmo a má consciência, que todos os humanos sentiriam ao matarem animais. Se essa interpretação parece legítima no quadro das sociedades modernas, marcadas desde o século XIX por uma evolução profunda das sensibilidades nesse domínio, ela não parece sê-lo para as sociedades pré-modernas, sobre as quais se pode duvidar que partilhem a mesma moral que os cidadãos euro-americanos do fim do século XX. O exemplo do tratamento da caça na Amazônia indígena mostra que a relação com o animal ali é menos determinada por uma gama de sentimentos universais que por esquemas de comportamento enraizados nos sistemas cosmológicos, ontológicos e sociológicos característicos dessa área cultural.
 
Por meio de dados etnográficos provenientes dos Matis, grupo de língua pano, este artigo tematiza a ritualização do antagonismo sexual na Amazônia. Em particular, analisa-se o pequeno repertório de sons ou gritos que homens e mulheres utilizam em certos contextos rituais, argumentando que eles formam um sistema que deve ser interpretado à luz da complementaridade sexual e da transformabilidade generalizada que caracterizam as cosmologias ameríndias. Pretende-se ademais contribuir para o debate, recentemente reavivado, entre americanistas e oceanistas, que têm no complexo das flautas, máscaras e cultos a elas associados um foco privilegiado de interesse.
 
Com base em uma aprofundada resenha crítica do recente livro de Jean-Michel Beaudet, Souffles d´Amazonie, que os autores consideram ter todos os requisitos para se tornar um clássico dos estudos musicais amazônicos, procede-se ao levantamento de algumas das questões fundamentais da etnomusicologia das terras baixas da América do Sul, com foco nas sociedades tupi-guarani. De natureza congenitamente comparativa, essas questões são colocadas a dialogar com algumas das problemáticas importantes da etnologia regional, na direção do avanço do campo como um todo.
 
Partindo da noção de predação familiarizante, este artigo visa discutir a relação entre canibalismo e comensalidade na Amazônia, tomando-os como formas diferenciadas, mas articuladas, de consumo. Começa-se por uma análise da relação entre guerra e caça em ontologias que atribuem aos animais a condição de pessoa. Discute-se o encadeamento dos ciclos de predação de humanos e animais por meio das concepções de doença e de resguardo. Argumenta-se que a comensalidade é um vetor de identificação que opera sobre um objeto, a comida, que deve ser produzido enquanto tal para que os parentes não se identifiquem ao animal consumido. Analisam-se os mecanismos de dessubjetivação da presa e argumenta-se que eles se erguem sobre a partibilidade das pessoas, a qual não deve ser reduzida a um dualismo simples e global entre corpo e alma. Sugere-se uma outra leitura para esse fato e se a aplica, por fim, à antropofagia guerreira e funerária.
 
Este artigo expõe o valor atribuído por um povo amazônico, os Piaroa, à arte da existência cotidiana. Argumenta-se que sua ênfase na criatividade das práticas diárias é próxima de uma poderosa filosofia social igualitária. São também levantadas as dificuldades de se traduzir essa filosofia, onde o eu humano é situado no meio cósmico. O objetivo da tradução seria possibilitar nosso engajamento em um diálogo com os Piaroa a respeito de nossos interesses comuns (sobre a relação do indivíduo com a coletividade, por exemplo, ou sobre a idéia de liberdade, ou a questão da relação entre costumes e formas racionais de tomada de decisão). Os Piaroa são um povo que abertamente evita a idéia de regra social, ainda que valorizem muito a sociabilidade, seus próprios costumes e a mutualidade dos laços comunitários. Ao mesmo tempo, eles demonstram, de modo ainda mais vigoroso, um "individualismo obstinado". Um grande enigma a ser discutido é o fato de que a autonomia pessoal é entendida ao mesmo tempo como uma capacidade social e cultural: o eu volitivo, a relação social e o artifício cultural formam um conjunto de valores associados. Finalmente, é discutida a centralidade das noções de razão reflexiva e confiança pessoal nessa ética igualitária específica.
 
O que é o trabalho xamânico na Amazônia de hoje? Como se pode entender, de forma mais geral, o florescimento do xamanismo e a extensão de sua clientela em situações de dominação colonial, desde pelo menos o século XVI? Que hierarquia de poderes e competências xamânicas e que formas específicas correspondem aos diferentes sistemas políticos e aos diversos nexos entre o local e o global? Por dever de ofício, cabe ao xamã o trabalho de tradução. Sugere-se que tradução deva ser entendida aqui em um sentido forte, benjaminiano, de procura de ressonâncias e reverberações entre sistemas e códigos diversos, e de totalização de pontos de vista parciais.
 
A importância dos sistemas de nominação para a compreensão das sociedades e culturas ameríndias é hoje amplamente reconhecida, mas as informações sobre esse tópico concernentes aos povos Tukano do Noroeste Amazônico permanecem esparsas e dispersas. Tomando os Barasana e seus vizinhos como referência, este artigo apresenta alguns dados básicos quanto à onomástica tukano e discute similaridades entre as patrilinhagens tukano e os grupos de perfil "matrilinear" entre os Jê e os Bororo. Em ambos os casos, nomes e ornamentos estão ligados enquanto aspectos da riqueza e do espírito dos grupos. Por meio de um exame da transmissão onomástica como um dos componentes dos rituais que envolvem o nascimento, o artigo explora também a relação entre nomes, sangue, ossos e sopro como aspectos da pessoa. Finalmente, situa a onomástica tukano em um contexto comparativo mais amplo, argumentando que sua combinação de exonímia e endonímia, assim como a ausência de transmissão intervivos, a distingue das formas mais "puras" de endonímia encontradas entre os Bororo e os Kayapó.
 
Os estudos sobre protesto e conflito no Reino Unido são dominados há décadas pelas pesquisas sobre o local de trabalho e as atividades sindicais. Nos anos 80 e 90, o declínio dos antigos setores industriais combinou-se com a crescente insegurança econômica e com a legislação governamental, causando um enfraquecimento das organizações de trabalhadores. A greve dos mineiros em 1984-1985 é vista como a última das grandes lutas dos sindicatos. Surgiram, contudo, novas formas de manifestação pública, de cunho ambiental, identificadas como legítimas formas de protesto, que acabaram por influenciar políticas governamentais, em particular no que concerne à crescente exploração de minas de carvão a céu aberto. Nas duas últimas décadas viu-se, assim, a mobilização de uma "nova classe", que veio a formar a espinha dorsal dos novos movimentos sociais e que trouxe questões específicas como a paz e o meio ambiente para o primeiro plano da vida política.
 
Este artigo pretende discutir o regime de funcionamento dos fluxos culturais entre um grande centro e um sistema periférico, tomando como exemplo os ambientes musicais da França e do Brasil na década de 20. As trajetórias de vida de dois personagens, o poeta e pintor francês Jean Cocteau e o compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, são tomadas como pontos de referência para atingir tal objetivo. A análise do material estudado permite demonstrar como os próprios atores sociais pertencentes à periferia acabam por subordinar-se ao julgamento dos atores sociais do centro, acatando suas definições a respeito dos critérios que definem a validade interna de suas produções.
 
Top-cited authors
Eduardo Viveiros de Castro
  • Federal University of Rio de Janeiro
Carlos Fausto
  • Federal University of Rio de Janeiro
João Pacheco de Oliveira
  • Museu Nacional/National Museum
José Maurício Paiva Andion Arruti
Vagner Gonçalves Silva
  • University of São Paulo